Luz para a inteligência, Calor para a vontade

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Quatro gerações de nostalgia

- Texto de Mário Chainho -
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O fenómeno da nostalgia é interessante de abordar não só para ver como as pessoas se relacionam com o tempo e com a sua duração de vida mas também porque nos permite identificar claramente algumas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas. Podemos dizer que a nostalgia consiste numa retirada simbólica do tempo, e o quando e o como as pessoas fazem isso dá-nos muitas informações.
Na geração dos meus avôs a nostalgia surgia quando as pessoas se aproximavam dos 80 anos e se apercebiam de uma degradação física irreversível. Então, lembravam com saudade os tempos de mocidade em que corriam nos campos, em que iam a pé por todo o lado, nas serras, planícies ou cidades. Quase que não podemos falar de nostalgia neste caso mas de um lamento por "tempos que não voltam mais".
Quando passamos para a geração dos meus pais parece que a nostalgia continua a ser o mesmo tipo de recordação de mocidade, mas algo já se alterou. Desde logo, nostalgia surge mais cedo, antes dos 60 ou mesmo 50 anos de idade. E já não é motivada pela constatação de uma declínio físico natural mas da percepção de que os tempos mudaram e eles já não são se sentem adequados ao novo mundo. Então, começam a usar a expressão "no meu tempo" e recordam os "bons velhos tempos", em que a vida era mais simples e as relações humanas eram mais puras, ainda que com algum romantismo à mistura.
Quando passamos para a minha geração já entramos dentro do campo patológico. Supostamente, seríamos aqueles que iriam acabar de vez com a nostalgia. Fomos ensinados a odiar os nossos pais e tudo o que eles representavam porque eles estavam apegados ao passado. Nós, com os nossos diplomas universitários na mão, iríamos olhar para o futuro, construir um país moderno com os nossos maravilhosos empregos. Seríamos bem-sucedidos, viajados, de mente arejada, cheios de estilo e assim por diante. Na realidade, fomos ultrapassados pelos "tempos" ainda mais depressa que os nossos pais e o nosso futuro já foi enterrado, embora poucos se tenham dado conta disso. Somos escravos modernos sem tempo para nada. Então, surge uma nostalgia peculiar, ainda antes dos 40 anos de idade, com traços irónicos e caricatos. Começamos a apreciar aquelas músicas que ouvíamos na infância e na adolescência e de que nunca gostamos, mas que agora nos reconfortam. Recordamos as séries de TV antigas e até mesmo as personagens de telenovelas, mas tudo é feito aparentemente em tom de brincadeira. Na realidade, é um escape desesperado para os novos deserdados pelo tempo.
Quando chegamos às gerações mais novas, abaixo de trinta anos, já estamos no domínio do bizarro. Pessoas com menos de 30 ou até menos de 20 anos já se mostram nostálgicas. É impressionante como pessoas que deviam estar a viver uma vida na plenitude das suas capacidades tenham necessidade de idealizar recordações. Trata-se de uma geração que é quase totalmente fruto de engenharia social, sendo programados desde a concepção, depois têm todos os cuidados médicos sufocantes, a pré-escola, a pseudo-escola, a engenharia comportamental e assim por diante. Esta gente não tem direito nem a um passado e nem a um futuro, apenas vivem como ratos de laboratório. Mas o ser humano tem sempre a capacidade de se tentar libertar das suas amarras (ou de as apertar ainda mais). Muitos encontraram essa libertação nos jogos de computador, na animação japonesa ou nos seus heróis musicais fabricados em laboratório, e o que eles recordam com nostalgia são coisas como esta. Visto de fora tudo isto parece fazer parte da alienação dos jovens (e faz, em certa medida), mas é preciso ter noção de que se déssemos a umjovem moderno a liberdade de um camponês medieval, ele iria morrer de terror.
(Fonte: MSM)

domingo, 28 de agosto de 2016

Napoleão e a Revolução Francesa (Orlando Fedeli)

A pseudofilosofia (Nicholas Rescher)

Nicholas Rescher, in: Oxford Companion to Philosophy, org. por Ted Honderich (OUP, 1995, pp. 725-726). Tradução de Desidério Murcho.

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A pseudofilosofia consiste em elucubrações que se apresentam como filosóficas mas que são ineptas, incompetentes, que carecem de seriedade intelectual e que refletem um compromisso insuficiente com a procura da verdade. Em particular, abrange discussões que usam os instrumentos racionais da reflexão filosófica com outros fins que não a investigação séria — como o favorecimento de interesses relacionados com o poder, a influência ideológica, a pompa literária ou algo desse gênero. (Embora, sem dúvida, os filósofos em geral tenham tendência para fazer esta acusação de insuficiente seriedade intelectual e falta de força persuasiva aos que aderem a escolas de pensamento rivais, que diferem da sua própria posição em questões de princípios fundamentais.)
Tal inaptidão raramente é professada pelos seus próprios praticantes, mas emerge com as objecções dos oponentes. Alguns exemplos centrais são a teoria da inexistência de verdades atribuída pelo Sócrates platónico aos sofistas da antiguidade clássica, a teoria conflituosa da verdade atribuída pelos académicos medievais aos chamados averroístas, o niilismo radical por vezes atribuído aos cépticos renascentistas, e o irracionalismo e relativismo imputado aos existencialistas e pós-modernistas pelos filósofos mais ortodoxos de hoje em dia. Os entusiastas mais radicais do desconstrucionismo inspirado em Derrida constituem uma ilustração vívida — pois não faz sentido tecer elaboradas teias textuais para demonstrar que os textos nunca têm uma construção interpretativa estável. Se os textos são incapazes de transmitir uma mensagem fixa, não faz claramente sentido qualquer diligência no sentido de transmitir esta lição por meio de textos.
O rótulo “pseudo” é particularmente adequado para se aplicar aos que usam os recursos da razão para substanciar a afirmação de que a racionalidade é inalcançável em questões de investigação — pois a sua prática trai claramente a sua doutrina. Sobre o que não se pode tratar com força persuasiva filosófica, os filósofos têm de se manter em silêncio.

sábado, 27 de agosto de 2016

A Mulher e o Unicórnio

"A Mulher e o Unicórnio"
- pintura de Rafael Sanzio (1483-1520)

