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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Imposturas Intelectuais (Sokal e Bricmont) - início

Em 1996, uma respeitada publicação americana de estudos culturais, a "Social Text", publicou um artigo de título estranho: "Transgredindo as fronteiras: Em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica". Seu autor, Alan Sokal, sustentava suas idéias com longas citações de eminentes pensadores americanos e franceses. Pouco depois, Sokal revelou que o artigo era uma paródia. Seu objetivo era, usando a sátira, atacar o cada vez mais comum abuso da terminologia científica e a irresponsável extrapolação de idéias das ciências naturais para as ciências sociais. Mais amplamente, ele queria denunciar o relativismo pós-moderno, que sustenta a tese absurda de que a verdade objetiva não passa de uma convenção social. A brincadeira de Sokal deflagou um intenso debate nos meios intelectuais de todo o mundo...



IMPOSTURAS INTELECTUAIS

- O abuso da Ciência pelos filósofos pós-modernos -


- Alan Sokal & Jean Bricmont -
(Alan Sokal é professor de Física na Universidade de Nova York. Jean Bricmont é professor de Física Teórica na Universidade de Louvain na Bélgica)


 Sumário:
- Prefácio à edição americana
- Introdução
Capítulo 1: Jacques Lacan
Capítulo 2: Julia Kristeva
Capítulo 3: Intermezzo: O relativismo epistêmico na filosofia da ciência
Capítulo 4: Luce Irigaray
Capítulo 5: Bruno Latour
Capítulo 6: Intermezzo: A teoria do caos e a "ciência pós-moderna"
Capítulo 7: Jean Baudrillard
Capítulo 8: Gilles Deleuze e Félix Guattari
Capítulo 9: Paul Virilio
Capítulo 10: O teorema de Gödel e a teoria dos conjuntos: alguns exemplos de abuso
Capítulo 11: Reflexões sobre a história das relações entre ciência e filosofia: Bergson e seus sucessores
- Epílogo
- Apêndice A: "Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica"
- Apêndice B: Comentários sobre a paródia
- Apêndice C: Transgredindo as fronteiras: um posfácio

* * * * *

Prefácio dos autores à edição americana

A publicação na França do nosso livro "Impostures intellectuelles" parece ter criado uma pequena tormenta em determinados círculos intelectuais. De acordo com Jon Henley, em artigo publicado no The Guardian, nós mostramos que "a moderna filosofia francesa é um monte de velhas tolices". Segundo Robert Maggiori, em artigo publicado no Libération, nós somos uns cientistas pedantes sem senso de humor que corrigimos erros gramaticais em cartas de amor. Gostaríamos de explicar sucintamente por que ambas as caracterizações do nosso livro são errôneas, e de responder tanto aos nossos críticos quanto aos nossos superentusiasmados defensores. Em especial, queremos desfazer um bom número de mal-entendidos.

O livro originou-se da farsa agora famosa que consistiu na publicação na revista americana de estudos culturais Social Text, por um de nós, de um artigo satírico cheio de citações sem sentido, porém infelizmente autênticas, sobre física e matemática, proferidas por famosos intelectuais franceses e americanos. No entanto, apenas uma pequena parte do "dossiê" montado na pesquisa bibliográfica realizada por Sokal pôde ser incluída na paródia.

Após ter exibido este longo dossiê aos amigos cientistas e não-cientistas, ficamos (paulatinamente) convencidos de que valeria a pena torná-lo disponível para um público mais amplo. Quisemos explicar, em termos laicos, por que as citações são absurdas ou, em muitos casos, simplesmente carentes de sentido; e desejamos também discutir as circunstâncias culturais que permitiram que esses discursos alcançassem tal reputação e não fossem, até agora, desmascarados.

Mas o que pretendemos exatamente? Nem oito nem oitenta. Mostramos que intelectuais famosos como Lacan, Kristeva, Irigaray, Baudrillard e Deleuze abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos científicos: tanto utilizando-se de idéias científicas totalmente fora de contexto, sem dar a menor justificativa - note-se que não somos contra a extrapolação de conceitos de um campo a outro, e sim contra extrapolações feitas sem fundamentação -, quanto atirando a esmo jargões científicos ou ideológicos na cara de seus leitores, sem nenhum respeito pela sua relevância ou mesmo pelo seu sentido. Não pretendemos dizer que isso invalida o restante de sua obra, sobre a qual não emitimos julgamento.

Somos, por vezes, acusados de ser cientistas arrogantes, porém nossa visão do papel das ciências exatas é, na verdade, bastante modesta. Não seria bom (para nós, matemáticos e físicos) que o teorema de Gôdel ou a teoria da relatividade tivessem implicações imediatas e profundas no estudo da sociedade? Ou que o axioma da escolha pudesse ser usado no estudo da poesia? Ou que a topologia tivesse algo a ver com a psiquê humana? Contudo, este não é o caso.

Um segundo alvo do nosso livro é o relativismo epistêmico, especificamente a idéia - a qual, pelo menos quando manifestada explicitamente, é muito mais comum no mundo anglófono do que no francófono - de que a moderna ciência não é mais que um "mito", uma "narração" ou uma "construção social", entre muitas outras.

Além de gritantes abusos (p. ex., de Irigaray), dissecamos um bom número de confusões muito freqüentes nos círculos pós-modernistas e de estudos culturais: por exemplo, apropriação indevida de idéias da filosofia da ciência, como a da subdeterminação da teoria pela evidência ou da impregnação teórica da observação, com o intuito de sustentar um relativismo radical.

Este livro, portanto, é a fusão de dois trabalhos - relacionados entre si - reunidos sob a mesma capa. Primeiramente, trata-se de uma coleção de abusos extremos descobertos, mais ou menos por acaso, por Sokal; são as "imposturas" do título. Em segundo lugar, contém a nossa crítica ao relativismo epistêmico e aos conceitos errôneos sobre a "ciência pós-moderna"; estas análises são consideravelmente mais delicadas.

A conexão entre estas duas críticas é principalmente sociológica: os autores franceses das "imposturas" estão na moda nos mesmos círculos acadêmicos de língua inglesa onde o relativismo epistêmico é a pedra-de-toque.

Existe também uma tênue ligação lógica: se alguém aceita o relativismo epistêmico, tem menos motivo para ficar aborrecido com a deturpação das idéias científicas, que, de qualquer modo, não passarim de mero "discurso".

Obviamente, não escrevemos este livro apenas para denunciar alguns abusos isolados. Temos objetivos mais amplos em mente, mas não necessariamente aqueles a nós atribuídos. Esta obra trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorreto dos conceitos científicos. Os textos que citamos podem ser a ponta de um iceberg; contudo o iceberg deve ser definido como um conjunto de práticas intelectuais, não como um grupo social.

