Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sábado, 20 de setembro de 2014

O surgimento da vida


Fábricas de diplomas...


(Fonte: O Globo)

Em agosto de 2010, no comício de inauguração de quatro prédios da Universidade Federal de Dourados, em Mato Grosso do Sul, Lula também reinaugurou a bazófia que se transformaria, de lá para cá, num dos seus mantras prediletos: “No meu último dia de presidente, eu vou olhar para mim e dizer que não tenho curso superior, mas fui o presidente que mais abriu universidade no Brasil”. 

Depende do critério utilizado. Se o que vale é quantidade, o palanque ambulante tem razão. Na última década, o número de matrículas em cursos superiores dobrou. Entre 2011 e 2012, 867 mil brasileiros se formaram por alguma faculdade, pública ou privada. 

Baseada no critério da qualidade, adotado por quem tem mais de cinco neurônios, uma reportagem publicada pelo site da BBC acaba de implodir a gabolice do maior dos governantes desde Tomé de Souza. Sob o título "‘Geração do diploma’ lota faculdades, mas decepciona empresários", o texto enfileira informações estarrecedoras.

Uma delas: segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope, o índice de analfabetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%. "Isso significa que quatro em cada dez universitários até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações", espanta-se o redator da BBC. 

“Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas”, prossegue o desfile de assombros. 

“De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu de 76% para 62%. E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda, prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM”. 

O desastre é ampliado a cada ano pela parceria entre faculdades federais de quinta categoria e cursos particulares criados pela indústria do ensino, com vagas de sobra para premiar com canudos inúteis a procissão de bolsistas que o governo financia com o dinheiro dos pagadores de impostos.

O número de acadêmicos não para de aumentar. A taxa de ignorância no campus também. Vista de perto, o que o pai do Brasil Maravilha chama de universidade é só uma fábrica de lulas com diploma de doutor.

Como o autismo ajuda Messi

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(Texto de Roberto Amado. Fonte: Diário do Centro do Mundo)

Messi é autista. Ele foi diagnosticado aos 8 anos de idade, ainda na Argentina, com a Síndrome de Asperger, conhecida como uma forma branda de autismo. 

Ainda que o diagnóstico do atleta tenha sido pouco divulgado e questionado, como uma maneira de protegê-lo, o fato é que seu comportamento dentro e fora de campo é revelador. 

Ter síndrome de Asperger não é nenhum demérito. São pessoas, em geral do sexo masculino, que apresentam dificuldades de socialização, atos motores repetitivos e interesses muito estranhos. Popularmente, a síndrome é conhecida como uma fábrica de gênios. 

É o caso de Messi. É possível identificar, pela experiência, como o autismo revela-se no seu comportamento em campo — nas jogadas, nos dribles, na movimentação, no chute. 

“Autistas estão sempre procurando adotar um padrão e repeti-lo exaustivamente”, diz Nilton Vitulli, pai de um portador da síndrome de Asperger e membro atuante da ong Autismo e Realidade e da rede social Cidadão Saúde, que reúne pais e familiares de “aspergianos”. 

“O Messi sempre faz os mesmos movimentos: quase sempre cai pela direita, dribla da mesma forma e frequentemente faz aquele gol de cavadinha, típico dele”, diz Vitulli, que jogou futebol e quase se profissionalizou. E explica que, graças à memória descomunal que os autistas têm, Messi provavelmente deve conhecer todos os movimentos que podem ocorrer, por exemplo, na hora de finalizar em gol. “É como se ele previsse os movimentos do goleiro. Ele apenas repete um padrão conhecido. Quando ele entra na área, já sabe que vai fazer o gol. E comemora, com aquela sorriso típico de autista, de quem cumpriu sua missão e está aliviado”. 

A qualidade do chute, extraordinária em Messi, e a habilidade de manter a bola grudada no pé, mesmo em alta velocidade, são provavelmente, segundo Vitulli, também padrões de repetição, aliados, claro, à grande habilidade do jogador. 

Ele compara o comportamento de Messi a um célebre surfista havaiano, Clay Marzo, também diagnosticado com a síndrome de Asperger. “É um surfista extraordinário. E é possível perceber características de autista quando ele está numa onda. Assim, como o Messi, ele é perfeito, como se ele soubesse exatamente o comportamento da onda e apenas repetisse um padrão”. 

Mas autistas, segundo Vitulli, não são criativos, apenas repetem o que sabem fazer. “Cristiano Ronaldo e Neymar criam muito mais. Mas também erram mais”, diz ele. 

Autistas podem ser capazes de feitos impressionantes — e o filme Rain Man, feito em 1988, ilustra isso. Hoje já se sabe, por exemplo, que os físicos Newton e Einstein tinham alguma forma de autismo, assim como Bill Gates. Também fora de campo, seu comportamento é revelador. 

Quem já não reparou nas dificuldades de comunicação do jogador, denunciadas em entrevistas coletivas e até em comerciais protagonizados por ele? Ou no seu comportamento arredio em relação a eventos sociais? 

Para Giselle Zambiazzi, presidente da AMA Brusque, (Associação de Pais, Amigos e Profissionais dos Autistas de Brusque e Região, em Santa Catarina), e mãe de um menino de 10 anos diagnosticado com síndrome de Asperger, foi uma revelação observar certas atitudes de Messi. “A começar pelas entrevistas: é visível o quanto aquele ambiente o incomoda. Aquele ar “perdido”, louco pra fugir dali. A coçadinha na cabeça, as mãos, o olhar que nunca olha de fato. Um autista tem dificuldade em lidar com esse bombardeio de informações do mundo externo”, diz Giselle. Segundo ela, é possível perceber o alto grau de concentração de Messi: “ele sabe exatamente o que quer e tem a mesma objetividade que vejo em meu filho”. 

Giselle observou algumas jogadas do argentino e também não teve dúvidas: “o olhar que ‘não olha’ é o mesmo que vejo em todos. Em uma jogada, ele foi levando a bola até estar frente a frente com um adversário. Era o momento de encará-lo. Ele levantou a cabeça, mas, o olhar desviou. Ou seja, não houve comunicação. Ele simplesmente se manteve no seu traçado, no seu objetivo, foi lá e fez o gol. Sem mais”. 

Segundo Giselle, Messi tem o reconhecido talento de transformar em algo simples o que para todos é grandioso e não vê muito sentido em fama, dinheiro, mulheres, badalação. “Simplesmente faz o que mais sabe e faz bem. O resto seria uma consequência. Outra aspecto que se assemelha muito a meu filho”.

Outra característica dos autistas, segundo ela, é ficarem extremamente frustrados quando perdem, são muito exigentes. “Tudo tem que sair exatamente como se propuseram a fazer, caso contrário, é crise na certa. E normalmente dominam um assunto específico. Ou seja, se Messi é autista e resolveu jogar futebol, a possibilidade de ser o melhor do mundo seria mesmo muito grande”, diz ela. 

A ideia de uma das maiores celebridades do mundo ser um autista não surpreende, mas encanta. Messi nunca será uma celebridade convencional. Segundo Giselle, ele simplesmente será sempre um profissional que executa a sua profissão da melhor forma que consegue — mas arredio às badalações, às entrevistas e aos eventos. 

“Ele precisa e quer que sua condição seja respeitada. Nunca vai se acostumar com o assédio. Sempre terá poucos amigos. E dificilmente saberá o que fazer diante de um batalhão de fotógrafos e fãs gritando ao seu redor. De qualquer modo, certamente a sua contribuição para o mundo será inesquecível”, diz ela.

Universo Mecânico: Introdução à Física Clássica - 31

Universo Mecânico: Introdução à Física Clássica - 30

Belas, mas... ignorantes

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Duas entrevistas com Bertrand Russell

* Bertrand Russell (1872-1970) foi um lógico-matemático e filósofo inglês que se dedicou intensamente à crítica antirreligiosa, à propagação do ceticismo científico e ao questionamento de muitas convenções sociais - sendo inclusive expulso de duas importantes universidades pela sua falta de "papas" na língua. Abaixo, duas entrevistas concedidas por ele.



