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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

As evidências da evolução (Richard Dawkins) - 4

(Continuação da obra "As evidências da evolução",
de Richard Dawkins)

Capítulo 4

RELÓGIOS

[sobre formas de determinação da idade da Terra e dos fósseis]

"[No que diz respeito aos que negam a idade geológica real da Terra,]
Considerando que o único motivo para tamanha deturpação
é o desejo de sustentar o mito de origem de um grupo específico
de membros de tribo do deserto da Idade do Bronze,
é surpreendente, para dizer o mínimo,
que alguém ainda se deixe enganar por ele."
(R. Dawkins)

Se os negadores da história que duvidam do fato da evolução são ignorantes em biologia, os que pensam que o mundo começou há menos de 10 mil anos são mais do que ignorantes: estão renitentemente iludidos. Eles negam não só os fatos da biologia, mas os da física, geologia, cosmologia, arqueologia, história e química.

Este capítulo explica como sabemos a idade das rochas e dos fósseis nela encerrados e apresenta as evidências de que a escala de tempo na qual a vida opera neste planeta é medida não em milhares, mas em milhares de milhões de anos.

Lembremos que os cientistas evolucionários estão na posição de detetives que chegam tarde à cena do crime. Para saber ao certo quando as coisas aconteceram, dependemos de vestígios deixados por processos que, por sua vez, dependem do tempo — 'relógios', em um sentido abrangente.

Uma das primeiras coisas que um detetive faz ao investigar um assassinato é pedir a um médico ou patologista uma estimativa da hora em que ocorreu a morte. Dessa informação podem ser deduzidas muitas coisas, e nas histórias de detetive a estimativa do patologista recebe uma reverência quase mística. A "hora da morte" é um fato básico, um eixo infalível em torno do qual giram as especulações mais ou menos plausíveis do detetive.

No entanto, obviamente essa estimativa é passível de erro, um erro que é possível medir e que pode ser muito grande. O patologista usa vários processos dependentes do tempo para estimar a hora da morte: o corpo esfria a uma velocidade característica, o rigor mortis tem início em certo momento e assim por diante. Esses são os "relógios" rudimentares disponíveis ao investigador do assassinato.

Os relógios disponíveis ao cientista evolucionário são potencialmente muito mais acurados — em proporção à escala de tempo envolvida, é claro, e não mais acurados em termos absolutos. A analogia com um relógio de precisão é mais persuasiva para uma rocha jurássica nas mãos de um geólogo do que para um cadáver que se resfria nas mãos do patologista.

Os relógios feitos pelo homem trabalham em escalas de tempo que são muito curtas pelos padrões evolucionários — horas, minutos, segundos —, e os processos dependentes do tempo que eles usam são rápidos: o balanço de um pêndulo, os giros de um cabelo, a oscilação de um cristal, a queima de uma vela, o escoamento da água em um recipiente ou da areia numa ampulheta, a rotação da Terra (registrada por um relógio de sol).

Todos os relógios baseiam-se em algum processo que ocorre a um ritmo regular e conhecido. Um pêndulo balança a um ritmo bem constante, que depende de seu comprimento mas não, ao menos em teoria, da amplitude da oscilação ou da massa do peso na ponta. O carrilhão funciona com um pêndulo ligado a um escapo que avança em direção a uma roda dentada, passo a passo; a rotação então é transmitida para baixo à velocidade de rotação do ponteiro das horas, do ponteiro dos minutos e do ponteiro dos segundos. Os relógios com a roda de cabelo funcionam de modo semelhante. Os relógios digitais usam um equivalente eletrônico do pêndulo, a oscilação de certos tipos de cristais quando supridos de energia vinda de uma bateria. Os relógios de água e os de vela são muito menos precisos, mas foram úteis antes da invenção dos relógios contadores de eventos. Eles dependem não da contagem de alguma coisa, como o relógio de pêndulo ou o digital, mas da medição de alguma quantidade.

O relógio de sol é um modo impreciso de medir o tempo. Mas a rotação da Terra, que é o processo dependente de tempo no qual ele se baseia, é acurada na escala de tempo do relógio mais lento que denominamos calendário. Isso porque, nessa escala de tempo, ela não é mais um relógio medidor (o relógio de sol mede o ângulo continuamente variável do Sol), mas um relógio contador (que conta os ciclos de dia/noite).

Temos à disposição, na imensamente lenta escala de tempo da evolução, tanto relógios contadores como medidores. Mas para investigar a evolução não precisamos apenas de um relógio que nos indique a hora presente, como fazem o relógio de sol e o de pulso. Precisamos de algo mais nas linhas de um cronômetro que possa ser reiniciado. Nosso relógio evolucionário precisa ser zerado em algum ponto para que possamos calcular o tempo decorrido desde o ponto inicial de modo a obter, por exemplo, a idade absoluta de algum objeto, como uma rocha, por exemplo. Os relógios radioativos para datar rochas ígneas (vulcânicas) são convenientemente zerados no momento em que a rocha se forma com a solidificação de lava derretida.

Felizmente dispomos de vários relógios naturais que podem ser zerados. É bom que haja tal variedade, pois assim podemos usar alguns relógios para aferir a acurácia de outros. Temos mais sorte ainda porque eles abrangem sensivelmente uma gama muito ampla de escalas de tempo, e precisamos disso também porque as escalas de tempo evolucionárias abarcam seis ou sete ordens de grandeza.

Vale a pena explicitar o que isso significa. Uma ordem de grandeza denota algo preciso. Uma mudança em uma ordem de grandeza é uma multiplicação (ou divisão) por dez. Como usamos um sistema decimal, a ordem de grandeza de um número é uma contagem do número de zeros antes ou depois do ponto decimal. Assim, uma variação de oito ordens de grandeza é uma variação de 100 milhões de vezes. O ponteiro dos segundos de um relógio faz a rotação sessenta vezes mais rápido do que o dos minutos e 720 vezes mais rápido que o das horas; portanto, os três ponteiros abrangem uma variação menor do que três ordens de grandeza. Isso é uma ninharia em comparação com as oito ordens de grandeza abrangidas por nosso repertório de relógios geológicos.

Os relógios de desintegração radioativa também estão disponíveis para escalas de tempo curtas, inclusive de frações de segundo; mas para propósitos evolucionários, relógios capazes de medir séculos ou, talvez, décadas são os mais rápidos de que precisamos. Esse extremo rápido do espectro dos relógios naturais — as datações por anéis de árvore e carbono — é útil para fins arqueológicos e para datar espécimes no tipo de escala de tempo que abrange a domesticação do cão ou da couve. No outro extremo da escala, precisamos de relógios naturais que possam marcar o tempo em centenas de milhões, ou mesmo bilhões de anos. E, maravilha, a natureza nos forneceu exatamente a variedade de relógios de que precisamos. Mais ainda: suas faixas de sensibilidade sobrepõem-se, de modo que podemos usá-los para conferir uns aos outros.

