Luz para a inteligência, Calor para a vontade

segunda-feira, 30 de março de 2015

A imaginação (Marilena Chaui)

(Continuação da obra "Convite à Filosofia", de Marilena Chaui)


Capítulo 4 [da parte 4]
A imaginação 

Cotidiano e imaginação

Com freqüência, ouvimos frases como: “Que falta de imaginação!”, “Por favor, use a sua imaginação!”, “Cuidado! Ela tem muita imaginação!”, “Que nada! Você andou imaginando tudo isso!”, “Não comece a imaginar coisas!”, “Imagine se tivesse sido assim!”. Essas frases são curiosas porque indicam maneiras bastante diferentes de concebermos o que seja a imaginação.

Na frase: “Que falta de imaginação!”, a imaginação é tomada como algo positivo, cuja falta ou ausência é criticada. Imaginar, aqui, aparece como capacidade mais alargada para pensar, para encontrar soluções inteligentes para algum problema, para adivinhar o sentido de alguma coisa que não está muito evidente. Ela aparece, também, como algo que nós temos e que podemos ou não usar.

Já nas frases: “Cuidado! Ela tem muita imaginação!”, “Que nada! Você andou imaginando tudo isso!” ou “Não comece a imaginar coisas!”, a imaginação é tomada como risco de irrealidade, invencionice, mentira, exagero, excesso. Agora, imaginar é inventar ou exagerar, perder o pé da realidade, assumindo, portanto, um sentido bastante diverso do anterior.

Na frase: “Imagine se tivesse sido assim!”, ou em outra como “Imagine o que ele vai dizer!”, a imaginação é tomada como uma espécie de suposição sobre as coisas futuras, uma espécie de previsão ou de alerta sobre o que poderá ou poderia acontecer como conseqüência de outros acontecimentos.

Apesar de diferentes, essas frases possuem alguns elementos comuns. Em todas elas:

* positiva ou negativamente, a imaginação está referida ao inexistente. Dizer “Use sua imaginação!” significa: faça de outro modo ou invente alguma coisa. Exclamar “Que falta de imaginação!” significa: poderia ter feito muito melhor, poderia ter dito uma coisa muito mais interessante. Alertar com a frase “Cuidado! Ela tem muita imaginação!” significa: ela inventa e exagera. Supor “Imagine o que nos teria acontecido!” significa: criar a imagem de uma situação que não aconteceu;

* a imaginação aparece como algo que possui graus, isto é, pode haver falta ou excesso;

* a imaginação se apresenta como capacidade para elaborar mentalmente alguma coisa possível, algo que não existiu, mas poderia ter existido, ou que não existe, mas poderá vir a existir. A imaginação surge, assim, como algo impreciso, situada entre dois tipos de invenção – criação inteligente e inovadora, de um lado; exagero, invencionice, mentira, de outro. No primeiro caso ela faz aparecer o que não existia ou mostra ser possível algo que não existe. No segundo caso, ela é incapaz de reproduzir o existente ou o acontecido.

Com isso, nossas frases cotidianas apontam os dois principais sentidos da imaginação: criadora e reprodutora.

A imaginação na tradição filosófica

A tradição filosófica sempre deu prioridade à imaginação reprodutora, considerada como um resíduo do objeto percebido que permanece retido em nossa consciência. A imagem seria um rastro ou um vestígio deixado pela percepção. Os empiristas, por exemplo, falam das imagens como reflexos mentais das percepções ou das impressões, cujos traços foram gravados no cérebro. Desse ponto de vista, a imagem e a lembrança difeririam apenas porque a primeira é atual enquanto a segunda é passada.

A imagem seria, portanto, a reprodução presente que faço de coisas ou situações presentes. Por exemplo, se neste momento eu fechar os olhos, posso imaginar o computador, a mesa de trabalho, os livros nas estantes, o quebra-luz, a porta, a janela. A imagem seria a coisa atual percebida quando ausente. Seria uma percepção enfraquecida, que, associada a outras, formaria as idéias no pensamento.

Os filósofos racionalistas [do século XVII] também consideravam a imaginação uma forma enfraquecida da percepção e, por considerarem a percepção a principal causa de nossos erros (as ilusões e deformações da realidade), também julgavam a imaginação fonte de enganos e erros. Tomando-a como meramente reprodutora, diziam, por exemplo, que a imaginação dos artistas nada mais faz do que juntar de maneira nova imagens de coisas percebidas: um cavalo alado é a junção da imagem de um cavalo percebido com a imagem de asas percebidas; uma sereia, a junção de uma imagem de mulher percebida com a imagem de um peixe percebido. A imaginação seria, pois, diretamente reprodutora da percepção, no campo do conhecimento, e indiretamente reprodutora da percepção, no campo da fantasia.

Por isso, na tradição filosófica, costumava-se usar a palavra imaginação como sinônimo de percepção ou como um aspecto da percepção. Percebemos imagens das coisas, dizia a tradição. A tradição, porém, enfrentava alguns problemas que não podia resolver:
* em nossa vida, não confundimos percepção e imagem. Assim, por exemplo, distinguimos perfeitamente a percepção direta de um bombardeio da imagem do que seria uma explosão atômica;
* em nossa vida, não confundimos perceber e imaginar. Assim, por exemplo, distinguimos o sonho da vigília; distinguimos um fato que vemos na rua da cena de um filme;
* em nossa vida, somos capazes de distinguir nossa percepção e a imaginação de uma outra pessoa. Assim, por exemplo, percebemos o sofrimento psíquico de alguém que está tendo alucinações, mas não somos capazes de alucinar junto com ela.

Dessa maneira, a suposição de que entre a percepção e a imaginação, entre o percebido e a imagem haveria apenas uma diferença de grau ou de intensidade (a imagem seria uma percepção fraca e a percepção seria a imagem forte) não se mantém, pois há uma diferença de natureza ou uma diferença de essência entre ambas.

A fenomenologia e a imaginação

Quando falamos em imagens, referimo-nos a coisas bastante diversas: quadros, esculturas, fotografias, filmes, reflexos num espelho ou nas águas, ficções literárias, contos, lendas e mitos, figuras de linguagem (como a metáfora e a metonímia), sonhos, devaneios, alucinações, imitações pela mímica e pela dança, sons musicais, poesia.

Uma primeira diferença entre essas imagens pode ser logo notada: algumas se referem a imagens exteriores à nossa consciência (pinturas, esculturas, fotos, filmes, mímica, etc.), outras podem ser consideradas internas ou mentais (sonhos, devaneios, alucinações, etc.), enquanto algumas são externas e internas ao mesmo tempo (no caso da ficção literária, por exemplo, a imagem é externa, pois está no livro, e é interna, pois leio palavras e com elas imagino).

No entanto, algo é comum a todas elas: oferecem-nos um análogo das próprias coisas, seja porque estão no lugar das próprias coisas, seja porque nos fazem imaginar coisas através de outras.

A segunda diferença entre as imagens decorre do tipo de análogo que cada uma delas propõe. Um análogo pode ser um símbolo (a bandeira é um símbolo da nação), uma metáfora (dizer “a primavera da vida” para referir-se à juventude), uma ilustração (a foto de alguém junto a uma notícia de jornal ou uma paisagem num livro de contos), um esquema (a planta de uma casa ou de uma máquina), um signo (vejo a luz vermelha do semáforo e ela é o signo de uma ordem: “Pare!”), um sentimento (a emoção que sinto ao ouvir uma sinfonia), um substituto (um armário transformado em navio pela criança que brinca).

Embora sejam diferentes pela natureza da analogia, as imagens novamente possuem algo em comum: raramente ou quase nunca a imagem corresponde materialmente à coisa imaginada. Por exemplo, a bandeira e a nação são materialmente diferentes, os sons da sinfonia e meus sentimentos são diferentes, a fotografia e a pessoa fotografada são materialmente diferentes, um mímico que imita uma janela ou uma locomotiva não é nem uma coisa nem outra, etc.

Notamos, assim, que é próprio das imagens algo que suporíamos próprio apenas da ficção, isto é, as imagens são irreais, quando comparadas ao que é imaginado através delas. Um quadro é real enquanto quadro percebido, mas é irreal se comparado à paisagem da qual é imagem. Apesar de irreal e, justamente por ser irreal, a imagem é dotada de um poder especial: torna presente ou presentifica algo ausente, seja porque esse algo existe e não se encontra onde estamos, seja porque é inexistente. No primeiro caso, a imagem ou o análogo é testemunha irreal de alguma coisa existente; no segundo, é a criação de uma realidade imaginária, ou seja, de algo que existe apenas em imagem ou como imagem. Nos dois casos, porém, o objeto-em-imagem é imaginário.

