Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Fortes críticas a Dilma Rousseff

O amor que acende a lua (Rubem Alves) - 9

(Continuação da obra "O amor que acende a lua", de Rubem Alves)

Escutatória 


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.

Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar.

A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia. 

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise.)

Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia.

Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada". A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus.

Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça - até que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos.

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma.)

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou."

Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções - não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber.

Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade.

Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "u" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete.

Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.

Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino".

Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. É música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem.

No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Curso de Inglês - 13

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Olavo de Carvalho, Caio Fábio e Danilo Gentili conversam sobre as Eleições


Universo Mecânico: Introdução à Física Clássica (série completa)



* Série produzida pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia e dublada para o português pela extinta TV Cultura.


















18. Ondas






















40. Óptica










Pálido Ponto Azul (Carl Sagan) - 9

(Continuação da obra "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan)

CAPÍTULO 9:
UMA NAVE NORTE-AMERICANA
NAS FRONTEIRAS DO SISTEMA SOLAR

um dos discos com "hieroglifos científicos" colocados nas Voyager,
com indicações sobre a localização da Terra, para uso de eventuais ETs que descobrissem as naves
  

"...na praia do lago de Tritão...
Desabafei os segredos do meu peito."
EURÍPEDES, ION
(CERCA DE 413 a.C.)

Netuno era o último ponto a ser visitado na grande viagem da Voyager 2 pelo Sistema Solar. Em geral, é considerado o penúltimo planeta e Plutão o mais distante. Mas por causa da órbita elíptica de Plutão, Netuno tem sido nos últimos tempos o planeta mais distante, e vai continuar a sê-lo até 1999.

As temperaturas típicas em suas nuvens superiores são de aproximadamente -240ºC, pois está muito distante dos raios quentes do Sol. Seria mais frio, não fosse o calor emanado de seu interior. Netuno está tão distante que, em seu céu, o Sol é só uma estrela muito brilhante. A distância? Tanta que Netuno ainda não completou uma única volta ao redor do Sol desde a sua descoberta, em 1846. Tanta que não pode ser visto a olho nu. Tanta que a luz - mais veloz que todo o resto - leva mais de cinco horas para chegar de Netuno à Terra.

Quando a Voyager 2 passou veloz pelo sistema de Netuno em 1989, as câmeras, os espectrômetros, os detectores de campos e partículas e outros instrumentos examinaram febrilmente o planeta, suas luas e anéis.

Como seus primos Júpiter, Saturno e Urano, Netuno é gigante. Todo planeta é, no fundo, um mundo semelhante a Terra - mas os quatro gigantes gasosos usam disfarces elaborados, pesadões. Júpiter e Saturno são grandes mundos gasosos com núcleos de rocha e gelo relativamente pequenos, mas Urano e Netuno são fundamentalmente mundos de rocha e gelo ocultos por atmosferas densas.

Netuno é quatro vezes maior que a Terra. Quando olhamos para o seu azul austero e frio, mais uma vez vemos apenas atmosfera e nuvens - nenhuma superfície sólida. Também aqui a atmosfera é composta principalmente de hidrogênio e hélio, com metano e vestígios de outros hidrocarbonetos. Também pode haver nitrogênio.

As nuvens brilhantes flutuam sobre nuvens espessas mais profundas de composição desconhecida. Pelo movimento das nuvens, inferimos ventos violentos, de quase a velocidade do som. Descobriu-se uma Grande Mancha Escura, curiosamente quase na mesma latitude da Grande Mancha Vermelha em Júpiter.

A cor azul convém a um planeta com o nome de deus do mar. Ao redor desse mundo remoto, tempestuoso, frio e pouco iluminado existe, também, um sistema de anéis, compostos de objetos orbitantes que, em tamanho, variam de finas partículas a pequenos caminhões. Como os anéis dos outros planetas jovinianos, os de Netuno parecem ser evanescentes - calcula-se que a gravidade e a radiação solar vão rompê-los em muito menos tempo que a idade do Sistema Solar. Se são destruídos rapidamente, só os vemos por serem de formação recente.

Mas como se criam os anéis? A maior lua no sistema de Netuno é Tritão. Ela leva quase seis de nossos dias para dar uma volta ao redor de Netuno, o que realiza - fato raro entre as grandes luas do Sistema Solar - na direção oposta à da rotação de seu planeta.

Tritão tem uma atmosfera rica em nitrogênio, semelhante à de Titã; mas, como o ar e a neblina são muito mais finos, podemos ver a sua superfície. As paisagens são esplêndidas: um mundo de gelos - gelo de nitrogênio, gelo de metano, provavelmente sustentados por rochas e gelo de água mais familiares.

Há bacias de impacto, que parecem ter sido inundadas por líquidos antes de congelarem novamente (de modo que em alguma época houve lagos em Tritão); crateras de impacto; longos vales sinuosos; imensas planícies cobertas de neve de nitrogênio; o terreno enrugado lembra a casa de um cantalupo; longas faixas escuras mais ou menos paralelas parecem ter sido sopradas pelo vento e então depositadas sobre a superfície glacial - apesar de a atmosfera de Tritão ser muito rala (cerca de 1/10.000 da espessura da atmosfera da Terra).

Todas as crateras de Tritão são antigas. Não há paredões despencados ou relevos suavizados. Mesmo com a queda e evaporação periódicas da neve, parece que nada erodiu a superfície de Tritão em bilhões de anos. Assim todas as crateras abertas durante a formação de Tritão devem ter sido preenchidas e cobertas por algum antigo acontecimento global que renovou a superfície.

Tritão gira em torno de Netuno na direção oposta à da rotação de Netuno - ao contrário do que acontece com a Terra e sua lua e com a maioria das grandes luas do Sistema Solar. Se Tritão tivesse se formado do mesmo disco giratório que deu origem a Netuno, deveria estar circulando ao redor de Netuno na mesma direção da rotação do planeta. Portanto, Tritão não saiu da nebulosa local original ao redor de Netuno, mas veio de algum outro lugar - talvez muito além de Plutão - e foi, por acaso, capturada pela gravidade ao passar perto de Netuno. Esse acontecimento deve ter provocado enormes marés de corpos sólidos em Tritão, fundindo a superfície e eliminando a topografia anterior.

Em alguns lugares, a superfície é brilhante e branca como a neve antártica nova (e pode proporcionar uma experiência de esqui única em todo o Sistema Solar). Em outros, observa-se um matiz que vai do rosa ao marrom.

Uma explicação possível: neve recém-caída de nitrogênio, metano e outros hidrocarbonetos irradiada pela luz ultravioleta solar e por elétrons presos no campo magnético de Netuno, por onde Tritão passa com grande dificuldade. Sabemos que essa irradiação converterá a neve (e os gases correspondentes) em sedimentos orgânicos avermelhados, escuros e complexos, tholins de gelo - nada vivo, mas algo composto de algumas das moléculas presentes na origem da vida sobre a Terra há 4 bilhões de anos.

No inverno local, camadas de gelo e neve se formam sobre a superfície. (Nossos invernos, graças a Deus, têm apenas 4% de sua duração.) Durante a primavera, elas lentamente se transformaram, acumulando uma quantidade crescente de moléculas orgânicas avermelhadas. No verão, o gelo e a neve evaporam; os gases assim liberados migram até o hemisfério do inverno e ali mais uma vez cobrem a superfície de gelo e neve. Mas as moléculas orgânicas avermelhadas não evaporam e não são transportadas - um depósito defasado; no inverno seguinte, elas são novamente cobertas por outras neves, por sua vez irradiadas, e, no verão seguinte, a acumulação é mais espessa.

À medida que o tempo passa, quantidades substanciais de matéria orgânica formam-se sobre a superfície de Tritão, o que talvez explique suas delicadas marcas coloridas. As faixas começam em pequenas e escuras regiões de origem, talvez quando o calor da primavera e do verão aquece neves voláteis sob a superfície. Ao se evaporar, o gás esguicha como num gêiser, dispersando neves menos voláteis e matéria orgânica escura da superfície. Ventos predominantes de baixa velocidade levam a matéria orgânica escura, que lentamente sedimenta no ar ralo, depositando-se no solo gerando a aparência das faixas. Eis uma reconstrução possível da história recente de Tritão.

