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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Constantino, o Grande


O Autor da Natureza

Frases de Thomas Paine

O Príncipe (Maquiavel) - documentário


No País das Maravilhas (Fedeli) - 5


Capítulo V – Nova doutrina da salvação e do Juízo Final

Plinio Correa de Oliveira em sua infância cor-de-rosa...

Veja-se como essa hipótese [dos capítulos anteriores] é reforçada pela noção de Juízo Final descrita por PCO.

Nesse ponto de seu livro, Plínio vai tratar do Juízo da alma por Deus. E ele diz que sua concepção sobre o juízo da alma por Deus “difere da concepção comum sobre o que são o existir de um homem, o Juízo Final e o julgamento de Deus” (Plínio C. de Oliveira, A Inocência…, p. 61).

Ora, o próprio Jesus Cristo contou e revelou como será o Juízo Final, e o que PCO diz é totalmente diferente do que disse Cristo, no Evangelho, e do que ensina a Igreja sobre esse julgamento divino universal, como também sobre o juízo particular de cada alma.

Porque Jesus, quando foi interrogado pelo jovem rico, como ele poderia salvar sua alma, Nosso Senhor lhe respondeu: “Se queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos” (Mt., XIX, 17).

Plínio vai dizer o oposto do que ensinou Nosso Senhor, ao afirmar que a salvação eterna nada tem a ver com a prática de uma “tabela de dez mandamentos”.

Como ousa Dr. Plínio divergir do relato do Juízo Final feito pelo próprio Cristo Deus?

E como, dizendo esse absurdo, ele é apresentado ainda como pensador Católico?

Não acreditam que o homem que se pretendia “vir totus catholicus” disse isso?

Leia-se então a surpreendente explanação pliniana do Juízo Final:

"Por vezes vem-nos ao pensamento que a entrada no Céu será como se fosse num país completamente estranho, onde não conhecemos ninguém. Ficamos, no fundo, um tanto apavorados. E pode-se ter a impressão de que o julgamento não tem relação com nossa biografia, mas com uma tabela de Dez Mandamentos que se deveria ter praticada. Não nos parece que vamos rever uma pessoa muito conhecida, mas ter contato com um desconhecido que nunca esteve diante de nós” (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência…, p. 61).

Incrível!!! Uma pessoa, que passava por ser católica e tradicionalista, “il crociato del secolo XX”, caricaturando o Juízo Final do modo como costumam fazê-lo os modernistas e os liberais, que condenam o Juízo, pela Lei de Deus. Plínio, como um padre modernista, afirma com todas as letras, que, no Juízo Final, não seremos julgados pelo que ele chama a “Tabela dos Dez Mandamentos”.

Por que isso?
Porque, se a inocência primeva [em si mesma considerada] não seria perdida nem por um mar de pecados cometidos, a pessoa se salvaria, não porque ela seria julgada pela tabela dos mandamentos, mas por sua adesão ao estado de harmonia das faculdades da alma, por sua adesão à Inocência Primeva, que a uniria a Cristo a tal ponto, que a tornaria sósia tão igual a Cristo, que seria “um” só com Ele.

A pessoa seria julgada por sua identificação com o Eu de Cristo. Daí, PCO dizer que a Inocência Primeva tem algo de divino.

"Na hora da morte acaba o exílio, porque termina o lusco-fusco e se vai ter o grande encontro: o grande encontro com Aquele com 'A' maiúsculo no lar paterno da alma. Com Aquele que é mais eu do que eu mesmo, e em cujo convívio vou passar a viver e existir por toda a eternidade. É a sensação de volta à casa paterna depois de uma longa peregrinação. É a procura do semelhantíssimo a mim, mais eu do que eu mesmo (Plínio Corrêa de Oliveira, A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, ed. Cit., p. 62).

De novo, para quem conhece o gnóstico “Canto da Pérola” (Cfr. Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris,1978, p. 152 a 173) é patente a similitude entre essas idéias de PCO, com a sua “procura do semelhantíssimo a mim, mais eu do que eu mesmo”, e a Gnose antiga.

Que significa que após a morte a alma “retornaria ao lar paterno”? Por acaso a alma teria vindo do céu antes de se encarnar e nascer? Isso seria admitir a pré existência das almas num mundo divino, e sua queda neste mundo material onde a alma se torna peregrina em viagem de “retorno à casa paterna.” Mas essa é a lenda contada pela Gnose. O “Canto da pérola” dos gnósticos antigos não diz coisa diversa.

E essa concepção do Juízo da alma também não é católica.
Nosso Senhor disse que para ser salvo é preciso crer, ser batizado e observar os mandamentos (Mc., XVI, 16; Mat. XIX, 17).
Para a Gnose, a salvação vem do conhecimento intuitivo de algo divino inato no homem. Tal conhecimento seria salvador. Gnosis é um conhecimento salvador.

E qual é o conteúdo do conhecimento que salva? Fundamentalmente, não é senão a história da própria história transcendente, pelo fato de que é ela que expõe ou que supõe toda a verdade iluminante do que o mundo esconde e o que a salvação exige: “o conhecimento: quem nós éramos; o que nos tornamos; onde estávamos; onde fomos jogados; em direção de que nós nos apressamos a ir; do que somos resgatados; que é o nascimento e o que é o renascimento ( Extratos de Teódoto, 78, 2, apud Hans Jonas, Op. cit., p. 455).

"O homem, conhecendo o ser mais íntimo que reside no 'tabernáculo de sua alma', – e Plínio vai usar essa fórmula — o homem estaria salvo, sem penitência, sem cruz, ainda que submerso num mar de pecados, pois esse conhecimento é de que o eu mais profundo dele é uma partícula da própria Divindade. Na Gnose cristã, o Eu profundo do homem é o Eu de Cristo, no homem. É nesse princípio escondido da pessoa terrestre e seu original celeste que se dá o último reconhecimento e reunião. Em nosso relato - [O Canto da Pérola] – a veste, forma celeste desse eu que é invisível porque está temporariamente ocultado, é uma das representações simbólicas de uma doutrina extremamente espalhada e essencial para os gnósticos. Não é exagerado dizer que a descoberta desse princípio transcendente e interior ao homem e a mais elevada preocupação com seu destino, são o próprio coração da religião gnóstica" (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, p. 168).

Vimos que Plínio julgava que havia um arqui alter ego dele mesmo. E agora, nessa concepção do Juízo de Deus, vemos que a salvação adviria não da fé e da prática da moral, mas da identificação da pessoa com seu arqui alter ego: Cristo.

Cristo-Deus seria então o arqui alter ego de Plínio.
Portanto, Plínio, e todos os que desenvolvessem a sua inocência primeva, seriam Deus. Por isso Scognamiglio dirá que o flash é graça divinizante
Com d minúsculo… E o d minúsculo é para enganar ingênuos, enquanto ele tenta passar uma rasteira nos Cardeais do Vaticano.