Consciência imaginativa

Distanciando-se da tradição, a fenomenologia fala na consciência imaginativa como uma forma de consciência diferente da percepção e da memória, tendo como ato o imaginar e como conteúdo, ou correlato, o imaginário ou o objeto-em-imagem.

A imaginação é [para a fenomenologia] a capacidade da consciência para fazer surgir os objetos imaginários ou objetos-em-imagem. Pela imaginação, relacionamo-nos com o ausente e com o inexistente. Perceber este livro é relacionar-se com sua presença e existência. Imaginar um livro é relacionar-se ou com a imagem do livro percebido ou com um livro ausente e inexistente, que ainda não foi escrito e é apenas o-livro-possível. Graças à imaginação, abre-se para nós o tempo futuro e o campo dos possíveis.

A percepção observa as coisas, as pessoas, as situações. Observar é jamais ter uma coisa, pessoa ou situação de uma só vez e por inteiro. A percepção observa porque alcança as coisas, as pessoas, as situações por perfis, perspectivas, faces diferentes que vão sendo articuladas umas às outras, num processo sem fim, podendo sempre enriquecer nosso conhecimento, perceber aspectos novos, ir “completando” o percebido com novos dados ou aspectos.

A imaginação, ao contrário, não observa o objeto: cada imagem põe o objeto por inteiro. O filósofo francês Sartre dá um exemplo: quando imagino uma rua ou um edifício, tenho de uma só vez a rua-em-imagem ou o edifício-em-imagem, cada um deles possui uma única face e é essa que existe em imagem.

Podemos ter muitas imagens da mesma rua ou do mesmo edifício, mas cada uma delas é uma imagem distinta das outras. Uma imagem, diz Sartre, é inobservável. Se uma pessoa apaixonada tem diante de si a pintura ou a fotografia da pessoa amada, tem a imagem dela. Ao olhá-la, não olha para as manchas coloridas, nem para os traços reproduzidos no papel, não presta atenção no trabalho do pintor nem do fotógrafo, mas torna presente a pessoa amada ausente. A imagem é diferente do percebido porque ela é um análogo do ausente, sua presentificação.

Em outras palavras, percebemos e imaginamos ao mesmo tempo, embora perceber e imaginar sejam diferentes. Percebo a fotografia e imagino a pessoa amada. Percebo a fisionomia da pessoa fotografada (o olhar, o sorriso, as mãos, a roupa) e imagino a sedução do olhar, a doçura do sorriso, a sutileza dos gestos, a preferência por certas roupas. São dois estados de consciência simultâneos e diferentes.

Quando Clarice Lispector descreve o inseto e o ovo, percepção e imaginação são simultâneos e diferentes. Diante do verde-corpo-superfície-traço-que-caminha (percepção do inseto), Clarice imagina como seriam o desejo e o amor das “esperanças” (pergunta sobre as glândulas do inseto cujo corpo percebido parece impossível de conter algo em seu interior porque não tem interior). O inseto percebido e o inseto imaginado são duas consciências diferentes do mesmo inseto.

Quando a criança brinca, sua imaginação desfaz a percepção: todos os objetos, todas as pessoas e todos os lugares nada têm a ver com seu sentido percebido, mas remetem a outros sentidos, criam sentidos inexistentes ou presentificam o ausente. Um armário é um navio-em-imagem, um tapete é um mar-em-imagem, um cabo de vassoura é uma espada-em-imagem, uma folha de jornal é um mapa-em-imagem, um avental preso às costas é uma capa-em-imagem. A imaginação é, assim, uma capacidade irrealizadora.

A força irrealizadora da imaginação significa, por um lado, que ela é capaz de tornar ausente o que está presente (o armário deixa de estar presente), de tornar presente o ausente (o navio torna-se presente) e criar inteiramente o inexistente (a aventura nos mares).

É por isso que a imaginação tem também uma força prospectiva, isto é, consegue inventar o futuro, como na canção de John Lennon, "Imagine", ou como na invenção de uma teoria científica ou de um objeto técnico.

Pelo mesmo motivo, a imaginação pode criar um mundo irreal que julgamos melhor do que o nosso, a ponto de recusarmos viver neste para “viver” imaginariamente naquele, perdendo todo o contato com o real. É o que acontece, por exemplo, na loucura, quando passamos definitivamente para o “outro lado”. Mas é também o que acontece todos os dias, quando sonhamos ou entramos em devaneio. Embora vigília e sonho sejam diferentes, a vigília pode ser sentida como intolerável e insuportável e somos arrastados pelo desejo de ficar no sonho e de, embora acordados, viver como se o sonho fosse real, porque nossa imaginação o faz real para nós.

Irrealizando o mundo percebido e realizando o sonho, a imaginação pode ocupar o lugar da percepção e passamos a perceber imaginariamente. Quando o fazemos para criar um outro mundo ao qual os outros seres humanos também podem ter acesso, a imaginação passa do sonho à obra de arte. Quando o fazemos para criar um outro mundo só nosso e ao qual ninguém mais pode ter acesso, a imaginação passa do sonho à loucura.

Assim, a diferença entre sonho, arte e loucura é muito pequena e frágil: a imaginação aberta aos outros (arte) ou fechada aos outros (loucura).

As modalidades de imaginação

Partindo da diferença entre imaginação reprodutora e imaginação criadora, podemos distinguir várias modalidades de imaginação:
1. imaginação reprodutora propriamente dita, isto é, a imaginação que toma suas imagens da percepção e da memória;
2. imaginação evocadora, que presentifica o ausente por meio de imagens com forte tonalidade afetiva;
3. imaginação irrealizadora, que torna ausente o presente e nos coloca vivendo numa outra realidade que é só nossa, como no sonho, no devaneio e no brinquedo. Esta imaginação tem forte tonalidade mágica;

4. imaginação fabulosa, de caráter social ou coletivo, que cria os mitos e as lendas pelos quais uma sociedade, um grupo social ou uma comunidade imaginam sua própria origem e a origem de todas as coisas, oferecendo uma explicação para seu presente e sobretudo para a morte. Aqui, a imaginação cria imagens simbólicas para o bem e o mal, o justo e o injusto, o puro e o impuro, o belo e o feio, o mortal e o imortal, o tempo e a Natureza pela referência às divindades e aos heróis criadores; explica os males desta vida por faltas originárias cometidas pelos humanos [o pecado original, por exemplo] e promete uma vida futura feliz, após a morte. É a imaginação religiosa;

5. imaginação criadora, que inventa ou cria o novo nas artes, nas ciências, nas técnicas e na Filosofia. Aqui, combinam-se elementos afetivos, intelectuais e culturais que preparam as condições para que algo novo seja criado e que só existia, primeiro, como imagem prospectiva ou como possibilidade aberta. A imaginação criadora pede auxílio à percepção, à memória, às idéias existentes, à imaginação reprodutora e evocadora para cumprir-se como criação ou invenção.

Imaginação e teoria do conhecimento

Do ponto de vista da teoria do conhecimento, a imaginação possui duas faces: a de auxiliar precioso para o conhecimento da verdade e a de perigo imenso para o conhecimento verdadeiro.

Quando lemos relatos dos cientistas sobre suas pesquisas e investigações, com freqüência eles se referem aos momentos em que tiveram que imaginar, isto é, criar pelo pensamento a imagem total ou completa do fenômeno pesquisado para, graças a ela, orientar os detalhes e pormenores da pesquisa concreta que realizavam. Essa imagem é negadora e antecipadora.

Negadora: graças a ela, o cientista pode negar ou recusar as teorias já existentes. Antecipadora: graças a ela, o cientista pode antever o significado completo de sua própria pesquisa, mesmo que esta ainda esteja em andamento; a imaginação orienta o pensamento.

O filósofo Gaston Bachelard atribui à imaginação a capacidade para encorajar o pensamento a dizer “não” a teorias existentes e propor novas.

Muitas vezes, lendo um romance ou vendo um filme, compreendemos e conhecemos muito melhor uma realidade do que se lêssemos livros científicos ou jornais. Por quê? Porque o artista, através da imaginação, capta o essencial e reúne o que estava disperso na realidade, fazendo-nos compreender o sentido profundo e invisível de alguma coisa ou de alguma situação. O artista nos mostra o inusitado, o excepcional, o exemplar ou o impossível por meio dos quais nossa realidade ganha sentido e pode ser mais bem conhecida.

Outras vezes, porém, sobretudo quando se trata da imaginação reprodutora, somos lançados no mundo dos ídolos, de que fala Francis Bacon, ou no mundo da prevenção e dos preconceitos, de que fala Descartes. Agora surge um tecido de imagens ou um imaginário, que desvia nossa atenção da realidade, ou que serve para nos dar compensações ilusórias para as desgraças de nossas vidas ou de nossa sociedade, ou que é usado como máscara para ocultar a verdade.

