Luz para a inteligência, Calor para a vontade

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O homem que calculava (Malba Tahan) - 23

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO  XXIII       
Do que sucedeu durante uma honrosa visita que recebemos.
Palavras do príncipe Cluzir Schá.
Um convite principesco.
Beremiz resolve um problema.
As pérolas do rajá.
Um número cabalístico.
Fica resolvida a nossa partida para a índia.

 
O bairro humilde em que moramos assinalou hoje o seu primeiro dia glorioso na história. Beremiz, pela manhã, recebeu inesperadamente a honrosa visita do príncipe Cluzir Schá. Quando a aparatosa comitiva irrompeu pela rua, terraços e varandas encheram-se de curiosos. Mulheres, velhos e crianças admiravam, mudos e estarrecidos, o maravilhoso espetáculo.

Vinham na frente cerca de trinta cavaleiros montados em soberbos corcéis árabes, com arreios tauxiados e gualdrapas de veludo bordado a prata; traziam turbantes brancos com elmos metálicos reluzindo ao sol, mantos e túnicas alvadias, largas cimitarras pendentes de cintas de couro lavrado. Precediam-nos estandartes com o escudo do príncipe - um elefante branco sobre fundo azul. Seguiam-se vários arqueiros e batedores, todos a cavalo.

Encerrando o cortejo, surgiu o poderoso marajá, acompanhado de dois secretários, três médicos e dez pajens. O príncipe trajava uma túnica escarlate, toda adornada com fios de pérolas. No turbante, de uma riqueza inaudita, cintilavam incontáveis safiras e rubis.

Quando o velho Salim viu a sua hospedaria receber aquela majestosa comitiva, foi tomado por um acesso de loucura. Atirou-se ao chão e começou a gritar:
- Men ein? [l]

Mandei que um aguadeiro que ali se achava, com ar de basbaque, arrastasse o alucinado amigo para o fundo do pátio, até que a calma voltasse a dominar-lhe o conturbado espírito.

A sala da hospedaria era pequena para conter os ilustres visitantes. Beremiz, maravilhado com a honrosa visita, desceu ao pátio a fim de recebê-los. O príncipe Cluzir, ao chegar, com seu porte altamente senhoril, saudou o calculista com amistoso salã e disse-lhe:

- O pior sábio é aquele que freqüenta os ricos; o maior dos ricos é o que freqüenta os sábios! [2]

- Bem sei, senhor - respondeu Beremiz -, que as vossas palavras inspira-as o mais arraigado sentimento de bondade. A pequena e insignificante parcela de ciência que consegui adquirir desaparece diante da infinita generosidade de vosso coração.

- A minha visita, ó calculista - atalhou o príncipe -, é ditada mais pelo egoísmo do que pelo amor à ciência. Depois que tive o prazer de ouvi-lo em casa do poeta Iezid, pensei em oferecer-lhe algum cargo de prestígio em minha corte. Desejo nomeá-lo meu secretário ou diretor do Observatório de Delhi. Aceita? Partiremos dentro de poucas semanas para Meca e de lá para a índia.

- Infelizmente, ó príncipe generoso - respondeu Beremiz -, não posso afastar-me, agora, de Bagdá. Prende-me a esta cidade sério compromisso. Só poderei ausentar-me daqui depois que a filha do ilustre Iezid tiver aprendido as belezas da geometria!

Sorriu o marajá e retorqui:

- Se o motivo de sua recusa assenta nesse compromisso, creio que mui breve chegaremos a acordo. O cheique Iezid disse-me que a jovem Telassim, dados os progressos feitos, dentro de poucos meses estará em condições de ensinar aos ulemás o famoso problema das pérolas do rajá.

Tive a impressão de que as palavras do nosso nobre visitante haviam surpreendido Beremiz. O calculista parecia meio confuso.

- E eu muito folgaria - alvitrou ainda o príncipe - em conhecer esse complicado problema, que vem desafiando a sagacidade dos algebristas e que remonta, sem dúvida, a um dos meus gloriosos antepassados. Refiro-me ao chamado “problema das pérolas do rajá”.

Beremiz, para atender à curiosidade do marajá, tomou da palavra e discorreu sobre o problema que interessava ao príncipe. E, no seu falar lento e seguro, disse o seguinte:

- Trata-se menos de um problema do que de mera curiosidade aritmética. É o seguinte o seu enunciado: “Um rajá deixou às suas filhas certo número de pérolas e determinou que a divisão se fizesse do seguinte modo: a filha mais velha tiraria 1 pérola e um sétimo do que restasse; viria, depois, a segunda e tomaria para si 2 pérolas e um sétimo do restante; a seguir a terceira jovem receberia 3 pérolas e um sétimo do que restasse. E assim sucessivamente.

- "As filhas mais moças apresentaram queixa a um juiz, alegando que, por esse sistema complicado de partilha, elas seriam fatalmente prejudicadas. O juiz, que - reza a tradição - era hábil na resolução de problemas, respondeu prontamente que as reclamantes estavam enganadas e que a divisão proposta pelo velho rajá era justa e perfeita. E tinha razão. Feita a partilha, cada uma das herdeiras recebeu o mesmo número de pérolas.”