Ora, diz Hans Jonas da Gnose:
"Precisemos alguns pontos importantes. Assim, há identidade ou consubstancialidade, do eu mais íntimo do homem e do Deus supremo do além mundo [da Trans-esfera, diria PCO] –, que, muitas vezes, é ele mesmo chamado Homem [E PCO ambiguamente insiste em chamar Cristo de o Homem-Deus, quase nunca de Deus-homem] – : a extrema elevação metafísica coincide, na essência a-cósmica do homem com a a extrema alienação cósmica (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, p. 453).

E há outro texto em que Plínio afirma que o Sagrado Coração de Jesus era semelhante a ele, Plínio. Ele conta que, olhando uma imagem comum do Sagrado Coração de Jesus, Plínio…

"Sentia que, se quisesse fazer uma idéia d’Ele, deveria ter a certeza de que sua mentalidade era precisamente aquela, ali representada. Conhecê-Lo, pois, para mim, era interpretar aquela figura. E eu refletia: 'Essa imagem me compraz e está de acordo com minha retidão, da qual estou certo, pois ela é uma evidência interna nascida em mim, proveniente de algo que não erra! Eu não sabia que isso era o senso do ser' ". (Plínio Corrêa de Oliveira, Notas Autobiográficas, Editora Retornarei, São Paulo, 2008, 1º volume, p. 307).

Plínio, pelo seu infalível “senso do ser”, tinha certeza de que o Sagrado Coração de Jesus era parecido com ele, Plínio: que Jesus era o seu arqui alter-ego…
Christus alter Plinius.
Que honra!… Para Cristo, pensaria Plínio.

Deixando de lado, o patente problema psicológico dessas meditações delirantes, vejamos algo muito mais grave: a comprovação por alguns textos da Gnose mandeana, o caráter gnóstico dessa concepção de união com um alter-ego divino. Vejamos, para exemplo, alguns antigos textos da Gnose mandeana e maniquéia, para constatar como eles coincidem com a doutrina exposta por PCO.

“A veste e a Imagem”
“Nas Liturgias mandeanas para os Mortos, lemos esta fórmula costumeira (por exemplo, G. 559):
“Eu me vou ao encontro de minha imagem
E minha imagem vem a meu encontro;
Ela me acaricia e ela me abraça
Como se eu voltasse do cativeiro”.

Esta concepção provém de uma doutrina do Avesta em cujos termos, após a morte de um crente, “sua própria consciência religiosa sob a forma de uma bela jovem”, aparece à sua alma que lhe pergunta quem ela é e eis a sua resposta:
Jovem, de bons pensamentos, de boas palavras, de boas ações, de boa consciência, eu sou sua consciência pessoal…Você me amou… nesta sublimidade, nesta bondade… sob as quais eu te apareço hoje (Hadôxt Nask, 2, 9,s.)”.
(…) Ela simboliza o eu celeste ou eterno da pessoa, a sua idéia original, espécie de duplo ou de alter ego conservado no mundo do alto, enquanto ele pena aqui em baixo: como diz um texto mandeano:
“Sua imagem é guardada em segurança em seu lugar”.
“Ela cresce na proporção dos trabalhos próprios que ela cumpre, e, na medida em que sofre, ela tem forma acabada”.
Quando ela está em suficiente grandeza, significa que ela cumpriu sua missão, e é então que ela é chamada de seu exílio no mundo. Quando ela encontra essa face dela mesma, da qual ela foi separada, quando ela a reconhece como sua própria imagem, quando ela se reúne a ela, esse é o verdadeiro instante de sua salvação. Aplicada ao mensageiro ou salvador, como ela o é aqui e em outros textos, esta concepção leva à interessante idéia teológica de um gêmeo ou de um original eterno do salvador, que permaneceu no mundo do alto durante sua missão terrestre. A Especulação gnóstica é freqüente nestes desdobramentos de pessoas divinas”. (…) “Quando o estrangeiro [o exilado no mundo inferior] se reúne com sua veste, parece que a pessoa do irmão foi reabsorvida numa unidade” (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, pp. 165 e 166).

A noção do duplo eu é comum nos sistemas gnósticos e vai ser repetida na Gnose romântica que Plínio adotou.

O Eu Transcendente”, “O duplo do salvador, como vimos, não é senão a representação teológica particular de um idéia reativa à doutrina do homem em geral, e que exprime o conceito do Eu. Neste conceito, podemos distinguir o que é talvez a contribuição mais profunda da religião persa ao gnosticismo, tanto como à história da religião em geral. O termo do Avesta é Daêna, e o orientalista Bartholomae dá o seguinte sentido: “1- religião; 2- essência íntima, ego espiritual, individualidade; muitas vezes dificilmente traduzível”.
Nos fragmentos de Turfan, se utiliza um outro termo iraniano, griv, que se pode traduzir por “eu” ou por “ego”. Ele designa a pessoa metafísica, o sujeito transcendente e verdadeiro da salvação, que não é idêntico à alma empírica” (Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion, Paris, 1978, pp. 166 e 167).

O texto da liturgia mandeana diz:
“Eu me vou ao encontro de minha imagem
E minha imagem vem a meu encontro”.

E Dr. Plínio disse:
"Na Hora da morte acaba o exílio, porque termina o lusco-fusco e se vai ter o grande encontro: o grande encontro com Aquele que com 'A' maiúsculo no lar paterno da alma. Com Aquele que é mais eu do que eu mesmo."

O paralelismo dos textos é evidente, e a doutrina da Gnose mandeana com a doutrina de Plínio é coincidente. Dr. Plínio foi um gnóstico. E a TFP dos Provectos assim como os Arautos, ambos movimentos-fachada da Sempre Viva, são gnósticos.

Claro que podem existir pequenas diferenças acidentais na estrutura de pensamento da Gnose e da Sempre Viva, mas no fundo, trata-se da mesma heresia.

E como o Eu de Cristo seria sósia absoluto do eu de cada homem que adere à Inocência Primeva, cada homem inocente, de certo modo, seria Cristo. Christianus alter Christus.
Especialmente, Plínio realizou essa identificação.
Plinius alter Christus

O que se diz na Igreja de ser um com Cristo, o próprio PCO aplicava a ele mesmo. Dr. Plínio ensinava que seus sequazes precisavam ser “um” com ele:
"Vocês tem que fazer ascese para concordar comigo e para serem inteiramente um comigo. Esta ascese eu fiz com a Igreja. Eu tomei a minha natureza e a dobrei (e fez um gesto como de alguém que estivesse dobrando uma barra de ferro) eu me tomei mim mesmo e dobrei a minha natureza e transformei a minha natureza à semelhança da Igreja. É preciso tomar a natureza de vocês com ascese e dobrá-la e serem um comigo (Jour le Jour de PCO - Jornal falado de João Clá aos EUA em 23 de Janeiro de 1983).