ANÉIS DE ÁRVORE

Podemos usar um relógio de anéis de árvore para datar um pedaço de madeira, por exemplo, uma viga de uma mansão em estilo Tudor, com espantosa precisão em anos. Vejamos como isso funciona.

Primeiro, como muitos sabem, é possível calcular a idade de uma árvore recém-cortada contando-se os anéis em seu tronco, com a suposição de que o anel externo representa o presente. Os anéis retratam o crescimento diferencial nas diversas estações do ano — inverno ou verão, estação seca ou estação chuvosa — e são especialmente pronunciados nas grandes latitudes, onde as estações são bem marcadas.

Por sorte, não precisamos derrubar a árvore para datá-la. Podemos espiar seus anéis sem matá-la, introduzindo uma sonda em seu tronco e extraindo uma amostra do cerne.

Mas apenas contar os anéis não nos dirá em que século a viga da casa ou o mastro do navio viking estavam vivos. Se quisermos saber exatamente a data de um pedaço de madeira antigo, morto há muito tempo, temos de ser mais sutis: não apenas contar os anéis, mas analisar o padrão de anéis grossos e finos.

Assim como a existência de anéis indica os ciclos sazonais de crescimento intenso e fraco, também existem anos melhores e anos piores, pois as manifestações climáticas variam de ano para ano; ocorrem secas que retardam o crescimento e anos excelentes que o aceleram; alguns anos são frios, outros quentes, e há, inclusive, anos com catástrofes anormais como o El-Niño ou a que assolou Krakatoa. Os anos bons, do ponto de vista da árvore, produzem anéis mais largos do que os anos ruins.

O padrão de anéis largos e estreitos em uma dada região, causado por uma sequência específica de bons e maus ano, é suficientemente característico — uma impressão digital que rotula os anos exatos em que os anéis se formaram — para ser reconhecível de uma árvore para outra, como uma marca registrada.

Os dendrocronologistas medem anéis em árvores recentes, nas quais a data exata de cada anel é conhecida contando-se retrocessivamente a partir do ano em que se sabe que a árvore foi abatida. A partir dessas medições, eles constroem uma coleção referencial de padrões de anéis, e com ela é possível comparar os padrões de anéis de uma amostra arqueológica de madeira cuja data se quer conhecer.

Eis um exemplo de como seria um relatório: "Esta viga Tudor contém uma sequência distintiva de anéis que se equipara a uma sequência da coleção de referência, cuja época de abate foi determinada entre os anos 1541 a 1547. Portanto, a casa foi construída depois do ano 1547 d.C".

Perfeito. Mas acontece que nem todas as árvores de hoje estavam vivas na época Tudor, muito menos na idade da pedra ou antes. Existem algumas árvores — certas espécies de pinheiro, algumas sequoias gigantes — que vivem por milênios, mas a maioria das árvores usadas em construção é cortada com menos de um século de vida. Como, então, montar uma série de referência de anéis para tempos mais antigos? E para tempos tão distantes que nem mesmo os mais antigos pinheiros sobreviventes alcançam?

Acho que você já adivinhou a resposta: pelas coincidências. Uma corda forte pode ter cem metros de comprimento, mas nenhuma de suas fibras isoladas tem mais do que uma fração desse total. Para usar o princípio da coincidência em dendrocronologia usamos os padrões característicos de referência cuja data é conhecida pela análise de árvores modernas. Em seguida, identificamos um padrão característico nos anéis antigos das árvores modernas e procuramos essa mesma "impressão digital" nos anéis mais jovens de árvores mortas há muito tempo. Depois olhamos as impressões digitais dos anéis mais velhos dessas mesmas árvores mortas há muito tempo e procuramos o mesmo padrão nos anéis mais jovens de árvores ainda mais velhas. E assim por diante [porque a infância da árvore mais recente coincidiu com a velhice de suas antecessoras imediatas, compartilhando com estas um mesmo padrão de anéis devido a viverem sob as mesmas condições climáticas, e a infância das árvores velhas em relação às atuais coincidiu, por sua vez, com a velhice de suas avós-árvores {tetra-avós das atuais}, e assim sucessivamente].

Teoricamente, poderíamos prosseguir nossa busca com esse encadeamento retrocessivo por milhões de anos usando florestas petrificadas, embora na prática a dendrocronologia só seja usada em escalas de tempo arqueológicas de alguns milhares de anos. E o assombroso na dendrocronologia é que, ao menos em teoria, mesmo para uma floresta petrificada de 100 milhões de anos podemos estimar a data em anos exatos. E podemos afirmar que o anel X de uma árvore fóssil jurássica formou-se exatamente 257 anos depois do anel Y de outra árvore jurássica!

Se existissem florestas petrificadas suficientes para se construir uma série ininterrupta desde o presente, poderíamos calcular que determinada árvore não é simplesmente da era jurássica: ela estava viva exatamente no ano 151.432.657 a.C!

Infelizmente não dispomos de tal série ininterrupta. Por isso, na prática, a dendrocronologia nos permite voltar ao passado por apenas cerca de 11.500 anos. Ainda assim, sentimos uma comichão quando pensamos que, se pudéssemos encontrar florestas petrificadas o suficiente, seríamos capazes de fazer datações em anos exatos que abrangessem uma faixa de centenas de milhões de anos.

Os anéis de árvore não são o único sistema que viabiliza uma datação em anos exatos. Em lagos glaciais encontramos camadas de sedimentos chamadas varves, que se depositam no fundo. Como os anéis de árvore, os varves variam sazonalmente e de ano a ano. Assim, teoricamente os varves nos permitem usar o mesmo princípio, com o mesmo grau de acurácia. Também os recifes de coral têm anéis de crescimento anual, como as árvores. Um uso fascinante dado a eles é na datação de terremotos ocorridos no passado distante. Aliás, anéis de árvore também podem indicar a data em que terremotos ocorreram.

A maioria dos outros sistemas de datação disponíveis, incluindo todos os relógios radioativos que efetivamente usamos em escalas temporais de dezenas de milhões, centenas de milhões ou bilhões de anos, têm sua precisão limitada por uma margem de erro que é aproximadamente proporcional à respectiva escala de tempo [isto é, numa estimativa de "X bilhões", por exemplo, pode haver erro de alguma fração de bilhão a mais ou a menos].

