Luz para a inteligência, Calor para a vontade

domingo, 20 de abril de 2014

Não há razões para crer no Cristianismo

* Post original de 7 de agosto de 2012




"Alegações extraordinárias 
requerem evidências 
extraordinárias" 
(Carl Sagan)
 


(Texto de Rodrigo Antônio da Silva)

Eu não sou cristão. Considero Jesus como uma mera lenda, e lamento cada minuto de minha vida que tive a desgraça de perder seguindo essa lenda. Se escrevo estas linhas é para ajudar a você, caro leitor, a renunciar também a essa lenda. 

Se você é cristão, então me responda, caro leitor: por que você crê no cristianismo? quais os motivos, as razões que o levam a afirmar com toda a certeza a veracidade das afirmações sobrenaturais do cristianismo?...

Sim, porque "FÉ" é isso: ter certeza da veracidade das alegações sobrenaturais de uma religião. É algo, portanto, de natureza essencialmente intelectual. Você olha para o conjunto de uma doutrina religiosa e diz: "É verdade, tenho certeza disso" - isso é a fé. É a adesão intelectual a uma doutrina sobrenatural. No caso do cristianismo, isso significa acreditar, com certeza total, que a bíblia é "a palavra de Deus", que Jesus é Deus, que em Deus há três pessoas distintas em identidade embora iguais em natureza e substância, que Jesus voltará sobre as nuvens para julgar a humanidade, etc. (E esse "ETC." varia quase que infinitamente entre as diversas seitas do cristianismo...) 

Para você ser cristão é preciso que você acredite, com toda a certeza, em pelo menos algumas dessas alegações sobrenaturais típicas do cristianismo. Se, porém, você não acredita nas alegações sobrenaturais do cristianismo, mas vê o cristianismo apenas como uma espécie de 'movimento filantrópico', 'escola filosófica', 'cultura antiga' ou 'clube social', você simplesmente não é um cristão no sentido clássico do termo, e eu não tenho nada a me opor a você. Um cristianismo des-sobrenaturalizado - tal qual, por exemplo, aquele proposto por nosso adorável Augusto Cury em seus vários livros sobre Jesus (que protestantes e  carismáticos lêem sem entender que não há uma gota sequer de 'fé' envolvida nesses escritos) - , um cristianismo des-sobrenaturalizado repito, na realidade não é mais cristianismo. Alguns autores modernistas, tal qual o Padre Roger Lenaers, dizem que "Outro Cristianismo é Possível", mas esse, analisando-se bem, seria um cristianismo tão diferente do original que nem seria conveniente dar-lhe esse nome. 

Bem, mas supondo que você seja um cristão 'clássico' mesmo, daqueles que acham, ou melhor (pior...), têm certeza, que a bíblia é "A Palavra de Deus", que Jesus é "O Salvador", etc., diga-me, com sinceridade, POR QUE  você acredita nessas coisas? 

Se você me disser que "a  fé é um mistério, o qual dispensa indagações e raciocínios, uma graça mística", você não estará respondendo à minha pergunta, e estará me deixando com todo o direito de chamar a sua querida 'fé' de irracionalidade, de pura bobagem, de conversa fiada. Se não há evidências da veracidade da sua religião, então crer nela é um ato de ingenuidade, de sentimentalismo, de superstição, e não de inteligência. 

Eu o desafio a questionar, a indagar, as razões pelas quais você crê no que crê...

Não adianta você dizer que crê porque a bíblia diz para crer - isso seria você tentar usar como prova precisamente o que está ainda por ser provado... 

PROVAS caríssimo: tudo o que quero são provas. 

PROVE-ME  que a bíblia é "a palavra de Deus"; PROVE-ME que Jesus é Deus encarnado; PROVE-ME que as alegações sobrenaturais de sua religião são verdadeiras.

Quero PROVAS, EVIDÊNCIAS, DEMONSTRAÇÃO. 

Sem isso, meu caro, é impossível crer na sua religião sem estar sendo irracional, sem estar sendo, me desculpe, um tolo...

Aqui você talvez, para criticar minha atitude, me venha com a estória (e não história, porque se trata apenas de uma lenda), de São Tomé, a quem Jesus teria dito: "Creste, Tomé, porque viste; bem-aventurados, porém, os que não viram, e ainda assim crerem". Respondo-lhe, então, que de fato essa citação ilustra bem o espírito de cegueira irracional da sua 'fé' - sem contar que possivelmente essa frase foi escrita no Evangelho precisamente pensando-se em motivar gerações inteiras de crentes a deixarem de questionar porque crêem: uma sacada genial de espertalhões superinteressados em explorar a ingenuidade do povo...

Deixe eu lhe dizer, meu amigo, o que é a sua tão adorada bíblia: 
- o Antigo Testamento é uma invenção dos judeus, uma compilação das lendas de seu povo; nada mais que isso. 
- o Novo Testamento é uma invenção da Igreja Católica: esta, no século III, na pessoa do bispo de Roma (o Papa), resolveu escolher, dentre os vários escritos de cristãos disponíveis até então, alguns para com eles formar um livro só, e assim nasceu o Novo Testamento; pura invenção dos católicos portanto. (Se você é protestante, e detesta a Igreja Católica como é de praxe no protestantismo, então uma sugestão especial para você: jogue no lixo a sua bíblia, pelo menos o seu Novo Testamento, porque ele tem tanto valor quanto a Igreja que você detesta - afinal ela é a inventora dele...)

Como se pode entender facilmente pois, a bíblia não passa de uma obra humana, meramente humana, sem nada de 'sobrenatural' nela. Um livro como qualquer outro. Por que ver nela uma 'revelação divina'? Por que achar - digo, ter certeza - que ela é "A Palavra de Deus"? E olhe que nem vou esmiuçar aqui a questão das contradições, erros e barbaridades contidas na bíblia, que nos levam a pensar que, se houvesse realmente um Deus por trás desse livro, Ele seria um monstro, um louco ou um imbecil...

Mas, meu querido, como eu ia dizendo no começo deste artigo, assim como você, eu também fui um piedoso cristão, até o dia 25 de dezembro do ano passado (2011), quando renunciei a Jesus. E, como cristão, eu pesquisei profundamente os argumentos que pudessem existir a favor do fé cristã. Pesquisei e meditei... Mas, no fim, vi que eles não justificavam o ato de afirmar, com certeza, a veracidade das alegações sobrenaturais do cristianismo. E se os "argumentos" do cristianismo não nos permitem ter certeza da veracidade deste, então a fé cristã se torna impossível - a menos que você queira fingir que tem certeza, como, aliás, sei que muitos cristãos escolhem fazer, por comodidade ou por medo. 

Vou lhe dar agora uma lista dos doze principais argumentos utilizados pelos apologistas cristãos para defender a hipótese da veracidade das alegações sobrenaturais do cristianismo. Ajuntarei a cada um deles uma breve resposta... 

- Argumento 1: Os Milagres. Eis aí o "selo de Deus" sobre o cristianismo... 
Resposta: Inúmeros desses 'milagres' se resumem a lendas sem qualquer comprovação - a 'ressurreição' de Jesus, por exemplo. Sabemos, também, o quanto fraudes são perfeitamente possíveis. Sabemos, ainda, que fenômenos que a Ciência não explica hoje, pode vir a explicar amanhã, visto que este é o curso normal do conhecimento. Por fim, como saber que os tais 'milagres' não são obra de espíritos maus querendo enganar os homens, e, inclusive, cercando-se de todos os cuidados imagináveis para garantir a trapaça?... (Leia mais sobre isso aqui.) Os 'milagres' são, pois, um "selo" muito duvidoso, e um selo dúbio, um selo que pode perfeita e facilmente ter sido adulterado, falsificado, não pode servir como comprovação...
Alguns complementos para você conferir sobre isso:
- A origem diabólica dos milagres do cristianismo (ou seja, refutação da "prova" dos milagres a partir do ponto de vista da própria teologia: parte 1 e parte 2
Um milagre oficialmente reconhecido é mesmo 'milagre'?
O valor probatório dos milagres

- Argumento 2: O Testemunho dos Apóstolos. Eles deram a vida por afirmar que viram o que viram, e testemunhas que estão dispostas a morrer pelo que dizem, são dignas de crédito. Ademais, o que eles teriam a ganhar inventando tudo isso?... 
Resposta: Em primeiro lugar, tudo o que nos sobrou do 'testemunho dos apóstolos' foi aquilo que seus seguidores, ou melhor, os líderes destes últimos, quis que sobrasse, e sobre o que ainda vieram a pesar séculos inteiros de fanatismo e falta de espírito crítico. Ou seja, não nos sobrou nada que se possa afirmar, com certeza, que veio realmente dos apóstolos. Nada sabemos sobre eles que não tenha podido ser 'enfeitado' com lendas... Depois, reflita nestas possibilidades: e se os apóstolos tiverem sido vítimas dos enganos de maus espíritos? E se os apóstolos tiverem sido vítimas de uma alucinação coletiva no domingo da páscoa, julgando ver Jesus ressuscitado? E se sobre esta alucinação original algumas outras lendas, tais como a aparição de Jesus a Tomé ou a aparição pós-páscoa em que Jesus come com os apóstolos, tiverem sido criadas por outros cristãos posteriormente? Os evangelhos nos mostram os apóstolos mais ou menos céticos a respeito da ressurreição de Jesus, mas será que foi assim mesmo? Ou será que os apóstolos eram uns bobalhões predispostos a ver fenômenos sobrenaturais em toda parte, tal como certos pentecostais de hoje em dia? Não os conhecemos para poder atestar que eram mesmo dignos de crédito... Pode ser também que eles tenham decidido, sim, transformar Jesus, mentirosamente, em um ser especial: o que os impediria de mentir? Sabemos como a natureza humana é... A bíblia diz que outras mais de 400 pessoas também viram, juntas, Jesus ressuscitado - mas, cadê as provas desse evento?... Tudo se perde nas brumas de uma antiguidade à qual não temos acesso a não ser através de textos que podem não conter a verdade sobre os fatos... E sobre o que os apóstolos teriam a ganhar com isso tudo, pense bem: eles estariam reparando o fiasco da morte de seu mestre, e transformando uma derrota num sucesso, uma vergonha numa glória; estariam adquirindo seguidores, muitos seguidores, e o dízimo e a obediência destes...; estariam, de certa forma, se vingando dos fariseus que mataram seu mestre; estariam se tornando pessoas "especiais", veneradas por uma multidão de seguidores - e nós sabemos como a vaidade é poderosa...; estariam, por fim, deixando um nome célebre ao morrerem - e nós sabemos como, para os antigos, isso era superimportante: os heróis morriam contentes desde que isso significasse o nome deles continuar a ser lembrado mesmo por muito tempo após a sua morte... Será que não dá pelo menos pra desconfiar?... O 'testemunho dos apóstolos' constitui-se, pois, uma base demasiadamente recheada de incertezas para que possamos nos apoiar sobre ela... 

- Argumento 3: A Perfeição da Doutrina. Só de um Deus nos poderiam vir tais ensinamentos...
Resposta: A criatividade humana é mais do que suficiente para explicar a invenção da doutrina cristã... Além do que, a doutrina cristã, tal como a conhecemos hoje, não nasceu pronta: foram séculos e séculos de evolução até chegar aqui - tempo mais do que suficiente para fazer alguns aprimoramentos, não acha?... Ainda assim, porém, há falhas evidentes nessa doutrina: os absurdos da bíblia, por exemplo... E a moral cristã não tem nada de realmente 'elevado' que a Filosofia não nos pudesse dar sem ter de recorrer a nenhuma 'revelação'. Digo, de "realmente elevado", porque há várias bobagens nessa 'moral' que não passam de complexo de culpa, complexo de inferioridade, recalques sexuais, de intolerância com a opinião dos outros, etc. É preciso estar cego por uma lavagem cerebral bem feita para achar 'elevada' e 'sapientíssima' a doutrina cristã... 

- Argumento 4: A constância dos mártires. Só com a ajuda divina eles poderiam suportar o que sofreram...
Resposta: Inúmeras lendas foram criadas em torno dos antigos mártires... Não sabemos, pois, se eles foram, de fato, torturados como se conta. Nem se foram tão 'firmes na fé' como se afirma. Nem se o número deles foi tão grande como se insinua. E fanáticos sempre, em todos tempos, foram perfeitamente capazes de sofrer e dar a vida por suas crenças - os fakirs e os homens-bomba que o digam... Além do que, coloque-se uma certa dose de masoquismo em questão, ou mesmo o exibicionismo e vaidade de se saber um "mártir" que será venerado por gerações inteiras daí em diante, e fica facílimo entender a questão... 

- Argumento 5: Os Santos. A virtude dos Santos prova que Deus está com o cristianismo...
Resposta: A virtude dos Santos, quando real, só o que prova é que eles eram pessoas boas. E pessoas boas têm havido em todas as religiões e, sem sombra de dúvida, fora delas também. Mas, veja bem, muitas vezes o que os cristãos chamam de "virtude" em seus "Santos" não passa de desequilíbrio mental: as penitências, a auto-humilhação, o perfeccionismo minimalista e escrupuloso, o ficar rezando sem parar, o zelo fanático pelo proselitismo religioso (a 'virtude' principal dos missionários), a obsessão doentia com o que chamam de 'castidade', etc. Os "Santos" não passam de vítimas perfeitas da religião, que esta agora ainda tem a cara-de-pau de nos propor como "modelos", depois de ter destruído a vida deles... Absolutamente, Deus não está nessas insanidades!

