Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sábado, 28 de fevereiro de 2015

E uma criança pequena os guiará (Rubem Alves)

(Continuação da obra "O amor que acende a lua", de Rubem Alves)


E uma criança pequena os guiará 

A fotografia é simples, apenas um detalhe: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo.

Mas a imaginação não se contenta com o fragmento - completa o quadro: é um pai que passeia com seu filhinho. O pai, adulto, segura com firmeza e ternura a mãozinha da criança: a mãozinha do filho é muito pequena, termina no meio da palma da mão do pai. O pai vai conduzindo o filho, indicando o caminho, vai apontando para as coisas, mostrando como elas são interessantes, bonitas, engraçadas. O menininho vai sendo apresentado ao mundo.

É assim que as coisas acontecem: os grande ensinam, os pequenos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também, pudera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) tem um poema sobre o olhar (dele), que ele diz ser igual ao de uma criança:  
O meu olhar é nítido como um girassol. (..) 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras  
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do mundo.  

O olhar das crianças é pasmado! Vêem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes, as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Transformam-se num rebanho manso de ovelhas que atendem quando são chamadas.

Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram sabendo. Tiveram de aprender. Houve um tempo quando a mãozinha rechonchuda era a deles. Um outro, de mão grande, os conduziu.

O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém que ensinasse. Tiveram de tatear pelo desconhecido. Erraram muitas vezes. Foi assim que os caminhos e rotas foram descobertos. Já imaginaram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? Quantas pessoas tiveram de morrer de frio até que os esquimós descobrissem que era possível fabricar casas quentes com o gelo! E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milênios de experimentos, acidentes felizes, fracassos!

Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: um esfregão e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Eu gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do pau de fósforo. Na sua história há uma enormidade de experimentos e pensamentos.

Ensinar é um ato de amor. Se as gerações mais velhas não transmitissem o seu conhecimento às gerações mais novas nós ainda estaríamos na condição dos homens pré-históricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas. Assim as crianças não precisam começar da estaca zero.

Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso pensar para riscar um pau de fósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os grandes ensinam. As crianças aprendem.

Está resumido na fotografia: o de mão grande conduz o de mãozinha pequena. Esse é o sentido etimológico da palavra "pedagogo": aquele que conduz as crianças.

Educar é transmitir conhecimentos. O seu objetivo é fazer com que as crianças deixem de ser crianças. Ser criança é ignorar, nada saber, estar perdido. Toda criança está perdida no mundo. A educação existe para que chegue um momento em que ela não esteja mais perdida: a mãozinha de criança tem de se transformar em mãozona de um adulto que não precisa ser conduzido: ele se conduz, ele sabe os caminhos, ele sabe como fazer. A educação é um progressivo despedir-se da infância.

A pedagogia do meu querido amigo Paulo Freire amaldiçoava aquilo que se denomina ensino "bancário": os adultos vão "depositando" saberes na cabeça das crianças da mesma forma como depositamos dinheiro num banco. Mas me parece que é assim mesmo que acontece com os saberes fundamentais: os adultos simplesmente dizem como as coisas são, como as coisas são feitas. Sem razões e explicações.

É assim que os adultos ensinam as crianças a andar, a falar, a dar laço no cordão do sapato, a tomar banho, a descascar laranja, a nadar, a assobiar, a andar de bicicleta, a riscar o fósforo. Tentar criar "consciência crítica" para essas coisas é tolice. O adulto mostra como se faz. A criança faz do jeito como o adulto faz. Imita. Repete.

Mesmo as pedagogias mais generosas, mais cheias de amor e ternura pelas crianças, trabalham sobre esses pressupostos. Se as crianças precisam ser conduzidas é porque elas não sabem o caminho. Quando tiverem aprendido os caminhos andarão por conta própria. Serão adultos.

Todo mundo sabe que as coisas são assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os adultos. Segue-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. Diferença entre quem sabe e quem não sabe. Dizer o contrário é puro non-sense. Porque o contrário seria dizer que as crianças devem ensinar os adultos. Mas, nesse caso, as crianças teriam um saber que os adultos não têm. Se já tiveram, perderam... Mas quem levaria a sério tal hipótese?

Pois o Natal é essa absurda inversão pedagógica: os grandes aprendendo dos pequenos. Um profeta do Antigo Testamento, certamente sem entender o que escrevia - os profetas nunca sabem o que estão dizendo -, resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa: "... e uma criança pequena os guiará" (Isaías 11.6).

Se colocarmos esse moto ao pé da fotografia tudo fica ao contrário: é a criança que vai mostrando o caminho. O adulto vai sendo conduzido: olhos arregalados, bem abertos, vendo coisas que nunca viu. São as crianças que vêem as coisas - porque elas as vêem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito como são. Os adultos, de tanto vê-las, já não as vêem mais. As coisas as mais maravilhosas - ficam banais. Ser adulto é ser cego.

Os filósofos, cientistas e educadores acreditam que as coisas vão ficando cada vez mais claras à medida que o conhecimento cresce. O conhecimento é a luz que nos faz ver. Os sábios sabem o oposto: existe uma progressiva cegueira das coisas à medida que o seu conhecimento cresce.

Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la. Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez.

As crianças nos fazem ver "a eterna novidade do mundo" (Fernando Pessoa). Janucz Korczak, um dos grande educadores do nosso século - foi voluntariamente com as crianças da sua escola para a câmara de gás de um campo de concentração nazista -, deu, a um dos seus livros, o título: Quando eu voltar a ser criança. Ele sabia das coisas. Era sábio.

Lição da psicanálise: os cientistas e os filósofos vêem o lado direito. Os sábios vêem o avesso. O avesso é este: os adultos são os alunos; as crianças são os mestres. Por isso os magos, sábios, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menininho numa estrebaria...

No Natal todos os adultos rezam a reza mais sábia de todas, escrita pela Adélia: "Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande".


A Arte da Guerra (Sun Tzu) - 9

"Quando há inquietação entre os soldados, o general já perdeu sua autoridade".
 https://lh3.googleusercontent.com/-lwgJIp5TKIA/TX5MNuue06I/AAAAAAAABls/SXFoB18fMYs/s1600/resgate-soldado-ryan05.jpg 
Capítulo IV - Sobre a movimentação

Sunzi disse:

Ao estacionar seu exército frente ao inimigo, atravesse as montanhas e mantenha-se nos vales. Fique no alto, a favor da luz.

Combata na colina, não suba para atacar. Isso basta para um exército acampado nas montanhas.