Tritão pode ter grandes calotas polares sazonais de gelo de nitrogênio liso sob camadas de materiais orgânicos escuros. Neves de nitrogênio parecem ter caído recentemente no equador. Nevadas, gêiseres, poeira orgânica carregada pelo vento e neblinas de altitude elevada surpreenderam, num mundo com atmosfera tão rala.

Por que o ar é tão ralo? Porque Tritão está muito distante do Sol. Se conseguíssemos deslocar esse mundo pra uma órbita ao redor de Saturno, os gelos de nitrogênio e metano se evaporariam rapidamente, formar-se-ia uma atmosfera muito mais densa, de metano e nitrogênio gasosos, e a radiação geraria uma neblina opaca de tholin. Tritão ficaria parecida com Titã.

Inversamente, se deslocássemos Titã para uma órbita ao redor de Netuno, quase toda a sua atmosfera congelaria, formando neve e gelo; o tholin desaparecia e não seria substituído; o ar clarearia e a superfície ficaria visível à luz comum e Titã seria muito parecida com Tritão.

Os dois mundos não são idênticos. O interior de Titã parece conter muito mais gelo que o de Tritão, e muito menos rocha. O diâmetro de Titã é quase duas vezes o de Tritão. Ainda assim, se colocados à mesma distância do Sol, pareceriam irmãos. Alan Stern, do Instituto de Pesquisa do Sudoeste, sugere que fazem parte de uma imensa série de pequenos mundos ricos em nitrogênio e metano formados no Sistema Solar primitivo.

Plutão, que ainda não foi visitado por uma nave espacial, parece ser outro membro do grupo. É possível que, na espaço além de Plutão, muitos outros mundos do tipo sejam descobertos. As atmosferas ralas e as superfícies glaciais de todos eles estão sendo irradiadas - por raios cósmicos, pelo menos - e compostos orgânicos ricos em nitrogênio estão sendo formados. É como se a matéria da vida não se encontrasse apenas em Titã, mas em todos os frios e mal iluminados confins de nosso sistema planetário.

Outra classe de pequenos objetos foi recentemente descoberta, com órbitas que os levam - pelo menos parte do tempo - além de Netuno e Plutão. Às vezes chamados planetas menores ou asteróides, é mais provável que sejam cometas inativos (sem cauda, é claro; muito distantes do Sol, seus gelos não podem evaporar rapidamente), mas são muito maiores que os cometas comuns que conhecemos. Podem ser a vanguarda de um imenso conjunto de pequenos mundos que vai da órbita de Plutão até meio caminho para a estrela mais próxima.

A região mas interna da Nuvem de Cometas de Oort, a que esses novos objetos talvez pertençam, é chamada Cinturão de Kuiper, em homenagem a meu mentor, Gerard Kuiper, que pela primeira vez sugeriu sua existência.

Cometas de curta duração - como o de Halley - nascem no Cinturão de Kuiper, reagem a puxões gravitacionais, entram velozmente na parte interior do Sistema Solar, formam suas caldas e embelezam nosso céu.

No final do século XIX, esses tijolos de mundos - então meras hipóteses - eram chamados “planetesimais”. Suponho que o teor da palavra tenha a ver com o de “infinitesimais”: é preciso um número infinito deles para se fazer alguma coisa. Não se chega a tal ponto com os planetesimais, embora seja preciso um número muito grandes deles para formar um planeta. Por exemplo, para formar um planeta com o volume da Terra, seria necessário aglutinar trilhões de corpos de um quilômetro.

Outrora havia um número muito maior de mundos pequenos na parte planetária do Sistema Solar. A maioria já desapareceu - expelidos para o espaço interestelar, tragados pelo Sol ou sacrificados na grande empresa de formar luas e planetas. Muito além de Netuno e Plutão, no entanto, os descartes, as sobras jamais agregadas para formar mundos, podem esta à nossa espera - alguns na faixa dos cem quilômetros e um número espantoso de corpos de um quilômetro ou menores salpicando toda a orla externa do Sistema Solar até a Nuvem de Oort.

Nesse sentido, há planetas além de Netuno e Plutão - mas muito menores que os planetas jovinianos, ou até que o próprio Plutão.

Mundos maiores podem estar se escondendo no escuro além de Plutão, mundos que podem ser chamados planetas. Quanto mais distantes, tanto menos provável que os detectemos. Eles não podem, porém, estar logo além de Netuno; seus puxões gravitacionais teriam alterado perceptivamente as órbitas de Netuno e Plutão e das naves espaciais Pioneer 10 e 11 e Voyager 1 e 2.

Os recém-descobertos corpos planetários (com nomes como 1992QB e 1993FW) não são bem planetas. Se foram alcançados por nosso limiar de detecção, decerto ainda restam muitos outros a descobrir nos limites do Sistema Solar - tão afastados que é muito difícil vê-los da Terra, tão distantes que é uma longa viagem aproximar-se deles.

Naves pequenas e velozes para Plutão e além, contudo, estão dentro de nossas capacidades [tecnológicas]. Faria sentido mandar uma nave sobrevoar Plutão e sua lua Caronte e depois tentar aproximar-se de um dos membros do Cinturão de Cometas de Kuiper.

Os núcleos rochosos de Urano e Netuno, semelhantes ao da Terra, parecem ter primeiro incorporado, depois atraído gravitacionalmente, quantidades maciças de gás de hidrogênio e hélio da antiga nebulosa de que se formaram os planetas. Originalmente, viviam numa tempestade de granizo. Suas gravidades eram suficientes apenas para repelir pequenos mundos glaciais que chegassem demasiado perto, lançado-os muito além do reino dos planetas, para povoar a Nuvem de Cometas de Oort.

Júpiter e Saturno tornaram-se gigantes de gás pelo mesmo processo, mas suas gravidades eram fortes demais para povoar a Nuvem de Oort: mundos glaciais que deles se aproximavam eram arremessados pela força da gravidade para um ponto totalmente fora do Sistema Solar e destinados a vagar para sempre na grande escuridão das estrelas.

Assim, os lindos cometas que às vezes despertam no homem admiração e temor, abrem crateras em planetas próximos e luas afastadas e, de vez em quando, põem em perigo a vida na Terra, seriam desconhecidos e não nos ameaçariam se Urano e Netuno não tivessem se tornado mundos gigantescos há 4,5 bilhões de anos.

Este é o momento para um breve interlúdio sobre os planetas muito além de Netuno e Plutão, os planetas de outras estrelas. Muitas estrelas próximas estão rodeadas por discos finos de gás e poeira orbitante que podem estender-se por centenas de unidades astronômicas (UA) a partir da estrela local (nossos planetas mais afastados, Netuno e Plutão, estão acerca de 40 UA do nosso Sol).

As estrelas mais jovens, semelhantes ao Sol, têm mais possibilidades de ter discos que as antigas. Algumas têm um buraco no centro, como num disco fonográfico. O buraco se estende até 30 ou 40 UA a partir da estrela. É o que acontece, por exemplo, com os discos que circundam as estrelas Veja e Epsilon Eridani. O buraco no disco ao redor de Beta Pictoris se estende até somente 15 UA a partir da estrela.

Existe uma possibilidade de que essas zonas interiores, livres de poeira, tenham sido limpas pelos planetas que ali se formaram recentemente. Na verdade, esse processo de limpeza estava previsto na história primitiva de nosso sistema planetário. À medida que as observações se aprimorem, talvez divisemos detalhes denunciadores, na configuração de zonas com ou sem poeira, indicando a presença de planetas demasiado pequenos e escuros para serem vistos diretamente.

Os dados espectroscópicos sugerem que tais discos estão se movendo e que há matéria caindo nas estrelas centrais - talvez de cometas formados nos discos, desviados pelos planetas ocultos e que se evaporam ao aproximar-se muito do sol local.

