(Abaixo, imagem/detalhe do traiçoeiro massacre de protestantes na "Noite de São Bartolomeu", na França - séc. XVI. Por essa noite de crimes hediondos a Roma do Concílio de Trento cantou ações de graças a Deus...)

Capítulo XI
Abuso da intolerância
Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua razão e pensar o que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar? Exatamente, contanto que ele não perturbe a ordem, pois não depende do homem acreditar ou não acreditar, mas depende dele respeitar os costumes de sua pátria. E se dissésseis que é um crime não crer na religião dominante, vós mesmos acusaríeis assim os cristãos vossos pais e justificaríeis aqueles que acusais de tê-los entregue aos suplícios.
Respondeis que a diferença é grande, que todas as outras religiões são obras de homens e que apenas a igreja católica, apostólica, romana, é obra de Deus. Mas, em boa-fé, deverá nossa religião, por ser divina, reinar pelo ódio, pelos furores, pelo exílio, pelo confisco de bens, pelas prisões, torturas e crimes, pelas ações de graças prestadas a Deus por esses crimes? Quanto mais divina a religião cristã, tanto menos compete ao homem comandá-la; se Deus a fez, Deus irá sustentá-la sem vós. Sabeis que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes. Que péssima alternativa! Enfim, gostaríeis que fosse mantida por carrascos a religião de um Deus que carrascos fizeram perecer e que pregou tão só a doçura e a paciência?
Rogo-vos que vejais as conseqüências terríveis do direito da intolerância. Se fosse permitido despojar de seus bens, lançar no cárcere, matar um cidadão que, em certo grau de latitude, não professasse a religião estabelecida, que exceção isentaria os mandatários das mesmas penas? A religião une igualmente o monarca e os mendigos. Assim, mais de 50 doutores e monges afirmaram este horror monstruoso: que era permitido depor e matar os soberanos que não pensassem como a Igreja dominante. Os parlamentos do reino, porém, não cessaram de proscrever essas abomináveis decisões de abomináveis teólogos.
O sangue de Henrique, o Grande, ainda não secara, quando o parlamento de Paris aprovou um decreto que estabelecia a independência da coroa como uma lei fundamental. O cardeal Duperron, que devia a púrpura a Henrique, insurgiu-se, nos estados gerais de 1614, contra o decreto do parlamento, e mandou suprimi-lo. Todos os jornais da época relatam os termos que Duperron utilizou em seu discurso: “Se um príncipe se fizesse ariano, seríamos obrigados a depô-lo”.
Seguramente não, senhor cardeal. Queremos precisamente adotar vossa suposição quimérica de que um de nossos reis, tendo lido a história dos padres e concílios da Igreja, impressionado, aliás, pelas palavras “Meu Pai é maior do que eu”, tomando-os ao pé da letra, e oscilando entre o concilio de Nicéia e o de Constantinopla, se declarasse a favor de Eusébio de Nicomédia: mesmo assim eu obedeceria a meu rei, não me julgaria menos compelido pelo juramento que lhe fiz; e se ousásseis erguer-vos contra ele, e eu fosse um de vossos juízes, vos declararia criminoso de lesa-majestade.
Duperron levou mais longe a disputa, e eu a abrevio aqui. Não é este o lugar de aprofundar essas quimeras revoltantes. Limitar-me-ei a dizer, com todos os cidadãos, que não é porque Henrique IV fôra sagrado em Chartres que lhe devíamos obediência, mas porque o direito incontestável de nascimento dava a coroa a esse príncipe, que a merecia também por sua coragem e por sua bondade.
Seja, pois, permitido afirmar que todo cidadão deve herdar, pelo mesmo direito, os bens de seus pais, e que não se pense que ela merece ser privado disso e arrastado à forca, se for da opinião de Ratram contra Paschase Ratbert, ou de Bérenger contra Duns Scoto.