- Pergunta-se: Qual o número de pérolas? Quantas as filhas do rajá? A solução para esse problema não oferece a menor dificuldade. Vejamos [3].
As pérolas eram em número de 36 e deviam ser repartidas por 6 pessoas.
A primeira tirou 1 pérola e mais um sétimo de 35, isto é, 5; logo, tirou 6 pérolas e deixou 30.
A segunda, das 30 que encontrou, tirou 2 mais um sétimo de 28, que é 4; logo, tirou 6 e deixou 24.
A terceira, das 24 que encontrou, tirou 3 mais um, sétimo de 21, ou 3. Tirou, portanto, 6, deixando 18 de resto.
A quarta, das 18 que encontrou, tirou 4 e mais um sétimo de 14. E um sétimo de 14 é 2. Recebeu, também, 6 pérolas.
A quinta encontrou 12 pérolas; dessas 12 tirou 5 e um sétimo de 7, isto é, 1; logo, tirou 6.
A filha mais moça recebeu, por fim, as 6 pérolas restantes.

E Beremiz concluiu:
- Como vedes, o problema, embora engenhoso, nada tem de difícil. Chega-se à solução mesmo sem artifícios ou sutileza de raciocínio.

Nesse momento, a atenção do príncipe Cluzir Schá foi despertada por um número que se achava escrito cinco vezes na parede do quarto; 142857.
- Que significação tem esse número? - perguntou.

- Trata-se - respondeu o calculista - de um dos números mais curiosos em matemática. Ele apresenta, em relação aos seus múltiplos, coincidências interessantes. Multipliquemo-lo por 2. O produto será: 285714. Vemos que os algarismos constitutivos do produto são os mesmos do número dado, em outra ordem. O 14 que se achava à esquerda transportou-se para a direita.
Efetuemos o produto do número 142 857 por 3: 428571. Ainda uma vez observamos a mesma singularidade: os algarismos do produto são, precisamente, os mesmos do número, alterada apenas a ordem. O 1 que se achava a esquerda passou para a direita, os outros algarismos lá ficaram, onde estavam.
A mesma coisa ocorre, ainda, quando o número é multiplicado por 4: 571428. Notemos, agora, o que vai ocorrer no caso da multiplicação por 5: 714285. O algarismo 7 deslocou-se da direita para a esquerda, os restantes permaneceram em seus lugares.
Observemos a multiplicação por 6: 857142. Feito o produto, nota-se que o grupo 142 permutou, apenas, de posição com o 857.
Uma vez chegados ao fator 7, impressiona-nos outra particularidade. O número 142 857 multiplicado por 7 dá como produto o número:  999 999 - formado de seis noves! Experimentemos multiplicar o número 142857 por 8. O produto será: 1142856.
Todos os algarismos do número aparecem, ainda, no produto, com exceção do 7. O 7 do número primitivo foi decomposto em duas partes: 6 e 1. O algarismo 6 ficou à direita e o 1 foi para a esquerda completar o produto.
Vejamos agora o que acontece quando multiplicamos o número 142857 por 9:  1285713. Observemos com atenção esse resultado. O único algarismo do multiplicando que não figura no produto é o 4. Que teria acontecido com ele? Aparece decomposto em duas parcelas, 1 e 3, colocadas nos extremos do produto.
Do mesmo modo, poderíamos verificar as singularidades que apresenta o número 142 857 quando multiplicado Por 11, 12, 13, 15, 17, 18, etc. [4]
Eis por que o número 142 857 se inclui entre os números cabalísticos da matemática. Ensinou-me o dervixe Nô-Elin...

- Nô-Elin! - repetiu, tomado de vivo júbilo, o príncipe Cluzir Schá. - É possível que tenha conhecido esse sábio?

- Conheci-o muito bem, ó príncipe - respondeu Beremiz. - Com ele aprendi todos os princípios que hoje aplico nas pesquisas matemáticas.

- Pois o grande Nô-Elin - explicou o hindu - era amigo de meu pai. Certa vez, vencido pelo desgosto, por ter perdido um filho em combate, numa guerra injusta e cruel, afastou-se da cidade e nunca mais foi visto. Tenho feito várias pesquisas para encontrá-lo, mas até hoje não consegui obter a menor indicação sobre seu paradeiro. Cheguei, até, a admitir que ele tivesse perecido no deserto, devorado pelas panteras. Saberá, acaso, dizer-me onde poderei encontrar Nô-Elin?

Respondeu Beremiz:
- Quando parti para Bagdá deixei o sábio Nô-Elin em Khói, na Pérsia, recomendado a três amigos.

- Pois logo que eu regresse de Meca iremos à cidade de Khói, buscar esse grande ulemá - respondeu o príncipe. - Quero levá-lo para o meu palácio! Poderá você, ó calculista, auxiliar-me nessa grandiosa empresa?

- Senhor! - apoiou Beremiz. - Se é para prestar auxílio e fazer justiça àquele que foi meu guia e mestre, pronto estou para acompanhar-vos, se for preciso, até à índia.