Como os planetas são pequenos e brilham por luz refletida, tendem a sumir no brilho do sol local. Contudo, há muito empenho para achar planetas plenamente formados ao redor das estrelas próximas - detectando-se um tênue e breve ofuscamento da luz estelar, quando um planeta escuro se interpõe entre a estrela e o observador na Terra; ou percebendo uma leve oscilação no movimento da estrela, quando puxada primeiro uma direção depois em outra por um companheiro orbitante que não podemos ver.

As técnicas aplicadas no espaço serão muito mais sensíveis. Um planeta joviniano [isto é tão distante de seu sol quanto nosso Júpiter] movendo-se ao redor de uma estrela próxima tem um brilho cerca de 1 bilhão de vezes mais fraco que o de seu sol; ainda assim, uma nova geração de telescópios de solo capazes de compensar a cintilação da atmosfera terrestre talvez em breve possa detectar esses planetas com poucas horas de observação.

Um planeta terreal [isto é, na zona de proximidade de seu sol, como a Terra está do seu/nosso] de uma estrela vizinha tem um brilho cem vezes mais fraco; mas agora parece que naves espaciais - relativamente baratas - acima da atmosfera terrestre poderiam detectar 'outras Terras'. Essas investigações não se realizaram até o momento, mas estamos prestes a poder detectar pelos menos planetas do tamanho de Júpiter ao redor das estrelas mais próximas - se eles existirem.

Uma descoberta recente, importante e imprevista, foi a de um sistema planetário autêntico ao redor de uma estrela improvável a uns 1300 anos-luz de distância, descoberto por uma técnica inesperada. O pulsar B1257+12 é uma estrela de nêutrons em rápida rotação, um sol incrivelmente denso, resíduo de uma estrela volumosa que sofreu uma explosão de supernova. A uma velocidade medida com acurada precisão, ele gira em torno de si mesmo a cada 0,0062185319388187 segundo. Esse pulsar desenvolve 10 mil rpm [rotações por minuto].

As partículas carregadas presas em seu intenso campo magnético geram ondas de rádio lançadas através da Terra, cerca de 160 oscilações por segundo. Em 1991, mudanças pequenas mas discerníveis do ritmo dos lampejos foram conjeturalmente interpretadas por Alexander Wolszcan, hoje na Universidade Estadual da Pensilvânia, como um mínimo movimento reflexo do pulsar reagindo à presença de planetas.

Em 1994, Wolszczan confirmou as previstas interações gravitacionais mútuas desses planetas com um estudo dos resíduos de tempo, em nível de microssegundos, durante o intervalo de anos. A evidência de que são mesmo planetas novos, e não tremores estelares na superfície de nêutrons da estrela (ou outra coisa), é agora esmagadora - ou, como disse Wolsczan, “irrefutável”; um novo sistema solar está “inequivocamente identificado”.

Ao contrário das outras técnicas, o método de medir os tempos do pulsar torna relativamente fácil detectar planetas terreais próximos e relativamente difícil detectar planetas jovinianos mais distantes. O planeta C, umas 2,8 vezes mais volumoso que a Terra, gira em torno do pulsar a cada 98 dias, a uma distância de 0,47 unidade astronômica (UA); o planeta B, com cerca de 3,4 massas da Terra, tem um ano de 67 dias terrestres, a 0,36 UA. Um mundo menor, o planeta A, ainda mais próximo da estrela, com cerca de 0,015 da massa terrestre, está a 0,19 UA.

O planeta B está a uma distância mais ou menos equivalente a um meio-termo entre as distâncias de Mercúrio e Vênus; e menos afastados que ambos está o planeta A, com mais ou menos o volume da Lua e a uma distância equivalente a cerca de metade da que existe entre Mercúrio e o Sol.

Não sabemos se esses planetas são os restos de um sistema planetário anterior que de alguma forma conseguiu sobreviver à explosão de supernova que produziu o pulsar, ou se foram formadas pelo disco resultante da acresção circunstelar subseqüente à explosão de supernova. Seja como for, aprendemos que há 'outras Terras'.

A energia produzida pelo B1257+12 é cerca de 4,7 vezes a do Sol. Ao contrário do Sol, sua maior parte não está na luz visível, mas num violento furacão de partículas eletricamente carregadas. Caso essas partículas colidissem com os planetas e os aquecessem, mesmo um planeta a 1 UA teria em sua superfície uma temperatura de uns 280ºC, mais que o ponto de ebulição normal da água e que a temperatura de Vênus. Esses planetas escuros e escaldantes não parecem hospitaleiros à vida, mas pode haver outros. (Há indícios de pelos menos um mundo mais afastado e fresco no sistema de B1257+12).

Claro que nem sequer sabemos se esses mundos conseguiriam manter suas atmosferas; todas, talvez, tenham sido eliminadas na explosão da supernova, se remontarem àquela época.

Há indícios, porém, de que realmente detectamos um sistema planetário reconhecível. É provável que muitos outros fiquem conhecidos nas próximas décadas, ao redor de estrelas comuns semelhantes ao Sol e ao redor de anãs-brancas, pulsares e outros estados finais de evolução estelar.

Acabaremos com um elenco de sistemas planetários - com planetas terreais e jovinianos e, talvez, novas classes de planetas. Examinaremos esses mundos espectroscopicamente e de outras maneiras, em busca de novas Terras e outra vida.

Em nenhum dos mundos do Sistema Solar exterior as Voyager encontraram sinais de vida. Há matéria orgânica em abundancia - a substância da vida, talvez premonições de vida - mas, pelo que pudemos observar, inexiste vida. Não há oxigênio em suas atmosferas, nem gases profundamente fora do equilíbrio químico, como o metano no oxigênio da Terra.

Muitos mundos tinham matizes sutis, mas nenhum as características de absorção aguda e distintiva geradas pela clorofila em boa parte da superfície da Terra.

Em raros mundos a Voyager soube precisar detalhes com uma resolução de até um quilômetro: assim não teria detectado nem a nossa civilização técnica transplantada para o Sistema Solar exterior.

Seja qual for, porém, o valor dessas observações, não encontramos padrões regulares, geometrização, paixão por pequenos círculos, triângulos, quadrados ou retângulos [vide capítulo 5]. Não havia constelações de pontos luminosos constantes nos hemisférios noturnos ou sinais de civilização técnica a reestruturar a superfície desses mundos.

Os planetas jovinianos são transmissores prolíficos de ondas de rádio - geradas pelas abundantes partículas carregadas presas e irradiadas em seus campos magnéticos, pelos raios, por seus interiores aquecidos. Mas nenhuma dessas emissões tem o caráter de vida inteligente - é o que pensam os especialistas da área.

Nosso raciocínio pode ser limitado. Podemos deixar de perceber alguma coisa. Por exemplo, há um pouco de dióxido de carbono na atmosfera de Titã, o que põe sua atmosfera de nitrogênio/metano fora de equilíbrio químico. Acho que o CO2 é gerado pelo constante tamborilar de cometas que caem na atmosfera de Titã - mas não sei. Talvez haja algo sobre a superfície que inexplicavelmente gere CO2 na presença de todo esse metano. As superfícies de Miranda e Tritão diferem de tudo o que conhecemos, com imensas formas de relevo em ziguezague e linhas retas entrecruzadas que até geólogos planetários sérios descreveram como “rodovias”. Pensamos entender (mal e mal) essas formas de relevo em termos de falhas e colisões, mas podemos estar errados.

O padrão complexo da estática, estouros e assobios de rádio que recebemos dos quatro planetas jovinianos [Saturno, Júpiter, Urano e Netuno] parece em geral explicável pela física dos plasmas e a emissão térmica. (Boa parte dos detalhes não está bem entendida.) Mas podemos estar errados.

Em dúzias de mundos, não encontraremos nada tão claro e impressionante como os sinais da vida descobertos pela nave espacial Galileo em sua passagem pela Terra.

A vida é uma hipótese de última instância. Só a invocamos quando não há outra maneira de explicar o que vemos. Na minha opinião, não existe vida em nenhum dos mundos que estudamos, à exceção, é claro, do nosso. Mas posso estar errado e, certa ou errada, minha opinião se limita a nosso Sistema Solar.