- Argumento 6: A propagação e durabilidade do cristianismo. Só sendo de Deus esta obra poderia ter se propagado como se propagou e perdurar como perdura, apesar de seus inimigos. 
Resposta: O cristianismo se propagou imensamente, num primeiro momento, entre os oprimidos do Império Romano, porque lhes oferecia conforto psicológico ("Jesus te ama!") em meio àquele clima de desprezo que pesava sobre eles. Só isso já explica a propagação e durabilidade inicial do cristianismo. E depois, na medida em que este foi se tornando a religião predominante, razões de interesse (político, econômico e social) também entraram em jogo. Por fim, uma vez que o cristianismo já era a "religião de estado", nada mais fácil entender sua propagação e continuidade. Ademais, o simples fato duma "obra" se propagar imensamente e ser duradoura não quer dizer que seja verdadeira em suas alegações sobrenaturais: ou deveríamos dizer que o critério para saber a verdade é a "maioria"?... Muitas são as religiões contrárias ao cristianismo e, todavia, propagadas mundialmente e com numerosos adeptos. E o que isso prova a favor da sobrenaturalidade delas? Nada. O mesmo se diga do cristianismo. 

- Argumento 7: Os frutos do cristianismo. Uma árvore se reconhece pelos frutos...
Resposta: Todas as religiões têm produzido "frutos" bons e maus, demonstrando, assim, que são humanas, meramente humanas, pois é próprio do ser humano esse contraste de acertos e erros, qualidades e defeitos. Com o cristianismo é assim também: seus adeptos fizeram muitas coisas boas no decorrer dos tempos, tais como construir hospitais, orfanatos, instituições beneficentes, etc. Mas também fizeram muita coisa ruim: cruzadas, inquisição, guerras de religião, censura à liberdade de pensamento e de imprensa, perseguição acirrada aos judeus, submissão rebaixante da mulher, demonização da sexualidade, aterrorizamento das consciências com ameaças de 'fogo eterno', exploração financeira dos povos através dos dízimos,  justificativa da escravidão, provocamento de insanidades mentais em muitas pessoas, etc. Houve e há pessoas muito boas entre os cristãos, mas também houve e há entre eles criminosos, mentirosos, gananciosos, falsos milagreiros, etc. É uma obra humana mesmo - é só isso o que seus "frutos" nos autorizam a constatar... 

- Argumento 8: Os Sábios e Doutores. Tantos cérebros privilegiados da humanidade já compartilharam da fé cristã, que esta só pode ser verdadeira.
Resposta: Nada impede que estes Sábios tenham se equivocado neste assunto. Ou que tenham, por interesse, fingido a sua fé - afinal, os tempos não eram propícios ao ceticismo... O fato, porém, de Sábios terem crido no cristianismo por si só não basta: seria preciso ouvir os argumentos deles, as justificativas que teriam a dar para a sua fé. E os argumentos deles não passavam dessas mesmas coisas que vimos analisando aqui neste artigo, ou seja, os mesmos argumentos clássicos da apologética cristã. Sábios também podem ser enganados, principalmente se o engano já vem sendo condicionado no cérebro deles desde a sua mais tenra infância... Sábios também podem ser, ao mesmo tempo, sentimentalistas... Sábios, numa palavra, não são infalíveis. 

- Argumento 9: A utilidade social e ética do cristianismo. Precisamos afirmá-lo e mantê-lo pelo bem da sociedade. 
Resposta: Isso não prova nada a respeito da veracidade das alegações sobrenaturais do cristianismo. E vale ressaltar que tudo o que os adeptos do cristianismo fizeram de realmente bom, a mera filantropia poderia e pode fazer igualmente. Os "valores éticos" reais pregados pelo cristianismo, podem igualmente ser ensinados pela Filosofia. Que necessidade temos, pois, do cristianismo?... Se podemos nos apoiar sobre a Razão, por que continuarmos a nos apoiar sobre lendas? Já é, portanto, passada a hora de lançar fora este traste velho e inútil e imundo que se tornou o cristianismo...

- Argumento 10: A Aposta de Pascal: Ou o Cristianismo está certo ou não está. Se estiver certo, ganharei muito por tê-lo seguido. Se não estiver, não perderei nada por tê-lo seguido. Logo, na dúvida é melhor ser cristão...
Resposta: "Se papai Noel existe, e acreditamos nele, no natal ele entrará pela nossa chaminé para colocar presentes debaixo da árvore. Se papai Noel existe, e não acreditamos nele, ficamos sem presentes. Se papai Noel não existe, e acreditamos nele, nada perdemos. Se papai Noel não existe, e não acreditamos nele, nada ganhamos. Portanto, a opção mais vantajosa, em todo caso, é acreditarmos no papai Noel" (André Cancian)... Essa aposta de Pascal evidentemente não prova nada a respeito da veracidade das alegações sobrenaturais do cristianismo. E quem fosse cristão apenas por causa dela não estaria tendo 'fé', porque a fé é precisamente uma certeza, não uma mera aposta, uma loteria... E, segundo o cristianismo, morrer sem essa 'fé', essa certeza, mesmo que se tenha vivido exteriormente como cristão, é ir pro inferno tanto quanto não ser cristão de modo algum. Logo, essas aposta de Pascal é uma bobagem. Ademais, será que realmente 'não se perde nada' ao se ser cristão? Ora, só o tempo que você teria de perder com orações, cultos, sacramentos, com os deveres de religião enfim, ao longo de toda uma vida, já seria algo bem considerável... Acrescente-se a isso os riscos psicológicos que você estaria correndo: complexos de culpa e de inferioridade, escrúpulos, melancolia, paranoias, obsessões, etc. Veja quantas vidas o cristianismo tem destruído ao longo da história: esses milhares e milhares de sacerdotes, freiras, monges, etc, todos dedicando-se integral e apaixonadamente a uma lenda... E eles praticamente não tiveram escolha: eram crianças ou jovenzinhos quando fizeram uma lavagem cerebral neles, que os arruinou pelo resto da vida... Que desgraça maldita é o cristianismo! Louvado seja Deus por me haver livrado dessa maldição! 

- Argumento 11: O Argumento de Chateaubriand: A Beleza do Cristianismo. Tanta beleza só pode vir de Deus...
Resposta: A criatividade humana é mais do que suficiente para explicar eventuais traços de beleza nas lendas, ritos e costumes do cristianismo. E a arte produzida pelos artistas cristãos, tais como Michelangelo Bach, só o que prova é a genialidade pessoal desses mesmos artistas, e nada mais que isso. Aliás, não é nem necessário ter 'fé' para apreciar a beleza dessas obras de arte. Assim como também não é necessário crer na mitologia greco-romana para apreciar a beleza que envolve a ela e à cultura por ela animada. 

- Argumento 12: O Argumento dos Modernistas: A Experiência Pessoal Interior e Inefável. 'Sentimos' a revelação cristã em nosso coração, logo ela é, para nós, verdade...
Resposta: Isso é a mais pura besteira sentimentalista que existe - como, aliás, o reconheceu oficialmente a própria Igreja Católica, na pessoa de seu Papa São Pio X... Nossos sentimentos são perfeitamente explicáveis psicologicamente, nada havendo de sobrenatural neles. Eles não provam nada, absolutamente nada, portanto, a respeito das alegações sobrenaturais do cristianismo. 

Bem, mas chegando ao final deste artigo, o que quero pedir a você, caro leitor cristão, é que você reflita. Reflita seriamente sobre as razões pelas quais você crê naquilo que crê. Seriam elas de fato suficientes para você afirmar com toda a certeza a veracidade sobrenatural das alegações de sua religião?... 

Não tenha medo de enfrentar a verdade. Seja ela qual for, sempre será preferível ao erro. 

A verdade, porém, pode não coincidir com o que, num primeiro momento, nos faça 'sentirmo-nos bem'. É aí que entra em jogo a sua honestidade intelectual... O que realmente é verdadeiro pode não coincidir com o que você gostaria que fosse verdadeiro... 

Evite fazer como os apologistas católicos fazem: nunca questionam realmente a sério a sua fé, porque acham que isso seria pecado mortal de heresia... Desconfie, meu caro, destes cujo método de procura da verdade consiste no seguinte: "Já temos a resposta. O que podemos usar para prová-la?" Querido, isso pode ser qualquer coisa, menos uma busca sincera da verdade... 

Peço-lhe, encarecidamente, que, se você achar novos argumentos a favor do cristianismo, ou uma resposta  cabal para as colocações feitas por mim contra as pseudo-provas da veracidade da fé cristã, por favor, me escreva. Compartilhe comigo a sua descoberta... Estou inteiramente aberto a rever a questão quantas vezes for necessário. A dúvida é que é, ela sim, o princípio da sabedoria...

Inúmeros são as pessoas que já estariam libertas da falsidade do cristianismo se realmente parassem para questionar o porquê de sua fé. Sentem-se muito bem acomodadas na ilusão cristã, e não querem, nem de longe, pensar em rever a sua crença. E, como diz o provérbio, "o pior cego é aquele que não quer ver"... 

Advirto-o, também, para a grande dificuldade psicológica pessoal que você pode encontrar nessa questão: de fato, toda a religiosidade é estruturada de molde a fazer uma perfeita lavagem cerebral em seus adeptos. Se esse é o seu caso, vai ser mesmo difícil você conseguir ver a realidade sem os 'óculos' que essa lavagem cerebral pôs em você. Mas calma, tem jeito. E nós estamos aqui para ajudá-lo... 

Queremos a verdade, apenas a verdade, única e exclusivamente a verdade. 

Se este é o seu desejo sincero também, então venha conosco! 

Ou melhor, continue... 

Um grande abraço de seu amigo, 
Rodrigo Antônio da Silva

Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2012, RJ - Brasil

Por que não sou cristão

* Post original de 5 de abril de 2013


(Texto de Rodrigo Antônio da Silva)

Recentemente um "proeminente convertido" deixou a Igreja Católica: Magdi Allam - um muçulmano batizado pelo próprio Bento XVI em 2008. Comentando a notícia dessa "desconversão", uma pessoa escreveu o seguinte:

“Esta história confirma a suspeita de que tenho há muito tempo: as objeções teológicas são sempre objeções pessoais disfarçadas. Ao especular sobre deixar o catolicismo, Allam optou por questões secundárias, como, 'Como é que a Igreja Católica se envolve com o Islã?' e 'Será que os católicos honram o Papa Emérito o bastante?' Essas são sem dúvida perguntas importantes, mas elas não têm relevância alguma quanto ao cristianismo (ou catolicismo) ser verdadeiro. Eis algumas perguntas que ele deveria ter feito: - Jesus é Deus? - Jesus estabeleceu a Igreja Católica? - O Catolicismo é verdadeiro ou o Islã é verdadeiro? (ou nenhum dos dois é verdadeiro?)." (Fonte: Fratres in Unum)

Como também eu deixei a Igreja Católica - e não só a Igreja Católica como o cristianismo em geral, e não só o cristianismo como toda e qualquer religião - desejo responder, de minha parte, a esse comentário, expondo sucintamente por quais motivos repudiei e continuo a repudiar totalmente a fé cristã. Não posso falar por outros "desconvertidos", mas quanto a mim posso assegurar que são razões inteiramente intelectuais, e não sentimentais/pessoais, que me obrigam, em consciência, a repudiar Jesus e sua seita.

Razão 1: Não há provas válidas e suficientes da veracidade sobrenatural do cristianismo. 

Razão 2: A doutrina professada pelo cristianismo é essencialmente errônea.

Conclusão: O cristianismo é uma falsa religião. 

Comentário à razão 1:
É absurdo acreditar num afirmação extraordinária sem provas também extraordinárias. Uma prova não pode ser admitida como extraordinária - na verdade nem mesmo como ordinária - se sobre a realidade dela mesma pairarem dúvidas. Provas dúbias e contestáveis não são válidas nem suficientes o bastante para estabelecer nenhuma certeza. Ora, se "fé" é certeza, então sem certeza, sem fé. E todas as pretensas "provas" apresentadas pelos apologistas cristãos em favor da veracidade sobrenatural do cristianismo são dúbias e questionáveis - inválidas e insuficientes, portanto, para estabelecer a certeza que a "fé" requereria. Noutras palavras, tais "provas" não são logicamente convincentes. E não posso, em consciência, aderir a uma corpo doutrinário sem estar convencido, por provas certíssimas, da veracidade do mesmo.
Alguns complementos para você conferir sobre a razão 1: 
- A origem diabólica dos milagres do cristianismo (ou seja, refutação da "prova" dos milagres a partir do ponto de vista da própria teologia: parte 1 e parte 2

Comentário à razão 2: 
Há, sem dúvida, alguns pontos positivos na doutrina cristã - bem como os há em praticamente todas as outras religiões. Todavia, uma reflexão atenta - e que não feche os olhos à luz da razão - pode descobrir facilmente que um grave erro marca a própria essência do cristianismo; e esse erro se resume e se enuncia assim:

- O cristianismo ensina que Deus é bom e perfeito, mas ensina também, ao mesmo tempo, doutrinas que têm como consequência lógica Deus não ser bom e nem perfeito.