Sabe-se que nem todos os nossos dogmas foram claramente explicados e universalmente aceitos em nossa Igreja. Não havendo Jesus Cristo nos dito como procede o Espírito Santo, a Igreja latina, por muito tempo, acreditou, junto com a grega, que procedia apenas do Pai; mas, por fim, acrescentou que procedia também do Filho. Pergunto se, após essa decisão, um cidadão que se apegasse ao credo da véspera, seria digno de morte. A crueldade, a injustiça, seriam menores em punir hoje aquele que pensasse como se pensava outrora? Era-se culpado, no tempo de Honório I, por acreditar que Jesus não tinha duas vontades?
Não faz muito tempo que a Imaculada Conceição foi estabelecida; os dominicanos ainda não crêem nela. Em que momento os dominicanos começarão a merecer castigo neste mundo e no outro?...
Se devemos aprender com alguém a como nos conduzir em nossas disputas intermináveis, é certamente com os Apóstolos e os Evangelistas. Havia motivos para provocar um cisma violento entre São Pedro e São Paulo. Paulo diz expressamente, em sua Epístola aos Gálatas, que resistiu a Pedro porque este era repreensível, porque usava de simulação assim como Barnabé, porque ambos comiam com gentios antes da chegada de Tiago e em seguida retiraram-se secretamente, e separaram-se dos gentios por receio de ofender os circuncisos. Acrescenta Paulo: “Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas [Pedro], na presença de todos: Se, sendo tu judeu, vives como gentio, e não como judeu, porque obrigas os gentios a viverem como judeus?”
Esse era um tema de querela violenta. Tratava-se de saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. O próprio São Paulo, nessa época, foi oferecer sacrifícios no templo de Jerusalém. Sabe-se que os 15 primeiros bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos, que observavam o sábado e abstinham-se das carnes proibidas. Todavia, hoje um bispo espanhol ou português que se fizesse circuncidar e que observasse o sábado seria queimado num auto-de-fé. No entanto, entre os primeiros cristãos e entre os Apóstolos, a paz não foi perturbada por essa questão.
Se os Evangelistas se assemelhassem aos escritores modernos, teriam um campo bem vasto para se combaterem uns aos outros. São Mateus conta 28 gerações de Davi a Jesus; São Lucas conta 41, e essas gerações são absolutamente diferentes. Contudo, não se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos acerca dessas contradições aparentes, muito bem conciliadas por vários padres da Igreja. A caridade não foi ferida, a paz foi conservada. Que lição maior do que essa para tolerar-nos em nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não entendemos!
São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma convertidos ao cristianismo, dedica todo o final do terceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua Epístola às doze tribos dispersas pela terra, capítulo II, não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem obras. Aí está o que separou duas grandes comunhões entre nós, mas que não dividiu os Apóstolos.
Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso. Que figura faria um homem que houvesse se contentado, pois, com despojar seus irmãos e jogá-los no cárcere, perto de outro, mais zeloso, que tivesse matado centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui a prova.
O sucessor de São Pedro e seu consistório não podem errar, não é mesmo? Pois eles aprovaram, celebraram, consagraram a ação da Noite de São Bartolomeu; logo, essa ação era muito santa; logo, de dois assassinos iguais em piedade, o que tivesse estripado 24 mulheres huguenotes grávidas, devia ser glorificado em dobro, em relação ao que só tivesse estripado doze. Pela mesma razão, os fanáticos das Cevenas deviam pensar, pois, que seriam glorificados na proporção do número de padres, religiosos e mulheres católicas que tivessem liquidado. Estranhos títulos, esses, para a glória eterna...
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VERSÃO ORIGINAL EM FRANCÊS
CHAPITRE XI.
Abus de l’intolérance
Mais quoi! sera-t-il permis à chaque citoyen de ne croire que sa raison, et de penser ce que cette raison éclairée ou trompée lui dictera? Il le faut bien(59), pourvu qu’il ne trouble point l’ordre car il ne dépend pas de l’homme de croire ou de ne pas croire, mais il dépend de lui de respecter les usages de sa patrie; et si vous disiez que c’est un crime de ne pas croire à la religion dominante, vous accuseriez donc vous-même les premiers chrétiens vos pères, et vous justifieriez ceux que vous accusez de les avoir livrés aux supplices.
