Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Filhos de Galileu

Pálido Ponto Azul (Carl Sagan) - 10

(Continuação da obra "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan)

CAPÍTULO 10
O PRETO SAGRADO


"O céu profundo é,
de todas as impressões visuais,
a mais semelhante a um sentimento."
SAMUEL TAYLOR COLERIDGE,
CADERNO DE NOTAS (1805)

O azul de uma manhã de maio sem nuvens ou o vermelho e o laranja de um pôr-do-sol sobre o mar levaram os seres humanos ao deslumbramento, à poesia e à ciência. Não importa o lugar onde vivemos sobre a Terra, não importa qual seja a nossa língua, costumes ou política, temos um céu em comum. A maioria de nós espera esse azul-celeste e ficaria estupefata, com boas razões, se acordasse ao amanhecer e descobrisse um céu sem nuvens que Los Angeles e a Cidade do México se acostumaram a ver em tons marrons, e os de Londres e Seattle em tons cinzentos - mas mesmo eles ainda consideram o azul a norma planetária.

Entretanto, há mundos com céus pretos e amarelos, talvez até mesmo verdes. A cor do céu caracteriza o mundo. Joguem-me sobre qualquer planeta do Sistema Solar; sem sentir a gravidade, sem olhar para o solo, somente com uma rápida olhada para o Sol e o céu, acho que posso lhes dizer com bastante acerto onde estou.

Na Terra, esse tom familiar de azul, interrompido aqui e ali por nuvens - os franceses têm uma expressão, sacré-bleu!, que significa “azul sagrado”. Sem dúvida. Se houver algum dia uma verdadeira bandeira da Terra, essa deverá ser a sua cor.

Os pássaros voam no azul, as nuvens estão ali suspensas, os seres humanos o admiram e com ele convivem, a luz do Sol e das estrelas esvoaça por ele.

Mas o que é afinal? Onde termina? Qual o seu volume? De onde vem todo esse azul?

Se é um lugar-comum para todos os seres humanos, se caracteriza o nosso mundo, certamente devemos saber alguma coisa sobre ele. O que é céu?

Em agosto de 1957, pela primeira vez um ser humano elevou-se acima do azul e olhou ao redor - quando David Simons, oficial da reserva da Força Aérea e médico, tornou-se o ser humano a ir mais alto na história. Sozinho, ele pilotou um balão até uma altitude superior a 30 quilômetros e, pelas janelas de vidro grosso, vislumbrou um céu diferente. Atualmente professor da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em Irvine, o dr. Simons lembra que acima de sua cabeça havia um roxo forte e escuro: havia alcançado a região de transição, em que o azul do nível do solo está sendo invadido pelo preto perfeito do espaço.

Desde o vôo quase esquecido de Simons, pessoas de muitas nações voaram acima da atmosfera. É agora evidente, depois de repetidas experiências humanas (e robóticas) diretas, que no espaço o céu diurno é preto. O Sol brilha resplandecente sobre a nave. A Terra lá embaixo é brilhantemente iluminada, mas o céu acima é preto como a noite.

Eis a descrição memorável de Yuri Gagarin sobre o que viu no primeiro vôo espacial da espécie humana, a bordo da Vostok 1, em 12 de abril de 1961: "O céu é totalmente preto; e, contra o pano de fundo desse céu negro, as estrelas parecem um pouco mais brilhantes e mais distintas. A Terra tem um halo azul muito bonito, muito característico, que se pode divisar com clareza, quando se observa o horizonte. Há uma transição harmoniosa de cores, do azul suave para o azul, depois para o azul escuro e o violeta e, então, para a cor totalmente preta do céu. É uma transição muito bela."

Evidentemente, o céu diurno - todo esse azul - tem alguma conexão com o ar. Mas quando você olha para o outro lado da mesa na hora do café da manhã, o seu companheiro (em geral) não é azul; a cor do céu não deve ser a propriedade de um pouco de ar, mas de um grande volume de ar. Se examinada atentamente a partir do espaço, a Terra aparece rodeada por uma fina faixa azul, da espessura da atmosfera inferior; na realidade, é a atmosfera inferior.

No topo dessa faixa, é possível ver o céu azul desaparecendo gradualmente na escuridão do espaço. Essa é a zona de transição que Simons foi o primeiro a invadir e Gagarin o primeiro a observar do alto.

Num vôo espacial de rotina, começamos na parte inferior desse azul, penetramos em toda a sua extensão alguns minutos depois da decolagem, e depois entramos naquele reino sem limites em que a simples respiração é impossível sem elaborados equipamentos de vida. Para a sua própria existência, a vida humana depende desse céu azul. Temos razão em considerá-lo suave e sagrado.

Vemos o azul durante o dia porque a luz solar está ricocheteando no ar ao redor e acima de nós. Em uma noite sem nuvens, o céu é preto porque não há uma fonte de luz suficientemente intensa para ser refletida no ar.

De alguma forma, o ar prefere fazer a luz azul ricochetear até nós. Como? A luz visível do Sol chega até nós em muitas cores - violeta, azul, verde, amarelo, laranja, vermelho - que correspondem à luz de diferentes comprimentos de onda. (Um comprimento de onda é a distância de crista em crista à medida que a onda viaja pelo ar ou pelo espaço.) As ondas da luz violeta e azul têm os comprimentos mais curtos; a laranja e a vermelha, os mais longos. O que percebemos como cor é a maneira de nossos olhos e cérebro lerem os comprimentos de onda de luz. (Poderíamos com igual propriedade traduzir os comprimentos de onda da luz em, digamos, tons sonoros em vez de cores visíveis - mas não foi assim que nossos sentidos evoluíram.)