Apostas para o tema da redação do Enem 2016


O G1 ouviu dez professores de cursinhos pré-vestibulares e reuniu as principais dicas para chegar preparado para a redação, que, neste ano, será aplicada no dia 6 de novembro. Segundo eles, os assuntos das provas de redação costumam estar relacionados à realidade da sociedade brasileira e a questões mais ou menos atuais que reflitam sobre o bem estar coletivo, os efeitos e as consequências de um problema. Vale lembrar que o tema sempre vai exigir um posicionamento do autor da redação. Entre os temas que foram mencionados por mais de um professor estão a questão do investimento no esporte como forma de ascensão social, ou de promoção da saúde contra o vício das drogas, os desastres ambientais, como a quebra da barragem em Mariana (MG), em 2015, e a construção da polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte. A mobilidade urbana também foi citada por três dos dez docentes ouvidos na reportagem. Confira a seguir:


Ana Paula Severiano, professora de redação do Stockler

"O papel da população no combate ao mosquito Aedes aegypti"
"O desafio da mobilidade urbana nas grandes cidades do Brasil"
"A responsabilidade diante de grandes catástrofes ambientais"



Cora de Andrade Ramos, professora de redação do Hexag Medicina

"Refugiados: o papel do Brasil na ajuda a países assolados por guerras e grupos terroristas"
"Belo Monte e o desastre em Mariana: qual é o custo do progresso?"
"Estado laico e democracia são conceitos teóricos ou aplicáveis na sociedade?"



Gabriela de Araújo Carvalho, coordenadora de redação do Curso Poliedro

"A intolerância religiosa e suas consequências: violência e opressão"
"O esporte como possibilidade de ascensão social"
"A participação política por meio das redes sociais"



Lilica Negrão, professora de redação e gramática do Colégio Oficina do Estudante

"As ocupação das escolas públicas e o movimento estudantil"
"Redução da maioridade penal"
"Democracia e a participação dos jovens"



Marcus Vinicius, professor de redação do Colégio Qi

"Urbanização e sustentabilidade"
"Mobilidade urbana"
"Economia verde"



Maria Aparecida Custódio, professora do Laboratório de Redação do Objetivo

"A prática do bullying nas escolas brasileiras"
"A inclusão de pessoas com deficiência no Brasil"
"O fenômeno da transição demográfica no Brasil"



Sérgio Paganim, coordenador de redação do Anglo

"A privacidade da comunicação nas redes sociais: o embate entre o judiciário brasileiro e o WhatsApp"
"O colapso da mobilidade urbana e suas perspectivas"
"O embate entre o poder público e interesses privados diante de grandes problemas ambientais"



Simone F. G. da Motta, coordenadora de português do Etapa

"A luta pela vida e o uso de medicações controversas, como a 'pílula do câncer'"
"As drogas na vida e no esporte: como fortalecer a juventude e combater o vício"
"O respeito ao próximo: um mundo sem preconceitos"



Tássia Monteiro, professora de redação do Cursinho Maximize

"Lixo e reciclagem: destino consciente para os resíduos"
"A crise hídrica e o uso consciente da água"
"A inovação na área de práticas sustentáveis"



Thiago Braga, professor de redação do Sistema pH

"A necessidade de mudança do modelo de transporte nas grandes cidades brasileiras"
"O esporte como mecanismo de diminuição das disparidades sociais brasileiras"
"Formas de intensificar o combate ao racismo no Brasil"



QUATRO PASSOS PARA TREINAR A REDAÇÃO

Os docentes avisam, porém, que não basta só escrever a redação. São quatro os passos para chegar preparado para essa prova do Enem: ler, escrever, corrigir e reescrever. Primeiro, é preciso se habituar a sempre ler notícias e eventos de conhecimentos gerais. O repertório cultural dos candidatos pode, além de evitar "sustos" na hora de descobrir o tema, garantir uma redação diferenciada, e considerada acima da média pela banca de corretores.


Em seguida, na hora de treinar, ganha pontos na preparação quem mantiver a disciplina de produzir a redação com um relógio ao lado, cumprindo todas as etapas da prova (ler os textos de motivação, organizar a estrutura da redação e redigir o texto) a tempo de responder às 90 questões objetivas de matemática e português. É necessário também seguir as regras do Guia de Redação divulgado pelo Ministério da Educação, ou seja, usando os elementos que poderia ser pedidos como textos de motivação para entender o que o tema pede que seja abordado.

Depois de feita a redação, o terceiro passo é pedir que um professor corrija o seu texto e mostre em que pontos ele teve falhas. Vale lembrar que a nota da redação é composta da soma de notas em cinco competências diferentes, por isso, saber onde você precisa melhorar, e refazer as redações até conseguir uma nota alta, pode ajudar no dia da prova.

Se você não tem um professor para corrigir suas redações, uma dica é fazer redações sobre os temas mais recentes do Enem e, depois, comparar o seu texto com provas que tiraram notas altas.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Imagens da Química

# Conheça belíssimas imagens do mundo das reações químicas acessando:

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cristais da fermentação do vinho

Vale a pena olhar de perto os depósitos que surgem durante o processo de fermentação do vinho. Os cristais que se formam pela presença do tartarato ácido de potássio, uma substância que existe nas uvas, podem se parecer com um leito de rosas. A imagem faz parte do projeto em licenciatura do químico Luis Brudna Holzle, que usa o impacto visual para ensino e divulgação de sua disciplina na internet. “Eu procuro na química imagens que possam chamar explicações e tento colocar alguma beleza nas fotos”, conta. O resultado está nos sites emsintese.com.br e imagens.tabelaperiodica.org, mantidos pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul. Desde o início do projeto, em 2008, esses sites já foram visualizados por mais de 3 milhões de pessoas.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A guerra contra os colégios militares