Talvez em uma nova missão encontremos algo diferente, algo impressionante, algo totalmente inexplicável com as ferramentas comuns da ciência planetária - e trêmulos, cautelosos, avancemos aos poucos para uma explicação biológica. Mas, por ora nada requer que percorramos esse caminho: a única vida no Sistema Solar é a que existe na Terra.

Nos sistemas de Urano e Netuno, o único sinal de vida tem sido a própria Voyager. Identificando os planetas de outras estrelas, descobrindo mundos com tamanho e volume semelhantes aos da Terra, iremos pesquisá-los em busca de vida. Uma densa atmosfera de oxigênio pode ser detectável até num mundo que não concebemos. Tal como para a Terra, pode ser um sinal de vida. Uma atmosfera de oxigênio com muito metano seria quase certamente um sinal de vida, bem como emissões de rádio moduladas.

Algum dia, a partir de observações sobre nosso sistema planetário ou outro, a nova de que existe vida em outro mundo pode vir a ser anunciada. As sondas espaciais Voyager estão a caminho das estrelas em trajetórias de escape do Sistema Solar, deslocando-se em alta velocidade, quase a 1 milhão de quilômetros por dia. Os campos gravitacionais de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno as arremessaram em velocidades tão elevadas que elas romperam os laços que as ligavam ao Sol.

Já abandonaram o Sistema Solar? A resposta depende muito de como se define a fronteira do reino do Sol. Se é a órbita do planeta mais afastado de tamanho razoável, então as Voyager já se foram há muito; não é provável que existam outros Netunos a serem descobertos. Caso se pense no planeta mais afastado, pode ser que haja outros planetas - talvez semelhantes à Tritão - muitos além de Netuno e Plutão; nesse caso, a Voyager 1 e a Voyager 2 ainda estão dentro do Sistema Solar.

Se os limites mais afastados do Sistema Solar são definidos por heliopausa - onde as partículas e campos magnéticos interplanetários são substituídos por seus equivalentes interestelares - então nenhuma das Voyager saiu do Sistema Solar, embora possam vir a fazê-lo nas próximas décadas.

Mas se a definição da orla do Sistema Solar é a distância em que nossa estrela já não consegue manter mundos em órbita ao seu redor, então as Voyager só deixarão o Sistema Solar em centenas de séculos.

Presa fracamente pela gravidade do Sol, em todas as direções do céu, está a imensa horda de 1 trilhão de cometas ou mais, a Nuvem de Oort. As duas naves espaciais terminarão sua passagem pela Nuvem de Oort em mais uns 20 mil anos. Então, completando seu longo adeus ao Sistema Solar, libertadas dos elos gravitacionais que as ligavam ao Sol, as Voyager partirão para o mar aberto do espaço interestelar e começará a Fase Dois de sua missão. Com seus transmissores de rádio há muito desativados, as naves espaciais vão vagar durante eras na calma e fria escuridão interestelar - onde não existe quase nada para desgastá-las. Uma vez fora do Sistema Solar, permanecerão intactas por 1 bilhão de anos ou mais, circunavegando o centro da Via Láctea.

Não sabemos se há outras civilizações de navegantes do espaço na Via Láctea. Se houver, não sabemos quantos são, nem muito menos onde se encontram. Mas há pelo menos uma possibilidade de que, num futuro remoto, uma das Voyager venha a ser interceptada e examinada por uma nave alienígena. Por isso, ao deixar a Terra rumo aos planetas e às estrelas, cada Voyager levou um disco fonográfico de ouro num invólucro dourado e espelhado contendo, entre outras coisas: saudações em 59 línguas humanas e uma em língua de baleia; um ensaio sonoro de doze minutos que inclui beijo, choro de bebê e o registro eletrencefalográfico das meditações de uma jovem mulher apaixonada; 116 imagens codificadas sobre nossa ciência, nossa civilização e nós mesmos; e noventa minutos dos maiores sucessos musicais da Terra - orientais e ocidentais, clássicos e populares, inclusive uma canção noturna dos navajos, uma peça shakubachi japonesa, uma cantiga de iniciação de uma menina pigméia, uma canção nupcial peruana, uma composição de 3 mil anos para o ch´in chamada “Rios Correntes”, Bach, Beethoven, Mozart, Stravinsky, Louis Armstrong, Blind Willie Johnson e “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry.

O espaço é quase vazio. Não há possibilidades de uma das Voyager vir a entrar em outro sistema solar - mesmo que toda estrela do céu esteja acompanhada de planetas. As instruções nos invólucros dos discos, escritas no que acreditamos ser hieróglifos científicos facilmente compreensíveis, somente serão lidas, e o conteúdo dos discos compreendido, se alienígenas, em algum lugar num futuro distante, descobrirem as Voyager nas profundezas do espaço interestelar. Como as duas naves vão circular pelo centro da galáxia da Via Láctea essencialmente para sempre, há tempo de sobra para que os discos sejam encontrados - se houver quem realize a descoberta.

Não temos como saber quanto dos discos eles compreenderiam. As saudações seriam incompreensíveis, mas sua intenção talvez não. (Achamos que seria descortês não dizer oi.) Os alienígenas hipotéticos têm de ser muito diferentes de nós - pois evoluíram independentemente num outro mundo. Estamos mesmo certos de que poderiam entender nossa mensagem?

Toda vez que sinto essas preocupações, tranqüilizo-me: sejam quais forem as incompreensibilidades do disco das Voyager, qualquer alienígena que as encontrar nos julgará por outros padrões.

A Voyager é em si uma mensagem. Por sua intenção exploratória, pela ambição grandiosa de seus objetivos, por sua total falta de intenção agressiva e o brilhantismo de seu projeto e desempenho, esses robôs falam eloqüentemente por nós. Como cientistas e engenheiros muito mais avançados que nós - senão jamais encontrariam e recuperariam a pequena e silenciosa nave no espaço interestelar - os alienígenas talvez não tenham dificuldade em compreender o que está codificado nesses discos dourados.

Talvez reconheçam o caráter experimental de nossa sociedade, a falta de correspondência entre nossa tecnologia e nossa sabedoria. Talvez se perguntem se já não nos destruímos desde o lançamento da Voyager, ou se fomos adiante em busca de maiores realizações.

Talvez os discos nunca sejam interceptados. Talvez ninguém os encontre em 5 bilhões de anos. Cinco bilhões de anos é muito tempo. Em 5 bilhões de anos, os seres humanos estarão extintos ou serão seres diferentes pela evolução; não haverá mas nenhum de nossos artefatos sobre a Terra; os continentes terão sido alterados ou destruídos; e a evolução do Sol terá calcinado a Terra ou reduzido nosso planeta a um redemoinho de átomos.

Longe de casa, imunes a esses acontecimentos remotos, as Voyager, levando as lembranças de um mundo que já não existe, seguirão seu rumo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Maravilhas Mecânicas do Iluminismo: Sonhos do Automatismo

A Formação Social da Mente (Vygotsky) - 7

(Continuação da obra "A Formação Social da Mente", de Lev Vygotsky)

Capítulo 7:
O papel do brinquedo no desenvolvimento


Definir o brinquedo como uma atividade que dá prazer à criança é incorreto por duas razões. Primeiro, muitas atividades dão à criança experiências de prazer muito mais intensas do que o brinquedo, como por exemplo, chupar chupeta, mesmo que a criança não se sacie. E, segundo, existem jogos nos quais a própria atividade não é agradável, como por exemplo predominantemente no fim da idade pré-escolar, jogos que só dão prazer à criança se ela considera o resultado interessante. Os jogos esportivos (não somente os esportes atléticos, mas também outros jogos que podem ser ganhos ou perdidos) são, com muita freqüência, acompanhados de desprazer, quando o resultado é desfavorável para a criança.

No entanto, enquanto o prazer não pode ser visto como uma característica definidora do brinquedo, parece-me que as teorias que ignoram o fato de que o brinquedo preenche necessidades da criança, nada mais são do que uma intelectualização pedante da atividade de brincar.

Referindo-se ao desenvolvimento da criança em termos mais gerais, muitos teóricos ignoram, erroneamente, as necessidades das crianças - entendidas em seu sentido mais amplo, que inclui tudo aquilo que é motivo para a ação.