Ao defender pontos doutrinários desastrosos para o seu próprio conceito de perfeição divina, o cristianismo se auto-destrói. Se o cristianismo estiver certo, segue-se daí que seu Deus é mau, embora goste de ser bajulado como se fosse bom; mas se se quer defender que Deus é realmente bom e perfeito, então se tem, necessariamente, que reconhecer que o cristianismo está errado em muitos pontos doutrinários. Nos dois casos, não se deve ser cristão: no primeiro, porque um Deus mau seria indigno de ser servido; no segundo, porque uma religião errônea não merece ser abraçada.

Pode-se elaborar uma lista extensa de tais pontos doutrinários desastrosos para a perfeição do Deus cristãomas apresentaremos aqui apenas um, escolhido entre os demais por ser comum a todas as seitas cristãs: a doutrina de que a bíblia é a "palavra de Deus", ou seja, foi inspirada por Deus e é por Ele sobrenaturalmente validada e preservada de qualquer erro.

Ora, essa doutrina é desastrosa para o conceito de perfeição divina porque:

- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro tão pouco claro que permite muitas interpretações diferentes e inconciliáveis;  
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que se contradiz em certos pontos;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro com inúmeras páginas inúteis ou de utilidade muito remota;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que deixa muitas questões graves e fundamentais sem qualquer resposta clara;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que reflete simplesmente os preconceitos, mitos e atrasos da época e cultura em que foi escrito;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro inferior em qualidade a inúmeras outras obras meramente humanas;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que propõe leis e preceitos não justificáveis racionalmente;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que não manifesta 'perfeição' em nada;
- seria imperfeito em sabedoria um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro com defeitos tais que põem seriamente em dúvida seu caráter divino;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que ensina que Ele tortura eterna e cruelmente pessoas cujos 'crimes' foram apenas atos racionalmente insignificantes;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que O mostra mandando matar pessoas inocentes, ou pelo menos apoiando tais crimes;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que O mostra apoiando casos de genocídios, guerras, roubos, estupros, intolerância, escravagismo, injustiças, machismo, preconceitos, desumanidade com os animais, leis absurdas, execução de pessoas que não cometeram senão 'crimes' insignificantes;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que pode facilmente inspirar os homens a cometerem verdadeiros crimes;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro com passagens que inspiram repugnância pelo 'Deus' nelas apresentado;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que devesse necessariamente ser crido apesar de todos os seus defeitos;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que O mostra dificultando propositalmente a salvação humana com leis e preceitos arbitrários, inúteis e injustificáveis;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro que O mostra como um tirano castigador;
- seria imperfeito em bondade um Deus que tivesse por "palavra" sua um livro cuja doutrina faz com que Ele pareça um ser indigno de ser amado;
E etc.

Ora, a bíblia contém precisamente todos e cada um desses defeitos que acima apresentamos. Afirmar, pois, que ela é "a palavra" de um Deus, é arranjar grandes problemas para a sabedoria e bondade desse Deus... É fazer desse Deus um daqueles tiranos maus e idiotas que, todavia, gostam de ser bajulados como sendo bons e sábios...

Explorando as muitas referências à bíblia em nosso blog (referências, por sinal, que iremos multiplicar incessantemente daqui em diante), especialmente em nossa seção de Anti-religião, o leitor poderá confirmar por si mesmo que a bíblia contém todos os defeitos de que a acusamos, e mais outros ainda. Estude-se a bíblia, sem fechar seus olhos à luz da razão, e sem fazer 'malabarismos mentais' que falseiem o significado primeiro e normal dos textos, e se verá a monstruosidade do 'deus' nela apresentado. Apelar para a 'cultura' em que a bíblia foi escrita não justifica os defeitos desta, porque se a bíblia fosse mais do que um livro de origem sobrenatural, essa origem não permitiria que a 'cultura' meramente humana contaminasse e prejudicasse a qualidade doutrinária da obra.

Conclusão das duas razões: O cristianismo é uma falsa religião. Por um lado, não há razões válidas e suficientes para crer nele. Por outro, há razões para repudiá-lo, visto que suas doutrinas têm consequências desastrosas para a Perfeição Divina.

Considerando-se, ainda, que muitas pessoas são ludibriadas pela falsa doutrina do cristianismo, impõe-se como um dever, em consciência, combatê-la tanto quanto seja possível. Pelo bem comum.
E assim prometo fazê-lo.

Ao verdadeiro Deus, bom e perfeitíssimo, seja nosso reconhecimento!
Ao embusteiro Jesus: que maldito seja ele, e que malditas sejam todas as seitas pelas mentiras dele inspiradas!

Rodrigo  Antônio da Silva
(responsável pelo blog Luz e Calor)

- Rio de Janeiro, 5 de abril de 2013, RJ, Brasil -

Erros da Bíblia

* Post original de 29/09/2012


OS ERROS DA BÍBLIA



(Obs. 1: Este catálogo dos erros bíblicos - que não é de nossa autoria - certamente está longe ainda de ser completo...
Obs. 2: Buscamos, neste post, escrever o termo 'deus', em minúsculo, para expressar que se está falando do falso deus de Abraão, mas não tivemos tempo para fazer essa adaptação gráfica em todo o catálogo. O leitor entenda, pois, que, onde as citações bíblicas falam de Deus, é do falso deus de abraão que se está falando, e não do Verdadeiro Deus, Aquele que a Filosofia nos mostra. )

Decepção bíblica...

A falsa "palavra de Deus" (R. Ingersoll)

* Post original de 30/09/2012


(Artigo de Robert G. Ingersoll, escrito em 1894)





I. A origem da bíblia
II. O Velho Testamento é inspirado?
III. Os dez mandamentos
IV. Que valor tem tudo isto?
V. Javé era um deus de amor?
VI. A administração de Javé
VII. O Novo Testamento
VIII. A filosofia de Jesus
IX. Jesus é o nosso exemplo?
X. Por que deveríamos colocar Jesus no ápice ou acima da raça humana?
XI. Inspiração
XII. A verdadeira bíblia
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Alguém precisava dizer a verdade sobre a Bíblia. Os padres não ousariam, pois seriam expulsos de seus púlpitos. Os professores nas faculdades não ousariam, pois perderiam seus salários. Os políticos não ousariam, pois seriam derrotados. Os editores não ousariam, pois perderiam seus leitores. Os comerciantes não ousariam, pois perderiam seus clientes. Os homens de prestígio não ousariam, temendo perder seus admiradores. Nem mesmo os balconistas ousariam, pois poderiam ser despedidos. Então resolvi fazer isso eu mesmo.
Há milhões de pessoas que creem que a Bíblia é a palavra inspirada por Deus — milhões que pensam que este livro é um báculo e um guia, um conselheiro e um consolador; que preenche o presente com paz e o futuro com esperança — milhões que creem que é a fonte da lei, da justiça e da clemência, e que o mundo deve sua liberdade, riqueza e civilidade aos seus sábios e benignos ensinamentos — milhões que acreditam que este livro é a revelação da sabedoria e do amor de Deus ao cérebro e coração do homem — milhões que consideram este livro como uma tocha que sobrepuja a escuridão da morte e derrama seu brilho em outro mundo — um mundo sem lágrimas.
Entretanto, esquecem-se de sua ignorância e selvageria, de seu ódio à liberdade, de sua perseguição religiosa; lembram-se do céu, mas esquecem-se do calabouço da dor eterna. Esquecem-se de que aprisiona a mente e corrompe o coração. Esquecem-se de que é um inimigo da liberdade intelectual. A liberdade é minha religião. Liberdade das mãos e da mente — no pensar e no trabalhar. Liberdade é uma palavra odiada pelos reis e amaldiçoada pelos papas. É uma palavra que despedaça tronos e altares — que deixa a coroa sem súditos e as mãos estendidas da superstição sem esmolas. Liberdade é a consequência, o fruto da justiça — o perfume da clemência. Liberdade é a semente e o solo, o ar e a luz, o orvalho e a chuva do progresso, o amor e a alegria.

I

A origem da Bíblia

Algumas famílias errantes — pobres, esfarrapadas, sem educação, arte ou poder; descendentes daqueles que foram escravizados por quatro séculos; ignorantes como os habitantes da África Central — haviam acabado de escapar de seus senhores ao deserto do Sinai. Seu líder era Moisés, um homem que havia sido criado pela família do faraó e que havia aprendido a lei e a mitologia do Egito. No intuito de controlar seus seguidores, fingiu ser instruído e assistido por Javé, o Deus desses andarilhos.
Tudo que acontecia era atribuído à interferência desse Deus. Moisés disse que encontrou esse Deus face a face; disse que no topo do Monte Sinai recebeu das mãos desse Deus as tábuas de pedra nas quais, pelas próprias mãos de Deus, os Dez Mandamentos foram escritos, e que, além disso, Javé o informou sobre quais sacrifícios e cerimônias lhe eram agradáveis e quais leis deveriam governar esse povo.
Deste modo a religião judaica e o Código Mosaico foram estabelecidos.
Agora se alega que essa religião e essas leis foram reveladas e estabelecidas para toda a humanidade.
Naquele tempo esses andarilhos não possuíam comércio com outras nações, não possuíam linguagem escrita, não podiam ler nem escrever. Não possuíam meios para fazer com que outras nações tomassem conhecimento daquela 'revelação', que assim permaneceu enterrada no linguajar de umas poucas tribos ignorantes, empobrecidas e desconhecidas por mais de dois mil anos.
Muitos séculos após Moisés — o líder — ter morrido, muitos séculos após todos seus seguidores terem morrido, o Pentateuco foi escrito — uma obra de muitos escritores —, e para lhe conferir força e autoridade, afirmou-se que era de autoria de Moisés.
Hoje sabemos que o Pentateuco não foi escrito por Moisés.
Nele são mencionadas cidades que nem existiam na época em que Moisés viveu.
Nele é mencionado dinheiro que só foi cunhado séculos após sua morte.
Assim, muitas das leis não eram compatíveis com viajantes do deserto — leis sobre agricultura, sobre o sacrifício de bois, ovelhas e pombas, sobre tecelagem de roupas, sobre ornamentos de ouro e prata, sobre o cultivo da terra, sobre a colheita, sobre o debulhamento de grãos, sobre casas e templos, sobre cidades de refúgio e sobre muitos outros assuntos que não possuíam qualquer relação possível com uns poucos viajantes famintos.
Não apenas os teólogos inteligentes e honestos admitem que Moisés não foi o autor do Pentateuco; todos admitem que ninguém sabe quem foram os autores ou quem escreveu qual daqueles livros, capítulo ou linha. Sabemos que os livros não foram escritos na mesma geração; que não foram todos escritos por uma única pessoa; que estão repletos de erros e contradições. Admite-se também que Josué não escreveu o livro que leva seu nome, pois nele há referências a eventos que ocorreram muito tempo após sua morte.
Ninguém conhece ou finge conhecer o autor de Juízes; todos sabemos que foi escrito séculos após os juízes terem deixado de existir. Ninguém conhece o autor de Rute, nem do Primeiro ou do Segundo de Samuel; sabemos apenas que Samuel não escreveu os livros que têm seu nome. No 25º capítulo de I Samuel é narrada a evocação de Samuel, depois de morto, pela feiticeira de Endora.
Ninguém sabe quem foi o autor de I e II Reis ou de I e II Crônicas; tudo que sabemos é que tais livros não têm qualquer valor.
Sabemos que os Salmos não foram escritos por Davi. Neles fala-se da nova escravidão dos judeus, a qual somente ocorreu por volta de cinco séculos após Davi ter “dormido” com seus pais.
Sabemos que Salomão não escreveu os Provérbios nem os Cânticos; que Isaías não foi o autor do livro com seu nome; que ninguém conhece o autor de Jó, Eclesiastes, Éster ou qualquer outro livro do Antigo Testamento, com exceção de Esdras.
Sabemos que Deus não é citado nem aludido em qualquer aspecto no livro de Éster. Sabemos também que o livro é cruel, absurdo e impossível.
Deus não é mencionado no Cântico dos Cânticos, o melhor livro no Velho Testamento.
E sabemos que Eclesiastes foi escrito por um incrédulo.
Sabemos também que os próprios judeus não haviam decidido (ou terminado de decidir) quais livros eram inspirados — ou seja, autênticos — até o segundo século após Cristo.
Sabemos que a ideia de inspiração difundiu-se lentamente, e que a 'inspiração' era determinada por indivíduos que tinham certos fins a serem atingidos.

II

O Velho Testamento é inspirado?