E, assim, por causa do 142857, ficou resolvida a nossa viagem à índia, a terra dos rajás. O tal número é realmente cabalístico!
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Notas:
1- “Para onde?” (Para onde me vão levar?)
2- Verso árabe.
3- Mais no apêndice ao fim da obra.

4- Mais no apêndice ao fim da obra.

De Anima (Aristóteles) - 18

(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

LIVRO III

1. A Sensibilidade - I:
O sentido comum


Que não existe outro sentido além dos cinco (refiro-me à visão, à audição, ao olfacto, ao paladar e ao tacto), disso nos persuadirá o que se segue. Se possuímos sensação, nas presentes circunstâncias, de tudo aquilo de que o tacto é o sentido (todas as afecções do tangível enquanto tangível são sensíveis, para nós, pelo tacto), será necessário supor que, se de facto alguma sensação nos escapa, nos escapa então também algum órgão sensorial.

Ora, tudo o que percepcionamos quando tocamos é sensível pelo tacto, sentido que realmente possuímos. Mais, tudo quanto percepcionamos por meio de um intermediário, e não quando tocamos, é sensível por meio de corpos simples — refiro-me ao ar e à água.

E, no que respeita ao último caso, acontece o seguinte: se qualidades diferentes umas das outras em género são sensíveis por um único meio, o ente que possui o órgão sensorial desse tipo tem de ser necessariamente capaz de percepcionar ambas as qualidades—— por exemplo, se o órgão sensorial é constituído de ar, sendo que o ar é o meio para o som e para a cor. Já se são vários os meios pelos quais se percepciona o mesmo sensível (por exemplo, a cor, que tem por meios o ar e a água, pois ambos são transparentes), o ente dotado de um órgão sensorial constituído apenas por um deles percepcionará o sensível transmitido por ambos os meios.

Dos corpos simples, os órgãos sensoriais são compostos apenas de dois: de ar e de água. A pupila é, com efeito, composta de água; o ouvido, de ar; o olfacto, de um ou de outro. Quanto ao fogo, ou não entra na constituição de nenhum órgão sensorial, ou é comum a todos (pois nada é perceptível sem calor). A terra, por seu turno, ou não entra na constituição de nenhum, ou é sobretudo no tacto que ela está misturada de uma maneira particular.

Daqui decorre que não existe qualquer órgão sensorial além daqueles que são compostos de água e de ar. Agora, alguns animais possuem estes órgãos sensoriais: todas as sensações são experimentadas pelos animais que não são imperfeitos, nem mutilados (até a toupeira, de facto, parece possuir olhos por baixo da pele).

Se não existe, desta forma, algum outro corpo daqui, nem qualquer propriedade que não pertença a nenhum dos corpos, então não estará a escapar-nos nenhum outro sentido.

Tão-pouco é possível que exista algum órgão sensorial próprio dos sensíveis comuns, isto é, os que percepcionamos acidentalmente mediante cada sentido, como o movimento, o repouso, a figura, a grandeza, o número, a unidade. Percepcionamos todos estes, com efeito, pelo movimento.

Por exemplo, percepcionamos a grandeza pelo movimento e, consequentemente, a figura, pois esta é certa grandeza. Percepcionamos pelo movimento também aquilo que está em repouso, por não se mover. Já o número, percepcionamo-lo por movimento quer pela negação do contínuo, quer pelos sensíveis próprios, pois cada sensação percepciona uma única coisa.

Assim, é impossível que exista, evidentemente, um sentido próprio de cada um daqueles, como, por exemplo, do movimento. Seria, pois, como nas presentes circunstâncias percepcionamos o doce pela vista. E isto acontece porque temos a sensação de ambos, pelo que, quando sucedem juntos, reconhecemo-los simultaneamente.

Se não, não percepcionaríamos os sensíveis comuns de qualquer outra forma a não ser por acidente: por exemplo, percepcionamos, no que se refere ao filho de Cléon, não que ele é o filho de Cléon, mas que é branco. Acontece, com efeito, ao branco ser filho de Cléon.

Já dos sensíveis comuns possuímos sensação comum, e não por acidente. Não existe, porém, um sentido próprio deles, ou não percepcionaríamos estes objectos senão do modo que foi dito [que vemos o filho de Cléon].

É por acidente, de facto, que os sentidos percepcionam os sensíveis próprios uns dos outros. Não actuam, pois, enquanto os sentidos particulares que são, mas enquanto um único sentido, quando se dá, em simultâneo, sensação em relação ao mesmo objecto.

Por exemplo, a sensação de que a bílis é amarga e amarela: não respeita, pois, a um outro sentido dizer que ambos são uma única coisa. E é por isso que se erra e, se uma coisa for amarela, vamos pensar que é bílis.

Poder-se-ia perguntar para que é que possuímos diversos sentidos, e não apenas um. Será para nos escaparem menos os sensíveis comuns, como o movimento, a grandeza e o número, que acompanham os sensíveis próprios?

