Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Por que a rosa não mais floresce? (Rubem Alves)

(Continuação da obra "O amor que acende a lua", de Rubem Alves)


Por que a rosa não mais floresce?

O padre [vide capítulo anterior] disse que foi a falta de desejo honesto de ser feliz. O padre estava errado. A rosa que amamos pode deixar de florescer a despeito dos nossos mais sinceros esforços.  Há algo trágico no poema de Cassiano Ricardo:  
Por que tenho saudade de você,
no retrato, 
ainda que o mais recente? 
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove, 
se você mesma está presente?   

Quando li esse poema pela primeira vez tive a impressão de que ele estava brincando. Agora eu o leio como um lamento. Como eu amo você! Quem ama quer estar junto, segurar as mãos, ficar olhando para o rosto. Mas eu não sinto isso quando estou com você - eu não o encontro em você. Encontro no seu retrato. Olho para você, do outro lado da mesa. E me lembro do seu retrato. O retrato! Olho o seu retrato e sinto saudades.

O retrato é o lugar da ausência. Barthes diz que aquilo que todos os retratos retratam é a morte: o que deixou de ser, o que não é mais. O tempo do retrato é um passado irrecuperável.

Amo um objeto que não tem mais existência: a sua imagem no retrato, morta, embora você mesma esteja presente. Meu amor mora num passado sem volta. Sendo esse o caso, não amo você, presente, diante de mim, do outro lado da mesa.

A rosa florescia. Por que deixou de florescer? Talvez o amor não passe de uma deliciosa ilusão que se realiza em momentos sagrados, raros. Quando ele acontece é aquela felicidade imensa, aquela certeza de eternidade. Ah! Como os apaixonados desejam sinceramente que aquela felicidade não tenha fim! Mas o amor, pássaro, de repente bate as asas e voa...

Brincando, faz tempo, eu sugeri que um casamento que se baseasse no amor teria de ser efêmero porque o amor é sentimento, e os sentimentos não podem ser transformados em monumentos.

É o evangelho que diz. Deus é amor. E diz também que Deus é "vento que sopra onde quer, sem que saibamos donde vem nem para onde vai". 

Nos sonhos a imagem da casa freqüentemente corresponde ao corpo. Jesus, numa parábola, compara o corpo a uma casa vazia que, por estar vazia, foi invadida por demônios sem-teto.

As casas são comoventes. Uma das razões do meu amor pelas pinturas de Larsson é que ele pinta casas, com fumaça saindo pela chaminé, cozinhas, gatos, galinhas. Comovem-me especialmente as casas velhas - pelas estórias que elas contam. Sim, casas contam estórias, ou acontecidas ou por acontecer.

As casas estão ligadas ao amor. "Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que - coitado! - de saudade já morreu".

O amor por uma pessoa começa do mesmo jeito como começa o amor por uma casa. Vem primeiro o visível: a gente vê a casa, a gente vê um rosto, um corpo. E aquele sentimento de querer morar naquela casa, de querer morar naquele corpo...

O que se imagina não pode se comparar ao que se vê. O que se vê é apenas um ponto em torno do qual a imaginação pinta a cena de felicidade. Sim, quero morar na casa, essa casa que vejo, de paredes brancas e janelas azuis porque estou amando tudo aquilo que acontecerá nela. Amo a casa de paredes brancas e janelas azuis pelos sonhos que a envolvem.

Os apaixonados não sabem que cada casa de paredes brancas e janelas azuis é uma pensão. Pensões freqüentemente se anunciam como "familiares", lugares de respeito. O dono até pode rejeitar um possível hóspede.

Com o corpo não é assim. Os hóspedes já estão lá, todos com a mesma cara, mas cada um de um jeito: um professor sério, uma criança que brinca, um avô carinhoso, um sedutor de fala mansa, um pecador arrependido, um poeta deprimido, um sargento autoritário, uma criança birrenta, um órfão abandonado, um sabe-tudo que só fala e não escuta, um debochado, um torturador que sabe onde dói mais, um assassino que só não mata por medo, um ser monstruoso, mistura de bruxa e demônio. Todos nos seus quartos. Normalmente não aparecem.

Esse rol de hóspedes - eles não se encontram todos na pensão. Apenas alguns - o que é suficiente. O dono da pensão - que se chama "eu" - se esforça por mantê-los quietos.

Alguns, ele gosta que apareçam. São seres civilizados. Confirmam o caráter "familiar" da pensão.

Outros, quando aparecem, é como se o inferno acontecesse. Trancam o dono da pensão (o padre o chamaria de "razão") num quarto, e estabelecem o horror-terror. É a gritaria, são as ofensas, os palavrões, a ironia cortante, as agressões, a violência.

Os demônios têm um conhecimento preciso dos lugares a serem tocados. A pensão - paredes brancas e janelas azuis - se transforma num lugar infernal. (São nesses momentos que acontecem as tragédias. Crimes. Vem o julgamento. Mas aquele que é julgado, odiado e executado não é o criminoso. É o dono da pensão, pessoa pacífica e de bons sentimentos. O criminoso está dormindo, numa cela, no porão da pensão).

Passada a orgia infernal, os demônios exauridos e satisfeitos retornam às suas celas, deixando os destroços para serem arrumados pelo dono da pensão.

É o momento da tristeza e da vergonha. Como explicar que aquela pensão de paredes brancas e janelas azuis, anunciada como lugar sagrado - à porta, "Lar, doce lar"; no hall de entrada uma Bíblia aberta! -, de repente se transforme num lugar infernal?

Casamento é uma fusão de pensões. Para os apaixonados não é pensão: é a casinha pequenina, paredes brancas e janelas azuis, onde o nosso amor nasceu. O morador, a moradora: Que lindo sorriso! Que voz mansa! Que boca excitante! Ignoram que a casa é uma pensão onde moram muitos hóspedes estranhos que, sem nenhum aviso prévio, à menor provocação, acordam e fazem o inferno.

Passada a vergonha vêm os pedidos de perdão, as promessas de que aquilo jamais irá se repetir, as juras de amor eterno. Assim falam as boas intenções da impotente razão.  Mas as feridas produzidas não podem ser esquecidas. Somente Deus tem poder suficiente para esquecer. E o rosto - aquele mesmo que se encontra do outro lado da mesa, que outrora era lugar da imagem feliz - está irremediavelmente marcado: naquele rosto angelical foi vista a imagem que não se queria ver. O que se viu não pode ser esquecido. 

É. Tem razão o poeta: "O amor é a coisa mais triste quando se desfaz." É triste por causa do retrato: porque ele faz lembrar uma felicidade que se teve e que não se tem mais. O retrato é uma sepultura.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Pensamentos - DCCXXIV


"O professor medíocre descreve,
o professor bom explica,
o professor ótimo demonstra,
e o professor fora de série inspira"

(William Arthur Ward)

Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector) - 19


(Conclusão da obra "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector)

A VIAGEM 

IMPOSSÍVEL EXPLICAR. Afastava-se aos poucos daquela zona onde as coisas têm forma fixa e arestas, onde tudo tem um nome sólido e imutável. Cada vez mais afundava na região líquida, quieta e insondável, onde pairavam névoas vagas e frescas como as da madrugada. 

Da madrugada erguendo-se no campo. Na fazenda do tio acordara no meio da noite. As tábuas da casa velha rangiam. De lá do primeiro andar, solta no espaço escuro, afundara os olhos na terra, procurando as plantas que se torciam enrodilhadas como víboras. Alguma coisa piscava na noite, espiando, espiando, olhos de um cão deitado, vigilante. O silêncio pulsava no seu sangue e ela arfava com ele. 

Depois a madrugada nasceu sobre as campinas, rosada, úmida. As plantas eram de novo verdes e ingênuas, o talo fremente, sensível ao sopro do vento, nascendo da morte. Já nenhum cão vigiava a fazenda, agora tudo era um, leve, sem consciência. Havia então um cavalo solto na campina quieta, a mobilidade de suas pernas apenas adivinhada. 

