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Acompanhe aqui e reze conosco a "Prece pela Tolerância", do filósofo francês Voltaire.

Tratado sobre a Tolerância (Voltaire) - Cap. XII





Capítulo XII

Se a intolerância foi de direito divino no Judaísmo e se foi sempre posta em prática



Chamam direito divino, creio eu, aos preceitos que foram dados pelo próprio Deus. Ele quis que os judeus comessem um cordeiro cozido com alfaces e que os comensais o fizessem de pé, com um bastão na mão, em comemoração da Páscoa; ordenou que a consagração do sumo sacerdote se fizesse pondo sangue em sua orelha direita, em sua mão direita e em seu pé direito – costumes extraordinários para nós, mas não para a antiguidade; quis que sacrificassem o bode expiatório pelas iniqüidades do povo; proibiu que se alimentassem de peixes sem escamas, porcos, lebres, ouriços, corujas, gaviões, etc.

Instituiu as festas, as cerimônias. Todas essas coisas, que pareciam arbitrárias às outras nações, e submetidas ao direito positivo, ao costume, tornavam-se, ao serem ordenadas pelo próprio Deus, um direito divino para os judeus, assim com o tudo o que Jesus Cristo, filho de Deus e de Maria, nos ordenou, é de direito divino para nós.

Não nos preocupemos aqui em saber por que Deus impôs uma lei nova em substituição à antiga, que havia dado por Moisés, nem por que havia ordenado a Moisés mais coisas do que ao patriarca Abraão, e a Abraão mais do que a Noé. Parece que Ele tem por bem adaptar-se às épocas e à população do gênero humano: é uma gradação paterna. Mas tais abismos são demasiado profundos para nossa débil compreensão. Atenhamo-nos aos limites de nosso tema; vejamos, em primeiro lugar, o que era a intolerância entre os judeus.

É verdade que, no Êxodo, nos Números, no Levítico, no Deuteronômio, há leis muito mais severas sobre o culto, e castigos mais severos ainda. Vários comentadores têm dificuldade de conciliar as palavras de Moisés com as passagens de Jeremias e Amós, e com o célebre discurso de Santo Estevão, relatado nos Atos dos Apóstolos. Amós diz que os judeus, no deserto, sempre adoraram Moloc, Renfã e Quium. Jeremias diz expressamente que Deus não pediu nenhum sacrifício aos judeus quando saíram do Egito. Santo Estevão, em seu discurso aos judeus, exprime-se assim: “Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da milícia celestial... Ó casa de Israel, porventura me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto pelo espaço de 40 anos, e acaso não levantastes o tabernáculo de Moloc e a estrela do deus Renfã, figura que as fizestes para as adorar?”

Do culto de tantos deuses estrangeiros, outros críticos inferem que esses deuses foram tolerados por Moisés e citam como indício as seguintes palavras do Deuteronômio: “Não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual o que bem parece aos seus olhos”.

Apóiam sua opinião no fato de não ser mencionado nenhum ato religioso do povo no deserto: nenhuma celebração da Páscoa, nem de Pentecostes, nenhuma menção à festa dos Tabernáculos, nenhuma oração pública estabelecida; enfim, a própria circuncisão, o sinal da aliança de Deus com Abraão, não foi praticada.

Também citam a seu favor a história de Josué. Esse conquistador diz aos judeus: “Escolhei hoje a quem servireis: se aos deuses aos quais serviram vossos pais, que estavam além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais”. E o povo respondeu: “Não; antes, serviremos ao Senhor”. Josué replicou: “Jogai fora, pois, agora, os deuses estranhos que há no meio de vós”. Portanto, eles tinham incontestavelmente outros deuses além de Adonai no tempo de Moisés.

É inútil refutar aqui os críticos para os quais o Pentateuco não foi escrito por Moisés. Tudo já foi dito há tempos sobre essa questão e, ainda que uma pequena parte dos livros de Moisés tivesse sido escrita no tempo dos juízes ou dos pontífices, eles não seriam menos inspirados e menos divinos.