O imaginário reprodutor (nas ciências, na Filosofia, no cinema, na televisão, na literatura, etc.) bloqueia nosso conhecimento porque apenas reproduz nossa realidade, mas dando a ela aspectos sedutores, mágicos, embelezados, cheios de sonhos que já parecem realizados e que reforçam nosso presente como algo inquestionável e inelutável. É um imaginário de explicações feitas e acabadas, justificador do mundo tal como ele parece ser. Quando esse imaginário é social, chama-se ideologia.

Sob esse aspecto, a imaginação reprodutora se opõe à imaginação utópica. Utopia é uma palavra grega que significa: em lugar nenhum e em tempo nenhum. A imaginação utópica cria uma outra realidade para mostrar erros, desgraças, infâmias, angústias, opressões e violências da realidade presente e para despertar, em nossa imaginação, o desejo de mudança. Assim, enquanto o imaginário reprodutor procura abafar o desejo de transformação, o imaginário utópico procura criar esse desejo em nós.

Pela invenção de uma outra sociedade que não existe em lugar nenhum e em tempo nenhum, a utopia nos ajuda a conhecer a realidade presente e buscar sua transformação. Em outras palavras, o imaginário reprodutor opera com ilusões, enquanto a imaginação criadora e a imaginação utópica operam com a invenção do novo e da mudança, graças ao conhecimento crítico do presente.


Homônimos e Parônimos





1. Definições


- Homônimos: vocábulos que se pronunciam da mesma forma, e que diferem no sentido. 
- Homônimos perfeitos: vocábulos com pronúncia e grafia idênticas (homófonos e homógrafos). Ex.:  
     São: 3ª p. p. do verbo ser. - Eles são inteligentes. 
     São: sadio. - O menino, felizmente, está são. 
     São: forma reduzida de santo. - São José é meu santo protetor. 

- Homônimos imperfeitos: vocábulos com pronúncia igual (homófonos), mas com grafia diferente (heterógrafos). Ex.:  
     Cessão: ato de ceder, cedência 
     Seção ou secção: corte, subdivisão, parte de um todo 
     Sessão: espaço de tempo em que se realiza uma reunião 

- Parônimos: vocábulos ou expressões que apresentam semelhança de grafia e pronúncia, mas que diferem no sentido. Ex.:  
     Cavaleiro: homem a cavalo 
     Cavalheiro: homem gentil 


2. Lista de Homônimos e Parônimos


Acender - pôr fogo a
Ascender - elevar-se, subir

Acento - inflexão de voz, tom de voz, acento
Assento - base, lugar de sentar-se

Acessório - pertences de qualquer instrumento ou máquina; que não é principal
Assessório - diz respeito a assistente, adjunto ou assessor

Aço - ferro temperado
Asso - do v. assar

Anticéptico - contrário ao cepticismo
Antisséptico - contrário ao pútrido; desinfetante

Asar - guarnecer de asas
Azar - má sorte, ocasionar

Brocha - tipo de prego
Broxa - tipo de pincel

Caçado - apanhado na caça
Cassado - anulado

Cardeal - principal; prelado; ave; planta; ponto (cardeal)
Cardial - relativo à cárdia

Cartucho - carga de arma de fogo
Cartuxo - frade de Cartuxa

Cédula - documento
Sédula - feminino de sédulo (cuidadoso)

Cegar - tornar ou ficar cego
Segar - ceifar

Cela - aposento de religiosos; pequeno quarto de dormir
Sela - arreio de cavalgadura

Censo - recenseamento
Senso - juízo

Censual - relativo a censo
Sensual - relativo aos sentidos

Cerra - do verbo cerrar (fechar)
Serra - instrumento cortante; montanha; do v. serrar (cortar)

Cerração - nevoeiro denso
Serração - ato de serrar

Cerrado - denso; terreno murado; part. do v. cerrar (fechado)
Serrado - particípio de serrar (cortar)

Cessão - ato de ceder
Sessão - tempo que dura uma assembléia
Secção ou seção - corte, divisão

Cevar - nutrir, saciar
Sevar - ralar

Chá - infusão de folhas para bebidas
Xá - título do soberano da Pérsia

Cheque - ordem de pagamento
Xeque - perigo; lance de jogo de xadrez; chefe de tribo árabe

Cinta - tira de pano
Sinta - do v. sentir

Círio - vela de cera
Sírio - relativo à Síria; natural desta

Cível - relativo ao Direito Civil
Civil - polido; referente às relações dos cidadãos entre si

Cocho - tabuleiro
Coxo - que manqueja

Comprimento - extensão
Cumprimento - ato de cumprir, saudação

Concelho - município
Conselho - parecer

Concerto - sessão musical; harmonia
Conserto - remendo, reparação

Concílio - assembléia de prelados católicos
Consílio - conselho

Conjetura - suposição
Conjuntura - momento

Coringa - pequena vela triangular usada à proa das canoas de embono; moço de barcaça
Curinga - carta de baralho

Corisa - inseto
Coriza - secreção das fossas nasais

Coser - costurar
Cozer - cozinhar

Decente - decoroso
Descente - que desce

Deferir - atender, conceder
Diferir - distinguir-se; posicionar-se contrariamente; adiar (um compromisso marcado)

Descargo - alívio
Desencargo - desobrigação de um encargo

Desconcertado - descomposto; disparato
Desconsertado - desarranjado

Descrição - ato de descrever
Discrição - qualidade de discreto

Descriminar - inocentar
Discriminar - distinguir, diferenciar

Despensa - copa
Dispensa - ato de dispensar

Despercebido - não notado
Desapercebido - desprevenido

Édito - ordem judicial
Edito - decreto, lei (do executivo ou legislativo)

Elidir - eliminar
Ilidir - refutar

Emergir - sair de onde estava mergulhado
Imergir - mergulhar

Emerso - que emergiu
Imerso - mergulhado

Emigração - ato de emigrar
Imigração - ato de imigrar

Eminente - excelente
Iminente - sobranceiro; que está por acontecer

Emissão - ato de emitir, pôr em circulação
Imissão - ato de imitir, fazer entrar

Empossar - dar posse
Empoçar - formar poça

Espectador - o que observa um ato
Expectador - o que tem expectativa

Espedir - despedir; estar moribundo
Expedir - enviar

Esperto - inteligente, vivo
Experto - perito ("expert")

Espiar - espreitar
Expiar - sofrer pena ou castigo

Esplanada - terreno plano
Explanada (o) - part. do v. explanar

Estasiado - ressequido
Extasiado - arrebatado

Estático - firme
Extático - absorto

Esterno - osso dianteiro do peito
Externo - que está por fora

Estirpe - raiz, linhagem
Extirpe - flexão do v. extirpar

Estofar - cobrir de estofo
Estufar - meter em estufa

Estrato - filas de nuvens
Extrato - coisa que se extraiu de outra

Estremado - demarcado
Extremado - extraordinário

Flagrante - evidente
Fragrante - perfumado

Fluir - correr
Fruir - desfrutar

Fuzil - arma de fogo
Fusível - peça de instalação elétrica

Gás - fluido aeriforme
Gaz - medida de extensão

Incidente - acessório, episódio
Acidente - desastre; relevo geográfico

Infligir - aplicar castigo ou pena
Infringir - transgredir

Incipiente - que está em começo, iniciante
Insipiente - ignorante

Intenção - propósito
Intensão - intensidade; força

Intercessão - ato de interceder
Interseção - ato de cortar

Laço - nó que se desata facilmente
Lasso - fatigado

Maça - clava; pilão
Massa - mistura

Maçudo - maçador; monótono
Massudo - que tem aspecto de massa

Mandado - ordem judicial
Mandato - período de permanência em cargo

Mesinha - diminutivo de mesa
Mezinha - medicamento

Óleo - líquido combustível
Ólio - espécie de aranha grande

Paço - palácio real ou episcopal
Passo - marcha

Peão - indivíduo que anda a pé; peça de xadrez
Pião - brinquedo

Pleito - disputa
Preito - homenagem

Presar - aprisionar
Prezar - estimar muito

Proeminente - saliente no aspecto físico
Preeminente - nobre, distinto

Ratificar - confirmar
Retificar - corrigir

Recreação - recreio
Recriação - ato de recriar

Recrear - proporcionar recreio
Recriar - criar de novo

Ruço - grave, insustentável
Russo - da Rússia

Serva - criada, escreva
Cerva - fêmea do cervo

Sesta - hora do descanso
Sexta - redução de sexta-feira; hora canônica; intervalo musical

Tacha - tipo de prego; defeito; mancha moral
Taxa - imposto

Tachar - censurar, notar defeito em; pôr prego em
Taxar - determinar a taxa de

Tráfego - trânsito
Tráfico - negócio ilícito

Viagem - jornada
Viajem - do verbo viajar

Vultoso - volumoso
Vultuoso - inchado



SAIBA MAIS 

     Existem também expressões que apresentam semelhanças entre si, e têm significação diferente. Tal semelhança pode levar os utentes da língua a usar uma expressão uma em vez de outra. 