- Artigo de Percival Puggina
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Quando Olívio Dutra elegeu-se governador do Rio Grande, sua vitória foi entendida como evento culminante de uma empreitada revolucionária. Olívio e seus companheiros chegaram ao Palácio Piratini, em 1º de janeiro de 1999, mais ou menos como Che Guevara e Camilo Cienfuegos haviam entrado em Havana exatos 40 anos antes - donos do pedaço, para fazer o que bem entendessem e quisessem. Só faltou um velho tanque de guerra para os bigodudos e barbudos do PT se amontoarem em cima.
Foi com esse voluntarismo que o primeiro governador gaúcho petista, posteriormente conhecido como "O Exterminador do Futuro I" (haveria uma segunda versão com outro ator), despachou a montadora da Ford para Camaçari, na Bahia. "Nenhum centavo de dinheiro público para uma empresa que não precisa!", explicava o governador incandescendo sua mistura de vetustos ardores messiânicos e antiamericanismo adolescente. E o PIB gaúcho, por meia dúzia de tostões, perdeu mais de um bilhão de dólares por ano pelo resto de nossas vidas. Foi assim, também, que se instalaram pela primeira vez entre nós a tolerância, as palavras macias, o aconchego e os abraços aos criminosos, seguidos de recriminações e restrições às ações policiais. Foi assim que o MST e as invasões de terras ganharam uma secretaria de Estado. Foi assim, também, que o PT gaúcho inventou uma Constituinte Escolar, instrumento ideológico concebido para, sob rótulo de participação popular, permitir que o partido estabelecesse as diretrizes de uma educação comunista no Rio Grande do Sul.
A essas alturas já era gritante o contraste entre a qualidade da Educação prestada pelo Colégio Tiradentes, sob orientação da Brigada Militar, e o decadente ensino público estadual. A insuportável contradição não comportava explicações palatáveis, mas sua notoriedade exigia completa eliminação. E o governo transferiu o tradicional Colégio para a já então ultra-ideologizada Secretaria de Educação. O Colégio Tiradentes foi condenado à morte, executado e esquartejado. No mesmo intento de combater a quem defende a sociedade e de afrontar a tudo que pudesse parecer militar, Olívio Dutra retirou o comando da Brigada Militar do prédio onde historicamente funcionava e fez a Chefia de Polícia mudar-se do Palácio da Polícia. Sim, sim, parece mentira, mas é verdade pura.
Eleito governador em 2002, Germano Rigotto, tratou de reverter o aviltamento das instituições policiais. Fez com que seus comandos retornassem às sedes tradicionais e decretou a volta do Colégio Tiradentes à Brigada Militar. Ao se pronunciar durante a solenidade de assinatura desse decreto, o governador afirmou algo que não pode sumir nas brumas do esquecimento porque define muito bem a natureza totalitária de seu antecessor: "Não raro, por escassez de recursos ou limitações de qualquer natureza, a comunidade quer algo e o governo não pode atender. O que raramente acontece é o governo fazer algo contra o manifesto desejo da comunidade. Foi o que o aconteceu e é o que sendo retificado neste momento. O Colégio Tiradentes volta para onde deve estar. O Quartel General da Brigada Militar, retornou ao seu QG. A Polícia Civil voltou para o Palácio da Polícia".
Três atos marcantes, revogando providências que o governo petista impôs à sociedade gaúcha, contrariando-a intensamente, apenas para expressar seu antagonismo a tudo que fosse ou seja policial e militar.
Decorridos 13 anos, podemos ler no episódio aqui narrado as preliminares de um antagonismo que não se extinguiu. Persiste ainda hoje, entre as esquerdas, com apoio da burocracia do Ministério da Educação, uma absoluta intolerância em relação à "indisciplina pedagógica" dos colégios militares.
 

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* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

"Por que os odiamos" (Revista do Estado Islâmico)

(Tradução para o inglês por Sam Harris, e do inglês para o português pelo blog Bule Voador)

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O que segue é a tradução de uma declaração, ostensivamente bem articulada, da última edição da revista oficial do Estado Islâmico, Dabiq, sobre as motivações para a sua violência. Como se pode ver abaixo, segundo eles, as mesmas são explicitamente teológicas. Lê-la é importante tanto como um exercício de empatia (de ver o mundo pelos olhos deles) quanto como um modo de fazer cair a ficha sobre algo que muitos negam incessantemente: Que a crença religiosa é um motivador potente da violência islamista (quem deseja impor o Islã à sociedade) jihadista (quem deseja fazê-lo por meios violentos). Esta é a articulação deles das suas próprias motivações. Embora o fenômeno da confabulação (e vários outros) na psicologia demonstre que podemos estar radicalmente errados sobre por que fazemos o que fazemos, quando os relatos de alguém sobre suas motivações explicam muito bem o seu comportamento, enquanto outras explicações chamadas de “mais profundas” não tanto, isso ao menos é boa evidência para os negadores considerarem que eles sejam sinceros no que dizem.