Basta, parece-me, estar provado pela Sagrada Escritura que, apesar da extraordinária punição que atraíram devido ao culto de Ápis, os judeus conservaram por muito tempo uma completa liberdade. É possível até que o massacre de 23 mil homens provocado por Moisés por causa do bezerro erigido por seu irmão, o tenha feito compreender que nada se ganha com o rigor, obrigando-o a fechar os olhos, daí em diante, à paixão do povo pelos deuses estrangeiros.

O próprio Moisés parece, em seguida, transgredir a lei que ditou. Proibiu toda imagem e, não obstante, erigiu uma serpente de bronze. A mesma exceção à lei verifica-se depois no templo de Salomão: esse príncipe manda esculpir 12 bois que sustentam a grande nave do templo; querubins são colocados na arca; têm uma cabeça de águia e outra de bezerro; e foi provavelmente essa cabeça de bezerro mal feita, encontrada no templo por soldados romanos, que fez pensar por muito tempo que os judeus adoravam um asno.

Em vão o culto dos deuses estrangeiros foi proibido. Salomão é pacificamente idólatra. Jeroboão, a quem Deus concedeu 10 partes do reino, manda erigir 2 bezerros de ouro, e reina por 22 anos, reunindo ainda as dignidades de monarca e pontífice. O pequeno reino de Judá ergue, sob Roboão, altares e estátuas a deuses estrangeiros. Mesmo o santo rei Asa não destrói os ‘lugares altos’. O grande sacerdote Urias erige no templo, em lugar do altar dos holocaustos, um altar do rei da Síria. Não se vê, em uma palavra, nenhuma coerção sobre a religião. Sei que a maior parte dos reis judeus exterminaram-se, assassinaram-se uns aos outros, mas isso foi sempre por causa de seus interesses, e não por suas crenças.

É verdade que, entre os profetas, houve aqueles que invocaram o céu em sua vingança: Elias fez descer o fogo celeste para consumir os sacerdotes de Baal; Eliseu mandou vir ursas 42 crianças que o haviam chamado de careca. Mas são milagres raros, e fatos que seria um pouco duro querer imitar...

Objetam-nos ainda que o povo judeu era muito ignorante e bárbaro. É lembrado também que, na guerra contra os madianitas, Moisés ordenou que fossem mortas todas as crianças do sexo masculino com suas mães, e que os despojos fossem partilhados. Os vencedores encontraram no campo 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil burros e 32 mil meninas; fizeram a partilha e mataram o resto. Vários comentadores afirmam, inclusive, que 32 meninas foram imoladas ao Senhor: Cesserunt in partem Domini triginta duae animae.

Na verdade, os judeus faziam sacrifícios humanos à divindade. Testemunham-no os sacrifícios de Jefté e do rei Agag, cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel. Ezequiel promete aos guerreiros, para encorajá-los, que comerão carne humana: “Vós vos fartareis de cavalos e de cavaleiros; bebereis o sangue de príncipes”. Vários comentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos próprios judeus, e os demais aos animais carnívoros. Não se encontra, de fato, em toda a história desse povo, nenhum traço de generosidade, de magnanimidade, de beneficência; mas sempre escapam, na nuvem dessa barbárie tão longa e tão terrível, raios de uma tolerância universal.

Jefté, inspirado por Deus, e que Lhe imolou sua filha, diz aos amonitas: “Não é certo que aquilo que Camos, teu deus, te dá, consideras como tua possessão? Assim possuiremos nós o território de todos quantos o Senhor nosso Deus expulsou de diante de nós.” Essa declaração é precisa: pode levar muito longe; mas, ao menos, é uma prova de que Deus tolerava Camos. Pois a Sagrada Escritura não diz: ‘julgais ter direito sobre as terras que dizeis vos terem sido dadas pelo deus Camos’. Mas, antes, diz positivamente: ‘tendes direito’ – tibi jure debentur, o que é o verdadeiro sentido das palavras hebraicas otho thirasch.

A história de Mica e do levita, relatada nos capítulos XVII e XVIII do livro dos Juízes, é também uma prova incontestável da tolerância e da maior liberdade admitida então entre os judeus. A mãe de Mica, esposa muito rica de Efraim, havia perdido 1100 peças de prata; seu filho lhas devolveu; ela consagrou essa prata ao Senhor e mandou fazer ídolos com ela; construiu uma pequena capela. Um levita encarregou-se do serviço da capela, mediante 10 peças de prata, uma túnica, um manto por ano e sua alimentação. E Mica disse consigo mesma: “Sei agora que o Senhor me fará bem, porquanto tenho um levita por sacerdote”.