Tudo impreciso, mas de súbito na imprecisão encontrara uma nitidez que ela apenas adivinhara e não pudera possuir inteiramente. Perturbada pensara: tudo, tudo. As palavras são seixos rolando no rio. Não fora felicidade o que sentira então, mas o que sentira fora fluido, docemente amorfo, instante resplandecente, instante sombrio. 

Sombrio como a casa que ficava na estrada coberta de árvores folhudas e poeira do caminho. Nela morava um velho descalço e dois filhos, grandes e belos reprodutores. O mais novo tinha olhos, sobretudo olhos, beijara-a uma vez, um dos melhores beijos que jamais sentira, e alguma coisa erguia-se no fundo de seus olhos quando ela lhe estendia a mão. 

Essa mesma mão que agora repousava sobre o espaldar de uma cadeira, como um pequeno corpinho aparte, saciado, negligente. Quando era pequena costumava fazê-la dançar, como a uma mocinha tenra. Dançara-a mesmo para o homem que fugia ou fora preso, para o amante — e ele fascinado e angustiado terminara por apertá-la, beijá-la como se realmente a mão sozinha fosse uma mulher. 

Ah, vivera muito, a fazenda, o homem, as esperas. Verões inteiros, onde as noites decorriam insones, deixavam-na pálida, os olhos escuros. Dentro da insônia, várias insônias. Conhecera perfumes. Um cheiro de verdura úmida, verdura aclarada por luzes, onde? Ela pisara então na terra molhada dos canteiros, enquanto o guarda não prestava atenção. Luzes pendendo de fios, balançando, assim, meditando indiferentes, música de banda no coreto, os negros fardados e suados. As árvores iluminadas, o ar frio e artificial de prostitutas. 

E sobretudo havia o que não se pode dizer: olhos e boca atrás da cortina espiando, olhos de um cão piscando a intervalos, um rio rolando em silêncio e sem saber. Também: as plantas crescendo de sementes e morrendo. Também: longe em alguma parte, um pardal sobre um galho e alguém dormindo. Tudo dissolvido. A fazenda também existia naquele mesmo instante e naquele mesmo instante o ponteiro do relógio ia adiante, enquanto a sensação perplexa via-se ultrapassada pelo relógio.

Dentro de si sentiu de novo acumular-se o tempo vivido. A sensação era flutuante como a lembrança de uma casa em que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da casa dentro de si, em relação ao pai batendo na máquina, em relação ao quintal do vizinho e ao sol de tardinha. Vago, longínquo mudo. 

Um instante... acabou-se. E não podia saber se depois desse tempo vivido viria uma continuação ou uma renovação ou nada, como uma barreira. Ninguém impedia que ela fizesse exatamente o contrário de qualquer das coisas que fosse fazer: ninguém, nada... não era obrigada a seguir o próprio começo... Doía ou alegrava? No entanto sentia que essa estranha liberdade que fora sua maldição, que nunca ligara nem a si própria, essa liberdade era o que iluminava sua matéria. E sabia que daí vinha sua vida e seus momentos de glória e daí vinha a criação de cada instante futuro. 

Sobrevivera como um germe ainda úmido entre as rochas ardentes e secas, pensava Joana. Naquela tarde já velha — um círculo de vida fechado, trabalho findo —, naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperanças.

Amava sua escolha e a serenidade agora alisava-lhe o rosto, permitia vir à sua consciência momentos passados, mortos. Ser uma daquelas pessoas sem orgulho e sem pudor que a qualquer instante se confiam a estranhos. Assim antes da morte ligar-se-ia à infância, pela nudez. Humilhar-se afinal. Como pisar-me bastante, como abrir-me para o mundo e para a morte?

O navio flutuava levemente sobre o mar como sobre mansas mãos abertas. Inclinou-se sobre a murada do convés e sentiu a ternura subindo vagarosamente, envolvendo-a na tristeza. No convés os passageiros andavam de um lado para outro, suportando mal a espera do lanche, ansiosos por reunir o tempo ao tempo. Alguém disse, a voz magoada: olhe a chuva! Realmente aproximava-se a névoa cinzenta, olhos cerrados. Daí a pouco viam-se pingos largos caírem sobre as tábuas do convés, o barulho de alfinetes tombando, e sobre a água, furando-lhe imperceptivelmente a superfície. O vento esfriou, levantaram-se as golas dos casacos, os olhares subitamente inquietos, fugindo da melancolia como Otávio com seu medo de sofrer. De profundis...

De profundis? Alguma coisa queria falar... De profundis... Ouvir-se! prender a fugaz oportunidade que dançava com os pés leves à beira do abismo. De profundis. Fechar as portas da consciência. A princípio perceber água corrompida, frases tontas, mas depois no meio da confusão o fio de água pura tremulando sobre a parede áspera. De profundis. Aproximar-se com cuidado, deixar escorrerem as primeiras vagas. De profundis...

Cerrou os olhos, mas apenas viu penumbra. Caiu mais fundo nos pensamentos, viu imóvel uma figura magra debruada de vermelho-claro, o desenho com um dedo úmido de sangue sobre um papel, quando se arranhara e enquanto o pai procurava iodo. No escuro das pupilas, os pensamentos alinhados em forma geométrica, um superpondo-se ao outro como um favo de mel, alguns casulos vazios, informes, sem lugar para uma reflexão. Formas fofas e cinzentas, como um cérebro. Mas isso ela não via realmente, procurava imaginar talvez. De profundis. 

Vejo um sonho que tive: palco escuro abandonado, atrás de uma escada. Mas no momento em que penso "palco escuro" em palavras, o sonho se esgota e fica o casulo vazio. A sensação murcha e é apenas mental. Até que as palavras "palco escuro" vivam bastante dentro de mim, na minha escuridão, no meu perfume, a ponto de se tornarem uma visão penumbrosa, esgarçada e impalpável, mas atrás da escada. Então terei de novo uma verdade, o meu sonho. De profundis. 

Por que não vem o que quer falar? Estou pronta. Fechar os olhos. Cheia de flores que se transformam em rosas à medida que o bicho treme e avança em direção ao sol do mesmo modo que a visão é muito mais rápida que a palavra, escolho o nascimento do solo para... Sem sentido. De profundis, depois virá o fio de água pura. 

Eu vi a neve tremer cheia de nuvens rosadas sob a função azul das vísceras cobertas de moscas ao sol, a impressão cinzenta, a luz verde e translúcida e fria que existe atrás das nuvens. Fechar os olhos e sentir como uma cascata branca rolar a inspiração. De profundis. 

Deus meu eu vos espero, Deus vinde a mim. Deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura. Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus por que não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? 

Deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco e o que me resta para viver no entanto continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim? que não sou nada, dai-me o que preciso. 

Deus, dai-me o que preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós...

Agora os pensamentos já se solidificavam e ela respirava como um doente que tivesse passado pelo grande perigo. Alguma coisa ainda balbuciava dentro dela, porém seu cansaço era grande, tranqüilizava seu rosto em máscara usada e de olhos vazios. Das profundezas a entrega final. O fim...

Mas das profundezas como resposta, sim como resposta, avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como se a tivessem sacudido, alegria rutilando em seu peito intensa, insuportável, oh o turbilhão. Sobretudo aclarava-se aquele movimento constante no fundo do seu ser — agora crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva procurando libertar-se da água e respirar. 

Também como voar, sim como voar... andar na praia e receber o vento no rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha... Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar, entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas cristalinas, tintilantes, faiscando na sua alma... 

Não havia desencanto ainda diante de seus próprios mistérios, ó Deus, Deus, Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação estaria em mim, mas para abafar-me com tua mão pesada, com o castigo, com a morte, porque sou impotente e medrosa em dar o pequeno golpe que transformará todo o meu corpo nesse centro que deseja respirar e que se ergue, que se ergue... o mesmo impulso da maré e da gênese, da gênese! o pequeno toque que no louco deixa viver apenas o pensamento louco, a chaga luminosa crescendo, flutuando, dominando. 