RELÓGIOS RADIOATIVOS

Examinemos agora os relógios radioativos. Há uma porção deles a escolher e, como eu já disse, para nossa sorte eles abrangem de séculos a bilhões de anos. Cada um tem sua margem de erro, que costuma ser de aproximadamente 1%.

Assim, para datar uma rocha de bilhões de anos temos de nos satisfazer com um erro [ou melhor, com uma possibilidade de erro] aproximado de dezenas de milhões de anos a mais ou a menos. Para datar uma rocha de centenas de milhões de anos, temos de nos contentar com um erro de milhões. Para datar uma rocha de apenas dezenas de milhões de anos, devemos admitir um erro de mais ou menos centenas de milhares.

Para entender como funcionam os relógios radioativos, primeiro precisamos compreender o que é um isótopo radioativo.

Toda a matéria é composta de elementos, os quais em geral se combinam quimicamente com outros elementos. Existem aproximadamente cem deles [cf. Tabela Periódica]; um pouco mais, se contarmos os que somente podem ser detectados em laboratório; um pouco menos, se considerarmos apenas os encontrados na natureza. Exemplos de elementos são: carbono, ferro, nitrogênio, alumínio, magnésio, flúor, argônio, cloro, sódio, urânio, chumbo, oxigênio, potássio e estanho.

A teoria atômica — que, suponho, todos aceitam, inclusive os criacionistas — nos diz que cada elemento tem seu átomo característico, que é a menor partícula em que se pode dividir um elemento sem que ele deixe de ser esse elemento.

Como é o aspecto de um átomo, digamos, de um átomo de chumbo, ou de cobre, ou de carbono? Bem, certamente não se parece nada com o chumbo, o cobre ou o carbono visíveis macroscopicamente. Ele não tem aparência nenhuma, pois é pequeno demais para formar qualquer tipo de imagem em nossa retina, mesmo com um microscópio ultrapoderoso.

Podemos usar analogias ou modelos que nos ajudarão a visualizar um átomo. O modelo mais famoso foi criado pelo grande físico dinamarquês Niels Bohr. O modelo de Bohr, hoje bem ultrapassado, é um sistema solar em miniatura. No papel do Sol está o núcleo, em torno do qual orbitam os elétrons no papel dos planetas. Como no sistema solar, quase toda a massa do átomo está contida no núcleo ("sol"), e quase todo o volume está contido no espaço vazio que separa os elétrons ("planetas") do núcleo.

Um elétron é minúsculo em comparação com o núcleo, e o espaço entre os elétrons e o núcleo é imenso em relação ao tamanho dessas duas partículas. Uma analogia muito usada é a do núcleo como uma mosca no meio de um estádio de futebol. O núcleo vizinho mais próximo é outra mosca, no meio de um estádio adjacente. Os elétrons de cada átomo alvoroçam-se em órbita de suas respectivas moscas, menores do que o mais minúsculo dos borrachudos, pequenos demais para ser vistos na mesma escala das moscas.

Quando vemos um sólido pedaço de ferro ou rocha, na "realidade" estamos olhando para o que é um espaço quase inteiramente vazio. Ele parece sólido e dá ao tato a sensação de solidez porque nosso sistema sensório e nosso cérebro por conveniência o tratam como se fosse sólido e opaco. É conveniente para o cérebro representar uma rocha como algo sólido porque não podemos atravessá-la. "Sólido" é o nosso modo de perceber pelos sentidos as coisas que não podemos atravessar andando ou caindo devido às forças eletromagnéticas entre os átomos. "Opaco" é a experiência que temos quando a luz ricocheteia na superfície de um objeto sem atravessá-lo.

Três tipos de partícula entram na composição do átomo, ou pelo menos é o que supõe o modelo de Bohr. Os elétrons nós já encontramos. As outras duas, muito maiores do que os elétrons, mas ainda minúsculas se comparadas a qualquer coisa que possamos imaginar ou perceber pelos sentidos, chamam-se prótons e nêutrons e são encontradas no núcleo. As duas têm quase o mesmo tamanho.

O número de prótons é fixo para cada elemento e igual ao número de elétrons. É chamado de número atômico. Cada elemento tem seu número atômico exclusivo, e não há lacunas na lista dos números atômicos, a famosa lista chamada de tabela periódica. Cada número na sequência corresponde exatamente a um, e somente a um, elemento. O elemento de número atômico 1 é o hidrogênio, 2 é hélio, 3 lítio, 4 berilo, 5 boro, 6 carbono, 7 nitrogênio, 8 oxigênio e assim por diante até números altos como 92, o número atômico do urânio.

Protons e elétrons têm cargas elétricas de sinais opostos — por convenção arbitrária, chamamos uma delas de positiva e a outra de negativa. Essas cargas são importantes quando os elementos formam compostos químicos uns com outros, o mais das vezes mediados por elétrons. Os neutrons de um átomo são ligados ao núcleo juntamente com os prótons. Ao contrário destes, eles não têm carga elétrica e não desempenham nenhum papel em reações químicas.

Os prótons, neutrons e elétrons de qualquer dado elemento são exatamente iguais aos de qualquer outro elemento. Não existem, por exemplo, próton com sabor de ouro, elétron com sabor de cobre ou nêutron com sabor de potássio. Um próton é um próton e pronto; o que faz um átomo de cobre é o fato de ele possuir exatamente 29 prótons (e exatamente 29 elétrons). O que comumente concebemos como a natureza do cobre é uma questão de química. A química é uma dança de elétrons, e se define pelas interações dos átomos por meio de seus elétrons.

Ligações químicas são facilmente rompidas e refeitas, pois nelas apenas elétrons são separados ou trocados. Já as forças de atração dentro dos núcleos atômicos são muito mais difíceis de romper. É por isso que "dividir o átomo" soa tão ameaçador — mas pode ocorrer, em reações "nucleares", em vez de químicas, e os relógios radioativos dependem disso.

Os elétrons têm massa insignificante, por isso a massa total de um átomo, seu "número de massa", é igual ao número de prótons e neutrons somados. Normalmente ele é maior que o dobro do número atômico, porque em geral há alguns neutrons a mais do que prótons em um núcleo.

Ao contrário do número de prótons, o número de neutrons num átomo não caracteriza um elemento. Átomos de qualquer dado elemento podem existir em diferentes versões, chamadas isótopos, as quais têm diferentes números de neutrons [e por isso massas atômicas diferentes], mas sempre o mesmo número de prótons.