Se houvesse, pois, apenas a vista, e ela percepcionasse o branco, os sensíveis comuns escapar-nos-iam mais facilmente e, por exemplo, por a cor e a grandeza se acompanharem, em simultâneo, uma à outra, todos os sensíveis nos pareceriam ser o mesmo. Mas como, nas presentes circunstâncias, os sensíveis comuns existem também noutro sensível, isso torna claro que cada um deles é algo diferente.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

A religião e o pênis

Sociedade sem escolas (Ivan Illich) - 7

(Final da obra "Sociedade sem escolas", de Ivan Illich)

Capítulo 7
Renascimento do homem epimeteu


Nossa sociedade parece-se à moderna máquina que vi, certa vez, numa loja de brinquedos em Nova York. Era um cofre metálico que se abria ao ser acionado um de seus botões e mostrava uma mão mecânica. Dedos cromados se estendiam para a tampa, puxavam-na e a fechavam por dentro. Era uma caixa; era de se supor que algo pudesse ser retirado dela; mas tudo o que continha era apenas um mecanismo para fechar a tampa.

Esta invenção é o contrário da caixa de Pandora. A Pandora original, a doadora de tudo, era deusa da Terra na pré-história matriarcal da Grécia. Deixou escapar todos os males de sua ânfora (pythos). Mas fechou a tampa antes que a esperança pudesse fugir.

A história do homem moderno começa com a degradação do mito de Pandora e termina no cofre que se fecha a si mesmo. É a história do esforço de Prometeu de criar instituições que capturem todos os males dispersos. É a história da esperança que desaparece e das expectativas que surgem.

Para entender o que isto significa, precisamos re-descobrir a distinção entre esperança e expectativa. Esperança, em seu sentido mais genuíno, significa fé na bondade da natureza, enquanto expectativa, no sentido em que a emprego aqui, significa confiança nos resultados que são planejados e controlados pelo homem. A esperança concentra o desejo numa pessoa da qual espera um donativo. A expectativa olha para a satisfação de um processo previsível que há de produzir o que temos direito de reclamar.

O «ethos» prometeico ofuscou, atualmente, a esperança. A sobrevivência da raça humana depende de sua redescoberta como força social. A Pandora original foi enviada à Terra com uma caixa que continha todos os males; de coisas boas, continha só a esperança. O homem primitivo vivia neste mundo de esperança. Confiava na magnanimidade da natureza, nos benefícios dos deuses e nos instintos de sua tribo para sobreviver. Os gregos clássicos começaram a substituir a esperança pelas expectativas. Em sua versão do mito de Pandora, ela havia soltado tanto os males quanto os bens. Lembravam-se dela sobretudo pelos males que havia soltado. E esqueceram que a «doadora de tudo» era também a guardiã da esperança.

Os gregos contavam a história de dois irmãos, Prometeu e Epimeteu. Prometeu sempre admoestava Epimeteu para que deixasse Pandora em paz. Mas este acabou casando-se com ela. No grego clássico, o nome Epimeteu, que significa «olhar para trás», foi traduzido por «bobo» ou «estúpido».

Na época em que Hesíodo recontou a história em sua forma clássica, os gregos haviam-se tornado patriarcas moralistas e misógenos que se atemorizavam só em pensar na primeira mulher. Construíram uma sociedade racional e autoritária. Os homens planejaram instituições com que pretendiam fazer frente aos males disseminados. Conscientizaram-se de seu poder de modelar o mundo e fazê-lo produzir serviços que eles mesmos aprenderam a esperar. Queriam que suas próprias necessidades e as futuras demandas de seus filhos fossem modeladas por seus artefatos. Tornaram-se legisladores, arquitetos, autores, idealizadores de constituições, cidades e obras de arte que servissem de exemplo para seus descendentes.

O homem primitivo confiava na participação mítica dos ritos sagrados para iniciar pessoas na doutrina da sociedade, mas os gregos da era clássica reconheciam como verdadeiros homens apenas os cidadãos que se houvessem adaptado, através da «paideia» (educação) às instituições de seus maiores. A evolução do mito reflete a transição de um mundo em que se interpretavam os sonhos para um mundo em que se faziam oráculos.

Desde tempos imemoriais, a Deusa Terra foi cultuada no cimo do Monte Parnasso, centro e umbigo da Terra. Em Delfos (de delphys, o ventre) dormia Gaia, a irmã de Chaos e Eros. Seu filho Python, o dragão, vigiava seu luar e sonhos orvalhados, até que Apolo, o deus Sol, o arquiteto de Tróia, matou o dragão e apoderou-se da gruta de Gaia. Seus sacerdotes apossaram-se do templo. Tomaram uma virgem das redondezas, sentaram-na sobre um tripé em cima do umbigo fumegante da Terra e entorpeceram-na sob o efeito da fumaça. Transformaram seus desvarios em hexâmetros de profecias auto-realizadas.

De todo o Peloponeso, as pessoas traziam seus problemas ao Santuário de Apolo. O oráculo era consultado para opções sociais, por exemplo, medidas para acabar com uma praga ou fome, escolher a acertada constituição para Esparta ou os lugares propícios para construir cidades, que, mais tarde, foram Bizâncio e Calcedônia. A flecha tornou-se o símbolo de Apolo. Tudo o que a ele se relacionasse era significativo e útil.