Freqüentemente descrevemos o desenvolvimento da criança como o de suas funções intelectuais; toda criança se apresenta para nós como um teórico, caracterizado pelo nível de desenvolvimento intelectual superior ou inferior, que se desloca de um estágio a outro.

Porém, se ignoramos as necessidades da criança e os incentivos que são eficazes para colocá-la em ação, nunca seremos capazes de entender seu avanço de um estágio do desenvolvimento para outro, porque todo avanço está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, tendências e incentivos.

Aquilo que é de grande interesse para um bebê deixa de interessar uma criança um pouco maior. A maturação das necessidades é um tópico predominante nessa discussão, pois é impossível ignorar que a criança satisfaz certas necessidades no brinquedo. Se não entendemos o caráter especial dessas necessidades, não podemos entender a singularidade do brinquedo como uma forma de atividade.

A tendência de uma criança muito pequena é satisfazer seus desejos imediatamente; normalmente, o intervalo entre um desejo e a sua satisfação é extremamente curto. Certamente ninguém jamais encontrou uma criança com menos de três anos de idade que quisesse fazer alguma coisa dali a alguns dias, no futuro. Entretanto, na idade pré-escolar surge uma grande quantidade de tendências e desejos não possíveis de serem realizadas de imediato. Acredito que, se as necessidades não realizáveis imediatamente não se desenvolvessem durante os anos escolares, não existiriam os brinquedos, uma vez que eles parecem ser inventados justamente quando as crianças começam a experimentar tendências irrealizáveis.

Suponha que uma criança muito pequena (talvez com dois anos e meio de idade) queira alguma coisa - por exemplo, ocupar o papel de sua mãe. Ela quer isso imediatamente. Se não puder tê-lo, poderá ficar muito mal humorada; no entanto, comumente, poderá ser distraída e acalmada de forma a esquecer seu desejo.

No início da idade pré-escolar, quando surgem os desejos que não podem ser imediatamente satisfeitos ou esquecidos, e permanece ainda a característica do estágio precedente de uma tendência para a satisfação imediata desses desejos, o comportamento da criança muda. Para resolver essa tensão, a criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados, e esse mundo é o que chamamos de brinquedo.

A imaginação é um processo psicológico novo para a criança; representa uma forma especificamente humana de atividade consciente, não está presente na consciência de crianças muito pequenas e está totalmente ausente em animais. Como todas as funções da consciência, ela surge originalmente da ação. O velho adágio de que o brincar da criança é imaginação em ação deve ser invertido: podemos dizer que a imaginação, nos adolescentes e nas crianças em idade pré-escolar, é o brinquedo sem ação.

A partir dessa perspectiva, torna-se claro que o prazer derivado do brinquedo na idade pré-escolar é controlado por motivações diferentes daquelas do simples chupar chupeta. Isso não quer dizer que todos os desejos não satisfeitos dão origem a brinquedos (como, por exemplo, quando a criança quer andar de trole, e esse desejo não é imediatamente satisfeito, então, a criança vai para o seu quarto e faz de conta que está andando de trole). Raramente as coisas acontecem exatamente dessa maneira.

Tampouco a presença de tais emoções generalizadas no brinquedo significa que a própria criança entende as motivações que dão origem ao jogo. Quanto a isso, o brinquedo difere substancialmente do trabalho e de outras formas de atividade.

Assim, ao estabelecer critérios para distinguir o brincar da criança de outras formas de atividade, concluímos que no brinquedo a criança cria uma situação imaginária. Esta não é uma idéia nova, na medida em que situações imaginárias no brinquedo sempre foram reconhecidas; no entanto, sempre foram vistas somente como um tipo de brincadeira. A situação imaginária não era considerada como uma característica definidora do brinquedo em geral, mas era tratada como um atributo de subcategorias específicas do brinquedo.

Considero essas idéias insatisfatórias sob três aspectos. Primeiro, se o brinquedo é entendido como simbólico, existe o perigo de que ele possa vir a ser considerado como uma atividade semelhante à álgebra; isto é, o brinquedo, como a álgebra, poderia ser considerado como um sistema de signos que generalizam a realidade, sem nenhuma característica que eu considero específica do brinquedo. A criança poderia ser vista como um desafortunado especialista em álgebra que, não conseguindo escrever os símbolos, representa-os na ação. Acredito que o brinquedo não é uma ação simbólica no sentido próprio do termo, de forma que se torna essencial mostrar o papel da motivação no brinquedo.

Segundo, esse argumento, enfatizando a importância dos processos cognitivos, negligencia não somente a motivação como também as circunstâncias da atividade da criança. E, terceiro, essas abordagens não nos ajudam a compreender o papel do brinquedo no desenvolvimento posterior.

Se todo brinquedo é, realmente, a realização na brincadeira das tendências que não podem ser imediatamente satisfeitas, então os elementos das situações imaginárias constituirão, automaticamente, uma parte da atmosfera emocional do próprio brinquedo.

Consideremos a atividade da criança durante o brinquedo. Qual o significado do comportamento de uma criança numa situação imaginária? Sabemos que o desenvolvimento do jogar com regras começa no fim da idade pré-escolar e desenvolve-se durante a idade escolar.

Vários pesquisadores, embora não pertencentes ao grupo dos materialistas dialéticos, trataram esse assunto segundo linhas de abordagem recomendadas por Marx, quando ele dizia que "a anatomia do homem é a chave para a anatomia dos macacos antropóides". Começaram seus estudos das primeiras atividades de brinquedo à luz do brinquedo baseado em regras que se desenvolve posteriormente, e concluíram que o brinquedo envolvendo uma situação imaginária é, de fato, um brinquedo baseado em regras.

Pode-se ainda ir além, e propor que não existe brinquedo sem regras. A situação imaginária de qualquer forma de brinquedo já contém regras de comportamento, embora possa não ser um jogo com regras formais estabelecidas a priori. A criança imagina-se como mãe e a boneca como criança e, dessa forma, deve obedecer às regras do comportamento maternal.

Sully já observara que, notavelmente, crianças pequenas podem fazer coincidir a situação de brinquedo e a realidade. Ele descreveu um caso em que duas irmãs, com idades de cinco e sete anos, disseram uma para outra: "Vamos brincar de irmãs?". Elas estavam encenando a realidade. É muito fácil, por exemplo, fazer uma criança brincar de ser criança enquanto a mãe representa o papel de mãe, ou seja, brincar do que é realmente verdadeiro.

A diferença fundamental, como Sully descreve, é que, ao brincar [de irmã], a criança tenta ser o que ela pensa que uma irmã deveria ser. Na vida, a criança comporta-se sem pensar que ela é a irmã de sua irmã. Entretanto, no jogo em que as irmãs brincam de "irmãs", ambas estão preocupadas em exibir seu comportamento de irmã; o fato de as duas irmãs terem decidido brincar de irmãs induziu-as a adquirir regras de comportamento.

Somente aquelas ações que se ajustam a essas regras são aceitáveis para a situação de brinquedo: elas se vestem como, falam como, enfim, encenam tudo aquilo que enfatiza suas relações como irmãs à vista de adultos e estranhos. A mais velha, segurando a mais nova pela mão, pode falar, referindo-se a outras pessoas: "Aquilo é delas, não nosso". Isso significa: "Eu e minha irmã agimos da mesma maneira e somos tratadas da mesma maneira, mas os outros são tratados de maneira diferente."

Neste exemplo a ênfase está na similitude de tudo aquilo que está ligado ao conceito que a criança tem de 'irmã"; como resultado do brincar, a criança passa a entender que as irmãs têm entre elas uma relação diferente daquela que têm com outras pessoas. O que na vida real passa despercebido pela criança torna-se uma regra de comportamento no brinquedo.

O que restaria se o brinquedo fosse estruturado de tal maneira que não houvesse situações imaginárias? Restariam as regras. Sempre que há uma situação imaginária no brinquedo, há regras - não as regras previamente formuladas e que mudam durante o jogo, mas aquelas que têm sua origem na própria situação imaginária.