Quando todo esse arco-íris do espectro está misturado, como na luz solar, as cores parecem quase brancas. Essas ondas percorrem em oito minutos os 150 milhões de quilômetros do espaço intermediário entre o Sol e a Terra e atingem a atmosfera, que é constituída basicamente de nitrogênio e moléculas de oxigênio.

O ar reflete algumas dessas ondas de volta para o espaço. Outras ricocheteiam ao redor antes de a luz atingir o solo e poderem ser detectadas por um globo ocular passante. (Também pode acontecer que algumas ricocheteiem nas nuvens ou no solo e voltem para o espaço.) Este ricochetear das ondas de luz na atmosfera é chamado “espalhamento”.

Mas nem todas as ondas são igualmente bem espalhadas pelas moléculas de ar. Os comprimentos de onda muito mais longos que o tamanho das moléculas são menos espalhados; eles se derramam sobre as moléculas, pouco influenciados pela sua presença. Os comprimentos de onda mais próximos ao tamanho das moléculas são mais espalhadas. E as ondas têm dificuldade em ignorar obstáculos do seu tamanho. (Pode-se observar essa sua característica nas ondas espalhadas pelas estacas do cais ou nas ondas formadas numa banheira quando os pingos da torneira encontram um patinho de borracha).

Os comprimentos de onda mais curtos, aqueles que percebemos como luz violeta ou azul, são espalhados com mais eficácia que os comprimentos de onda mais longos - aqueles que percebemos como luz laranja e vermelha. Quando olhamos para cima num dia sem nuvens e admiramos o céu azul, estamos testemunhando o espalhamento de Rayleigh, em homenagem ao físico inglês que deu a primeira explicação coerente para o fenômeno.

A fumaça de cigarro é branca exatamente pela mesma razão: as partículas que a formam são quase tão pequenas quanto o comprimento de onda da luz branca. Então por que o pôr-do-sol é vermelho? O vermelho do entardecer é o que sobrou da luz solar depois que o ar dispersa o azul. Como a atmosfera é uma redoma fina de gás gravitacionalmente preso ao redor da Terra sólida, a luz solar deve passar por uma trajetória oblíqua mais longa ao entardecer (ou ao amanhecer) do que ao meio-dia. Como as ondas violeta e azuis vão ser ainda mais espalhadas durante essa longa trajetória do que quando o Sol está a pino, o que vemos ao olhar para o Sol [nesses horários] são os resíduos - as ondas de luz solar que quase não são espalhadas, especialmente as laranja e as vermelhas. Um céu azul forma um pôr-do-sol vermelho. (O Sol do meio-dia parece amarelado em parte porque emite uma luz ligeiramente mais amarela que as outras cores, em parte porque, mesmo com o Sol a pino, um ponto de luz azul se espalha dos raios solares pela atmosfera da Terra).

Comenta-se que os cientistas não são românticos, que sua paixão por entender as coisas tira a beleza e o mistério do mundo. Mas não é emocionante compreender como o mundo realmente funciona - que a luz branca é composta de cores, que a cor é a maneira pela qual percebemos os comprimentos de onda da luz, que o ar transparente reflete a luz, que ao realizar esse processo ele discrimina entre as ondas, e que o céu é azul pela mesma razão que o pôr-do-sol é vermelho? Não faz mal algum ao romance do pôr-do-sol saber um pouco a seu respeito.

Como a maioria das moléculas simples têm mais ou menos o mesmo tamanho (aproximadamente um centésimo milionésimo de centímetro), o azul do céu da Terra não depende muito da composição do ar - desde que o ar não absorva a luz. As moléculas de oxigênio e nitrogênio não absorvem a luz visível; apenas a ricocheteiam em alguma outra direção.

Mas outras moléculas podem engolir a luz. Os óxidos de nitrogênio - produzidos em motores de automóveis e nos fornos da indústria - são uma fonte da coloração marrom-escura presente na mistura de nevoeiro e fumaça. Os óxidos de nitrogênio (compostos de oxigênio e nitrogênio) absorvem a luz. Assim como o espalhamento, a absorção pode colorir o céu.

Outros mundos, outros céus: Mercúrio, a lua da Terra e a maioria dos satélites dos outros planetas são mundos pequenos; devido a suas gravidades fracas, são incapazes de reter as próprias atmosferas - que escoam para o espaço. O vácuo quase perfeito do espaço chega então até o solo. A luz solar atinge suas superfícies sem encontrar obstáculos, sem ser espalhada ou absorvida ao longo de sua trajetória. Os céus desses mundos são pretos, mesmo ao meio-dia. Até agora, isso foi testemunhado em primeira mão somente por doze seres humanos, as tripulações das Apollos 11, 12 e 14-17, que pousaram sobre a Lua.

Uma lista completa dos satélites no Sistema Solar conhecidos até a época da redação deste livro, é apresentada na tabela acima [vide original impresso]. (Quase a metade foi descoberta pelas Voyager). Todos têm céus pretos - exceto Titã de Saturno e talvez Tritão de Netuno, que são bastante grandes para terem atmosferas. E o céu é igualmente negro em todos os asteróides.