Alguns elementos, como o flúor, têm apenas um isótopo encontrado naturalmente. O número atômico do flúor é 9 e seu número de massa é 19, o que permite deduzir que ele tem 9 prótons e 10 neutrons. Outros elementos têm muitos isótopos. O chumbo possui cinco isótopos que ocorrem comumente. Todos têm o mesmo número de prótons (e de elétrons), 82, que é o número atômico do chumbo, mas os números de massa variam entre 202 e 208.

O carbono tem três isótopos que ocorrem naturalmente. O carbono-12 é o comum, com o mesmo número de nêutrons e prótons: seis. Há também o carbono-13, efêmero demais para nos ocuparmos dele, e o carbono-14, que é raro, mas não em demasia, e é útil para datar amostras orgânicas relativamente recentes, como veremos.

Eis a próxima informação importante para o nosso raciocínio: alguns isótopos são estáveis, outros não. O chumbo-202 é um isótopo instável; chumbo-204, chumbo-206, chumbo-207 e chumbo-208 são isótopos estáveis. "Instável" significa aqui que os átomos espontaneamente decaem para alguma outra coisa, a uma taxa previsível, embora não em momentos previsíveis. A previsibilidade da taxa de desintegração é a chave de todos os relógios radiométricos.

Outra palavra para designar "instável" é "radioativo". Há diversos tipos de desintegração radioativa, o que possibilita o uso de vários relógios. Para os nossos propósitos não é importante entendê-los, mas eu os explicarei aqui para mostrar o magnífico nível de detalhe que os físicos alcançaram trabalhando com essas coisas. Esse elevado grau de pormenorização lança uma luz sardónica sobre as desesperadas tentativas dos criacionistas para descartar as evidências da datação radioativa e manter a Terra jovem como Peter Pan.

Todos esses tipos de instabilidade envolvem nêutrons. Em um tipo, um nêutron transforma-se num próton. Isso significa que o número de massa permanece igual (pois prótons e nêutrons têm a mesma massa), mas o número atômico aumenta em uma unidade, de modo que o átomo torna-se um elemento diferente, uma casa a mais na tabela periódica. Por exemplo, o sódio-24 torna-se magnésio-24.

Em outro tipo de desintegração radioativa ocorre exatamente o inverso. Um próton torna-se um nêutron. Novamente o número de massa permanece igual, só que desta vez o número atômico diminui em uma unidade, e o átomo se transforma no elemento da casa anterior da tabela periódica.

Um terceiro tipo de desintegração radioativa tem o mesmo resultado. Um nêutron desgarrado por acaso colide com um núcleo e desaloja um próton, tomando o lugar dele. Novamente não ocorre mudança no número de massa; novamente o número atômico diminui em uma unidade, e o átomo se transforma no elemento anterior na tabela periódica.

Existe também um tipo mais complexo de desintegração no qual um átomo ejeta uma partícula chamada alfa. A partícula alfa consiste em dois prótons e dois nêutrons ligados uns aos outros. Isso significa que o número de massa diminui em quatro unidades, e o número atômico em duas. O átomo transforma-se no elemento que estiver duas casas antes dele na tabela periódica. Um exemplo de desintegração alfa é a mudança do isótopo urânio-238, altamente radioativo (com 92 prótons e 146 nêutrons) para o tório-234 (com 90 prótons e 144 nêutrons).

Estamos próximos do ponto principal da questão. Cada isótopo instável ou radioativo decai a uma taxa própria, característica, a qual é conhecida com precisão. Além disso, algumas dessas taxas são bem mais lentas do que outras. Em todos os casos, a desintegração é exponencial. Exponencial significa que se começarmos, por exemplo, com 100 gramas de um isótopo radioativo, uma quantidade fixa, por exemplo, 10 gramas, não se transformará em outro elemento em um dado tempo. O que ocorre é que uma proporção fixa do que sobrar se transformará no segundo elemento.

A medida favorita da taxa de desintegração é a "meia-vida". Meia-vida de um isótopo radioativo é o tempo necessário para que metade dos seus átomos se desintegre. A meia-vida é sempre a mesma, não importa quantos átomos já tenham se desintegrado — é isso que significa desintegração exponencial. [Se no começo há X átomos, depois de Y tempo - a meia-vida - haverá metade deles, tendo a outra metade se desintegrado, isto é, se transmutado em outro elemento; depois de decorrido o segundo tempo de meia-vida, haverá apenas a metade da metade da quantidade inicial, e daí por diante, cada metade sendo fracionada em uma metade de si mesma a cada meia-vida.]

Você pode perceber que, com essas sucessivas desintegrações na metade, nunca sabemos realmente quando não resta mais coisa alguma. No entanto, podemos dizer que, depois de passado um tempo suficiente — digamos, dez meias-vidas — o número de átomos que sobrou é tão pequeno que, para fins práticos, não resta mais nada.

Por exemplo, a meia-vida do carbono-14 situa-se entre 5 mil e 6 mil anos. Para espécimes mais antigos do que 50 mil-60 mil anos a datação por carbono é inútil, e precisamos recorrer a um relógio mais lento. A meia-vida do rubídio-87 é 49 bilhões de anos. A do férmio-244 é 3,3 milissegundos. Esses impressionantes extremos servem para ilustrar o estupendo alcance dos relógios disponíveis.

Embora a meia-vida de 2,4 segundos do carbono-15 seja curta demais para resolver questões evolucionárias, a meia-vida do carbono-14, 5730 anos, é perfeita para datar na escala de tempo arqueológica, e logo trataremos dela.

Um isótopo muito usado na escala de tempo evolucionária é o potássio-40 [isto é, o isótopo potássio com massa atômica de 40], com sua meia-vida de 1,26 bilhão de anos, e eu o usarei como exemplo para explicar toda a idéia dos relógios radioativos.

Muitos o chamam de relógio de potássio-argônio, pois o argônio-40 (uma casa antes na tabela periódica) é um dos elementos para os quais o potássio-40 decai (o outro, resultante de um tipo diferente de desintegração radioativa, é o cálcio-40, uma casa depois na tabela periódica).

Se começarmos com determinada quantidade de potássio-40, após 1,26 bilhão de anos metade do potássio-40 terá decaído para argônio-40. É isso que significa meia-vida. Após mais 1,26 bilhão de anos, metade do que resta (um quarto do original) terá decaído e assim por diante. Depois de um tempo menor do que 1,26 bilhão de anos, uma quantidade proporcionalmente menor do potássio original terá decaído.