Portanto, a noção de que uma þcriança pode se comportar em uma situação imaginária sem regras é simplesmente incorreta. Se a criança está representando o papel de mãe, então ela obedece as regras de comportamento maternal. O papel que a criança representa e a relação dela com um objeto (se o objeto tem seu significado modificado) originar-se-ão sempre das regras.

A princípio parecia que a única tarefa do pesquisador ao analisar o brinquedo era revelar as regras ocultas em todo brinquedo; no entanto, tem-se demonstrado que os assim chamados jogos puros com regras são, essencialmente, jogos com situações imaginárias. Da mesma forma que uma situação imaginária tem que conter regras de comportamento, todo jogo com regras contém uma situação imaginária.

Jogar xadrez, por exemplo, cria uma situação imaginária. Por quê? Porque o cavalo, o rei, a rainha, etc. só podem se mover de maneiras determinadas; porque proteger e comer peças são, puramente, conceitos de xadrez.

Embora no jogo de xadrez não haja uma substituição direta das relações da vida real, ele é, sem dúvida, um tipo de situação imaginária. O mais simples jogo com regras transforma-se imediatamente numa situação imaginária, no sentido de que, assim que o jogo é regulamentado por certas regras, várias possibilidades de ação são eliminadas.

Assim como fomos capazes de mostrar, no começo, que toda situação imaginária contém regras de uma forma oculta, também demonstramos o contrário - que todo jogo com regras contém, de forma oculta, uma situação imaginária. Mostramos jogos em que há uma situação imaginária às claras, bem como regras ocultas para jogos com regras às claras, além de uma situação imaginária oculta que delineia a evolução do brinquedo das crianças. 

Ação e significado no brinquedo

É enorme a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança. Para uma criança com menos de três anos de idade, é essencialmente impossível envolver-se numa situação imaginária, uma vez que isso seria uma forma nova de comportamento que liberaria a criança das restrições impostas pelo ambiente imediato.

O comportamento de uma criança muito pequena é determinado, de maneira considerável - e o de um bebê, de maneira absoluta - pelas condições em que a atividade ocorre, como mostraram os experimentos de Lewin e outros.

Por exemplo, a grande dificuldade que uma criança pequena tem em perceber que, para sentar-se numa pedra, é preciso primeiro virar de costas para ela, como demonstrou Lewin, ilustra o quanto a criança muito pequena está limitada em todas as ações pela restrição situacional.

É dificil imaginar um contraste maior entre o que se observa no brinquedo e as restrições situacionais na atividade mostrada pelos experimentos de Lewin. É no brinquedo que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva, ao invés de numa esfera visual externa, dependendo das motivações e tendências internas, e não dos incentivos fornecidos pelos objetos externos.

Um estudo de Lewin sobre a natureza motivadora dos objetos para uma criança muito pequena conclui que os objetos ditam à criança o que ela tem que fazer: uma porta solicita que a abram e fechem, uma escada, que a subam, uma campainha, que a toquem.

Resumindo, os objetos têm uma tal força motivadora inerente, no que diz respeita às ações de uma criança muito pequena, e determinam tão extensivamente o comportamento da criança, que Lewin chegou a criar uma topologia psicológica: ele expressou, matematicamente, a trajetória do movimento da criança num campo, de acordo com a distribuição dos objetos, com diferentes forças de atração ou repulsão.

A raiz das restrições situacionais sobre uma criança situa-se no aspecto principal da consciência característica da primeira infância: a união de motivações e percepção. Nesta idade, a percepção não é, em geral, um aspecto independente, mas, ao contrário, é um aspecto integrado de uma reação motora. Toda a percepção é um estímulo para a atividade.

Uma vez que uma situação é comunicada psicologicamente através da percepção, e desde que a percepção não está separada da atividade motivacional e motora, é compreensível que a criança, com sua consciência estruturada dessa maneira, seja restringida pela situação na qual ela se encontra.

No brinquedo, no entanto, os objetos perdem sua força determinadora. A criança vê um objeto, mas age de maneira diferente em relação àquilo que ela vê. Assim, é alcançada uma condição em que a criança começa a agir independentemente daquilo que ela vê. Certos pacientes (com lesão cerebral) perdem a capacidade de agir independentemente do que vêem. Considerando tais pacientes, pode-se avaliar que a liberdade de ação que os adultos e as crianças mais maduras possuem não é adquirida num instante, mas tem que seguir um longo processo de desenvolvimento.

A ação numa situação imaginária ensina a criança a dirigir seu comportamento não somente pela percepção imediata dos objetos ou pela situação que a afeta de imediato, mas também pelo significado dessa situação. Observações do dia-a-dia e experimentos mostram, claramente, que é impossível para uma criança muito pequena separar o campo do significado do campo da percepção visual, uma vez que há uma fusão muito íntima entre o significado e o que é visto. Quando se pede a uma criança de dois anos que repita a sentença "Tânia está de pé", quando Tânia está sentada na sua frente, ela mudará a frase para "Tânia está sentada".

Exatamente a mesma situação é encontrada em certas doenças. Goldstein e Gelb descreveram vários pacientes que eram incapazes de afirmar alguma coisa que não fosse verdadeira. Gelb possui dados de um paciente que era canhoto e incapaz de escrever a sentença "Eu consigo escrever bem com minha mão direita". Ao olhar pela janela num dia bonito, ele é incapaz de repetir "O tempo está feio hoje", mas dirá "O tempo está bonito". Observamos, frequentemente, que um paciente com distúrbios na fala é incapaz de repetir frases sem sentido, como, por exemplo, "A neve é preta", enquanto outras frases com mesmo grau de dificuldade em sua construção gramatical e semântica podem ser repetidas.

Esta ligação entre percepção e significado pode ser vista no processo de desenvolvimento da fala nas crianças. Quando você diz para a criança, "relógio", ela passa a olhar para o relógio. A palavra tem o significado, originalmente, de uma localização espacial particular.

Na idade pré-escolar ocorre, pela primeira vez, uma divergência entre os campos do significado e da visão. No brinquedo, o pensamento está separado dos objetos e a ação surge das idéias e não das coisas: um pedaço de madeira torna-se um boneco e um cabo de vassoura torna-se um cavalo. A ação regida por regras começa a ser determinada pelas idéias e não pelos objetos. Isso representa uma tamanha inversão da relação da criança com a situação concreta, real e imediata, que é difícil subestimar seu pleno significado.

A criança não realiza toda esta transformação de uma só vez porque é extremamente difícil para ela separar o pensamento (o significado de uma palavra) dos objetos. O brinquedo fornece um estágio de transição nessa direção sempre que um objeto (um cabo de vassoura, por exemplo) torna-se um pivô dessa separação (no caso, a separação entre o significado "cavalo" de um cavalo real).

A criança não consegue, ainda, separar o pensamento do objeto real. A debilidade da criança está no fato de que, para imaginar um cavalo, ela precisa definir a sua ação usando um "cavalo-de-pau" como pivô. Nesse ponto crucial a estrutura básica determinante da relação da criança com a realidade está radicalmente mudada, porque muda a estrutura de sua percepção.

Como discuti nos capítulos anteriores, um aspecto especial da percepção humana, que surge muito cedo na vida da criança, é a assim chamada percepção dos objetos reais, ou seja, não somente a percepção de cores e formas, mas também de significados. Isso é algo para o que não há analogia na percepção animal.

Os seres humanos não vêem meramente alguma coisa redonda e branca com dois ponteiros; eles vêem um relógio e podem distinguir uma coisa da outra. Assim, a estrutura da percepção humana pode ser expressa, figurativamente, como uma razão na qual o objeto é o numerador e o significado é o denominador (objeto/significado).

Essa razão simboliza a idéia de que toda a percepção humana é feita de percepções generalizadas e não isoladas. Para a criança, o objeto é dominante na razão objeto/significado e o significado subordina-se a ele. No momento crucial em que, por exemplo, um cabo de vassoura torna-se o pivô da separação do significado "cavalo" do cavalo real, essa razão se inverte e o significado passa a predominar, resultando na razão significado/objeto.