Perto do coração selvagem (Clarice Lispector) - 4

(Continuação da obra "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector)

O PASSEIO DE JOANA 


— Eu ME DISTRAIO muito, disse Joana a Otávio. 

Assim como o espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo fato de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes, Otávio transformava-a em alguma coisa que não era ela mas ele mesmo e que Joana recebia por piedade de ambos, porque os dois eram incapazes de se libertar pelo amor, porque aceitava sucumbida o próprio medo de sofrer, sua incapacidade de conduzir-se além da fronteira da revolta. 

E também: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem? 

A tarde era nua e límpida, sem começo nem fim. Pássaros leves e negros voavam nítidos no ar puro, voavam sem que os homens os acompanhassem com um olhar sequer. Bem longe a montanha pairava grossa e fechada. 

Havia duas maneiras de olhá-la: imaginando que estava longe e era grande, em primeiro lugar; em segundo, que era pequena e estava perto. Mas de qualquer modo, uma montanha estúpida, castanha e dura. Como odiava a natureza às vezes. 

Sem saber por que, pareceu-lhe que a última reflexão, misturada à montanha, concluía alguma coisa, batendo com a mão aberta sobre a mesa: pronto! pesadamente. 

Aquilo cinzento e verde estendido dentro de Joana como um corpo preguiçoso, magro e áspero, bem dentro dela, inteiramente seco, como um sorriso sem saliva, como olhos sem sono e enervados, aquilo confirmava-se diante da montanha parada. 

O que não conseguiria pegar com a mão estava agora glorioso e alto e livre e era inútil tentar resumir: ar puro, tarde de verão. 

Porque havia seguramente mais do que isso. Uma vitória inútil sobre as árvores folhudas, um sem que fazer de todas as coisas. 

Oh, Deus. Isso, sim, isso: se existisse Deus, é que ele teria desertado daquele mundo subitamente, excessivamente limpo, como uma casa ao sábado, quieta, sem poeira, cheirando a sabão. 

Joana sorriu. Por que uma casa encerada e limpa deixava-a perdida como num mosteiro, desolada, vagando pelos corredores? E muitas coisas que observava ainda. 

Assim, se suportava o gelo sobre o fígado, era atravessada por sensações longínquas e agudas, por idéias luminosas e rápidas, e se então tivesse que falar diria: sublime, com as mãos estendidas para frente, talvez os olhos cerrados. 

— Então eu me distraio muito, repetiu. 

Sentiu-se um galho seco, espetado no ar. Quebradiço, coberto de cascas velhas. Talvez estivesse com sede, mas não havia água por ali perto. E sobretudo a certeza asfixiante de que se um homem a abraçasse naquele momento sentiria não a doçura macia nos nervos, mas o sumo de limão ardendo sobre eles, o corpo como madeira próxima do fogo, vergada, estalante, seca. 

Não podia acalentar-se dizendo: isto é apenas uma pausa, a vida depois virá como uma onda de sangue, lavando-me, umedecendo a madeira crestada. Não podia enganar-se porque sabia que também estava vivendo e que aqueles momentos eram o auge de alguma coisa difícil, de uma experiência dolorosa que ela devia agradecer: quase como sentir o tempo fora de si mesma, abstraindo-se. 

— Eu notei, você gosta de andar, disse Otávio apanhando um graveto. Aliás você já gostava mesmo antes de casarmos. 

— Sim, muito — respondeu. 

Poderia dar-lhe um pensamento qualquer e então criaria uma nova relação entre ambos. Isso é o que mais lhe agradava, junto das pessoas. Ela não era obrigada a seguir o passado, e com uma palavra podia inventar um caminho de vida. Se dissesse: estou no terceiro mês de gravidez, pronto! entre ambos viveria alguma coisa

Se bem que Otávio não fosse particularmente estimulante. Com ele a possibilidade mais próxima era a de ligar-se ao que já acontecera. Mesmo assim, sob o seu olhar "me poupe, me poupe", ela abria a mão de quando em quando e deixava um passarinho subitamente voar. Às vezes, no entanto, talvez pela qualidade do que dizia, nenhuma ponte se criava entre eles e, pelo contrário, nascia um intervalo

"Otávio — dizia-lhe ela de repente —, você já pensou que um ponto, um único ponto sem dimensões, é o máximo de solidão? Um ponto não pode contar nem consigo mesmo, foi-não-foi está fora de si." 

Como se ela tivesse jogado uma brasa ao marido, a frase pulava de um lado para outro, escapulia-lhe das mãos até que ele se livrasse dela com outra frase, fria como cinza, cinza para cobrir o intervalo: está chovendo, estou com fome, o dia está belo

Talvez porque ela não soubesse brincar. Mas ela o amava, àquele seu jeito de apanhar gravetos. 

Aspirou o ar morno e claro da tarde, e o que nela pedia água restava tenso e rígido como quem espera de olhos vedados pelo tiro. A noite veio e ela continuou a respirar no mesmo ritmo estéril. Mas quando a madrugada clareou o quarto docemente, as coisas saíram frescas das sombras, ela sentiu a nova manhã insinuando-se entre os lençóis e abriu os olhos. Sentou-se sobre a cama. 

Dentro de si era como se não houvesse a morte, como se o amor pudesse fundi-la, como se a eternidade fosse a renovação.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Criação (filme)

Não tenha medo dos mortos

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - obra completa



DEZ LEIS PARA SER FELIZ


AUGUSTO CURY -

...............................

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - conclusão

(Finalização da obra "Dez leis para ser feliz", de Augusto Cury)

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Fizemos um estudo sucinto das Dez Leis Para Ser Feliz. Creio que a maioria das pessoas tem no máximo três dessas leis trabalhadas na sua personalidade. Mas há uma esperança. Este livro mostra a direção, mas só você pode caminhar. 

Quem viver essas leis revolucionará a sua qualidade de vida. Os jovens deveriam conhecê-las desde os primeiros anos da escola, para que a felicidade não seja um delírio em sua história. 

Todos sonham com a felicidade, mas nunca uma palavra foi tão comentada e tão pouco compreendida.

Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. Só você pode evitar que ela vá à falência. Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você.

Eu reescrevi muitas vezes este livro. Elaborei cada idéia para que as dez leis que estudamos se transformem em dez ferramentas para você garimpar ouro. Ouro? Sim. Garimpar ouro no solo da sua inteligência, no território da sua emoção, no anfiteatro dos seus pensamentos. Poucos sabem garimpá-lo, por isso poucos vêem dias felizes.

Gostaria que você sempre se lembrasse de que ser feliz não é ter um céu sem tempestades, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem decepções. Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros

Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza. Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato. 

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. 

Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu próprio ser. 

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. 

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica mesmo que injusta.

É beijar os filhos, curtir os pais e ter momentos poéticos com os amigos, mesmo que eles o magoem. 

Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de nós. 
É ter maturidade para falar “eu errei”. 
É ter ousadia para dizer “me perdoe”. 
É ter sensibilidade para expressa “eu preciso de você”. 
É ter capacidade de dizer “eu te amo”. 

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para você ser feliz.
Que nas suas primaveras você seja amante da alegria.
Que nos seus invernos você seja amigo da sabedoria.

E quando você errar o caminho, recomece tudo de novo.
Pois assim você será cada vez mais apaixonado pela vida. E descobrirá que... 
Ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para esculpir a serenidade. Usar a dor para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - 10

(Continuação da obra "Dez leis para ser feliz", de Augusto Cury) 

10ª LEI: 
INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

 

Os maiores enganos do universo se escondem dentro de cada ser humano... Inteligência espiritual é ter consciência de que a vida é uma grande pergunta em busca de uma grande resposta. É procurar o sentido da vida, mesmo que se seja um ateu. É procurar por Deus, independente de uma religião, mesmo sentindo-se confuso no novelo da existência. É agradecer a Deus pelo dia, pela noite, pelo sol, por sermos um ser único no universo. É procurar as respostas que a ciência nunca nos deu. É ter esperança na desolação, amparo na tribulação, coragem nas dificuldades. É ser um poeta da vida. Você é um poeta? 