Quando atravessar um rio, afaste-se logo da margem. Não lute contra o inimigo enquanto ele estiver na água; deixe metade de seu exército sair e então, ataque-o.

Não combata o inimigo perto da água. Fique a favor da luz. Permaneça num lugar elevado e acompanhe a correnteza. Isso serve para um exército na água.

Não demore para atravessar um pântano. Se o exército inimigo te atacar, fique junto à vegetação rasteira, de costas para as árvores. Isso serve para um exército no pântano.

Nos planaltos, busque espaço para manobrar, mantenha lugares altos à direita e atrás, e assim a vanguarda estará segura na parte mais baixa. Isso serve para os terrenos planos.

Por conhecer essas quatro condições básicas, o Imperador Amarelo [Fundador mítico da China] venceu os Quatro Soberanos dos Tempos Antigos.

 Um exército deve escolher lugares altos, evitar os baixos,valorizar a luz e fugir da sombra.

Deve se recompor e revigorar de modo firme. Quando não houver nenhuma doença entre as tropas, ele estará invencível.

Perto de colinas ou barragens, mantenha-as na parte de trás e à direita, ficando a favor da luz. Essa é a ajuda da terra.

Quando houver torrentes fortes nos rios, poços celestes [redemoinhos] e correntezas fortes, espere até acalmar para atravessar.

Afaste-se de vales, precipícios, becos e desfiladeiros. Não se aproxime, mas fique de frente para eles e use-os contra seus inimigos para que fiquem forçosamente posicionados de costas.

Em terrenos cheios de correntes d'água, pântanos, juncos e vegetação fechada, o cuidado deve ser redobrado e uma exploração bem feita deve ser levada a cabo. É o lugar propício para emboscadas e espionagem.

Quando o inimigo está perto, mas calmo, está forte e preparado; quando o chama para a luta de longe, está em posição favorável.

Quando árvores se mexem, é porque o inimigo está marchando. Muitas marcas na vegetação rala podem ser uma armadilha ou pista falsa.

Pássaros voando significam emboscada; animais amedrontados, que uma tropa aguarda na tocaia; poeira densa no ar, carros que se aproximam; poeira baixa, soldados marchando; fumaça indica fogueiras e acampamentos; nuvens de pó suaves significam o mesmo.

Emissários inimigos com palavras doces e humildes estão se preparando para o ataque; emissários inimigos ríspidos e agressivos estão se preparando para fugir; emissários com justificativas razoáveis pretendem negociar.

Quando o inimigo pede paz sem uma proposta ou acerto, está preparando a traição.

Quando os carros ligeiros saem em primeiro lugar e se situam nos flancos, estão formando a frente de batalha.

Quando o inimigo dispõe rapidamente seus carros em filas de combate, é que está esperando reforços.

Quando metade das forças anda de um lado para o outro, avançando e recuando, estão tentando atrair para uma armadilha.

Quando os soldados se apoiam nas armas, estão famintos. Quando os servidores de água bebem primeiro, a sede já tomou as fileiras.

Quando veem uma oportunidade, mas não a agarram, estão extenuados.

Quando as aves se juntam no acampamento inimigo, este está abandonado.

Quando há gritos no acampamento inimigo, à noite, significa medo.

Quando há inquietação entre os soldados, o general já perdeu sua autoridade.

Quando os emissários se irritam facilmente, é porque estão cansados.

Quando os estandartes se agitam constantemente, é porque estão desorganizados.

Quando comem seus cavalos, estão esfomeados; se as panelas se quebraram, estão desesperados.

Quando há muito murmúrio, ruminações e falta de disciplina, o general já perdeu a lealdade dos soldados.

Quando se distribuem recompensas abundantes, significa que estão no limite das forças.

Quando aplicam punições em demasia, que a indisciplina tomou conta da tropa.

Agir de modo violento e depois se recolher com medo da tropa é o cúmulo da inaptidão.
Emissários que chegam com palavras conciliatórias querem uma trégua.

Quando as tropas inimigas combatem com fúria, mas não atacam nem se retiram, observe-as cautelosamente.

Nos assuntos da Guerra, ter mais força não é totalmente vantajoso; evite atuar de modo agressivo.

Analise o inimigo; conquiste-o para si. Nada mais será preciso. Quem entende isso será vitorioso; quem subestima esses conselhos será capturado.

Quando as tropas são castigadas antes que sua lealdade seja conquistada, elas não obedecerão ao líder.

Quando as tropas forem leais, se nunca forem castigadas corretamente, serão insubmissas.

Trate-os com cortesia, e incuta neles o ardor marcial. A vitória estará garantida.

Quando as ordens dadas são claras e visam à instrução dos soldados, a tropa será obediente.

Quando as ordens dadas forem confusas, sem um sentido apropriado, a tropa será desobediente.

Quando as ordens são confiáveis e justas elas serão cumpridas, estando o líder e a tropa em comum acordo.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Refutando argumentos de apoio ao aborto