Quando Platão descreve, em A República, o Estado ideal, exclui a música popular. Só eram permitidas, nas cidades, a harpa e a lira de Apolo porque apenas sua harmonia criava «o esforço da necessidade e o esforço da liberdade, o esforço do infeliz e o esforço do satisfeito, o esforço da valentia e o esforço da temperança que beneficiam o cidadão». Os habitantes das cidades tremiam ante a flauta de Pan e de seu poder de despertar os instintos. Somente «os pastores podem tocar flautas (de Pan) e só nos campos». O homem assumia a responsabilidade pelas leis sob as quais desejava viver e pela adaptação do meio-ambiente à sua própria imagem. A primitiva iniciação pela Mãe Terra na vida mítica foi transformada em educação (paideia) do cidadão que desejava sentir-se em casa, quando no forum. O mundo, para o primitivo, era governado pelo destino, fatos e necessidades. Roubando o fogo dos deuses, Prometeu transformou os fatos em problemas, trouxe à cena a necessidade e desafiou o destino.

O homem da era clássica forjou um contexto civilizado para a perspectiva humana. Sabia que poderia desafiar o destino, a natureza, o meio-ambiente, mas correndo seu próprio risco. O homem contemporâneo vai além; tenta criar um mundo à sua imagem, construir um meio-ambiente totalmente feito pelo homem e depois descobre que só pode proceder assim se constantemente se reajustar para então nele se enquadrar. Temos que encarar o fato de que o próprio homem está em jogo.

A vida, hoje, em Nova York, dá-nos uma visão muito especial do que é e do que pode ser, e sem esta visão a vida em Nova York é impossível. Uma criança, nas ruas de Nova York, nada toca que não seja cientificamente desenvolvido, traçado, planejado e vendido a alguém. Até as árvores estão lá porque o Departamento de Parques decidiu colocá-las aí. As piadas que ouve na televisão foram programadas com elevados custos. Os objetos com que brinca nas ruas do Harlem são restos de embalagens que se destinavam a alguém. Mesmo os desejos e temores são institucionalmente modelados. A força e a violência são organizadas e controladas; os «grupos» versus a polícia.

A própria aprendizagem é definida como consumo de assuntos, resultado de programas pesquisados, planejados e promovidos. Qualquer bem existente é produto de alguma instituição especializada. Seria loucura exigir algo que nenhuma instituição pudesse fornecer. A criança da cidade nada pode esperar que esteja fora do possível desenvolvimento do processo institucional. Até mesmo sua fantasia é instigada a produzir ficção científica. Consegue experimentar a poética surpresa do não- planejado apenas através do seu encontro com «a vileza», tolice ou fracasso: a casca de laranja na sarjeta, o lamaçal na rua, a quebra da ordem, do programa ou da máquina são os únicos impulsos da fantasia criativa. «Dar mancadas» torna-se a única poesia disponível.

Uma vez que nada existe de proveitoso que não tenha sido planejado, a criança da cidade logo conclui que sempre podemos planejar uma instituição para qualquer desejo nosso. Aceita como certo o poder do processo de criar valores. Se o objetivo for encontrar um companheiro, integrar uma vizinhança ou adquirir prática na leitura, deverá ser definido de tal maneira que sua consecução possa ser arquitetada. Sabendo que tudo o que é demandado é produzido, cedo o homem se acostuma a esperar que tudo o que é produzido não pode deixar de ser demandado. Se um veículo lunar puder ser produzido, também o poderá ser a demanda para ir à Lua. Não ir a um lugar que se possa seria subversivo. Consideraria tolice a suposição de que toda demanda satisfeita acarreta a descoberta de uma demanda insatisfeita ainda maior. Tal perspectiva impediria o progresso. Não produzir o que é possível poria em perigo a lei das «expectativas emergentes», como um eufemismo para o crescente abismo de frustrações, que é o motor de uma sociedade construída sobre a co-produção de serviços e aumento de demandas.

O estado de ânimo do moderno habitante das cidades aparece na tradição mítica apenas sob a imagem do Inferno. Sísifo, que havia por certo tempo acorrentado Thanatos (morte), tinha que rolar pesada pedra até o cume do Inferno, e a pedra sempre escapava quando estava prestes a atingir o alto. Tântalo que fora convidado pelos deuses a partilhar de sua comida e, na ocasião, roubara seu segredo de preparar a ambrósia — que curava tudo e garantia a imortalidade — foi condenado a sofrer eterna fome e sede, estando no meio de um rio cujas águas fugiam quando as procurava tocar e sob árvores com frutas cujos galhos se afastavam quando estendia as mãos para elas.

Um mundo de crescentes demandas não é apenas um mal — só pode ser classificado como um inferno. O homem desenvolveu uma força frustradora de demandar qualquer coisa porque não pode imaginar algo que uma instituição não possa fazer por ele. Cercado por instrumentos todo-poderosos, o homem é reduzido a um instrumento de seus instrumentos. Cada uma das instituições destinadas a exorcizar um dos males primeiros tornou-se para o homem um caixão cofre-falso que se fecha a si mesmo. O homem está enrodilhado nas caixas que faz para prender os males que Pandora deixou escapar. A escuridão total da realidade no nevoeiro produzido por nossos instrumentos envolveu-nos completamente. Subitamente encontramo-nos na escuridão de nossa própria armadilha.