UM BURACO NA ALMA

No cerne da alma e no espírito humano há um buraco negro, um vazio existencial, que suga nossa paz diante das dores da vida e da morte. O fim da existência é o fenômeno mais angustiante do homem. Todos os povos desenvolveram algum tipo de inteligência espiritual para entendê-lo e superá-lo. 

Einstein disse: quero conhecer os pensamentos de Deus, o resto é detalhe. Ele ambicionava algo maior do que revolucionar a ciência. O homem mais inteligente do século XX queria perscrutar a mente de Deus. Ele buscava o sentido da sua vida. Onde anda você? 

DEUS E A PSIQUIATRIA

No passado, eu pensava que procurar Deus era uma perda de tempo. Hoje penso completamente diferente. Percebo que há um conflito existencial dentro de cada ser humano, seja ele um religioso ou um ateu cético, que a psiquiatria e a psicologia não podem resolver. A psiquiatria trata dos transtornos psíquicos usando antidepressivos e tranqüilizantes, e a psicologia, usando técnicas psicoterapêuticas. Mas elas não resolvem o vazio existencial, não dão respostas aos mistérios da vida. 

QUEM PODE DECIFRAR O QUE É A VIDA?

Temos milhões de livros científicos, mas a ciência não sabe explicar o que é a vida. Vivemos numa bolha de mistérios. As questões básicas da existência humana não foram resolvidas. Quem somos? Para onde vamos? Como é possível resgatar a identidade da personalidade depois da morte se trilhões de segredos da memória se esfacelam no caos? O fim é o nada ou o fim é o começo? Nenhum pensador encontrou tais respostas. Quem as procurou na ciência morreu com suas dúvidas. Agora estamos entendendo que o desenvolvimento da inteligência espiritual por meio de oração, meditação e busca de respostas existenciais aquieta o pensamento e apazigua as águas da emoção.

Embora haja radicalismos e intolerância religiosa que depõem contra a inteligência, procurar por Deus, conhecê-lo e amá-lo é um ato inteligentíssimo. O amor do ser humano pelo Autor da sua vida produz força na fragilidade, consolo nas tempestades, segurança no caos.

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - 9

(Continuação da obra "Dez leis para ser feliz", de Augusto Cury) 

9ª LEI: 
SER EMPREENDEDOR


Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, mas uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros... Ser um empreendedor é executar os sonhos, mesmo que haja riscos. É enfrentar os problemas, mesmo não tendo forças É caminhar por lugares desconhecidos, mesmo sem bússola. É tomar atitude que ninguém tomou. É ter a consciência de que quem vence sem obstáculos triunfa sem glória. É não esperar uma herança, mas construir uma história... 

Quantos projetos você deixou para trás? Quantas vezes seus temores bloquearam seus sonhos? Ser um empreendedor não é esperar a felicidade acontecer, mas conquistá-la. 

DICAS PARA SER UM ADULTO REALIZADO

Explore o desconhecido, liberte-se do cárcere da insegurança e saia da zona de conforto dos seus diplomas, status e sucessos antigos. Penetre nos labirintos da vida. Traga soluções para os problemas e previna erros no trabalho. Tenha novas atitudes para encantar os filhos, a namorada, o cônjuge, os colegas. 

Se quiser ter sucesso emocional, profissional e social, você precisa ser um empreendedor, você errará diversas vezes, mas esse é o preço da conquista. Não há vitórias sem derrotas e nem pódio sem labuta. 

DICAS PARA SER UM JOVEM BEM SUCEDIDO

A maioria dos jovens da atualidade não tem sonhos, nem maus nem bons. Eles não têm uma causa para lutar por ela. Estão despreparados para os desafios sociais e profissionais. Poderão engrossar a massa de pessoas frustradas. Anime-se! Tenha metas. Faça o que ninguém fez. Sonhe muito, sonhe alto, mas tenha seus pés na terra. Valorize seus estudos. Ame a sua escola. Crie oportunidades. Ao criá-las não tenha medo de falhar. Se falhar, não tenha medo de chorar. Se chorar, repense a vida, mas não recue.

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - 8

(Continuação da obra "Dez leis para ser feliz", de Augusto Cury) 

8ª LEI: 
TRABALHAR PERDAS E FRUSTRAÇÕES

 

Ser feliz não é um acaso do destino, mas uma conquista existencial. Trabalhar as perdas e frustrações é superar as dores da existência e usá-las para amadurecermos e não para nos destruirmos. É repensar nossas dificuldades. Ver por outro ângulo nossas decepções. É poder esculpir a personalidade, mesmo não sendo artesão. É ter coragem para vencer, mas humildade para viver. É ter consciência de que a vida é uma grande escola, mas pouco ensina para quem não sabe ser um aluno... É ser um eterno aprendiz. Sem trabalhar perdas e frustrações, a vida alterna-se entre momentos felizes e períodos de profundo sofrimento. 

A VIDA É BELA, MAS TEM OBSTÁCULOS IMPREVISÍVEIS

Ao longo dos anos atuando como psiquiatra e psicoterapeuta e pesquisando os segredos da mente humana, tive uma convicção: todo ser humano, seja ele rei ou súdito, intelectual ou iletrado, atravessa momentos angustiantes. Somos tão “criativos” que, se não tivermos problemas, nós os “fabricamos”. Basta sentir que precisa de alguém que você sofrerá frustrações. Basta amar e ter amigos que as incompreensões virão. Mas isso não depõe contra a vida, faz dela uma poesia. Para muitos a dor é um problema, para os sábios é a sua escola.

DICAS PARA TRABALHAR PERDAS E FRUSTRAÇÕES

Devemos ter consciência de que há perdas e frustrações inevitáveis. Aliás, as maiores decepções são geradas pelas pessoas que mais amamos. Por isso, se você quiser uma família perfeita, amigos que não o frustrem e colegas de trabalho superagradáveis, é melhor você morar na Lua. Se por estar frustrado consigo mesmo e com as pessoas, você se isolar socialmente, sua solidão será insuportável. Traga sempre à memória que os fortes são tolerantes; os fracos, rígidos. Os fortes compreendem; os fracos julgam.

Dez leis para ser feliz (Augusto Cury) - 7

(Continuação da obra "Dez leis para ser feliz", de Augusto Cury)

7ª LEI: 
PROTEGER OS SOLOS DA MEMÓRIA 


Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as mãos para cultivá-las... 

Proteger os solos da memória é cuidar da qualidade dos arquivos conscientes e inconscientes que contêm os segredos da nossa personalidade. É se preservar do registro do medo, do desespero, das mágoas, enfim, do lixo de nossa existência. É também reescrever os arquivos doentios já arquivados. 

Todos se preocupam com os arquivos dos computadores, mas raramente alguém se preocupa com as mazelas e misérias arquivadas em sua memória. Se não protegermos a memória, é possível ter uma vida completamente infeliz, mesmo com uma infância saudável. Por favor gravem isso. 

Nos computadores o registro depende da vontade, na memória humana o registro dos pensamentos e emoções é involuntário, realizado pelo fenômeno RAM (registro automático da memória). Nos computadores, a tarefa mais fácil é apagar os arquivos; no homem é impossível, a não ser por traumas cerebrais. 

Embora difícil, precisamos aprender a proteger a nossa memória. Toda angústia, medo, agressividade e idéias negativas registram-se e não podem mais ser deletadas, só reeditadas. 

Diariamente, você planta flores ou constrói favelas na sua memória. Como assim? 

AS FAVELAS DA MEMÓRIA

Vamos comparar a memória com uma grande cidade, cada bairro com um arquivo e cada endereço com uma informação. Diariamente arquivamos novas informações que constroem belos bairros ou áridas favelas. 

Por isso há ricos pobres e pobres ricos. Muitos moram em bairros nobres, querem ficar distantes das zonas pobres. Mas nos solos de sua memória pode haver inúmeras favelas, arquivos doentios. Alguns são privilegiados financeiramente, mas miseráveis interiormente. Em suas mansões há jardins, mas na sua emoção há tristeza e desolação. 