por Matt Slick
Tradução: Emerson de Oliveira
  1. A vida no útero não é humana, porque não está totalmente desenvolvida.
    1. Isto ignora o facto da natureza da vida humana. Ela tem DNA humano e está viva. Como a sua natureza não pode ser humana, se ela está viva e tem o DNA humano?
    2. Isto afirma uma falsa premissa de que alguém não é humano até que ele /ela esteja totalmente desenvolvido.
      1. No quê se constitui o desenvolvimento integral? Uma hora antes do nascimento ou uma hora depois? Existe realmente uma diferença?
    3. Isto é dizer que o valor da humanidade é baseado em desenvolvimento.
      1. Até que ponto a vida (que é humana por natureza) de repente desenvolve valor?
      2. Se o valor é dependente da escolha da mãe, como é possível que a escolha da mãe altere a natureza da vida sem valor para o valioso, uma vez que não existe qualquer alteração no estado da vida no ventre?
    4. Mas a sua natureza é humana ou algo mais?
      1. Se ele não é de natureza humana, então o que é?
      2. Se é de natureza humana, então o que dá a alguém o direito de matá-lo?
    5. Se sua natureza é outra coisa, quando será a mudança para humano? Quando é que a natureza não-humana se desenvolve em natureza humana?
      1. Isto é importante, uma vez que não gostaria de acidentalmente matar uma vida que se tornou humana em algum ponto.
      2. Se você não pode determinar em que ponto a vida torna-se humana, então você deveria se arriscar, já que pode muito bem ser humano?
    6. Em que ponto é que se torna humano, e por quais critérios você faze este julgamento?
      1. Se você não pode decidir quando, então corre o risco de matar uma pessoa.
      2. Se você diz que a vida se torna humana ao nascer, então o que no processo de nascimento muda a natureza da vida de não-humana para humano?
  2. O tecido humano produzido na mulher é propriedade de quem o produz.
    1. Mas se o que está a crescer no útero é uma pessoa, não pode ser uma propriedade.
    2. A vida no útero é uma propriedade como um gato ou um cão?
    3. Quando é que a criança para de ser propriedade da mãe? Ao nascer? Em um ano de idade? Dois? Dez? Vinte?
      1. Os animais são propriedade, não pessoas – a menos que você queira reintroduzir a escravidão.
    4. Se o tecido não é humano, mas apenas como um órgão interno, ele pertence àquele em quem habita.
      1. Um órgão interno é feito para ser um órgão interno, e não uma pessoa. A vida no útero é feita para ser uma pessoa. Eles são diferentes por design e natureza, de modo que a alegação de que é propriedade da mãe é inválida.
      2. Eles são de natureza diferente porque um órgão interno não tem a capacidade de se tornar um humano.
      3. Um órgão interno não é a totalidade de uma pessoa, nem a totalidade ou a essência do que faz alguém ser humano.
      4. Mas um humano tem a capacidade de produzir um órgão.
        1. Por isso, ser humano abrange o seu próprio corpo, mas não é definido por ele.
  3. A vida no útero é realmente parte da mulher, e a mulher tem o direito de fazer o que ela quer com seu corpo.
    1. Se é parte da mulher, então a mulher tem quatro braços, quatro pernas, duas cabeças e quatro olhos? É isso o que é um ser humano?
    2. É parte da mulher apenas no sentido de que a vida está vivendo e crescendo dentro da mãe.
      1. Seu corpo está alimentando a vida. O corpo é separado da vida crescendo dentro dela.
      2. A vida crescendo no útero pode ter um tipo de sangue diferente do que a mãe, e tem ondas cerebrais separadas. É, portanto, uma vida independente com o seu próprio DNA humano, a sua natureza é humana, e a sua vida é separada da da mãe.
    3. As pessoas são livres para fazer o que quiserem dentro dos limites da lei. Por exemplo, a lei diz que as pessoas não têm o direito de tomar as drogas ilegais em seus corpos.
      1. Embora o aborto é legal em alguns países, isso não significa que ele está certo. A escravidão era legal, mas isso não a tornava certa.
  4. No aborto, ninguém é ferido já que o feto não é uma pessoa.
    1. Isto é simplesmente implorar a questão, ou uma petição de princípio. Você assume que não é humano, mesmo que ele esteja vivo e tem DNA humano, e então julga que ele não é uma pessoa.
    2. Você deve definir o que torna uma pessoa antes de tentar fazer tal afirmação.
      1. Uma pessoa é limitada a atributos de pensamento, andar, ter consciência, etc, ou é ontológica, isto é, é um problema da natureza e da essência da vida?
      2. Uma pessoa ainda é uma pessoa, mesmo que ela não possa pensar, andar, ou ser auto-consciente, como alguém em coma.
      3. A pessoalidade não é definida só pela função, mas também pela sua essência e natureza. Separar as duas, função e essência, é impropriamente definir o que é uma pessoa.
    3. Dizer que o feto não é uma pessoa não faz assim.
    4. O feto tem a natureza de um ser humano e é ferido por matar.
    5. Isso quer dizer que a mãe não deve ter sentimentos sobre a vida que foi removidado seu ventre? Se não é uma pessoa, então não deve haver absolutamente nenhuma culpa em matar a vida no útero, correto?
      1. Se você afirmar que não há culpa, então por que tantas mulheres têm o sentimento de culpa após um aborto?
      2. O aborto realmente deixa a mulher sem ferimentos? Inúmeras mulheres são psicologicamente prejudicadas quando matam a criança em seu ventre.
  5. O estupro é uma condição que justifica o aborto.
    1. O estupro é horrível, mas por que a criança no ventre tem que  pagar pelos pecados (ato errado) de outro? O bebê é inocente do crime, e sua vida não precisa ser tomada por causa do ato de outro. Fazer isso é injusto.
    2. Se o que está no útero é humano, então, matá-lo por causa do ato de outro seria errado.
  6. Restringir o direito da mulher de escolher é negar seus direitos como mulher.
    1. Esta é uma razão autocentrada que ignora:
      1. A vida no útero é humana por natureza.
      2. A mulher tem a responsabilidade de proteger e guardar a vida.
      3. Isto coloca os interesses pessoais da mulher e conforto acima do valor da vida do bebê.
      4. A proibição de abortar não é negar direitos de uma mulher mais do que não ter o direito de assassinar, roubar ou mentir.
      5. Direitos vêm com responsabilidades. Escolher matar outro é uma grande responsabilidade que precisa ser levada a sério. É por isso que temos julgamentos.
  7. Há muitas pessoas no mundo.
    1. Desde quando o valor da vida humana depende de quantas pessoas existem? Além disso, se o número de pessoas é o problema, talvez elas deveriam começar a se livrar dos doentes e velhos. Talvez elas devem se livrar dos que não são inteligentes ou bem formados. Onde isso vai parar?
  8. O aborto é legal e, portanto, está tudo certo.
    1. A escravidão era legal há 150 anos, mas  isso não a tornava correta.
    2. Só porque algo é legal não faz isso correto.
  9. Nós não sabemos exatamente quando o feto se torna humano no ventre, de modo que podemos abortá-lo.
    1. Se você não sabe quando ele se torna humano, então você se arrisca a matar um ser humano.
    2. Se há 500 comprimidos em uma mesa e um deles fosse um veneno mortal, você aleatoriamente tomaria um dos comprimidos e o ingeriria? Por que não? Afinal, você não sabe qual é o venenoso para que você possa aproveitar a oportunidade e não se preocupar com isso, certo? Da mesma forma, se há uma chance de que a vida é humana, você deve correr o risco de matá-la?                                                                                                                                                                                        (Fonte: Logos Apologética)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O problema da coexistência do ser criado na presença do Ser incriado (Cardeal Journet)

(Nota aos colegas deístas: reproduzimos abaixo um belo texto  - uma meditação metafísica - escrito, em meados do século passado, por um Cardeal católico bastante reconhecido em sua área como um competente teólogo. Muito embora ele use uma citação bíblica para introduzir seu assunto, no restante do texto ele se concentra em simples reflexões filosóficas, tiradas da metafísica, e, portanto, puramente racionais, independentes do recurso a qualquer "revelação". Podemos, pois, como deístas, aceitá-las tranquilamente e utilizá-las na ilustração de nosso espírito. [E aproveitem mesmo: não é todo dia que um Cardeal romano escreve um texto coincidindo com o que os deístas defendemos!] Rodrigo.) 