Vous répondez que la différence est grande, que toutes les religions sont les ouvrages des hommes, et que l’Église catholique, apostolique et romaine, est seule l’ouvrage de Dieu. Mais en bonne foi, parce que notre religion est divine doit-elle régner par la haine, par les fureurs, par les exils, par l’enlèvement des biens, les prisons, les tortures, les meurtres, et par les actions de grâces rendues à Dieu pour ces meurtres? Plus la religion chrétienne est divine, moins il appartient à l’homme de la commander; si Dieu l’a faite, Dieu la soutiendra sans vous. Vous savez que l’intolérance ne produit que des hypocrites ou des rebelles: quelle funeste alternative! Enfin voudriez-vous soutenir par des bourreaux la religion d’un Dieu que des bourreaux ont fait périr, et qui n’a prêché que la douceur et la patience?
Voyez, je vous prie, les conséquences affreuses du droit de l’intolérance. S’il était permis de dépouiller de ses biens, de jeter dans les cachots, de tuer un citoyen qui, sous un tel degré de latitude, ne professerait pas la religion admise sous ce degré, quelle exception exempterait les premiers de l’État des mêmes peines? La religion lie également le monarque et les mendiants: aussi plus de cinquante docteurs ou moines ont affirmé cette horreur monstrueuse qu’il était permis de déposer, de tuer les souverains qui ne penseraient pas comme l’Église dominante; et les parlements du royaume n’ont cessé de proscrire ces abominables décisions d’abominables théologiens.
Le sang de Henri le Grand fumait encore quand le parlement de Paris donna un arrêt qui établissait l’indépendance de la couronne comme une loi fondamentale. Le cardinal Duperron, qui devait la pourpre à Henri le Grand, s’éleva, dans les états de 1614, contre l’arrêt du parlement, et le fit supprimer. Tous les journaux du temps rapportent les termes dont Duperron se servit dans ses harangues: « Si un prince se faisait arien, dit-il, on serait bien obligé de le déposer. »
Non assurément, monsieur le cardinal. On veut bien adopter votre supposition chimérique qu’un de nos rois, ayant lu l’histoire des conciles et des pères, frappé d’ailleurs de ces paroles: Mon père est plus grand que moi,les prenant trop à la lettre et balançant entre le concile de Nicée et celui de Constantinople, se déclarât pour Eusèbe de Nicomédie: je n’en obéirai pas moins à mon roi, je ne me croirai pas moins lié par le serment que je lui ai fait; et si vous osiez vous soulever contre lui, et que je fusse un de vos juges, je vous déclarerais criminel de lèse majesté.
Duperron poussa plus loin la dispute, et je l’abrège. Ce n’est pas ici le lieu d’approfondir ces chimères révoltantes; je me bornerai à dire, avec tous les citoyens, que ce n’est point parce que Henri IV fut sacré à Chartres qu’on lui devait obéissance, mais parce que le droit incontestable de la naissance donnait la couronne à ce prince, qui la méritait par son courage et par sa bonté.
Qu’il soit donc permis de dire que tout citoyen doit hériter, par le même droit, des biens de son père, et qu’on ne voit pas qu’il mérite d’en être privé, et d’être traîné au gibet, parce qu’il sera du sentiment de Ratram contre Paschase Ratbert, et de Bérenger contre Scot.
On sait que tous nos dogmes n’ont pas toujours été clairement expliqués et universellement reçus dans notre Église. Jésus-Christ ne nous ayant point dit comment procédait le Saint-Esprit, l’Église latine crut longtemps avec la grecque qu’il ne procédait que du Père: enfin elle ajouta au symbole qu’il procédait aussi du Fils. Je demande si, le lendemain de cette décision, un citoyen qui s’en serait tenu au symbole de la veille eût été digne de mort? La cruauté, l’injustice, seraient-elles moins grandes de punir aujourd’hui celui qui penserait comme on pensait autrefois? Était-on coupable, du temps d’Honorius Ier, de croire que Jésus n’avait pas deux volontés?