Pouco depois do abençoado ataque a uma boate cruzada sodomita pelo mujahid Omar Mateen, políticos americanos foram rápidos em pular para as luzes dos holofotes e denunciar o tiroteio, declarando-o um crime de ódio, um ato de terrorismo e um ato de violência sem sentido. Um crime de ódio? Sim. Os muçulmanos sem dúvida odeiam os sodomitas liberalistas, assim como qualquer outra pessoa com um pingo de fitrah (natureza humana inata) ainda intacta odiaria. Um ato de terrorismo? Com certeza absoluta. Os muçulmanos foram ordenados a terrorizar os inimigos descrentes de Alá. Mas um ato de violência sem sentido? Pensar-se-ia que o ocidental mediano, a esta altura, teria abandonado a afirmação batida de que as ações dos muhajidin — que declararam repetidamente seus objetivos, intenções e motivações — não fazem sentido. A não ser que você verdadeira — e ingenuamente — creia que os crimes do Ocidente contra o Islã e os muçulmanos, seja insultar o Profeta, queimar o Corão, ou travar guerra contra o Califado, não provocarão uma retaliação brutal dos muhajidin, você sabe muito bem que ataques como os executados por Omar Mateen, Larossi Aballa e muitos outros antes e depois deles em vingança pelo Islã e os muçulmanos fazem completo sentido. A única coisa sem sentido seria não haver nenhuma retaliação violenta e feroz em primeiro lugar!
Muitos ocidentais, no entanto, já estão cientes de que afirmar que os ataques dos muhajidin são sem sentido e questionar incessantemente por que odiamos o Ocidente e por que os combatemos nada mais é que uma encenação política e uma ferramenta de propaganda. Os políticos o dirão independentemente do quanto contraria os fatos e o bom senso só para acumular tantos votos quanto puderem para o próximo ciclo de eleição. Os analistas e jornalistas o dirão a fim de não se tornarem um alvo por dizerem algo que as massas julgam “politicamente incorreto”. Os “imames” apóstatas no Ocidente aderirão ao mesmo cliché batido para evitar uma reação das sociedades descrentes em que escolheram residir. O negócio é que as pessoas sabem que é tolice, mas continuam repetindo mesmo assim porque estão com medo das consequências de desviarem do roteiro.
Há exceções entre os descrentes, sem dúvida, pessoas que declararão sem pudor que a Jihad e a lei da Shari´ah — assim como tudo o mais julgado tabu pela multidão do Islã-é-uma-religião-pacífica — são de fato completamente islâmicos, mas eles tendem a ser pessoas com muito menos credibilidade que são pintadas como uma margem social, daí suas vozes são ignoradas e um amplo segmento das massas ignorantes continua a crer na narrativa falsa. Desse modo, torna-se importante para nós esclarecer ao Ocidente em termos inequívocos — novamente — por que os odiamos e por que os combatemos.
1. Odiamos vocês, antes de mais nada, porque você são descrentes; vocês rejeitam a unidade de Alá — quer se deem conta disso ou não – por fazerem-Lhe parceiros em adoração, vocês blasfemam contra Ele, por afirmarem que Ele tem um filho, vocês fabricam mentiras contra os Seus profetas e mensageiros e se entregam a todo tipo de práticas demoníacas. É por esta razão que nos foi mandado declarar abertamente nosso ódio por vocês e nossa inimizade por vocês. “Já houve para vocês um excelente exemplo em Abraão e aqueles com ele, quando disseram ao seu povo ‘Deveras, dissociamo-nos de vocês e de tudo que adoram que não Alá. Rejeitamos vocês e surgiu, entre nós e vocês, inimizade e ódio para sempre até que você creiam somente em Alá'” (Al-Mumtahanah 4). Ademais, assim como sua descrença é a razão principal pela qual os odiamos, sua descrença é a razão principal pela qual os combatemos, como nos foi mandado combater os descrentes até que eles se submetam à autoridade do Islã, seja por tornarem-se muçulmanos, seja por pagarem a jizyah — para aqueles com esta opção — e viverem em humilhação sob o governo dos muçulmanos. Assim, ainda que deixassem de nos combater, o melhor dos cenários para vocês num estado de guerra seria suspendermos nossos ataques contra vocês — se o julgássemos necessário — a fim de nos concentrarmos em ameaças mais próximas e imediatas, antes de por fim retomarmos nossas campanhas contra vocês. Além da opção de trégua temporária, este é o único cenário provável que lhes traria uma suspensão fugaz de nossos ataques. De modo que, no fim das contas, vocês não podem trazer uma suspensão indefinitiva a nossa guerra contra vocês. No máximo, poderíamos somente delongá-la temporariamente. “E combatam-nos até que não haja fitnah [paganismo] e [até que] a religião, toda ela, seja por Alá” (Al-Baqarah 193).
2. Odiamos vocês porque suas sociedades laicas liberais permitem exatamente as coisas que Alá proibiu ao mesmo tempo que banem muitas coisas que Ele permitiu, um problema que não os preocupa porque vocês separam a religião do estado, assim concedendo autoridade suprema a seus caprichos e desejos por meio dos legisladores em que votam para exercer poder. Ao fazê-lo, vocês desejam roubar de Alá o Seu direito de ser obedecido e desejam usurpar este direito para si próprios. “A legislação não é se não para Alá” (Ysuf 40). Seu liberalismo laico os levou a tolerar e até apoiar os “direitos dos gays”, a permitir que álcool, drogas, fornicação, jogatina e usura se tornassem generalizados e a encorajar as pessoas a zombar daqueles que denunciam estes pecados e vícios imundos. Desse modo, travamos guerra contra vocês para impedir que propaguem sua descrença e devassidão — seu secularismo e nacionalismo, seus valores liberais pervertidos, seu Cristianismo e ateísmo — e toda a depravação e corrupção que eles implicam. Vocês tornaram sua missão “libertar” as sociedades muçulmanas; tornamos nossa missão combater sua influência e proteger a humanidade de seus conceitos desencaminhados e seu modo de vida degenerado.
3. No caso da margem ateísta, odiamos vocês e travamos guerra contra vocês porque vocês descreem na existência do seu Senhor e Criador. Vocês testemunham a complexa composição das criaturas, e as espantosas e inexplicáveis leis físicas que governam o universo inteiro, mas insistem que tudo surgiu pelo acaso e que devemos ser criticados, escarnecidos e ostracizados por reconhecermos que os espantosos sinais que testemunhamos dia após dia são a criação de um Criador Sábio e Onisciente e não o resultado de uma ocorrência acidental. “Ou foram eles criados pelo nada, ou foram eles criadores [de si próprios]?” (Attur 35). Sua descrença em seu criador ainda os leva a negar o Dia do Juízo, afirmando que “só se vive uma vez“. “Aqueles que descreem afirmaram que nunca serão ressurretos. Digam ‘Sim, por meu Senhor, vocês certamente serão ressurretos; então certamente serão informados do que fizeram. E isso, para Alá, é fácil” (At-Taghabun 7).
4. Odiamos vocês pelos seus crimes contra o Islã e travamos guerra contra vocês para puni-los pelas suas transgressões contra nossa religião. Contanto que seus súditos continuem a escarnecer de nossa fé, insultar os profetas de Alá — incluindo Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé — queimar o Corão e abertamente vilificar as leis da Shari´ah, continuaremos a retaliar, não com slogans e cartazes, mas com balas e facas.
5. Odiamos vocês pelos seus crimes contra os muçulmanos; seus drones e caças bombardeiam, matam e mutilam nosso povo mundo afora, e seus fantoches nas terras usurpadas dos muçulmanos oprimem, torturam e travam guerra contra qualquer um que exija a verdade. Desse modo, combatemos vocês para os impedir de matar nossos homens, mulheres e crianças, para libertar os que vocês aprisionam e torturam e vingar-nos pelos incontáveis muçulmanos que sofreram como resultado de seus atos.
6. Odiamos vocês por invadirem nossas terra e os combatemos para repeli-los e afastá-los. Contanto que reste um centímetro de território para reivindicarmos, a jihad continuará a ser uma obrigação pessoal sobre todo muçulmano.
O que é importante para entender aqui é que, embora alguns possam argumentar que as suas políticas externas são a medida que move nosso ódio, esta razão particular para odiá-los é secundária, daí a razão pela qual a abordamos no fim da lista acima. O fato é que, ainda que vocês parassem de nos bombardear, nos aprisionar, nos torturar, nos vilificar e usurpar nossas terras, continuaríamos a odiá-los porque nossa razão principal para odiá-los não deixará de existir até que vocês adotem o Islã. Ainda que você pagassem a jizyah e vivessem sob a autoridade do Islã em humilhação, continuaríamos a odiá-los. Sem dúvida, deixaríamos de combatê-los então, assim como deixaríamos de combater quaisquer descrentes que entrem em convênio conosco, mas não deixaríamos de odiá-los.
O que é igualmente se não mais importante para entender é que combatemos vocês, não simplesmente para puni-los e detê-los, mas para trazer-lhes verdadeira liberdade nesta vida e salvação na Outra, liberdade de serem escravizados a seus caprichos e desejos assim como aos de seu clero e legislação, e salvação por adorar somente seu Criador e seguir seu mensageiro. Combatemos vocês a fim de tirá-los das trevas da descrença e trazê-los para a luz do Islã, e para libertá-los das restrições de viver só pela vida mundana de modo a desfrutarem tanto das bençãos da vida mundana como da beatitude da Outra.
O ponto da questão é que há sim uma razão para o nosso terrorismo, beligerância, crueldade e brutalidade. Por mais que algum jornalista liberal gostasse que vocês acreditassem que fazemos o que fazemos porque simplesmente somos monstros com nenhuma lógica por trás de nosso curso de ação, o fato é que continuamos a travar — e agravar — uma guerra calculada que o Ocidente pensou que acabou há vários anos. Continuamos a arrastar vocês mais e mais para dentro de um pântano de que vocês pensaram que já haviam escapado só para se darem conta de que estão atolados ainda mais fundo em suas águas turvas… E assim o fazemos enquanto lhes oferecemos uma saída em nossos termos. Então vocês podem continuar a crer que aqueles “terroristas desprezíveis” odeiam vocês por causa dos seus lattes e suas Timberlands, e continuar a gastar ridículas quantidades de dinheiro para tentar prevalecer numa guerra que não podem vencer, ou vocês podem aceitar a realidade e reconhecer que nunca deixaremos de odiá-los até que adotem o Islã, e nunca deixaremos de combatê-los até que estejam prontos para saírem do pântano da beligerância e do terrorismo pelas saídas que oferecemos, as próprias saídas propostas pelo nosso Senhor para os Povos da Escritura: Islã, jizyah ou — como um último meio de suspensão fugaz — uma trégua temporária.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Apresentação comentada de um teorema cinemático deduzido por Galileu