O problema da coexistência do ser criado
na presença do Ser incriado


Cardeal Charles JOURNET
(1959)


"É porque Deus é tão diferente do mundo,
tão distante do mundo,
que Ele pode ser tão próximo do mundo,
tão interior ao mundo.
É porque Deus está tão fora do mundo,
que Ele pode estar tão dentro do mundo.
O paradoxo da presença de criação
é ela poder ser, a uma só vez,
presença infinita
e ausência infinita"
(Cardeal Journet)


O Espírito de Deus movia-se sobre as águas (Gn 1, 2).

Pagãos como Celso e Juliano, o Apóstata, lançavam em face dos cristãos a grosseria do relato da criação. Vê-se ali Deus criar o céu e a terra. Céu é o firmamento onde estão as estrelas. Nada se diz da criação dos seres de natureza espiritual, dos anjos [os quais já a pura luz natural da razão reconhece como perfeitamente possíveis]. Como responder a essa questão dos pagãos?

Exegetas dirão que a Bíblia é uma história da humanidade, mais precisamente uma história da eleição de Israel. Tudo ali aparece em função desse grande tema. O universo, com o sol e a lua, é o lugar de habitação do homem, o sítio onde ele está colocado; a inteligência tentadora da Serpente explica a queda, a força do Querubim guarda o paraíso terrestre, mas é ao homem que é feita a promessa da Redenção. Essa resposta dos exegetas é verdadeira. No entanto, pode-se dar à questão colocada pelos pagãos uma resposta em profundidade, muito mais misteriosa.

Dir-se-á que, ao narrar-nos a criação do mundo visível, do mundo material, a Bíblia quis propor de imediato à nossa inteligência, da maneira mais contrastante possível, mais brutal possível, o problema do ser criado.

A existência do ser criado é como que um escândalo para a nossa inteligência. É como que um à parte de Deus, e não há à parte de Deus, apêndice de Deus. É como um exterior a Deus, e não há exterior a Deus. É algo que não é Deus, que de início não era, mas que uma vez [no caso do homem] tenha aparecido durará para sempre, permanecerá para sempre distinto de Deus, e que, no entanto, não pode ser senão em Deus.

Em se tratando do ser espiritual, o escândalo fica como que atenuado. O ser espiritual é aparentado ao Espírito. É permeável pelo Espírito. Compreende-se melhor que ele esteja no Espírito, em Deus; que ele não esteja fora de Deus.

Mas o ser material é pesado, opaco. Parece por natureza impermeável ao Espírito. É fechado e encerrado, está prisioneiro de um lugar no espaço; enquanto que o Espírito é livre, ignora todos os limites de lugar. Dizer que Deus criou um mundo material é dizer que Ele criou diretamente aquilo que Lhe é mais estranho, mais contrário, mais oposto. A Bíblia dirige sem demora a nossa atenção para isso. Ela não tenta nos fazer passar por uma série infinita de degradações, de Deus aos espíritos, a seguir aos arquétipos das coisas, depois às coisas visíveis mesmas. É desse jeito que procederia um filósofo [de orientação platônica]. A Bíblia faz contrastarem diretamente o Espírito infinito e a matéria. Ela põe o problema do ser criado, da coexistência do ser criado na presença do Ser incriado, naquilo que tem de mais paradoxal, de mais chocante, de mais escandaloso. Ela faz mesmo questão de deixar transparecer um carinho do Espírito pela matéria: “O Espírito de Deus movia-se sobre as águas”.

Como é possível que Deus e o mundo coexistam? Se Deus é tudo, nada há fora d’Ele; então, onde encontrar espaço para o mundo? Se digo, pelo contrário, que o mundo existe, há algo que não é Deus; aí então, Deus não é tudo, o que equivale a dizer que Deus não é Deus. Eis aí o escândalo da coexistência entre Deus e o mundo.

Todos os homens percebem-no, ao menos obscuramente. A inteligência não pode viver na presença de um escândalo. É preciso que ela tente reduzi-lo, reabsorvê-lo. Os homens inventaram, para isso, três tipos de respostas.

Uma é o ateísmo. Não há nada além do mundo, do mundo material. Deus é pura ilusão. Há que admitir o mundo tal como ele é, de olhos fechados. Não se deve colocar questões de saber se é possível que o ser limitado, que o ser material tenha chegado por si só à existência, ou se é possível que uma vez posto na existência ele possa, por mais imperfeito que seja, subsistir por si só, sem depender de nada. Metafisicamente, é preciso virar cego; aí então, o ateísmo é uma solução. Moralmente, sucede um curioso fenômeno. O homem, sendo criatura, é feito para adorar; e, quanto mais humano, mais profundamente tem necessidade de adorar. Se ele se cega a respeito de Deus, lhe é necessário adorar ao mundo, ou a si mesmo, ou a mitos, qualquer coisa, enfim, que não seja Deus, e isso é causa de todas as catástrofes.

O ateísmo não é a primeira “solução” em que o homem tenha pensado. Em estado esporádico, ele é sem dúvida de todos os tempos. Mas em estado de corrente coletiva, de mito cultural, é recentíssimo. A Índia, povo de metafísicos, cogitara buscar a solução numa direção inteiramente contrária. A última resposta de Shankara é que é um erro crer na dualidade de mundo e Deus. Mas é o mundo, e principalmente a matéria, que é sonhado, ilusão, maya. Mais exatamente, mas só para o sábio, o mundo acaba não sendo mais nem sequer um sonho, uma ilusão; ele se dissipa. Nada mais resta que Brahma, o Absoluto. Nem por um instante o pensamento vedantino sequer cogita duvidar de Deus, mas não cessa jamais de duvidar do mundo. Sua tentação nunca é o ateísmo, ela é constantemente o acosmismo.

Entre essas duas soluções absurdas, desesperadas, há uma terceira que não resolve nada. Ela não quer negar o mundo. Não quer negar a Deus, tampouco. Ela coloca Deus diante do mundo, diante da matéria principalmente, como perante um fato consumado. Ele não tem nada a ver com isso. É uma fatalidade. Não lhe resta senão tirar daí o melhor partido possível. Deus é o Demiurgo, o Operário, o Organizador do mundo [o Grande Arquiteto do Universo...]. Ele não é seu Criador.