Suponhamos, por exemplo, que um jornalista descubra, e publique, documentos demonstrando que alguns altos e respeitáveis políticos são corruptos. Muita gente, sem dúvida, chegaria rapidamente à conclusão de que a maioria dos políticos é corrupta, e os demagogos que pensarem tirar proveito político dessa noção irão estimulá-la, mas a extrapolaçâo seria errônea. Da mesma forma, considerar este livro uma crítica generalizada às humanidades ou às ciências sociais - como alguns analistas franceses o fizeram - é não apenas interpretar mal nossas intenções como também provoca uma curiosa confusão, revelando um desprezo implícito por aquelas disciplinas!

Por uma questão de lógica, ou as humanidades e as ciências sociais são co-extensivas aos abusos denunciados neste livro, ou não são. Se forem, então o nosso livro seria com efeito um ataque contra estas áreas em bloco, mas seria justificado. Caso contrário (como acreditamos), simplesmente não existe razão para criticar um pensador por aquilo que outro, da mesma área, diz. Mais amplamente, qualquer interpretação do nosso livro como um ataque generalizado a X - seja X o pensamento francês, a esquerda cultural americana ou o que for - pressupõe que todo X esteja permeado pelos maus costumes intelectuais que estamos denunciando, e esta acusação deve ser demonstrada por quem quer que o faça.

Os debates estimulados pela artimanha de Sokal englobavam, assim, uma lista cada vez mais ampla de questões cada vez mais fracamente relacionadas, não somente o status conceitual do conhecimento científico ou os méritos do pós-estruturalismo francês, mas também o papel social da ciência e a tecnologia, o multiculturalismo e o "politicamente correto", a esquerda acadêmica versus a direita acadêmica, a esquerda cultural versus a esquerda econômica. Queremos salientar que este livro não trata da maioria destes tópicos.

Em especial, as idéias aqui analisadas têm pouca, talvez nenhuma, relação conceitual ou lógica com a política. Seja qual for a visão que alguém tenha a respeito da matemática lacaniana ou da "theory-ladenness of observation", pode-se sustentar, sem receio de cair em contradição, qualquer opinião, seja qual for, sobre despesas militares, bem-estar social ou casamento gay.

Existe, certamente, um vínculo sociológico - apesar de sua magnitude ser amiúde exagerada - entre as correntes intelectuais "pós-modernistas", que criticamos, e alguns setores da esquerda acadêmica americana. Não fosse esse vínculo, não estaríamos mencionando a política de modo algum. Contudo não queremos que o nosso livro seja visto como mais um tiro na enfadonha "Guerra das Culturas", menos ainda como um tiro partido da direita.

O pensamento crítico sobre a injustiça do nosso sistema econômico e sobre a opressão racial e sexual cresceu em muitas instituições acadêmicas desde os anos 60 e foi submetido, em anos recentes, a muito escárnio e crítica injusta. Não existe nada em nosso livro que possa ser interpretado assim, mesmo remotamente.

Nosso livro enfrenta um contexto institucional inteiramente diferente na França e no mundo de língua inglesa. Enquanto os autores por nós criticados têm tido uma profunda influência na educação superior francesa e dispõem de numerosos discípulos na mídia, nas editoras e na intelligentsia - daí algumas das furiosas reações ao nosso livro -, seus equivalentes anglo-americanos são ainda uma minoria encastelada dentro dos círculos intelectuais (conquanto bem entrincheirada em alguns redutos). Este fato tende a fazer com que pareçam mais "radicais" e "subversivos" do que realmente são, tanto aos seuspróprios olhos quanto aos olhos de seus críticos.

Todavia nosso livro não é contrário ao radicalismo político, é contra a confusão intelectual. Nosso objetivo não é criticar a esquerda, mas ajudá-la a defender-se de um segmento seu que está na moda.

Michael Albert, escrevendo no Z Magazine, resume bem a questão: "Não há nada verdadeiro, sábio, humano ou estratégico em confundir hostilidade à injustiça e à opressão, que é bandeira da esquerda, com hostilidade à ciência e à racionalidade, o que é uma tolice."

Esta edição é, em muitos aspectos, urna tradução direta do original francês. Mas ampliamos algumas discussões a respeito dos debates intelectuais no mundo anglófono, Fizemos também algumas pequenas alterações para melhorar a clareza do texto original, para corrigir imprecisões pouco importantes e para evitar mal-entendidos. Agradecemos aos muitos leitores da edição francesa que nos ofereceram sugestões.

Enquanto escrevíamos este livro, fornos beneficiados por inúmeras discussões e debates e recebemos muita crítica e estímulo. Embora não possamos agradecer individualmente a todos os que deram a sua contribuição, queremos expressar nossa gratidão àqueles que nos ajudaram indicando fontes de referência ou lendo e criticando partes dos originais: Michael Albert, Robert Alford, Roger Balian, Louise Barre, Paul Boghossian, Raymond Boudon, Pierre Bourdieu, Jacques Bouveresse, Georges Bricmont, James Robert Brown, Tim Budden, Noam Chomsky, Helena Cronin, Bérangêre Deprez, Jean Dhombres, Cyrano de Dominieis, Pascal Engel, Barbara Epstein, Roberto Fernández, Vincent Fleury, Julie Franck, AlIan Franklin, Paul Gérardin, Michel Gevers, Michel Ghins, Yves Gingras,Todd Gitlin, Gerald Goldin, Sylviane Goraj, Paul Gross, Étienne Guyon, Michael Harris, Géry-Henri Hers, Gerald Horton, john Huth, Markku Javanainen, Gérard Jorland, Jean-Michel Kantor, Noretta Koertge, Hubert Krivine, Jean-Paul Krivine, Antti Kupiainen, Louis Le Borgne, Gérard Lemaine, Geert Lernout, Jerrold Levinson, Norm Levitt, jean-Claude Limpach, Andréa Loparic, John Madore, Christian Macs, Francis Martens, Tim Maudlin, Sy Mauskopf, Jean Mawhin, Maria McGavigan, N. David Mermin, Enrique Muiíoz,Meera Nanda, Michael Nauenberg, Hans-Joachim Niemann, Marina Papa, Patrick Peccatte, Jean Pestieau, Daniel Pinkas, Louis Pinto, Patricia Radelet de Grave, Marc Richelle, Benny Rigaux-Bricmont, Ruth Rosen, David Ruelle, PatrickSand, MônicaSantoro, Abner Shimony, Lee Smolin, Philippe Spindel, Hector Sussmann, Jukka-Pekka Takala, Serge Tisseron, Jacques Treiner, Claire Van Cutsem, Jacques Van Rillaer, Lorc Wacquant, Nicky White, Nicolas Witkowski e Daniel Zwanziger. Ressaltamos que essas pessoas não estão necessariamente de acordo com o conteúdo ou mesmo com a intenção deste livro. Finalmente, agradecemos a Marina, Claire, Thomas e Antoine por nos terem aturado nesses últimos dois anos.