Ser um com Plínio equivaleria a ser um com a Igreja. Porque, na TFP e entre os Arautos, se acredita que Plínio é a Igreja.

Ser um com Plínio: essa era a ascese fundamental da Sempre Viva, dos Arautos e da TFP, ascese ensinada por PCO e instilada por Scognamiglio.

Plínio confunde imitação, visando a perfeição, com identidade substancial, ontológica. Imitar a Cristo, buscando a perfeição não torna o imitador idêntico ao modelo, anulando a sua identidade, fazendo do modelo e do modelado um único ser.
São Francisco, imitador de Cristo, continuou Francisco, não se tornou Cristo. Ele não perdeu sua natureza própria. Uniu-se a Cristo misticamente, moralmente, aperfeiçoando seu ser, e não perdendo sua identidade.

Mas na Sempre Viva se vai [pretensamente] além disso. Cada membro da Sempre Viva, tornando-se outro Plínio, se identificava com o eu de PCO e com o Eu de Cristo.

Daí, o atual Monsenhor Scognamiglio dizer que:
"A união com o Fundador [PCO], através da Sempre Viva, é o auge da Sabedoria e da sacralidade. Uma vocação angélica.
Ao tratar do caráter sacral da Sempre Viva – e, portanto, do que existe de sagrado em cada um dos escravos de Maria –, meu Fundador – [PCO] – assim se expressou:
[Palavras de PCO]: Com a graça da Sempre Viva, um escravo de Maria recebe um dom maior do que qualquer outro dom, porque traz consigo uma promessa do Céu, uma promessa de um amor particularíssimo de Nossa Senhora, a promessa de uma missão, a promessa de uma contínua ação de graças, através de Maria, baixando sobre os escravos de Maria. Qual é o dom que se pode comparar a este? O que é ser Rei da Bélgica em comparação com isto? O que é ser Rainha da Inglaterra em comparação com isto? Com toda a veneração, com toda a ternura, pergunto: o que é ser Papa, em comparação com isto? Quer dizer, isto é ser anjo, é um estado angélico na terra, e mais não se pode dar (Plínio Corrêa de Oliveira, apud João Scognamiglio Clá Dias, 10ª Conferência do Retiro V, A Unidade do Súdito com o Fundador, p. 10 de 12).

Para Monsenhor Scognamiglio, ser da Sempre Viva, conforme lhe ensinou Dr. Plínio, “é ser mais do que ser apóstolo de Cristo. É mais do que ser anjo”.
Claro: seria ser Cristo.

Ser da Sempre Viva, então, seria ser de algum modo divino, como escreveu Plínio falando do que significa aderir à Inocência Primeva. E isso é Gnose mesmo.

Como um professor capaz, como meu antigo amigo Roberto de Mattei chamou Plínio Corrêa de Oliveira de “O Cruzado do Século XX”? Será que ele, de fato, jamais recebeu informação sobre as doutrinas secretas da TFP?

Tomara Deus que não. E espero que, agora, conhecendo esses textos de Dr. Plínio, ele volte atrás, porque o tenho como sincero católico.

E assim, em Deus espero…

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vida de Santo Agostinho (filme)

* Hipona, África, 430 d. C. ...

O Brasil na mira de Hitler


Outro Cristianismo é Possível (Roger Lenaers)

# Post original de 21/08/2013 (repostagem).

* Em síntese: nosso jesuíta propõe um cristianismo inteiramente limpo de todo sobrenaturalismo, despindo os antigos dogmas, rituais e costumes de seu significado tradicional e revestindo-os de motivações e sentidos absolutamente naturais (naturalismo), humanos, sociais, culturais e filosóficos. Em outras palavras, Lenaers defende a plena retomada do projeto de reforma radical do cristianismo apresentado já em fins do século XIX e começo do XX pelos teólogos modernistas, tais como Loisy e Tyrrel - projeto na época solene e estupidamente rejeitado pelo papa Pio X, mas depois parcialmente retomado, na década de 1960, pelo Concílio Vaticano II. Levá-lo, finalmente, a mais inteira realização, é o clamor que Lenaers na presente obra nos faz ouvir. 
E nós, deístas, fazemos votos de que essa renúncia às superstições e conversão à Razão ocorram o mais logo e mais plenamente possível, seja no cristianismo, seja em todas as demais religiões - atualmente afundadas no erro e na irracionalidade.


OUTRO CRISTIANISMO É POSSÍVEL

- FÉ EM LINGUAGEM DE MODERNIDADE -


(Padre Roger Lenaers, SJ)


Sumário: 
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Jesus, uma lenda recheada de mentiras

* Post original de 16/09/2012

(Fonte: Revista Superinteressante)


Conta o evangelho de João que, quando Jesus ressuscitou e apareceu aos apóstolos, um deles, São Tomé, duvidou. Quis verificar de perto as chagas do mestre para, só então, dar crédito ao milagre. Atualmente, em matéria de fé, a cautela de São Tomé vem ganhando mais e mais adeptos. Não que os crentes duvidem, mas já não basta mais acreditar nos ensinamentos de Cristo: é preciso pisar o chão que ele pisou, respirar o ar que ele respirou. Em 1993, 12808 brasileiros visitaram Jerusalém. Em 1995, o número dobrou: 26357. Agora, 1996 deve bater um novo recorde. O turismo brasileiro para Israel é o que mais cresce naquele país, em termos proporcionais, segundo o Ministério do Turismo, em Tel Aviv. É viajar para crer.

Para quem não viaja, é ter para crerEm três meses, a marca de televendas Homeshopping vendeu 15000 “Cruzes da Natividade”, um crucifixo com uma minúscula redoma de vidro que, segundo os vendedores, contém um fragmento da gruta de Belém (onde, supõe-se, Jesus teria nascido). O comprador recebe um certificado do Museu de Israel garantindo a autenticidade da pedrinha. Na busca pelo Jesus histórico vale o aval da ciência. Bem ao estilo da prova empírica exigida por São Tomé.

O problema é que, em matéria de ciência, sabe-se muito pouco sobre o personagem, infelizmente. A névoa mística que encobre a biografia de Jesus é tão espessa que muitos desaconselham qualquer pesquisa. Mesmo assim, um número impressionante (e crescente) de pesquisadores se dedica ao assunto. As pistas são precárias e controversas, mas apresentam novas respostas (às vezes, novas perguntas) sobre Jesus Cristo. É o que você vai ver nesta reportagem. Para começar, uma certeza: na Judéia, no primeiro século de nossa era, aconteceu algo crucial.