A própria realidade depende agora da decisão humana. O mesmo presidente que ordenou a inútil invasão do Cambodja poderia ordenar o uso eficaz do átomo. O «interruptor de Hiroshima» pode agora cortar o umbigo da Terra. O homem adquiriu o poder de fazer com que o Caos oprima tanto a Eros como a Gaia. Este novo poder do homem de cortar o umbigo da Terra é constante lembrança que nossas instituições não só criaram seus próprios fins, mas também podem colocar um fim a si próprias e a nós outros.

O absurdo das modernas instituições evidencia-se no militarismo. As armas modernas só podem defender a liberdade, a civilização e a vida aniquilando-as. Na linguagem militar, segurança significa capacidade de acabar com a Terra. Não menos evidente é o absurdo subjacente às instituições não-militares. Não possuem interruptor para ativar seu poder destrutivo e nem precisam dele. O grifo já está preso à tampa do mundo. Criaram as necessidades mais rapidamente do que puderam prover sua satisfação; e no processo de satisfazer as necessidades que criaram, consomem a Terra. Isto vale para a agricultura e a indústria, para a medicina e a educação.

A agricultura moderna envenena e exaure o solo. A «revolução verde» pode, mediante o emprego de novas sementes, triplicar a produção de um acre, mas apenas com aumento crescente de fertilizantes, inseticidas, água e energia. A fabricação desses elementos e de todos os outros bens polui os oceanos e a atmosfera, degradando recursos insubstituíveis. Se a combustão continuar aumentando nas proporções atualmente verificadas, consumiremos em breve mais oxigênio do que o resposto na atmosfera. Não temos motivos para esperar que a fissão ou a fusão possam substituir a combustão sem os mesmos ou superiores efeitos deletérios.

Os doutores substituem as parteiras e prometem transformar o homem em algo distinto: geneticamente planejado, farmacologicamente adoçado e capaz de suportar doenças mais prolongadas. O ideal contemporâneo é um mundo pan-higiênico; um mundo em que todos os contactos entre os homens e entre os homens e seu mundo sejam resultado de previsão e manipulação.

A escola transformou-se no processo planejado que prepara o homem para um mundo planejado — o principal instrumento de capturar o homem em sua própria armadilha. Pretende modelar cada homem a um determinado padrão, para que faça sua parte no jogo mundial. Inexoravelmente cultivamos, tratamos, produzimos e escolarizamos o mundo até acabar com ele.

A instituição militar é evidentemente absurda. O absurdo das instituições não-militares é mais difícil de identificar. São ainda mais aterradoras porque operam inexoravelmente. Sabemos qual o botão que não deve ser apertado para evitar um holocausto atômico. Não há botão que detenha um Armagedon ecológico.

Na antiguidade clássica, o homem descobriu que o mundo poderia ser feito conforme o planejamento humano, e esta descoberta fez com que percebesse a precariedade, dramaticidade e comicidade inerentes a esse mundo. As instituições democráticas evoluíram e supunha-se que o homem era digno de confiança dentro dessa estrutura. As expectativas entre o devido processo e a confiança na natureza humana se equilibravam. As profissões tradicionais se desenvolveram e com elas as instituições necessárias para seu exercício. Sub-repticiamente, a confiança no processo institucional substitui a dependência na boa vontade pessoal.

O mundo perdeu sua dimensão humana e readquiriu sua necessidade factual e fatídica, característica dos tempos primitivos. Mas, enquanto o caos dos bárbaros era constantemente ordenado em nome de deuses misteriosos e antropomórficos, hoje em dia só o planejamento humano é apresentado como razão para o mundo estar assim como está.

O homem tornou-se joguete dos cientistas, engenheiros e planejadores. Vemos esta lógica atuar em nós e nos outros. Conheço uma localidade mexicana onde não passam mais que uma dúzia de carros por dia. Um mexicano jogava dominó na nova estrada ensaibrada, diante de sua casa — onde certamente se sentava e jogava desde a juventude. Um carro passou disparado e matou-o. O turista que me contou o fato estava profundamente abalado e acrescentou: «Tinha que acontecer».

À primeira vista, a observação do turista em nada difere da afirmação de um boximane primitivo que relata a morte de um companheiro dizendo que colidiu contra um tabu (objeto sacro que não podia ser tocado por profanos). Mas as duas versões têm significados opostos. O primitivo pode culpar uma tremenda e cega transcendência, enquanto o turista pasma diante da inexorável lógica da máquina. O primitivo não sente responsabilidade; o turista a sente, mas nega-a. Em ambos os casos está ausente o clássico tipo de drama, o estilo de tragédia, a lógica do esforço e revolta pessoais. O primitivo nunca tomou consciência disso; o turista perdeu-a.