Autor: Vitor Oguri

Sobre o autor: Vitor Oguri é físico experimental de Altas Energias. Mestre em Física Aplicada (Universidade de Tóquio) e doutor em Física (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas -- CBPF), é professor adjunto e pesquisador do Instituto de Física da UERJ, além de autor e organizador de diversos livros na área.
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De acordo com a Mecânica Clássica, a velocidade média vm de um corpo que parte do repouso e se desloca em movimento retilíneo e uniformemente acelerado, durante um intervalo de tempo Δté igual à metade da velocidade final alcançada durante esse intervalo de tempo. Ou seja,
Uma vez que a velocidade média é definida como
(onde é a distância percorrida pelo corpo no intervalo de tempo Δt)a distância e a velocidade final estão relacionadas por
Essa seria a mesma distância percorrida por um corpo, no intervalo de tempo Δt, que se deslocasse em movimento retilíneo e uniforme com velocidade v/2.
Galileu1, em um fragmento de seu clássico texto, Discursos demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências2, enuncia e deduz esse fato de modo equivalente, no seguinte teorema:
O tempo no qual um espaço é percorrido por um corpo que parte do repouso uniformemente acelerado é igual ao tempo no qual esse mesmo espaço seria percorrido pelo mesmo corpo com velocidade constante, de valor igual a metade do maior e último valor alcançado no movimento uniformemente acelerado.
Assim, se um corpo, inicialmente em repouso, é uniformemente acelerado e alcança uma velocidade de valor igual av, após percorrer uma distância d, o intervalo de tempo Δt gasto no percurso é dado por
Como essa equação é equivalente à equação 1, o teorema enunciado por Galileu expressa de outro modo o resultado cinemático apresentado no primeiro parágrafo deste texto.
Vejamos como Galileu, raciocinando por meio de grandezas físicas representadas por figuras geométricas, deduz o teorema. A figura completa do texto de Galileu para deduzir o teorema será decomposta e apresentada por partes, no decorrer dos comentários.
Representemos por meio do segmento de reta AB o intervalo de tempo durante o qual um corpo, partindo do repouso em C, percorrerá o espaço CD em movimento uniformemente acelerado; seja o final e maior valor da velocidade adquirido durante esse intervalo de tempo representado pelo segmento de reta EB, que forma um ângulo reto com AB; ...
Isto é, é a distância a ser percorrida, é o intervalo de tempo gasto no percurso e  é a velocidade final alcançada durante o intervalo Δt.
... traçado o segmento de reta AE, todos os segmentos de reta que partem de pontos eqüidistantes sobreAB e paralelos a BE, representarão os valores crescentes de velocidade a partir do instante A. ...
Por instante deve-se entender o instante de tempo em que o corpo começa a se movimentar.
De fato, como os triângulos formados pelos segmentos paralelos a EB e o vértice são semelhantes, a razão entre os catetos de cada triângulo é constante e representa a aceleração do corpo móvel, uma vez que no movimento uniformemente acelerado os acréscimos dos valores de velocidade são proporcionais aos respectivos intervalos de tempo, e a constante de proporcionalidade é a aceleração do móvel.
... Dividamos ao meio o segmento EB no ponto e tracemos FG paralelo a AB GA paralelo a FB, formando assim o paralelogramo AGFB, de área igual à do triângulo AEB, uma vez que o lado GF divide ao meio o lado AE no ponto I. ...

Assim, , e a área do triângulo AEB é igual à do paralelogramo AGFB.
... Se, por outro lado, prolongarmos os segmentos paralelos do triângulo AEB até IG, a soma dos comprimentos de todos os segmentos contidos no quadrilátero AGFB será igual à soma dos comprimentos daqueles contidos no triângulo AEB, visto que os segmentos do triângulo IEF são iguais àqueles contidos no triângulo AGI,  enquanto aqueles contidos no trapézio AIFB são comuns. Uma vez que todo instante do intervalo de tempo AB corresponde a um ponto do segmento AB, os  segmentos  paralelos traçados a partir desses pontos no interior do triângulo AEB representam os valores crescentes da velocidade, enquanto os segmentos contidos no paralelogramo AGFB representam os valores de velocidade que não crescem, mas que se mantêm constantes; é evidente que a soma dos valores de velocidade, no caso do movimento acelerado, é representada pela soma dos segmentos crescentes do triângulo AEB, enquanto, no caso do movimento uniforme, é representada pela soma dos segmentos paralelos do paralelogramoAGFB. Com efeito, os valores de velocidade que faltam na primeira metade do movimento acelerado (aqueles que são representados pelos segmentos do triângulo AGI) são compensados por aqueles representados pelos segmentos do triângulo IEF. ...