FOBIAS

As fobias são provenientes de uma interpretação distorcida que gera um registro exagerado de um objeto fóbico: insetos, animais, pessoa, ambiente. A claustrofobia é o medo de lugar fechado, tal como um elevador; a acrofobia é o medo de altura; a fobia social é o medo de lugares públicos; a fobia simples é o medo de insetos e animais. Mas o pior tipo de medo é o medo do medo

O fenômeno RAM fotografa bilhões de experiências durante nossa existência. Todos nós, mesmo os que tiveram uma infância feliz, adquirimos enormes favelas no inconsciente. Quais são as suas favelas? 

UMA BARATA MAIS PODEROSA DO QUE UM SEQUESTRADOR

Dependendo do volume de tensão, as experiências existenciais podem ser registradas de maneira tão traumática que controlam a inteligência. Uma barata pode ser registrada como um monstro, um elevador como um cubículo sem ar, uma reunião em grupo, como um ambiente agressivo e castrador.   
Lembro-me de uma paciente que foi seqüestrada e ficou mais de um mês no cativeiro. Sabe qual a primeira coisa que ela perguntou aos seqüestradores? Se haveria baratas no ambiente em que ela ficaria. O medo de baratas apavorava-a mais do que os seqüestradores. Por quê? Porque na sua infância registrou a imagem de adultos em pânico diante de baratas. Infelizmente havia no cativeiro muitas baratas. 

Uma cobra apareceu e quase a picou, mas nada a perturbou tanto quanto as baratas. Para dormir ela suplicava calmantes aos seqüestradores. O medo encarcerou sua liberdade. 

Há medo de todos os tipos: medo de perder o emprego, de ser assaltado, de um ataque terrorista, de andar de carro, de ficar sozinho, de ser rejeitado, de fracassar. Quais são seus medos? 

UM MEDO MUITO ESTRANHO

Recentemente uma jovem universitária disse-me que tinha um medo incomum: pavor de pássaros. Um trauma na infância levou-a a ter medo das inofensivas aves. Contou-me que podia enfrentar um cachorro bravo, mas não um beija-flor. 

Como nossa mente é complexa! Quem controla a nossa mente não é a realidade real de um animal, pessoa ou situação, mas a realidade emocional registrada na memória. 

Temos uma fantástica inteligência, deveríamos ser livres, mas facilmente criamos gigantes em nosso inconsciente que nos ameaçam e nos aprisionam. 

ESQUECIMENTO

Nossa memória é inúmeras vezes mais sofisticada do que a de um supercomputador. Mas as pessoas estão reclamando de que estão esquecidas, com memória “fraca”. Elas esquecem encontros, objetos, novas informações. Desesperadas, procuram médicos, mas nada encontram.

Deixe-me dar uma refrescante notícia. Não existe memória fraca, mas bloqueada, devido à proteção cerebral. Como o cérebro tem mais juízo do que nós, ele trava a memória para evitar que pensemos demais e gastemos energia excessiva. Bendito esquecimento. 

UMA BOA NOTÍCIA PARA JOVENS E ADULTOS

Quer abrir as janelas da memória e libertar a inteligência? Quer brilhar nas reuniões de trabalho e emitir opiniões lúcidas? Quer ser uma fera intelectual nos concursos e entrevistas? Primeiro estude dedicadamente. Segundo, controle a fera da insegurança e do medo que habita em sua emoção! 

O cérebro interpreta o medo como se sua vida estivesse em perigo, por isso bloqueia os arquivos e produz os famosos “brancos”. Você tem uma fantástica inteligência. Mas lembre-se de que o medo de falhar acelera a derrota

DICAS PARA PROTEGER A MEMÓRIA

Viva intensamente “as leis” para ser feliz: contemple o belo, gerencie a emoção, trabalhe perdas. Mas o que fazer com os traumas já registrados? É necessário reeditar o filme do inconsciente, sobrepondo novas experiências sobre as antigas. Eis o maior desafio da inteligência!

É necessário “criticar” diariamente as imagens doentias da memória que nos controlam. É necessário também “não pedir” mas “determinar” ser alegre, ousado, seguro, saudável. Essas ferramentas reurbanizam as favelas do medo, do ódio, da autopunição e nos libertam.

Diabetes

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Uma Conversa: O Que é, Para Que Serve? (Gilles Deleuze)

Deleuze (1925-1995) foi um filósofo francês "pós-moderno",
inspirado especialmente por Henri Bergson

Uma Conversa, O Que é, Para Que Serve?



É difícil "se explicar" – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. 

A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. 

Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: "Está certo, está certo, passemos a outra coisa." As objeções nunca levaram a nada. 

O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas. Muitas pessoas pensam que somente repisando a questão é que se pode sair delas. "O que há com a filosofia? Ela está morta? Vai ser superada?" 

É muito desagradável. Sempre se voltará à questão para se conseguir sair dela. Mas sair nunca acontece dessa maneira. O movimento acontece sempre nas costas do pensador, ou no momento em que ele pisca. Já se saiu, ou então nunca se sairá. 

As questões estão, em geral, voltadas para um futuro (ou um passado). O futuro das mulheres, o futuro da revolução, o futuro da filosofia etc. Mas durante esse tempo, enquanto se gira em torno de tais questões, há devires que operam em silêncio, que são quase imperceptíveis

Pensa-se demais em termos de história, pessoal ou universal. Os devires são geografia, são orientações, direções, entradas e saídas. 

Há um devir-mulher que não se confunde com as mulheres, com seu passado e seu futuro, e é preciso que as mulheres entrem nesse devir para sair de seu passado e de seu futuro, de sua história. 

Há um devir-revolucionário que não é a mesma coisa que o futuro da revolução, e que não passa inevitavelmente pelos militantes

Há um devir-filósofo que não tem nada a ver com a história da filosofia e passa, antes, por aqueles que a história da filosofia não consegue classificar

Devir é jamais imitar, nem fazer como, nem ajustar-se a um modelo, seja ele de justiça ou de verdade. Não há um termo de onde se parte, nem um ao qual se chega ou se deve chegar. Tampouco dois termos que se trocam. 

A questão "o que você está se tornando?" é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se torna, o que ele se torna muda tanto quanto ele próprio. 

Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, núpcias entre dois reinos. As núpcias são sempre contra natureza. As núpcias são o contrário de um casal. Já não há máquinas binárias: questão-resposta, masculino-feminino, homem-animal etc. 

Uma entrevista poderia ser simplesmente o traçado de um devir. A vespa e a orquídea são o exemplo. A orquídea parece formar uma imagem de vespa, mas, na verdade, há um devir-vespa da orquídea, um devir-orquídea da vespa, uma dupla captura pois "o que" cada um se torna não muda menos do que "aquele" que se torna. A vespa torna-se parte do aparelho reprodutor da orquídea, ao mesmo tempo em que a orquídea torna-se órgão sexual para a vespa. Um único e mesmo devir, um único bloco de devir, ou, como diz Rémy Chauvin, uma "evolução a-paralela de dois seres que não têm absolutamente nada a ver um com o outro"

devires–animais do homem que não consistem em imitar o cachorro ou o gato, já que o animal e o homem só se encontram no percurso de uma desterritorialização comum, mas dissimétrica. Como os pássaros de Mozart: há um devir-pássaro nessa música, mas tornado em um devir-música do pássaro, os dois formando um único devir, um único bloco, uma evolução a-paralela, de modo algum uma troca, mas "uma confidência sem interlocutor possível", como diz um comentador de Mozart – em suma, uma conversa

Os devires são o mais imperceptível, são atos que só podem estar contidos em uma vida e expressos em um estilo. Os estilos, e tampouco os modos de vida, não são construções. No estilo não são as palavras que contam, nem as frases, nem os ritmos e as figuras. Na vida não são as histórias, nem os princípios ou as conseqüências. Sempre se pode substituir uma palavra por outra. Se esta não lhe agrada, não lhe convém, pegue outra, coloque outra no lugar. Se cada um fizer esse esforço, todo mundo poderá se compreender, e não haverá mais razão de colocar questões ou fazer objeções

Não há palavras próprias, tampouco metáforas (todas as metáforas são palavras sujas, ou as criam). Há apenas palavras inexatas para designar alguma coisa exatamente. Criemos palavras extraordinárias, com a condição de usá-las da maneira mais ordinária, e de fazer existir a entidade que elas designam do mesmo modo que o objeto mais comum. 