É a solução grega. Na Índia encontra-se solução semelhante, mas menos brutal. Para Ramanuja, o universo não é exterior a Deus; vem de Deus, emana de Deus, é o corpo cósmico de Deus, onde Deus exprime a superabundância interior do Seu ser. Porém, pensa esse sábio, há necessidade para Deus de criar assim para Si um corpo cósmico. Ele instala no próprio Deus uma necessidade de produzir o mundo, logo uma dependência em relação ao mundo. Também ele, portanto, se vê afinal na necessidade de diminuir Deus para dar lugar ao mundo. De tanto que é difícil, nesse problema da coexistência do criado e do Incriado, tocar a verdade tão alta, e todavia tão simples.

* * *

Qual é a verdade? Deus existe? Sim! O mundo existe? Sim! São distintos um do outro? Sim! Logo, dividem o ser entre si?; logo há concorrência entre eles? Não! É justamente esse o erro, o pior erro!

Para dar um verdadeiro lugar ao mundo, é loucura querer suprimir Deus, ou diminuir Deus, ou tirar do ser de Deus. E, para dar todo o lugar a Deus, seria outro tipo de delírio querer suprimir o mundo, considerá-lo como um sonho, uma alucinação: nós sabemos muito bem que o mundo é real, que o nosso sofrimento é real, que os nossos lutos são reais, que eles dilaceram realmente o nosso coração, que o sangue dos homens ensanguenta uma terra real.

Toda a verdade cristã [e - por que não? - deísta também] é justamente descobrir que Deus é demasiado diferente do mundo para que o mundo possa entrar em concorrência com Ele. Deus é, e o mundo é: mas eles não são de igual maneira; eles são, pelo contrário, de maneira essencialmente diferente. O significado da palavra ser, ao passar do mundo para Deus, ou de Deus para o mundo, fica inteiramente transposto. É preciso dizer: o ser do mundo está para o finito assim como o ser de Deus está para o infinito. É preciso dizer, é preciso pensar, sobretudo, com o IV Concílio do Latrão, “que do Criador à criatura, a semelhança nunca chega a ser tal, que a dissemelhança não seja ainda maior” [Denz., nº. 432].

O Ser de Deus é um abismo, uma vertigem para o pensamento; é justamente por isso que Ele não entra em concorrência com o ser do mundo. Todos os outros seres, que estão no patamar do finito, dividem o ser entre eles, um tendo isto, outro aquilo; eles se limitam mutuamente, entram em concorrência uns com os outros. Mas o Ser de Deus é Abismo: justamente não está no patamar do finito, justamente não sofre concorrência dos outros seres. Procura-se um exemplo? Mas não há nenhum! Deus, precisamente, é um caso único! Não há, quando muito, senão imagens. Eis aqui uma, ela é bem pobre. O som não é incomodado pela luz, ele não precisa eliminar a luz para ocupar todo o lugar, ele penetra a luz, ele a torna inteiramente sonora. Assim Deus, para ocupar todo o lugar, não tem necessidade de eliminar o mundo: o ser do mundo é completamente incapaz de incomodá-Lo; o Ser de Deus embebe o ser do mundo, penetra-o; cria-o, sustenta-o, conserva-o, move-o; tange no coração mesmo do mundo como o som no coração das luzes, sem que Sua total liberdade, sem que Sua total pureza seja afetada em nada por ele. Que o mundo seja ou não seja, Deus não é perturbado em nada, mudado em nada, em nada acrescido nem diminuído; mas se o mundo é, é em Deus que ele será, viverá, mover-se-á; e, no coração mesmo do mundo, para que ele possa ser, viver e mover-se, será preciso que Deus esteja escondido.

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Caso cessemos por um instante de formar ideia tão sublime e tão vertiginosa do Ser de Deus, caso deixemos um instante de concebê-Lo como essencialmente diferente do ser finito, o que acontecerá?

Imediatamente o Ser de Deus cairá ao nível em que Ele encontrará o ser finito, em que Ele entrará em competição com o ser finito. Eis que eles serão rivais, dividirão entre si e disputarão um com o outro o âmbito do ser; o que a um for dado, do outro será tirado, e reciprocamente.

Aí então, fica-se enredado nas dificuldades que nós assinalamos. Ou defendemos o ser do mundo; e, dado que Deus pretende tudo invadir, vamos muito simplesmente negar Deus: é o ateísmo. Ou então defendemos Deus, damos todo o ser a Deus, e vemos o mundo esvanecer como um sonho: é o acosmismo.

Ou ainda, por fim, procuramos dar a parte de Deus e a parte do mundo. Colocamos ponta com ponta o ser de Deus e o ser do mundo, a fim de recompor o ser total. Há maneiras grosseiras de o fazer e outras que são mais sutis. Há o panteísmo de Spinoza ou Schelling ou Hegel, em que o mundo aparece como um enriquecimento, um desenvolvimento, uma atualização de Deus. Há o dualismo grego, em que o Demiurgo e a matéria se defrontam desde sempre. Há a tese de Ramanuja, em que Deus cria o mundo, que não Lhe contribui nada, que não é senão como que um espelho no qual Ele Se reflete (e isso é exato); mas Deus está obrigado a criar esse espelho: se não o criasse, n’Ele haveria algo de inactuado, um vazio, uma carência (e isso é inexato).

Mas um Deus que não é todo o ser, um Deus que possa aumentar, Se atualizar, talvez seja um deus, mas não é Deus. Uma vez que se tenha aceito de partilhar o âmbito do ser entre Deus e o mundo, de dar a parte de Deus e a do mundo, não restam logicamente senão duas saídas, todas duas absurdas: o ateísmo, ou o acosmismo.

A questão que deve ser colocada aqui — é uma questão de princípio, uma questão que orienta ou desvia todo o pensamento — é a seguinte: Deus + mundo = mais do que Deus só? Ou então, Deus sozinho não é mais nem menos do que Deus + o mundo?

Se eu não tiver compreendido o mistério único do Ser de Deus, se em meu pensamento rebaixei o Ser de Deus ao plano do ser finito, aí então serei levado necessariamente a adicionar o Ser de Deus e o ser finito, como se somam duas quantidades. Um milímetro + um quilômetro, isso resulta em mais do que um quilômetro só. Deus + o mundo, isso resulta em mais do que Deus só.

Mas, se entrevi o mistério do Ser de Deus, sei que Ele é qualitativamente diferente do ser finito; que Ele, com relação ao ser finito, não está no mesmo plano, não é unívoco, mas de um outro plano, somente análogo ou proporcional — aí então, é-me impossível somá-los. Somar o róseo ao vermelho não é torná-lo mais vermelho; somar a ciência do aluno à do mestre não é torná-la mais intensa: ao final de uma lição, há deveras numa sala de aula mais “cientes”, não, porém, mais ciência, maior intensidade de ciência. Deus mais o mundo é igual a mais seres, mas não é igual a mais Ser.