  • Acerca de: sobre, a respeito de. Fala acerca de alguma coisa.

    A cerca de: a uma distância aproximada de. Mora a cerca de dez quadras do centro da cidade.

    Há cerca de: faz aproximadamente. Trabalha há cerca de cinco anos.
  • Ao encontro de: a favor, para junto de. Ir ao encontro dos anseios do povo. Ir ao encontro dos familiares.

    De encontro a: contra. As medidas vêm de encontro aos interesses do povo.
  • Ao invés de: ao contrário de

    Em vez de: em lugar de. Usar uma expressão em vez de outra.
  • A par: ciente. Estou a par do assunto.

    Ao par: de acordo com a convenção legal, sem ágio, sem abatimentos (câmbio, ações, títulos, etc.).
  • À-toa (adjetivo): ordinário, imprestável. Vida à-toa.

    À toa (advérbio): sem rumo. Andar à toa.



    Outras Formas Homônimas e Parônimas


         Além das palavras listadas no capítulo anterior, existem outras formas parônimas e homônimas imperfeitas, com pronúncia igual (homófonas) e grafia diferente (heterógrafas). É evidente que essa semelhança causa hesitações e induz a erros no ato de redigir.


    1. PORQUÊS

    - Porque: é conjução subordinativa causal; equivale a pois . Ele não veio porque choveu.
    - Porquê: é a mesma conjunção subordinativa causal substantivada; é sinônimo demotivo, razão. Não sei o porquê da ausência dele.
    - Por que: é a preposição por seguida de pronome interrogativo que; eqüivale a por que motivo, pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais. Por que ele não veio? Eis o motivo por que não veio.
    - Por quê: é o mesmo por que anterior, quando em fim de frase. Você não veio por quê?


    2. ONDE/ AONDE

    - Onde: empregado em situações estáticas (com verbos de quietação). Onde moras?
    - Aonde: empregado em situações dinâmicas (com verbos de movimento). Equivalepara onde. Aonde vais?


    3. -EM, -ÉM, -ÊM, -ÊEM.

    - -EM (tônico): em vocábulos monossilábicos: bem, cem, trem.
    - -ÉM: em vocábulos oxítonos com mais de uma sílaba: armazém, ninguém, ele mantém.
    - -ÊM: em formas da 3ª pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos ter e vire seus derivados: eles têm, vêm, provêm, detêm.
    - -ÊEM: em formas da 3ª pessoa do plural dos verbos dar, crer, ler e ver e de seus derivados: dêem, vêem, lêem, vêem, descrêem, relêem, prevêem.

    OBSERVE:

    SINGULARPLURAL
    ELE TEM
    ELE VEM
    ELE CONTÉM
    ELE DETÉM
    ELE RETÉM
    ELE SE ATÉM
    ELE PROVÉM
    ELES TÊM
    ELES VÊM
    ELES CONTÊM
    ELES DETÊM
    ELES RETÊM
    ELES SE ATÊM
    ELES PROVÊM



    SINGULARPLURAL
    QUE ELE DÊ
    ELE CRÊ
    ELE DESCRÊ
    ELE LÊ
    ELE VÊ
    ELE PREVÊ
    ELE RELÊ
    ELE REVÊ
    QUE ELES DÊEM
    ELES CRÊEM
    ELES DESCRÊEM
    ELES LÊEM
    ELES VÊEM
    ELES PREVÊEM
    ELES RELÊEM
    REVÊEM




    4. -ÊS (-ESA)/ -EZ (-EZA)

    - -ÊS (-ESA): ANEXA-SE A SUBSTANTIVOS

    SUBSTANTIVOSUFIXOADJETIVO DERIVADO
    MONTE
    CORTE
    BURGO
    MONTANHA
    CHINA
    +ÊS
    +ÊS
    +ÊS
    +ÊS
    +ÊS
    MONTÊS
    CORTÊS
    BURGUÊS
    MONTANHÊS
    CHINÊS



    OBSERVAÇÕES:

    - Terminam com o sufixo -ês os gentílicos: francês, japonês, inglês, marquês.
    - Também terminam com o sufixo -ês títulos nobiliárquicos e outros.
    - O sufixo -esa é o mesmo sufixo -ês no feminino: portuguesa, marquesa.

    - EZ (-EZA): anexa-se a adjetivos

    ADJETIVOSUFIXOSUBSTANTIVO ABSTRATO*
    ÁCIDO
    ALTIVO
    HONRADO
    CLARO
    TRISTE
    POBRE
    +EZ
    +EZ
    +EZ
    +EZA
    +EZA
    +EZA
    ACIDEZ
    ALTIVEZ
    HONRADEZ
    CLAREZA
    TRISTEZA
    POBREZA

    * Indica qualidade, estado, condição.



    5. -ISA/-IZ (-IZA)

    - -ISA: anexa-se a substantivos

    SUBSTANTIVO MASCULINOSUFIXOSUBSTANTIVO FEMININO
    DIÁCONO
    PAPA
    POETA
    PROFETA
    SACERDOTE
    +ISA
    +ISA
    +ISA
    +ISA
    +ISA
    DIACONISA
    PAPISA
    POETISA
    PROFETISA
    SACERDOTISA



    - -IZA: é a terminação feminina correspondente a substantivos masculinos em -iz: juiz/juíza


    6. -IZAR/-ISAR

    - -IZAR: anexa-se a substantivos ou a adjetivos que não tenham "s" no radical.

    SUBSTANTIVOS/ ADJETIVOSSUFIXOVERBO
    AGONIA
    AMENO
    IDEAL
    SUAVE
    +IZAR
    +IZAR
    +IZAR
    +IZAR
    >AGONIZAR
    AMENIZAR
    IDEALIZAR
    SUAVIZAR


    SUBSTANTIVO COM RADICAL EM -IZSUFIXOVERBO
    CICATRIZ
    RAIZ
    VERNIZ
    DESLIZ(E)
    +AR
    +(EN) +AR
    +(EN) +AR
    +AR
    CICATRIZAR
    ENRAIZAR
    ENVERNIZAR
    DESLIZAR



              - -IS(AR): corresponde a palavras acabadas em -ISO, -ISA, -ISE, -IS.

    TERMINAÇÕES EM -ISO, -ISA, -ISE E -IS+ARVERBO
    ANÁLISE
    PESQUISA
    PISO
    AVISO
    ÍRIS
    +AR
    +AR
    +AR
    +AR
    +AR
    ANALISAR
    PESQUISAR
    PISAR
    AVISAR
    IRISAR




    7. -SINHO/-ZINHO

        -SINHO: corresponde a substantivos cujo radical termina com "s".

    SUBSTANTIVOSTERMINAÇÃODIMINUTIVO
    ADEUS
    CHINÊS
    MÊS(A)
    PRINCES(A)
    +INHO
    +INHO
    +INHA
    +INHA
    ADEUSINHO
    CHINESINHO
    MESINHA
    PRINCESINHA



    OBSERVAÇÃO:
    O sufixo é, na verdade, -inho, que se acrescenta a substantivo com radical que termina em "s": mês(a) + inha = mesinha

    -ZINHO: anexa-se a palavras cujo radical não termina em "s".


    SEM S+(Z)INHODIMINUTIVO
    ANEL
    CAFÉ
    PAI

    +Z+INHO
    +Z+INHO
    +Z+INHO
    +Z+INHO
    +Z+INHO
    ANELZINHO
    CAFEZINHO
    PAIZINHO
    SOZINHO
    PEZINHO



    OBSERVAÇÃO:
    O sufixo é, na verdade, -INHO, que se liga ao radical mediante a consoante de ligação -Z:
    Anel + consoante de ligação -Z + sufixo -INHO = anelzinho.
    O diminutivo plural se forma de acordo com o seguinte processo:


    SUBSTANTIVOPLURALSUBTRAÇÃO DE -S+ CONSOANTE DE LIGAÇÃO -Z+ SUFIXO -INHO(S)
    ANEL
    CORAÇÃO
    ANÉIS
    CORAÇÕES
    ANEI
    CORAÇÕE
    ANEIZ
    CORAÇÕEZ
    ANEIZINHOS
    CORAÇÕEZINHOs



    Simplificadamente: rei(s) + z + inhos = reizinhos


    8. A FIM/AFIM

    Afim: parente por afinidade; semelhante. Não podem casar os afins.
    A fim (de): para. Ele veio a fim de ajudar.