Vênus tem cerca de noventa vezes mais ar que a Terra. Mas ele não é composto principalmente de oxigênio e nitrogênio como entre nós - é dióxido de carbono. O dióxido de carbono, porém, também não absorve a luz visível. Como seria o céu visto da superfície de Vênus, se Vênus não tivesse nuvens? Com tanta atmosfera no meio do caminho, não são apenas as ondas azuis e violeta que são espalhadas, mas também todas as outras cores - verde, amarelo, laranja, vermelho. O ar, no entanto, é tão espesso que dificilmente um pouco de luz azul consegue chegar até o solo; é espalhada de volta para o espaço por sucessivos espalhamentos nas camadas superiores da atmosfera. Assim, a luz que chega por fim ao solo deve ser fortemente avermelhada - como um pôr-do-sol terrestre cobrindo todo o céu. Além disso, o enxofre nas nuvens elevadas vai manchar o céu de amarelo. Fotos tiradas pelas naves soviéticas Venera que pousaram sobre o planeta confirmam que os céus de Vênus são uma espécie de amarelo-laranja.

Marte é outra história. É um mundo menor que a Terra, com uma atmosfera muito mais rala. A pressão na superfície de Marte é, na realidade, quase a mesma daquele ponto na estratosfera da Terra atingido por Simons. Assim seria possível esperar que o céu marciano fosse preto ou roxo-preto.

A primeira fotografia colorida da superfície de Marte foi obtida em julho de 1976, pela nave norte-americana Viking 1 - a primeira nave espacial a pousar com sucesso sobre a superfície do Planeta Vermelho. Os dados digitais foram devidamente radiotransmitidos de Marte para a Terra, e a foto colorida foi montada pelo computador. Para surpresa de todos os cientistas e de ninguém mais, essa primeira imagem, liberada para a imprensa, mostrava que o céu marciano era de um azul confortável, familiar - impossível num planeta com atmosfera tão insubstancial. Algo não estava certo.

A imagem em sua televisão colorida é uma mistura de três imagens monocromas, cada uma com uma cor de luz diferente - vermelha, verde e azul. Pode-se ver esse método de composição de cor em sistemas de projeção de vídeos, em que raios de luz vermelha, verde e azul são projetados separadamente para gerar uma imagem com todas as cores (inclusive amarelo). Para conseguir a cor apropriada, o seu aparelho deve misturar ou equilibrar essas três imagens monocromas corretamente. Se você aumenta a intensidade do azul, por exemplo, a imagem vai ficar muito azul.

Qualquer imagem transmitida do espaço requer um equilíbrio especial. Às vezes, grande parte desse equilíbrio fica ao critério dos analistas de computador. Os analistas da Viking não eram astrônomos planetários e, com essa primeira foto colorida de Marte, o que eles fizeram foi simplesmente misturar as cores até que parecessem “apropriadas”. Estamos tão condicionados por nossa experiência terrestre que “apropriado” significa, é claro, um céu azul. A cor da fotografia foi logo corrigida - usando padrões de calibragem de cor colorados para este fim a bordo da nave espacial - e a composição resultante não apresentava nem sombra do céu azul; ao contrário, era uma cor entre ocre e a rosa. Não era azul, mas também não era roxo-preto. A cor entre ocre e rosa é a cor apropriada do céu marciano.

Grande parte da superfície de Marte é deserta - e vermelha porque as areias são ferrugentas. De vez em quando há violentas tempestades de areia que levantam finas partículas da superfície, transportando-as até altitudes bem elevadas da atmosfera. Eles levam muito tempo para cair e, antes que o céu esteja clareado, sempre sobrevém outra tempestade de areia. Tempestades de areia globais ou quase globais ocorrem em quase todos os anos marcianos. Como partículas ferrugentas estão sempre suspensas nesse céu, as futuras gerações de seres humanos, nascidas e vivendo em Marte, vão considerar essa cor salmão tão natural e familiar quanto é para nós o azul. Com uma rápida olhadela para o céu diurno é provável que saibam dizer quanto tempo já se passou desde a última grande tempestade de areia.

Os planetas mais afastados do Sistema Solar - Júpiter, Saturno, Urano e Netuno - são diferentes. São mundos imensos com atmosferas gigantescas, compostas principalmente de hidrogênio e hélio. Suas superfícies sólidas se encontram em tal profundidade que nenhuma luz solar penetra até o solo. Embaixo o céu é preto, sem perspectiva alguma de amanhecer. A eterna noite sem estrelas talvez seja iluminada de vez em quando por um raio.

Porém, mais no alto da atmosfera, onde a luz solar consegue penetrar, aguarda-nos um panorama muito belo. Em Júpiter, acima de uma camada de neblina de altitude elevada, composta de partículas de gelo e amônia (em vez de de água), o céu é quase preto. Mas abaixo, na região do céu azul, estão nuvens multicoloridas com vários matizes de amarelo-marrom e de composição desconhecida. (Seus possíveis materiais compreendem enxofre, fósforo e moléculas orgânicas complexas).

Ainda mais abaixo, o céu vai parecer vermelho-marrom, só que há nuvens de várias espessuras; onde elas são finas, pode-se ver um pouco de azul. Indo ainda mais fundo, retornamos gradualmente à noite perpétua.