* * * * *

Introdução

"Enquanto a autoridade inspirar temor reverencial a confusão e o absurdo irão consolidar as tendências conservadoras da sociedade. Primeiramente, porque o pensamento claro e lógico conduz à acumulação de conhecimentos (cuio melhor exemplo é fornecido pelo progresso das ciências naturais), e o avanço do conhecimento cedo ou tarde solapa a ordem tradicional. Pensamento confuso, por outro lado, leva a lugar nenhum e pode ser tolerado indefinidamente sem produzir nenhum impacto positivo no mundo." (Stanislav Andreski, Social Sciences as Sorcery, 1972, p. 90)

A história deste livro começa com uma farsa. Durante anos, fomos ficando escandalizados e angustiados com a tendência intelectual de certos círculos da academia americana. Vastos setores das ciências sociais e das humanidades parecem ter adotado uma filosofia que chamaremos, à falta de melhor termo, de "pós-modernismo": uma corrente intelectual caracterizada pela rejeição mais ou menos explícita da tradição racionalista do Iluminismo, por discursos teóricos desconectados de qualquer teste empírico, e por um relativismo cognitivo e cultural que encara a ciência como nada mais que uma"narração", um "mito" ou uma construção social entre muitas outras.

Para responder a esse fenômeno, um de nós (Sokal) decidiu tentar uma experiência não-científica mas original: submeter à apreciação de uma revista cultural americana da moda, a Social Text, uma caricatura de um tipo de trabalho que havia proliferado em anos recentes, para ver se eles o publicariam. O artigo, intitulado "Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica", está eivado de absurdos e ilogismos flagrantes. Ademais, ele defende uma forma extrema de relativismo cognitivo: depois de ridicularizar o obsoleto "dogma" de que "existe um mundo exterior, cujas propriedades são independentes de qualquer indivíduo e mesmo da humanidade como um todo", proclama categoricamente que "a 'realidade' física, não menos que a 'realidade' social, é no fundo uma construção social e lingüística".

Por meio de uma série de raciocínios de uma lógica espantosa, o artigo chega à conclusão de que "o pi de Euclides e o G de Newton, antigamente imaginados como constantes e universais, são agora entendidos em sua inelutável historicidade". O restante prossegue na mesma linha.

Apesar disso, o artigo foi aceito e publicado. Pior, foi publicado numa edição especial da Social Text destinada a refutar a crítica dirigida ao pós-modernismo e ao construtivismo social por vários cientistas eminentes. É difícil imaginar, para os editores da Social Text, um meio mais radical de atirar nos próprios pés. Sokal revelou imediatamente sua artimanha, provocando uma reação tempestuosa tanto na imprensa acadêmica quanto na imprensa em geral.

Muitos pesquisadores em humanidades e ciências sociais escreveram a Sokal, às vezes de maneira muito comovida, para agradecer-lhe o que tinha feito e para expressar sua própria rejeição às tendências pós-modernistas e relativistas que dominam largas parcelas de suas disciplinas. Um estudante achou que o dinheiro que tinha economizado para financiar seus estudos tinha sido gasto com as roupas de um imperador que, como na fábula, estava nu. Outro escreveu que ele e seus colegas tinham ficado excitados pela farsa, mas pedia que seu estado de ânimo fosse mantido em segredo porque, se bem que desejasse mudar as atitudes na sua disciplina, ele só poderia fazê-lo depois de se assegurar um trabalho permanente.

Mas o que significou este estardalhaço todo? Apesar do exagero da mídia, o simples fato de a mistificação ter sido publicada prova pouco em si mesmo; no máximo revela algo sobre os padrões intelectuais de uma revista da moda. Outras conclusões interessantes podem ser obtidas, no entanto, examinando-se o conteúdo do simulacro.

Num exame minucioso, pode-se perceber que a paródia foi construída em torno de citações de eminentes intelectuais franceses e americanos concernentes às alegadas implicações filosóficas e sociais da matemática e das ciências naturais. Os trechos são absurdos ou desprovidos de sentido, mas são, apesar disso, autênticos. Com efeito, a única contribuição de Sokal foi providenciar um "cimento" (cuja "lógica" é evidentemente fantasiosa) para juntar estas citações e elogiá-las. Os autores em questão formam um verdadeiro panteão da "teoria francesa" contemporânea: Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Félix Guattari, Luce lrigaray, Jacques Lacan, Bruno Latour, Jean-François Lyotard, Michel Serres e Paul Virilio!

As citações incluem também muitos proeminentes acadêmicos americanos em estudos culturais e campos correlatos; contudo estes autores são freqüentemente, pelo menos em parte, discípulos ou comentadores dos mestres franceses. Visto que as citações inseridas na farsa foram um tanto breves, Sokal reuniu em seguida uma série de textos mais longos para ilustrar a manipulação pelos autores das ciências naturais, fazendo-a circular entre seus colegas cientistas. A reação deles foi um misto de hilaridade e consternação: dificilmente poderiam acreditar que alguém - muito menos renomados intelectuais - pudesse escrever tamanhos disparates. Entretanto, quando os não-cientistas leram este material, salientaram a necessidade de explicar com precisão e em termos de alcance geral porque as mencionadas passagens são absurdas ou sem sentido. A partir deste momento, nós dois trabalhamos juntospara produzir urna série de análises e comentários dos textos, que resultaram neste livro.

O que queremos mostrar

O objetivo desta obra é oferecer uma contribuição, limitada porém original, crítica do evidentemente nebuloso Zeitgeist que denominamos "pós-modernismo". Não temos a pretensão de analisar o pensamento pós-modernista em geral; nossa intenção é chamar atenção para aspectos relativamente pouco conhecidos, isto é, o abuso reiterado de conceitos e terminologia provenientes da matemática e da física. Queremos analisar também determinadas confusões de pensamento que são freqüentes nos escritos pós-modernistas e que se relacionam tanto com o conteúdo quanto com a filosofia das ciências naturais.

Paraser preciso, a palavra "abuso" denota aqui uma ou mais das seguintes características:

1. Falar abundantemente de teorias científicas sobre as quais se tem, na melhor das hipóteses, uma idéia extremamente confusa. A tática mais comum é usar a terminologia científica (ou pseudocientífica) sem se incomodar muito com o que as palavras realmente significam.

2. Importar conceitos próprios das ciências naturais para o interior das ciências sociais ou humanidades, sem dar a menor justificação conceitual ou empírica. Se um biólogo quisesse empregar, em sua pesquisa, noções elementares de topologia matemática, teoria dos conjuntos ou geometria diferencial, ele teria de dar alguma explicação. Uma vaga analogia não seria tomada muito a sério pelos seus colegas. Aqui, pelo contrário, aprendemos com Lacan que a estrutura do paciente neurótico é precisamente o toro (nada menos que a própria realidade, cf. p. 33 do presente livro); com Kristeva que a linguagem poética pode ser teorizada em termos da cardinalidade do continuum (p. 51), e com Baudrillard que a guerra moderna ocorre num espaço não-euclidiano (p. 147) - tudo sem explicação.

3. Ostentar uma erudição superficial ao atirar na cara do leitor, aqui e ali, descaradamente, termos técnicos num contexto em que eles são totalmente irrelevantes. O objetivo é, sem dúvida, impressionar e, acima de tudo, intimidar os leitores não-cientistas. Mesmo alguns acadêmicos e comentaristas da imprensa caem nesta armadilha: Roland Barthes impressionou-se com a precisão do trabalho de Julia Kristeva (p. 49), e o Le Monde admira a erudição de Paul Virilio (p. 169).