    9. ENFIM/ EM FIM

    ENFIM = finalmente. Enfim sós.
    EM FIM =  no final. Ele está em fim de carreira.


    10. SE NÃO/ SENÃO

    SE NÃO: caso não. Viajarei se não chover.
    SENÃO : caso contrário; a não ser; mas. Vá, senão eu vou.

sábado, 28 de março de 2015

O pântano de Camarina (Carl Sagan)

(Continuação da obra "Pálido Ponto Azul", de Carl Sagan)


CAPÍTULO 18
O PÂNTANO DE CAMARINA


É tarde demais para qualquer melhoria.
O universo está terminado;
a cumeeira foi colocada,
e o entulho removido
há 1 milhão de anos.
HERMAN MELVILLE,
MOBY DICK, CAPÍTULO 2 (1851)


Camarina era uma cidade ao sul da Sicília, fundada por colonizadores de Siracusa em 598 a. C. Uma ou duas gerações mais tarde, foi ameaçada por uma peste que fermentava, segundo alguns, no pântano adjacente. (Embora a teoria que atribui as doenças e germes não fosse, com certeza, muito aceita no mundo antigo, havia indícios dessa forma de pensar; por exemplo, no primeiro século a.C., Marco Varro alertava, de forma bem explícita, contra a construção de cidades perto de pântanos, “porque ali se reproduzem certas criaturas minúsculas que são invisíveis para os olhos, que flutuam no ar e entram no corpo pela boca e pelo nariz, causando graves doenças”.)

O perigo para Camarina era grande. Foram traçados planos para drenar o pântano. No entanto, quando consultado, o oráculo proibiu essa linha de ação, aconselhando paciência em seu lugar. As vidas, porém, corriam risco, ignorou-se o oráculo e o pântano foi drenado. A peste foi imediatamente controlada.

Tarde demais, reconheceu-se que o pântano tinha protegido a cidade de seus inimigos, entre os quais tinha-se, agora, de contar os primos, os siracusanos. Como na América do Norte, 2300 anos mais tarde, os colonizadores haviam brigado com a terra natal. Em 552 a. C., uma tropa de Siracusa atravessou a terra seca, onde antes se encontrava o pântano, massacrou todos os homens, mulheres e crianças, e destruiu a cidade. O pântano de Camarina tornou-se proverbial para o caso de eliminarmos um perigo e, com isso, criamos outro ainda maior.

A colisão do período cretáceo-terciário (ou colisões - pode ter havido mais de uma) esclarece o perigo dos asteróides e cometas. Depois da colisão, uma fogueira capaz de imolar mundos torrou a vegetação sobre todo o planeta; uma nuvem estratosférica de poeira escureceu o céu de tal forma que as plantas sobreviventes encontraram dificuldades para tirar sustento da fotossíntese; houve por toda parte temperaturas glaciais, chuvas torrenciais de ácidos cáusticos, enorme diminuição da camada de ozônio e, para completar, depois que a Terra estava curada de todas essas agressões, um prolongado aquecimento de estufa (porque o impacto principal parece ter volatizado uma camada profunda de carbonatos sedimentares, derramando imensas quantidades de dióxido de carbono no ar).

Não foi uma catástrofe única, mas um desfile, uma concatenação de horrores. Os organismos, enfraquecidos por um desastre, eram exterminados pelo seguinte. Não sabemos se nossa civilização sobreviveria a uma colisão energética, mesmo consideravelmente menor. Como o número dos asteróides pequenos é muito maior que o dos grandes, as colisões comuns com a Terra serão causadas pelos pequenos. Quanto maior for o tempo previsto para a colisão, no entanto, tanto mais devastador será o impacto que se pode esperar.

Em média, uma vez, em algumas centenas de anos, a Terra é atingida por um objeto com, aproximadamente, setenta metros de diâmetro; a energia liberada resultante equivale à explosão das maiores armas nucleares já detonadas. A cada 10 mil anos, somos atingidos por um objeto de duzentos metros que poderia induzir graves efeitos climáticos regionais.

A cada milhão de anos, ocorre o impacto, com a Terra, de um corpo com mais de dois quilômetros de diâmetro, equivalente a quase 1 milhão de megatons de TNT - explosão que provocaria uma catástrofe global, matando (a menos que se tomassem precauções inéditas) uma fração significativa da espécie humana. Um milhão de megatons de TNT é cem vezes o produto explosivo de todas as armas nucleares do planeta, se detonadas simultaneamente.

Eclipsando até mesmo esse desastre, em mais ou menos 100 milhões de anos pode-se apostar em algo semelhante ao evento do período cretáceo-terciário, o impacto de um mundo com dez quilômetros de extensão ou ainda maior...

A energia destrutiva latente num grande asteróide próximo da Terra eclipsa qualquer outra coisa ao alcance da espécie humana. Como o cientista planetário norte-americano Christopher Chyba e seus colegas mostraram pela primeira vez, os pequenos asteróides ou cometas, com uma extensão de algumas dezenas de metros, se quebram e incendeiam ao entrarem em nossa atmosfera. Eles aparecem com relativa freqüência, mas não causam danos significativos. Dados do Departamento de Defesa, que deixaram de ser confidenciais, obtidos por meio de satélites especiais que monitoram a Terra em busca de explosões nucleares clandestinas, puderam dar uma idéia da freqüência com que esses pequenos asteróides ou cometas entram na atmosfera da Terra.

Centenas de pequenos mundos (e, pelo menos, um corpo celeste maior) parecem ter se chocado com a Terra nos últimos vinte anos. Não causaram dano. Mas devemos estar muito seguros de poder distinguir entre um pequeno cometa ou asteróide impactante e uma explosão nuclear atmosférica.

Os impactos que ameaçam a civilização requerem corpos com várias centenas de metros ou mais. Eles aparecem cerca de uma vez em cada 200 mil anos. Nossa civilização tem apenas uns 10 mil anos; portanto, não devemos ter, nem temos, memória institucional do último desses impactos.

O Cometa Shoemaker-levy 9, com sua seqüência de explosões incandescentes em Júpiter, em julho de 1994, nos lembra que tais impactos podem ocorrer na nossa época - e que o impacto de um corpo, com alguns quilômetros de extensão, pode espalhar destroços por uma área do tamanho da Terra.

Foi uma espécie de portento. Na mesma semana do impacto do Shoemaker-Levy, a Comissão de Ciência e Espaço da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos esboçou uma legislação exigindo que a NASA, “em coordenação com o Departamento de Defesa e as agências espaciais de outros países”, identificasse e determinasse as características orbitais de todos os “cometas e asteróides com mais de um quilômetro de diâmetro” que estivessem se aproximando da Terra. O trabalho deve estar terminado no ano de 2005. Esse programa de pesquisa tinha sido defendido por muitos cientistas planetários. Mas foi preciso a agonia de um cometa para que fosse implementado.

Distribuídos pelo seu tempo de espera, os perigos da colisão dos asteróides não parecem muito preocupantes. Mas se acontecesse um grande impacto, seria uma catástrofe humana sem precedentes. A possibilidade de uma colisão dessas ocorrer durante a vida [toda] de um bebê recém-nascido é mais ou menos de uma em 2 mil. Muitos não voariam num avião, se a possibilidade de acidente fosse de uma em 2 mil. (Na realidade, nos vôos comerciais, a probabilidade é de uma em 2 milhões. Mesmo assim, muitas pessoas a consideram uma fonte bastante grande de preocupação e chegam até a fazer um seguro). Quando a nossa vida corre risco, mudamos freqüentemente de comportamento para obter perspectivas mais favoráveis. Aqueles que não o fazem tendem a não estar mais conosco...

Talvez fosse preciso praticar, viajando até esses pequenos mundos e desviando as suas órbitas, para o caso de a hora da necessidade soar algum dia... Apesar de Melville, ainda resta parte do entulho da criação, e melhorias devem ser, evidentemente, realizadas.

Ao longo de trilhas paralelas e apenas fracamente interativas, a comunidade da ciência planetária e os laboratórios de armas nucleares dos Estados Unidos e da Rússia, cientes dos roteiros anteriores, têm examinado essas questões: como monitorar todos os objetivos interplanetários, de tamanho razoável, próximos da Terra; como caracterizar sua natureza física e química; como predizer quais os que podem estar numa futura rota de colisão com a Terra; e, finalmente, como impedir que uma colisão venha a acontecer.