Como rastrear a verdade sob o mito

Cristo nasceu antes de Cristo, no ano 7 a.C. Nosso calendário romano-cristão está errado, já devíamos estar no ano 2001 [artigo de 1995]. Tampouco há evidência de que o Natal seja em 25 de dezembro, porque não se sabe em que mês Jesus nasceu. A data de dezembro foi fixada pela Igreja no ano 525 para coincidir com festas pagãs do Oriente e de Roma. E, de acordo com as pesquisas, Jesus não nasceu em Belém, na Judéia, mas em Nazaré, na Galiléia, norte de IsraelPara a maioria dos pesquisadores os reis magos, o presépio e a estrela de Belém são invenções dos evangelistas para identificar o nascimento de Jesus com a vinda do Messias, que já era anunciado no Velho Testamento. A expressão é profana mas vale: há muito marketing nos evangelhos.

Os estudiosos (muitos deles, homens de fé cristã) sabem que os evangelhos oficiais da Igreja, de Marcos, Mateus, Lucas e João, dão mais testemunhos de fé do que da verdade histórica. Mais ainda: apresentam discrepâncias e contradições inconciliáveis. Para resolvê-las e ajustar o foco da ciência sobre o chamado Jesus histórico, as próprias instituições religiosas financiam estudos e mais estudos. Parece um paradoxo, mas o fato é que na era do fundamentalismo religioso, a fé precisa se basear em evidências científicas. Há 4 800 scholars pesquisando as Escrituras, só nos Estados Unidos. Há 80 000 livros sobre Jesus e 1 000 cursos universitários sobre ciência e religião, no mundo.


Em busca de novas fontes

Nos últimos 50 anos, descobertas arqueológicas reviraram o rumo das pesquisas várias vezes. Mas valeu a pena. Como resultado, a lingüística e a filologia se aprimoraram, admiravelmente. Hoje, os cientistas podem comparar textos antigos, analisar estilo, forma, mensagem e estabelecer pressupostos sobre a cultura da época, seu ambiente e sua idade. O mistério, entretanto, continua. O problema, incontornável, é que faltam fontes. Do nascimento de Jesus até seu batismo, na fase adulta, não há nada [de histórico], nem nos Evangelhos. Não há nenhuma descoberta arqueológica associada diretamente à vida de Jesus. As historiografias grega e judaica, tão copiosas sobre outros vultos da Antigüidade, simplesmente ignoram Jesus Cristo. As fontes romanas são posteriores à sua morte. E muitas foram adulteradas pela propaganda religiosa. É notável o contraste entre a importância de Jesus para a posteridade e sua insignificância nos registros da época.


A cultura do cristianismo

As maiores esperanças estão nas escavações arqueológicas. Em 1945, nas cavernas de Nag Hammadi, no Egito, encontrou-se uma biblioteca cristã do século IV, em língua copta, com vários Evangelhos Apócrifos, aqueles não incluídos no Novo Testamento. Dois anos mais tarde, nas cavernas de Qumran, em Israel, foram achados os Manuscritos do Mar Morto, a biblioteca de um convento da seita judaica dos essênios, com textos de 152 a.C. a 68 d.C., cuja decifração até hoje não foi concluída.

Os Manuscritos do Mar Morto também ignoram Jesus, mas revelam a cultura sobre a qual o cristianismo se erigiu. Agora, em janeiro de 1996, mais quatro cavernas funerárias, dos séculos II e I a.C, foram descobertas, em Qumran, sem documentos. Mas quem sabe não surgirão outras?

Uma das maiores autoridades na história do cristianismo, o padre filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica Arqueológica Francesa de Jerusalém, encarregada de decifrar os Manuscritos, admitiu à SUPER seu pessimismo: “Nosso conhecimento sobre Jesus provavelmente não vai mudar. Mas poderão surgir novas indicações filológicas, lingüísticas e históricas importantes sobre a Palestina e a jovem comunidade cristã do século I. Isso, sim, ajudará a conhecer melhor o Cristo real”.


Como proteger o mito da verdade

A tese é polêmica, mas a maioria dos pesquisadores está convencida de que os quatro evangelhos oficiais da Igreja do Novo Testamento – Marcos, Mateus, Lucas e João – não foram escritos por seus autores. São, muito provavelmente, compilações de mensagens anônimas ou atribuídas aos apóstolos, orais ou escritas, dos séculos I e II. Os nomes dos quatro evangelhistas apenas identificam conjuntos de ensinamentos (creditados a cada um deles) escritos e reescritos pelas comunidades, sucessivamente.

O evangelho de Marcos é o mais antigo dos quatro, escrito por volta do ano 70 d.C. O de Mateus é do ano 70 ou 80, o de Lucas do ano 80 ou 90 e o de João foi escrito depois dos 90. Os quatro contêm “material suficiente para levar fé ao coração das pessoas abertas, mas não para escrever uma biografia de Jesus”, segundo o teólogo Luke Johnson, autor de The Real Jesus.

A grande quantidade de textos era um problema para a Igreja que estava nascendo. Havia muitas comunidades, ritos e evangelhos diluindo a doutrina e favorecendo o aparecimento de dissidências e heresias. Por isso, aos poucos, tornou-se necessário escolher alguns textos e canonizá-los, tornando-os santos. Muitos ficaram de fora. Há mais de sessenta Evangelhos Apócrifos, como o de Tomé, de Pedro, Felipe, Tiago, dos Hebreus, dos Nazarenos, dos Doze, dos Setenta etc, que não entraram no Novo Testamento. Têm enorme valor para a ciência. [Trocando em miúdos: o Novo Testamento é uma mera invenção da Igreja, que escolheu dizer que aqueles livros eram os inspirados...]


O primeiro concílio

A canonização dos textos evangélicos se confunde com a consolidação da Igreja. No ano 311, o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo e a Igreja, antes perseguida, ganhou o apoio do Estado. O próprio Constantino organizou o primeiro concílio ecumênico, na cidade bizantina de Nicéia (hoje, território turco), no ano 325, pagando as despesas de viagem de 318 bispos. Em meio a discussões acaloradas, várias vezes apartadas pelo imperador e seus soldados, foram estabelecidos o primado da Igreja Romana sobre a cristandade, o dia da Páscoa e importantes dogmas doutrinários. A partir daquele concílio, as Escrituras cristãs começaram a ser oficializadas: os 27 textos do Novo Testamento: os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, os Atos dos Apóstolos, o Livro das Revelações (o Apocalipse) e mais 21 Cartas.

Tudo isso foi escrito em grego, que era língua culta do Oriente Próximo desde a expansão helenizante de Alexandre Magno (356-323 a.C.). A propósito, Cristo é uma palavra grega (quer dizer “o ungido”) e a primeira capital mundial da cristandade não foi Roma, mas a grega Constantinopla. Até o século IV, a missa, em Roma, era celebrada em grego. Os textos do Novo Testamento popularizam-se com a tradução para o latim feita por São Jerônimo, na Palestina, no século V.