Isso não quer dizer que as propriedades das coisas como tais não têm significado. Qualquer cabo de vassoura pode ser um cavalo mas, por exemplo, um cartão postal não pode ser um cavalo para uma criança. É incorreta a afirmação de Goethe de que no brinquedo qualquer objeto pode ser qualquer coisa para uma criança. E claro que, para os adultos que podem fazer um uso consciente dos símbolos, um cartão postal pode ser um cavalo. Se eu quiser representar, alguma coisa, eu posso, por exemplo, pegar um palito de fósforo e dizer: "Isto é um cavalo". Isto seria suficiente.

Para uma criança, entretanto, o palito de fósforo não pode ser um cavalo uma vez que não pode ser usado como tal, diferentemente de um cabo de vassoura; devido a essa falta de substituição livre, o brinquedo e não a simbolização, é a atividade da criança. Um símbolo é um signo, mas o cabo de vassoura não funciona como signo de um cavalo para a criança, a qual considera ainda a propriedade das coisas mudando no entanto, seu significado. No brinquedo, o significado torna-se o ponto central e os objetos são deslocados de uma posição dominante para uma posição subordinada.

No brinquedo, a criança opera com significados desligados dos objetos e ações aos quais estão habitualmente vinculados; entretanto, uma contradição muito interessante surge, uma vez que, no brinquedo, ela inclui, também, ações reais e objetos reais.

Isto caracteriza a natureza de transição da atividade do brinquedo: é um estágio entre as restrições puramente situacionais da primeira infância e o pensamento adulto, que pode ser totalmente desvinculado de situações reais.

Quando um cabo de vassoura torna-se o pivô da separação do significado "cavalo" do cavalo real, a criança faz com que um objeto influencie outro semanticamente. Ela não pode separar o significado de um objeto, ou uma palavra do objeto, exceto usando alguma outra coisa como pivô. A transferência de significados é facilitada pelo fato de a criança reconhecer numa palavra a propriedade de um objeto; ela vê não a palavra, mas o objeto que ela designa. Para uma criança, a palavra "cavalo" aplicada ao cabo de vassoura significa "eis um cavalo", porque mentalmente ela vê o objeta por trás da palavra.

Um estágio vital de transição em direção à operação com significados ocorre quando, pela primeira vez, a criança lida com os significados como se fossem objetos (como, por exemplo, ela lida com o cabo de vassoura pensando ser um cavalo). Numa fase posterior ela realiza esses atos de forma consciente.

Nota-se essa mudança, também, no fato de que, antes de a criança ter adquirido linguagem gramatical e escrita, ela sabe como fazer várias coisas sem saber que sabe. Ou seja, ela não domina essas atividades voluntariamente.

No brinquedo, espontaneamente, a criança usa sua capacidade de separar significado do objeto sem saber que o está fazendo, da mesma forma que ela não sabe estar falando em prosa e, no entanto, fala, sem prestar atenção às palavras. Dessa forma, através do brinquedo, a criança atinge uma definição funcional de conceitos ou de objetos, e as palavras passam a se tornar parte de algo concreto.

A criação de uma situação imaginária não é algo fortuito na vida da criança; pelo contrário, é a primeira manifestação da emancipação da criança em relação às restrições situacionais. O primeiro paradoxo contido no brinquedo é que a criança opera com um significado alienado numa situação real. O segundo é que, no brinquedo, a criança segue o caminho do menor esforço - ela faz o que mais gosta de fazer, porque o brinquedo está unido ao prazer - e, ao mesmo tempo, ela aprende a seguir os caminhos mais difíceis, subordinando-se a regras e, por conseguinte, renunciando ao que ela quer, uma vez que a sujeição a regras e a renúncia à ação impulsiva constitui o caminho para o prazer no brinquedo.

Continuamente a situação de brinquedo exige que a criança aja contra o impulso imediato. A cada passo a criança vê-se frente a um conflito entre as regras do jogo e o que ela faria se pudesse, de repente, agir espontaneamente. No jogo, ela age de maneira contrária à que gostaria de agir. O maior autocontrole da criança ocorre na situação de brinquedo. Ela mostra o máximo de força de vontade quando renuncia a uma atração imediata do jogo (como, por exemplo, uma bala que, pelas regras, é proibido comer, uma vez que se trata de algo não comestível). Comumente, uma criança experiencia a subordinação a regras ao renunciar a algo que quer, mas, aqui, a subordinação a uma regra e a renúncia de agir sob impulsos imediatos são os meios de atingir o prazer máximo.

Assim, o atributo essencial do brinquedo é que uma regra torna-se um desejo. As noções de Spinoza de "uma idéia que se tornou um desejo, um conceito que se transformou numa paixão", encontram seu protótipo no brinquedo, que é o reino da espontaneidade e liberdade.

Satisfazer as regras é uma fonte de prazer. A regra vence porque é o impulso mais forte. Tal regra é uma regra interna, uma regra de autocontenção e autodeterminação, como diz Piaget, e não uma regra a que a criança obedece à semelhança de uma lei física.

Em resumo, o brinquedo cria na criança uma nova forma de desejos. Ensina-a a desejar, relacionando seus desejos a um "eu" fictício, ao seu papel no jogo e suas regras. Dessa maneira, as maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade.

Separando ação e significado

Podemos, agora, dizer sobre a atividade da criança o mesmo que dissemos sobre os objetos. Assim como tínhamos a razão objeto/signo temos também a razão ação/significado. Enquanto no início do desenvolvimento domina a ação, posteriormente essa estrutura se inverte: o significado torna-se o numerador, enquanto a ação ocupa o lugar de denominador.

Numa criança em idade escolar, inicialmente a ação predomina sobre o significado e não é completamente compreendida. A criança é capaz de fazer mais do que ela pode compreender. Mas é nessa idade que surge pela primeira vez uma estrutura de ação na qual o significado é o determinante, embora a influência do significado sobre o comportamento da criança deva-se dar dentro dos limites fornecidos pelos aspectos estruturais da ação.

Tem-se mostrado que crianças, ao brincar de comer, realizam com suas mãos ações semiconscientes do comer real, sendo aí impossíveis todas as ações que não representem o comer. Assim, mostrou-se não ser possível, por exemplo, colocar-se as mãos para trás ao invés de estendê-las em direção ao prato, uma vez que tal ação teria um efeito destrutivo sobre o jogo.

Uma criança não se comporta de forma puramente simbólica no brinquedo; ao invés disso, ela quer e realiza seus desejos, permitindo que as categorias básicas da realidade passem através de sua experiência. A criança, ao querer, realiza seus desejos. Ao pensar, ela age. As ações internas e externas são inseparáveis: a imaginação, a interpretação e a vontade são processos internos conduzidos pela ação externa.

O que foi dito sobre a separação do significado dos objetos aplica-se igualmente às próprias ações da criança. Uma criança que bate com os pés no chão e imagina-se cavalgando um cavalo, inverteu, por conseguinte, a razão ação/significado para a razão significado/ação.

A história do desenvolvimento da relação entre significado e ação é análoga à história do desenvolvimento da relação significado/objeto. Para separar o significado de uma ação real (cavalgar um cavalo, sem a oportunidade de fazê-lo), a criança necessita de um pivô na forma de uma ação que substitui a acão real. Enquanto a ação começa como numerador da estrutura significado/ação, neste momento a estrutura se inverte e o significado torna-se o numerador. A ação recua para o segundo plano e torna-se o pivô; novamente, o significado separa-se da ação através de uma ação diferente.

Este é outro exemplo da maneira pela qual o comportamento humano passa a depender de operações baseadas em significados, onde as motivações que iniciam o comportamento estão nitidamente separadas da realização. Entretanto, separar significado de objeto tem conseqüências diferentes da separação entre significado e ação. Assim como operar com o significado de coisas leva ao pensamento abstrato, observamos que o desenvolvimento da vontade, a capacidade de fazer escolhas conscientes, ocorre quando a criança opera com o significado de ações.

No brinquedo, uma ação substitui outra ação, assim como um objeto substitui outro objeto. Como a criança se desloca de um objeto para outro, de uma ação para outra? Isto se dá graças a um movimento no campo do significado - o qual subordina a ele todos os objetos e ações reais.