Há um século, Konstantin Tsiolkovsky, o pioneiro russo do vôo espacial, defendia a existência de corpos celestes de tamanho intermediário entre os grandes asteróides observados e os fragmentos de asteróides, os meteoritos, que, de vez em quando, caem na Terra. Ele escreveu sobre a possibilidade de se viver em pequenos asteróides no espaço interplanetário. Não tinha aplicações militares em mente. No início dos anos 80, porém, alguns membros influentes da indústria de armamentos norte-americana afirmavam que os soviéticos poderiam usar asteróides próximos da Terra como armas de grande impacto; a alegado plano era chamado “O Martelo de Ivan”. Fazia-se necessário contrapor medidas.

Ao mesmo tempo, sugeria-se que, talvez, não fosse má idéia os Estados Unidos aprenderem a usar os pequenos mundos como armas para seus próprios fins. A Organização de Defesa conta Mísseis Balísticos, do Departamento de Defesa, sucessora do órgão da Guerra nas Estrelas nos anos 80, lançou uma inovadora espaçonave, chamada Clementine, para descrever órbitas ao redor da Lua e passar pelo asteróide Geographos próximo da Terra. (Depois de completar um reconhecimento extraordinário da Lua em maio de 1994, a nave espacial parou de funcionar antes que pudesse alcançar Geographos).

Em princípio, seria possível usar grandes motores de foguetes, impactos de projéteis ou equipar o asteróide com painéis reflexivos gigantescos para impulsioná-lo com a luz solar ou laser potentes com base na Terra. Com a tecnologia atual, porém, há apenas duas maneiras.

Primeiro, uma ou mais armas nucleares e alta potência poderiam desmembrar o asteróide ou o cometa em fragmentos que se desintegrariam ou atomizariam ao entrarem na atmosfera da Terra. Se o pequeno mundo agressor tivesse um coração com uma coesão interna muito fraca, talvez fossem suficientes apenas umas centenas de megatons. Na ausência de limite superior teórico para a potência explosiva de uma arma termonuclear, há, nos laboratórios de armamentos, os que pensam em criar bombas maiores, não apenas como desafio estimulante, mas também para calar ambientalistas incômodos, assegurando um lugar para as armas nucleares no vagão vitorioso dos salvadores da Terra.

Outra abordagem, objeto de discussão mais séria, é menos dramática, embora meio eficaz de manter o poder da indústria de armamento - um plano para alterar a órbita de qualquer pequeno mundo errante explodindo armas nucleares por perto deste. As explosões (geralmente no ponto mais próximo do Sol da órbita do asteróide) são projetadas de modo a desviá-lo para longe da Terra. Uma rajada proveniente de armas nucleares de baixa potência, cada uma dando um pequeno empurrão na direção desejada, é o bastante para desviar um asteróide de tamanho médio com apenas algumas semanas de alerta prévio.

O método também oferece, é o que se espera, um meio de lidar com um cometa de longo período, subitamente detectado em iminente rota de colisão com a Terra: o cometa seria interceptado com um asteróide pequeno. (Não é preciso dizer que esse jogo de bilhar celeste é ainda mais perigoso e incerto - e, portanto, ainda menos prático em futuro próximo - que conduzir um asteróide para uma órbita conhecida e bem-comportada com o prazo de meses ou anos à nossa disposição).

Desconhecemos o efeito de uma explosão nuclear, a certa distância, num asteróide. Pode variar de asteróide para asteróide. Pequenos mundos podem ter uma coesão interna muito forte ou não passar de montes de cascalho gravitando em torno de si mesmos. Se uma explosão divide um asteróide de dez quilômetros cúbicos em centenas de fragmentos de um quilômetro, é provável que aumente a possibilidade de, pelo menos, um deles bater na Terra, e o efeito apocalíptico das conseqüências talvez não seja muito reduzido. Por outro lado, se a explosão fragmenta o asteróide num enxame de objetos com cem metros de diâmetro ou ainda menores, todos podem desaparecer como meteoros gigantes ao entrarem na atmosfera da Terra. Neste caso, os impactos causariam poucos danos. Mesmo, porém, que o asteróide fosse pulverizado em partículas muito finas, a resultante camada de poeira, devido à altitude elevada, poderia ficar tão densa a ponto de bloquear a luz solar e alterar o clima. Ainda não sabemos.

Sugere-se a possibilidade de manter dúzias ou centenas de mísseis carregados de armas nucleares em permanente estado de prontidão para lidar com asteróides ou cometas ameaçadores. Por mais prematura que seja nesta aplicação específica, a visão parece muito familiar; mudou apenas o inimigo...

Afigura-se, também, muito perigosa. O problema, como Steven Ostro e eu já expusemos, é que se podemos desviar, com segurança, um pequeno mundo ameaçador para que ele não colida com a Terra, também podemos, com segurança, acabar desviando um pequeno mundo inofensivo de modo a que ele venha a colidir com a Terra.

Vamos supor que tivéssemos um inventario completo, com as respectivas órbitas, dos estimados 300 mil asteróides próximos da Terra com mais de cem metros - cada um deles bastante grande para que seu impacto com o nosso planeta tivesse sérias conseqüências. E, também, uma lista dos inúmeros asteróides inofensivos cujas órbitas poderiam ser alteradas com ogivas nucleares para que colidissem rapidamente com a Terra. Suponhamos que nossa atenção se limitasse aos cerca de 2 mil asteróides próximos da Terra com um quilômetro de extensão ou ainda maiores, isto é, os que têm maior probabilidade de causar uma catástrofe global.

Atualmente, apenas com cerca de cem desses objetos catalogados, seria preciso mais ou menos um século para captar um deles, quando estivesse em posição de ser facilmente desviado para a Terra, e alterar a sua órbita. Descobrimos um asteróide nessas condições; até agora sem nome, é referido apenas como 1991OA. Em 2070, passará a 4,5 milhões de quilômetros da Terra - apenas quinze vezes a distância até a Lua. Para desviar 1991OA, de modo que atinja a Terra, basta explodir, adequadamente, uns sessenta megatons de TNT - o equivalente a um pequeno número das ogivas nucleares atualmente disponíveis.

Imagine-se, agora, uma época, daqui a algumas décadas, todos esses asteróides próximos da Terra inventariados e suas órbitas compiladas. Neste caso, como Alan Harris, do JPL, Greg Canavan do Laboratório Nacional de Los Alamos, Ostro e eu mostramos, em apenas um ano seria possível selecionar um objeto adequado, alterar sua órbita e impeli-lo a espatifar-se sobre a Terra com efeitos cataclísmicos. A tecnologia requerida - grandes telescópios ópticos, detectores sensíveis; sistemas de propulsão de foguetes capazes de lançar algumas toneladas de carga e realizar encontros precisos no espaço próximo; armas termonucleares - já está, hoje, disponível. Todos esses itens, à exceção talvez do último, são passíveis de aperfeiçoamento. Se não formos cuidadosos, muitas nações, nas próximas décadas, terão acesso a essa tecnologia. Que tipo de mundo teremos criado então?

Tendemos a minimizar os perigos das novas tecnologias. Um ano antes do desastre de Chernobyl, um comissário da indústria de energia nuclear foi questionado sobre a segurança dos reatores soviéticos e apontou Chernobyl como um local especialmente seguro. O tempo de espera médio para um desastre, estimou com confiança, era de 100 mil anos. Menos de um ano mais tarde... a devastação.

Os empreiteiros da NASA fizeram afirmações igualmente tranqüilizadoras um ano antes do desastre da Challenger: teríamos de esperar 10 mil anos, segundo suas estimativas, para um fracasso catastrófico do ônibus espacial. Um ano mais tarde... dor e sofrimento.

Os clorofluorcarbonos (CFCS) foram desenvolvidos, como agentes de refrigeração totalmente seguros, para substituir a amônia e outros fluidos de refrigeração que, ao vazarem, tinham causado doenças e algumas mortes. Quimicamente inertes, não tóxicos (em concentrações comuns), sem cheiro, sem gosto, não alergênicos, não inflamáveis, os CFCS representavam um brilhante solução técnica para um problema prático bem definido. Mostraram-se úteis em muitas outras indústrias além da refrigeração e do ar condicionado. Mas os químicos que desenvolveram os CFCS negligenciaram um fato essencial: que a própria inércia dessas moléculas garante que elas circulem até altitudes estratosféricas e sejam ali decompostas pela luz solar, liberando átomos de cloro que então atacam a camada protetora de ozônio.

Devido ao trabalho de alguns cientistas, os perigos foram reconhecidos e prevenidos a tempo. Atualmente, nós humanos quase paramos de produzir CFCS. Não saberemos se conseguimos evitar os danos reais por mais ou menos um século; é o tempo que todo o estrago causado pelos CFCS leva para se completar.

Como os antigos habitantes de Camarina, cometemos erros. E não só ignoramos freqüentemente as advertências dos oráculos, como é típico de nossa conduta, nem sequer os consultamos...