Seja no paralelogramo, que representa um movimento uniforme, ou no triângulo, que representa um movimento uniformemente acelerado, dividir o lado que representa o intervalo de tempo Δt do percurso em um grande número de pequenos segmentos iguais (que representam pequenos intervalos de tempo), em seguida, somar os correspondentes segmentos que representam os valores de velocidade em cada pequeno intervalo, e multiplicar o resultado (soma) pelo valor de cada pequeno intervalo de tempo, obtém-se as distâncias totais percorridas pelo corpo no intervalo de tempo Δt. Ou seja, as áreas das figuras geométricas (paralelogramo e triângulo) correspondem às distâncias percorridas pelo corpo nos respectivos movimentos.
Como a área do paralelogramo AGFB, que representa a distância (d) percorrida por um corpo em movimento retilíneo e uniforme com velocidade constante de valor igual a , durante um intervalo de tempo é igual a área do triângulo AEB, que corresponde à distância (d) percorrida por um corpo em movimento retilíneo uniformemente acelerado, a partir do repouso, durante o mesmo intervalo de tempo Δt,
pode-se concluir, como Galileu, que:
... Portanto, é evidente que espaços iguais serão percorridos em tempos iguais por dois corpos, um dos quais, partindo do repouso, desloca-se com movimento uniformemente acelerado, enquanto o outro, em movimento uniforme, desloca-se com  valor de velocidade igual à metade do valor máximo de velocidade atingido pelo primeiro.
.................................
Notas:
1  
Nascido em Pisa, Itália, em 1564, Galileu Galilei é considerado o fundador da ciência moderna.
2 Discorsi e dimostrazioni matematiche intorni à due nuove scienze attenenti alla mecanica ed i movimenti locali, publicado em 1638 pelo editor holandês Luis Elsevier. O texto de Galileu, conhecido também simplesmente como Duas Novas Ciências, foi escrito na forma de diálogos entre três personagens, dois dos quais (Salviati e seu amigo Sagredo) refletem o ponto de vista de Galileu, e um terceiro (Simplício), as idéias de Aristóteles sobre o movimento dos corpos. As duas ciências referem-se, respectivamente, aos estudos da resistência e do movimento dos corpos sólidos. O texto aqui utilizado foi extraído da tradução em lingua inglesa de H. Crew e A. de Salvio, Dover (1954).

sábado, 20 de agosto de 2016

A tradição turca de assassinar cristãos

- Artigo de Robert Jones
Andrea Santoro (esquerda), padre de 61 anos, e o bispo Luigi Padovese, 63 anos, (direita):
ambos assassinados, como muitos outros cristãos, na Turquia 