Caso fosse, deveria ser um livro que nenhum outro homem — ou grupo de homens — pudesse produzir.
Deveria conter a perfeição da filosofia.
Deveria estar totalmente de acordo com cada fato da natureza.
Não deveria conter erros em astronomia, geologia ou em quaisquer outros assuntos ou ciências.
Sua moral deveria ser a mais sublime e pura.
Suas leis e suas regras para controle de conduta deveriam ser justas, sábias, perfeitas e perfeitamente adequadas aos fins visados.
Não deveria conter quaisquer coisas que tornassem o homem cruel, vingativo ou infame.
Deveria estar repleto de inteligência, de justiça, de pureza, de honestidade, de clemência e de espírito de liberdade.
Deveria opor-se à contenda, à guerra, à escravidão, à cobiça, à ignorância, à credulidade e à superstição.
Deveria desenvolver o intelecto e civilizar o coração.
Deveria satisfazer o coração e a mente dos melhores homens e dos mais sábios.
Deveria ser verdadeiro.
O Velho Testamento satisfaz esses quesitos?
Há algo no Velho Testamento — na história, na teoria, na lei, na moral, na ciência — acima e além das ideias, das crenças, dos costumes e dos preconceitos de seus autores e dos povos entre os quais viveram?
Há qualquer indício de uma iluminação de origem sobrenatural?
Os antigos hebreus acreditavam que a Terra era o centro do Universo e que o sol, a lua e as estrelas eram manchas no céu.
Com isso a Bíblia concorda.
Pensavam que a Terra era plana, com quatro cantos; que o céu, o firmamento, era sólido — o piso da morada de Javé.
A Bíblia ensina o mesmo.
Imaginavam que o sol viajava ao redor da Terra e que, parando-se o sol, o dia poderia ser prolongado.
A Bíblia concorda com isso.
Acreditavam que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos; que haviam sido criados poucos anos antes deles — os hebreus —, e que eles próprios eram seus descendentes diretos.
Isso a Bíblia ensina.
Se há algo certo, é que os autores da Bíblia estavam enganados sobre a criação, a astronomia, a geologia; sobre as causas dos fenômenos, a origem do mal e as causas da morte.
Deve-se admitir que, se um Ser infinito é o autor da Bíblia, então deveria saber todas as ciências, todos os fatos, e estar acima de quaisquer erros.
Se, entretanto, existem erros, enganos, falsas teorias, mitos ignorantes e asneiras na Bíblia, então deve ter sido escrita por seres finitos; ou seja, por homens ignorantes e equivocados.
Nada poderia ser mais óbvio que isso.
Por séculos a Igreja insistiu que a Bíblia era absolutamente veraz; que não continha quaisquer erros; que a história da criação era verdadeira; que sua astronomia e geologia estavam de acordo com os fatos; que os cientistas que discordavam do Velho Testamento eram infiéis e ateus.
Agora as coisas mudaram. Os cristãos educados admitem que os autores a Bíblia não estavam inspirados para as ciências. Agora dizem que Deus — ou Javé — não inspirou os autores desse livro com a finalidade de instruir o mundo sobre astronomia, geologia ou qualquer ciência. Agora admitem que os homens inspirados que escreveram o Velho Testamento desconheciam totalmente qualquer ciência, e que escreveram sobre a Terra, as estrelas, o sol e a lua de acordo com a ignorância da época.
Foram necessários muitos séculos para forçar os teólogos a admitirem isso. Com relutância, cheios de malícia e ódio, os padres se retirarem de campo, deixando a vitória com a ciência.
Então tomaram outra posição.
Declararam que os autores — ou os escritores — da Bíblia estavam inspirados sobre coisas espirituais e morais; que Javé queria que seus filhos soubessem de sua vontade e de seu amor infinito; que Javé, vendo seu povo corrompido, ignorante e depravado, desejou torná-lo compassivo, justo, sábio e espiritual, e que a inspiração da Bíblia reside nas ideias sobre leis, na religião que ensina e em suas ideias governamentais.
Esta é a questão agora:
A Bíblia está mais próxima da verdade em suas noções sobre justiça, piedade, moral ou religiosidade do que está em suas noções sobre ciência? A Bíblia é moral?
Ela apoia a escravidão — ela sanciona poligamia.
Será que algum demônio conseguia fazer pior?
Ela é misericordiosa?
Na guerra, ela alçava a bandeira negra; comandava a destruição e o massacre de todos — dos idosos, dos fracos, dos inválidos, das mulheres e dos bebês.
Suas leis são inspiradas?
Centenas de ofensas eram punidas com a morte. Trabalhar nos sábados ou assassinar seu pai na segunda eram crimes de mesmo peso. Na literatura mundial não há qualquer código de leis mais sangrento. A lei da vingança — da retaliação — era a lei de Javé. Olho por olho, dente por dente, membro por membro.
Isso é selvageria — não filosofia.
Ela é justa e racional?
A Bíblia contrapõe-se à tolerância religiosa — à liberdade religiosa. Todos que discordassem da maioria eram apedrejados até a morte. Investigar era um crime. Maridos eram ordenados a denunciar e ajudar no assassinato de suas esposas descrentes.
É inimiga da arte. “Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra”: esta foi a morte da arte. (cf. Êxodo 20:4)
A Palestina jamais produziu um pintor ou escultor.
A Bíblia é civilizada?
Ela apoia a mentira, o furto, o roubo, o assassinato, a venda de carne estragada a estranhos e até [em certo sentido] o sacrifício de seres humanos a Javé.
Ela é filosófica?
Ensina que os pecados das pessoas podem ser transferidos a um animal — a um bode. Faz da maternidade uma ofensa que precisa ser compensada com uma oferenda.
Dar luz a um menino era mau, dar luz a uma menina era duas vezes mau. (cf. Levítico 12)
Produzir o óleo que os sacerdotes utilizavam era uma ofensa passível de pena de morte.
O sangue de um pássaro morto em água corrente era considerado medicinal. (cf. Levítico 14)
Um Deus civilizado sujaria seu altar com o sangue de bois, ovelhas e pombas? Transformaria todos os seus sacerdotes em açougueiros? Deliciar-se-ia com o odor de carne queimando?

III

Os Dez Mandamentos

Alguns advogados cristãos — alguns juízes eminentes e estúpidos — disseram e ainda dizem que os Dez Mandamentos são o fundamento da lei.
Nada poderia ser mais absurdo. Muito antes de esses mandamentos serem dados, havia códigos legislativos na Índia e no Egito — leis contra o assassinado, o perjúrio, o furto, o adultério e a fraude. Tais leis são tão antigas quanto a sociedade humana; tão antigas quanto o amor à vida; tão antigas quanto a indústria; quanto a noção de prosperidade; quanto o amor humano.
Nos Dez Mandamentos todas as ideias boas são antigas; todas as novas são tolas. Se Javé fosse civilizado, teria dispensado o mandamento sobre guardar os sábados para o santificar, e em seu lugar diria: “Não escravizarás o teu próximo”. Teria omitido aquele sobre o juramento, e diria: “Não terás senão uma única esposa, e a mulher não terá senão um único marido”. Teria deixado de lado aquele sobre imagens esculpidas, e diria: “Não provocarás guerras de extermínio e não desembainharás tua espada senão em legítima defesa”.
Se Javé fosse civilizado, quão melhores seriam os Dez Mandamentos!!!
Tudo que chamamos de progresso — a emancipação do homem, o trabalho, a substituição da pena de morte pela prisão e da prisão pela fiança, a destruição da poligamia, o estabelecimento da liberdade de expressão, os direitos de consciência; em suma, tudo que favoreceu o desenvolvimento da civilização humana; todos os frutos da investigação, da observação, da experimentação e do livre-pensamento; tudo que o homem conquistou em benefício do próprio homem desde o fim da Idade das Trevas — tudo isso prescindiu do Velho Testamento (e da bíblia em geral).
Permitam-me ilustrar a moral, a misericórdia, a filosofia e a bondade do Velho Testamento:

A história de Acã

(cf. Josué 7)
Josué tomou a cidade de Jericó. Antes da queda da cidade ele declarou que todos os despojos deveriam ser entregues ao Senhor. Apesar dessa ordem, Acã escondeu uma capa babilônica e um pouco de prata e ouro.
Posteriormente, Josué tentou tomar a cidade de Ai. Ele fracassou e muitos de seus soldados foram mortos. Josué procurou a causa de sua derrota e descobriu que Acã havia escondido algumas coisas.
Diante disso, Acã confessou.
Então imediatamente Josué tomou Acã, seus filhos, filhas, esposa, bois e ovelhas, apedrejou-os todos até a morte, e então queimou seus corpos.
Nada indica que seus filhos e filhas haviam cometido qualquer crime. Certamente, os bois e ovelhas não deveriam ser apedrejados à morte pelo crime de seu proprietário. Essa foi a justiça, a clemência de Javé!
Após Josué ter cometido esse crime, com a ajuda de Javé, ele capturou a cidade de Ai...

A história de Eliseu

Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, dizendo: Sobe, calvo; sobe, calvo!
E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.
Esse foi a obra do bom Deus — do misericordioso Javé!

A história de Daniel

(cf. Daniel 6)
O rei Dario honrou e exaltou Daniel, e os príncipes nativos estavam enciumados. Então persuadiram o rei a assinar um decreto — válido por trinta dias — que condenaria à cova dos leões qualquer homem que pedisse algo qualquer deus ou homem, salvo o rei Dario.
Posteriormente, esses homens descobriram que Daniel, com a face voltada a Jerusalém, rezava três vezes ao dia para Javé.
Por isso, Daniel foi atirado à cova dos leões; uma pedra foi colocada sobre a boca da cova e ela foi selada com o selo real.
O rei teve uma noite inquieta. Na manhã seguinte foi à cova dos leões e chamou por Daniel. Daniel respondeu e disse ao rei que Deus havia enviado seus anjos e fechado as bocas dos leões.
Daniel foi libertado vivo e ileso, e o rei converteu-se e passou a acreditar no Deus de Daniel.
Dario, querendo então ser fiel a Javé, mandou os homens que haviam acusado Daniel, suas esposas e filhos para a cova dos leões.
“…e foram lançados na cova dos leões, eles, seus filhos e suas mulheres; e ainda não tinham chegado ao fundo da cova quando os leões se apoderaram deles, e lhes esmigalharam todos os ossos.
O que as esposas e crianças fizeram? Que ofensa cometeram contra o rei Dario — o novo fiel de Javé? Quem protegeu Daniel? Javé! Quem deixou de proteger as esposas e crianças inocentes? Javé!

A história de José

(cf. Gênesis 41)
O faraó teve um sonho, e este sonho foi interpretado por José.
De acordo essa interpretação, haveria no Egito sete anos de fartura, seguidos de sete anos de fome. José aconselhou ao faraó comprar todo o excedente dos sete anos de fartura e armazená-lo para os anos de fome.
O faraó nomeou José como seu ministro — ou agente —, e ordenou que comprasse a produção excedente de grãos dos anos de fartura.
Então veio a fome. O povo pediu ajuda ao rei, o qual disse que deveriam procurar por José e fazer o que ele ordenasse.
José vendeu trigo aos egípcios até que seu dinheiro se esgotasse — até ficar com todo ele.
Após o dinheiro ter acabado, o povo disse: “Dê-nos trigo e lhe daremos nosso gado”.
José deu-lhes trigo até que todo o gado, os cavalos e os carneiros fossem dados a ele.
Então o povo disse: “Dê-nos trigo e lhe daremos nossas terras”.
Então José deu-lhes trigo até que todas terras fossem dadas a dele.
Mas a fome continuou, e assim os pobres infelizes venderam a si mesmos, tornando-se servos do faraó.
Então José lhes deu sementes e fez um pacto com eles, segundo o qual deveriam eternamente dar um quinto de tudo que produzissem ao faraó.
Quem permitiu a José interpretar o sonho do faraó? Javé! Ele já sabia antecipadamente que José usaria aquela informação para extorquir e escravizar o povo do Egito? Sim. Quem produziu a fome? Javé!
É perfeitamente nítido que os judeus não viam Javé como o Deus do Egito — como o Deus de todo o mundo. Era o Deus deles, e tão-somente. Outras nações tinham deuses, mas Javé era o maior de todos. Ele odiava outras nações e outros deuses, detestava todas as religiões exceto aquela que o adorava.

IV

Que valor tem tudo isto?