Il n’y a pas longtemps que l’immaculée conception est établie: les dominicains n’y croient pas encore. Dans quel temps les dominicains commenceront-ils à mériter des peines dans ce monde et dans l’autre?
Si nous devons apprendre de quelqu’un à nous conduire dans nos disputes interminables, c’est certainement des apôtres et des évangélistes. Il y avait de quoi exciter un schisme violent entre saint Paul et saint Pierre. Paul dit expressément dans son Épître aux Galates qu’il résista en face à Pierre parce que Pierre était répréhensible, parce qu’il usait de dissimulation aussi bien que Barnabé, parce qu’ils mangeaient avec les Gentils avant l’arrivée de Jacques, et qu’ensuite ils se retirèrent secrètement, et se séparèrent des Gentils de peur d’offenser les circoncis. « Je vis, ajoute-t-il, qu’ils ne marchaient pas droit selon l’Évangile; je dis à Céphas: si vous, Juif, vivez comme les Gentils, et non comme les Juifs, pourquoi obligez-vous les Gentils à judaïser? »
C’était là un sujet de querelle violente. Il s’agissait de savoir si les nouveaux chrétiens judaïseraient ou non. Saint Paul alla dans ce temps-là même sacrifier dans le temple de Jérusalem. On sait que les quinze premiers évêques de Jérusalem furent des Juifs circoncis, qui observèrent le sabbat, et qui s’abstinrent des viandes défendues. Un évêque espagnol ou portugais qui se ferait circoncire, et qui observerait le sabbat, serait brûlé dans un autodafé. Cependant la paix ne fut altérée, pour cet objet fondamental, ni parmi les apôtres, ni parmi les premiers chrétiens.
Si les évangélistes avaient ressemblé aux écrivains modernes, ils avaient un champ bien vaste pour combattre les uns contre les autres. Saint Matthieu compte vingt-huit générations depuis David jusqu’à Jésus; saint Luc en compte quarante et une, et ces générations sont absolument différentes. On ne voit pourtant nulle dissension s’élever entre les disciples sur ces contrariétés apparentes, très bien conciliées par plusieurs Pères de l’Église. La charité ne fut point blessée, la paix fut conservée. Quelle plus grande leçon de nous tolérer dans nos disputes, et de nous humilier dans tout ce que nous n’entendons pas!
Saint Paul, dans son Épître à quelques juifs de Rome convertis au christianisme emploie toute la fin du troisième chapitre à dire que la seule foi glorifie, et que les oeuvres ne justifient personne. Saint Jacques, au contraire, dans son Épître aux douze tribus dispersées par toute la terre, chapitre II, ne cesse de dire qu’on ne peut être sauvé sans les oeuvres. Voilà ce qui a séparé deux grandes communions parmi nous, et ce qui ne divisa point les apôtres.
Si la persécution contre ceux avec qui nous disputons était une action sainte, il faut avouer que celui qui aurait fait tuer le plus d’hérétiques serait le plus grand saint du paradis. Quelle figure y ferait un homme qui se serait contenté de dépouiller ses frères, et de les plonger dans des cachots, auprès d’un zélé qui en aurait massacré des centaines le jour de la Saint-Barthélemy? En voici la preuve.
Le successeur de saint Pierre et son consistoire ne peuvent errer; ils approuvèrent, célébrèrent, consacrèrent, l’action de la Saint-Barthélemy: donc cette action était très sainte; donc de deux assassins égaux en piété, celui qui aurait éventré vingt-quatre femmes grosses huguenotes doit être élevé en gloire du double de celui qui n’en aura éventré que douze. Par la même raison, les fanatiques des Cévennes devaient croire qu’ils seraient élevés en gloire à proportion du nombre des prêtres, des religieux, et des femmes catholiques qu’ils auraient égorgés. Ce sont là d’étranges titres pour la gloire éternelle.