A idéia de atrair asteróides para a órbita da Terra tem mobilizado alguns cientistas espaciais e planejadores de longo prazo. Prevêem extrair minerais e metais preciosos desses mundos, ou conseguir recursos para a construção da infra-estrutura espacial, sem ter de lutar com a gravidade da Terra. Publicam-se artigos sobre como realizar esse objetivo e seus benefícios. Modernamente, discute-se sobre como colocar o asteróide em órbita ao redor da Terra, fazendo-se com que primeiro passe e seja freado pela atmosfera terrestre, manobra com muito pouca margem de erro.

Em futuro próximo, acho que se reconhecerá que todo esse empenho é extraordinariamente perigoso e temerário, sobretudo no caso de mundos pequenos com mais de dezenas de metros de extensão. É uma atividade em que erros de navegação, de propulsão ou no projeto da missão podem ter vastas e catastróficas conseqüências. Os casos precedentes são exemplos de inadvertência.

Há, porém, outro tipo de perigo: às vezes, escutamos que esta ou aquela invenção jamais seria mal empregada. Nenhuma pessoa, em sã consciência, seria tão temerária. É a argumentação do “só um louco...” Sempre que a ouço (e ela aparece com freqüência nesses debates), lembro-me de que os loucos realmente existem. Às vezes, alcançam os níveis mais elevados de poder político nas modernas nações industriais. Este é o século de Hitler e Stalin, tiranos que criaram perigos gravíssimos não só para o resto da família humana, mas também para seus próprios povos.

No inverno e na primavera de 1945, Hitler ordenou que a própria Alemanha fosse destruída - até mesmo “o que as pessoas precisam para a sobrevivência elementar” - porque os alemães sobreviventes o tinham “traído” e, de qualquer forma, eram “inferiores” aos que já haviam morrido. Se Hitler tivesse à disposição armas nucleares, a ameaça de um contra-ataque aliado, com as mesmas armas (no caso de haver alguma), provavelmente não o dissuadiria. Antes, poderia te-lo encorajado.

É possível confiar em tecnologias que ameaçam a civilização? No próximo século (século XXI), a probabilidade de grande parte da população humana ser aniquilada por um impacto de asteróide é de quase uma em mil. Maior é a probabilidade de a tecnologia de desviar asteróides cair em mãos erradas no decorrer de outro século - algum sociopata misantropo como Hitler ou Stalin ansioso por matar todo mundo, um megalomaníaco desejoso de “grandeza” e “glória”, uma vitima da violência étnica determinada a fazer vingança, alguém acometido por um envenenamento gravíssimo de testosterona, um fanático religioso apressando o Dia do Juízo Final, ou apenas a imperícia ou negligência de técnicos incompetentes no manejo de controles e salvaguardas? Pessoas desse tipo existem.

Os riscos parecem muito piores que os benefícios, a cura, pior que a doença. A nuvem de asteróides próximos da Terra, que nosso planeta atravessa com dificuldade, talvez seja um moderno pântano de Camarina. É fácil pensar que tudo isso é muito improvável, simples fantasia de ansiosos. Que, sem dúvida, as cabeças sóbrias prevalecerão. Mas é só pensar em quantas pessoas estariam envolvidas em preparar e lançar as ogivas, em cuidar da navegação espacial, em detonar as ogivas, em checar a perturbação orbital provocada pela explosão nuclear, em colocar o asteróide numa trajetória de impacto com a Terra, e assim por diante.

Não é digno de nota que, embora Hitler ordenasse que as tropas nazistas em retirada queimassem Paris e devastassem a própria Alemanha, suas ordens não tenham sido cumpridas? Alguém, essencial para o sucesso da missão de deflexão, sem duvida reconhecerá o perigo. Até afirmações de que o projeto tem a intenção de destruir alguma ignóbil nação inimiga seriam provavelmente desacreditadas, porque os efeitos da colisão atingem todo o planeta (e, de qualquer forma, é muito difícil ter a certeza de que o asteróide escavará a sua cratera monstruosa numa nação particularmente merecedora desse desastre).

Vamos, agora, imaginar um estado totalitário que, em vez de ser invadido por tropas inimigas, prosperasse confiante em si mesmo. Que tivesse uma tradição em que as ordens fossem obedecidas sem questionamento. Que se contasse aos envolvidos na operação uma história fictícia: o asteróide estaria prestes a chocar-se com a Terra, e, pois, impunha-se desvia-lo; mas, para não preocupar desnecessariamente as pessoas, a operação deveria ser mantida em segredo.

Num ambiente militar, com uma hierarquia do comando firmemente estabelecida, compartimentação do conhecimento, sigilo geral e uma história que encobrisse a verdade, poderíamos ter a certeza de que até mesmo ordens apocalípticas não seriam obedecias? Estamos, realmente, seguros de que, nas próximas décadas, séculos e milênios, nada semelhante poderia acontecer? Qual o grau de nossa certeza?

Não adianta dizer que todas as tecnologias podem ser usadas para o bem e para o mal. Isso é verdade, sem dúvida, mas, quando o “mal” chega a uma escala suficientemente apocalíptica, temos que impor limites ao desenvolvimento da tecnologia. (De certa forma, é o que sempre fazemos, pois não podemos nos dar ao luxo de desenvolver todas as tecnologias. Algumas são favorecidas em detrimento de outras.) Ou a comunidade de nações terá de impor restrições aos loucos, aos autocratas e aos fanáticos.

Rastrear asteróides e cometas é prudente, é boa ciência e não custa muito. Conhecendo, porém, nossas fraquezas, por que nem sequer consideraríamos desenvolver a tecnologia para deflectir mundos pequenos? Por segurança, devemos imaginar essa tecnologia nas mãos de muitas nações, cada uma providenciando controles e compensações contra o mau emprego que a outra dela fizer? Isso está próximo de ser o antigo equilíbrio de terror nuclear. Nenhum louco, determinado a causar uma catástrofe global, vai sentir-se inibido por saber que, se não se apressar, algum rival poderá vencê-lo na corrida.

Que garantia teremos de que a comunidade das nações será capaz de detectar uma deflexão clandestina de asteróide, inteligentemente projetada, a tempo de tomar alguma medida a respeito? Se uma tecnologia desse tipo fosse desenvolvida, seria possível imaginar salvaguardas internacionais que tivessem confiabilidade proporcional ao risco? Mesmo que nos limitemos à simples vigilância, há um risco.

Imaginemos que, no espaço de uma geração, consigamos caracterizar as órbitas de 300 mil objetos com cem metros de diâmetro ou mais, e que essas informações sejam divulgadas; como, sem dúvida, devem ser. Serão publicados mapas que mostrem o espaço próximo da Terra coberto pelas órbitas de asteróides e cometas, 30 mil espadas de Dâmocles suspensas sobre nossas cabeças; um número dez vezes maior que o das estrelas visíveis a olho nu em condições de excelente claridade atmosférica.

A ansiedade pública poderá ser muito mais intensa, nessa época bem informada, que em nossa presente era de ignorância. Talvez haja uma irresistível pressão pública no sentido de mitigar até ameaças inexistentes, o que alimentaria o perigo de a tecnologia da deflexão ser mal empregada. Por essa razão, a descoberta e a fiscalização dos asteróides poderá não ser uma simples ferramenta neutra de políticas futuras, mas, antes, uma espécie de armadilha para os incautos.

Para mim, a única solução previsível é combinar estimativas precisas das órbitas, avaliações realistas das ameaças e uma educação pública efetiva. Assim, ao menos nas democracias, os cidadãos poderão decidir com conhecimento de causa. É uma tarefa para a NASA. Os asteróides próximos da Terra e os meios de alterar suas órbitas estão sendo considerados seriamente. Há sinais de que funcionários do Departamento de Defesa e dos laboratórios de armamentos começam a compreender os perigos reais de pretender mudar a direção dos asteróides no espaço. Cientistas civis e militares reúnem-se para discutir o assunto.

Ao ouvirem pela primeira vez sobre o perigo dos asteróides, muitas pessoas o vêem como uma espécie de fábula dos pintinhos; a gansa Lucy, recém-chegada e muita agitada, dá a notícia urgente de que o céu está caindo. A tendência de menosprezar a perspectiva de qualquer catástrofe que não presenciamos pessoalmente é, em ultima análise, muito tola. Neste caso, porém, pode ser uma aliada da prudência.

Enquanto isso, ainda temos de enfrentar o dilema da deflexão. Se desenvolvemos essa tecnologia e a empregamos, ela pode nos destruir. Se nada fizermos, algum asteróide ou cometa poderá impor-nos a destruição. A resolução do problema depende, a meu ver, do fato de que as prováveis escalas de tempo dos dois perigos são muito diferentes - curta para o primeiro, longa para o último.