Hoje dispomos de novas maneiras de ler, e talvez de escrever. Há maneiras ruins e sujas. Por exemplo, tem-se a impressão de que alguns livros são escritos para a resenha que um jornalista supostamente fará, de modo que ele não precisa sequer de resenha, mas apenas de palavras vazias (é preciso ler isso!, é excelente!, vamos lá!, vocês vão ver) para evitar a leitura do livro e a confecção do artigo. 

A boa maneira para se ler hoje, porém, é a de conseguir tratar um livro como se escuta um disco, como se vê um filme ou um programa de televisão, como se recebe uma canção: qualquer tratamento do livro que reclamasse para ele um respeito especial, uma atenção de outro tipo, vem de outra época e condena definitivamente o livro. Não há questão alguma de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que lhes convêm ou não, que passam ou não passam. Pop'filosofia. Não há nada a compreender, nada a interpretar. 

Gostaria de dizer o que é um estilo. É a propriedade daqueles dos quais habitualmente se diz "eles não têm estilo...". Não é uma estrutura significante, nem uma organização refletida, nem uma inspiração espontânea, nem uma orquestração, nem uma musiquinha. É um agenciamento, um agenciamento de enunciação. Conseguir gaguejar em sua própria língua, é isso um estilo. É difícil porque é preciso que haja necessidade de tal gagueira. 

Ser gago não em sua fala, e sim ser gago da própria linguagem. Ser como um estrangeiro em sua própria língua. Traçar uma linha de fuga. Os exemplos mais surpreendentes para mim: Kafka, Beckett, Gherasim Luca, Godard. 

Gherasim Luca é um grande poeta entre os grandes: inventou uma gagueira prodigiosa, a sua. Aconteceu de ele fazer leituras públicas de seus poemas; duzentas pessoas, e, no entanto, era um acontecimento, um acontecimento que passará por essas duzentas pessoas, e que não pertence a nenhuma escola ou movimento. As coisas nunca se passam lá onde se acredita, nem pelos caminhos que se acredita. 

Sempre se pode dizer que estes exemplos são favoráveis, Kafka, judeu tcheco que escreve em alemão, Beckett, irlandês que escreve em inglês e francês, Luca, de origem romena, e mesmo Godard, suíço. E daí? Isso não é problema para nenhum deles. Devemos ser bilíngües mesmo em uma única língua, devemos ter uma língua menor no interior de nossa língua, devemos fazer de nossa própria língua um uso menor. 

O multilingüismo não é apenas a posse de vários sistemas, sendo cada um homogêneo em si mesmo; é, antes de tudo, a linha de fuga ou de variação que afeta cada sistema impedindo-o de ser homogêneo. Não falar como um irlandês ou um romeno em uma outra língua que não a sua, mas, ao contrário, falar em sua língua própria como um estrangeiro

Proust diz: "Os belos livros são escritos em uma espécie de língua estrangeira. Sob cada palavra cada um coloca seu sentido ou, ao menos, sua imagem que, no mais das vezes, é um contra-senso. Nos belos livros, porém, todos os contra-sensos são belos." (1) 

É a boa maneira de ler: todos os contra-sensos são bons, com a condição, todavia, de não consistirem em interpretações, mas concernirem ao uso do livro, de multiplicarem seu uso, de criarem ainda uma língua no interior de sua língua. 

"Os belos livros são escritos em uma espécie de língua estrangeira..." É a definição do estilo. Também, nesse caso, é uma questão de devir

As pessoas pensam sempre em um futuro majoritário (quando eu for grande, quando tiver poder...). Quando o problema é o de um devir-minoritário: não fingir, não fazer como ou imitar a criança, o louco, a mulher, o animal, o gago ou o estrangeiro, mas tornar-se tudo isso, para inventar novas forças ou novas armas

É como na vida. Há na vida uma espécie de falta de jeito, de fragilidade da saúde, de constituição fraca, de gagueira vital que é o charme de alguém. O charme, fonte de vida, como o estilo, fonte de escrever. A vida não é sua história; aqueles que não têm charme não têm vida, são como mortos. 

Só que o charme não é de modo algum a pessoa. É o que faz apreender as pessoas como combinações e chances únicas de que determinada combinação tenha sido feita. É um lance de dados necessariamente vencedor, pois afirma suficientemente o acaso, ao invés de recortar, de tornar provável ou de mutilar o acaso. Por isso, através de cada combinação frágil é uma potência de vida que se afirma, com uma força, uma obstinação, uma perseverança ímpar no ser.

É curioso como os grandes pensadores têm, a um só tempo, uma vida pessoal frágil, uma saúde bastante incerta, ao mesmo tempo que levam a vida ao estado de potência absoluta ou de "grande Saúde". Não são pessoas, mas a cifra de sua própria combinação

Charme e estilo não são boas palavras, seria preciso encontrar outras, substituí-las. É a um só tempo que o charme dá à vida uma potência não pessoal, superior aos indivíduos, e que o estilo dá à escritura um fim exterior que transborda o escrito. E é a mesma coisa: a escritura não tem um fim em si mesma, precisamente porque a vida não é algo pessoal

A escritura tem por único fim a vida, através das combinações que ela faz. Ao contrário da "neurose" onde, precisamente, a vida não pára de ser mutilada, rebaixada, personalizada, mortificada, e, a escritura, de tomar a si mesma por fim. 

Nietzsche, ao contrário do neurótico, grand vívant de saúde frágil, escreve: "Parece, às vezes, que o artista, e em particular o filósofo, não é mais do que um acaso em sua época... Assim que ele aparece, a natureza, que jamais salta, dá seu salto único, e é um salto de alegria, pois ela sente que pela primeira vez chegou ao objetivo, lá onde ela compreende que jogando com a vida e com o devir ela teve um adversário forte demais. Tal descoberta a faz se iluminar, e um doce cansaço vespertino, o que os homens chamam de charme, pousa sobre seu rosto." (2) 

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente, absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, fantasias ou projetos, mas de encontros

Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e às vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, idéias, acontecimentos, entidades. 

Todas essas coisas têm nomes próprios, mas o nome próprio não designa de modo algum uma pessoa ou um sujeito. Ele designa um efeito, um ziguezague, algo que passa ou que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial: "efeito Compton", "efeito Kelvin". 

Dizíamos a mesma coisa para os devires: não é um termo que se torna outro, mas cada um encontra o outro, um único devir que não é comum aos dois, já que eles não têm nada a ver um com o outro, mas que está entre os dois, que tem sua própria direção, um bloco de devir, uma evolução a-paralela. 

É isso a dupla captura, a vespa e a orquídea: sequer algo que estaria em um, ou alguma coisa que estaria no outro, ainda que houvesse uma troca, uma mistura, mas alguma coisa que está entre os dois, fora dos dois, e que corre em outra direção. Encontrar é achar, é capturar, é roubar, mas não há método para achar, nada além de uma longa preparação. 