Tudo está aí. Porventura Deus é, para vocês, um ídolo, um ser maior e mais belo, lado a lado de seres menores e mais débeis? Ou Ele é para vocês o único Adorável, o Abismo insondável onde o pensamento de vocês não dá pé, afunda e se afoga? O altitudo divitiarum et sapientiae et scientiae Dei!

* * *

Tocamos aqui num primeiro e maravilhoso paradoxo. É porque Deus é assim vertiginosamente diferente do mundo, que por isso o Ser d’Ele não pode ser somado ao ser do mundo, nem entrar de maneira alguma em concorrência, em competição, em rivalidade com o ser do mundo. Então, Deus pode ocupar exatamente o mesmo lugar que o mundo ocupa, sem de modo algum eliminar o mundo. Noutras palavras, é porque Deus é tão diferente do mundo, tão distinto do mundo, tão distante do mundo, que Ele pode ser tão maravilhosamente próximo do mundo, tão íntimo ao mundo, tão interior ao mundo. É porque Deus está tão fora do mundo, que Ele pode estar tão dentro do mundo. É porque Ele é absolutamente transcendente ao mundo, que Ele pode ser absolutamente imanente ao mundo.

É uma grande vaidade, é uma grande loucura dar a escolher entre um Deus transcendente ao mundo ou um Deus imanente ao mundo. A transcendência e a imanência são as duas faces de um único mistério, o da coexistência do Ser infinito no ser finito, e também, da Ação infinita na ação finita. Quando se entreviu esse mistério, vê-se que é preciso tudo escolher de uma vez: transcendência e imanência. Quem separa a transcendência da imanência, para escolher uma ou outra, não apreendeu nem o que é uma nem o que é a outra. Não divisou ainda que é necessário elevar-se bem alto acima da superfície de um lago, para ver a sua profundidade.

Quanto mais uma coisa é superficial, mais ela age na superfície das outras coisas; e, quanto mais uma coisa tem valor, mais age em profundidade nas outras coisas. Há pessoas cuja conversação, cuja presença mesma cansa; há pessoas cuja conversa, cujo próprio silêncio alimenta. É a mesma coisa com livros. Um jornal, uma revista, enfadam; a leitura de Antígona ou Ifigênia, ou de algumas estrofes da Divina Comédia, apazigua.

Comparada à Ação de Deus, a ação dos homens é sempre superficial. Mesmos os maiores dentre os homens, aquele que esculpiu a vitória alada da Samotrácia ou o que construiu a cúpula de Santa Maria del Fiore, agem somente na superfície das coisas: eles dão à pedra o ser assim ou assado, não lhe dão o ser pedra; principalmente, não lhe dão o ser. Nós podemos modificar as coisas, dar a elas o serem estas ou aquelas; não lhes podemos dar o ser pura e simplesmente. Estamos perto demais delas, somos semelhantes demais a elas. Nós somos incapazes de aniquilar ou de criar a menor parcela de ser. Nada mais fazemos do que transformar as coisas. Nesse sentido, a nossa ação passeia pela superfície das coisas.

Mas Deus eleva-Se por sobre as coisas. A profundeza das Suas riquezas é infinita. O altitudo, ou seja, o profunditas, divitiarum Dei. Ele pode tocar o que há de mais profundo nas criaturas, Ele dá a elas o serem, o existirem. Não estivesse Ele assim secretamente, maravilhosamente presente, por Sua ação, no coração do mundo, no coração deste grão de areia, para lhe dar o seu ser de base, este fundo último pelo qual ele é, o mundo, este grão de areia, recairia imediatamente, não digamos no lixo, seria ainda dizer muito, digamos: no nada. A conservação dos seres é uma criação continuada. Esse pensamento de Santo Tomás significa que a mesma virtude todo-poderosa, que foi necessária para fazer o mundo emergir para fora do nada, é sem cessar exigida para sustentá-lo acima do nada. Um só instante de esquecimento em Deus, uma única distração em Deus e, ato contínuo, o universo desabaria no nada. Prodigiosa presença de Deus pela Sua ação no coração mesmo da coisa mais ínfima.

Mas a Ação de Deus é Deus. O Agir de Deus, realmente, é idêntico ao Existir de Deus. Eis então que o Existir de Deus, simples, indivisível, está todo inteiro no mundo, todo inteiro está num grão de areia. Não como aprisionado neles! Ele está neles como deles transbordando por todos os lados, como não atingido por eles, como não embaciado por eles, como soando através deles com infinita liberdade, infinita sutileza, infinita transcendência. Deus está inteiramente no mundo, Ele está por inteiro neste grão de areia, não como neles contido, mas como contendo-os, mantendo-os unidos (con-tinere), como o bem mais interior deles, a força de concentração mais íntima deles, à qual devem eles tudo o que são, sem a qual eles se dissipariam imediatamente no nada. Ele está neles, sem dúvida que não como idêntico a eles ou como imerso neles, mas como Causa infinitamente perfeita de efeitos infinitamente imperfeitos; infinitamente distinta deles e, ao mesmo tempo, a eles interior; a Sua transcendência é inimaginável, e também a Sua imanência.

Chardon disse bem essas coisas:

Esta presença de Deus incessantemente tira a criatura do nada, acima do qual a Sua onipotência mantém-na suspensa, de medo que, pelo próprio peso dela, a criatura não recaia no nada. E ao mesmo tempo que, por uma efusão contínua, ela lhe é causa do ser, da vida e da operação — não por uma virtude que se afaste de seu princípio, mas sempre unida ao seu manancial —, ela lhe serve como de cimento, de meio de ligação para que tudo o que ela recebe do Criador não se dissipe e não derrame como água que não é contida no canal, e para que o universo não perca a harmonia deslumbrante e essa excelente relação que constitui uma beleza — na ordem das obras da Providência — digna da sabedoria de seu Operário.” [La Croix de Jésus, p. 388.]

Como deve ser chamada esta presença de Deus no coração do mundo? Os teólogos se utilizam de uma palavra técnica. Eles dizem que é uma presença de imensidade. As coisas são todas mensuradas; elas têm medidas quantitativas, e uma não está onde a outra está; elas têm principalmente medidas qualitativas: e uma não é o que a outra é, o som não é cor nem perfume. É porque elas dividem entre si o ser no interior dos limites delas que elas entram em concorrência, em oposição umas com as outras. É porque elas são limitadas que elas não podem coexistir, permanecendo sempre alheias umas às outras. Mas, justamente, Deus não é limitado, Ele é sem medidas, o que significa literalmente imenso. Ele é sem medidas comuns com as coisas, e é por isso que Ele não entra em concorrência com elas, Ele as envolve todas, permeia a todas.