4. Manipular frases e sentenças que são, na verdade, carentes de sentido. Alguns destes autores exibem uma verdadeira intoxicação de palavras, combinada com uma extraordinária indiferença para com o seu significado. Estes autores falam com uma autoconfiança que excede de longe sua competência científica: Lacan orgulha-se de utilizar "a mais recente evolução em topologia" (p. 35), e Latour pergunta se ele não teria ensinado alguma coisa a Einstein (p. 131). Eles imaginam, talvez, que podem explorar o prestígio das ciências naturais de modo a transmitir aos seus próprios discursos uma aparência de rigor. E parecem confiar que ninguém irá revelar o emprego incorreto dos conceitos científicos. Ninguém irá dizer que o rei está nu.

Nossa meta é precisamente dizer que o rei está nu (e a rainha também). Porém queremos deixar claro: não investimos contra a filosofia, as humanidades ou as ciências sociais em geral; pelo contrário, consideramos que estes campos do conhecimento são da máxima importância e queremos prevenir aqueles que trabalham nessas áreas (especialmente estudantes) contra alguns casos manifestos de charlatanismo.

Em especial queremos "desconstruir" a reputação que certos textos têm de ser difíceis em virtude de as idéias ali contidas serem muito profundas. Iremos demonstrar, em muitos casos, que, se esses textos parecem incompreensíveis, isso se deve à excelente razão de que não querem dizer absolutamente nada.

Existem distintos graus de abuso. De um lado, encontram-se extrapolações de conceitos científicos para além de sua área de abrangência, que são errôneos mas por razões sutis. Por outro lado, deparamos com numerosos textos que estão cheios de termos científicos mas são inteiramente desprovidos de sentido. E há, é claro, uma massa de discursos que podem estar situados em algum ponto entre estes dois extremos. Embora priorizemos neste livro os abusos manifestos, falaremos também brevemente de algumas confusões menos óbvias, concernentes à teoria do caos (cap. 6).

Sublinhemos que não é nada vergonhoso ser ignorante em cálculo infinitesimal ou em mecânica quântica. O que estamos criticando é a pretensão de alguns celebrados intelectuais de propor reflexões profundas sobre assuntos complexos que eles conhecem, na melhor das hipóteses, no plano da popularização.

Neste ponto, o leitor deve naturalmente estar se perguntando: esses abusos nascem de uma fraude consciente, de auto-engano ou de uma combinação de ambos? Não podemos dar nenhuma resposta categórica a essa questão, por falta de prova (publicamente disponível). Porém, mais importante, devemos confessar que não consideramos essa questão de grande interesse. Nosso propósito aqui é estimular uma atitude crítica não simplesmente em relação a certos indivíduos, mas com respeito à parcela da intelligentsia (tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e outras partes do mundo) que tolerou e até mesmo encorajou esse tipo de discurso.

Sim, mas...

Antes de prosseguir, vamos responder a algumas das objeções que nos têm sido propostas.

1. O caráter marginal das citações

Poder-se-ia argumentar que nós procuramos pequenos deslizes de autores que reconhecidamente não têm formação científica e que talvez tenham cometido o erro de se aventurar em terreno pouco familiar, mas cuja contribuição à filosofia e/ou às ciências sociais é importante e não está, de maneira alguma, invalidada pelos "pequenos equívocos" aqui revelados.

Responderíamos, primeiramente, que esses textos contêm muito mais que meros "erros ocasionais": eles demonstram uma profunda indiferença, se não desdém, pelos fatos e pela lógica. Nosso objetivo não é, portanto, ridicularizar críticos literários que cometem enganos ao citar a relatividade ou o teorema de Gödel, mas defender os cânones da racionalidade e da honestidade intelectual que são (ou deveriam ser) comuns a todas as disciplinas eruditas.

É evidente que não temos competência para julgar os aspectos não científicos do trabalho desses autores. Entendemos perfeitamente bem que suas "intervenções" nas ciências naturais não constituem os temas centrais de suas obras. Porém, quando a desonestidade intelectual (ou flagrante incompetência) é descoberta num trecho - mesmo marginal - do texto de alguém, é natural querer examinar mais criticamente o restante do seu trabalho. Não queremos prejulgar os resultados de tal análise, mas simplesmente remover a aura de profundidade que por vezes impediu estudantes (e professores) de empreendê-la.

Quando idéias são aceitas como dogma ou por estar na moda, elas são especialmente sensíveis ao desmascaramento, até mesmo em seus aspectos marginais. Por exemplo, as descobertas geológicas dos séculos XVIII e XIX mostraram que a Terra é muito mais velha que os cinco mil anos, ou coisa que o valha, narrados na Bíblia; e, embora estas constatações contradigam apenas uma pequena parte da Bíblia, tiveram o efeito indireto de solapar sua credibilidade geral como narração factual da história, de modo que hoje em dia poucas pessoas (a não ser nos Estados Unidos...) acreditam na Bíbliade da maneira literal como o fazia a maioria dos europeus poucos séculos atrás.

Considerem, em compensação, a obra de Isaac Newton: estima-se que 90% de seus escritos pessoais tratam de alquimia ou misticismo. Mas e daí? O resto sobrevive porque está baseado em sólidos argumentos empíricos e racionais. Do mesmo modo, a maior parte da física de Descartes é falsa, porém algumas das questões filosóficas que ele levantou ainda hoje são pertinentes.

Se o mesmo pode ser dito da obra de nossos autores, nossas constatações, então, têm revelância apenas marginal. Todavia, se estes escritores se tornaram estrelas internacionais primeiramente por razões sociológicas em vez de intelectuais e em parte porque são mestres da linguagem e podem impressionar seu público com um hábil abuso de terminologia sofisticada - não científica e científica -, então as revelações contidas neste ensaio podem, de fato, ter repercussões significativas.

Deixem-nos enfatizar que estes autores diferem enormemente entre si em sua atitude em relação à ciência e na importância que dão a ela. Eles não devem ser amontoados numa única categoria, e queremos alertar o leitor contra a tentação de assim agir.

Por exemplo, embora a citação de Derrida contida na paródia de Sokal seja muito engraçada, trata-se de abuso isolado; uma vez que não existe um emprego sistemático incorreto da ciência na obra de Derrida, não existe capítulo específico sobre Derrida neste livro.

Por outro lado, a obra de Serres está repleta de alusões mais ou menos poéticas à ciência e sua história; contudo suas assertivas, embora extremamente vagas, não são, em geral, destituídas de sentido nem totalmente falsas, e por isso não as discutimos aqui em detalhe.

Os primeiros trabalhos de Kristeva se baseiam firmemente (e abusivamente) na matemática, mas ela abandonou esta abordagem há mais de vinte anos; nós os criticamos aqui porque os consideramos sintomáticos de certo estilo intelectual.