Em 26 de julho, a cidade de Saint-Étienne-du-Rouvray localizada no norte da França presenciou um terrívelataque islamista: dois terroristas do Estado Islâmico (ISIS) assassinaram o padre Jacques Hamel de 85 anos, em sua igreja durante a missa. Duas freiras e dois fiéis foram tomados como reféns.
De acordo com uma freira que escapou do ataque, os terroristas que juraram lealdade ao ISIS, aos gritos de "Allahu Akbar", cortaram a garganta do padre e gravaram o ato sangrento em vídeo.
Ataques islamistas dessa natureza podem ser novidade nos países da UE, mas não na Turquia. Durante décadas um número assombroso de inocentes, cristãos indefesos na Turquia, foram massacrados por agressores muçulmanos.
Os cristãos na Turquia continuam a ser atacados, assassinados e ameaçados diariamente; os agressores normalmente acabam se safando de seus crimes.
Em 18 de abril de 2007 em Malatya, no massacre na Editora Zirve Bible, três funcionários cristãos foram atacados, brutalmente torturados, tiveram suas mãos e pés amarrados e suas gargantas cortadas por cinco muçulmanos.
Nove anos se passaram e a justiça ainda não foi feita no que tange às famílias dos três homens assassinados de forma tão hedionda.
Primeiramente os cinco suspeitos que ainda estavam detidos foram soltos da prisão de segurança máxima por um tribunal turco, que deliberou que a detenção excedeu os recém adotados limites legais.
O julgamento ainda está em curso. O promotor alega que o ato "não foi um ato terrorista porque os autores não tinham um vínculo hierárquico, o ato não foi contínuo e as facas que eles usaram no massacre não eram tecnicamente adequadas para caracterizar o ato como um ato terrorista."
Se o tribunal aceitar o parecer jurídico do procurador, ele poderá abrir caminho para a absolvição. No entanto, dado os muitos acórdãos "misteriosos" do sistema judiciário turco para absolver criminosos, esses assassinos também poderão ser absolvidos, a qualquer momento, por uma decisão "surpresa".
Ironicamente o Presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan afirmou em março que é necessário redefinir o terrorismo para incluir aqueles que apoiam esses atos, acrescentando que eles podem ser jornalistas, legisladores e ativistas. Não há diferença, ressaltou ele, entre "um terrorista com uma arma na mão, uma bomba ou aqueles que usam sua posição e a caneta com o objetivo de atingir as metas" dos terroristas.
Em um país onde as autoridades são tão francas no tocante à "sensitividade" quando se trata de "terrorismo" e de "pessoas com armas na mão", por que então os assassinos de cristãos não estão atrás das grades e por que o promotor está tentando retratar os assassinatos de cristãos como "atos não terroristas"?
Lamentavelmente os três cristãos em Malatya não foram os primeiros nem os últimos cristãos a serem assassinados na Turquia.
Em 5 de fevereiro de 2006, o Padre Andrea Santoro, um padre católico romano de 61 anos, foi assassinado na Igreja de Santa Maria, na província de Trabzon. Ele foi alvejado quando estava ajoelhado orando em sua igreja. Testemunhas ouviram o assassino de 16 anos gritar "Allahu Akbar" ("Deus é Grande") quando do assassinato.
Depois do assassinato, o Padre Pierre François René Brunissen, um padre de 74 anos de idade de Samsun, rezou a missa seguinte na igreja de Santoro, que mal contava com doze fiéis. Pelo fato de ninguém se oferecer para substituir Santoro, o Padre Pierre foi incumbido a viajar de Samsun à Trabzon todos os meses a fim de cuidar da pequena congregação da cidade.
"É um episódio terrível," ressaltou o Padre Pierre. "É pecado matar uma pessoa. Depois de todos esses episódios, temo pela minha vida neste lugar."
Em julho de 2006 ele foi esfaqueado e ferido por um muçulmano em Samsun. O criminoso de 53 anos de idade disse que esfaqueou o padre por se opor às "suas atividades missionárias"."[1]
Os ataques contra a cultura cristã em Anatólia continuam nos tempos modernos -- mesmo depois da Turquia ter ingressado no Conselho da Europa em 1949 e na OTAN em 1952.
Incontáveis acordos entre a Turquia e organizações ocidentais parecem não ter reduzido o ódio aos cristãos. Em março de 2007, quando a comunidade cristã de Mersin estava se preparando para a Páscoa, um jovem muçulmano com um espeto de kebab (espetinho de carne) entrou na igreja e atacou os padres Roberto Ferrari e Henry Leylek.
Mersin, localizada no sul da Turquia, cidade natal de Tarso, local do nascimento do apóstolo Paulo, onde se encontram as primeiras igrejas da era cristã.
À medida que as raízes cristãs em Anatólia foram enfraquecendo, também foram enfraquecendo seus vínculos com a civilização ocidental. "O ataque contra o padre é um indicador de que Ancara não está preparada para ingressar na União Europeia," segundo enfatizou o cardeal e teólogo Walter Kasper ao jornal italiano Corriere della Sera. "Há certos elementos de tolerância, mas não há liberdade verdadeira. A Turquia precisa mudar muitas coisas. Não se trata de mudar as leis. Se faz necessário a mudança de mentalidade. Não é possível mudar a mentalidade em um dia."
O Bispo Luigi Padovese, Vigário Apostólico de Anatólia, salientou: "não nos sentimos seguros. Estou muito preocupado. O fanatismo está crescendo em determinados grupos. Há elementos querendo envenenar o clima e os alvos são os padres católicos. Filmes que retratam negativamente os missionários são transmitidos pelas redes de TV."
Em uma cerimônia comemorativa em homenagem ao Padre Santoro realizada em fevereiro, o Bispo Padovese ressaltou:
"Hoje fazemos a mesma pergunta que fazíamos há quatro anos: por que? Nós também fazemos a mesma pergunta em nome de todas as outras vítimas tão injustamente assassinadas, mesmo sendo inocentes. Por que? O que é que eles tentavam destruir ao assassinarem o Padre Andrea? Tratava-se apenas de uma pessoa ou o que essa pessoa representava? O objetivo em assassinar a tiros o Padre Andrea não é outro senão abrir fogo contra um clérigo católico. O fato dele ser padre foi o motivo de seu martírio
"A mensagem de Cristo na Cruz é clara. 'Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Se soubessem, não o fariam.' É errado pensar que só porque uma pessoa discorda de nós, está equivocada e merece ser morta. Este é o fundamentalismo que destrói uma sociedade. Porque destrói a coexistência. Este fundamentalismo -- independentemente da religião ou visão política a qual pertence -- pode vencer algumas batalhas, mas está fadado a perder a guerra. É isto que a história nos ensina. Espero que esta cidade e que este país se tornarão um lugar onde as pessoas possam viver como irmãos e irmãs e se unirem para o bem comum de todos. Será que o Alá de todos nós não é o mesmo?"
Não, lamentavelmente, o Alá de todos nós não é o mesmo.
Somente quatro meses depois, em junho de 2010, foi a vez de Padovese ser assassinado. Desta vez, o assassino foi o próprio motorista do bispo nos últimos quatro anos. Primeiramente o motorista esfaqueou o bispo, em seguida cortou sua garganta enquanto gritava "Allahu Akbar" durante o ataque.
No julgamento, o motorista afirmou que o bispo era um "Masih ad-Dajjal" ("falso messias") e na sequência citou em voz alta duas vezes, dentro do tribunal, a adhan (chamada Islâmica para a reza).
No território onde os cristãos outrora prosperaram e até faziam conversões para o cristianismo, agora é motivo de sérios problemas.
"Cristãos recentemente convertidos, provenientes de famílias muçulmanas, são muitas vezes isolados e condenados ao ostracismo," assinala Carnes. "Turgay Ucal, um pastor de uma igreja independente em Istambul, que se converteu do Islã para o cristianismo realçou: "budismo tudo bem, mas cristianismo não. Há um histórico."
Faz parte deste histórico a maneira pela qual cristãos autóctones da Anatólia foram massacrados pelos muçulmanos. [2]
população da Turquia perfaz aproximadamente 80 milhões de habitantes; devotos de religiões não muçulmanas — principalmente cristãos e judeus — compõem somente 0,2%. Mesmo assim o sentimento anticristão ainda predomina em uma parcela significativa da sociedade turca. [3]
Ao que tudo indica há uma praxe: assassinatos de cristãos são cometidos furtivamente na Turquia: são "pessoas comuns" que matam ou atacam cristãos, depois o judiciário ou o sistema político, de alguma forma, encontra uma maneira de permitir que os assassinos ou agressores se safem sem que sejam responsabilizados pelos seus atos. Lamentavelmente a maioria desses crimes não aparece na mídia internacional e a Turquia nunca é responsabilizada.
A Turquia, no entanto, assinou o acordo de União Aduaneira com a União Europeia em 1995, sendo oficialmente reconhecida como candidata a membro com plenos direitos em 1999. As negociações para a adesão da Turquia à UE ainda estão em andamento.
Como é possível uma nação que assassinou ou atacou tantos cristãos ao longo da história e sequer se retratou por estes crimes é ainda considerada qualificada a ser candidata a membro da UE? Por conta da ameaça de chantagear a Europa com uma avalanche de muçulmanos? A Turquia vai inundar a Europa com muçulmanos de qualquer maneira. Há até um nome para isso: Hijrah, disseminar o Islã (jihad) através da emigração. É exatamente o mesmo que os muçulmanos têm feito na Turquia.
E que tipo de cultura e civilização os muçulmanos arquitetaram na maioria das vezes nas terras que eles conquistaram? Quando se observa a situação, tanto histórica quanto atual, em países de maioria muçulmana o que se vê é a predominância de assassinatos, ataques e ódio: ódio aos não muçulmanos, ódio às mulheres, ódio ao pensamento livre e um ódio extremamente profundo a tudo que não é islâmico. Muitos muçulmanos que mudaram para o Ocidente também têm procurado importar o Islã político para o mundo livre.
Regimes muçulmanos, incluindo a Turquia, não materializaram a democratização civilizada que permitiria a todos os seus cidadãos -- muçulmanos e não muçulmanos -- usufruírem de uma vida livre e segura.
Enquanto os muçulmanos podem praticar livremente a sua religião e expressar suas opiniões sobre outrasreligiões ou sobre o ateísmo em todo o mundo, os cristãos e demais não muçulmanos podem ser mortos na Turquia e em outros países de maioria muçulmana apenas por tentarem, pacificamente, praticar sua religião ou expressar abertamente suas opiniões.
"Multiculturalismo", apaixonadamente defendido por tantos liberais no Ocidente, poderia ter feito maravilhas em lugares multiétnicos e multirreligiosos como a Anatólia. Lamentavelmente a ideologia islâmica aceita apenas e tão somente uma cultura, uma religião e um modo de pensar que esteja de acordo com os seus princípios: os do Islã. Ironicamente, esta é a única verdade nua e crua que esses liberais não querem enxergar.
Grande parte da história do Islã mostra que a natureza da ideologia islâmica é a de invadir ou de se infiltrar e na sequência dominar os não muçulmanos.
Normalmente os muçulmanos não mostraram o mínimo interesse na coexistência pacífica com os não muçulmanos. Mesmo que a maioria dos muçulmanos não seja formada de jihadistas, ela não se manifesta contra eles. Consequentemente ela parece apoiar discretamente os jihadistas. O fato de haver muçulmanos pacíficos que respeitam outras religiões não muda em nada esse fato trágico.
É por isso que não muçulmanos no Ocidente têm todo o direito de temer que, um belo dia, eles também serão expostos ao mesmo tipo de tratamento nas mãos dos muçulmanos. O medo que não muçulmanos têm de ataques islâmicos é, baseado em fatos recentes, tanto racional quanto justificado.
Dada a maneira indescritível como os não muçulmanos são tratados em países de maioria muçulmana, incluindo a Turquia, quem pode censurá-los por estarem temerosos com a possível islamização de suas próprias sociedades livres?
Afinal por qual razão a Turquia que, ao que tudo indica, odeia os cristãos de seu país, deseja ter acesso com isenção de visto na União Europeia Cristã?