Roubar é o contrário de plagiar, de copiar, de imitar ou de fazer como. A captura é sempre uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo, e é isso que faz, não algo de mútuo, mas um bloco assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias, sempre "fora" e "entre". Seria isso, pois, uma conversa

"Sim, sou um ladrão de pensamento não, por favor, um ladrão de almas: eu construí e reconstruí sobre o que está à espera pois a areia nas praias esculpe muitos castelos no que foi aberto antes de meu tempo; uma palavra, uma ária, uma história, uma linha, chaves no vento para que minha mente fuja e fornecer a meus pensamentos fechados uma corrente de ar fresco não é coisa minha, sentar e meditar perdendo e contemplando o tempo pensando pensamentos que não foram pensados pensando sonhos que não foram sonhados, idéias novas ainda não escritas, palavras novas que seguiriam a rima... e não ligo para as novas regras já que elas ainda não foram fabricadas e grito o que soa em minha cabeça sabendo que sou eu e os de minha espécie que faremos essas novas regras, e se as pessoas de amanhã tiverem realmente necessidade das regras de hoje então juntem-se todos, procuradores, generais, o mundo não passa de um tribunal, sim, mas conheço os acusados melhor que vocês e enquanto vocês se ocupam em julgá-los nós nos ocupamos em assobiar, limpamos a sala de audiência, varrendo, varrendo, escutando, escutando, piscando os olhos entre nós, atenção, atenção, sua hora há de chegar." (3) 

Orgulho e maravilha, modéstia também deste poema de Bob Dylan. Ele diz tudo. Professor, gostaria de conseguir dar uma aula como Dylan organiza uma canção, surpreendente produtor, mais que autor. E que comece como ele, de repente, com sua máscara de palhaço, com uma arte de cada detalhe arranjado e, no entanto, improvisado. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma preparação bem longa, mas nada de método nem de regras ou receitas. Núpcias, e não casais nem conjugalidade

Ter um saco onde coloco tudo o que encontro, com a condição que me coloquem também em um saco. Achar, encontrar, roubar, ao invés de regular, reconhecer e julgar. Pois reconhecer é o contrário do encontro. 

Julgar é a profissão de muita gente e não é uma boa profissão, mas é também o uso que muitos fazem da escritura. Antes ser um varredor do que um juiz. Quanto mais alguém se enganou em sua vida, mais ele dá lições; nada como um stalinista para dar lições de não-stalinismo e enunciar as "novas regras". Há toda uma raça de juízes, e a história do pensamento confunde-se com a de um tribunal; ela se vale de um tribunal da Razão pura, ou então da Fé pura... 

Por isso muitas pessoas falam com tanta facilidade em nome e no lugar dos outros, e gostam tanto das questões, sabem colocá-las e respondê-las tão bem. Há também aqueles que pedem para ser juízes, mesmo que só para serem reconhecidos culpados. Na justiça, valem-se de uma conformidade, mesmo se às regras que se inventam, a uma transcendência que se pretende revelar ou a sentimentos que os impelem. 

A justiça, a justeza são idéias ruins. A elas, opor a fórmula de Godard: não uma imagem justa, apenas uma imagem. 

É a mesma coisa em filosofia, em um filme ou em uma canção: nada de idéias justas, apenas idéias. 

Apenas idéias, é o encontro, o devir, o roubo e as núpcias, esse "entre-dois" das solidões

Quando Godard diz: gostaria de ser um escritório de produção, é claro que não quer dizer: quero produzir meus próprios filmes, ou quero editar meus próprios livros. Ele quer dizer apenas idéias, pois, quando se chega a esse ponto, se está sozinho, mas se é também como uma associação de malfeitores. Não se é mais um autor, é-se um escritório de produção, nunca se esteve mais povoado. Ser um "bando": os bandos vivem os piores perigos, reformar os juízes, tribunais, escolas, famílias e conjugalidades, mas o que há de bom em um bando, em princípio, é que cada um cuida de seu próprio negócio encontrando ao mesmo tempo os outros; cada um tira seu proveito, e que um devir se delineia, um bloco, que já não é de ninguém, mas está "entre" todo mundo, se põe em movimento como um barquinho que crianças largam e perdem e que outros roubam. 

Nas conversas na televisão "6 vezes 2", o que fizeram Godard e Mieville, senão o uso mais rico de sua solidão, servir-se dela como de um meio de encontro, fazer uma linha ou um bloco passar entre duas pessoas, produzir todos os fenômenos de dupla captura, mostrar o que é a conjunção - nem uma reunião, nem uma justaposição, mas o nascimento de uma gagueira, o traçado de uma linha quebrada que parte sempre em adjacência, uma espécie de linha de fuga ativa e criadora? E... E... E... 

Não se deve procurar se uma idéia é justa ou verdadeira. Seria preciso procurar uma idéia bem diferente, em outra parte, em outro domínio, tal que entre os dois alguma coisa se passe, que não está nem em um nem em outro. Ora, geralmente, não se encontra essa outra idéia sozinho, é preciso um acaso, ou que alguém a dê a você. Não é preciso ser sábio, saber ou conhecer determinado domínio, mas aprender isso ou aquilo em domínios bem diferentes. É melhor que o cut-up. É antes um procedimento de pick-meup, de pick-up – no dicionário = restabelecimento, negócio de ocasião, aceleração, captação de ondas; e também o sentido sexual da palavra. 

O cut-up de Burroughs é ainda um método de probabilidades, ao menos linguísticas, e não um procedimento de sorteio ou de chance única a cada vez que combina os heterogêneos. Por exemplo, tento explicar que as coisas, as pessoas, são compostas de linhas bastante diversas, e que elas não sabem, necessariamente, sobre qual linha delas mesmas elas estão, nem onde fazer passar a linha que estão traçando: em suma, há toda uma geografia nas pessoas, com linhas duras, linhas flexíveis, linhas de fuga etc

Vejo meu amigo Jean-Pierre me explicando, a propósito de outra coisa, que uma balança monetária comporta uma linha entre duas espécies de operações aparentemente simples, mas que, justamente, os economistas podem fazer com que essa linha passe em qualquer lugar, de modo que não sabem onde fazer com que ela passe. É um encontro, mas com quem? Com Jean-Pierre, com um domínio, com uma idéia, com uma palavra, com um gesto? 

Com Fanny sempre trabalhei dessa maneira. Suas idéias sempre me pegaram de surpresa, vindas de outra parte, de muito longe, de modo que nos cruzávamos ainda mais como sinais de duas lâmpadas. 

Em seu trabalho, ela se depara com poemas de Lawrence que concernem às tartarugas; eu não conhecia nada sobre as tartarugas, e, no entanto, isso muda tudo para os devires-animais, não é certo que qualquer animal seja tornado nesses devires, talvez as tartarugas ou as girafas? 

Lawrence diz: "Se sou uma girafa, e os ingleses que escrevem sobre mim cachorros bem adestrados, nada dá certo, os animais são muito diferentes. Vocês dizem que me amam, acreditem, vocês não me amam, vocês detestam, instintivamente, o animal que sou.

Nossos inimigos são cachorros. Mas o que é, precisamente, um encontro com alguém que se ama? Será um encontro com alguém, ou com animais que vêm povoá-los, ou com idéias que os invadem, com movimentos que os comovem, sons que os atravessam? E como separar tais coisas? 

Posso falar de Foucault, contar que ele me disse isso e aquilo, detalhar como o vejo. Não é nada enquanto eu não souber encontrar realmente esse conjunto de sons martelados, de gestos decisivos, de idéias em madeira seca e fogo, de atenção extrema e de fechamento súbito, de risos e sorrisos que sentimos serem "perigosos" no mesmo momento em que se sente a ternura – esse conjunto como única combinação cujo nome próprio seria Foucault

Um homem sem referências, diz François Ewald: o mais belo cumprimento... 

Jean-Pierre, o único amigo que nunca deixei e que não me deixou... E Jerôme, essa silhueta móvel, em movimento, por todo lado penetrado de vida, e cuja generosidade, amor, se alimenta em um lar secreto, Jonas... 

Em cada um de nós há como que uma ascese, em parte dirigida contra nós mesmos. Nós somos desertos, mas povoados de tribos, de faunas e floras. Passamos nosso tempo a arrumar essas tribos, a dispô-las de outro modo, a eliminar algumas delas, a fazer prosperar outras. E todos esses povoados, todas essas multidões não impedem o deserto, que é nossa própria ascese; ao contrário, elas o habitam, passam por ele, sobre ele. 