Como se vê, é necessário atribuir à palavra imenso, ou ao termo presença de imensidade, um sentido técnico. Senão, nos extraviaremos. Santo Agostinho narra como ele próprio se enganou por muito tempo, querendo encontrar Deus em imagens e não sabendo ainda que Ele não se encontra senão em uma noite que está acima das imagens. “E a Vós também, ó meu Deus, Vida da minha vida, eu Vos imaginava como um ser imenso, penetrando por toda parte, através dos espaços infinitos, toda a massa do universo e, para além do universo, alastrando-Vos sem limites pelo infinito, de maneira que a terra, o céu e todas as coisas Vos contivessem, encontrando em Vós o limite delas enquanto que Vós não o encontraríeis em parte alguma… Mas eu estava no erro. Pois se assim fosse, uma parte maior da terra teria contido uma parte maior de Vós… o corpo de um elefante teria encerrado mais de Vós do que o corpo de um passarinho” [Confissões, livro 7, cap. 1, nº. 2.].

Com efeito, como escreverá Chardon, Deus está por toda parte “não por partes, como poderíamos imaginar um corpo imenso, que se estendesse por todos os espaços… Ele está por toda parte de tal maneira que Ele não possui maior bondade e maior beleza, não tem maior liberdade e maior poder, mais alegrias e mais perfeições no mundo todo junto do que no menor grãozinho de areia ou na mais mínima gota d’água do mar, ou ainda no mais leve e ínfimo átomo de ar. Ele aplica tanto ser, presença, potência e sabedoria às partes indivisíveis do espaço quanto a todo o espaço do inteiro universo. Ele está por toda parte e em cada parte desse todo, por toda parte Ele mesmo, indivisivelmente. O mundo não o abarca em sua capacidade, é antes Ele quem envolve o mundo com Sua imensidade”. [Chardon, La Croix de Jésus, p. 387.]

Poderíamos falar de uma presença de causalidade, mas sem nos esquecer de que Deus é Causa com uma profundidade absolutamente única, que não pertence a nenhuma das causas que nós conhecemos. Falemos, se se quiser, de uma presença de criação, de uma presença de conservação ou de criação contínua.

* * *

Detenhamo-nos por um momento num aspecto do paradoxo da presença de Deus nas coisas: Deus está nelas e Deus não está nelas. Ele está infinitamente mais nelas do que pensamos, e Ele está infinitamente menos nelas do que pensamos. E isto não contradiz aquilo. O paradoxo da presença de criação é ela poder ser, a uma só vez, presença infinita e ausência infinita.

Deus está infinitamente mais nas coisas do que pensamos. Quer isto dizer que é necessário nada menos do que a presença de Deus inteiro, que ultrapassa infinitamente este grãozinho de areia, para este grãozinho de areia poder existir. Toda a eficiência indivisível de Deus está empenhada na criação de um grão de areia. De maneira que todas as coisas traem o seu Deus, entregam o seu Deus. Cada coisa contém o seu Deus, ou melhor, descobre o Deus que a contém. Causalmente, Deus está presente nas coisas com a Sua infinitude, Ele está infinitamente presente nas coisas. Ele está nelas como a base que as sustenta. O ser que elas possuem pertence mais a Deus do que a elas; ele está em Deus como em Fonte, ele está nelas como em derivação. O sublime âmago das coisas é Deus. Há que dizer com Chardon:

“Deus no céu é mais meu céu do que o céu mesmo; no sol, Ele é mais minha luz do que o sol; no ar, Ele é mais meu ar do que este que respiro sensivelmente… Sua presença, por Sua imensidade, serve-me de mundo, de céu, de espaço, de lugar e de todas as coisas; Ele opera em mim tudo que sou, que vivo, que posso, que ajo, como intimíssimo, presentíssimo, inexistentíssimo em mim, como o autor supra-essencial e primeiro das minhas obras, sem o Qual nos dissiparíamos nós e as nossas operações. Mas então — exclama Chardon — onde estão os nossos olhos, os nossos pensamentos, os nossos amores que se refletem incessantemente naquilo que há de menos principal em nós e dentro do resto do universo, sem ali contemplar, adorar e amar Àquele que é plenitude de ser e abundância soberana de suficiência em todas as coisas!” [La Croix de Jésus, pp. 389-390.]

E Deus está infinitamente menos nas coisas do que nós pensamos. Quer dizer isto que as coisas sendo finitas, e Deus infinito, as coisas são infinitamente incapazes de contê-Lo. As mais belas dentre elas são, com relação a Ele, infinitamente pobres, miseráveis. Em comparação com Deus, todas as coisas são infinitamente frustrantes. Todas fazem sofrer infinitamente àquele que deseja Deus infinitamente. A medida do sofrimento que nos vem da criatura é a medida de nosso desejo do Criador. Falta uma infinidade para Deus poder coincidir com as coisas. Considerando-se a diferença de naturezas, formalmente, Deus é infinitamente ausente das coisas.

Era este o sofrimento de São João da Cruz:

Ah! Quem poderá curar-me?
Acaba de entregar-Te deveras;
não queiras enviar-me
mais nenhum mensageiro,
que eles não sabem dizer-me o que quero.
[Cântico Espiritual, estrofe 6.]

Deus infinitamente presente nas coisas; Deus infinitamente ausente das coisas. Será preciso passar constantemente desta [ausência] àquela [presença], e daquela a esta: é a dialética do cristão [e também a do deísta], mesmo do cristão ordinário, do cristão da rua, do poeta que conta a história de nossos pobres corações exilados em meio às criaturas:

Se o mundo não falasse tanto de Vós, o meu enfado não seria tal.
Se a voz delas não fosse tão tocante, se não falassem tão bem de outra coisa,
As criaturas não seriam um problema para nós, e estaríamos em paz com a vida.
[Claudel, poema A missa lá embaixo.]

Como é que Deus, tão diferente das coisas, pode sofrer as coisas ao lado d’Ele? Não é que elas estejam, claro está, ao lado d’Ele como um lugar onde Ele não estaria, como um claustro onde o próprio Ser d’Ele não pudesse entrar. (Essa é a maneira de pensar, assaz… surpreendente, do filósofo romando Charles Secretan!) Ao lado d’Ele, isso quer dizer que verdadeiramente as coisas também existem; que elas coexistem: por Ele, com Ele, n’Ele.