Assim, imagine que você começa com certa quantidade de potássio-40 em um espaço fechado sem nenhum argônio-40. Passadas algumas centenas de milhões de anos, um cientista vai até esse espaço fechado e mede as proporções relativas de potássio-40 e argônio-40. Com base nessa proporção — independentemente das quantidades absolutas envolvidas —, conhecendo a meia-vida da desintegração do potássio-40 e supondo que não havia argônio no início, podemos estimar o tempo decorrido desde que o processo começou — em outras palavras, desde que o relógio foi "zerado".

Note que precisamos conhecer a razão entre os isótopos pai e filho (potássio-40 e argônio-40, respectivamente). Além disso, como já vimos neste capítulo, é necessário que nosso relógio preste-se a ser zerado. Mas o que significa dizer que um relógio radioativo é "zerado"?

O processo de cristalização dá significado a essa expressão. Como todos os relógios radioativos usados pelos geólogos, o de potássio-argônio só funciona para as chamadas rochas ígneas. Batizadas com o nome em latim do fogo, as rochas ígneas são aquelas que se solidificaram de rochas derretidas — magma subterrâneo no caso do granito, lava de vulcões no caso do basalto.

Quando a rocha derretida solidifica-se e forma granito ou basalto, faz isso na forma de cristais. Não, normalmente, de cristais grandes e transparentes como os do quartzo, mas cristais pequenos demais para ser distinguidos individualmente a olho nu. São diversos os tipos de cristais, e vários deles, assim como algumas micas, contêm átomos de potássio. Entre estes existem átomos do isótopo radioativo potássio-40.

No momento em que um cristal se forma por ocasião da solidificação de uma rocha, existe potássio-40 mas não argônio. O relógio é "zerado", no sentido de que não existem átomos de argônio no cristal [pelo menos não em concentração superior à média geral de presença desse tipo de átomo; na medida do decaimento do potássio, porém, essa concentração de argônio irá subindo além da média esperada, indicando que uma alguma 'fonte' o está fazendo brotar ali - no caso, o decaimento de outro elemento].

No decorrer de milhões de anos, o potássio-40 decai lentamente e, um a um, átomos de argônio-40 substituem átomos de potássio-40 no cristal. A quantidade acumulada de argônio-40 é uma medida do tempo que se passou desde que a rocha se formou. Mas, pelas razões que já expus, essa quantidade só tem sentido se for expressa como a razão entre potássio-40 e argônio-40. Quando o relógio foi zerado, a porcentagem de potássio-40 era 100%. Após 1,26 bilhão de anos, a razão será de 50-50 [e, portanto, encontrando-se alguma rocha com concentração 50-50 de potássio e argônio, já se presume que a tal rocha deva ter pelo menos a idade de uma meia-vida do potássio]. Passados outros 1,26 bilhão de anos, metade do potássio do restante terá sido convertida em argônio-40 e assim por diante.

Proporções intermediárias indicam tempos intermediários desde que o relógio de cristal foi zerado. Assim, os geólogos, medindo a proporção entre o potássio-40 e o argônio-40 em um pedaço de rocha ígnea que encontram hoje, podem dizer há quanto tempo a rocha cristalizou-se de seu estado derretido.

Rochas ígneas tipicamente contêm muitos isótopos radioativos diferentes, e não apenas o potássio-40. Um afortunado aspecto do modo como as rochas ígneas solidificam-se é que elas o fazem subitamente, e assim todos os relógios em um dado pedaço de rocha são zerados ao mesmo tempo.

Só rochas ígneas possibilitam relógios radioativos, mas quase nunca encontramos fósseis em rochas desse tipo. Os fósseis são formados em rochas sedimentares como o calcário e o arenito, que não são lava solidificada. Elas são camadas de lama, lodo ou areia que gradualmente se depositaram no leito de um mar, lago ou estuário. A areia ou lama torna-se compacta com o passar do tempo e endurece como rocha. Corpos que ficarem presos na lama têm uma chance de fossilizar-se. Embora só uma pequena proporção de corpos se fossilize, as rochas sedimentares são as únicas que contêm fósseis dignos de menção.

Infelizmente não é possível datar rochas sedimentares pela radioatividade. Presumivelmente, as partículas individuais de lodo ou areia que formam as rochas sedimentares contêm potássio-40 e outros isótopos radioativos; portanto, poderíamos dizer que elas contêm relógios radioativos; mas infelizmente esses relógios não têm serventia para nós, pois não são zerados de um modo adequado ou são zerados cada qual em um momento distinto.

As partículas de areia que se compactam e formam arenito podem originalmente ter sido pulverizadas de rochas ígneas, mas as rochas ígneas das quais elas provêm solidificaram-se em momentos diferentes. Cada grão de areia tem um relógio zerado em uma hora própria, e essa hora provavelmente ocorreu muito antes que a rocha sedimentar se formasse e se tornasse o túmulo do fóssil que tentamos datar. Por isso, do ponto de vista da marcação do tempo, a rocha sedimentar não presta. Não pode ser usada. O melhor que podemos fazer — um melhor bem aceitável — é usar as datas de rochas ígneas que são encontradas próximas de rochas sedimentares, ou incrustadas nelas.

Para datar um fóssil não é preciso encontrá-lo no meio de duas lâminas de rochas ígneas, embora esse seja um modo de ilustrar o princípio com total clareza. O método realmente usado é mais refinado. Camadas reconhecivelmente semelhantes de rochas sedimentares ocorrem no mundo todo. Muito antes de ser descoberta a datação radioativa, essas camadas haviam sido identificadas e batizadas, recebendo nomes como cambriana, ordoviciana, devoniana, jurássica, cretácea, eocena, oligocena, miocena. Os sedimentos devonianos são reconhecivelmente devonianos, não só em Devon (o condado no sudoeste da Inglaterra que lhes deu o nome), mas em outras partes do mundo. Eles são reconhecivelmente semelhantes entre si e contêm listas semelhantes de fósseis.

Os geólogos há muito tempo conhecem a ordem na qual esses sedimentos nomeados se depositaram. Só que, antes do advento dos relógios radioativos, não sabíamos quando eles haviam se depositado. Podíamos classificá-los em ordem porque — obviamente — sedimentos mais antigos tendem a jazer sob sedimentos mais recentes.

Os sedimentos devonianos, por exemplo, são mais antigos do que os carboníferos (assim chamados em razão do carbono que é frequentemente encontrado nas camadas carboníferas), e sabemos disso porque, nas partes do mundo onde as duas camadas coincidem, a camada devoniana jaz sob a carbonífera (as exceções a essa regra ocorrem em lugares para os quais sabemos, por outras evidências, que as rochas foram inclinadas ou mesmo viradas de cabeça para baixo).