Durante séculos, os monges copistas reproduziram esses textos a mão, às vezes reelaborando-os segundo as conveniências da doutrina. Alteraram não só o Novo, como também o Velho Testamento. Partes do Gênesis teriam sido criadas por teólogos, entre eles Santo Agostinho (354-430). “O conceito de Pecado Original, derivado da desobediência de Adão e Eva como princípio da história pecaminosa da raça humana, não existe no Velho Testamento judaico”, observa o teólogo Paulo Augusto de Souza Nogueira, professor do Instituto Metodista de Ensino Superior. O assunto é controverso, é claro. 


A história falsificada

Outros textos clássicos também foram adulterados. No importante Antiguidades Judaicas, que fornece informações importantes sobre Jesus e o cristinianismo, o historiador Flávio Josefo (37-100), lá pelas tantas, afirma que Jesus “fazia milagres” e que “apareceu, três dias depois da sua morte, de novo vivo”, afirmação pouco crível para um ex-judeu feito cidadão romano. “Claro que esso trecho foi distorcido”, explica Maria Luiza Corassim, professora de História Antiga na Universidade de São Paulo. “Josefo não podia acreditar que Jesus fosse o Messias. Isso é coisa dos monges copistas. Do século II ao século XV as únicas cópias existentes dos livros estavam nos conventos. Eles agregavam o que queriam”.

Agora, boa parte do trabalho dos pesquisadores é separar o que é verdade de fato, sobre Jesus e sua época, e o que era propaganda.


A Judéia antes e depois de Cristo

Israel conquistou a independência no ano 129 a.C. vencendo os monarcas selêucidas, que reinavam na Palestina. Os judeus macabeus, que lideraram a revolta, fundaram a dinastia Asmoneu. Mas a rivalidade entre as seitas judaicas acabou provocando uma guerra civil (103-76 a.C.) que opôs saduceus – a classa alta, influenciada pelo helenismo, aliada aos asmoneus e aos sacerdotes do Templo de Jerusalém – aos fariseus anti-helenizantes, adeptos de uma interpretação das Escrituras que reconhecia a nova classe de escribas religiosos – os rabinos.

Mais tarde, no ano 63 a.C., Roma invadiu a Palestina conflagrada pelo sectarismo religioso. O general Pompeu ocupou o Templo e transformou a Judéia em província romana. Em 48 a.C., os romanos nomearam Antipater governador da Judéia e, em 31 a.C., depois de debelarem uma tentativa da dinastia Asmoneu de voltar ao poder, coroaram governador Herodes Antipas (filho de Antipater).

Herodes era um monarca detestado. Casou-se com uma princesa asmonéia mas a permanente paranóia de uma restauração real judaica induziu-o a assassiná-la. Além dela, Herodes matou também quatro filhos, a sogra e o cunhado. Também insultou a religiosidade dos judeus construindo templos pagãos e um hipódromo para lutas de gladidores em plena Jerusalém. Mas deixou obras importantes, como o porto de Cesaréia, a fortaleza de Massada e a restauração do Templo, cujo muro ocidental, o Muro das Lamentações, continua de pé até hoje.

Jesus nasceu sob o governo de Herodes, ano em que houve 2000 crucificações na Judéia. Na época, os judeus estavam divididos em quatro seitas. Os saduceus, fortemente influenciados pela cultura helenista, cujos sacerdotes dominavam o Templo, eram a elite. Os fariseus eram populistas: propunham o judaísmo orientado pelos rabinos do povo. Os austeros essênios, renunciantes e eremitas, preferiam o isolamento. Por fim, os radicais zelotes, pregavam a violência e a revolta contra Roma. Com Cristo, surgiria mais uma seita, a dos nazarenos.


O fim do mundo

Havia um grande anseio apocalíptico, na Judéia, no século I. Esperava-se ardentemente a vinda do Messias, aquele destinado a libertar Israel dos romanos. Com o Messias, viria o fim do mundo, o reinado de Deus na Terra e uma nova era para o povo escolhido. Profetas maltrapilhos anunciando o fim dos tempos e pregando a salvação era o que não faltava. As seitas se confrontavam no Templo e, fora dele, os zelotes organizavam atentados contra os romanos, brigavam entre si e com as outras seitas, e planejavam a revolta liderada pelo Rei Messias.

O plano dos zelotes demoraria a se consumar. No ano 6, os romanos assumiram o governo direto da província através de prefeitos como Pôncio Pilatos (26 a 36) – que mandou crucificar Cristo no ano 30. Em 37, houve uma nova provocação: o imperador Calígula mandou levantar sua estátua no Templo (que não chegou a ser concluída). Só em 64, os zelotes deflagaram a rebelião. O general Vespasiano veio da Bretanha e acabou com o levante. Na véspera do ataque a Jerusalém, voltou para Roma para assumir o trono e passou a tarefa ao filho, Tito. Em 28 de agosto de 70, a cidade foi arrasada, o Templo, destruído e milhares de judeus, escravizados.

Mesmo assim, a agitação religiosa não parou. Em 73, 960 judeus suicidaram-se na fortaleza de Massada para não caírem prisioneiros dos romanos. Em 114, as comunidades judias de Chipre, Alexandria e Cirene revoltaram-se e foram destruídas. Em 132, um novo auto-proclamado messias, Shimon Bar Kosib, que mudou o nome para Bar Kochva, Filho da Estrela, liderou outra revolta, de três anos. Os romanos mandaram o general Júlio Severo, arrasaram 1000 povoados e mataram centenas de milhares. Em 135, o imperador Adriano mandou passar o rastelo em Jerusalém.

O desastre da segunda revolta acabou com a influência dos zelotes e consagrou a autoridade dos rabinos fariseus. Em 138, com o abrandamento da dominação pelo imperador Antonio Pio, o judaísmo rabínico expandiu-se. Mas, a essa altura, a popularidade do cristianismo era muito maior.


A paixão sem paixão

Cristo só nasceu no dia 25 de dezembro por obra do papa João I, que decretou a data do Natal no ano de 525. Mudava ali o calendário cristão. O monge Dionisio Exiguus, incumbido de determinar o ano zero, errou nos cálculos. Segundo Lucas e Mateus, Jesus nasceu “perto do fim do reino de Herodes”. Problema: Herodes morreu em 4 a.C. Hoje, a tese mais aceita é a de que Jesus tenha nascido no ano 7 a.C., um pouco antes da morte de Herodes. Isso mesmo: Cristo nasceu antes de Cristo.

O outro senão é o local. Em Mateus e em Lucas, é a gruta de Belém. Para Mateus, a família de José foge, depois, para o Egito, escapando ao massacre das crianças promovido por Herodes, e vai para Nazaré. Para Lucas, a anunciação do nascimento, pelo anjo à Virgem, é feita em Nazaré e, de lá, a família vai para Belém, obrigada pelo “censo ordenado pelo imperador César Augusto quando Quirino era governador da Síria”.