Oh, como se harmonizava com o que pensava e como o que pensava era grandiosamente, esmagadoramente fatal. Só te quero, Deus, para que me recolhas como a um cão quando tudo for de novo apenas sólido e completo, quando o movimento de emergir a cabeça das águas for apenas uma lembrança e quando dentro de mim só houver conhecimentos, que se usaram e se usam e por meio deles de novo se recebem e se dão coisas, oh Deus.

O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. 

Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a... 

Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. 

E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. 

* * * 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A Rosa não mais Floresce (Rubem Alves)

(Continuação da obra "O amor que acende a lua", de Rubem Alves)

pintura de Carl Larsson

A Rosa não mais Floresce 

Faz uns meses, viajei pela Europa por duas semanas. Visitei os lugares que os turistas visitam, vi as obras de arte que os turistas vêem. Coisas lindas, comoventes. Mas não ficaram. Foram logo esquecidas. O que ficou foi um livro que encontrei numa livraria. Comprei. Pinturas e desenhos de um artista que eu não conhecia, Carl Larsson, sueco, nascido em 1853.

O filósofo alemão Ludwig Feuerbach diz que a nossa imagem aparece espelhada naquilo que vemos. Ao ver as telas de Larsson descobri quem sou. Reconheço o gênio de pintores modernos como Picasso, Dalí, Miró. Inventaram novas linguagens plásticas. Gênios. Mas eu nunca me vejo refletido nelas. Suas obras me causam assombro. Mas não as amo. Não quereria viver dentro delas.

As telas de Larsson, ao contrário, me dariam felicidade se eu estivesse dentro delas. São cenas de felicidade infantil: uma casa com fumaça saindo da chaminé, fogão de ferro com gato e panelas, um quintal com galinhas deitadas no capim, um cachorro diante da porta, crianças nuas nadando, menina com um gato, menina debaixo da mesa, menina pescando, a família colhendo maçãs...

Os críticos de arte, ao examinar uma tela, trazem consigo uma parafernália de informações sobre estilos, influências, técnicas, linguagens. Eles são seres de "consciência crítica". Eu, ao contrário, esqueço-me de tudo o que sei ao olhar as telas de Larsson. Viro criança novamente, consciência totalmente ingênua. Nada tenho a ver com os críticos de arte e especialistas em estética que estão em busca das novas linguagens da pintura. Eu gostaria mesmo é de viver dentro das cenas simples que Larsson pinta com precisão e olhar amoroso. Sou um romântico.

"No princípio era uma cena de felicidade". A alma, no seu lugar mais profundo, é uma cena de felicidade. Viver é sair por aí, ou procurando a cena feliz ou tentando construir a cena feliz.

O amor por um homem ou por uma mulher acontece quando, repentinamente, ao ver um rosto, tem-se a impressão de havê-lo visto lá, dentro da cena da alma:
"Quando te vi amei-te já muito antes,
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci para ti antes de haver o mundo." 
(Fernando Pessoa)

Amamos uma pessoa porque a sua imagem se insere na cena de felicidade que havia na memória "antes de haver o mundo". A paixão acontece quando o rosto real à minha frente coincide, na minha fantasia, com a imagem perdida que busco (para completar a cena).

Os dois, à mesa do restaurante. A comida e a bebida são desculpas. Os dois estão em busca da imagem perdida. Os rostos são os mesmos. Eles se reconhecem. Os retratos o comprovam. Mas as imagens amadas fugiram dos rostos conhecidos, os mesmos rostos. Os dois, silenciosamente (falta-lhes coragem para falar), fazem um para o outro a pergunta que Cecília Meireles fazia à sua avó morta: "Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?" Sim, para onde foi a imagem que me fez feliz, a imagem que morava nesse rosto?

Agora, por mais que examinem, não conseguem encontrar sinais da sua presença. O rosto está opaco. Nesse mesmo rosto, agora, mora uma outra imagem, me vejo refletido nelas. Agora, por mais que examinem, não conseguem encontrar sinais da sua presença. O rosto está opaco. Nesse mesmo rosto, agora, mora uma outra imagem, estranha, feita com materiais desumanos: pedra, gelo, fogo, deboche, alfinetes, areia. Contemplam o rosto conhecido e o desconhecem. Não encontram nele a imagem amada.

O rosto dói: é o lugar da ausência da imagem que compunha a cena de felicidade que existia na alma "antes de haver o mundo". A cena de felicidade está rasgada. O Paraíso foi perdido.

Era o casamento. Igreja cheia. O padre falava aos noivos e aos convidados sobre a felicidade. Dizia ele, eloqüente cantante (sem saber que a eloqüência caiu de moda, há muito): "Desafio qualquer pessoa deste auditório a me demonstrar que, se duas pessoas tiverem o desejo sincero de felicidade, elas não conseguirão ser felizes."

Tive de me conter para não aceitar o desafio. Iria estragar a festa. O padre recitava psicologia vulgar: querer é poder! Não havia prestado atenção nem em Freud nem em São Paulo apóstolo, que dizia o contrário. "Querer o bem está em mim, mas não sou capaz de fazê-lo. Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero" (Romanos 7:18-19).

Sim, eu quero ser feliz mas não consigo. Estrago tudo! O padre, educado na filosofia, acreditava que a vida, inclusive o amor, se faz com a razão. De fato, muitas coisas se fazem com a razão e sem ela não é possível viver.

O casamento - duas pessoas vivendo o cotidiano - só sobrevive com o auxílio da razão. O cuidado com a casa, o cuidado com as crianças, o supermercado, as roupas, a comida, o trabalho, a diversão: sem a ordem da razão o cotidiano vira atrito e conflito.

Se o casamento fosse uma empresa a razão bastaria. Mas empresa bem-sucedida não dá a felicidade que o padre prometia. O padre não sabia: a razão nada sabe sobre felicidade. A razão é como aqueles gênios da garrafa. Eles não têm vontade própria; não têm imaginação. Só têm poder. Obedecem às ordens do amo. Pois a razão é assim: ela só sabe obedecer às ordens do coração. O coração, ele mesmo, desconhece a razão. "A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce." Assim disse o místico Ângelus Silésius. O amor é como a rosa.

Estão os dois, à mesa do restaurante. Olham-se. Seus olhos não são os olhos ingênuos que contemplam as cenas de felicidade das telas de Larsson. A cena, refletida nos olhos do outro, não é uma cena de felicidade. Seus olhos procuram a felicidade que se perdeu. Mas como se perdeu? O rosto não é o mesmo, aquele mesmo rosto que, jurei para mim mesmo, haveria de amar para sempre? Olham um para o outro (tantas vezes fizeram isso!) - e fica não dita a pergunta que nenhum tem coragem de fazer: "Que é que fez com que a rosa que florescia deixasse de florescer? Que é que fez com que a rosa que só florescia rosas, agora floresça espinhos?"