Normalmente não temos a sorte de encontrar uma série completa de camadas, da cambriana no fundo até a recente no topo. Mas como as camadas são tão reconhecíveis, podemos calcular suas idades relativas percorrendo em zigue-zague as áreas do mundo e relacionando umas às outras.

Assim, muito antes de sabermos a idade dos fósseis, conhecíamos a ordem em que eles se depositaram, ou pelo menos a ordem em que os sedimentos nomeados se depositaram. Sabíamos que os fósseis cambrianos, no mundo todo, eram mais antigos que os ordovicianos, que por sua vez eram mais antigos que os silurianos; depois vinham os devonianos, os carboníferos, os permianos, triássicos, jurássicos, cretáceos e assim por diante. E dentro dessas principais camadas nomeadas, os geólogos também distinguiam sub-regiões: jurássica superior, meso-jurássica, jurássica inferior etc.

Os estratos nomeados geralmente são identificados pelos fósseis que contêm. E usaremos a ordenação dos fósseis como evidência da evolução! Existe risco de que isso se transforme em um argumento circular? Certamente não. Pense bem. Os fósseis cambrianos são um grupo característico, inequivocamente reconhecíveis como cambrianos. Por ora, estamos usando um conjunto característico de fósseis simplesmente como rótulos para rochas cambrianas — espécies indicadoras — sempre que os encontrarmos.

Aliás, é por isso que companhias petrolíferas contratam especialistas em fósseis para identificar estratos de rocha específicos, especialistas estes que em geral se guiam nesse trabalho por microfósseis, minúsculas criaturas chamadas foraminíferos, por exemplo, ou radiolários. Uma lista característica de fósseis é usada para identificar rochas ordovicianas, rochas devonianas etc.

Até aqui, só estamos consultando esses conjuntos de fósseis para identificar se uma placa de rocha é, por exemplo, permiana ou siluriana. Agora daremos um passo à frente e, ajudados por um encadeamento feito em todo o mundo, usaremos a ordem na qual os estratos nomeados se depositaram como evidência de quais estratos são mais antigos ou mais recentes do que outros.

Tendo estabelecido esses dois conjuntos de informações, podemos então olhar fósseis de estratos sucessivamente mais recentes para verificar se constituem uma sequência evolucionária coerente quando comparados entre si em sequência. Eles progridem em uma direção coerente? Certos tipos de fóssil, de mamíferos, por exemplo, aparecem somente depois de determinada data, e nunca antes?

A resposta a todas essas perguntas é sim. Sempre sim. Sem exceções. Isso é uma evidência eloquente da evolução, pois nunca foi um fato necessário, nunca foi algo que tinha de decorrer do nosso método de identificar estratos e do nosso método de obter uma sequência temporal. Nada do que poderíamos remotamente chamar de mamífero jamais foi encontrado em rochas devonianas ou em qualquer estrato mais antigo. Isso é um fato. Não se trata de algo estatisticamente mais raro em rochas devonianas do que em outras rochas. Categoricamente, nenhum mamífero jamais apareceu em rochas anteriores a certa data.

Mas isso não necessariamente tinha de ser assim. Poderia acontecer que, conforme cavássemos cada vez mais para baixo a partir do Devoniano, passando pelo Siluriano ou mesmo pelo mais antigo Ordoviciano, subitamente descobríssemos que a era Cambriana — mais antiga do que qualquer dessas três — fervilhasse de mamíferos. Não é isso o que encontramos na realidade, mas tal possibilidade demonstra que não se pode acusar o argumento de ser circular: a qualquer momento alguém poderia desencavar um mamífero em rochas cambrianas, e se tal coisa acontecesse a teoria da evolução seria instantaneamente refutada. Em outras palavras: a evolução é uma teoria passível de ser refutada, portanto é uma teoria científica. Retornarei a essa questão no capítulo 6.

As tentativas de criacionistas para explicar essas constatações muitas vezes chegam a ser cômicas. Noé e o Dilúvio, dizem, são a chave para compreendermos a ordem na qual encontramos os fósseis dos principais grupos de animais. Eis uma citação direta de um site criacionista premiado:

"A seqüência dos fósseis em estratos geológicos mostra que:
(I) INVERTEBRADOS (animais marinhos de movimentos lentos) pereceram primeiro, seguidos pelos peixes mais móveis, que foram soterrados pelo lodo da enchente.
(II) ANFÍBIOS (próximos do mar) pereceram em seguida quando as águas subiram.
(III) RÉPTEIS (animais terrestres lentos) morreram em seguida.
(IV) MAMÍFEROS conseguiram fugir das águas que subiam, os mais rápidos sobrevivendo por mais tempo.
(V) O HOMEM usou de mais engenho para escapar da inundação, agarrando-se a troncos de árvore etc.
Essa seqüência é uma explicação perfeitamente satisfatória da ordem em que os vários fósseis são encontrados nos estratos. Essa NÃO é a ordem em que eles evoluíram, e sim a ordem na qual foram cobertos pelas águas por ocasião do Dilúvio de Noé."

Sem falar em todas as outras razões para objetarmos a essa impressionante explicação, é certo que só poderia haver uma tendência estatística a que os mamíferos, por exemplo, tivessem em média mais habilidade para escapar das águas do que os répteis. Na verdade, porém, e como seria de esperar com base na teoria da evolução, não existe mamífero nenhum no estrato inferior do registro geológico.

A teoria da "fuga para o alto dos montes" seria mais bem embasada se houvesse um decréscimo estatístico de mamíferos conforme analisássemos para as rochas inferiores. Não há nenhum trilobito acima de estratos permianos, nenhum dinossauro (exceto aves) acima de estratos cretáceos. Também aqui a teoria do "fugir para o alto dos montes" prediria um decréscimo estatístico.

Voltemos à datação e aos relógios radioativos. Como a ordem relativa dos estratos sedimentares nomeados é bem conhecida e a mesma ordem é encontrada no mundo todo, podemos usar rochas ígneas situadas acima ou abaixo de estratos sedimentares ou neles incrustadas para datar esses estratos sedimentares nomeados e, assim, os fósseis que eles encerram. Com um refinamento do método, podemos datar fósseis que jazem próximo ao topo do estrato carbonífero, por exemplo, ou do cretáceo, como fósseis que jazem um pouco mais abaixo no mesmo estrato.