Capítulo XI
Abuso da intolerância
Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua razão e pensar o que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar? Exatamente, contanto que ele não perturbe a ordem, pois não depende do homem acreditar ou não acreditar, mas depende dele respeitar os costumes de sua pátria. E se dissésseis que é um crime não crer na religião dominante, vós mesmos acusaríeis assim os cristãos vossos pais e justificaríeis aqueles que acusais de tê-los entregue aos suplícios.
Respondeis que a diferença é grande, que todas as outras religiões são obras de homens e que apenas a igreja católica, apostólica, romana, é obra de Deus. Mas, em boa-fé, deverá nossa religião, por ser divina, reinar pelo ódio, pelos furores, pelo exílio, pelo confisco de bens, pelas prisões, torturas e crimes, pelas ações de graças prestadas a Deus por esses crimes? Quanto mais divina a religião cristã, tanto menos compete ao homem comandá-la; se Deus a fez, Deus irá sustentá-la sem vós. Sabeis que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes. Que péssima alternativa! Enfim, gostaríeis que fosse mantida por carrascos a religião de um Deus que carrascos fizeram perecer e que pregou tão só a doçura e a paciência?
Rogo-vos que vejais as conseqüências terríveis do direito da intolerância. Se fosse permitido despojar de seus bens, lançar no cárcere, matar um cidadão que, em certo grau de latitude, não professasse a religião estabelecida, que exceção isentaria os mandatários das mesmas penas? A religião une igualmente o monarca e os mendigos. Assim, mais de 50 doutores e monges afirmaram este horror monstruoso: que era permitido depor e matar os soberanos que não pensassem como a Igreja dominante. Os parlamentos do reino, porém, não cessaram de proscrever essas abomináveis decisões de abomináveis teólogos.
O sangue de Henrique, o Grande, ainda não secara, quando o parlamento de Paris aprovou um decreto que estabelecia a independência da coroa como uma lei fundamental. O cardeal Duperron, que devia a púrpura a Henrique, insurgiu-se, nos estados gerais de 1614, contra o decreto do parlamento, e mandou suprimi-lo. Todos os jornais da época relatam os termos que Duperron utilizou em seu discurso: “Se um príncipe se fizesse ariano, seríamos obrigados a depô-lo”.
Seguramente não, senhor cardeal. Queremos precisamente adotar vossa suposição quimérica de que um de nossos reis, tendo lido a história dos padres e concílios da Igreja, impressionado, aliás, pelas palavras “Meu Pai é maior do que eu”, tomando-os ao pé da letra, e oscilando entre o concilio de Nicéia e o de Constantinopla, se declarasse a favor de Eusébio de Nicomédia: mesmo assim eu obedeceria a meu rei, não me julgaria menos compelido pelo juramento que lhe fiz; e se ousásseis erguer-vos contra ele, e eu fosse um de vossos juízes, vos declararia criminoso de lesa-majestade.
Duperron levou mais longe a disputa, e eu a abrevio aqui. Não é este o lugar de aprofundar essas quimeras revoltantes. Limitar-me-ei a dizer, com todos os cidadãos, que não é porque Henrique IV fôra sagrado em Chartres que lhe devíamos obediência, mas porque o direito incontestável de nascimento dava a coroa a esse príncipe, que a merecia também por sua coragem e por sua bondade.
Seja, pois, permitido afirmar que todo cidadão deve herdar, pelo mesmo direito, os bens de seus pais, e que não se pense que ela merece ser privado disso e arrastado à forca, se for da opinião de Ratram contra Paschase Ratbert, ou de Bérenger contra Duns Scoto.