Entretanto, os registros romanos mostram que Quirino governou a Síria no ano 6 d.C. Os censos tampouco exigiam deslocamento para o local de origem familiar (José era de Belém), já que seu propósito era cobrar impostos. “É um pouco triste ter de dizer isso, porque o nascimento na gruta é uma história cativante, mas a viagem de ida e volta a Nazaré para o censo é pura ficção, criação da imaginação de Lucas”, escreveu o padre John Dominic Crossan, professor de Estudos Bílblicos na Universidade de DePaul, de Chicago, em seu livro O Jesus Histórico. Belém aparece como a terra natal porque era a cidade do rei Davi. “Conforme as profecias das Escrituras Hebraicas, o messias deveria nascer em Belém”. Mas hoje é consenso: Jesus nasceu em Nazaré...


Um camponês rústico

Comprovadamente, ele falava aramaico, língua corrente na Palestina, e um pouco de hebreu, aprendido na sinagoga e na Torá, a bíblia judaica. Era um camponês rústico das montanhas, que usava metáforas ligadas à agricultura, como o a “beleza dos lírios do campo” e a separação “do joio do trigo”, e evitava pregar em cidades grandes. Em sua aldeia de 1 600 habitantes o analfabetismo era regra, não exceção.

Jesus [possivelmente] era mesmo solteiro, o que é extraordinário, num cultura judaico-camponesa que valoriza o casamento e a família. “O celibato como estilo de vida para o judeu religoso comum, e em especial para um mestre ou rabino, seria algo impensável no tempo de Jesus”, esclarece o padre John Meier, professor de Novo Testamento na Universidade Católica da América, em Washington, em Um Judeu Marginal. “Ele deve tê-lo interpretado como o resultado de sua exaustiva missão profética para reunir o dividido e pecador povo de Deus.”


O curador dos aflitos

Durante dois anos, o celibatário pregou na Galiléia, na Judéia e em Jerusalém. Proclamava-se o messias. Aos olhos das seitas judaicas, blasfemava. Ao todo, no Novo Testamento, fez 31 milagres, dos quais 17 curas e 6 exorcismos. Na tradicão judaica, os homens ficavam doentes porque pecavam e a cura era um monopólio divino. O que é praticamente consenso entre os pesquisadores é que Cristo atuava em curas por conta própria, indiferente aos poderes religiosos constituídos no Templo de Jerusalém. Sempre desafiando.

Os desafios se agravaram na festa da Páscoa do ano 30 quando, invocando deliberadamente a profecia do Livro de Zacarias sobre a chegada do Rei Messias – “Aí vem o teu Rei, justo e salvador, montado num burrinho.” –, Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento. “Estava realizando a profecia de Zacarias, sugerindo que o reinado messiânico estava prestes a ser revelado ao povo”, explica outro especialista, o escritor A. N. Wilson, autor de Jesus, uma Biografia. Saudado pelo povo que abanava ramos, invadiu o Templo e expulsou fariseus e saduceus. A ofensa final.

Caifás, o Sumo Sacerdote, ordenou a prisão. Na quinta-feita à noite, já sentindo o cerco, os apóstolos celebraram a Última Ceia. A captura aconteceu no jardim de Getsêmane. Levado para o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo, o prisioneiro reafirmou sua missão divina.

Na manhã de sexta-feira, no pretório, a residência do procurador Pôncio Pilatos, na presença de Caifás, foi condenado. A Sexta-Feira da Paixão surgiu no dia 7 de abril de 30. Jesus foi crucificado no monte Gólgota. Tinha 36 anos.


As origens lingüísticas da fé

Falta pouco para terminar a tradução dos Manuscritos do Mar Morto. A maior parte dos 800 documentos encontrados entre 1947 e 1956, em 11 cavernas perto das ruínas do convento essênio de Qumran, já foram publicados. Faltam alguns papiros da gruta 11 e a maioria da gruta 4, que constituem 15 000 fragmentos, alguns menores que uma unha. Tudo deve ser recomposto e montado. Por isso a tradução demora. O trabalho é de ourives.

Os manuscritos são as mais antigas cópias do Velho Testamento que existem. Temendo um ataque romano, os essênios esconderam os textos nas cavernas, envoltos em panos de linho e enterrados dentro de vasos. O mais antigo data de 152 a.C, o mais recente, do ano 68. São uma preciosidade.

Décadas de tradução lenta e sigilosa provocaram uma crise acadêmica. Temeu-se que o trabalho estivesse sendo protelada por motivos religiosos. Em 1991, a bibioteca americana Huntington, que fora autorizada pelo Estado de Israel a fotografar os manuscritos para prevenir a eventual destruição dos originais, decidiu, unilateralmente, abrir acesso às fotos para os pesquisadores credenciados. Toda interdição, mesmo sobre os fragmentos não traduzidos, foi então levantada.


A cultura religiosa da Judéia

Debelada a paranóia, formou-se uma equipe para concluir a tarefa: os cientistas Emmanuel Tov, da Universidade de Tel Aviv, Eugène Ulrich, da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), e pelo padre-filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica Arqueológica Francesa, a instituição encarregada de coordenar a pesquisa. Hoje, eles sabem que os essênios pregavam idéias e práticas que os cristãos incorporaram, como o batismo na água, a idealização do Messias e a oposição à aristocracia sacerdotal do Templo. Mas é tudo. Não há nada sobre Jesus. Jesus nunca foi essênio.

“Jesus é um pouco a imagem do mundo onde nasceu” – diz Puech. “Mas um pouco, apenas. Porque o mundo essênio é um mundo fechado e o de Jesus é aberto. Em Qumran, as leis são exclusivas, não se pode falar com um estrangeiro ou com judeu impuro. Mas Jesus dirige-se a todo mundo”. Para o cientista, a descoberta foi fundamental: “Com os Manuscritos reaprendemos a ler o Antigo e o Novo Testamento. Jesus, ele mesmo, e suas opiniões sobre temas como pureza, monogamia e divórcio, ficou mais compreensível. Os textos evangélicos encontram um fundo histórico, um país, um território”.


Pesquisas e mais pesquisas

“O fundamentalismo religioso precisa da ciência. Seu apelo moral não será persuasivo se parecer incoerente. Para convencer, nos dias de hoje, a religião precisa ao menos ser compatível com a ciência”. Robert Russel, diretor do Centro de Teologia e Ciências Naturais, de Berkeley, California.

Até hoje, não se descobriu nenhum vestígio arqueológico diretamente associado a Jesus.

“Há várias reconstruções de Jesus: o Jesus revolucionário, o Jesus poeta, o Jesus filósofo etc. A mesma informação pode ser combinada e recombinada. O problema é que a figura que emerge de Jesus tende a ser o reflexo ideal do investigador”. Luke Johnson, The Real Jesus (Harper, NY, 1996)


Os quatro evangelhos 

O teólogo Paulo Augusto de Souza Nogueira, professor de Literatura Bíblica do Instituto Metodista de Ensino Superior, de São Bernardo do Campo, explica as características dos evangelhos.