Algo semelhante também acontece em Saturno, mas as cores nesse planeta são muito mais desbotadas. Urano e especialmente Netuno têm uma cor azul austera e misteriosa pela qual transitam as nuvens - algumas um pouco mais brancas - carregadas por ventos de alta velocidade. A luz solar atinge uma atmosfera relativamente limpa, composta principalmente de hidrogênio e hélio, mas também rica em metano. Longas trilhas de metano absorvem a luz amarela e especialmente a vermelha, deixando passar a luz azul e a verde. Uma fina neblina de hidrocarboneto retira um pouco de azul. Talvez exista uma camada da atmosfera em que o céu seja esverdeado.

O conhecimento convencional nos diz que a absorção efetuada pelo metano e o espalhamento de Rayleigh da luz solar na atmosfera profunda são a razão das cores azuis em Urano e Netuno, mas a análise dos dados da Voyager feita por Kevin Baines, da JPL, parece mostrar que essas causas são insuficientes. Aparentemente, numa camada muito profunda - talvez nas proximidades das hipotéticas nuvens de sulfeto de hidrogênio - existe abundante substância azul. Até o momento, ninguém conseguiu imaginar o que possa ser. Materiais azuis são muito raros na natureza. Como sempre acontece na ciência, os antigos mistérios são dissipados apenas para dar lugar a novos. Mais cedo ou mais tarde vamos descobrir a resposta para esse também.

Todos os mundos que possuem céus que não são pretos têm atmosfera. Se nos encontramos sobre a superfície de um mundo e existe uma atmosfera espessa o suficiente para ser visível, é provável que haja um modo de voar por ela. Estamos atualmente enviando nossos instrumentos para voar pelos céus multicoloridos de outros mundos. Algum dia iremos nós. Pára-quedas já foram usados nas atmosferas de Vênus e Marte e estão sendo planejados para Júpiter e Titã.

Em 1985, dois balões franco-soviéticos navegaram pelos céus amarelos de Vênus. Do balão Veja 1, com cerca de quatro metros de diâmetro, pendia, treze metros muito abaixo, um pacote de instrumentos. O balão se enfunou no hemisfério noturno, flutuou uns 54 quilômetros acima da superfície e transmitiu dados durante quase dois dias terrestres, antes de suas baterias falharem. Nesse ínterim, percorreu 11.600 quilômetros sobre a superfície de Vênus, em baixa altitude.

O Veja 2 possui perfil quase idêntico. A atmosfera de Vênus também foi usada para frenagem aérea ao mudar a órbita da nave espacial Magellan pela fricção com o ar denso; essa tecnologia é importante para, futuramente, converter as espaçonaves que passam por Marte em naves que entram em órbita ao redor do planeta ou nele pousam.

Uma missão a Marte liderada pela Rússia e com lançamento programado para 1998 inclui um enorme balão francês de ar quente com a aparência de uma imensa água-viva ou de uma caravela portuguesa. O balão está projetado para descer sobre a superfície marciana nos crepúsculos frios e elevar-se quando aquecido pela luz solar do dia seguinte. Os ventos são tão velozes que, se tudo sair bem, ele será carregado por centenas de quilômetros todos os dias, pulando e saltando sobre o pólo norte. Nas primeiras horas da manhã, quando estiver bem próximo do solo, obterá fotos e outros dados de resolução muito alta.

O balão tem um estabilizador de instrumentos, essencial para a sua estabilidade, concebido e projetado por uma associação privada sediada em Pasadena, Califórnia, a Sociedade Planetária. Como a pressão na superfície de Marte é quase a de uma altitude de trinta quilômetros na Terra, sabemos que podemos fazer aviões voarem por lá. O U-2 ou o Blackbird SR-71, por exemplo, rotineiramente chegam perto dessas pressões baixas. Aviões com envergaduras ainda maiores têm sido projetados para Marte.

O sonho de voar e o sonho de viajar pelo espaço são gêmeos. Concebidos por visionários similares, eles dependem de tecnologias afins e evoluem mais ou menos juntos. Quando se atingem certos limites práticos e econômicos no vôo sobre a Terra, surge a possibilidade de voar pelos céus matizados de outros mundos.

É agora quase possível atribuir combinações de cores, com base nas cores das nuvens e do céu, a todos os planetas do Sistema Solar - dos céus manchados de enxofre de Vênus e dos céus ferrugentos de Marte ao azul água-marinha de Urano ou o azul hipnótico e fantasmagórico de Netuno. Sacré-jaune, sacré-rouge, sacré-vert. Um dia, talvez, eles enfeitem as bandeiras de distantes postos humanos no Sistema Solar, na época em que as novas fronteiras se estenderem do Sol até as estrelas e os exploradores estiverem cercados pelo preto infinito do espaço. Sacré-noir.

Curso de Inglês - 17

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

3ª Jornada Contra a Homofobia, da Secretaria de Ambiente do RJ


    A 3ª Jornada Ambiente Saudável sem Homofobia visa dar continuidade ao processo de entendimento dos agentes, monitores e gestores ambientais, ampliando também para o público em geral os temas que envolvem o vínculo entre a perspectiva socioambiental e os direitos da população LGBT.

    Nesta ocasião, os temas escolhidos exaltam a importância de pensar a igualdade de direitos e o respeito à diversidade cultural na busca por um ambiente saudável.

    O Ambiente religioso e os processos territoriais elencam uma série de fenômenos necessariamente atrelados à desigualdade sexual e cultural, fazendo da sua discussão um campo fértil pra avançar na perspectiva de direitos e cidadania.