Sabe-se que nem todos os nossos dogmas foram claramente explicados e universalmente aceitos em nossa Igreja. Não havendo Jesus Cristo nos dito como procede o Espírito Santo, a Igreja latina, por muito tempo, acreditou, junto com a grega, que procedia apenas do Pai; mas, por fim, acrescentou que procedia também do Filho. Pergunto se, após essa decisão, um cidadão que se apegasse ao credo da véspera, seria digno de morte. A crueldade, a injustiça, seriam menores em punir hoje aquele que pensasse como se pensava outrora? Era-se culpado, no tempo de Honório I, por acreditar que Jesus não tinha duas vontades?
Não faz muito tempo que a Imaculada Conceição foi estabelecida; os dominicanos ainda não crêem nela. Em que momento os dominicanos começarão a merecer castigo neste mundo e no outro?...
Se devemos aprender com alguém a como nos conduzir em nossas disputas intermináveis, é certamente com os Apóstolos e os Evangelistas. Havia motivos para provocar um cisma violento entre São Pedro e São Paulo. Paulo diz expressamente, em sua Epístola aos Gálatas, que resistiu a Pedro porque este era repreensível, porque usava de simulação assim como Barnabé, porque ambos comiam com gentios antes da chegada de Tiago e em seguida retiraram-se secretamente, e separaram-se dos gentios por receio de ofender os circuncisos. Acrescenta Paulo: “Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas [Pedro], na presença de todos: Se, sendo tu judeu, vives como gentio, e não como judeu, porque obrigas os gentios a viverem como judeus?”
Esse era um tema de querela violenta. Tratava-se de saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. O próprio São Paulo, nessa época, foi oferecer sacrifícios no templo de Jerusalém. Sabe-se que os 15 primeiros bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos, que observavam o sábado e abstinham-se das carnes proibidas. Todavia, hoje um bispo espanhol ou português que se fizesse circuncidar e que observasse o sábado seria queimado num auto-de-fé. No entanto, entre os primeiros cristãos e entre os Apóstolos, a paz não foi perturbada por essa questão.
Se os Evangelistas se assemelhassem aos escritores modernos, teriam um campo bem vasto para se combaterem uns aos outros. São Mateus conta 28 gerações de Davi a Jesus; São Lucas conta 41, e essas gerações são absolutamente diferentes. Contudo, não se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos acerca dessas contradições aparentes, muito bem conciliadas por vários padres da Igreja. A caridade não foi ferida, a paz foi conservada. Que lição maior do que essa para tolerar-nos em nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não entendemos!
São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma convertidos ao cristianismo, dedica todo o final do terceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua Epístola às doze tribos dispersas pela terra, capítulo II, não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem obras. Aí está o que separou duas grandes comunhões entre nós, mas que não dividiu os Apóstolos.
Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso. Que figura faria um homem que houvesse se contentado, pois, com despojar seus irmãos e jogá-los no cárcere, perto de outro, mais zeloso, que tivesse matado centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui a prova.
O sucessor de São Pedro e seu consistório não podem errar, não é mesmo? Pois eles aprovaram, celebraram, consagraram a ação da Noite de São Bartolomeu; logo, essa ação era muito santa; logo, de dois assassinos iguais em piedade, o que tivesse estripado 24 mulheres huguenotes grávidas, devia ser glorificado em dobro, em relação ao que só tivesse estripado doze. Pela mesma razão, os fanáticos das Cevenas deviam pensar, pois, que seriam glorificados na proporção do número de padres, religiosos e mulheres católicas que tivessem liquidado. Estranhos títulos, esses, para a glória eterna...
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VERSÃO ORIGINAL EM FRANCÊS
CHAPITRE XI.
Abus de l’intolérance
Mais quoi! sera-t-il permis à chaque citoyen de ne croire que sa raison, et de penser ce que cette raison éclairée ou trompée lui dictera? Il le faut bien(59), pourvu qu’il ne trouble point l’ordre car il ne dépend pas de l’homme de croire ou de ne pas croire, mais il dépend de lui de respecter les usages de sa patrie; et si vous disiez que c’est un crime de ne pas croire à la religion dominante, vous accuseriez donc vous-même les premiers chrétiens vos pères, et vous justifieriez ceux que vous accusez de les avoir livrés aux supplices.