Não precisamos encontrar uma rocha ígnea nas vizinhanças de um dado fóssil que desejamos datar. Podemos determinar que nosso fóssil é, digamos, do Devoniano Superior com base em sua posição em um estrato devoniano. E, pela datação radioativa de rochas ígneas encontradas em associação com estratos devonianos no mundo todo, sabemos que o Devoniano encerrou-se por volta de 360 milhões de anos atrás.

O relógio de potássio-argônio é só um de muitos relógios disponíveis aos geólogos, e todos usam o mesmo princípio em suas diferentes escalas de tempo. Acima [imagem no original da obra] vemos uma tabela de relógios, que vão do lento ao rápido. Note, mais uma vez, a impressionante variação das meias-vidas, de 49 bilhões de anos no extremo mais lento a menos de 6 mil anos no mais rápido.

Os relógios mais rápidos, como o carbono-14, funcionam de um modo um pouco diferente. Isso porque é necessariamente diferente a maneira de "zerar" desses relógios mais velozes. Para isótopos com meia-vida curta, todos os átomos que estavam presentes quando a Terra originalmente se formou desapareceram há muito tempo.

Antes de examinarmos como funciona a datação por carbono, vale a pena fazer uma pausa para refletir sobre mais uma evidência em favor de uma Terra antiga, um planeta cuja idade é medida em bilhões de anos.

Entre todos os elementos que ocorrem na Terra, há 150 isótopos estáveis e 158 instáveis, num total de 308. Dos 158 instáveis, 121 estão extintos ou só existem porque são constantemente renovados, como o carbono-14 (como veremos). Se considerarmos os 37 que não se extinguiram, notaremos uma coisa significativa. Cada um deles tem meia-vida maior do que 700 milhões de anos. E se examinarmos os 121 que se extinguiram, cada um deles tem meia-vida menor do que 200 milhões de anos.

Atenção para não se equivocar: lembre-se de que estamos falando em meia-vida, e não em vida! Pense no destino de um isótopo com meia-vida de 100 milhões de anos. Isótopos cuja meia-vida é menor do que aproximadamente um décimo da idade da Terra estão, na prática, extintos e não são encontrados a não ser em circunstâncias especiais. Com exceções que existem por uma razão especial que compreendemos, os únicos isótopos que encontramos na Terra são os que têm uma meia-vida longa o suficiente para sobreviver em um planeta muito antigo.

O carbono-14 é uma dessas exceções, e ele é excepcional por uma razão interessante: ele é constantemente reposto. O papel do carbono-14 como relógio, portanto, tem de ser entendido de um modo diferente daquele dos isótopos de vida mais longa. Em particular, o que significa zerar o relógio?

CARBONO

De todos os elementos, o carbono é o que mais parece indispensável à vida, aquele sem o qual é mais difícil imaginar vida em qualquer planeta. Isso é devido à notável capacidade do carbono para formar cadeias, anéis e outras arquiteturas moleculares complexas. Ele entra na cadeia alimentar por meio da fotossíntese, o processo pelo qual as plantas verdes absorvem moléculas de dióxido de carbono da atmosfera e usam energia da luz solar para combinar os átomos de carbono com água para produzir açúcares.

Em última análise, todo o carbono em nós e em todos os demais seres vivos provém, por intermédio das plantas, do dióxido de carbono na atmosfera. E ele é continuamente reciclado e mandado de volta à atmosfera: quando exalamos, quando excretamos e quando morremos.

A maior parte do carbono no dióxido de carbono da atmosfera é o carbono 12, que não é radioativo. Mas aproximadamente um átomo em cada trilhão de átomos de carbono é de carbono-14, e esse é radioativo. Ele decai muito rapidamente, com meia-vida de 5.730 anos, como vimos, 'transmutando-se' em nitrogênio-14.

A bioquímica das plantas é cega para a diferença entre esses dois carbonos. Para uma planta, carbono é carbono e pronto. Por isso, as plantas absorvem carbono-14 junto com carbono-12 e incorporam os dois tipos de átomo de carbono em açúcares, na mesma proporção em que eles existem na atmosfera.

O carbono da atmosfera que é incorporado (com a mesma proporção de átomos de carbono-14) distribui-se rapidamente (em comparação com a meia-vida do carbono-14) pela cadeia alimentar, pois as plantas são comidas por herbívoros, estes por carnívoros e assim por diante. Todos os seres vivos, animais e vegetais, têm aproximadamente uma razão fixa entre carbono-12 e carbono-14, a qual é a mesma encontrada na atmosfera [tantos muitos de um para tantos poucos do outro].

Então quando é que o relógio é zerado? No momento em que um ser vivo, animal ou vegetal, morre. Nesse momento ele é retirado da cadeia alimentar e isolado da entrada, por via das plantas, de novo carbono-14 proveniente da atmosfera. Com o passar dos séculos, o carbono-14 no corpo, pedaço de madeira, pedaço de tecido ou seja lá o que for, decai constantemente para nitrogênio-14. A razão entre carbono-14 e carbono-12 no espécime, portanto, gradualmente diminui, ficando cada vez mais abaixo da razão geral que todos os seres vivos têm em comum com a atmosfera. Por fim, haverá apenas carbono-12, ou, mais estritamente, o teor de carbono-14 estará reduzido demais para ser medido. E a razão entre o carbono-12 e o carbono-14 pode ser usada para calcular o tempo que decorreu desde a morte da criatura removida da cadeia alimentar e de seu intercâmbio com a atmosfera.

Está tudo muito bem, mas isso só funciona porque existe na atmosfera um suprimento de carbono-14 que é constantemente reposto. Sem isso, o carbono-14, com sua meia-vida curta, já teria desaparecido da Terra há muito tempo, junto com todos os outros isótopos com meia-vida curta que ocorrem naturalmente. O carbono-14 é especial porque é produzido continuamente por raios cósmicos que bombardeiam átomos de nitrogênio na atmosfera superior. O nitrogênio é o gás mais comum na atmosfera, e seu número de massa é 14, o mesmo do carbono-14. A diferença é que o carbono-14 tem seis prótons e oito nêutrons, enquanto o nitrogênio-14 tem sete prótons e sete nêutrons (os nêutrons, lembrando, têm quase a mesma massa que os prótons).

Partículas de raios cósmicos são capazes de atingir um próton em um núcleo de nitrogênio e convertê-lo em um nêutron. Quando isso ocorre, o átomo torna-se carbono-14, pois o carbono está uma casa abaixo do nitrogênio na tabela periódica. A velocidade em que se dá essa conversão é aproximadamente constante de século a século, sendo por isso que a datação por carbono funciona.