O mito do boximane e o mito do americano são produto de forças inumanas e inertes. Nenhum deles experimenta a revolta do trágico. Para o primitivo, o acontecido segue as leis da mágica; para o americano, segue as leis da ciência. O acontecido coloca-o sobo feitiço das leis da mecânica que, segundo ele, governam os acontecimentos físicos, sociais e psicológicos.

O ânimo em 1971 é propício a uma grande mudança de direção na procura de um futuro promissor. As metas institucionais continuamente contradizem os produtos institucionais. Os programas de combate à pobreza produzem mais pobres; a guerra na Ásia mais vietcongs; a assistência técnica mais subdesenvolvimento. As clínicas de controle da natalidade aumentam as taxas de sobrevivência e fomentam a população; as escolas produzem mais desertores; quando diminui uma curva de poluição, aumenta outra. Os consumidores defrontam-se com a realidade de que quanto mais podem comprar, mais decepções têm que engolir.

Até há pouco parecia lógico que as reclamações contra essa pandemônica inflação de disfunções pudessem ser atribuídas à claudicância das descobertas científicas que não atendiam à demanda tecnológica ou à perversidade dos inimigos étnicos, ideológicos ou classistas. Fracassou tanto a expectativa pelo advento de um milênio científico como uma guerra que acabasse com todas as guerras. Para o consumidor experiente não há regresso à ingênua confiança na mágica tecnologia. Muitíssimas pessoas tiveram más experiências com computadores neuróticos, infecções adquiridas em hospitais e congestionamentos de tráfego terrestre, aéreo ou telefônico.

Há apenas dez anos a sabedoria convencional antecipou uma vida melhor, baseada num incremento de descobertas científicas. Agora, os cientistas fazem medo às crianças. Os disparos à Lua demonstram espetacularmente que o erro humano pode ser quase eliminado no caso dos operadores de sistemas complexos. Isto, porém, não mitiga nossos temores de que o fracasso humano em consumir segundo instruções escape ao controle.

Para o reformista social não há regresso nem mesmo para as suposições da década de quarenta. Desapareceu a esperança de eliminar o problema da justa distribuição dos bens pela produção abundante dos mesmos. O custo do mínimo de embalagem capaz de satisfazer os modernos gostos subiu astronomicamente; e o que torna modernos os gostos é sua obsolescência antes de serem satisfeitos.

Os limites dos recursos da Terra tornaram-se evidentes. Não há progresso científico ou tecnológico que consiga prover todos os homens do mundo com os bens e serviços de que usufruem, atualmente, as pessoas pobres dos países ricos. Deveríamos, por exemplo, extrair cem vezes mais ferro, estanho, cobre e chumbo para atingir este objetivo.

Finalmente, os professores, doutores e assistentes sociais acham que seus distintos serviços profissionais têm um aspecto — ao menos — em comum. Criam ulteriores demandas pelos tratamentos institucionais que fornecem, mais rapidamente do que podem oferecer, instituições de serviços.

Não apenas parte, mas toda a lógica da sabedoria convencional está ficando suspeita. Até as próprias leis da economia parecem não convencer os que estão fora dos estreitos parâmetros das áreas sociais e geográficas onde a maior parte do dinheiro está concentrada. O dinheiro é, realmente, o tipo de câmbio mais barato, mas apenas numa economia em que a eficiência é mensurada em termos monetários.

Tanto os países capitalistas quanto os comunistas, em suas diversas formas, estão compromissados a medir a eficiência em termos de benefício-custo, expressa em dólares. O capitalismo alardeia sua superioridade dizendo que possui padrão de vida mais elevado. O comunismo se vangloria de maior índice de crescimento como prova de sua vitória final. Mas sob ambas as ideologias aumenta geometricamente o custo total da crescente eficiência.

As maiores instituições disputam mais violentamente os recursos não relacionados em qualquer lista: o ar, o oceano, o silêncio, a luz solar e a saúde. Só levam ao conhecimento público a escassez desses recursos quando estes já se encontram quase totalmente degenerados. Em toda parte a natureza é envenenada, a sociedade inumanizada, a vida interior invadida e a vocação pessoal asfixiada. Uma sociedade comprometida com a institucionalização dos valores identifica a produção de bens e serviços com a demanda pelos mesmos. A educação que nos faz necessitar do produto está incluída no preço do produto.

A escola é a agência publicitária que nos faz crer que precisamos da sociedade tal qual ela é. Em tal sociedade o valor marginal tornou-se sempre autotranscendente. Força os poucos grandes consumidores a disputar o poder para esgotar a terra, a encher seus estômagos inchados, a disciplinar os consumidores menores e paralisar os que ainda encontram satisfação em arranjar-se com o que possuem. O «ethos» da insaciedade está, pois, à raiz da depredação física, da polarização social e da passividade psicológica.

Quando os valores foram institucionalizados em processos planejados e arquitetados, os membros da moderna sociedade acreditam que a vida boa consiste em ter instituições que definem os valores de que eles e sua sociedade crêem necessitar. O valor institucional pode ser definido como o nível de produção (output) de uma instituição. O valor correspondente do homem é medido por sua capacidade de consumir e esgotar esta produção institucional, e, assim, criar nova — sempre maior — demanda. O valor do homem institucionalizado depende de sua capacidade de incinerador. Diríamos numa imagem: tornou-se o ídolo de suas manufaturas.