Em Guattari sempre houve uma espécie de rodeio selvagem, em parte contra ele próprio. O deserto, a experimentação sobre si mesmo é nossa única identidade, nossa única chance para todas as combinações que nos habitam

Então nos dizem: vocês não são mestres, mas são ainda mais sufocantes. Queríamos tanto uma coisa tão diferente. Fui formado por dois professores, que eu amava e admirava muito, Alquié e Hyppolite. Tudo acabou mal. Um tinha longas mãos brancas e uma gagueira da qual não sabíamos se vinha da infância, ou se estava ali para ocultar, ao contrário, o sotaque natal, e que se punha a serviço dos dualismos cartesianos. O outro tinha um rosto poderoso, com traços incompletos e ritmava com seu punho as tríades hegelianas, encaixando as palavras. 

Na época da liberação, ficávamos estranhamente encurralados na história da filosofia. Simplesmente entrávamos em Hegel, Husserl e Heidegger; nós nos precipitávamos como jovens cães em uma escolástica pior do que na Idade Média. Felizmente, havia Sartre. Sartre era nosso Fora, era realmente a corrente de ar fresco (e pouco importava saber quais eram, ao certo, suas relações com Heidegger do ponto de vista de uma história por vir). 

Dentre todas as probabilidades da Sorbonne, ele era a única combinação que nos dava força para suportar a nova reposição em ordem. E Sartre nunca deixou de ser isso, não um modelo, um método ou um exemplo, mas um pouco de ar puro, uma corrente de ar até mesmo quando vinha do Café Flore; um intelectual que mudava singularmente a situação do intelectual. 

É bobagem se perguntar se Sartre é o fim ou o começo de alguma coisa. Como todas as coisas e pessoas criadoras, ele está no meio, ele brota pelo meio

Resta que eu não sentia atração pelo existencialismo naquela época, nem pela fenomenologia, realmente não sei por que, mas já era história quando chegávamos lá, método demais, imitação, comentário e interpretação, a não ser por Sartre. 

Portanto, depois da Liberação, a história da filosofia se fechou sobre nós, sem que ao menos nos déssemos conta, sob pretexto de nos abrirmos a um futuro do pensamento que teria sido ao mesmo tempo o pensamento mais antigo

A "questão Heidegger" não me parece ser: será que ele foi um pouco nazista? (Evidentemente, evidentemente) – mas: qual foi seu papel nessa nova injeção de história da filosofia? Ninguém pode levar o pensamento muito a sério, a não ser aqueles que têm a pretensão de serem pensadores, ou filósofos de profissão. Mas isso não impede de modo algum que ela [a Filosofia] tenha seus aparelhos de poder – e que seja um efeito de seu aparelho de poder, quando ela diz às pessoas: não me levem a sério, pois penso por vocês, pois eu lhes dou uma conformidade, normas e regras, uma imagem, às quais vocês podem se submeter ainda mais ao dizer: "Isso não me interessa, não tem importância, é coisa dos filósofos e de suas teorias puras."

A história da filosofia sempre foi o agente de poder na filosofia, e mesmo no pensamento. Ela desempenhou o papel de repressor: como você quer pensar sem ter lido Platão, Descartes, Kant e Heidegger, e o livro de fulano ou sicrano sobre eles? Uma formidável escola de intimidação que fabrica especialistas do pensamento, mas que também faz com que aqueles que ficam fora se ajustem ainda mais a essa especialidade da qual zombam.

Uma imagem do pensamento, chamada filosofia, constituiu-se historicamente e impede perfeitamente as pessoas de pensarem.

A relação da filosofia com o Estado não vem somente do fato de, desde um passado recente, a maioria dos filósofos serem "professores públicos" (embora esse fato tenha tido, na França e na Alemanha, um sentido bem diferente). A relação vem de mais longe. É que o pensamento toma emprestado sua imagem propriamente filosófica do Estado como bela interioridade substancial ou subjetiva. Ela inventa um Estado propriamente espiritual, como um Estado absoluto, que não é de modo algum um sonho, já que funciona efetivamente no espírito. 

Daí a importância de noções como as de universalidade, de método, de questão e resposta, de julgamento, de reconhecimento ou de recognição, de idéias justas, sempre ter idéias justas. 

Daí a importância de temas como os de uma república dos espíritos, de uma inquirição do entendimento, de um tribunal da razão, de um puro "direito" do pensamento, com ministros da Justiça e funcionários do pensamento puro. 

A filosofia está penetrada pelo projeto de tornar-se a língua oficial de um puro Estado. O exercício do pensamento se conforma, assim, com os objetivos do Estado real, com significações dominantes como com as exigências da ordem estabelecida. 

Nietzsche disse tudo sobre esse ponto em Schopenhauer educador. O que é esmagado e denunciado como nocivo é tudo o que pertence a um pensamento sem imagem, o nomadismo, a máquina de guerra, os devires, as núpcias contra natureza, as capturas e os roubos, os entre-dois-reinos, as línguas menores ou as gagueiras na língua etc.

Certamente, outras disciplinas que não a filosofia e sua história podem desempenhar esse papel de repressor do pensamento. Pode-se até mesmo dizer, hoje, que a história da filosofia fracassou, e que "o Estado não precisa mais da sanção da filosofia". 

Amargos concorrentes, porém, já tomaram o lugar. A epistemologia substituiu a história da filosofia. O marxismo bramiu um julgamento da história ou até mesmo um tribunal do povo que são, antes de tudo, mais inquietantes que os outros. A psicanálise ocupa-se cada vez mais da função "pensamento", e não é à toa que se casa com a lingüística. São os novos aparelhos de poder no próprio pensamento, e Marx, Freud, Saussure compõem um curioso repressor de três cabeças, uma língua dominante maior. 

Interpretar, transformar, enunciar são as novas formas de idéias "justas". Até mesmo o marcador sintático de Chomsky é, antes, um marcador de poder. A lingüística triunfou ao mesmo tempo que a informação se desenvolvia como poder, e impunha sua imagem da língua e do pensamento, conforme à transmissão das palavras de ordem e à organização das redundâncias. 

Não tem realmente muito sentido se perguntar se a filosofia está morta, quando muitas outras disciplinas retomam sua função.

Não reclamamos direito algum à loucura, tanto a loucura passa pela psicanálise e pela lingüística reunidas, quanto está penetrada por idéias justas, por uma forte cultura ou por uma história sem devir, quanto ela tem seus palhaços, seus professores e seus pequenos chefes. 

Comecei, portanto, pela história da filosofia, quando ela ainda se impunha. Não via meios de me sair bem, por conta própria. Não suportava nem Descartes, os dualismos e o Cogito, nem Hegel, as tríades e o trabalho do negativo. Gostava dos autores que pareciam fazer parte da história da filosofia, mas que escapavam dela por um lado ou por todas as partes: Lucrécio, Espinoza, Hume, Nietzsche, Bergson. 

É claro que toda história da filosofia tem seu capítulo sobre o empirismo: Locke e Berkeley tem nela seu lugar, mas há em Hume, algo muito estranho que desloca completamente o empirismo e lhe dá uma potência nova, uma prática e uma teoria das relações, que continuaram em Russel e Whitehead, mas que permanecem subterrâneas ou marginais em relação às grandes classificações, até mesmo quando elas inspiram uma nova concepção da lógica e da epistemologia.

É claro, também, que Bergson foi tomado na história da filosofia à francesa; e, no entanto, há algo inassimilável nele, através do que ele foi um tremor, um realinhamento para todos os opositores, o objeto de tanto ódio, e é menos o tema da duração do que a teoria e a prática dos devires de toda espécie e multiplicidades coexistentes. 

E Espinoza, é fácil dar a ele o maior lugar na sequência do cartesianismo; só que ele transborda esse lugar por todos os lados, não há morto-vivo que levante tão forte de sua tumba e diga tão bem: não sou dos seus

Foi sobre Espinoza que trabalhei mais seriamente segundo as normas da história da filosofia, mas foi ele quem mais me fez o efeito de uma corrente de ar que o empurra pelas costas a cada vez que você o lê, de uma vassoura de bruxa que ele faz com que você monte. Não se começou sequer a compreender Espinoza, e eu tampouco. 

Todos esses pensadores têm a constituição frágil, e, no entanto, são atravessados por uma vida insuperável. Eles procedem apenas por potência positiva e de afirmação. Têm uma espécie de culto da vida (sonho em fazer uma nota à academia das ciências morais, para mostrar que o livro de Lucrécio não pode terminar com a descrição da peste, e que é uma invenção, uma falsificação dos cristãos desejosos de mostrar que um pensador maléfico deve acabar na angústia e no terror). 