Vous répondez que la différence est grande, que toutes les religions sont les ouvrages des hommes, et que l’Église catholique, apostolique et romaine, est seule l’ouvrage de Dieu. Mais en bonne foi, parce que notre religion est divine doit-elle régner par la haine, par les fureurs, par les exils, par l’enlèvement des biens, les prisons, les tortures, les meurtres, et par les actions de grâces rendues à Dieu pour ces meurtres? Plus la religion chrétienne est divine, moins il appartient à l’homme de la commander; si Dieu l’a faite, Dieu la soutiendra sans vous. Vous savez que l’intolérance ne produit que des hypocrites ou des rebelles: quelle funeste alternative! Enfin voudriez-vous soutenir par des bourreaux la religion d’un Dieu que des bourreaux ont fait périr, et qui n’a prêché que la douceur et la patience?
Voyez, je vous prie, les conséquences affreuses du droit de l’intolérance. S’il était permis de dépouiller de ses biens, de jeter dans les cachots, de tuer un citoyen qui, sous un tel degré de latitude, ne professerait pas la religion admise sous ce degré, quelle exception exempterait les premiers de l’État des mêmes peines? La religion lie également le monarque et les mendiants: aussi plus de cinquante docteurs ou moines ont affirmé cette horreur monstrueuse qu’il était permis de déposer, de tuer les souverains qui ne penseraient pas comme l’Église dominante; et les parlements du royaume n’ont cessé de proscrire ces abominables décisions d’abominables théologiens.
Le sang de Henri le Grand fumait encore quand le parlement de Paris donna un arrêt qui établissait l’indépendance de la couronne comme une loi fondamentale. Le cardinal Duperron, qui devait la pourpre à Henri le Grand, s’éleva, dans les états de 1614, contre l’arrêt du parlement, et le fit supprimer. Tous les journaux du temps rapportent les termes dont Duperron se servit dans ses harangues: « Si un prince se faisait arien, dit-il, on serait bien obligé de le déposer. »
Non assurément, monsieur le cardinal. On veut bien adopter votre supposition chimérique qu’un de nos rois, ayant lu l’histoire des conciles et des pères, frappé d’ailleurs de ces paroles: Mon père est plus grand que moi,les prenant trop à la lettre et balançant entre le concile de Nicée et celui de Constantinople, se déclarât pour Eusèbe de Nicomédie: je n’en obéirai pas moins à mon roi, je ne me croirai pas moins lié par le serment que je lui ai fait; et si vous osiez vous soulever contre lui, et que je fusse un de vos juges, je vous déclarerais criminel de lèse majesté.
Duperron poussa plus loin la dispute, et je l’abrège. Ce n’est pas ici le lieu d’approfondir ces chimères révoltantes; je me bornerai à dire, avec tous les citoyens, que ce n’est point parce que Henri IV fut sacré à Chartres qu’on lui devait obéissance, mais parce que le droit incontestable de la naissance donnait la couronne à ce prince, qui la méritait par son courage et par sa bonté.
Qu’il soit donc permis de dire que tout citoyen doit hériter, par le même droit, des biens de son père, et qu’on ne voit pas qu’il mérite d’en être privé, et d’être traîné au gibet, parce qu’il sera du sentiment de Ratram contre Paschase Ratbert, et de Bérenger contre Scot.
On sait que tous nos dogmes n’ont pas toujours été clairement expliqués et universellement reçus dans notre Église. Jésus-Christ ne nous ayant point dit comment procédait le Saint-Esprit, l’Église latine crut longtemps avec la grecque qu’il ne procédait que du Père: enfin elle ajouta au symbole qu’il procédait aussi du Fils. Je demande si, le lendemain de cette décision, un citoyen qui s’en serait tenu au symbole de la veille eût été digne de mort? La cruauté, l’injustice, seraient-elles moins grandes de punir aujourd’hui celui qui penserait comme on pensait autrefois? Était-on coupable, du temps d’Honorius Ier, de croire que Jésus n’avait pas deux volontés?