Algum estudioso do cristianismo poderia nos explicar qual é o valor do Gênesis?
Sabemos que não é verdadeiro — que se contradiz. Há duas versões da criação, uma no primeiro e outra no segundo capítulo.
Na primeira, os pássaros e bestas foram criados antes do homem.
Na segunda, o homem é criado antes dos pássaros e bestas.
Na primeira, as aves são feitas a partir da água.
Na segunda, as aves são feitas a partir da terra.
Na primeira, Adão e Eva são criados juntos.
Na segunda, primeiramente Adão foi feito; depois as bestas e os pássaros, e então Eva foi criada a partir de uma das costelas de Adão.
Essas estórias, todavia, são muito mais antigas que o Pentateuco.
Versão persa: Deus criou o mundo em seis dias, um homem chamado Adama, uma mulher chamava Eva, e então descansou.
As estórias dos etruscos, babilônios, fenícios, caldeus e egípcios são muito parecidas.
Os persas, gregos, egípcios, chineses e hindus têm também seu Jardim do Éden e sua Árvore da Vida.
Assim, os persas, os babilônios, os núbios, o povo do sul da Índia, todos tinham sua história da sucumbência do homem e da serpente astuciosa.
Os chineses dizem que o pecado veio ao mundo através da desobediência da mulher. E mesmo os taitianos acreditam que o homem foi criado da terra, e a primeira mulher de um de seus ossos.
Todas essas estórias são igualmente autênticas e de idêntico valor ao mundo, e todos os seus autores estavam igualmente 'inspirados'.
Sabemos também que a estória do dilúvio é muito mais antiga que o livro do Gênesis; além disso, sabemos que não é verdadeira.
Sabemos que a estória do Gênesis é copiada da versão caldeia. Nela você também encontra tudo sobre a chuva, a arca, os animais, a pomba que foi enviada três vezes e a montanha na qual a arca repousa.
Ou seja, hindus, chineses, persas, gregos, mexicanos e escandinavos têm essencialmente a mesma estória.
Também sabemos que o relato sobre a Torre de Babel é uma fábula ignorante e infantil.
Então o que resta neste 'inspirado' livro do Gênesis? Contém alguma palavra que visa o desenvolvimento do coração ou da mente? Contém algum pensamento elevado — qualquer grande princípio, alguma poesia —, qualquer palavra que conduza à prosperidade? Contém algo além de uma enfadonha e detalhada descrição de coisas que nunca aconteceram?
Há algo no Êxodo que pretenda tornar os homens generosos, bondosos e nobres?
O que há de bom em ensinar a crianças que Deus torturou o gado inocente dos egípcios — ferindo-os mortalmente a pedradas — por culpa dos pecados do faraó?
Será que nos tornaríamos compassivos se acreditássemos que Deus matou os primogênitos dos egípcios — primogênitos de um povo pobre e sofrido, da pobre moça trabalhando nos moinhos — por causa da maldade do rei?
Podemos acreditar que os deuses egípcios fizeram também milagres? Transformaram água em sangue e bastões em serpentes?
No Êxodo não há sequer uma ideia original ou uma linha que tenha valor.
Sabemos — se é que sabemos alguma coisa — que este livro foi escrito por selvagens — selvagens que acreditavam na escravidão, na poligamia e nas guerras de extermínio. Sabemos que a estória contada é impossível e que os milagres relatados nunca ocorreram. Este livro admite que há outros deuses além de Javé. No 18° (1) capítulo há este verso: “Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses; até naquilo em que se houveram arrogantemente contra o povo”.
No 22o capítulo há este comando: “Não tardarás em trazer ofertas da tua ceifa e dos teus lagares. O primogênito de teus filhos me darás”. E se alguém ler isso como um incitamento a sacrifícios humanos?
O Êxodo foi um trampolim ou uma travanca à espécie humana?
Subtraindo-se do Êxodo as leis comuns às outras nações, o que resta nele de valor?
Há algo de importância em Levítico? Há algum capítulo que mereça ser lido? Que interesse temos nas roupas [fantasias] dos sacerdotes, nas cortinas e velas dos tabernáculos, nas pinças e pás do altar ou no óleo utilizado pelos levitas?
Para que servem o código cruel, as punições amedrontadoras, as maldições, as falsidades e os pseudo-milagres deste livro ignorante e infame?
E o que há no livro de Números — com seus sacrifícios e água de ciúmes, seus pães e colheres, suas crianças e flor de farinha, seus óleos e castiçais, seus pepinos, cebolas e manás — que ajuda e instrui a humanidade?
Que interesse temos na rebelião de Corá, na água da amargura, nas cinzas da novilha vermelha, na serpente de bronze, na nuvem que seguiu o povo para cima e para baixo por quarenta anos e na jumenta inspirada do profeta Balaão?
Acaso essas absurdidades e crueldades — essas superstições pueris e selvagens — ajudaram a civilizar o mundo?
Há qualquer coisa em Josué — em suas guerras, em seus assassinatos e massacres, em suas espadas gotejando sangue de mães e bebês, em suas torturas e mutilações, em sua fraude e fúria, em seu ódio e vingança — cuja finalidade seja melhorar o mundo?
Cada capítulo deste livro não é um verdadeiro choque ao coração de um homem bondoso? Será um livro que crianças deveriam ler?
O livro de Josué é impiedoso como a fome, feroz como o coração de uma besta selvagem. É uma história, uma justificativa, uma santificação de praticamente qualquer tipo de atrocidade.
O livro de Juízes trata do mesmo assunto, nada além de guerra e matança; a horrível história de Jael e Sísera; de Gideão e suas trombetas e cântaros; de Jefté e sua filha, que ele matou para agradar Javé.
Nele encontramos a história de Sansão, na qual o mito de um deus-sol é transformado em um hebreu gigante.
Leiam este livro de Josué, leiam sobre morticínio de mulheres, esposas, mães e bebês, leiam seus milagres impossíveis, leiam seus crimes cruéis — e tudo feito de acordo com Javé —, e então me digam se este livro foi feito para nos tornar compreensivos, generosos e bondosos.
Admito que a historia de Rute, em alguns aspectos, é bela e tocante; que é contada com naturalidade, e que seu amor por Noêmi era profundo e puro. Mas em matéria de namoro, dificilmente aconselharíamos nossas filhas a seguir o exemplo de Rute. Devemos lembrar que Rute era uma viúva.
Há algo que valha a pena ser lido no primeiro e segundo livros de Samuel? Deveria um profeta de Deus despedaçar um rei cativo? A história da arca, de sua captura e recuperação, tem qualquer importância para nós? É uma atitude correta, justa e clemente matar cinquenta mil homens porque olharam uma caixa? Qual a utilidade das guerras de Saul e Davi e das histórias de Golias e da feiticeira de Endora? Por que Javé deveria ter matado Uzá por ter estendido a mão para firmar a arca e perdoado Davi por assassinar Urias e roubar sua esposa?
De acordo com “Samuel”, Davi fez um censo do povo. Isso suscitou a ira de Javé [por que?], que como punição permitiu a Davi escolher sete anos de fome, três meses fugindo da perseguição de seus inimigos ou três dias de pestilência. Davi, tendo confiança em Deus, deixou este escolher e este escolheu os três dias de pestilência; e então Deus — o misericordioso — matou setenta mil homens pelo pecado de Davi.
Ante as mesmas circunstâncias, o que um diabo teria feito?...
Há algo no primeiro e segundo livros de Reis que sugere a ideia de inspiração?
Quando Davi está morrendo, diz ao seu filho Salomão para matar Joabe — que não deixasse suas cãs descerem à sepultura em paz. Com seu último suspiro, ordena que seu filho faça com que as cãs de Simei desçam à sepultura com sangue. Após proferir essas amáveis palavras, o bom Davi, "o homem do coração de Deus", dormiu com seus pais.
Seria necessária inspiração para que um homem escrevesse a estória da construção do templo, a estória da visita da rainha de Sabá ou relatasse o número de esposas de Salomão?
Que nos importa a mão seca de Jeroboão, a profecia de Jeú ou a história de Elias e os corvos?
Como podemos acreditar que Elias trouxe chamas do céu ou que foi até o último Paraíso em um carro de fogo?
Podemos acreditar na multiplicação do azeite por Eliseu, que um exército foi ferido com cegueira ou que um machado flutuou na água? [Que evidências há de que tais coisas tenham realmente ocorrido?]
Será que ler sobre a decapitação dos setenta filhos de Acabe, sobre o vazamento dos olhos de Zedequias e o assassinato de seus filhos nos torna mais civilizados? Há uma palavra sequer no primeiro e segundo livros de Reis que se destina a melhorar o homem?
O primeiro e segundo livros de Crônicas não passam de uma repetição do que é dito no primeiro e segundo livros de Reis. As mesmas velhas estórias — com algumas reduções, algumas adições, mas que não as tornam nem melhores nem piores.
O livro de Esdras é irrelevante. Conta-nos que Ciro, o rei da Pérsia, emitiu uma proclamação para a construção do templo de Jerusalém e que declarou ser Javé o único e verdadeiro Deus. Esdras nos fala sobre o retorno do cativeiro, a construção do Templo, a dedicatória, umas poucas orações, e isso é tudo. Esse livro não tem qualquer importância, é inútil.
Neemias trata do mesmo assunto, apenas fala sobre a construção do muro, as reclamações do povo quanto aos impostos, a lista daqueles que retornaram da Babilônia, um catálogo daqueles que habitavam Jerusalém e a dedicatória dos muros.
Nenhuma palavra do livro de Neemias merece ser lida.
Então vem o livro de Ester: nele é dito que o rei Assuero estava embriagado; que ordenou à sua rainha, Vasti, que se mostrasse a ele a aos convidados. Mas ela recusou-se.
Isso enfureceu o rei, e este ordenou que de cada província fossem trazidas as moças mais bonitas, para que ele pudesse escolher uma para ocupar o lugar de Vasti.
Entre outras, foi trazida Ester, uma judia. Ela foi escolhida, tornando-se a esposa do rei.
Um cavalheiro chamado Hamã desejava que todos os judeus fossem destruídos, e o rei, não tendo conhecimento de que Éster era uma judia, assinou um decreto para que os judeus fossem mortos.
Através dos esforços de Mordecai e Ester o decreto foi anulado e os judeus salvaram-se.
Hamã preparou uma forca para a execução de Mordecai, mas a boa Ester conseguiu fazer com que Hamã e seus dez filhos fossem enforcados na forca que ele havia construído, e os judeus foram autorizados a matar mais de setenta e cinco mil súditos do rei.
Essa é a estória inspirada de Ester.
No livro de Jó encontramos alguns sentimentos elevados, alguns pensamentos sublimes e alguns tolos, algo sobre a maravilha e a perfeição da natureza, as alegrias e tristezas da vida; mas a estória é infame.
Alguns Salmos são bons, muitos são indiferentes e alguns são infames. Neles estão misturados vícios e virtudes. Há versos que elevam e versos que degradam. Há orações de perdão e orações de vingança. Em toda a literatura mundial não existe nada mais inumano e infame que o 109o salmo.
Nos provérbios há muita sagacidade, muitas máximas expressivas e prudentes, muitos dizeres sábios. As mesmas ideias são exprimidas de várias maneiras — a sabedoria da economia e do silêncio, os perigos da vaidade e da ociosidade. Alguns são triviais, alguns são tolos e muitos são sábios. Esses provérbios não são generosos — não são altruísticos. Dizeres de mesma natureza podem ser encontrados em todas nações.
Eclesiastes é o livro mais profundo da Bíblia. Foi escrito por um descrente — um filósofo —, um agnóstico. Retire-se dele as interpolações, e estará de acordo com o pensamento do século XIX. Nesse livro estão as passagens mais filosóficas e poéticas da Bíblia.
Após atravessar o deserto de mortes e crimes — após ler o Pentateuco, Josué, Juízes, Samuel, Reis e Crônicas —, é um encanto encontrar esse jardim de poesia chamado “Cântico dos Cânticos”. Um drama de amor — de amor humano —, um poema sem Javé, um poema nascido do coração e verdadeiro para os instintos divinos da alma. 
Eu dormia, mas o meu coração velava.” (cf. Cântico dos cânticos 5:2)
Isaías é o trabalho de vários. Suas palavras pomposas, sua imagética vaga, suas profecias e maldições, seus devaneios contra reis e nações, seu escárnio da sabedoria humana e seu ódio à alegria não possuem a menor tendência de promover o bem-estar do homem.
Neste livro encontra-se o mais absurdo de todos os milagres. A sombra no relógio solar volta dez graus como sinal de que Javé havia adicionado quinze anos à vida de Ezequias. (cf. Isaías 38)
Com este milagre o mundo — que gira de oeste para leste a mais de mil milhas por hora — não apenas pára, mas de fato retrocede até que a sombra do relógio tenha voltado dez graus!
Há em todo o mundo algum indivíduo inteligente que acredite nesta mentira grosseira?
Jeremias não contém nada de importância — nenhum fato de valor.
Nada além de procura por erros, lamentações, resmungos, gemidos, maldições e promessas; nada além de fome e oração, da prosperidade do mal, da ruína dos judeus, do cativeiro e o retorno, e finalmente Jeremias, o traidor, no tronco e na prisão.
O livro de Lamentações é simplesmente a continuação dos delírios do mesmo pessimista insano; nada além de pó, trapos, cinzas, lágrimas, uivos, xingamentos e insultos.
E Ezequiel — comendo manuscritos, profetizando cerco e desolação, com visões de brasas de fogo, de querubins, da figura da caldeira fervente e da ressurreição de ossos secos — também não possui qualquer valor, nenhum valor imaginável.
Assim como Voltaire, digo que se há alguém que admira Ezequiel, então deveria ser compelido a jantar com ele... [leia o livro de Ezequiel e vai entender...]
Daniel é um sonho conturbado — um pesadelo.
Que utilidade tem este livro, com sua imagem com cabeça de ouro, com peito e braços de prata, com ventre e coxas de bronze, com pernas de ferro e com pés em parte de ferro e em parte de barro; com suas escrituras na parede, sua cova dos leões e sua visão do carneiro e do bode?
Há algo e ser aprendido de Oseias e sua esposa? Há algo proveitoso em Joel, em Amós, em Obadias? Há algo a ser extraído da história de Jonas e o peixe que o engoliu? Será possível que Deus é realmente o autor de Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Malaquias e Zaracias, com seus cavalos vermelhos, seus quatro chifres, seus quatro ferreiros, seu rolo voador, seus montes de bronze e sua pedra com sete (2) olhos?
Estes livros “inspirados” trouxeram qualquer benefício ao homem?
Nos ensinaram como cultivar a terra, construir casas, tecer roupas ou preparar alimento?
Nos ensinaram a pintar quadros, talhar estátuas, construir pontes, navios ou qualquer coisa bela ou útil? Foi do Velho Testamento que derivamos nossas noções de governo, de liberdade de culto, de liberdade de pensamento? Colhemos destes livros qualquer ideia que contribuiu à ciência? Há nestas “sagradas escrituras” uma palavra, uma linha que tenha contribuído à riqueza, à inteligência ou à felicidade da humanidade?
Há algum livro no Velho Testamento pelo menos tão divertido quanto “Robinson Crusoe”, “As Viagens de Gulliver” ou “Peter Wilkins e sua Esposa Voadora”? Será que o autor de Gênesis sabia tanto sobre a natureza quanto Humboldt, Darwin ou Haeckel? Será que o chamado Código Mosaico é tão sábio ou tão compassivo quanto o código de quaisquer nações civilizadas? Os escritores de Reis e Crônicas foram grandes historiadores e escritores assim como Gibbon e Draper? Será Jeremias ou Habacuque igual a Dickens ou Thackeray? Os autores de Jó e Salmos são comparáveis a Shakespeare? Por que deveríamos atribuir o melhor ao homem e o pior a Deus?...