O jantar termina. E cada um vai para a sua solidão. Lá, longe do outro, é finalmente possível amá-la. Na distância o outro não perturba a sua bela imagem. Ela está no retrato, como sempre esteve, imperturbada, sempre a mesma, congelada eternamente. E cada um sorri.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

É melhor aos homens não fazerem mais filhos

- Artigo de Marten Gantelius -


"Se você ainda quiser ter crianças 
[na Europa ou nos EUA], 
pelo menos você já conhece os riscos. 
É sua escolha.
Eu recomendaria uma grande campanha 
em que jovens homens seriam incitados seriamente 
a se esterilizar 
(com base nos fatos verificados na realidade existente 
e suas consequências)"

A vasta maioria dos pais nos países ocidentais, por centenas de anos, amaram suas crianças e estiveram preparados para proteger a eles e suas mães com a própria vida. Atualmente, esse fato torna os pais muito vulneráveis nessas mesmas sociedades onde a criminalidade feminina contra crianças e pais é sistematizada e recompensada. A descrição a seguir pode parecer chocante a alguns, entretanto, é uma infeliz verdade, e tem sido por várias décadas. O exemplo a seguir vem da Suécia e poderia ser aplicado — com considerável amplitude — à toda Europa (e América do Norte). 
O objetivo da indústria da legislação familiar é aumentar seu faturamento. Ao contrário de negócios como Volvo e Stora Enzo, a indústria da legislação familiar [em tese] não tem que lucrar. Os departamentos que lidam com leis familiares nos municípios suecos são o motor e o coração dessa indústria. “Com a melhor das intenções em relação às crianças” quer na verdade dizer “a maior quantidade possível de danos às crianças, adultos e sociedade”. Essas são as metas que essa indústria realmente deseja atingir.
Quando você entender isso, as ações tomadas pelos partidos envolvidos tornar-se-ão completamente lógicas. Por exemplo: o sistema legal, com algumas poucas exceções, favorece aqueles que violam a lei e pune aqueles que seguem-na. Dentre outros participantes dessa indústria estão a Agência Sueca de Seguridade Social, a polícia (nota de rodapé: vários oficiais de polícia honestos se recusam a participar das atividades dessa indústria, tais como levar crianças para os cuidados do Estado, embora não existam muitos oficiais dispostos a fazer o mesmo!), Autoridade Sueca de Acusação (Åklagarmyndigheten), o sistema legal, a Agência Sueca de Impostos, a Administração Sueca de Supervisão das Leis (Kronofogdemyndigheten), advogados, psicólogos, psiquiatras, consultores, o Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar, o Ombudsman de Crianças, o Ombudsman da Justiça, BRIS (Sociedade de Direitos Infantis) — e provavelmente esqueci de vários outros!
Organizações como abrigos para mulheres, centros para homens, organizações pelos direitos dos pais e organizações pelos direitos das mães aumentam a polarização dos sexos. Isso está totalmente de acordo com o que se pretende nessa indústria. Ela dá ao público a impressão de estar agindo “com a melhor das intenções em relação às crianças” e que a Suécia é uma nação governada pelo Estado de Direito. Que assim seja é o desejo de todos os cidadãos de bem e cumpridores das leis. Essa indústria se desenvolve e refina a linguagem da violência, de maneira que a vítima de um crime é atacada enquanto o perpetrador é defendido. Neste caso, o silêncio pode também ser usado para facilitar a desumanização da vítima. Pessoas de bem e suas respectivas crianças que entram no caminho dessa indústria não têm chance e acabam completamente destruídas. Vários — e em particular pais que eram bons — acabam como recipientes de ajuda governamental e seus filhos acabam por se tornar, em mais de uma maneira, prejudicados pelo resto da vida. As crianças afetadas mais profundamente sofrem de SAP (Síndrome de Alienação Parental, intimamente ligada à Síndrome de Estocolmo). O dano que essas crianças afetadas por SAP causarão à sociedade contribuirá inevitavelmente para o aumento do faturamento dessa indústria. E já há na sociedade sueca várias gerações de crianças afetadas por SAP! Isso vai de acordo com os desígnios dessa indústria.
O assistente social que quiser ajudar pessoas vulneráveis e seguir a lei não deveria cogitar a possibilidade de trabalhar no serviço de bem-estar social sueco. Essa pessoa estaria trabalhando contra os propósitos da indústria. Uma anedota de 1991 serve para ilustrar: sentei numa mesa de um café num centro cívico em Skåne e não pude deixar de ouvir uma conversa entre mulheres do Departamento de Direito Familiar. A secretária do referido departamento disse: “Levaremos mais algumas crianças para o cuidado estatal e assim poderemos subir de cargo!”. Ao ouvir isso, todas as demais mulheres riram copiosamente.
Não possuo o mesmo senso de humor, mas essas aí são verdadeiras representantes da indústria. Essa indústria é forte e pouco é afetada pela situação econômica. Em tempos de crise, são os outros que têm de fazer economias. Por outro lado, os agentes dessa indústria se beneficiam das crises sociais. Eles têm dinheiro quando ninguém mais tem e podem comprar a preço de banana quando o mercado está no ponto mais baixo (isso aconteceu em 1992). Contudo, não é a indústria que cria essas crises, são os políticos e bancos. 
Temos aqui algo muito próximo da descrição feita por Stephen Baskerville da situação americana (v. http://www.jrnyquist.com/stephen-baskerville.html — podcast em que o Dr. Baskerville chama este mesmo fenômeno de “O Regime de Divórcio”. Baskerville também é autor de Taken Into Custody). Quão extenso é o problema dos Estados Unidos? Quantificar isso não é simples, pois todos os dados oficiais contêm dezinformatsiya — e a respeito da Suécia, eu fiz minha própria investigação. Em 1991 na Corte Distrital de Lund, houve 900 disputas de guarda. Nenhum (zero) pai ganhou. Pude contar o número de crianças envolvidas e relacioná-lo ao número de habitantes vivendo nos municípios abrangidos por essa corte. Um amigo meu, que trabalhava à época na administração do condado de Malmö, deu o número secreto de crianças removidas à força do condado. Como a situação era a mesma no país todo eu pude extrapolar esses números e aplicá-los no cenário geral. Além disso, há uma assombrosa quantia de pais que desistiram sem lutar. (Aliás, eu disse aos meus clientes “você não vai vencer e suas crianças ficarão ofendidas”. Eu os encorajei a lutar em nome do respeito próprio.)
Uma anedota relativa a essas quantias assombrosas: um dos meus amigos era na Holanda um oficial de alto escalão bem pago e amava suas crianças. Um dia ele voltou do seu trabalho e encontrou um bilhete em cima da mesa da cozinha: “Mudei com as crianças”. Nenhum aviso prévio que ele tenha notado. Isso o destruiu: ele perdeu seu emprego e tudo o mais. De todos os lugares, ele escolheu Estocolmo para começar do zero e não fazia ideia de onde estavam suas crianças. 
Eis como eu cheguei à minha estimativa de 30.000 crianças por ano na Suécia, que pode até ser considerada uma estimativa baixa. Por ter razões para acreditar que a situação é a mesma na Europa, eu poderia generalizar e chegar ao número de 2.5 milhões de crianças por ano. Com efeito, é de menor importância se o número correto é dois ou quatro milhões de crianças por ano. Não há dúvidas que existe um genocídio contínuo, gigante e escondido. Uso o termo “genocídio” intencionalmente para sublinhar a destruição geracional que vem acontecendo. 
[Nota de J.R. Nyquist: Talvez o futuro de nações inteiras esteja ameaçado pela queda na taxa de natalidade, graças à destruição da paternidade.