Será que Deus não vai varrê-las como o furacão varre as nuvens? Será que a opacidade delas não vai irritá-Lo? Será que que Ele não vai incendiá-las com o sol de Seu Ser, pulverizá-las, dissipá-las, dissolvê-las?

Não! Eis que Deus, pelo contrário, suporta o mundo; eis que Ele detém-Se diante do mundo, diante do grãozinho de areia, como que tomado de respeito; eis que, em presença da fragilidade das criaturas, Ele parece refrear Sua onipotência e Sua exigência infinita de perfeição. Um místico judeu [1] escreveu: “O Santo —bendito seja Ele— contraiu a Sua glória, a fim de que os mundos pudessem suportá-la!”. É essa espécie de contração de Deus, de recolhimento de Deus, de contenção de Deus, de cortesia de Deus, para tudo dizer numa palavra: de carinho de Deus, tendo como finalidade permitir que a criatura subsista na frente d’Ele, que os místicos hassidim chamavam de tzim-tzum, o recolhimento. Eles tinham compreendido [2] que o primeiro brado da criatura a Deus é para se escusar de aparecer diante d’Ele, é para estremecer por existir, por coexistir. A primeira palavra que ela deve dizer é a de Pedro na barca: “Afasta-Te de mim, Senhor… pois eu sou homem pecador!” (Lc 5,8).

[1. N. do T. – Trata-se do “Rabbi Dov Beer (aprox. 1780), o mais profundo místico dentre os hassidim” (Ch. Journet, Connaissance et Inconnaissance de Dieu, 1943; na recente edição de 1996 pelas Éditions Saint-Augustin, cit. à p. 28). Mons. Journet cita-o a partir da obra que parece ser a mais profunda sobre o tema, a do Rev. Pe. Pierre-Jean de Menasce, Quand Israël aime Dieu [Quando Israel ama a Deus], Paris, 1931, p. 124]

[2. N. do T. – Na página 27 de sua obra citada na nota anterior, Mons. Journet é um pouco mais recolhido do que na conferência que estamos traduzindo e, mantendo embora essa interpretação extremamente cortês da mística judaica, emprega todavia o mais contido verbo “entrever”:
« Se se quiser transformar em verdade o pensamento de Charles Secretan segundo o qual Deus, ao criar, Se limita, seria preciso fazê-lo significar o mistério do inefável carinho e cortesia [A palavra está em Juliana de Norwich, Revelações do Amor Divino (na trad. fr. de Dom G. Meunier, Paris, 1925, p. 337).] de um Deus que, longe de aniquilar a criatura ao tocá-la, não cessa de sustentá-la e de conservá-la na existência. É o mistério que cabalistas e mais tarde os hassidim entreviram e chamaram de o tzim-tzum, ou seja, a contração, o recolhimento. “Nos cabalistas essa palavra designa o ato de Deus cedendo ao mundo, por Ele criado, parte de Seu Lugar. Não se trata de uma imagem espacial, como se o ser, totalmente preenchido por Deus, não pudesse admitir o mundo senão às custas de Deus; sentido grosseiro que nem sempre é evitado pelos que tratam da Cabala. Em sentido lógico e primeiro, a noção de tzim-tzum é introduzida para exprimir o mistério, não da criatura como estando noutra parte que não em Deus, mas do ato criador como fazendo proceder de Deus — e de Deus somente — alguma coisa que é outra que não Deus. Esse outro não é alheio a Deus: seria isto limitar a onipotência d’Ele; nem tampouco ele é necessário a Deus: seria isto limitar a liberdade d’Ele” [P.-J. de Menasce, Quand Israël aime Dieu, Paris, 1931, p. 115.]…“Ao criar o mundo, Deus lhe dá, ao mesmo tempo, o meio de O conhecer, Ele Se torna de certo modo acessível ao mundo. Movimento de expansão, de expressão: tudo o que há no mundo é uma dilatação e uma expressão de Deus, que sai para fora d’Ele mesmo. Mas também [movimento] de contração, de recolhimento, porque Deus, para tornar-Se cognoscível pela criatura, sujeita-Se a um modo e a uma ordem de conhecimento necessariamente inferior ao Seu modo próprio de ser e de conhecer, ou seja, a Ele mesmo. Por isso, paralelamente às imagens que exprimem a dilatação, a saída, a criação, o cabalismo mantém a metáfora da contração, da diminuição (os modernos diriam: da adaptação) de Deus ao mundo” [Ibid., p. 117]. »

Mas o Senhor não Se afasta! Desde toda a eternidade, Ele não Se afastará. Ele criou o universo não para aniquilá-lo, mas para que ele exista. E mesmo para que ele exista desabrochado para sempre, desfraldado para sempre. A imagem hindu é enganosa, que representa Deus como eternamente ocupado em expirar para fora d’Ele, depois em aspirar de volta a Ele, um mundo que repassaria assim eternamente do estado explícito para o estado implícito, do estado de eclosão para o estado de germe, do estado de vigília para o estado de sonho. Deus criou o universo uma vez por todas e para todo o sempre. Ele criou a matéria para sempre.

Então, veja-se este paradoxo. Eis um Deus infinito que cria, para tê-lo sempre como companhia, o finito. Bem mais ainda: esse Deus sendo infinito, sem limite de essência, só pode ser Espírito. E eis que Ele cria, para tê-lo eternamente como companhia, aquilo que há de mais finito, de mais limitado, ou seja, o ser da matéria: pois, além dos seus limites de criatura, a matéria está aprisionada em limites de espaço e em limites de tempo. Eis, então, um Deus infinito que cria o que há de mais finito, de mais distante, de mais distinto d’Ele; um Deus que é Espírito puro, Transparência pura, e que cria o que há de mais opaco, de mais dissemelhante a Ele: a tal ponto, que Descartes não acreditava que se pudesse concluir, do ser dos corpos, para o ser de Deus.

Por que isso? Por que, senão por Ele querer manifestar as profundezas da Sua condescendência; por Ele querer que saibamos o quanto Ele é capaz de Se rebaixar, fazendo coexistir com Ele a mais humilde criatura.

Deus Espírito, criando o que há de menos Ele, a matéria, e suportando-a eternamente “ao lado” d’Ele, envolvendo-a eternamente com a Sua bondade, mimando-a eternamente com o Seu carinho — tal é o sentido da primeira narrativa do Gênesis: “O Espírito de Deus movia-se sobre as águas”...
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(Fonte: Blog "Acies Ordinata" ["Exército em Ordem de Batalha"])