O comportamento não é determinado pelo campo perceptivo imediato. No brinquedo, predomina esse movimento no campo do significado. Por um lado, ele representa movimento num campo abstrato (o qual, assim, aparece no brinquedo antes do aparecimento da operação voluntária com significados). Por outro lado, o método do movimento é situacional e concreto. (É uma mudança afetiva e não lógica.) Em outras palavras, surge o campo do significado, mas a ação dentro dele ocorre assim como na realidade. Por este fato o brinquedo contribue com a principal transformação para o desenvolvimento.

Conclusão

Eu gostaria de concluir esta discussão sobre o brinquedo mostrando, primeiro, que ele não é o aspecto predominante da infância, mas é um fator muito importante do desenvolvimento. Em segundo lugar, quero demonstrar o significado da mudança que ocorre no desenvolvimento do próprio brinquedo, de uma predominância de situações imaginárias para a predominância de regras. E, em terceiro, quero mostrar as transformações internas no desenvolvimento da criança que surgem em conseqüência do brinquedo.

De que forma o brinquedo está relacionado ao desenvolvimento? O comportamento da criança nas situações do dia-a-dia é, quanto a seus fundamentos, oposto a seu comportamento no brinquedo. No brinquedo, a ação está subordinada ao significado; já, na vida real, obviamente a ação domina o significado. Portanto, é absolutamente incorreto considerar o brinquedo como um protótipo e forma predominante da atividade do dia-a-dia da criança.

Esta é a principal incorreção na teoria de Koffka. Ele considera o brinquedo como o outro mundo da criança. [Segundo ele] Tudo o que diz respeito à criança é realidade de brincadeira, enquanto tudo o que diz respeito ao adulto é realidade séria. Um dado objeto tem um significado no brinquedo e outro significado fora dele. No mundo da criança, a lógica dos desejos e o ímpeto de satisfazê-los domina, e não a lógica real. A natureza ilusória do brinquedo é transferida para a vida.

Tudo isso seria verdade se o brinquedo fosse de fato a forma predominante da atividade da criança. No entanto, é difícil aceitar esse quadro insano que nos vem à mente na medida em que admitimos essa forma de atividade como a predominante no dia-a-dia da criança, mesmo se parcialmente transferida para a vida real.

Koffka dá vários exemplos para mostrar como uma criança transfere uma situação de brinquedo para a vida. Mas a transferência ubíqua [i. é, generalizada] do comportamento de brinquedo para a vida real só poderia ser considerada como um sintoma doentio. Comportar-se numa situação real como numa situação ilusória é o primeiro sinal de delírio.

Situações de brinquedo na vida real só são encontradas habitualmente num tipo de jogo em que as crianças brincam aquilo que de fato estão fazendo, criando, de forma evidente, associações que facilitam a execução de uma ação desagradável (como, por exemplo, quando as crianças não querem ir para a cama e dizem: "Vamos fazer-de-conta que é noite e que, temos que ir dormir").

Assim, parece-me que o brinquedo não é o tipo de atividade predominante na idade pré-escolar. Somente as teorias que afirmam que a criança não tem que satisfazer as necessidades básicas da vida, mas pode viver à procura do prazer, poderiam sugerir, possivelmente, que o mundo da criança é o mundo do brinquedo.

Considerando esse assunto a partir de uma perspectiva oposta, será que se poderia supor que o comportamento da criança é sempre guiado pelo significado? Que o comportamento de uma criança em idade pré-escolar é tão árido que ela nunca se comporta espontaneamente, simplesmente porque pensa que poderia comportar-se de outra maneira?

Essa subordinação estrita às regras é quase impossível na vida; no entanto, torna-se possível no brinquedo. Assim, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal da criança. No brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade. Como no foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo, ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento.

Apesar da relação brinquedo-desenvolvimento poder ser comparada à relação instrução- desenvolvimento, o brinquedo fornece ampla estrutura básica para mudanças das necessidades e da consciência. A ação na esfera imaginativa, numa situação imaginária, a criação das intenções voluntárias e a formação dos planos da vida real e motivações volitivas - tudo aparece no brinquedo, que se constitui, assim, no mais alto nível de desenvolvimento pré-escolar. A criança desenvolve-se, essencialmente, através da atividade de brinquedo. Somente neste sentido o brinquedo pode ser considerado uma atividade condutora que determina o desenvolvimento da criança.

Como muda o brinquedo? E notável que a criança comece com uma situação imaginária que, inicialmente, é tão próxima da situação real. O que ocorre é uma reprodução da situação real. Uma criança brincando com uma boneca, por exemplo, repete quase exatamente o que sua mãe faz com ela. Isso significa que, na situação original, as regras operam sob uma forma condensada e comprimida. Há muito pouco de imaginário. É uma situação imaginária, mas é compreensível somente à luz de uma situação real que, de fato, tenha acontecido. O brinquedo é muito mais a lembrança de alguma coisa que realmente aconteceu do que imaginação. É mais a memória em ação do que uma situação imaginária nova.

À medida que o brinquedo se desenvolve, observamos um movimento em direção à realização consciente de seu propósito. É incorreto conceber o brinquedo como uma atividade sem propósito. Nos jogos atléticos, pode-se ganhar ou perder; numa corrida, pode-se chegar em primeiro, segundo ou último lugar. Em resumo, o propósito decide o jogo e justifica a atividade. O propósito, como objetivo final, determina a atitude afetiva da criança no brinquedo. Ao correr, uma criança pode estar em alto grau de agitação ou preocupação e restará pouco prazer, uma vez que ela ache que correr é doloroso; além disso, se ela for ultrapassada experimentará pouco prazer funcional. Nos esportes, o propósito do jogo é um de seus aspectos dominantes, sem o qual ele não teria sentido - seria como examinar um doce, colocá-lo na boca, mastigá-lo e então cuspi-lo. Naquele brinquedo, o objetivo, que é vencer, é previamente reconhecido.

No final do desenvolvimento surgem as regras, e, quanto mais rígidas elas são, maior a exigência de atenção da criança, maior a regulação da atividade da criança, mais tenso e agudo torna-se o brinquedo. Correr simplesmente, sem propósito ou regras, é entediante e não tem atrativo para a criança. Conseqüentemente, na forma mais avançada do desenvolvimento o brinquedo emerge com um complexo de aspectos originalmente não desenvolvidos - aspectos que tinham sido secundários ou incidentais no início, ocupam uma posição central no fim e vice-versa.

Em um sentido, no brinquedo a criança é livre para determinar suas próprias ações. No entanto, em outro sentido, é uma estrita liberdade ilusória, pois suas ações são, de fato, subordinadas aos significados dos objetos, e a criança age de acordo com eles.

Sob o ponto de vista do desenvolvimento, a criação de uma situação imaginária pode ser considerada como um meio para desenvolver o pensamento abstrato. O desenvolvimento correspondente de regras conduz a ações, com base nas quais torna-se possível a divisão entre trabalho e brinquedo, divisão esta encontrada na idade escolar como um fato fundamental.

Tal como disse, em sentido figurado, um pesquisador, para uma criança com menos de três anos de idade o brinquedo é um jogo sério, assim como o é para um adolescente, embora, é claro, num sentido diferente da palavra; para uma criança muito pequena, brinquedo sério significa que ela brinca sem separar a situação imaginária da situação real.

Para uma criança em idade escolar escolar, o brinquedo torna-se uma forma de atividade mais limitada, predominantemente do tipo atlético, que preenche um papel específico em seu desenvolvimento, e que não tem o mesmo significado do brinquedo para uma criança em idade pré-escolar.

Na idade escolar, o brinquedo não desaparece, mas permeia a realidade. Ele tem sua própria continuação interior na instrução escolar e no trabalho (atividade compulsória baseada em regras). A essência do brinquedo é a criação de uma nova relação entre o campo do significado e o campo da percepção visual - ou seja, entre situações no pensamento e situações reais. Somente uma análise profunda torna possível determinar o seu curso de mudanças e seu papel no desenvolvimento.