Uma feminista pode acabar se tornando um tipo especial de mãe e, como um islâmico, seus métodos são aqueles dos agressores. Você não impede um islâmico ou uma feminista com fatos ou argumentos sofisticados. Isso não funcionou ao longo de 1400 anos com os islâmicos e não funcionou com as feministas nos últimos 40. A única coisa que um agressor entende é o armamento. Quão bem armada está a futura vítima? Os israelenses desenvolveram uma arma chamada “Domo de Ferro”. É uma arma estritamente defensiva que visa proteger os civis do seu país de mísseis da Faixa de Gaza.
O jovem de hoje [na Europa e nos EUA], se quiser se sentir seguro, ele será tentado a alugar uma vaga num banco de sêmen e vai se esterilizar. É uma cirurgia simples e, se ele mudar de ideia, pode ser revertida com 50% de chance de ter de volta sua fertilidade. Em si mesma, essa sugestão é assustadora e tem sérias implicações para o futuro. Essa perspectiva é “imoral” ou uma maneira de “render-se”? Na verdade nenhuma. Devemos ponderar cuidadosamente: Desde quando tornou-se imoral proteger-se contra a criminalidade? É totalmente legal e defensável.
Você pode fazer objeção e dizer que essa maneira de se posicionar feriria mulheres e mães amáveis e inocentes, mas estamos falando de um sistema em que mulheres (enquanto indivíduo) não são criticadas (pelo que se tem notícia). Pode-se até argumentar que somos todos culpados de “consentir com o silêncio”. Vendo o sofrimento de tantas crianças e pais com suas vidas arruinadas, eu recomendaria veementemente contra o risco de trazer crianças ao mundo para sofrer tal crueldade.
O que vem a seguir é o discurso de uma mulher para um homem que ela “ama”:
A partir do momento que eu engravidei eu tenho poder total sobre você — independentemente se estamos casados ou vivendo juntos. Esse poder aumenta exponencialmente a cada criança que temos.
Posso abduzir as crianças a qualquer hora e me certificar de que você jamais as verá de novo. Você ter sido responsável por elas por tantos anos não ajudará você: será justamente o contrário. Toda a comunidade (com o serviço social na vanguarda) dará apoio a mim. Posso fazer as crianças odiarem você e seus pais (Síndrome de Alienação Parental) e assim fazer com que você perca qualquer esperança de correspondência ou que elas procurem você quando elas crescerem e tornarem-se adultas. Você evidentemente será alvo de um mandado de segurança que, se violado, levará você à prisão. Mesmo que eu machuque fisicamente as crianças e de maneira séria e alguém me denunciar, você não terá chance. Se as crianças forem tomadas de mim, elas não serão dadas a você, pois elas irão morar com pais adotivos, e você — na qualidade de pai que não possui a guarda — não receberá qualquer informação dos serviços sociais. 
Posso, sem qualquer risco, acusá-lo falsamente de agressão, maus tratos às crianças, estupro e incesto. Além disso, posso acusá-lo de um monte de crimes sem ser punida por isso, como por exemplo roubo. Como você não é abstêmio, você também será classificado como alcoólatra. Na Suécia há um risco considerável de ir para a prisão mesmo sendo inocente. Mesmo que você seja absolvido, você ficará marcado para sempre. “Não há fumaça sem fogo.”
E você terá de pagar! A autoridade judicial não mostra clemência quando se trata de pensão alimentícia. Eles não hesitarão um único segundo em levar o que quer que você possua caso você não pague: seja seu flat, sua casa de verão...
Se você falar muito dessas injustiças no seu trabalho, você arriscará perdê-lo sem chance de conseguir outro. Com muita sorte, se você conseguir um emprego, será um que não baterá com suas qualificações. Se você for autônomo, você será punido pela própria clientela que não comprará nada de você — independentemente do quão bom seus produtos sejam ou quanto você cobra por eles.
Ninguém irá ajudá-lo — nem mesmo seus amigos mais “próximos”. Ao contrário, todos atacarão você como piranhas.
Suas finanças violentamente enfraquecidas tornarão difícil a possibilidade de você começar um novo relacionamento.
Todos os anos, por volta de 10.000 mães suecas agem dessa maneira em maior ou menor grau. Muitos dos pais afetados por isso tornam-se alcoólatras ou drogados e acabam na sarjeta pelo resto de suas vidas, ou cometem suicídio.
Não há garantias num acordo com uma mulher. Ela pode rompê-lo a qualquer momento. E se, por exemplo, uma psicose pós-parto — algo que afeta uma em cada mil mulheres — mudar o estado mental dela, a situação acabará mal para o pai e para as crianças.
Se você ainda quiser ter crianças [na Europa ou nos EUA], pelo menos você já conhece os riscos. É sua escolha.
Eu recomendaria uma grande campanha em que jovens homens seriam incitados seriamente a se esterilizar (com base nos fatos verificados na realidade existente e suas consequências). Esterilizar-se [na Europa ou nos EUA] é o “Domo de Ferro” legal perfeito. Isso pode levar as mulheres a agir. Só os resultados importam. Só podemos baixar a guarda quando as cem primeiras e piores mulheres estupradoras de crianças estiverem atrás das grades e suas crianças estiverem de volta aos braços dos seus pais.

Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector) - 18


(Continuação da obra "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector)

A PARTIDA DOS HOMENS 

No DIA SEGUINTE ela recebeu um bilhete do homem, despedindo-se: 
"Tive que ir embora por um tempo, tive que ir, vieram me buscar, Joana. Eu volto, eu volto, espere por mim. Você sabe que não sou nada, eu volto. Eu nem chegaria a ver mesmo e a ouvir se não fosse você. Se me abandonar, ainda vivo um pouco, o tempo que um passarinho fica no ar sem bater asas, depois caio, caio e morro. Joana. Só não morro agora porque volto, não posso explicar mas posso ver através de você. Deus me ajude e te ajude, única, eu volto. Nunca falei tanto a você, mas por obséquio: eu não estou quebrando a promessa, estou? Eu te entendo tanto tanto, tudo o que você precisar de mim eu tenho que fazer. O Senhor te abençoe, vai aí minha medalhinha com S. Cristóvão e Santa Teresinha."

Dobrou a carta devagar. Lembrou-se do rosto do homem, nos últimos dias, seus olhos molhados, turvos, de gato doente. E ao redor a pele escurecida e arroxeada, como um crepúsculo. 

Para onde fora? A vida dele certamente era confusa. Confusa em fatos. E de certo modo ele lhe parecia sem ligação com esses fatos. A mulher que o sustentava, aquela distração em relação a si mesmo, como quem não teve um começo nem espera um fim... 

Para onde fora? Sofrera muito nos últimos dias. Ela deveria ter-lhe falado, pretendera-o mesmo, mas depois, distraída e egoísta, esquecera.

Para onde fora? — indagou-se, os braços vazios. O turbilhão rodava, rodava, e ela era recolocada no início do caminho. Olhou o bilhete onde a letra era fina e indecisa, as frases escritas com cuidado e dificuldade. Reviu o rosto do amante e amava levemente aqueles traços claros. 

Fechou os olhos um instante, sentiu novamente o cheiro que vinha dos corredores sombrios daquela casa inexplorada, com apenas um aposento revelado, onde conhecera de novo o amor. Cheiro de maçãs velhas, doces e velhas, que vinha das paredes, de suas profundezas. Reviu a cama estreita que fora substituída por uma larga e fofa, a timidez alegre com que o homem abrira a porta nesse dia e espiara o rosto de Joana surpreendendo sua surpresa. 

O naviozinho sobre as ondas excessivamente verdes, quase submerso. Entrecerravam-se as pálpebras e o navio movia-se. Mas tudo deslizara sobre ela, nada a possuíra... 

Em resumo apenas uma pausa, uma só nota, fraca e límpida. Ela que violentara a alma daquele homem, enchera-a de uma luz cujo mal ele ainda não compreendera. Ela própria mal fora tocada. Uma pausa, uma nota leve, sem ressonância... 

Agora de novo um círculo de vida que se fechava. E ela na casa quieta e silenciosa de Otávio; sentindo sua ausência em cada lugar onde no dia anterior ainda haviam existido seus objetos e onde agora havia um vazio ligeiramente empoeirado. Bom que não o vira sair. E bom que, nos primeiros instantes, ao notar dolorosamente a sua partida, julgara ainda possuir o amante. "Ao notar a partida de Otávio" ... ? — pensou ela. Mas por que mentir? Quem partira fora ela mesma e também Otávio o sabia. 

Despia a roupa que vestira para ir ver o homem. A mulher de lábios úmidos e frouxos deveria estar sofrendo, sozinha e velha na casa grande. Joana nem sabia o nome dele... Não desejara sabê-lo, dissera-lhe: quero te conhecer por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos; nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais.

Ó tola, tola, talvez tivesse sofrido então e amado se soubesse de seu nome, de suas esperanças e dores. É verdade que o silêncio entre eles fora assim mais perfeito. Mas de que valia... Apenas corpos vivendo. Não, não, ainda melhor assim: cada um com um corpo, empurrando-o para frente, querendo sofregamente vivê-lo. Procurando cheio de cobiça subir sobre o outro, pedindo cheio de covardia astuciosa e comovente para existir melhor, melhor. 