Todos os outros autores, em contrapartida, invocaram extensamente a ciência em suas obras. Os textos de Latour levam considerável quantidade de água ao moinho do relativismo contemporâneo e estão fundamentados numa análise supostamente rigorosa da prática científica. Os trabalhos de Baudrillard, Deleuze, Guattari e Virilio estão repletos de referências aparentemente eruditas à relatividade, à mecânica quântica, à teoria do caos etc. Assim, não é inútil demonstrar que sua erudição científica é bastante superficial. Além do mais, iremos fornecer referências de textos adicionais desses autores onde o leitor poderá encontrar outros numerosos abusos.

2- "Vocês não entenderam o contexto"

Defensores de Lacan, Deleuze et al. poderiam afirmar que suas citações de conceitos científicos são válidas e até profundas, e que nossa crítica falha porque não conseguimos entender o contexto. Afinal de contas, admitimos de boa vontade que nem sempre entendemos o restante da obra desses autores. Não seríamos nós uns cientistas arrogantes e intolerantes, que deixam escapar algo sutil e profundo?

Contestaríamos, antes de mais nada, que, quando conceitos da matemática ou da física são trazidos para outra área do conhecimento, algum argumento deve ser fornecido para justificar sua pertinência. Em todos os casos aqui apresentados, verificamos que não existe nenhum argumento deste tipo, nem próximo ao trecho que citamos nem em nenhuma outra parte do artigo ou do livro.

Além do mais, existem algumas "maneiras práticas de proceder" que podem ser utilizadas para determinar se a matemática está sendo incluída com algum objetivo intelectual verdadeiro em mente ou simplesmente para impressionar o leitor.

Primeiro, nos casos de uso legítimo, o autor necessita ter um bom conhecimento da matemática que ele pretende empregar - em especial, não deve haver erros grosseiros - e deve explicar as noções técnicas necessárias, tão claramente quanto possível, em termos que sejam inteligíveis para o leitor (presumivelmente um não-cientista).

Em segundo lugar, como os conceitos matemáticos têm significado preciso, a matemática é útil principalmente quando aplicada a campos nos quais os conceitos têm igualmente significado mais ou menos preciso. É difícil perceber como a noção matemática de espaço compacto pode ser aplicada proveitosamente em alguma coisa tão mal definida quanto o "espaço de gozo" em psicanálise.

Em terceiro lugar, é especialmente suspeito quando conceitos matemáticos intricados (como a hipótese do continuum na teoria dos conjuntos), que raramente são usados, quando muito na física - e certamente nunca na química ou biologia -, se tornam milagrosamente relevantes em humanidades ou em ciências sociais.

3. "Licença poética"

Se um poeta utiliza palavras como "buraco negro" ou "grau de liberdade" fora de contexto e sem uma verdadeira compreensão do seu significado científico, isso não nos incomoda. Do mesmo modo, se um escritor de ficção científica usa corredores secretos no espaço-tempo de forma a enviar seus personagens de volta para a era das Cruzadas, isto é simplesmente uma questão de gosto.

Em contrapartida, insistimos em que os exemplos citados no livro nada têm a ver com licença poética. Esses autores dissertam, com pretensa seriedade, sobre filosofia, psicanálise, semiótica ou sociologia. Seus trabalhos são objeto de incontáveis análises, exegeses, seminários e teses de doutorado. Seu objetivo é nitidamente produzir teoria, e é neste terreno que os criticamos. Além disso, seu estilo é habitualmente pesado e pomposo, e por isso é altamente improvável que sua meta seja primariamente literária ou poética.

4. "O papel das metáforas"

Algumas pessoas pensarão, sem dúvida, que estamos interpretando esses autores muito literalmente e que as passagens que citamos deveriam ser lidas como metáforas e não como raciocínios precisos.

Na verdade, em certos casos a ciência tem indubitavelmente a pretensão de ser metafórica; porém qual é o propósito destas metáforas? Uma metáfora é usualmente empregada para esclarecer um conceito pouco familiar relacionando-o com outro conceito mais familiar, não o contrário.

Suponhamos, por exemplo, que num seminário de física teórica tentássemos explicar um conceito extremamente técnico de teoria quântica de campos comparando-o ao conceito de aporia na teoria literária de Derrida. Nosso público de físicos se perguntaria, com razão, qual é o objetivo de tal metáfora - se é ou não pertinente - a não ser simplesmente exibir nossa própria erudição. Do mesmo modo, não vemos a utilidade de invocar, mesmo metaforicamente, noções científicas muito mal dominadas para um público de leitores composto quase inteiramente de não-cientistas. A finalidade da metáfora não seria então apresentar como profunda uma observação filosófica ou sociológica bastante banal, revestindo-a elegantemente de jargão pretensamente científico?

5. "O papel das analogias"

Muitos autores, incluindo alguns daqueles discutidos aqui, tentam argumentar por analogia. Não nos opomos, de modo algum, ao esforço de estabelecer analogias entre os diversos domínios do pensamento humano; de fato, a observação de uma analogia válida entre duas teorias atuais pode, com freqüência, ser muito útil ao desenvolvimento subseqüente de ambas.

Neste caso, contudo, pensamos que as analogias são entre teorias bem estabelecidas (nas ciências naturais) e teorias demasiado vagas para serem testadas empiricamente (por exemplo, psicanálise lacaniana). Não se pode deixar de suspeitar que a função destas analogias é ocultar a fragilidade da teoria mais vaga.

Queremos enfatizar que uma teoria incompleta - seja na física, na biologia ou nas ciências sociais - não pode ser redimida com o mero envolvimento em símbolos e fórmulas. O sociólogo Stanislav Andreski expressou essa idéia com a sua habitual ironia:
"Para alcançar o status de autor neste ramo de negócios, a receita é tão simples quanto compensadora: pegue um livro universitário de matemática, copie as partes menos complicadas, enxerte algumas referências à literatura sobre um ou dois ramos dos estudos sociais, sem se preocupar em demasia se as fórmulas que você anotou têm alguma relação com as ações humanas reais, e dê ao seu produto um título bem sonoro, que sugira que você encontrou a chave da ciência exata do comportamento coletivo." (Andreski, 1972, pp. 129-130.)

A crítica de Andreski visou originalmente a sociologia quantitativa americana, porém é igualmente aplicável a alguns dos textos aqui citados, notadamente os de Lacan e Kristeva.

6. "Quem é competente?"

Temos sido freqüentemente confrontados com a seguinte pergunta: Vocês desejam impedir os filósofos de falar sobre ciência porque eles não têm a formação requerida; mas que qualificações têm vocês para falar de filosofia?

Essa pergunta revela um monte de mal-entendidos. Antes de mais nada, não queremos impedir ninguém de falar sobre coisa alguma. Em segundo lugar, o valor intelectual de uma intervenção é determinado pelo seu conteúdo, não pela identidade de quem fala e muito menos pelos seus diplomas."* Em terceiro lugar, há uma assimetria: nós não estamos julgando diretamente a psicanálise de Lacan, a filosofia de Deleuze ou a obra concreta de Latour na sociologia. Apenas nos limitamos às suas afirmações sobre a matemática e as ciências físicas ou sobre problemas elementares da filosofia da ciência.