Il n’y a pas longtemps que l’immaculée conception est établie: les dominicains n’y croient pas encore. Dans quel temps les dominicains commenceront-ils à mériter des peines dans ce monde et dans l’autre?
Si nous devons apprendre de quelqu’un à nous conduire dans nos disputes interminables, c’est certainement des apôtres et des évangélistes. Il y avait de quoi exciter un schisme violent entre saint Paul et saint Pierre. Paul dit expressément dans son Épître aux Galates qu’il résista en face à Pierre parce que Pierre était répréhensible, parce qu’il usait de dissimulation aussi bien que Barnabé, parce qu’ils mangeaient avec les Gentils avant l’arrivée de Jacques, et qu’ensuite ils se retirèrent secrètement, et se séparèrent des Gentils de peur d’offenser les circoncis. « Je vis, ajoute-t-il, qu’ils ne marchaient pas droit selon l’Évangile; je dis à Céphas: si vous, Juif, vivez comme les Gentils, et non comme les Juifs, pourquoi obligez-vous les Gentils à judaïser? »
C’était là un sujet de querelle violente. Il s’agissait de savoir si les nouveaux chrétiens judaïseraient ou non. Saint Paul alla dans ce temps-là même sacrifier dans le temple de Jérusalem. On sait que les quinze premiers évêques de Jérusalem furent des Juifs circoncis, qui observèrent le sabbat, et qui s’abstinrent des viandes défendues. Un évêque espagnol ou portugais qui se ferait circoncire, et qui observerait le sabbat, serait brûlé dans un autodafé. Cependant la paix ne fut altérée, pour cet objet fondamental, ni parmi les apôtres, ni parmi les premiers chrétiens.
Si les évangélistes avaient ressemblé aux écrivains modernes, ils avaient un champ bien vaste pour combattre les uns contre les autres. Saint Matthieu compte vingt-huit générations depuis David jusqu’à Jésus; saint Luc en compte quarante et une, et ces générations sont absolument différentes. On ne voit pourtant nulle dissension s’élever entre les disciples sur ces contrariétés apparentes, très bien conciliées par plusieurs Pères de l’Église. La charité ne fut point blessée, la paix fut conservée. Quelle plus grande leçon de nous tolérer dans nos disputes, et de nous humilier dans tout ce que nous n’entendons pas!
Saint Paul, dans son Épître à quelques juifs de Rome convertis au christianisme emploie toute la fin du troisième chapitre à dire que la seule foi glorifie, et que les oeuvres ne justifient personne. Saint Jacques, au contraire, dans son Épître aux douze tribus dispersées par toute la terre, chapitre II, ne cesse de dire qu’on ne peut être sauvé sans les oeuvres. Voilà ce qui a séparé deux grandes communions parmi nous, et ce qui ne divisa point les apôtres.
Si la persécution contre ceux avec qui nous disputons était une action sainte, il faut avouer que celui qui aurait fait tuer le plus d’hérétiques serait le plus grand saint du paradis. Quelle figure y ferait un homme qui se serait contenté de dépouiller ses frères, et de les plonger dans des cachots, auprès d’un zélé qui en aurait massacré des centaines le jour de la Saint-Barthélemy? En voici la preuve.
Le successeur de saint Pierre et son consistoire ne peuvent errer; ils approuvèrent, célébrèrent, consacrèrent, l’action de la Saint-Barthélemy: donc cette action était très sainte; donc de deux assassins égaux en piété, celui qui aurait éventré vingt-quatre femmes grosses huguenotes doit être élevé en gloire du double de celui qui n’en aura éventré que douze. Par la même raison, les fanatiques des Cévennes devaient croire qu’ils seraient élevés en gloire à proportion du nombre des prêtres, des religieux, et des femmes catholiques qu’ils auraient égorgés. Ce sont là d’étranges titres pour la gloire éternelle.
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