V

Javé era um Deus de amor?

Será que estas palavras vieram de um coração cheio de amor?
quando o Senhor teu Deus tas tiver entregue, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas” [é Javé falando das nações vizinhas a Israel...] (cf. Deuteronômio 7:2)
Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas” (cf. Deuteronômio 32:23)
Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó” (cf. Deuteronômio 32:24)
Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido” (cf. Deuteronômio 32:25)
Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua mulher! Andem errantes os seus filhos, e mendiguem; esmolem longe das suas habitações assoladas. O credor lance mão de tudo quanto ele tenha, e despojem-no os estranhos do fruto do seu trabalho! Não haja ninguém que se compadeça dele, nem haja quem tenha pena dos seus órfãos!” (cf. Salmos 109:9-12).
comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas” (cf. Deuteronômio 28:53)
O céu que está sobre a tua cabeça será de bronze, e a terra que está debaixo de ti será de ferro” (cf. Deuteronômio 28:23)
Maldito serás na cidade, e maldito serás no campo” (cf. Deuteronômio 28:16)
De sangue embriagarei as minhas setas” (cf. Deuteronômio 32:42)
eu me rirei no dia da vossa calamidade” (cf. Provérbios 1:26)
Essas maldições e ameaças vieram de um coração cheio de amor ou da boca da selvageria?
Javé era um deus ou um diabo?
Por que deveríamos colocar Jeová acima de todos os outros deuses?
Será que a ignorância e o medo do homem já conceberam algo mais monstruoso?
Será que bárbaros de quaisquer terras, de quaisquer épocas, já adoraram um deus mais cruel?
Brahma era mil vezes mais nobre, assim como Osíris, Zeus e Júpiter. E também a suprema divindade dos Astecas, à qual se oferecia apenas o perfume de flores. O pior deus dos hindus, com seu colar de crânios e seu bracelete de cobras vivas, parece bondoso e compassivo quando posto lado a lado com Javé.
Comparado até a Marco Aurélio, quão pequeno Javé parece. Comparado mesmo com Abraham Lincoln, quão cruel, quão desprezível é este deus!

VI

A administração de Javé

Ele criou o mundo, o exército do céu [estrelas], um homem e uma mulher — e colocou estes em um jardim. Então a serpente os enganou, e assim foram expulsos e forçados a ganhar seu próprio pão.
Javé ficou contrariado.
Tentou novamente. Ficou aproximadamente dezesseis séculos tentando civilizar seu povo.
Nenhuma escola, nenhuma igreja, nenhuma Bíblia, nenhum tratado — ninguém os ensinou a ler ou escrever. Nem sinal dos Dez Mandamentos. O povo tornava-se pior e pior, até que o misericordioso Javé decidiu enviar o dilúvio para afogar todas as criaturas, salvo Noé e sua família — oito no total.
Então ele recomeçou. Mudou seus hábitos alimentares. De início Adão e Eva eram vegetarianos, mas após o dilúvio Javé disse: “Tudo quanto se move e vive vos servirá de mantimento” (cf. Gênesis 9:3) — cobras e urubus também portanto.
Mas falhou novamente, e na Torre de Babel dispersou e espalhou os povos.
Percebendo que não conseguiria administrar todos os povos, decidiu dedicar-se a uns poucos; escolheu Abraão e seus descendentes. Malogrou novamente. Seus escolhidos foram capturados pelos egípcios e escravizados por quatro séculos.
Ele tentou novamente — resgatou-os do Faraó e direcionou-os à Palestina.
Mudou então sua dieta, permitindo-os comer apenas os animais de unhas fendidas e que se alimentassem de grama.
Falhou novamente.
O povo o odiava; preferia a escravidão do Egito à liberdade de Javé. Então os deixou vagando até que quase todos que tinham vindo do Egito estivessem mortos. E tentou novamente — levou-os à Palestina e os colocou sob governo dos Juízes.
Isso também foi um fracasso — nenhuma escola, nenhuma Bíblia. Então tentou os reis, mas estes foram em sua maioria idólatras.
Então seu povo escolhido foi conquistado e levado em cativeiro pelos babilônios.
Outro insucesso.
Eles retornaram, e Javé experimentou os profetas — berradores e gemedores —, mas o povo tornava-se cada vez pior. Nada de escolas, ciências, artes ou comércio [do progresso verdadeiro do povo Javé nunca cuidou...]. Então Javé [ou antes, o 'Filho' dele] fez-se carne — nascido de uma mulher —, e viveu entre o povo que vinha tentando civilizar há milênios. Então o povo, seguindo as leis que o próprio Javé havia lhes dado, acusou este Javé-homem — este Cristo — de blasfêmia; o acusaram, julgaram e mataram.
Javé falhou novamente.
Então abandonou os judeus e concentrou sua atenção no resto do mundo.
E agora os judeus, apesar de abandonados por Javé e perseguidos pelos cristãos, são o povo mais próspero de Terra. Novamente, uma falha.
Que administração!

VII

O Novo Testamento

Quem escreveu o Novo Testamento?
Estudiosos do cristianismo admitem que não sabem. Admitem que, se os quatro evangelhos tivessem sido escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João, então estariam em hebraico. Entretanto, nenhum manuscrito de quaisquer dos evangelhos jamais foi encontrado em hebraico. Todos foram escritos em grego. Assim, teólogos educados admitem que as Epístolas — Tiago e Judas — [talvez] foram escritas por pessoas que desconheciam totalmente os quatro evangelhos. Nestas duas epístolas não é feita qualquer alusão aos evangelhos e nem aos milagres que relatam.
A mais antiga referência encontrada a um dos quatro evangelhos foi feita cerca de cento e oito anos após o nascimento de Cristo, e os quatro evangelhos foram pela primeira vez nomeados e citados no começo do terceiro século, cerca de cento e setenta anos após a morte de Cristo.
Hoje sabemos que havia muitos outros evangelhos além dos quatro, alguns dos quais perderam-se. Havia o evangelho de Paulo, dos Egípcios, dos Hebreus, da Verdade, de Judas, de Tadeu, de Infância, de Tomé, de Maria, de André, de Nicodemos, de Marcião e vários outros.
Havia os Atos de Pilatos, de André, de Maria, de Paulo, de Tecla e muitos outros.
A princípio nenhum desses livros era considerado 'inspirado'. Achava-se que o Velho Testamento era divino, mas os livros que atualmente constituem o Novo Testamento eram considerados meras produções humanas. Hoje temos consciência de nossa ignorância quanto aos verdadeiros autores dos quatro evangelhos.
A questão é: os autores destes quatro evangelhos estavam inspirados?
Se estavam, então os quatro evangelhos necessariamente são verdadeiros. E se são verdadeiros, obviamente devem concordar entre si.
Os quatro evangelhos não concordam.
Mateus, Marcos e Lucas desconheciam totalmente a recompensa e a salvação através da fé. Conheciam apenas o evangelho da boa ação — da caridade. Ensinam que, se perdoarmos aos outros, Deus nos perdoará.
Com isso o Evangelho de João não concorda.
Neste evangelho é dito que precisamos crer no Senhor Jesus Cristo; que precisamos nascer novamente; que precisamos beber o sangue e comer a carne de Cristo. Neste evangelho encontramos a doutrina da recompensa e a de que Cristo morreu e sofreu por nós.
Este evangelho é completamente divergente dos outros três. Se os outros três são verdadeiros, então o Evangelho de João é falso. Se o Evangelho de João foi escrito por um homem inspirado, então os autores dos outros três careciam de inspiração. Para isto não há escapatória. É impossível que os quatro sejam verdadeiros.
É evidente que há muitas interpolações nos quatro evangelhos.
Por exemplo, no 28o capítulo de Mateus é dito que os soldados da tumba de Cristo foram subornados para dizerem que os discípulos de Jesus furtaram seu corpo enquanto eles — os soldados — dormiam.
Isso é claramente uma interpolação, uma interrupção na narrativa.
O 10o verso deveria ser seguido pelo 16o.
O 10o verso: “Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galileia; ali me verão”.
O 16o verso: “Partiram, pois, os onze discípulos para a Galileia, para o monte onde Jesus lhes designara”.
A estória sobre os soldados está contida nos versos 11, 12, 13, 14 e 15. É uma interpolação — uma reflexão posterior, muito posterior. O 15o verso demonstra isto.
O 15o verso: “Então eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como foram instruídos. E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje”.
Certamente esta passagem não estava no evangelho original, e certamente o 15o verso não foi escrito por um judeu. Nenhum judeu escreveria isto: “E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje”.
Marcos, João e Lucas nunca souberam que os soldados foram subornados; ou, se souberam, não julgaram que tal fato merecia ser registrado. Ou seja, as passagens sobre a Ascensão de Jesus Cristo em Marcos e Lucas são interpolações. Mateus não diz qualquer coisa sobre a Ascensão.
Certamente nunca houve um milagre de maiores proporções, e mesmo assim Mateus, que estava presente — que viu o Senhor ascender aos céus e desaparecer —, não o julgou digno de menção...
João, que estava presente, se é que Cristo realmente ascendeu, não diz também sequer uma palavra sobre o assunto.
Quanto à Ascensão, os evangelhos não concordam.
A seguir está transcrita a última conversa de Cristo com seus apóstolos segundo Marcos: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. (cf. Marcos 16:15-19)
Será possível que tal descrição foi escrita por um indivíduo que testemunhou este milagre?
O milagre foi descrito por Lucas desta forma: “E aconteceu que, enquanto os abençoava, apartou-se deles; e foi elevado ao céu”. (cf. Lucas 24:51)
Nos Atos é dito que: “Tendo ele dito estas coisas, foi levado para cima, enquanto eles olhavam, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos”. (cf. Atos 1:9)
Nem Lucas, Mateus, João ou o autor de Atos ouviram qualquer palavra da conversa atribuída a Cristo por Marcos. O fato é que a Ascensão de Cristo não foi alegada pelos seus discípulos.
A princípio Cristo era apenas um homem — e nada mais. Maria era sua mãe, José era seu pai. A genealogia de seu pai, José, foi apresentada para demonstrar que ele tinha o mesmo sangue de Davi.
Então se alegou que ele era o filho de Deus e que sua mãe era uma virgem — e depois que permaneceu virgem até sua morte.
Então se alegou que Cristo levantou dentre os mortos e ascendeu corporalmente ao céu.
Foram necessários muitos anos para que essas absurdidades [LENDAS] se apoderassem das mentes dos homens.
Se Cristo levantou-se dentre os mortos, por que não apareceu aos seus inimigos? Por que não fez uma visita a Caifás, o sumo sacerdote? Por que não fez outra entrada triunfante em Jerusalém?
Se realmente ascendeu, por que não o fez em público, na presença de seus perseguidores? Por que o maior dos milagres deveria ser feito em segredo, num canto?
Foi um milagre que poderia ter sido visto por uma vasta multidão — um milagre impossível de ser simulado —, que teria convencido centenas de milhares...
Após a estória da Ressurreição, a Ascensão tornou-se uma necessidade: precisavam se livrar do corpo...
Há muitas outras interpolações nos evangelhos e epístolas.
Pergunto novamente: o Novo Testamento é verdadeiro? Será que alguém ainda acredita que no nascimento de Cristo houve uma saudação celestial; que uma estrela guiou os magos do oriente; que Herodes matou todos os meninos de dois anos para baixo que havia em Belém?
Os evangelhos estão repletos de narrativas de milagres. Eles realmente ocorreram?
Mateus relata os pormenores de aproximadamente vinte e dois milagres, Marcos cerca de dezenove, Lucas ao redor dezoito e João por volta de sete.
De acordo com os evangelhos, Cristo curou doenças, expulsou demônios, repreendeu o mar, curou os cegos, alimentou multidões com cinco pães e dois peixes, caminhou sobre as águas, amaldiçoou uma figueira, transformou água em vinho e ressuscitou os mortos.
Mateus é o único que fala sobre a estrela e os magos — o único que menciona o assassinato dos bebês.
João é o único que diz algo sobre a ressurreição de Lázaro e Lucas é o único que narra a ressurreição do filho da viúva de Naim.
Como seria possível comprovar tais milagres?
Os judeus, entre os quais diz-se que os milagres ocorreram, não acreditavam neles. Os doentes, os paralisados, os leprosos e os cegos que foram curados não se tornaram necessariamente seguidores de Cristo. Nunca mais se ouviu falar daqueles que foram ressuscitados.
E se certas passagens são falsas, então os escritores eram ignorantes ou desonestos. Se seus escritos revelam ignorância, então não estavam inspirados. Se tinham consciência de que estavam escrevendo falsidades, então também não estavam inspirados. Se o que escreveram é uma inverdade — não importa se o sabiam ou não — certamente não havia inspiração.
Naquela época acreditava-se que a paralisia, a epilepsia, a surdez, a insanidade e muitas outras doenças eram causadas por demônios; acreditava-se que os demônios apossavam-se e viviam nos corpos de homens e mulheres. Cristo acreditava nisso, pregou isso e fingiu curar doenças expulsando os demônios dos doentes e insanos. Se hoje sabemos alguma coisa, é que doenças não são causadas pela presença de demônios. Se hoje sabemos alguma coisa, é que demônios não habitam os corpos dos homens.
Se Cristo disse e fez o que os autores dos três evangelhos relatam, então Cristo estava enganado. Se estava enganado, certamente não era Deus. Se estava enganado, certamente não estava inspirado.
Será verdade que o Demônio tentou cristo?
Será verdade que o Demônio levou Cristo ao topo do templo e tentou induzi-lo a pular ao chão?
Como tais milagre podem ser comprovados?
Os mais importantes não escreveram nada, Cristo não escreveu nada, o Demônio permaneceu em silêncio.
Como podemos ter certeza de que o Demônio tentou Cristo? Quem redigiu a narração? Não sabemos. Como o autor tomou conhecimento do fato? Não sabemos.
Alguém, a dezessete séculos atrás, disse que o Demônio tentou Deus; que o Demônio levou Deus ao topo do templo e tentou induzi-lo a pular, mas Deus foi mais esperto que o Demônio.
É apenas essa a evidência que temos.
Será que na literatura mundial há algo mais perfeitamente imbecil?
Pessoas inteligentes não acreditam mais em bruxas, magos ou fantasmas, e estão plenamente satisfeitas com a ideia de que cada palavra do Novo Testamento sobre a expulsão de demônios é totalmente falsa.
A viúva de Naim está acompanhando cortejo de seu filho até à tumba. Jesus interrompe o funeral e ressuscita o jovem rapaz e o devolve aos braços de sua mãe.
Este jovem rapaz desaparece. Nunca mais se ouve falar dele. Ninguém parece se interessar pelo homem que retornou da morte. Lucas é o único que conta esta história. Talvez Mateus, Marcos e João nunca tenham ouvido falar dela, ou não a acreditaram, e portanto não a registraram.
João diz que Lázaro foi ressuscitado; Mateus, Marcos e Lucas não falam qualquer coisa sobre isso.
Foi um milagre ainda mais belo que o ressuscitamento do filho da viúva. Este último não tinha sido sepultado por dias, estava apenas a caminho de sua tumba, mas Lázaro estava de fato morto, já tinha começado a decompor-se.
Lázaro não suscitou o menor interesse. Ninguém perguntou a ele sobre o outro mundo. Ninguém perguntou sobre seus amigos mortos. Quando morreu pela segunda vez, ninguém disse: “Ele não está temente. Já atravessou esta estrada e sabe exatamente para onde está indo”.
Não acreditamos nos milagres de Maomé, contudo eles são tão bem 'comprovados' quanto estes. Não acreditamos nos milagres feitos por Joseph Smith (3), e as evidências são muito maiores, muito melhores.
Se hoje aparecesse um homem fingindo ressuscitar os mortos, fingindo expulsar demônios, o consideraríamos um maluco. O que, então, podemos dizer a respeito de Jesus? Se quisermos salvar sua reputação, seremos forçados a admitir que ele nunca fingiu ressuscitar os mortos, que ele nunca alegou expulsar demônios.
Precisaríamos, então, partir do pressuposto de que essas façanhas impossíveis e ignorantes foram inventadas pelos seus discípulos, que buscavam divinizar seu líder.
Naqueles dias de ignorância essas falsidades serviam para tornar Jesus famoso, mas agora lançam descrédito contra os autores dos evangelhos.
Será que hoje em dia podemos acreditar que água foi transformada em vinho? João relata esse milagre pueril, e diz que os outros discípulos também estavam presentes, contudo Mateus, Marcos e Lucas não dizem qualquer coisa a respeito.
Peguem o milagre do homem curado pelo tanque de Betesda. João diz que um anjo agitou a água do tanque de Betesda, e que o primeiro a entrar nele após o movimento da água seria curado de qualquer enfermidade. (cf. João 5:4)
Será que hoje em dia alguém ainda acredita que um anjo foi até o tanque e agitou a água? Alguém acredita que o pobre coitado que entrou nela primeiro foi curado? O autor do Evangelho de João acreditava e afirmava essas absurdidades.
Se ele estava enganado quanto a isto, talvez também estivesse quanto a todos os outros milagres que documentou.
João é o único que fala sobre o tanque de Betesda. Provavelmente os outros discípulos não acreditavam na estória.
Como podemos dar crédito a esses falsos milagres?
Na época em que os discípulos viveram — e até muitos séculos após — o mundo era abarrotado de explicações sobrenaturais. Quase tudo que acontecia era considerado milagroso. Deus era o governador imediato do mundo inteiro. Se as pessoas fossem boas, Deus enviava tempos de plantio e colheita; mas se fossem más, enviava dilúvios, granizo, geadas e fome. Se acontecia algo muito bom, o fato era exagerado até que se transformasse num milagre.
As pessoas não tinham qualquer noção, qualquer conhecimento sobre a ordem dos eventos — sobre a inquebrável cadeia de causas e efeitos.
Se Cristo tivesse realizado os milagres atribuídos a ele; se tivesse curado os paralíticos e os loucos; se tivesse concedido a audição aos surdos e a visão aos cegos; se tivesse curado leprosos com uma simples palavra, se com um toque tivesse dado vida e força a um membro atrofiado; se tivesse dado pulso e movimento, calor e consciência ao frio e inerte barro; se tivesse conquistado a morte, escapando das pálidas garras da sepultura — então nenhuma palavra seria pronunciada, nenhuma mão seria levantada, salvo em seu louvor e honra. Em sua presença todas cabeças estariam descobertas e todos joelhos contra o chão.
Não é estranho que durante o julgamento de Cristo não se tenha encontrado qualquer indivíduo que testemunhasse a seu favor?
Nenhum homem deu um passo à frente e disse: “Eu era leproso e este homem me curou com um toque”.
Nenhuma mulher disse: “Eu sou a viúva de Naim e este é meu filho, o qual foi ressuscitado por este homem”.
Nenhum homem disse: “Eu era cego e este homem me deu visão”.
Tudo era silêncio...