    As incrições são gratuitas. Acesse a matéria e preencha o formulário: 


    PROGRAMAÇÃO

    03 DE NOV - 14h às 17h
    Mesa de abertura:

    Carlos Portinho
    Secretário de Estado do Ambiente
    Paulo César Vieira
    Subsecretário de Políticas de Educação Ambiental da Secretaria do Ambiente
    Paulo César M. Becker
    Superintendente de Educação Ambiental da Secretaria do Ambiente
    Claudio Nascimento 
    Superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, Coordenador Estadual do Programa Rio Sem Homofobia
    Julio Moreira 
    Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT
    Aureanice de Mello Corrêa
    Coordenadora Acadêmica do Projeto Ambiente em Ação e Diretora do Instituto de Geografia da UERJ
    Ana Padilha Luciano de Oliveira
    Procuradora da República
    Renato de Freitas Souza Machado
    Procurador da República

    04 DE NOV - 14h às 17h
    Ambiente Religioso e Diversidade sexual
    Ao falar sobre respeito e diversidade no ambiente é fundamental tocar no tema das religiões como conjunto de preceitos que delimitam a convivência humana. Ainda que grande parte das instituições religiosas condene a homossexualidade e a transexualidade, novas expressões aparecem defendendo os direitos da população LGBT, inclusive o direito a uma espiritualidade consciente e respeitosa. O diálogo igualitário entre essas expressões parece fundamental para entender suas configurações e propostas.

    Mesa:
    Jandira Queiroz (mediadora)
    Pesquisadora do Political Research Associates 
    Marcio Retamero
    Escritor e Pastor da Igreja da Comunidade Metropolitana do Brasil
    Cristiana Serra
    Psicóloga e integrante do Coletivo Diversidade Católica
    Torody D'Ogum
    Iyalorisá do Ile Ase Ala Koro Wo 
    Pedro Strozemberg
    Diretor Executivo do Instituto de Estudos da Religião

    05 DE NOV - 14h às 17h
    População LGBT e Territórios
    Processos de migração, refúgio e situação de rua se veem atravessados por desigualdades de orientação sexual e identidade de gênero, deixando a população LGBT em estado de maior vulnerabilidade ao passar por esses processos. Desta forma, a configuração da exclusão territorial e a discriminação estão atreladas. Tema pouco trabalhado no contexto carioca, queremos propiciar um debate sobre esse vínculo, bem como gerar uma reflexão sobre território e cidadania a partir de uma perspectiva socioambiental.

    Mesa:
    Horacio Sívori (mediador)
    Professor adjunto do Instituto de Medicina Social da UERJ e Pesquisador do Centro Latino-americano em Sexualidade e Direitos Humanos
    Henrique Rabello de Carvalho
    Membro da Comissão de Direito Homoafetivo da Ordem dos Advogados do Brasil - RJ
    Rita Colaço 
    Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense
    Wellington Pantaleão
    Diretor de Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
    Gabriel Godoy
    Oficial de Proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados
    Ivan Ignacio Pimentel
    Doutorando em Geografia pela UERJ e Pesquisador de geografia, gênero e sexualidade


    Serviço:
    Local: Auditório do INEA 
    Av. Venezuela,110, 6º andar, Centro - Rio de Janeiro, RJ
    Horário: 14h às 17h

    Aristóteles em Nova Perspectiva (Olavo de Carvalho) - início



    Aristóteles em Nova Perspectiva:
    Introdução à Teoria dos Quatro Discursos

    - Olavo de Carvalho -

    “Quanto maior a obra pensada de um pensador
    a qual não coincide de maneira alguma
    com a extensão e o número de seus escritos,
    tanto maior, nessa obra, aquilo que foi deixado sem pensar,
    isto é, aquilo que, através dela e somente dela,
    chega a nós como jamais pensado.”
    MARTIN HEIDEGGER

    Prólogo

    INTRODUÇÃO À TEORIA DOS QUATRO DISCURSOS

    I. Os Quatro Discursos

    II. Um Modelo Aristotélico da História Cultural

    III. A Presença da Teoria Aristotélica do Discurso na História Ocidental

    IV. A Tipologia Universal dos Discursos
    1. Conceitos de base
    2. Possibilidade de uma tipologia universal dos discursos
    3. Escala das premissas
    4. Os quatro discursos

    V. Os Motivos de Credibilidade
    1. Discurso Poético
    2. Discurso Retórico
    3. Discurso Dialético
    4. Discurso Analítico

    VI. Marcos na história dos estudos aristotélicos no Ocidente

    VII. Notas para Uma Possível Conclusão

    ARISTÓTELES NO DENTISTA:
    POLÊMICA ENTRE O AUTOR E A SBPC

    I. De re aristotelica opiniones abominandæ ou: Miados de um gato morto
    1. Da bibliografia
    2. Originalmente velho
    3. Muito assunto para um livro só 
    4. As ciências introdutórias
    5. Apofântico
    6. A função da Dialética
    7. Valha-me S. Gregório!
    8. Não acerto uma
    9. Novamente a Dialética
    10. Do saber desinteressado
    11. Poética e mímese
    12. Verossímil?
    13. Tragédia e metafísica
    14. Evolução histórica
    15. Continuo não acertando uma
    16. Os Quatro Discursos no tempo
    17. Conclusão 

    II. Desafio aos usurpadores corporativistas
    III. Cartas a Ênio Candotti

    *Leituras Sugeridas
    a) Traduções mais recomendáveis dos textos de Aristóteles que interessam ao tema do presente estudo
    b) Comentários e Estudos
    c) Outras obras de interesse para o estudo dos Quatro Discursos
    ...................................