O homem define-se agora como a fornalha que queima os valores produzidos por seus instrumentos. E aqui não há limites para sua capacidade. Seu ato é o de Prometeu levado a extremos. A exaustão e a poluição dos recursos da terra é, acima de tudo, o resultado de uma corrupção na auto-imagem do homem e de uma regressão em sua consciência. Alguns gostariam de falar de uma mutação na consciência coletiva que leva à concepção do homem como um organismo dependente de instituições e não da natureza e dos indivíduos. Esta institucionalização dos valores substanciais, esta crença de que um processo de tratamento planejado traz, em última análise, resultados queridos pelo recipiente, este «ethos» consumidor está no âmago da falácia prometeica.

Os esforços para encontrar novo equilíbrio no meio-ambiente global dependem da desinstitucionalização dos valores. É comum a uma crescente minoria em países capitalistas, comunistas e também «subdesenvolvidos» a suspeita de que algo está estruturalmente errado na visão do homo faber. É a característica partilhada pela nova elite. A ela pertencem pessoas de todas as classes, rendas, credos e civilização. Desconfiaram dos mitos da maioria: utopias científicas, diabolismo ideológico, expectativa de distribuir os bens e serviços de certa forma igual. Partilham com a maioria a certeza de que grande parte das novas políticas adotadas pelo consenso geral leva a resultados evidentemente opostos às metas fixadas.

Enquanto a maioria prometeica, constituída por astronautas em potencial, foge do problema estrutural, a emergente minoria critica o deus ex machina científico, a panacéia ideológica e a caça a demônios e feiticeiras. Esta minoria começa a desconfiar que nossas constantes decepções prendem-se às instituições contemporâneas da mesma forma que as correntes prenderam Prometeu ao rochedo. A confiança esperançosa e a clássica ironia têm que conspirar para denunciar a falácia prometeica.

Diz-se que Prometeu, normalmente, significa «previsão» ou algumas vezes «o que faz progredir a Estrela Polar». Roubou aos deuses o monopólio do fogo, ensinou aos homens como usá-lo para forjar o ferro, tornou-se o deus dos tecnólogos e acabou acorrentado. A Pítia de Delfos foi substituída por um computador que revoluteia sobre painéis e cartões perfurados. Os hexâmetros do oráculo deram lugar aos códigos de instrução. O timoneiro humano entregou os remos à máquina cibernética. A máquina mais moderna emerge para dirigir nosso destino. As crianças sonham com voar para fora dessa terra crepuscular, em seus veículos espaciais.

Do ponto de vista do homem na Lua, Prometeu poderia reconhecer na brilhante e azul Gaia o planeta da Esperança e a Arca da Humanidade. Novo sentido da finitude da Terra e nova nostalgia podem, agora, abrir os olhos do homem para a escolha de seu irmão Epimeteu de casar a Terra com Pandora. A esta altura o mito grego torna-se profecia esperançosa porque nos diz que o filho de Prometeu foi Deucalião, o timoneiro da Arca que, a exemplo da de Noé, flutuou nas águas do Dilúvio e foi o pai da nova humanidade que ele criou da terra com Pyrra, a filha de Epimeteu e Pandora.

Estamos compreendendo melhor o significado da Ânfora que Pandora recebeu dos deuses como sendo o inverso da Caixa: nosso Barco e Arca. Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que Ninguém é desinteressante. Seu destino é semelhante à crônica dos planetas. Nada há nele que não seja particular, cada planeta é diferente de outro. Precisamos encontrar um nome para os que amam a Terra onde cada um possa encontrar o outro. E se uma pessoa viver na obscuridade, fizer seus amigos nesta obscuridade, a obscuridade não é desinteressante.

Precisamos encontrar um nome para os que colaboram com seu irmão prometeico no acender o fogo e modelar o ferro. Mas os que assim procedem devem empregar sua habilidade para se inclinar, cuidar e esperar pelo irmão, sabendo que para cada um seu mundo é privado. Sugiro que estes irmãos e irmãs, cheios de esperança, recebam o nome de homens epimeteus.

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Ivan Illich (1926-2002)


IVAN ILLICH nasceu em Viena, em 1926. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Gregoriana de Roma. Obteve o Ph. D. em História na Universidade de Salzburgo. Transferiu-se, em 1951, para os Estados Unidos onde trabalhou como coadjutor numa paróquia de irlandeses e portorriquenhos, na cidade de Nova York. De 1956 a 1960 foi nomeado Vice-Reitor da Universidade Católica de Porto Rico, onde organizou um centro de treinamento intensivo para padres americanos que trabalhavam na América Latina. Illich foi co-fundador do conhecido e controvertido Centro Intercultural de Documentação (CIDOC) em Cuernavaca, México, onde regularmente continua orientando cursos. Seus numerosos artigos e ensaios apareceram em The New York Review, The Saturday Review, Esprit, Kuvsbuch, Siempre, America, Commonweal, Epreuves, Temps Modernes.