Na verdade, a velocidade não é exatamente constante, e o ideal é que façamos um cálculo para compensar a variação. Por sorte temos uma calibração precisa do suprimento variável de carbono-14 na atmosfera e podemos levá-la em conta para refinar nossos cálculos de datação.

Lembremos que, aproximadamente na mesma faixa de anos que é coberta pela datação por carbono, temos um método alternativo para datar madeira, a dendrocronologia, e esta nos dá uma precisão total em número de anos. Analisando as idades de amostras de madeira datadas por carbono para as quais também possuímos datação baseada nos anéis de árvore, podemos calibrar os erros de variação na datação por carbono. Em seguida, podemos usar essas medições de calibração quando voltarmos às amostras orgânicas para as quais não possuímos datação por anéis de árvore (a maioria).

A datação por carbono é uma invenção comparativamente recente, iniciada nos anos 1940. No começo, os procedimentos da datação requeriam quantidades substanciais de material orgânico. Mas nos anos 1970 uma técnica chamada espectometria de massa foi adaptada para a datação por carbono, e graças a isso hoje é preciso apenas uma minúscula quantidade de material orgânico. Essa nova técnica revolucionou a datação arqueológica.

O exemplo mais célebre é o do Sudário de Turim. Como esse famoso pedaço de tecido parece, misteriosamente, conter a imagem impressa de um homem de barba crucificado, muita gente esperava que ele proviesse do tempo de Jesus. Ele apareceu pela primeira vez no registro histórico em meados do século XIV na França, e ninguém sabe onde estava antes disso. Ficou guardado em Turim desde 1578, sob custódia do Vaticano a partir de 1983.

Quando a espectometria de massa tornou possível datar uma amostra minúscula do sudário, dispensando os grandes pedaços de pano que antes seriam necessários, o Vaticano autorizou o corte de uma pequena faixa. Essa faixa foi dividida em três partes, enviadas a três importantes laboratórios especializados em datação por carbono, situados em Oxford, Arizona e Zurique.

Trabalhando em condições de escrupulosa independência — sem comparar notas —, os três laboratórios entregaram seu veredicto sobre a data em que o linho do qual o tecido era feito havia morrido. Oxford disse 1200 d.C., Arizona, 1304 d.C., e Zurique, 1274 d.C. Todas essas datas, dentro de margens de erro normais, são compatíveis entre si e com a data dos anos 1350 em que o sudário foi pela primeira vez mencionado na história.

A datação do sudário permanece polêmica, mas não por razões que lancem alguma dúvida sobre a técnica da datação por carbono em si. Por exemplo, o carbono do sudário poderia ter sido contaminado por um incêndio que sabidamente ocorreu em 1532. Não me estenderei nessa questão, pois o sudário é de interesse histórico, e não evolucionário. Mas ele é um bom exemplo para ilustrar o método e o fato de que, ao contrário da dendrocronologia, ele não nos dá uma exatidão em anos, mas apenas em aproximadamente um século.

Venho salientando repetidamente que existem vários relógios à disposição dos detetives evolucionários modernos, e também que eles funcionam melhor em escalas de tempo diferentes mas que podem ser sobrepostas. Os relógios radioativos podem ser usados para fornecer estimativas independentes da idade de um pedaço de rocha, tendo em mente que todos os relógios foram zerados simultaneamente no momento em que esse pedaço de rocha solidificou-se. Quando são feitas essas comparações, os diferentes relógios concordam uns com os outros — dentro das esperadas margens de erro. Isso nos dá grande confiança quanto à correção dos relógios.

Com essa calibragem recíproca e comprovação baseada em rochas conhecidas, esses relógios podem então ser incumbidos, confiavelmente, de resolver interessantes problemas de datação, como o da idade da própria Terra. A idade atualmente aceita de 4,6 bilhões de anos é a estimativa para a qual convergem vários relógios distintos.

Essa concordância não surpreende, mas infelizmente precisamos enfatizá-la porque, para nosso espanto, como salientei na introdução (e documentei no apêndice), cerca de 40% da população americana e uma porcentagem um pouco menor da população britânica dizem acreditar que a idade da Terra, longe de ser medida em bilhões de anos, é inferior a 10 mil anos.

Lastimávelmente, sobretudo nos Estados Unidos e em boa parte do mundo islâmico, alguns desses negadores da história têm poder sobre escolas e seus currículos. Um negador da história poderia argumentar, por exemplo, que há algo de errado com o relógio de potássio-argônio. E se a atual taxa de desintegração muito lenta do potássio-40 só tiver entrado em vigor a partir do Dilúvio? E se, antes disso, a meia-vida do potássio-40 fosse radicalmente diferente, digamos que apenas alguns séculos em vez de 1,26 bilhão de anos?

O sofisma é gritante nessas alegações. Por que raios as leis da física haveriam de mudar, sem mais nem menos, de um modo tão abrangente e tão conveniente? E fica ainda mais gritante quando é preciso apresentar alegações de exceção mutuamente ajustadas para cada um dos relógios separadamente.

No presente, todos os isótopos aplicáveis concordam uns com os outros em situar a origem da Terra entre 4 e 5 bilhões de anos atrás. E fazem isso com base na suposição de que suas meias-vidas sempre foram iguais às medidas atualmente — como, aliás, as leis da física conhecidas indicam fortemente que ocorre. Os negadores da história teriam de desvirtuar as meias-vidas de todos os isótopos em suas separadas proporções para que todos acabassem por concordar que a Terra nasceu há 6 mil anos.

Maior alegação de exceção do que essa eu nunca vi! E olhe que nem mencionei vários outros métodos de datação que também fornecem os mesmos resultados, como o da "datação por traços de fissão".

Leve em conta as enormes diferenças nas escalas de tempo dos diferentes relógios e pense na quantidade de desvirtuações complexas e forçadas das leis da física que seriam necessárias para fazer todos esses relógios concordarem uns com os outros, ao longo das ordens de grandeza, para que a Terra tivesse 6 mil anos em vez de 4,6 bilhões!

Considerando que o único motivo para tamanha deturpação é o desejo de sustentar o mito de origem de um grupo específico de membros de tribo do deserto da Idade do Bronze, é surpreendente, para dizer o mínimo, que alguém se deixe enganar por ele.

Existe mais um tipo de relógio evolucionário, o relógio molecular, mas deixarei seu exame para o capítulo 10, depois de ter introduzido algumas outras idéias sobre genética molecular.