    PRÓLOGO

    Este livro é velho e é novo: reproduz o texto de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura (Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994), mas acrescido de quatro capítulos (IV, “A Tipologia Universal dos Discursos” ¹, V, “Os Motivos de Credibilidade”, VI, “Marcos na História dos Estudos Aristotélicos”, e VII, “Notas para uma Possível Conclusão”), e de um suplemento, Aristóteles no Dentista: Polêmica entre o Autor e a SBPC.

    Os capítulos acrescentados não são novos, mas inéditos: circularam, até agora, apenas como apostilas de meus cursos. Quanto ao suplemento, que circulou por um tempo num folheto que anexei a alguns exemplares de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura, mas não a todos, reúne:
    (a) o texto com que respondi à inacreditável “Avaliação crítica” que o Comitê Editorial da revista Ciência Hoje² fez de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura;
    (b) o artigo que publiquei em O Globo em resposta a dois bocós de mola (ou antes, de borla e capelo), que saíam em defesa do indefensável e aproveitavam para opinar contra uma tese que admitiam não ter lido (tratando-se portanto de um caso de telepatia crítica);
    (c) algumas das cartas que remeti ao diretor da publicação, Ênio Candotti, tentando conscientizá-lo de suas obrigações, esforço a que ele resistiu com a bravura necessária a me fazer compreender finalmente o que a velha teologia queria dizer com a expressão ignorantia invincibilis.

    Na polêmica eclodida em torno de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura entre dezembro de 1994 e fevereiro de 1995 na imprensa carioca, o mais curioso foi que meus oponentes, pródigos em opiniões sobre a pessoa de um autor que nunca tinham visto mais gordo nem viram depois da dieta, não fossem capazes de dizer uma só palavra sobre o conteúdo da tese aqui defendida, a qual certamente escapava não somente à sua compreensão como também ao seu círculo de interesses, sendo, como é, inteiramente alheia a conversas fúteis de velhas corocas. Desafiados publicamente a discuti-la, preferiram refugiar-se no terreno dos insultos pessoais, onde suas alminhas trêmulas e rancorosas se sentiam mais protegidas por ser talvez seu habitat natural.

    Mas, pela coincidência infausta ou fausta de que a essa polêmica em O Globo corresse parelha uma outra, sobre diverso assunto, pelas páginas do Jornal do Brasil, aconteceu que as duas disputas acabaram se confundindo. Não se confundiriam, é certo, se muitas cabeças supostamente intelectualizadas, neste país, não percebessem as coisas menos segundo as distinções categoriais de Aristóteles do que segundo uma pueril superposição eisensteiniana de imagens ou uma “lógica das aparências” de molde epicúreo, método em que um suíno ou galináceo pode revelar certa perícia antes mesmo de atingir a idade madura.

    E como o assunto da segunda polêmica fosse nada menos explosivo que o julgamento moral da intelligentzia, que, certo ou não, eu acusava de cumplicidade inconsciente com o banditismo carioca³, aconteceu que muitos membros da classe, sentindo-se atingidos num ponto qualquer vulnerável da sua epiderme corporativa e não sabendo ao certo de onde vinha a pancada, acharam que, por via das dúvidas, era melhor se precaverem também contra o meu inocentíssimo Aristóteles. Para o que, naturalmente, era melhor mesmo não tê-lo lido.

    O resultado foi efetivamente um imbroglio, no melhor estilo crioulo doido, em que se aliaram má consciência, vaidades classistas, picuinhas ideológicas, uma prodigiosa incultura filosófica e uma firme decisão de não entender nada, para dar combate em cerrada frente única a algo que não tinham a menor idéia do que fosse, mas no qual suas células olfativas, desconfiadíssimas como as de um capiau em Nova York, acreditavam reconhecer o vago odor de uma ameaça temível.

    Ao ver todos aqueles pintainhos correndo esbaforidos para baixo das asas protetoras da solidariedade corporativa, não pude deixar de conjeturar que, na peça que se encenava em seu cirquinho mental, me haviam atribuído o papel de raposa no galinheiro. Atribuição muito lisonjeira para a minha diminuta pessoa, mas, positivamente, maluquice. Ou talvez não: talvez pressentimento certeiro de que uma voz que fale perfeitamente a sério, com aquela sinceridade que une coração e cérebro, ethos e logos, pode estragar todo o efeito da comédia tão meticulosamente montada em que se transformou a vida intelectual brasileira, pode espantar o público e forçar a troupe de surrados palhaços a buscar outro emprego.

    Não sei, na verdade nem me interessa: o problema é deles. Meu problema, o único que no caso vinha ao caso, era saber se existe ou não uma unidade dos quatro discursos na lógica de Aristóteles e se dela podemos aproveitar alguma coisa para a nossa busca atual de um saber interdisciplinar.

    Não entendo como aqueles fulanos chegaram a imaginar que um sujeito metido até a goela numa questão encrencada como esta pudesse ter tempo ou curiosidade de saber a opinião deles sobre a sua pessoa, da qual ele mesmo não se dá o trabalho de pensar coisa alguma desde que, liberto dos conflitos egocêntricos da adolescência, descobriu existir um vasto mundo para lá do seu umbigo.