* * O linguista Noam Chomsky ilustra o assunto muito bem:
"No meu próprio trabalho profissional abordei uma variedade de campos distintos. Trabalhei na lingüística matemática, por exemplo, sem nenhuma credencial profissional em matemática; nessa área sou totalmente autodidata, e não muito bem formado. Porém sempre fui convidado pelas universidades para falar sobre linguística matemática em seminários e colóquios de matemática. Ninguém nunca me perguntou se eu tinha credenciais apropriadas para falar sobre estes assuntos; os matemáticos não se importam nem um pouco. O que eles queriam saber era o que eu teria a dizer. Ninguém jamais fez nenhuma objeção ao meu direito de dizer, indagando se tenho grau de doutor em matemática ou se cursei estudos avançados a respeito. Isto nunca entraria em suas cabeças. Querem saber se estou certo ou errado, se o tema é interessante ou não, se abordagens melhores são possíveis - e a discussão gira em tomo do assunto em si, não sobre o meu direito de discuti-lo. Em contrapartida, nas discussões ou debates concernentes a questões sociais ou política externa norte-americana, Vietnã ou Oriente Médio, por exemplo, o tema invariavelmente esquenta, freqüentemente com considerável virulência. Sou repetidamente desafiado a respeito das minhas credenciais, ou questionado: 'Que preparo especial você tem que o habilite a falar sobre estas matérias?' A suposição é que pessoas como eu, que somos intrusas do ponto de vista profissional nesse campo, não estão habilitadas a falar sobre estes assuntos. Compare agora matemática e ciências políticas - é bastante surpreendente. Na matemática, na física, as pessoas estão preocupadas com o que você diz, não com o seu diploma. Porém, a fim de falar sobre a realidade social, você deve portar credenciais apropriadas, particularmente se diverge do modelo de pensamento aceito. De modo geral, parece correto dizer que, quanto mais rica a substância intelectual de uma área, menor a preocupação com credenciais e maior a preocupação com o conteúdo." (Chomsky, 1979, pp. 6-7)

7. "Vocês também não se apóiam no argumento da autoridade?"

Se afirmamos que a matemática de Lacan é uma tolice, como podem os leitores não-cientistas julgar? Devem fiar-se apenas nas nossas palavras? Não totalmente. Antes de mais nada, tentamos, rigorosamente, fornecer explicações detalhadas dos conhecimentos científicos, de sorte que o leitor não-especialista possa avaliar por que determinada asserção é errônea ou sem sentido.

Podemos não ter sido bem-sucedidos em todos os casos: o espaço é limitado, e a pedagogia científica é difícil. O leitor tem perfeitamente o direito de reservar seu julgamento para aqueles casos em que nossa explanação é inadequada. Porém, acima de tudo, deveria lembrar que a nossa crítica não cuida principalmente de erros, mas da manifesta irrelevância da terminologia científica para o tema supostamente sob investigação.

Em todas as críticas, debates e correspondência privada que se seguiram à publicação do nosso livro na França, ninguém forneceu nem mesmo o mais leve argumento explicando como esta relevância poderia ser estabelecida.

8. Mas esses autores não são "pós-modernistas"

É verdade que os autores franceses abordados neste livro não se definem todos como "pós- modernistas" ou "pós-estruturalistas". Alguns de seus textos foram publicados antes do surgimento dessas correntes intelectuais, e alguns desses autores rejeitam qualquer ligação com essas correntes.

Além do mais, os abusos intelectuais criticados neste livro não são homogêneos; eles podem ser classificados, muito simplificadamente, em duas categorias, correspondendo aproximadamente a duas fases da vida intelectual na França.

A primeira fase é a do estruturalismo extremo e se estende até o começo dos anos 70: os autores tentam desesperadamente atribuir aos vagos discursos no campo das ciências humanas um tom de "cientificidade" invocando algumas aparências externas da matemática. A obra de Lacan e os primeiros trabalhos de Kristeva enquadram-se nesta categoria.

A segunda fase é a do pós-estruturalismo, que começou em meados da década de 1970: aqui, qualquer pretensão de "cientificidade" é abandonada, e a filosofia subjacente (na medida em que se pode identificar) inclina-se na direção do irracionalismo ou do niilismo. Os textos de Baudrillard, Deleuze e Guattari exemplificam essa atitude.

Além disso, a própria idéia de que existe uma categoria distintiva de pensamento chamada "pós-modernista" é muito menos difundida na França que no mundo de língua inglesa. Se nós, contudo, empregamos este termo por comodidade, é porque todos os autores aqui analisados são vistos como pontos de referência fundamentais no discurso pós-modernista em idioma inglês,e porque alguns aspectos dos seus textos (jargão obscuro, rejeição implícita do pensamento racional, abuso da ciência como metáfora) são traços comuns do pós-modernismo anglo-americano.

Em todo caso, a validade das nossas críticas não pode, de maneira alguma, depender do emprego de uma palavra; nossos argumentos devem ser avaliados, para cada autor, independentemente de seus vínculos - sejam conceitualmente justificados ou meramente sociológicos - com a corrente "pós-modernista" mais ampla.

9. Porque vocês criticam esses autores e não outros?

Uma longa lista de "outros" nos foi sugerida, tanto publicamente quanto em particular: a lista inclui virtualmente todas as aplicações da matemática nas ciências sociais (p. ex. economia), especulações de físicos em livros de di- vulgação científica (p. ex. Hawking, Penrose), sociobiologia, ciência cognitiva, teoria da informação, a interpretação de Copenhague (escola de Copenhague) da mecânica quântica, e a utilização de conceitos científicos e fórmulas por Hume, La Mettrie, D'Holbach, Helvetius, Condillac, Comte, Durkheim, Pareto, Engels e vários outros.

Comecemos observando que esta pergunta é irrelevante para a validade ou não dos nossos argumentos; na melhor das hipóteses pode ser usada para lançar calúnias sobre nossas intenções. Suponha que existam outros abusos tão ruins como os de Lacan ou Deleuze; como esse fato poderia legitimar estes autores?

Contudo, uma vez que a questão das razões da nossa escolha é tão freqüentemente levantada, vamos tentar esclarecê-la brevemente.

Antes de mais nada, não temos a intenção de escrever uma enciclopédia em dez volumes sobre "o absurdo desde Platão", nem temos competência para fazê-lo. Nosso escopo é limitado, em primeiro lugar, aos abusos cometidos nos terrenos científicos nos quais podemos reivindicar alguma perícia, isto é, matemática e física; em segundo lugar, aos abusos que estão atualmente em moda em influentes círculos intelectuais; em terceiro lugar, aos abusos que não foram previamente analisados em detalhe.

No entanto, mesmo com essas delimitações, não afirmamos que nosso conjunto de alvos seja exaustivo ou que eles constituam uma "seleção natural". Muito simplesmente, Sokal topou com a maioria destes textos ao escrever a sua paródia, e nós decidimos, após reflexão, que valeria a pena torná-los públicos.