Gosto de pensar que, no futuro, nosso envolvimento com os asteróides próximos da Terra será mais ou menos nos seguintes moldes: a partir de observações feitas da Terra, descobriremos todos os grandes asteróides, marcaremos e monitoraremos suas órbitas, determinaremos os tempos de rotação e as composições. Os cientistas trabalharão diligentemente para explicar os perigos - sem exagerar, nem omitir perspectivas. Enviaremos espaçonaves robóticas que passem por alguns corpos selecionados, girem ao ser redor, pousem neles e tragam amostras da superfície para o laboratório da Terra. Por fim, enviaremos seres humanos. (Devido à baixa gravidade, eles serão capazes de dar, sem grande impulso, saltos enormes, de dez quilômetros ou mais, céu adentro, e de colocar uma bola de beisebol em órbita ao redor do asteróide). Plenamente cientes dos perigos, não tentaremos alterar as trajetórias até que seja minimizado o potencial de mau emprego das tecnologias que modificam mundos.

Isso, talvez, leve algum tempo. Se nos apressarmos em desenvolver a tecnologia para deslocar mundos, poderemos nos destruir; se retardarmos o passo, certamente nos destruiremos. As organizações políticas mundiais terão de fazer progressos significativos no sentido de sua confiabilidade, antes de lhes atribuirmos o tratamento de um problema dessa seriedade. Ao mesmo tempo, não parece haver nenhuma solução nacional aceitável. Quem se sentiria confortável com os meios de destruição de mundos nas mãos de alguma nação inimiga consagrada (ou mesmo potencial), tivesse ou não a nação poderes semelhantes?

A existência de colisões interplanetárias fortuitas, se compreendida em grande escala, contribuirá para unir a espécie. Ao nos confrontarmos com um perigo comum, temos atingido alturas que quase todos consideravam impossíveis; temos posto de lado nossas diferenças - pelo menos até que o perigo passe. Mas este perigo não passa nunca. Os asteróides, revolvendo-se gravitacionalmente, estão, aos poucos, alterando suas órbitas; sem aviso, novos cometas abandonam a escuridão transplutônica e vêm, adernados, em nossa direção. Sempre será necessário lidar com eles de modo que não nos ofereçam perigo.

Ao propor duas classes diferentes de perigo - um natural, o outro criado pelo homem - os pequenos mundos próximos da Terra oferecem nova e potente motivação para criar instituições transnacionais efetivas e para unificar a espécie humana. Difícil vislumbrar alternativa satisfatória. Em nosso habitual modo nervoso, dois-passos-para-a-frente-um-para-trás, estamos, de qualquer maneira, avançando rumo à unificação. Há influências poderosas que derivam das tecnologias de transporte e comunicações, da economia mundial interdependente e da crise ambiental global. O perigo de impactos apenas apressa nosso passo.

Cuidando, por fim, escrupulosamente, de não tentar com os asteróides nada que possa, por inadvertência, causar uma catástrofe na Terra, imagino que começaremos a aprender como mudar de cem metros de extensão uma órbita. Iniciaremos com explosões menores e, lentamente, aumentaremos a potência dessas explosões. Ganharemos experiência alterando as órbitas de vários asteróides e cometas de diferentes composições e forças. Tentaremos determinar quais os asteróides que podem e quais não podem ser deslocados. No século XXII, estaremos, talvez, deslocando pequenos mundos pelo Sistema Solar, empregando (ver o próximo capítulo), em vez de explosões nucleares, motores de fusão nuclear ou seus equivalentes. Colocaremos, na órbita da Terra, pequenos asteróides compostos de metais preciosos ou industriais. Desenvolvermos, gradativamente, uma tecnologia defensiva para defletir um grande asteróide ou cometa que possa, em futuro previsível, atingir a Terra, enquanto, com um cuidado meticuloso, construiremos salvaguardas contra o mau emprego da tecnologia.

Como o mau emprego da tecnologia de deflexão parece um perigo muito maior que o de um impacto iminente, podemos nos dar ao luxo de esperar, tomar precauções e, durante décadas certamente, talvez séculos, apenas reconstruir as instituições políticas. Se jogarmos bem com as nossas cartas e não tivermos azar, poderemos sincronizar o progresso que obtemos no espaço com o que estamos conseguindo aqui na Terra. De qualquer modo, ambos estão, profundamente, conectados.

O perigo dos asteróides nos obriga a agir. Finalmente, devemos estabelecer uma formidável presença humana por todo o Sistema Solar interior. Numa questão dessa importância, não nos limitaremos aos meios puramente robóticos. Para cumprir esse objeto com segurança, devemos fazer mudanças em nossos sistemas políticos e internacionais. Embora grande parte de nosso futuro esteja nublado, esta conclusão parece um pouco mais sólida, e independente dos caprichos das instituições humanas.

Em última análise, mesmo que fôssemos os descendentes de errantes profissionais, mesmo que não nos inspirasse a paixão exploratória, alguns ainda teriam de abandonar a Terra - simplesmente para assegurar a sobrevivência de todos nós. E, uma vez no espaço, precisaríamos de bases, infra-estrutura. Não demoraria muito para que alguns estivessem vivendo em habitats artificiais e em outros mundos. Este é o primeiro de dois argumentos não mencionados, omitidos em nossa discussão sobre as missões a Marte, a favor de uma presença humana permanente no espaço.

Outros sistemas planetários devem enfrentar seus próprios riscos de impacto. Os pequenos mundos primitivos, de que os asteróides e os cometas são restos, também constituem a matéria que entra na formação dos planetas. Depois que os planetas se formam, muitos destes planetesimais se tornam sobras. O tempo de espera médio entre os impactos, que ameaçam a civilização na Terra, é, talvez, 200 mil anos, vinte vezes a idade de nossa civilização. Se existirem, as civilizações extraterrestres podem ter tempos de espera muito diferentes, dependendo de fatores como características físicas e químicas do planeta e sua biosfera, natureza biológica e social da civilização, além da própria taxa de colisão, é claro.

Os planetas com pressões atmosféricas mais elevadas serão protegidos contra corpos impactantes bem maiores, embora a pressão não possa atingir valores muito altos, porque senão o aquecimento do efeito estufa e outras conseqüências tornariam a vida improvável. Se a gravidade é muito menor que a da Terra, os corpos impactantes provocarão colisões menos energéticas e o perigo será reduzido - embora não possa ser muito reduzido, porque senão a atmosfera escapa para o espaço.

A taxa de impacto em outros sistemas planetários é incerta. Nosso sistema contém duas grandes populações de pequenos corpos que abastecem de impactantes potenciais as órbitas que cruzam a da Terra. Tanto a existência de populações-fonte como os mecanismos que mantêm a taxa de colisão dependem da forma como os mundos são distribuídos. Por exemplo, a nossa Nuvem de Oort parece ter sido povoada por pequenos mundos glaciais ejetados das proximidade de Urano e Netuno. Se não houver planetas que desempenhem o papel de Urano e Netuno em sistemas que são, sob outros aspectos, semelhantes ao nosso, suas Nuvens de Oort podem ter uma população muito mais escassa.

As estrelas em aglomerados estelares abertos e globulares, em sistemas duplos ou múltiplos, as mais próximas do centro da galáxia, as que têm encontros mais freqüentes com as Nuvens Moleculares Gigantes no espaço interestelar, todas podem vivenciar fluxos de impactos mais elevados em seus planetas terrestres.

O fluxo cometário poderia ser centenas ou milhares de vezes maior na Terra, se o planeta Júpiter nunca tivesse se formado, segundo cálculos de George Wetherill, da Instituição Carnegie de Washington. Em sistemas sem planetas como Júpiter, o escudo gravitacional contra cometas é pequeno, e os impactos que ameaçam a civilização, muito mais freqüentes.

Em certa medida, fluxos maiores de objetos interplanetários podem aumentar a velocidade da evolução, como os mamíferos que floresceram e se diversificaram depois que a colisão do período cretáceo-terciário exterminou os dinossauros. Deve haver, porém, um ponto de rendimento decrescente: sem dúvida, algum fluxo será elevado demais para a continuação de qualquer civilização.

Uma conseqüência dessa linha de argumentação é que, mesmo no caso de ser comum o aparecimento de civilizações nos planetas por toda galáxia, poucas serão, ao mesmo tempo, duradouras e não tecnológicas. Como o perigo dos asteróides e cometas deve se aplicar a todos os planetas habitados na galáxia, se é que eles existem, por toda parte os seres inteligentes terão de unificar politicamente seus mundos natais, abandonar seus planetas e deslocar os pequenos mundos próximos. Sua opção definitiva, como a nossa, é o vôo espacial ou a extinção.