Interrompeu-se com o vestido na mão, atenta, leve. Tomou consciência da solidão em que se achava, no centro de uma casa vazia. Otávio estava com Lídia, sentiu, foragido junto daquela mulher grávida, cheia de sementes para o mundo.

Aproximou-se da janela, sentiu frio nos ombros nus, olhou a terra onde as plantas viviam quietas. O globo movia-se e ela estava sobre ele de pé. Junto a uma janela, o céu por cima, claro, infinito. Era inútil abrigar-se na dor de cada caso, revoltar-se contra os acontecimentos, porque os fatos eram apenas um rasgão no vestido, de novo a seta muda indicando o fundo das coisas, um rio que seca e deixa ver o leito nu.

A frescura da tarde arrepiou sua pele, Joana não conseguiu pensar nitidamente — havia alguma coisa no jardim que a deslocava para fora de seu centro, fazia-a vacilar... 

Ficou de sobreaviso. Algo tentava mover-se dentro dela, respondendo, e pelas paredes escuras de seu corpo subiam ondas leves, frescas, antigas. Quase assustada, quis trazer a sensação à consciência, porém cada vez mais era arrastada para trás numa doce vertigem, por dedos suaves. Como se fosse de manhã. Perscrutou-se, subitamente atenta como se tivesse avançado demais. De manhã?

De manhã. Onde estivera alguma vez, em que terra estranha e milagrosa já pousara para agora sentir-lhe o perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um momento esperando... Era de manhã, sabia que era de manhã... 

Recuando como pela mão frágil de uma criança, ouviu, abafado como em sonho, galinhas arranhando a terra. Uma terra quente, seca... o relógio batendo tin-dlen... tin... dlen... o sol chovendo em pequenas rosas amarelas e vermelhas sobre as casas... Deus, o que era aquilo senão ela mesma? mas quando? não sempre...

As ondas cor-de-rosa escureciam, o sonho fugia. Que foi que perdi? que foi que perdi? Não era Otávio, já longe, não era o amante, o homem infeliz nunca existira. Ocorreu-lhe que este deveria estar preso, afastou o pensamento impaciente, fugindo, precipitando-se... 

Como se tudo participasse da mesma loucura, ouviu subitamente um galo próximo lançar seu grito violento e solitário. Mas não é de madrugada, disse trêmula, alisando a testa fria... O galo não sabia que ia morrer! O galo não sabia que ia morrer! Sim, sim: papai, que é que eu faço? Ah, perdera o compasso de um minueto... Sim... o relógio batera tin-dlen, ela erguera-se na ponta dos pés e o mundo girara muito mais leve naquele momento. 

Havia flores em alguma parte? e uma grande vontade de se dissolver até misturar seus fios com os começos das coisas. Formar uma só substância, rósea e branda — respirando mansamente como um ventre que se ergue e se abaixa, que se ergue e se abaixa... 

Ou estava errada e aquele sentimento era atual? O que havia naquele instante longínquo era alguma coisa verde e vaga, a expectativa da continuação, uma inocência impaciente ou paciente? espaço vazio... 

Que palavra poderia exprimir que naquele tempo alguma coisa não se condensara e vivia mais livre? Olhos abertos flutuando entre folhas amarelecendo, nuvens brancas e muito embaixo o campo estendido, como envolvendo a terra. E agora... 

Talvez tivesse aprendido a falar, só isso. Mas as palavras sobrenadavam no seu mar, indissolúvel, duras. Antes era o mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água entre cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e castanhas forrando as margens. 

Deus, como ela afundava docemente na incompreensão de si própria. E como podia, muito mais ainda, abandonar-se ao refluxo firme e macio. E voltar. Haveria de reunir-se a si mesma um dia, sem as palavras duras e solitárias... Haveria de se fundir e ser de novo o mar mudo brusco forte largo imóvel cego vivo. A morte a ligaria à infância.

Mas a grade do portão era feita por homens; e lá estava brilhando sob o sol. Ela notou-a e no choque da súbita percepção era de novo uma mulher. Estremeceu perdida do sonho. Quis voltar, quis voltar. Em que pensava? Ah, a morte a ligaria à infância. A morte a ligaria à infância. Mas agora seus olhos, voltados para fora, haviam esfriado, agora a morte era outra, desde que homens faziam a grade do portão e desde que ela era mulher... A morte... E de súbito a morte era a cessação apenas... Não! gritou-se assustada, não a morte.

Corria agora à frente de si mesma, já longe de Otávio e do homem desaparecido. Não morrer. Porque... na verdade onde estava a morte dentro dela? — indagou-se devagar, com astúcia. Dilatou os olhos, ainda não acreditando na pergunta tão nova e cheia de deslumbramento que se permitira inventar. Caminhou até o espelho, olhou-se — ainda viva! O pescoço claro nascendo dos ombros delicados, ainda viva! — procurando-se. Não, ouça! ouça! não existia o começo da morte dentro de si! E como atravessasse o próprio corpo violentamente, em busca, sentiu levantar-se de seu interior uma aragem de saúde, todo ele abrindo-se para respirar...

Não podia pois morrer, pensou então lentamente. Aos poucos o pensamento frágil tomou uma longa inspiração, cresceu, tornou-se compacto e inteiriço como um bloco que se ajustasse dentro de seus contornos. Não havia espaço para outra presença, para a dúvida. O coração batendo com força, ouviu-se atenta. Riu alto, um riso trêmulo e gorjeado. Não... Mas era tão claro... Não morreria porque... porque ela não podia acabar. Isso, isso. 

Uma rápida visão, a de um velhinho, talvez uma mulher, uma mistura de fisionomias indistintas numa só, balançando a cabeça, negando, envelhecendo. Não, disse-lhes suavemente do fundo da nova verdade, não... As fisionomias se esfumaçaram, pois se ela fora sempre. Pois seu corpo nunca precisara de ninguém, era livre. Pois se ela andava pelas ruas. Bebia água, abolira Deus, o mundo, tudo. Não morreria. Tão fácil. 

Estendeu as mãos sem saber o que fazer delas depois que sabia. Talvez alisar-se, beijar-se, cheia de curiosidade e de gratidão reconhecer-se. Já sem se prender a raciocínios, pareceu-lhe tão ilógico morrer, que se deteve agora estupefata, cheia de terror. Eterna? Violenta... Reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações do que pensamentos. 

Mudava sem transição, em saltos leves, de plano a plano, cada vez mais altos, claros e tensos. E de instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em cavernas de luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se dorme. A intuição de que eram frágeis aqueles momentos fazia-a mover-se de leve com receio de se tocar, de agitar e dissolver aquele milagre, o tenro ser de luz e de ar que tentava viver dentro dela.

Novamente deslizou para a janela, respirando cuidadosamente. Mergulhada numa alegria tão fina e intensa quase como o frio do gelo, quase como a percepção da música. Ficou de lábios trêmulos, sérios. Eterna, eterna. Brilhantes e confusos sucediam-se largas terras castanhas, rios verdes e faiscantes, correndo com fúria e melodia. Líquidos resplandecentes como fogos derramando-se por dentro de seu corpo transparente de jarros imensos... Ela própria crescendo sobre a terra asfixiada, dividindo-se em milhares de partículas vivas, plenas de seu pensamento, de sua força, de sua inconsciência... Atravessando a limpidez sem névoas levemente, andando, voando... 

Um pássaro lá fora voou obliquamente! Atravessou o ar puro e desapareceu na densidade de uma árvore. O silêncio ficou palpitando atrás dele em pequenos sussurros. Há quanto tempo estivera observando-o, sem sentir. 

Ah, então ela morreria. Sim, que morreria. Simples como o pássaro voara. Inclinou a cabeça para um lado, suavemente como uma louca mansa: mas é fácil, tão fácil... nem é inteligente... é a morte que virá, que virá...