Além disso, sustentamos que existe profunda diferença entre os textos aqui analisados e a maioria dos outros exemplos que nos foram sugeridos. Os autores citados neste livro obviamente não têm mais que uma vaga compreensão dos conceitos científicos que invocam e, mais importante, não fornecem nenhum argumento que justifique a relevância destes conceitos científicos para os temas que, segundo dizem, estão em estudo. Estão empenhados em alinhavar nomes e não simplesmente em raciocínio defeituoso.

Assim, embora seja muito importante avaliar criticamente o uso da matemática nas ciências sociais e as asserções filosóficas ou especu1ativas feitas por cientistas naturais, estes projetos são diferentes - e consideravelmente mais sutis - que os nossos próprios.
Uma questão relacionada é a seguinte:

10. "Por que vocês escrevem um livro sobre isso e não sobre temas mais sérios? É o pós-modernismo um perigo tão grande à civilização?"

Antes de mais nada, esta é uma pergunta estranha. Suponha-se que alguém descubra documentos relevantes para a história de Napoleão Bonaparte e escreva um livro sobre eles. Alguém perguntaria se ele considera este tema mais importante que a Segunda Guerra Mundial? Sua resposta, e a nossa, seria que um autor escreve sobre determinado tema em duas condições: se é competente e se está capacitado a contribuir com algo original. O assunto escolhido nunca irá coincidir com "o problema mais importante do planeta", a menos que se tenha uma sorte fora do comum...

É claro que não achamos que o pós-modernismo seja o maior perigo para a civilização. Do ponto de vista mais geral, é um fenômeno um tanto marginal, e existem formas de irracionalismo talvez mais perigosas - o fundamentalismo religioso, por exemplo. Todavia, acreditamos que a crítica ao pós-modernismo é útil por razões intelectuais, pedagógicas, culturais e políticas; voltaremos a esse assunto no epílogo.

Finalmente, a fim de evitar polêmicas inúteis e "refutações" fáceis, queremos ressaltar que este livro não é um panfleto de direita contra intelectuais de esquerda, ou um ataque imperialista americano à intelligentsia parisiense, ou um simples apelo ignorante ao "bom senso". De fato, o rigor científico que defendemos conduz freqüentemente a resultados que entram em conflito com o "bom senso"; o obscurantismo, a confusão mental e atitudes anticientíficas de modo algum são necessariamente de esquerda, assim como não o é a veneração quase-religiosa aos "grandes intelectuais"; e o fascínio de uma parte da intelligentsia americana ao pós-modernismo demonstra que o fenômeno é internacional.

Em especial, a nossa crítica de modo algum é motivada pelo "nacionalismo e protecionismo teórico" que o escritor francês Didier Eribon acredita detectar no trabalho de alguns críticos americanos. Nossa finalidade é, muito simplesmente, denunciar a desonestidade e a impostura intelectuais, venha de onde vier. Se uma parte considerável do "discurso" pós-modernista dos acadêmicos contemporâneos americanos e ingleses é de inspiração francesa, é igualmente verdade que os intelectuais de língua inglesa vêm há muito tempo dando a esse "discurso" um autêntico sabor autóctone.

O plano deste livro

A maior parte deste livro consiste na análise de textos, autor por autor. Para comodidade dos leitores não-especialistas, forneceremos, em notas de rodapé, breves explicações dos conceitos científicos relevantes, bem como referências a bons textos de popularização científica.

Alguns leitores pensarão, sem dúvida, que levamos esses textos demasiado a sério. Isto é verdade, em certo sentido. Mas, como esses textos são tomados a sério por muita gente, pensamos que eles merecem ser analisados com o maior rigor.

Em alguns casos citaremos longos trechos, correndo o risco de aborrecer o leitor, mas para mostrar que não deturpamos o sentido do texto extraindo frases do seu contexto.

Além dos abusos stricto sensu, analisamos certas confusões científicas e filosóficas nas quais se fundamenta muito do pensamento pós-modernista.

Primeiramente, levaremos em conta o problema do relativismo cognitivo e mostraremos que uma série de idéias originárias da história e da filosofia das ciências não tem as implicações radicais freqüentemente atribuídas a elas (cap. 3). Em seguida indicaremos diversos equívocos relativos à teoria do caos e à autodenominada "ciência pós-moderna" (cap. 6). Finalmente, no epílogo, situaremos nossa crítica num contexto cultural mais amplo.

Muitos dos textos aqui transcritos surgiram originalmente na França. Empenhamo-nos em manter, tanto quanto possível, fidelidade ao original francês, e em caso de dúvida reproduzimos este último entre parênteses ou mesmo in totum. Garantimos ao leitor que, se as passagens parecerem incompreensíveis, é porque no original francês também o são...


quinta-feira, 2 de julho de 2015

O pior dos crimes no mundo islâmico

- Artigo de Uzay Bulut


(Uzay Bulut, nascida e criada como muçulmana, é uma jornalista turca estabelecida em Ancara, Turquia)


Uma ideologia que trata as mulheres como propriedade, que assassina ou encarcera intelectuais e sentencia um blogueiro a 1000 chicotadas e dez anos de prisão, se ele sobreviver, não tem o direito de jogar a culpa pelos seus problemas no Ocidente ou em quem quer que seja.

Violência e intolerância permeiam o mundo muçulmano. Pessoas que cometem crimes bárbaros, massacres de cristãos, judeus, muçulmanos e hindus, todos enfim, dizem que estão meramente pondo em prática a lei da Sharia islâmica contra a "blasfêmia", apostasia e contra os "infiéis". Esses extremistas islâmicos tomam diariamente a lei em suas próprias mãos, assassinam qualquer um que queira pensar livremente ou de maneira diferente. Todos os dias, detenções, julgamentos, açoitamentos, tortura e assassinatos de jornalistas, poetas, estudantes e ativistas de direitos humanos já viraram rotina.