    Muito menos penso o que quer que seja a respeito dessas criaturas, cuja conduta no caso, por mais evidentemente estúpida que seja, não me dá elementos para julgar no todo suas respectivas personalidades, que não conheço e que, no sentido mais rigoroso da palavra, não são assunto. Criar opiniões sobre seus semelhantes é uma das ocupações mais ociosas a que um homem pode dedicar sua porca vida. Como dizia Henry James, masters talk about things; servants, about people.

    O Capítulo V, reprodução de uma aula do Seminário de Filosofia, ajudará o leitor a apreender a perspectiva histórica em que, na evolução dos estudos aristotélicos no mundo, se insere deliberadamente a minha investigação sobre os Quatro Discursos; e esta perspectiva, uma vez que o olhar a tenha abrangido ao menos num relance, permitirá enxergar a importância vital que o tema deste livro tem não somente para a História da Filosofia, mas para a concepção de uma cultura global e integrada, de uma educação global e integrada, nas quais se depositam hoje as melhores esperanças da humanidade.

    O contraste entre a altitude destas cogitações e a mesquinhez das reações que o livro suscitou nesta parte do mundo não me infunde nenhuma revolta, já que minha alma pecaminosa é antes inclinada à gula, à preguiça e à luxúria do que a espumar de cólera, mas sim uma tristeza sem remédio, cheia de presságios sombrios sobre o papel que este país pretende representar na História espiritual do mundo. Tristeza que disfarço rindo — rindo o riso melancólico do espectador inerme ante uma tragicomédia histórica.

    De qualquer maneira, a reprodução desses documentos no presente volume não tem só a finalidade de registrar para os pósteros uma lamentável realidade do presente. Minha resposta ao “consultor” da SBPC contém alguns desenvolvimentos importantes do argumento central, inclusive desde o ponto de vista metafísico, que propositadamente se omitira no corpo do trabalho. Se outros méritos não tem o incógnito personagem, não se lhe pode negar este, de me haver dado a ocasião de explicações que, esperando a oportunidade de receber desenvolvimentos mais minuciosos, talvez não chegassem a dar-se nunca (4).

    É preciso acrescentar ainda que nem todo mundo, no meio universitário, imita em seu modo de pensar aqueles três neurônios que, segundo as últimas contagens, existem na cabeça do diretor de Ciência Hoje, e dos quais, por medida de economia, ele desfruta em condomínio com os profs. Gilberto Velho e Carlos Henrique Escobar, não deixando nenhum para o sr. Antônio Callado (o qual os tinha em profusão, mas gastou tudo para escrever o Quarup).

    O sr. Fernando de Mello Gomide, em carta a O Globo a respeito do episódio, fez observações pertinentes sobre a incultura filosófica das nossas elites científicas. Logo depois a Universidade Católica do Salvador, BA, na pessoa do coordenador acadêmico do seu Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Prof. Dante Augusto Galeffi, tomou a iniciativa de lavar a honra da comunidade universitária brasileira, convidando-me a dar uma série de conferências sobre o tema deste livro, o que fiz em maio de 1995 (sob o título que depois adotei para o presente volume) para uma platéia das mais inteligentes e aplicadas que já vi entre estudantes brasileiros.

    Quem terminou de retirar a nódoa com que este episódio manchara a reputação do nosso establishment acadêmico foi o prof. Miguel Reale, ao aceitar uma versão abreviada deste trabalho para apresentação no V Congresso Brasileiro de Filosofia (São Paulo, setembro de 1995), onde finalmente tive a oportunidade de ouvir e responder a objeções dignas e inteligentes, apresentadas por três autênticos homens de saber: Milton Vargas, Romano Galeffi e Gaston Duval.

    Não posso aqui deixar de agradecer a todos os que me apoiaram nessa batalha, que não procurei nem rejeitei, contra a ignorância estabelecida. Evandro Carlos de Andrade abriu as páginas de O Globo para que nelas eu me defendesse, tornando menos desigual o combate que se travava entre um ilustre desconhecido e a galeria inteira dos cardeais reunidos em concílio sob as bênçãos apostólicas do papa Ennius I. Elizabeth Orsini fez a excelente reportagem que trouxe o assunto a público. Bruno Tolentino, com a veia satírica que herdou de seu antepassado Nicolau, comprou a briga, saiu em campo e tornou os figurões da SBPC objeto de riso nacional.

    E, entre os muitos que escreveram a mim e aos jornais cariocas em minha defesa, devo uma menção especial ao filólogo Daniel Brilhante de Brito. Umas semanas antes de a encrenca eclodir na imprensa, eu havia mandado um exemplar de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura a esse respeitado helenista, pedindo-lhe que inspecionasse com rigor minhas elucubrações sobre o vocabulário de Aristóteles. Fiz isso tremendo de medo, consciente de que meus conhecimentos de língua grega não estavam muito acima do nível da cultura filosófica do “avaliador” sbpecéico. Só eu sei o alívio que senti quando o mestre, em vez de me chamar a um canto para me passar um sabão, escreveu ao Jornal do Brasil para me elogiar em público, na hora mesma em que os filosofófagos procuravam me assar vivo.

    Não é necessário dizer que todo este episódio da SBPC me impressionou profundamente, mostrando-me que a inépcia das nossas classes letradas podia ser muito mais vasta do que as amostras casuais que dela me haviam chegado até então podiam ter-me levado a suspeitar. O impacto desta experiência foi, num primeiro momento, deprimente, como no caso de um professor que, tendo dado o melhor de si para explicar durante meses um determinado tópico, de repente se desse conta de que a classe não entendera absolutamente nada. A percepção da inocuidade de seus esforços pedagógicos viria aí, como veio para mim, acompanhada de um terrível sentimento de solidão, de estar numa terra estranha, rodeado de desconhecidos.