São Mateus: Escrito na Síria, em Antióquia, nos anos 70 e 80, em grego. Seu público é o das comunidades cristãs e judaicas. Testemunha o afastamento dos cristãos das sinagogas. A discussão da interpretação da nova lei de Jesus indica que cristãos e judeus estão se diferenciando.

São Marcos: Escrito na Galiléia, por volta do ano 70, em grego, revela tradições orais fixadas recentemente, em relação ao tempo em que foi escrito. Reinterpreta a saga de Jesus e sua pregação para comunidades cristãs em crise com a guerra judaica contra Roma. Esfria a expectativa do fim do mundo e reacende a esperança no reino de Deus.

São Lucas: Escrito em Éfeso, nos anos 80 e 90, em grego, o melhor grego dos quatro evangelhos. É a primeira parte de uma obra mais ampla que inclui os Atos dos Apóstolos. Mostra o cristianismo como um movimento da Galiléia para Jerusalém, Antióquia, Asia Menor, Grécia e Roma. Triunfa sobre a dispersão provocada pelo fim do mundo que não veio e afirma o futuro das comunidades cristãs.

São João: Escrito na Síria, depois da década de 90, em grego. Apresenta um Jesus esotérico, místico e enigmático, que realça sua presença na comunidade na forma de Espírito Santo. Os discursos são longos e as narrativas amplas. Os monólogos mostram uma religiosidade mística, gnóstica e esotérica, quase oriental.

Os testemunhos não-cristãos

Historiadores gregos e judaicos, como Filão, o Judeu (20 a.C. - 50 d. C), ignoram Jesus, embora discorram longamente sobre Pôncio Pilatos. Mas o personagem foi notado por escritores romanos.

Flávio Josefo (37-100) (texto certamente adulterado): “Nessa época viveu Jesus, um homem sábio. Se é que se pode dizer que era humano. Ele fazia milagres. Era o Cristo. Quando nossos cidadãos o denunciaram e Pilatos condenou-o à crucificação, ele apareceu, três dias depois da sua morte, de novo vivo. Os profetas anunciaram suas maravilhas e milhares o adoraram” (Antiguidades Judaicas, cap. XVIII, p. 63)

Tácito (55-120) (escrevendo sobre o incêndio de Roma): “Nero acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multidão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentaneamente, essa superstição horrível rebrotou novamente, não apenas na Judéia mas agora dentro de Roma” (Anais, capítulo XV, p. 54)

Suetônio (70-128) (falando da vida do imperador Cláudio): “O Imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Cristo” (Vida de Cláudio, cap 25, p. 4)

Plínio, o Jovem (61-114) (escrevendo para o imperador Trajano): “Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram um deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade”. (Carta a Trajano, cap. X, p. 96)


A terra dos rebeldes religiosos

No século I, a Palestina tinha 1 milhão de habitantes. Em 63 a.C., os romanos converteram a Judéia em província romana. Para os judeus, a religião era uma ideologia nacional. No ano em que Jesus nasceu, 2 000 condenados foram crucificados.

1 - A Galiléia
Nessas montanhas, em Nazaré, região da Galiléia, norte de Israel, Jesus nasceu e viveu até depois dos 30 anos. Os camponeses da Galiléia eram conservadores e nacionalistas.

2 - Os Ascetas
Na beira do Mar Morto, a seita judaica dos essênios construiu o convento de Qumran, cujo cemitério tinha 1 200 túmulos. Em 1947, arqueólogos encontraram aí, escondidos em cavernas, os Manuscritos do Mar Morto.

3 - A Capital
O Templo de Jerusalém era o centro político e religioso da Judéia. Reconstruído em 520 a.C. sobre as ruínas do Templo destruído pelos babilônios, abrigava o Sinédrio, o Conselho dos Sacerdotes do Templo.

4 - Os Suicidas
As ruínas da fortaleza de Massada onde, no ano 73, 960 judeus preferiram o suicídio a caírem prisioneiros romanos.


O grande arquiteto da expansão do cristianismo

A expansão do cristianismo deve muito ao judeu grego Saulo de Tarso (5 a.C. - 64 d. C.), um cidadão romano culto e cosmopolita que depois de perseguir muitos cristãos teve uma 'revelação' e virou missionário: São Paulo. Esse é um personagem concreto, que deixou textos próprios, conhecidos pelos historiadores. Além disso, teve um papel decisivo.

À revelia de Tiago, o 'irmão de Jesus', chefe dos judeus cristãos de Jerusalém – para quem o cristianismo era uma reforma religiosa do “povo eleito” –, Paulo batizava judeus e gentios dispostos a adotar a nova religião, indistintamente. Durante 16 anos, percorreu 20 000 quilômetros a pé, em quatro grandes viagens, pregando e fundando igrejas na Síria, na Ásia, na Grécia e em Roma. Escreveu quatorze Epístolas, as cartas que enviava às suas igrejas, treze das quais foram anexadas aos Evangelhos.

Foi o primeiro autor cristão e o arquiteto da expansão mundial do cristianismo.

No ano 56, Paulo viajou a Jerusalém para enfrentar Tiago. Polemizou com os judeus cristãos e foi acusado de introduzir gentios no Templo. Preso pelos romanos, ficou dois anos na fortaleza de Cesaréia. Em 60, foi levado para Roma, onde pregava o apóstolo Pedro, a quem Jesus confiara a edificação da Igreja. Apesar de viver sob prisão domiciliar, sua casa em Roma transformou-se em centro missionário.

Em 64, um violento incêndio iniciado nos bairros pobres, dos cristãos, queimou Roma. Houve boatos de que teria sido encomendado por Nero, para reconstruir a cidade por completo. A exótica seita dos cristãos foi acusada e transformada em bode expiatório. Em meio a perseguições, torturas e suplícios, Pedro e Paulo foram presos. O primeiro foi crucificado. Paulo, como cidadão romano, teve o “privilégio” de ser decapitado.
Àquela altura, já havia mais cristãos fora da Palestina do que dentro. O culto do messias pacífico, cujo reino não era desse mundo e que oferecia salvação à humanidade toda, inclusive aos romanos, expandiu-se. Frente à ortodoxia judaica, o cristianismo “despolitizou-se”, diluindo sua identidade para ampliar o diálogo com as culturas. Em compensação, conquistou o mundo.

O Jesus católico, judeu e protestante

Judaísmo, catolicismo e protestantismo provêm de um mesmo tronco e têm o Velho Testamento em comum. Apesar disso, suas divergências estimularam guerras e perseguições. Líderes dessas três comunidades religiosas do Brasil reavaliaram, para a SUPER, a figura de Jesus Cristo.
Perguntamos a eles:

1 - Quem foi Jesus Cristo?
2 - Por que houve cisma entre judeus e cristãos?
3 - Por que o cristianismo virou uma religião de massas?
4 - Por que Jesus foi crucificado?
5 - Como explicar as contradições entre os quatro evangelhos?