VIII

A filosofia de Jesus

Milhões afirmam que a filosofia de Cristo é perfeita — que ele foi o mais sábio que já pregou.
Vejamos: “não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. (cf. Mateus 5:39)
Há alguma filosofia, alguma sabedoria nisso? Jesus retira da bondade, da virtude, da verdade o direito à autodefesa. O vício assim tomaria conta do mundo e os bons tornam-se-iam vítimas dos infames.
Nenhum homem teria o direito de proteger-se, de proteger sua propriedade, sua família ou seus filhos. Governar torna-se-ia impossível e o mundo estaria à mercê dos criminosos. Há algo mais absurdo que isso?
Amai a vossos inimigos”. (cf. Lucas 6:27)
Isso é possível? Será que algum ser humano já amou seus inimigos? Será que Cristo os amava quando os denunciou como sepulcros caiados, hipócritas e víboras? (cf. Mateus: 23:27)
Não somos capazes de amar aqueles que nos odeiam. Ódio no coração dos outros não faz florescer amor no nosso. Não resistir ao mal é absurdo; amar inimigos [de verdade] é impossível.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã”. (cf. Mateus 6:34)
A ideia é a de que Deus tomaria conta de nós assim como tomou das aves e dos lírios. Há o menor sentido nesta crença?
Deus toma conta de alguém?
Será que podemos viver sem nos preocuparmos com o amanhã? Arar, semear, cultivar, colher: isso é preocupar-se com o amanhã. Nós planejamos e trabalhamos para o futuro, para nossos filhos, para as gerações vindouras. Sem premeditação não poderia haver progresso nem civilização. O mundo retornaria às cavernas e à selvageria.
se a tua mão te escandaliza, corta-a (…) se o teu olho te escandaliza, lança-o fora”. (cf. Marcos 9:43 e 47)
Por que? Porque é melhor “entrar no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, ser lançado no inferno”.
Há alguma sabedoria em arrancar olhos ou decepar mãos? Será possível extrair o menor grão de bom senso desses dizeres extravagantes?
de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei”. (cf. Mateus 5:34-35)
Aqui encontramos os conhecimentos de Cristo sobre astronomia e geologia. O céu é o trono de Deus, o monarca; a Terra é seu escabelo. Um escabelo que está numa rotação de mil milhas por hora e que viaja pelo espaço a mais de mil milhas por minuto.
Onde Cristo pensou que o céu estava? Por que Jerusalém é uma cidade sagrada? Será porque seus habitantes eram ignorantes, rústicos e supersticiosos?
…ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa” (cf. Mateus 5:40)
Há alguma filosofia, algum bom senso neste mandamento? Isso é tão lógico quanto dizer: “Se um homem te processar e ganhar cem mil, dê a ele duzentos mil”.
Só um maluco seguiria esse conselho.
Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra”. (cf. Mateus 10:34-35)
Se isso é verdade, quão melhor não seria se ele nunca tivesse existido...
Como é possível que o mesmo indivíduo que disse “não resistais ao homem mau” tenha vindo trazer a espada? Como é possível que o mesmo indivíduo que disse “Amai a vossos inimigos” tenha vindo para destruir a paz do mundo?
E colocar pai contra filho e mãe contra filha — ó, que missão gloriosa!
De fato ele trouxe uma espada, a qual por milhares de anos permaneceu embebida em sangue inocente. Em milhões de corações ele [ou antes, outros em nome dele] semeou o ódio e a vingança. Dividiu nações e famílias, obscureceu a luz da razão e petrificou os corações dos homens.
E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna”. (cf. Mateus 19:29)
De acordo com o autor de Mateus, Cristo, o compassivo, o misericordioso, pronunciou essas terríveis palavras. Será possível que Cristo ofereceu a felicidade eterna como uma recompensa a todos que abandonassem seus pais, suas mães, suas esposas e seus filhos? Seremos bem-aventurados nos céus se abandonarmos aqueles que amamos? Precisa-se destruir um lar aqui para que se construa uma mansão lá?
Contudo, diz-se que Cristo é um exemplo para o mundo. Ele abandonou seus pai e sua mãe? Ele disse à sua mãe: “Mulher, que tenho eu contigo?”. (cf. João 2:4)
Os fariseus disseram a Cristo: “É lícito pagar tributo a César, ou não?”. (cf. Mateus 22)
Cristo disse: “Mostrai-me a moeda do tributo”.
E eles lhe apresentaram um denário”.
Perguntou-lhes Cristo: “De quem é esta imagem e inscrição?”.
Responderam: “De César”.
E Cristo disse: “Dai, pois, a César o que é de César”.
Cristo pensou que o dinheiro pertencia a César porque sua imagem e sobrescrição estavam estampadas nele? O denário pertence a César ou ao homem que trabalhou por ele? César tinha o direto de requisitá-lo apenas porque estava adornado com sua imagem?
Essa conversa faz parecer que Cristo realmente compreendia a verdadeira natureza e utilidade do dinheiro?
Será que agora podemos dizer que Cristo foi o maior dos filósofos?... 

IX

Jesus é o nosso exemplo?

Ele nunca pronunciou uma palavra em favor da educação. Nunca sequer mencionou a existência de qualquer ciência. Nunca disse algo em favor da indústria, da economia, de qualquer esforço que visasse melhorar as condições do mundo. Era inimigo dos bem-sucedidos, dos ricos. O homem rico foi enviado ao inferno não porque era mau, mas porque era rico. Lázaro foi enviado ao céu não porque era bom, mas porque era pobre. (cf. Lucas 16)
Cristo não se importava com pintura, escultura ou música — não dava importância à arte. Não disse nada sobre os deveres das nações uma para com as outras, dos reis para com seus súditos; nada sobre os direitos humanos; nada sobre a liberdade de pensamento e expressão. 
Nunca se casou. Viveu perambulando de um lugar a outro acompanhado de uns poucos discípulos. Nenhum deles parece ter-se empenhado em qualquer trabalho produtivo; provavelmente viviam de esmolas.
Todos os laços afetivos eram tratadas com desprezo; este mundo era sacrificado em nome do próximo; todo labor era desencorajado. Deus nos ajudaria e protegeria.
Finalmente, nos seus últimos momentos de vida, Cristo, pensando estar errado, gritou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. (cf. Salmos 22:1)
Descobrimos que o homem é o responsável por si próprio. Ele precisa construir uma casa; precisa cultivar a terra; precisa arar e semear; precisa inventar; precisa trabalhar com a mão e com a mente; precisa superar suas dificuldades e seus obstáculos; precisa conquistar e manipular as forças da natureza para com isso utilizá-las em prol do mundo.

X

Por que deveríamos colocar Jesus no ápice ou acima da raça humana?