Notas:

[1] O cristianismo tem uma longa história em Samsun – assim como em todas as outras cidades da Anatólia. Chamada de Amisos em grego, foi um dos centros da milenar região grega Ponto e ajudou a difundir a influência cristã naquela região.
"Após 1914 as populações gregas e armênias foram diminuindo consideravelmente devido às marchas da morte organizadas pelos turcos e outros métodos utilizados por eles durante os genocídios grego e armênio," de acordo com o "Pontos World."
Décadas depois ataques contra cristãos ainda são lugar comum. Em dezembro de 2007, outro padre católico Adriano Franchini, 65, de Izmir, também foi esfaqueado e ferido durante a missa dominical por um muçulmano de 19 anos de idade.
Izmir, também chamada de Esmirna, era um território eclesiástico do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla e uma das sete igrejas da Ásia, mencionada pelo apóstolo João no Livro do Apocalipse.
Durante o período otomano, Esmirna contava com uma das maiores populações gregas e armênias. Hoje há apenas uma minúscula minoria cristã na cidade. A devastação da cultura grega na cidade atingiu o ápice durante o que é comumente conhecido como a "catástrofe de Esmirna". O exército turco destruiu a cidade em 1922 após o Grande Incêndio de Esmirna. Soldados turcos assassinaram muitos civis não muçulmanos, incluindo dezenas de padres e bispos e forçaram um número incalculável de homens gregos a se juntarem aos batalhões de mão de obra. A maioria dos gregos da cidade fugiu de suas casas para procurar abrigo na Grécia e em outros países.
"O Grande Incêndio de Esmirna," escreve a autora Ioanna Zikakou, "foi o ápice da catástrofe da Ásia Menor, pondo fim a 3.000 anos de presença grega na costa do mar Egeu em Anatólia, alterando a proporção de população entre muçulmanos e não muçulmanos."
Segundo o jornalista Tony Carnes:
"Poucos países têm uma história cristã tão rica quanto a Turquia. A Turquia é o lugar onde Paulo fundou algumas das primeiras igrejas, incluindo a Igreja de Éfeso. Sete igrejas nesta região foram citadas no Livro do Apocalipse. Aqueles que viveram no início do movimento monástico encontram nas cavernas da Capadócia um lugar quase perfeito para viver uma vida de orações.
"Mas o cristianismo foi subjugado ao domínio islâmico na Turquia em 1453 declinando gradativamente durante séculos; os últimos 100 anos foram os piores. Em 1900 a população cristã somava 22% dos habitantes. Hoje a maioria dos especialistas estima que existam menos de 200.000 cristãos em todo o país, compreendendo menos de 0,3% da população."
Hoje, na Anatólia islamizada, os membros da minúscula minoria cristã são expostos a ataques diários verbais e físicos. Kamil Kiroglu nasceu e cresceu na Turquia como muçulmano. Aos 24 anos de idade ele se converteu ao cristianismo e trabalhou na igreja turca até 2009. Após a conversão ele foi rejeitado pela sua família.
Em 8 de janeiro de 2006, Kiroglu foi espancado por cinco jovens muçulmanos até ficar inconsciente.
Ele foi atacado logo depois da missa," assinala o estudioso John L. Allen Jr. em seu livro The Global War on Christians (A Guerra Global contra os Cristãos). "Kiroglu relatou mais tarde que um dos jovens, empunhando uma faca, havia gritado, 'negue Jesus ou eu te mato agora!' Outro ao que consta gritou: 'nós não queremos cristãos neste país!' Quando os agressores foram embora, eles disseram a um amigo de Kiroglu que haviam deixado um presente para ele. Era uma faca curvada de cerca de 90 cm, deixada para trás para servir de aviso contra qualquer atividade cristã."
"A Turquia pode até ser um estado oficialmente laico, mas sociologicamente é uma sociedade islâmica. Em geral a maior ameaça enfrentada pelos cristãos não vem de alinhamentos religiosamente ardentes ao Islã e sim de ultranacionalistas que veem os cristãos como agentes do Ocidente, que muitas vezes os acusam de estarem em conluio com os separatistas curdos."
Em 2009 Bartolomeu I de Constantinopla, Patriarca da Igreja Ortodoxa, ressaltou em uma entrevistaconcedida à rede CBS que os cristãos da Turquia eram cidadãos de segunda classe e que se sentia "crucificado" nas mãos das autoridades do estado turco.
[2] "A aniquilação dos povos não turcos/não muçulmanos da Anatólia começou em 24 de abril de 1915, com a prisão em Istambul de 250 intelectuais armênios," ressaltou o colunista Raffi Bedrosyan.
"Em questão de meses, 1,5 milhão de armênios tinha sido massacrado em sua pátria histórica de 4.000 anos no que é hoje a região oriental da Turquia, bem como nas regiões norte, sul, central e ocidental da Turquia. Na mesma época cerca de 250.000 assírios também foram massacrados no sudeste da Turquia. Depois foi a vez dos gregos pônticos de serem eliminados do norte da Turquia, na costa do Mar Negro, esporadicamente de 1916 em diante."
Orhan Picaklar, pastor da Igreja Agape Samsun, foi sequestrado e ameaçado pelos muçulmanos locais em 2007. Ele disse que também tentaram sequestrar, da escola, seu filho de 11 anos. Sua igreja tem sido inúmeras vezes apedrejada. Ahmet Guvener, pastor da Igreja Protestante de Diyarbakir, relatou que recebeu tantas ameaças que ele já estava a espera da morte: "darei uma procuração a um amigo meu. Se eu for morto, quero que ele cuide dos meus filhos."
[3] Consulte os relatórios anuais da Associação de Igrejas Evangélicas sobre violações de direitos contra os cristãos na Turquia.

Robert Jones
, especialista em Turquia, encontra-se atualmente radicado no Reino Unido.
Publicado no site do Gatestone Institute.
Tradução: Joseph Skilnik