- Veja as respostas de D. Paulo Evaristo Arns, 74 anos, cardeal arcebispo de São Paulo: 

1 - Jesus foi um judeu de sua época, instruído na Torá e observante de tudo o que era fundamental para o povo de Israel. Como outros, ele também possuía uma consciência crítica do seu tempo e não deixou de mostrar o que lhe parecia contraditório na vivência religiosa e social da época. Ele foi um sinal de contradição. Já na primeira pregação pública, na Sinagoga de Nazaré, forma-se o grupo de opositores que tentam matá-lo, mas forma-se, também, o grupo de discípulos que levarão adiante sua obra.
2 - O ponto crucial foi a aceitação crescente, por parte dos cristãos, da divindade do messias Jesus de Nazaré. As outras divergências nunca foram um problema muito sério. Os judeus sempre conviveram com a adversidade e a diversidade. Mas a alta cristologia que foi se desenvolvendo entre os chamados nazarenos e que terminou por identificar Jesus de Nazaré como o próprio Deus-Pai-Iavé era inaceitável.
3 - Abrindo para o mundo o tesouro da revelação contida na tradição judaica o cristianismo só podia conquistar corações. Como não se voltar para “um Deus de compaixão e piedade, lento para cólera e cheio de amor e fidelidade, que guarda seu amor a milhares e tolera a falta, a transgressão e o pecado?” (Exodo, 34, 6-7). A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus.
4 - João explicita a causa da condenação no diálogo de Pilatos com os judeus, quando esses afirmam: “Nós temos uma lei e que, conforme essa lei, ele deve morrer porque se fez filho de Deus” (João, 19,7). De fato, no momento na condenação, a concepção de Jesus Deus ainda não é clara para os seus discípulos. Para os judeus é apenas uma blasfêmia.
5 - Não há contradições no sentido de ensinamentos que se opõem e se negam mutuamente, como se um texto dissesse que Deus existe e outro dissesse que não. Há leituras diversificadas da realidade, pela própria natureza do escrito (gênero literário). Há pormenores redacionais que não coincidem mas que se explicam conhecendo-se a história das fontes utilizadas, a história da redação e o objetivo do autor diante de seus destinatários.

- Agora as respostas do rabino Henry Sobel, 51 anos, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista:

1 - Jesus foi um judeu, um grande mestre que pregou idéias universais da fé judaica. Nós não o aceitamos como messias porque o Reino de Deus que aguardamos com tanta ansiedade ainda não se manifestou. Não rejeitamos os conceitos de Jesus sobre Deus. A questão crítica é a doutrina cristã de que Deus tornou-se homem e permitiu que seu filho único sacrificasse a vida para expiar os pecados da humanidade.
2 - O judaísmo não reconhece um “filho de Deus”que se destaca e se eleva acima dos outros seres humanos. Todos somos “filhos de Deus”. Na teoria judaica, Deus não pode materializar-se em nenhuma forma. A crença num messias divino que é encarnação de Deus contraria a convicção judaica da absoluta soberania e unicidade de Deus.
3 - O judaísmo é uma religião que se caracteriza por um grande número de leis rituais e se baseia num sistema de prescrições e proibições. O cristianismo se apresentava como uma religião “antilegalista”. Com isso, não só afirmou sua independência em relação ao judaísmo como também conquistou adeptos em todo o império romano, tornando-se uma religião de massas.
4 - É importante ressaltar o caráter opressivo do governo romano na Judéia. Pôncio Pilatos foi especialmente cruel no exercício de suas funções. Antes de Jesus, centenas de outros judeus já haviam sido crucificados. Jesus foi crucificado pelos soldados romanos como criminoso político, “Rei dos Judeus”. A acusação de deicídio, que pesou sobre o povo judeu e foi uma das principais causa do anti-semitismo é totalmente infundada. Acusar os judeus da morte de Jesus foi a forma mais convincente de fazer a verdadeira acusação, a de que nem todos os judeus se tornaram cristãos. Há trinta anos, o Concílio Vaticano II repudiou a acusação de deicídio contra os judeus.
5 - Existem quatro evangelhos, não um. É preciso lembrar que não foram escritos como relatos históricos, no sentido moderno, isto é, como uma transcrição factual de eventos, e sim como narrativas de caráter religioso. Os eventos foram vistos sob quatro óticas teológicas diferentes.

- Por fim, responde Milton Schwantes, 49 anos, pastor luterano de Guarulhos e coordenador do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião:

1 - Jesus foi um sábio em meio à vida da gente. Na Galiléia, era pouco percebido entre os grandes. Suas críticas aos romanos imperialistas e às elites locais por certo eram severas, duras. Mas não promoviam a luta armada. O amor radical como caminho da justiça decidida era sua vida. Jeus foi revolucionário, sem armas.
2 - Ao invés de fazer-se comunitária, a experiência pode fazer-se violenta, excludente, exclusiva. Eis a estufa do fundamentalismo. Somos hóspedes na casa de Israel. Não donos. Os que estão “em Cristo”, que são cristãos, assumem a fragilidade de não serem auto-suficientes. Sem Israel e suas sinagogas viramos galho sem tronco. Mas nem sempre suportamos esta fragilidade. Antes fizemo-nos donos. Quisemos adonar-nos de Israel. Expropriamos os de Tupã, escravizamos os de Olodum. Ao deixarmos de ser hóspedes de Israel fizemo-nos também exterminadores de muitos povos.
3 - Pelo que me consta, os cristãos não passavam de uns 10% da população, quando Constantino incorporou essa religião ao império romano. Nesse sentido, o cristianismo se tornou religião de massas através do poder de Estado. Aliás, o que aí teve início perpassou a história da Europa e das Américas. O poder foi o maior pregador. Ainda estamos nestes tempos. Ora, as igrejas se sentem muitos sós sem os palácios. Ora, o senhorio do palácio se torna devoto, porque sem religião não se ganha eleição.
4 - Os colonizadores romanos mandavam matar na cruz. E quem estava com eles, fazia o jogo do império. À cruz era levado quem ameaçasse a ordem dos senhores em Roma e em Jerusalém. Por isso Jesus foi sentenciado. Aliás, continua sendo sentenciado, hoje, dia a dia. Basta querer ver.
5 - Tradições bíblicas investem na diferença. Jardim bonito é o que floresce em muitas cores. A Bíblia leva mais o jeito de jardim do que de verdade em si, acabada, na linha. Até seria de estranhar se não houvesse “contradições”. Os quatro evangelhos não fogem à regra da diversidade, cada qual dando o melhor de si para embelezar sua flor. O mundo é maior e mais lindo que o que cabe na mente ocidental, que pensa em linha, em fila, alinhada.