    Lembrei-me então do Diálogo da Conversão do Gentio, onde o Pe. Manoel da Nóbrega, falando de seu contentamento inicial com as primeiras conversões de índios, relata a triste decepção que sofreu em seguida, ao perceber que se haviam convertido por mero comodismo e sem captar o menor sentido na pregação que aparentemente os cristianizara. Imagino a solidão desse homem, a milhares de quilômetros de casa, ao perceber que falara para as paredes, ou melhor, não havendo paredes no Novo Mundo, para os coqueiros e tatus-bolinhas.

    Foi isso precisamente o que senti ante o parecer da SBPC: a vida intelectual no Brasil era realmente um parecer, sem nenhum ser por dentro, e eu era um idiota perfeito que me dirigira a seus protagonistas na ilusão de estar dialogando com criaturas vivas.

    Foi nesse instante que nasceu, de início obscura e indefinida, a inspiração do livro O Imbecil Coletivo, como a de uma espécie de tratamento de choque para despertar o moribundo. E hoje, quando ouço essas mesmas criaturas proclamarem que o escrevi para chamar atenção sobre mim, noto que estão ainda mais longe da realidade do que mesmo o episódio da SBPC me fez julgar que estavam; pois nem suspeitam que o escrevi unicamente para chamar sua atenção sobre si mesmas.

    Ao reeditar agora estas pacíficas especulações que deram origem a tantos combates, e ao contemplar a agitação furiosa dessas pobres criaturas que me recusam a condição de filósofo só para dar a si mesmas a ilusão de que teriam o poder de me outorgá-la, tenho vivo em mim o sentimento da ironia da situação. Lembra-me a cena do filme de Woody Allen, em que o herói sem nenhum caráter, Zellig, internado num hospício e recebendo em seu quarto a visita diária da psiquiatra, acredita ser o terapeuta que recebe a paciente em seu consultório. Não por coincidência, Zellig era, na sua universidade imaginária, catedrático de masturbação.

    Rio de Janeiro, setembro de 1996.
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    NOTA PRÉVIA À PRIMEIRA EDIÇÃO DE UMA FILOSOFIA ARISTOTÉLICA DA CULTURA

    Em formato de apostila, o primeiro dos textos que compõem este livreto vem circulando entre meus alunos desde 1993, e o segundo desde 1992. Resumem porém uma idéia que apresento em meus cursos desde 1987: a idéia de que, na filosofia de Aristóteles, a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica (Analítica), fundadas em princípios comuns, formam uma ciência única.

    E uma opinião tão contrária às tendências dominantes desde vários séculos na interpretação de um grande filósofo deveria, ao apresentar-se em público sob forma de livro, por miúdo e modesto que seja, comparecer inteira, precisa e acompanhada de uma demonstração tanto quanto possível extensiva. Não é o caso deste livreto. A idéia apresenta-se aqui em resumo compacto, sem mais escoras do que umas indicações, muito gerais, das linhas de demonstração cabíveis (5).

    Não que ela esteja ainda em germe no cérebro do autor: sua exposição completa e sua demonstração cabal já foram dadas, várias vezes, nos meus cursos, sendo gravadas em fita e transcritas em apostilas (6). Uma vida anormalmente agitada, que em nada se aproxima da imagem idealizada do pacato scholar entre seus livros, que o tema deste livro poderia sugerir ao leitor, tem-me impedido dar a esse material o formato verbal adequado e definitivo, razão pela qual tive de optar, um dia, entre publicar minha interpretação de Aristóteles em abreviatura provisória ou aguardar que algum espertinho, desses que constituem um bom terço ou quarto da nossa população letrada, tendo-a ouvido em meus cursos e conferências, ou talvez reproduzida por alguém que dela tivesse ouvido falar de longe, a apresentasse logo como sua própria e originalíssima descoberta.

    Pois não somente descobri esta coisa, mas dediquei-lhe depois alguns anos suplementares de minha vida, dando-lhe amplas aplicações práticas no domínio da pedagogia e da metodologia filosófica, que o mestre estagirita, se as visse, não as renegaria de todo, ao menos segundo me lisonjeia crer. E, sem lamber a cria, não vou no entanto entregá-la de mão beijada ao primeiro gavião que passe.

    Eis aí que, por mero resguardo de prioridade, resolvi publicar este resumo, que, se por breve é insatisfatório, não peca, segundo creio, por nenhuma imprecisão ou grave lacuna, e que ademais serve de introdução a exposições mais completas que se seguirão, com a ajuda de Deus.

    Rio, agosto de 1994.
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    Notas
    1. Distribuído em 1987, em formato de apostila, aos alunos do curso “Introdução à Vida Intelectual”. — Quanto ao capítulo II, é apenas a segunda parte do Capítulo I de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura, que achei melhor desmembrar.

    2. Da SBPC, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

    3. Refiro-me à série de artigos “Bandidos & Letrados”, que o Jornal do Brasil começou a publicar em 28 de dezembro de 1994.

    4. Refiro-me especificamente aos §§ 1, 12 e 13 do documento, cuja leitura muito ajudará o leitor a compreender o alcance de minha tese central.

    5. O presente volume vai um pouco além: exemplifica, no Capítulo IV, uma dessas linhas de demonstração.

    6. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura continha só os capítulos de I a III.