Esses pensadores têm pouca relação uns com os outros – com exceção de Nietzsche e Espinoza – e, no entanto, eles se relacionam. Dir-se-ia que alguma coisa se passa entre eles, com velocidades e intensidades diferentes, que não está nem em uns nem nos outros, mas realmente no espaço ideal que já não faz parte da história, e tampouco é um diálogo de mortos, mas uma conversa interstelar, entre estrelas bem desiguais, cujos devires diferentes formam um bloco móvel que se trataria de captar, um inter-vôo, anos-luz. 

Em seguida, paguei minhas dívidas, Nietzsche e Espinoza me livraram delas. E escrevi livros mais por minha conta. Creio que o que me preocupava, de todo modo, era descrever esse exercício do pensamento, seja em um autor, seja por si mesmo, enquanto ele se opõe à imagem tradicional que a filosofia projetou, erigiu no pensamento para submetê-lo e impedi-lo de funcionar. Mas não gostaria de recomeçar estas explicações; já tentei dizer tudo isso em uma carta a um amigo, Michel Cressole, que escreveu sobre mim coisas muito gentis e maldosas

Meu encontro com Félix Guattari mudou muitas coisas. Félix já tinha um longo passado político e de trabalho psiquiátrico. Ele não era "filósofo de formação", mas tinha, por isso mesmo, um devir-filósofo, e muitos outros devires

Ele não parava. Poucas pessoas me deram a impressão de se mover a cada momento, não de mudar, mas de se mover todo por meio de um gesto que ele fazia, de uma palavra que dizia, de um som de voz, como um caleidoscópio que a cada vez faz uma nova combinação. Sempre o mesmo Félix, mas cujo nome próprio designava alguma coisa que se passava e não um sujeito

Félix era um homem de grupo, de bandos ou de tribos, e, no entanto, é um homem sozinho, deserto povoado de todos esses grupos e de todos seus amigos, de todos seus devires. 

Trabalhar a dois, muitos trabalharam, os Goncourt, Erckmann-Chatrian, o Gordo e o Magro. Mas não há regras, fórmula geral. Eu tentei em meus livros precedentes escrever um certo exercício do pensamento; mas descrevê-lo ainda não era exercer o pensamento daquele modo. (Do mesmo modo, gritar "viva o múltiplo", ainda não é fazê-lo, é preciso fazer o múltiplo. E tampouco basta dizer: "abaixo os gêneros", é preciso escrever, efetivamente, de tal maneira que não haja mais "gêneros" etc.)

Eis que, com Félix, tudo isso se tornava possível, até mesmo se fracassássemos. Éramos apenas dois, mas o que contava para nós era menos trabalhar juntos do que esse fato estranho de trabalhar entre os dois. Deixávamos de ser "autor". E esse entre-os-dois remetia a outras pessoas, diferentes tanto de um lado quanto do outro. O deserto crescia, mas povoando-se ainda mais

Não tinha nada a ver com uma escola, com processos de recognição, mas muito a ver com encontros. E todas essas histórias de devires, de núpcias contra natureza, de evolução a-paralela, de bilingüismo e de roubo de pensamentos, foi o que tive com Félix. Roubei Félix, e espero que ele tenha feito o mesmo comigo. 

Você sabe como trabalhamos; digo novamente porque me parece importante: não trabalhamos juntos, trabalhamos entre os dois

Nessas condições, a partir do momento em que há esse tipo de multiplicidade, é política, micropolítica. Como diz Félix, antes do Ser há a política. Não trabalhamos, negociamos. 

Nunca tivemos o mesmo ritmo, sempre em defasagem: o que Félix me dizia, eu compreendia e podia usá-lo seis meses mais tarde; o que eu lhe dizia, ele compreendia imediatamente, rápido demais para meu gosto, ele já estava noutra parte

Às vezes escrevemos sobre a mesma noção, e percebemos em seguida que não a apreendíamos do mesmo modo: assim "corpo sem órgãos". Ou, então, outro exemplo: Félix trabalhava sobre os buracos negros; essa noção de astronomia o fascina. O buraco negro é o que o capta e não o deixa mais sair. Como sair de um buraco negro? Como emitir do fundo de um buraco negro? pergunta-se Félix. Eu trabalhava, antes, sobre um muro branco: o que é um muro branco, uma tela, como limar o muro e fazer uma linha de fuga passar?

Não reunimos as duas noções, percebemos que cada uma tendia por si só em direção à outra, mas justamente para produzir algo que não estava nem em uma nem na outra. Pois buracos negros sobre um muro branco formam, precisamente, um rosto, rosto largo com bochechas brancas e perfurado por olhos negros, isso ainda não se parece com um rosto, é antes o agenciamento ou a máquina abstrata que vai produzir rosto.

No mesmo lance, o problema salta, política: quais são as sociedades, as civilizações que têm necessidade de fazer funcionar essa máquina, ou seja, de produzir, de "sobrecodificar" todo o corpo e a cabeça com um rosto, e com que objetivo? Não é óbvio, o rosto da amada, o rosto do chefe, a rostificação do corpo físico e social... Eis uma multiplicidade, com pelo menos três dimensões, astronômica, estética, política.

Em nenhum dos casos fazemos uso metafórico, não dizemos: são "como" buracos negros em astronomia, é "como" uma tela branca em pintura. Nós nos servimos de termos desterritorializados, ou seja, arrancados de seu domínio, para reterritorializá-los em outra noção, o "rosto", a "rostidade" como função social. 

E, pior ainda, as pessoas são continuamente jogadas nos buracos negros, dependuradas em muros brancos. É isso ser identificado, fichado, reconhecido: um computador central funcionando como buraco negro e passando sobre um muro branco sem contornos. 

Falamos literalmente. Justamente, os astrônomos têm em vista a possibilidade que, em um aglomerado globular, todo tipo de buracos negros se juntem no centro em um buraco único de massa bem grande... 

Muro branco / buraco negro, é para mim um exemplo típico da maneira como um trabalho se agencia entre nós, nem reunião, nem justaposição, mas linha quebrada que corre entre dois, proliferação, tentáculos. É isso um método de pick-up. 

Não, "método" não é uma boa palavra. Mas pick-up como procedimento é uma palavra de Fanny, que ela teme apenas que seja por demais jogo de palavra. Pick-up é uma gagueira. Ela só vale em oposição ao cut-up de Burroughs: nada de corte, nem de dobra e de rebatimento, mas multiplicações segundo dimensões crescentes. 

O pick-up ou o duplo roubo, a evolução a-paralela não se faz entre duas pessoas, ele se faz entre idéias, cada uma se desterritorializando na outra, segundo uma linha ou linhas que não estão nem em uma nem na outra, e que carregam um "bloco". 

Eu não gostaria de refletir sobre o passado. Atualmente, Félix e eu, estamos terminando um grande livro. Está quase acabado, será o último. Depois veremos. Faremos outra coisa. Gostaria, pois, de falar do que fazemos agora. Nenhuma destas idéias que não venha de Félix, do lado de Félix (buraco negro, micropolítica, desterritorialização, máquina abstrata etc.). Chegou a hora de exercer o método: você e eu, nós, podemos nos servir delas em um outro bloco ou de um outro lado, com suas idéias, de maneira a produzir alguma coisa que não é de nenhum dos dois, mas está entre 2, 3, 4... n. Já não é "x explica x, assinado x''', "Deleuze explica Deleuze, assinado o entrevistador", mas "Deleuze explica Guattari, assinado você", "x explica y assinado z". A conversa se tornaria assim uma verdadeira função. Do lado de... 

É preciso multiplicar os lados, quebrar todo círculo em prol dos polígonos.

G.D.
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Notas:

1. Proust. Contre Sainte-Beuve. Paris, Gallimard, p. 303. 
2. Nietzsche, Schopenhauer educador
3. Bob Dylan, Ecrits et dessins, Seghers.