Quantos segundos haviam decorrido? Um ou dois. Ou mais. O frio. Percebeu que por um milagre tomara agora consciência daqueles pensamentos, que eles eram tão profundos que haviam decorrido sob outros materiais e fáceis, simultaneamente... Enquanto ela vivera o sonho, observara as coisas ao redor, usara-as mentalmente, nervosamente, como quem crispa as mãos na cortina enquanto olha a paisagem. 

Fechou os olhos, docemente serena e cansada, envolvida em longos véus cinzentos. Um momento ainda sentiu a ameaça de incompreensão nascendo do interior longínquo do corpo como um fluxo de sangue. Eternidade é o não ser, a morte é a imortalidade — boiavam ainda, soltos restos de tormenta. E ela não sabia mais a que ligá-los, tão cansada.

Agora a certeza de imortalidade se desvanecera para sempre. Mais uma vez ou duas na vida — talvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer — teria sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era realmente imortal para todo o sempre.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pensamentos - DCCXXIII

Voltaire (1694-1778)

"Não é nossa condição social,
mas a qualidade de nossa alma
que nos torna felizes"

(VOLTAIRE)

O homem que calculava (Malba Tahan) - 17

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO  XVII       
Recebe o Homem que Calculava inúmeras consultas.
Crendices e superstições. Unidades e figuras.
O contador de histórias e o calculista.
O caso das 90 maçãs.
A ciência e a caridade. 


A partir do célebre dia em que estivemos, pela primeira vez, no divã do califa, a nossa vida sofreu profundas modificações. A fama de Beremiz ganhou realce excepcional. Na modesta hospedaria em que morávamos, os visitantes e conhecidos não perdiam oportunidade de lisonjear-nos com repetidas demonstrações de simpatia e respeitosos salãs.

Todos os dias o calculista via-se obrigado a atender a dezenas de consultas. Ora era um cobrador de impostos que precisava conhecer o número de ratls contidos em um abás e a relação entre essas unidades e o cate (1); aparecia, a seguir, um haquim ansioso por ouvir de Beremiz uma explicação sobre a cura de certas febres por meio de sete nós feitos numa corda; mais de uma vez o calculista foi procurado por cameleiros, ou vendedores de incenso que indagavam quantas vezes devia um homem saltar uma fogueira, para se livrar do Demônio.

Apareciam, por vezes, ao cair da noite, soldados turcos, de olhar iracundo, que desejavam aprender meios seguros de ganhar no jogo de dados. Esbarrei, muitas vezes, com mulheres - ocultas por espessos véus - que vinham, tímidas, consultar o matemático sobre os números que deviam escrever no antebraço esquerdo para obter boa sorte, alegria e riqueza! Queriam conhecer os segredos que asseguram a baraka (2) para uma esposa feliz.

A todos Beremiz Samir atendia com paciência e bondade. Esclarecia uns, dava conselhos a outros. Procurava destruir as superstições e crendices dos fracos e ignorantes, mostrando-lhes que nenhuma relação poderá existir, pela vontade de Deus, entre os números e as alegrias, tristezas e angústias do coração.

E procedia dessa forma, guiado por elevado sentimento de altruísmo, sem visar a lucro ou recompensa. Recusava sistematicamente o dinheiro que lhe ofereciam e, quando um cheique rico, a quem ensinara, insistia em pagar a consulta, Beremiz recebia a bolsa cheia de dinares, agradecia a esmola e mandava distribuir, integralmente, a quantia entre os pobres do bairro.

Certa vez um mercador, chamado Aziz Nemã, empunhando um papel cheio de números e contas, veio queixar-se de um sócio a quem tratava de “ladrão miserável”, “chacal imundo”, e outros epítetos, não menos insultuosos. Beremiz procurou acalmar o ânimo exaltadíssimo do homem e chamá-lo ao caminho da mansidão.

- Acautelai-vos - aconselhou - contra os juízos arrebatados pela paixão porque esta desfigura muitas vezes a verdade. Aquele que olha por um vidro de cor vê todos os objetos da cor desse vidro: se o vidro é vermelho, tudo lhe parece rubro; se é amarelo, tudo se lhe apresenta completamente amarelado. A paixão está para nós como a cor do vidro para os olhos. Se alguém nos agrada, tudo lhe louvamos e desculpamos; se, ao contrário, nos aborrece, tudo lhe condenamos, ou interpretamos de modo desfavorável.

E, a seguir, examinou com paciência as contas, e descobriu nelas vários enganos que desvirtuavam os resultados. Aziz certificou-se de que havia sido injusto para com  o  sócio,  e  tão  encantado  ficou  com  a  maneira  inteligente e  conciliadora de Beremiz, que nos convidou, naquela noite, a um passeio pela cidade.

Fomos levados, pelo nosso delicado companheiro, até o Café Bazarique, no extremo da Praça de Otmã. Um famoso contador de histórias, no meio da sala invadida por fumo negro e espesso, prendia a atenção de um grupo numeroso de ouvintes. Tivemos a sorte de chegar exatamente no momento em que o cheique el-medah (3), tendo terminado a costumeira prece inaugural, começava a narrativa.

Era um homem de seus cinqüenta anos, quase negro, a barba negríssima, e dois grandes olhos cintilantes; trazia, como quase todos os outros narradores de Bagdá, um amplíssimo pano branco apertado em torno da cabeça por uma corda de pêlo de camelo, que lhe dava a majestade de um sacerdote antigo.

Falava com voz alta e vagarosa, ereto no meio do círculo dos ouvintes, acompanhado submissamente por dois tocadores de alaúde e de tambor. Narrava, com entusiasmo, uma história de amor, intercalada com as vicissitudes da vida de um sultão. Os ouvintes não lhe perdiam uma só palavra.

O gesto do cheique era tão arrebatado, a sua voz tão expressiva, o seu rosto tão eloqüente, que às vezes deixava a impressão de viver as aventuras que sua fantasia criava. Falava de uma longa viagem. Imitava o passo lento do cavalo fatigado. Aqui encarnava o beduíno sedento procurando, em torno de si, uma gota d’água; ali deixava pender os braços e a cabeça como um homem prostrado. Que admiração me causava o cheique contador de histórias!

Árabes, armênios, egípcios, persas e nômades bronzeados no Hedjaz, imóveis, sem respirar, refletiam na expressão do rosto todas as palavras do orador. Naquele momento, com a alma toda nos olhos, deixavam ver, claramente, a ingenuidade e a frescura de sentimentos que ocultavam sob a aparência de uma dureza selvagem.

O contador de histórias andava para a direita e para a esquerda, parava, retrocedia aterrado, cobria o rosto com as mãos, erguia os braços para o céu, e, à medida que se ia afervorando e levantando a voz, os músicos tocavam e batiam com mais fúria. A narrativa empolgava os beduínos; terminada que foi, os aplausos estrugiram no ar. Seguiu-se um linguarejar surdo dos presentes; comentavam todos os episódios mais emocionantes da narrativa.

O mercador Aziz Nemã, que parecia muito popular naquela barulhenta sociedade, adiantou-se para o centro da roda e comunicou ao cheique, em tom solene e decidido:

- Acha-se presente, ó Irmão dos Árabes, o célebre Beremiz Samir, o calculista persa, secretário do vizir Maluf.

Centenas de olhos convergiam para Beremiz, cuja presença era uma honra para os freqüentadores do café. O contador de histórias, depois de dirigir um respeitoso salã ao Homem que Calculava, disse com voz clara e timbrada:

- Meus amigos! Tenho contado muitas histórias maravilhosas de gênios, reis e efrites (4). Em homenagem ao luminoso calculista que acaba  de  chegar,  vou  narrar uma história que envolve um problema cuja solução, até agora, não foi descoberta.

- Muito bem! Muito bem! - conclamaram os ouvintes.

O cheique, depois de evocar o nome de Allah (com ele a oração e a glória!), contou o seguinte caso:

- Vivia outrora, em Damasco, um bom e esforçado camponês que tinha três filhas. Um dia, conversando com o cádi, declarou o camponês que suas filhas eram dotadas de alta inteligência e de raro poder imaginativo. O cádi, invejoso e implicante, irritou-se ao ouvir o rústico elogiar o talento das jovens e declarou:

- Já é a quinta vez que ouço de tua boca elogios exagerados que exaltam a sabedoria de tuas filhas. Vou apurar se elas são, como afirmas, dotadas de engenho e perspicácia de espírito.