Em 2013, o professor paquistanês Junaid Hafeez que leciona o idioma inglês, foi detido e encarcerado, acusado de blasfêmia depois que um estudante filiado ao grupo Jamaat-i-Islami acusou-o de insultar Maomé, o fundador do Islã, no Facebook. Seu primeiro advogado, Chaudhry Mudassar, abandonou o caso em junho de 2013 após receber um grande número de ameaças de morte. O segundo advogado Rashid Rehman, foi morto a tiros em seu escritório em frente de colegas em 7 de maio de 2014. O advogado atual Shahbaz Gurmani, foi ameaçado de morte, houve disparos defronte de sua casa e lhe foi enviado uma carta do grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS em inglês), recomendando que ele abandonasse o caso, ameaçando decapitá-lo se ele insistisse em defender o cliente.
Junaid Hafeez continua preso.
Em 28 de dezembro de 2014 a escritora egípcia Fatima Naoot foi levada a um tribunal por ter, segundo consta, "insultado" o Islã. O "crime" dela foi ter tecido comentários em sua página do Facebook criticando o massacre de animais durante o Eid al-Adha, a festa do sacrifício celebrada pelos muçulmanos. "Não esmorecerei mesmo se eu for encarcerada", disse Naoot à Reuters. "O perdedor será o movimento cultural".
Fatima Naoot é uma colunista e poeta com pensamento crítico. Ela tem a coragem de se manifestar abertamente contra as injustiças da sociedade em que vive, características estas ameaçadoras demais para muitos muçulmanos.
Artigo 98(f) do Código Penal Egípcio proíbe cidadãos de "ridicularizarem ou insultarem religiões divinas ou incitarem agitação sectária".
Mas no Egito a lei, ao que tudo indica, vale apenas contra seguidores de qualquer religião que não seja a Islã sunita. De acordo com o relatório anual de 2014 da Comissão de Liberdade Religiosa Internacional dos EUA,
"o grosso das acusações tem como alvo artistas muçulmanos sunitas, importantes personalidades e jornalistas. No entanto, a maioria dos condenados à prisão por blasfêmia em um tribunal é formada de cristãos, muçulmanos xiitas e ateus, na maior parte dos casos em julgamentos viciados. Cerca de 40% dos réus eram cristãos, proporção esta extremamente alta se comparada com a população cristã de aproximadamente 10% a 15%".
O clérigo muçulmano Hussein Ya'qoub, declarou em 2009: "os judeus são inimigos dos muçulmanos independentemente da ocupação da Palestina. Vocês têm que acreditar que nós lutaremos, os derrotaremos e os aniquilaremos até que não reste nenhum judeu sobre a face a terra".
Outro clérigo muçulmano Sallah Sultan, afirmou em um discurso transmitido pela TV do Hamas em 2012, que as pessoas com as quais ele tem se encontrado, em qualquer lugar a seja, têm "sede do sangue dos judeus... Israel usou meninas com AIDS para seduzir jovens egípcios com o objetivo de infectá-los", segundo ele, evidentemente sem se preocupar em apresentar provas, o que é apenas mais um exemplo da imaginação do ódio contra os judeus.
Nenhum dos clérigos foi intimidado a comparecer perante um tribunal por ter orgulhosamente proposto genocídio, mas Fatima Naoot é julgada por criticar o massacre de animais durante o Eid al-Adha.
Em 30 de agosto de 2014, o fotógrafo iraniano Soheil Arabi, 30, foi condenado por um tribunal penal em Teerã àpena de morte por enforcamento por "insultar o profeta do Islã" (Sabbo al-Nabbi) em postagens no Facebook. Em 24 de novembro de 2014, o Supremo Tribunal do Irã manteve a sentença de morte.
Soheil Arabi (direita) foi condenado à pena de morte no ano passado por um tribunal iraniano por "insultar o profeta do Islã" em postagens no Facebook.
Em 2014, Raif Badawi, 31, um blogueiro saudita e criador de um website destinado a fomentar o debate político e religioso, foi condenado a 10 anos de prisão, 1000 chicotadas e uma multa de 1 milhão de riais sauditas (cerca de US$267.000) por "adotar pensamentos liberais" e "insultar o Islã". Badawi recebeu as primeiras 50 chicotadas da sentença em 9 janeiro de 2015 em frente a uma mesquita logo após as rezas matinais, "rodeado por uma multidão entusiasmada que entoava incessantemente Allahu Akbar (Deus é grande)" durante as chicotadas". A sentença foi mantida na semana passada pelo Supremo Tribunal da Arábia Saudita, a comutação da pena só pode ser promulgada pelo Rei Salman.
De acordo com a lei da Sharia islâmica, o livre pensamento é o crime mais imperdoável no mundo muçulmano. Estar preso, ser torturado ou executado por pensar livremente também é a razão pela qual há uma defasagem de séculos entre os países muçulmanos e o Ocidente no que tange à emancipação humana. Para Eurípides "não poder expressar o próprio pensamento é a verdadeira escravidão, em muitos países muçulmanos o livre pensamento é sentença de morte.
Aqueles que têm a coragem de tentar abolir essa "escravidão" no mundo muçulmano, são forçados a pagar um preço incomensurável. A jovem ganhadora do Prêmio Nobel Malala Yousefzai foi baleada na cabeça por pleitear poder estudar. Advogados que representam aqueles que tentam abolir essa "escravidão" ou outras alegações, mesmo as fraudulentas, são assassinados.
É permitido explodir uma escola repleta de crianças, deliberadamente atropelar inocentes em nome da jihad, massacrar pessoas durante as rezas e logo em seguida distribuir doces para comemorar sua "vitória", depreciar o valor da mulher de incontáveis maneiras, tendo quatro esposas, espancando-as, divorciando- se delas com apenas uma palavra e você será elogiado por muitos muçulmanos por ser um "herói", um "mártir" ou "um verdadeiro muçulmano".
Essa maneira de ser nada tem a ver com o Ocidente ou qualquer tipo de interferência ocidental. Não foram os europeus, os Estados Unidos ou o Estado de Israel que espalharam essas coercitivas leis baseadas na sharia contra a blasfêmia e apostasia entre os muçulmanos.
Os regimes muçulmanos, que sequer conhecem a definição de liberdade, sem falar da sistemática criminalização da liberdade de expressão, supressão da pesquisa e criatividade, intermináveis disputas tribais, são a razão pela qual seus povos continuam no século VII.
A ascensão do ISIS no Iraque e na Síria, a expansão do alcance do Irã em mais quatro países (Iraque, Síria, Líbano e Iêmen) à medida que os Estados Unidos vão se retirando de três (Líbia, Iêmen e Iraque) além da indiferença da maior parte do mundo muçulmano em face a essa nova catástrofe, tudo indica que ainda não pode haver muita esperança para alguma mudança positiva no mundo muçulmano. Até mesmo os visionários pedidos para a reforma islâmica do Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi não foram bem recebidos publicamente por nenhum líder ocidental sequer.
Com exceção dos defensores da liberdade como Hafeez, Naoot, Arabi e Badawi, a situação parece estar piorando dia a dia. Um panfleto distribuído pelo ISIS responde a 27 perguntas, entre elas: "É possível capturar todas as mulheres infiéis"? E "é permitido manter relações sexuais com uma escrava que ainda não tenha atingido a puberdade"?
O panfleto também aprova a escravidão, estupro (inclusive de meninas que ainda não atingiram a puberdade), espancamento para obter gratificação (darb al-tashaffi) e tortura (darb al-ta'dheeb).
Uma ideologia que incentiva seus adeptos a participarem de tumultos violentos que resultam em mortes, incendiarem embaixadas e a cometerem assassinatos devido a caricaturas e que não dão mostras de sinais de arrependimento quando meninas pequenas são vendidas e estupradas, muito provavelmente não tem muito a contribuir para o avanço da civilização.
Uma ideologia que trata as mulheres como propriedade, que assassina ou encarcera intelectuais e sentencia um blogueiro a 1000 chicotadas e dez anos de prisão, se ele sobreviver, não tem o direito de jogar a culpa pelos seus problemas no Ocidente ou em quem quer que seja.
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Uzay Bulut, nascida e criada como muçulmana, é uma jornalista turca estabelecida em Ancara, Turquia.


Publicado no site do The Gatestone Institute - http://pt.gatestoneinstitute.org

Tradução: Joseph Skilnik

(Fonte: MSM)