Ele era mais bondoso, mais compreensivo, mais autossacrificante que Buda? Era mais sábio ou recebeu a morte com uma calma mais perfeita que Sócrates? Era mais paciente, mais caridoso que Epíteto? Era um filósofo mais grandioso, mais profundo que Epicuro? Em que aspecto era superior a Zoroastro? Era mais suave que Lao tsé? Mais universal que Confúcio? Suas ideias a respeito dos direitos e deveres humanos eram superiores às de ZenãoExpressou maiores verdades que Cícero? Seu intelecto era mais sutil que o de Spinoza? Seu cérebro era comparável ao de Kepler ou Newton? Foi superior em sua morte, foi um mártir mais sublime que Giordano Bruno? Sua inteligência, sua força e beleza de expressão, sua amplitude e alcance de pensamento, sua riqueza em ilustração, sua aptidão no comparar, seu conhecimento da mente e coração humanos — de todas paixões, esperanças e medos — eram páreo para Shakespeare?
Se Jesus era de fato Deus, então conhecia todo o futuro. Ante ele abria-se todo o panorama do porvir. Ou seja, sabia perfeitamente como suas palavras seriam interpretadas. Sabia quais crimes, quais horrores, quais infâmias seriam cometidas em seu nome. Sabia que as chamas da perseguição abraçariam incontáveis mártires. Sabia que milhares e milhares de homens e mulheres corajosos definhariam em calabouços sombrios, cheios de dor. Sabia que a Igreja inventaria instrumentos de tortura; que seus representantes utilizariam chicotes, troncos(4), correntes e ecúleos(5). Viu no horizonte do futuro o brilho das chamas dos autos-de-fé(6). Sabia que nasceriam doutrinas contraditórias de cada texto como fungos deletérios. Viu seitas ignorantes travando guerras umas contra as outras. Viu milhares de homens, sob o comando de padres, construindo prisões para seus semelhantes. Viu o sangue mais nobre e bravo escorrer em milhares de patíbulos(7). Viu os fiéis de sua palavra usando instrumentos de tortura. Ouviu os gemidos, viu as faces empalidecerem em agonia. Ouviu os gritos e gemidos, viu correrem as lágrimas das multidões martirizadas. Sabia que espadas escreveriam comentários sobre suas palavras — para serem lidos à luz de troncos(4). Sabia que a Inquisição nasceria de ensinamentos atribuídos a ele.
Viu as interpolações e falsidades que seriam criadas pela hipocrisia. Viu todas as guerras futuras, e sabia que acima desses campos de morticínio, desses calabouços, dessas torturas, dessas cremações, dessas execuções, estaria hasteada uma bandeira com o símbolo da cruz gotejando sangue...
Sabia que a hipocrisia seria adornada e coroada — que a crueldade e a credulidade governariam o mundo; sabia que a liberdade seria varrida da Terra; sabia que papas e reis usariam seu nome para escravizar os corpos e a alma dos homens; sabia que os descobridores, pensadores e inventores seriam perseguidos e aniquilados; sabia que sua Igreja despojaria o mundo da sagrada luz da razão.
Viu seus discípulos vazando os olhos dos homens, os esfolando vivos, decepando suas línguas, procurando descobrir todos os nervos responsáveis pela dor.
Sabia que em seu nome seus seguidores usariam carne humana como moeda; sabia que, por ouro, berços seriam roubados e seios maternos ficariam sem ter a quem alimentar.
Contudo, morreu com os lábios em silêncio...
Por que não falou nada? Por que não disse isto aos seus discípulos — e através deles ao mundo —: “Tu não queimarás, não prenderás nem torturarás em meu nome. Tu não perseguirás teu próximo”. ???
Por que não disse claramente: “Eu sou o Filho de Deus” ou “Eu sou Deus”? Por que não explicou a Trindade? Por que não disse que tipo de batismo lhe agradava? Por que não escreveu uma doutrina? Por que não partiu as correntes dos escravos? Por que não disse se o Velho Testamento era ou não inspirado por Deus? Por que não escreveu o Novo Testamento ele próprio? Por que deixou suas palavras ao sabor da ignorância, da hipocrisia e do acaso? Por que não disse algo positivo, definitivo e satisfatório sobre o outro mundo? Por que não transformou a lacrimosa esperança num céu em uma venturosa certeza sobre uma outra vida? Por que não nos disse algo sobre os direitos humanos, sobre a liberdade no agir e no pensar?
Por que se entregou a uma morte infame, deixando no mundo a miséria e a dúvida?
Eu vou dizer o porquê: Jesus era apenas um homem, ele não sabia do futuro...

XI

Inspiração

Somente por volta século III afirmou-se ou creu-se que os livros agora constituintes do Novo Testamento eram 'inspirados'.
Lembremos que havia um grande número de livros, Evangelhos, Epístolas e Atos, e que homens “não inspirados” selecionaram quais deles eram “inspirados”.
Entre os “Pais” [isto é, os Padres do cristianismo primitivo] havia grandes divergências de opinião quanto aos livros realmente inspirados. Vários dos livros atualmente considerados espúrios eram julgados divinos por muitos dos “Pais”; alguns dos que atualmente são considerados inspirados eram tidos como espúrios. Muitos dos primeiros cristãos e alguns dos “Pais” repudiaram o Evangelho de João, a Epístola dos Hebreus, de Judas, de Tiago, de Pedro e a Revelação S. João. Por outro lado, muitos deles consideravam o Evangelho dos Hebreus, dos Egípcios, a Pregação de Pedro, o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé, a Revelação de Pedro, a Revelação de Paulo, a Epístola de Clemente, o Evangelho de Nicodemos, como autênticos livros inspirados.
Dentre esses livros, e muitos outros, os cristãos selecionaram os 'inspirados'.
Os homens que fizeram a seleção eram ignorantes e supersticiosos. Acreditavam firmemente em milagres. Pensavam que doenças tinham sido curadas pelos aventais e lenços dos apóstolos, pelos ossos dos mortos. Acreditavam na fábula da Fênix e também que as hienas mudavam de sexo anualmente.
Os homens que, ao longo de muito tempo, fizeram a seleção estavam inspirados? Aqueles homens — ignorantes, crédulos, estúpidos e maliciosos — eram tão bem qualificados para julgar a “inspiração” quanto os estudiosos de nosso tempo? O que nos prende à opinião deles? Não temos o direito de julgar nós mesmos?
Erasmo, um dos líderes da Reforma, declarou que a Epístola dos Hebreus não havia sido escrita por Paulo, negou a inspiração da Segunda e Terceira de João e também a do Apocalipse. Lutero tinha a mesma opinião. Declarou que Tiago era uma epístola sem valor e negou a inspiração da Revelação. Zwingli rejeitou o livro do Apocalipse e mesmo Calvino negou que Paulo era o autor de Hebreus.
A verdade é que os protestantes só entraram em acordo quanto à inspiração dos livros em 1647, na Assembleia de Westminster.
Mesmo admitindo-se a existência de Deus, como poderíamos provar que ele inspirou os escritores dos livros da Bíblia?
Como um homem pode estabelecer a inspiração de outro? Como um homem inspirado pode provar que está inspirado? Como ele próprio sabe que está inspirado?
É impossível provar o fato de se estar inspirado. A única evidência que possuímos é a palavra de um homem.
O que é inspiração? Deus usa homens como instrumentos? Fez com que escrevessem seus pensamentos? Tomou posse de suas mentes e suprimiu suas vontades?
Esses escritores estavam apenas parcialmente controlados, daí seus equívocos, sua ignorância e seus preconceitos estarem misturados com a sabedoria de Deus?
Como podemos distinguir os erros do homem dos pensamentos de Deus? Podemos fazê-lo sem estarmos inspirados? Se os autores originais estavam inspirados, então os tradutores também deveriam estar, assim como os intérpretes da Bíblia.
Como é possível a um ser humano ter consciência de que está inspirado por um ser infinito? Mas de uma coisa podemos ter certeza: um livro inspirado certamente deve ser superior a quaisquer outros livros produzidos por homens não inspirados. Deve, acima de tudo, ser verdadeiro, repleto de sabedoria, prosperidade e beleza — deve ser perfeito.
Os ministros perguntam-se como posso ser pervertido o suficiente para atacar a Bíblia.
Bem, vou responder: este livro, a Bíblia, perseguiu — às vezes até à morte — os melhores e mais sábios dentre os homens. Este livro atravancou e paralisou o progresso da raça humana. Este livro envenenou as fontes do conhecimento e descaminhou as energias do homem.
Este livro é inimigo da liberdade — apoia a escravidão. Este livro semeou o ódio em famílias e nações, alimentou as chamas da guerra e empobreceu o mundo. Este livro é o sustentáculo dos reis e tiranos — o escravizador de mulheres e crianças. Este livro corrompeu parlamentos e cortes. Este livro fez com que faculdades e universidades ensinassem erros e odiassem a ciência. Este livro encheu a cristandade de seitas odiosas, cruéis, ignorantes e autoritárias. Este livro ensinou o homem a matar seus semelhantes em nome de Deus. Este livro fundamentou a Inquisição, inventou instrumentos de tortura, construiu calabouços nos quais homens bondosos apodreciam, forjou as correntes que se enferrujaram envolvendo seus corpos e erigiu os patíbulos nos quais foram mortos. Este livro colocou os justos em troncos(4)Este livro despojou a razão da mente de milhões e encheu os asilos de malucos.
Este livro fez com que pais e mães derramassem o sangue de seus bebês. Este livro era o tablado sobre o qual as mães escravas ficavam durante os leilões que as separariam de suas crianças. Este livro rendeu muito aos vendedores de escravos e transformou carne humana em mercadoria. Este livro acendeu as chamas que consumiram as “bruxas” e “feiticeiras”. Este livro transformou a escuridão na morada de fantasmas e os corpos de homens e mulheres na morada de demônios. Este livro poluiu as almas dos homens com o infame dogma da danação eterna. Este livro transformou a credulidade na maior das virtudes e a investigação no maior dos crimes. Este livro encheu nações de eremitas, monges e freiras — de gente fanática e inútil. Este livro colocou os santos ignorantes e imundos acima dos filósofos e filantropos. Este livro ensinou o homem a desprezar as alegrias desta vida para poder ser feliz na outra — a desperdiçar este mundo em nome do próximo.
Ataco este livro porque é um inimigo da liberdade humana — o maior obstáculo no progresso da humanidade.
Senhores ministros, me permitam fazer-lhes uma pergunta: como vocês podem ser pervertidos o suficiente para defenderem este livro?...

XII

A verdadeira Bíblia

Por milhares de anos o homem vem escrevendo a verdadeira 'Bíblia' — está sendo escrita dia a dia, e nunca será terminada enquanto o homem tiver vida.
Todos os fatos que conhecemos — os eventos verdadeiramente ocorridos; todas as descobertas e invenções; todas as maravilhosas máquinas cujas engrenagens parecem ter vida própria; todos os poemas; todas as joias do intelecto; todas as flores do coração; todas as canções de amor — as tristes e as alegres; os grandes dramas da imaginação; as admiráveis pinturas — verdadeiros milagres da forma e da cor, da luz e da sombra; as maravilhosas esculturas que parecem respirar; os segredos contados pelas rochas e pelas estrelas, pelo pó e pelas flores, pela chuva e pela neve, pelo frio e pelo fogo, pelas correntes de ar e pela areia do deserto, pela altura das montanhas e pelas ondas do mar.
Toda a sabedoria que prolonga e enobrece a vida, que previne e cura doenças, que conquista a dor; todas as leis perfeitas e justas que guiam e modelam nossas vidas; todos os pensamentos que alimentam as chamas do amor; a música que transfigura, arrebata e enfeitiça; as vitórias do coração e da mente; os milagres que mãos construíram; as sábias e hábeis mãos daqueles que trabalharam por suas esposas e filhos; as histórias sobre feitos nobres, sobre homens bravos e produtivos, sobre o amor de esposas leais, sobre o amor incondicional das mães, sobre os conflitos em nome da justiça, sobre os sacrifícios em nome da verdade, sobre tudo de melhor que os homens e mulheres do mundo disseram, pensaram e fizeram através dos anos.
Estes tesouros do coração e do intelecto são as verdadeiras 'Sagradas Escrituras' da raça humana.

Notas do tradutor

As partes retiradas da Bíblia estão em itálico.
A versão original de Sobre a Bíblia Sagrada (About the Holy Bible) não traz o capítulo ou o versículo em que se encontram as passagens aludidas ou transcritas, por isso, quando entendido necessário, a fim de agilizar as consultas, foram adicionados, entre parênteses, links que conduzem diretamente ao capítulo em questão.
  1. No original aparece capítulo 17, mas na realidade o verso citado encontra-se no capítulo 18.
  2. O original diz quatro olhos, mas em Zacarias 3:9 é dito que este número é sete.
  3. Joseph Smith, nascido em 1805, foi um “profeta” que alegou ter sido visitado aos catorze anos de idade por Deus e Jesus Cristo, os quais incumbiram-no de restaurar a “verdadeira Igreja”.
  4. Antigo instrumento de tortura, que consistia num cepo com olhais, onde se metia o pé ou o pescoço do paciente. (Dic. Aurélio)
  5. Cavalo de madeira, no qual se torturavam os acusados ou condenados. (Dic. Aurélio)
  6. Cerimônia em que se proclamavam e executavam as sentenças do Tribunal da Inquisição, e na qual os penitenciados ou abjuravam os seus erros, ou eram condenados ao suplício da fogueira. (Dic. Aurélio)
  7. Estrado ou lugar onde os condenados sofrem a pena capital (forca, guilhotina, decapitação). (Dic. Aurélio)
  • autor: Robert G. Ingersoll
  • tradução: André Díspore Cancian
(Fonte: Site Ateus.Net)