Mandou o cádi chamar as três raparigas e disse-lhes:

- Aqui estão 90 maçãs que vocês deverão vender no mercado. Fátima, que é a mais velha, levará 50. Cunda levará 30 e Siha, a caçula, será encarregada de vender as 10 restantes. Se Fátima vender as maçãs a 7 por 1 dinar, as outras deverão vender, também, pelo mesmo preço, isto é, a 7 por 1 dinar; se Fátima fizer a venda das maçãs a 3 dinares cada uma, será esse o preço pelo qual Cunda e Siha deverão vender as que levam. O negócio deve fazer-se de sorte que as três apurem, com a venda das respectivas maçãs, a mesma quantia.

- E não posso desfazer-me de algumas das maçãs que levo? - perguntou Fátima.

- De modo algum - obstou, de pronto, o impertinente cádi. - A condição, repito, é essa: Fátima deve vender 50. Cunda venderá 30 e Siha só poderá vender as 10 que lhe tocaram. E pelo preço que Fátima as vender, pelo mesmo preço deverão as outras negociar as frutas. Façam a venda de modo que apurem, ao final, quantias iguais.

Aquele problema, assim posto, afigurava-se absurdo e disparatado. Como resolvê-lo? As maçãs, segundo a condição imposta pelo cádi, deviam ser vendidas pelo mesmo preço. Ora, nessas condições, é claro que a venda de 50 maçãs devia produzir quantia muito maior que a venda de 30 ou de 10 apenas. E, como as moças não atinassem com a forma de resolver o caso, foram consultar, sobre o complicado problema, um imã (5) que morava nas vizinhanças. O imã, depois de encher várias folhas de números, fórmulas e equações, concluiu:

- Meninas, esse problema é de uma simplicidade cristalina. Vendam as 90 maçãs, conforme o cádi ordenou, e chegarão, sem erro, ao resultado que ele mesmo determinou.

A indicação dada pelo imã em nada esclarecia o intrincado enigma das 90 maçãs proposto pelo cádi. As jovens foram ao mercado e venderam todas as maçãs, isto é, Fátima vendeu 50, Cunda vendeu 30 e Siha encontrou logo comprador  para  as  10  que levara. O preço foi sempre o mesmo para as três moças, e, por fim, cada uma delas apurou a mesma quantia. Aqui termina a história. Cabe agora ao nosso calculista explicar como foi resolvido o problema.


Mal acabara de ouvir o apelo do inteligente narrador, Beremiz encaminhou-se para o centro do círculo formado pelos curiosos ouvintes, e assim falou:

- Não deixa de ser interessante esse problema, apresentado sob forma de história. Já tenho visto muitas vezes exatamente o contrário; simples histórias mascaradas sob o disfarce de verdadeiros problemas de lógica ou de matemática! A solução para o enigma com que o malicioso cádi de Damasco quis atormentar as jovens camponesas parece ser a seguinte: Fátima iniciou a venda fixando o preço de 7 maçãs por 1 dinar. Vendeu, desse modo, 49 maçãs, ficando com 1 de resto. Cunda, obrigada a ceder as 30 maçãs por esse mesmo preço, vendeu 28 por 4 dinares, ficando com 2 de resto. Siha, que dispunha de uma dezena, vendeu 7 por 1 dinar, ficando com 3 de resto.

- Temos, assim, na primeira fase do problema: Fátima vendeu 49 e ficou com 1. Cunda vendeu 28 e ficou com 2. Siha vendeu 7 e ficou com 3.

- A seguir, Fátima resolveu vender a maçã que lhe restava por 3 dinares. Cunda, segundo a condição imposta pelo cádi, vendeu as 2 maçãs que ainda possuía pelo mesmo preço, isto é, 3 dinares cada uma, obtendo 6 dinares, e Siha vendeu as 3 maçãs de resto por 9 dinares, isto é, também a 3 dinares cada uma:  
Fátima: 49 por 7 dinares, 1 por 3 dinares. Total por 10 dinares
Cunda: 28 por 4 dinares, 2 por 6 dinares. Total por 10 dinares
Siha: 7 por 1 dinar, 3 por 9 dinares. Total por 10 dinares  

- E, terminado o negócio, como é fácil verificar, cada uma das moças apurou 10 dinares. Eis como foi resolvido o problema do cádi. Queira Allah que os perversos sejam castigados e os bons recompensados.

O cheique El-medah, encantado com a solução apresentada por Beremiz, exclamou, erguendo o braço:

- Pela segunda sombra de Maomé! Esse jovem calculista é, realmente, um gênio! É o primeiro ulemá que descobre, sem fazer contas complicadas, a solução exata e perfeita para o problema do cádi!

A multidão que enchia o café de Otmã, sugestionada pelos elogios do cheique, vozeou:

- Bravos! Bravos! Allah esclareça o jovem ulemá!

É bem possível que muitos dos homens não tivessem entendido a explicação de Beremiz. Não obstante essa pequena restrição, os aplausos foram gerais e vibrantes.

Beremiz, depois de impor silêncio à rumorosa sociedade, disse-lhe com veemência:

- Meus amigos, vejo-me forçado a confessar que não mereço o honroso título de ulemá. Louco é aquele que se considera sábio quando mede a extensão de sua ignorância. Que pode valer a ciência dos homens diante da ciência de Deus?

E antes que um dos assistentes o interrompesse, narrou o seguinte:

- Era uma vez uma formiguinha que, andando a vagar pelo mundo, encontrou uma grande montanha de açúcar. Muito contente com a sua descoberta, retirou da montanha um pequeno grão e levou-o ao formigueiro. - “Que é isto?”, perguntaram as companheiras. “Isto”, replica a pretensiosa, “é uma montanha de açúcar! Encontrei-a no caminho e resolvi trazê-la para aqui!”

E Beremiz acrescentou, com uma vivacidade muito fora da sua habitual placidez:

- É assim o sábio orgulhoso. Traz a pequenina migalha, apanhada no caminho, e julga conduzir o próprio Himalaia. A ciência é uma grande montanha de açúcar; dessa montanha só conseguimos retirar insignificantes pedacinhos.

E insistiu, compenetrado:

- A única Ciência que deve ter valor para os homens é a ciência de Deus.

Um barqueiro iemenita, de bochechas largas, que se achava na roda, interpelou Beremiz:

- E qual é, ó calculista, a ciência de Deus?

- A ciência de Deus é a caridade!

Lembrei-me, nesse momento, da poesia admirável que ouvira, pela voz de Telassim, nos jardins do cheique Iezid, quando os pássaros foram postos em liberdade: “Falasse eu a língua dos homens E dos anjos, E não tivesse caridade, Seria como o metal que soa, Ou como o sino que tine. Nada seria! Nada seria!”

Por volta da meia-noite, quando deixamos o Café Bazarique, vários homens, para testemunhar a consideração que nos dispensavam, vieram oferecer-nos suas pesadas lanternas, pois a noite ia escura e as ruas estavam esburacadas e desertas. Olhei para o céu. No alto, destacando-se no meio da caravana de estrelas, brilhava a inconfundível Al-Schira (6). Iallah (7).
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Notas:
1- O ratl vale um centésimo da arroba e a arroba um quarto do quintal. O abás é a unidade de peso empregada na avaliação de pérolas. O cate é um peso usado na China. Corresponde a 255 gramas.

2- Boa sorte. Qualquer sortilégio aplicado no sentido de evitar a desgraça.

3- Chefe dos contadores de histórias.

4- Gênio poderoso. Os efrites, em geral, eram perigosos e maléficos.

5- Religioso muçulmano.

6- Nome dado pelos árabes à estrela Sírius, alfa do Cão Maior. 


7- “Louvado seja Deus!”