Nesse ínterim, 600 homens da tribo de Dã, que buscavam apoderar-se de alguma aldeia da região e nela estabelecer-se, mas não tendo sacerdote levita consigo e necessitando de um para que Deus favorecesse a empresa deles, foram à casa de Mica e tomaram seu efod [que é um certo símbolo judaico], seus ídolos e seu levita, apesar dos protestos desse sacerdote e dos gritos de Mica e sua mãe. Foram, então, com segurança atacar a aldeia, a qual se chamava Laís, e ali espalharam sangue e fogo por tudo, como era seu costume. Deram o nome de Dã a Laís, em memória de sua vitória; colocaram o ídolo de Mica num altar. E, o que mais chama a atenção, Jônatas, neto de Moisés, foi o grande sacerdote desse templo, onde eram adorados o Deus de Israel e o ídolo de Mica.

Após a morte de Gedeão, os hebreus adoraram Baal-Berite durante cerca de 20 anos e renunciaram ao culto de Adonai, sem que nenhum chefe, nenhum juiz, nenhum sacerdote clamasse por vingança. Seu crime era grande, reconheço-o; mas, se mesmo essa idolatria foi tolerada, como devem tê-lo sido as diferenças no verdadeiro culto!

Alguns dão como prova de intolerância que o próprio Senhor, tendo permitido que Sua arca fosse tomada pelos filisteus num combate, puniu estes últimos com uma doença secreta parecida com hemorróidas, derrubando também a estátua de Dagon e enviando grande quantidade de ratos a seus campos; mas, quando os filisteus, para abrandar Sua cólera, devolveram a arca puxada por duas vacas que nutriam seus bezerros, e ofereceram 5 ratos de ouro e 5 asnos de ouro, o Senhor fez morrer fez morrer 70 anciãos de Israel 50 mil homens do povo, por terem olhado para a arca nessa ocasião. Respondemos, porém, que o castigo do Senhor, nesse caso, não incide sobre uma crença estranha, nem sobre uma idolatria.

Se o Senhor tivesse querido punir a idolatria, teria feito perecer os filisteus, que ousaram tomar a sua arca e adoravam Dagon; mas, pelo contrário, fez perecer 50 mil mais 70 homens de Seu povo, unicamente por haverem olhado a arca, que não deviam olhar. Tal como as leis, os costumes dessa época, a economia judaica, diferem de tudo o que conhecemos, assim também os caminhos inescrutáveis de Deus encontram-se acima dos nossos. “O rigor exercido contra esse grande número de homens, diz o judicioso Dom Calmet, só parecerá excessivo aos que não compreenderam até que ponto Deus queria ser temido e respeitado entre Seu povo e que julgam os propósitos e os desígnios de Deus apenas segundo as fracas luzes da razão”.

Portanto, Deus não pune, nesse caso, um culto estrangeiro, mas sim uma profanação do Seu, uma curiosidade indiscreta, uma desobediência, talvez até mesmo um espírito de revolta. Percebe-se bem que tais castigos só competem a Deus, e isso na teocracia judaica. Nunca é demais repetir que esses tempos e costumes não tem nenhuma relação com os nossos.

Enfim, quando, séculos depois, Naamã, o idólatra, pergunta a Eliseu se teria permissão de seguir seu rei ao templo de Rimon e ali adorar com ele, esse mesmo Eliseu, que havia feito as crianças serem devoradas pelas ursas, lhe responde: 'Vai em paz'.

Há mais ainda: o Senhor ordenou a Jeremias que pusesse cordas no pescoço, cabrestos e cangas, e depois os enviasse aos reizinhos de Moab, Amom, Edom, Tiro e Sidom; e Jeremias transmitiu-lhes estas palavras do Senhor: “Agora Eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei de Babilônia, meu servo”. Eis aí um rei idólatra declarado servidor de Deus e seu favorito.

O mesmo Jeremias, que o régulo judaico Sedecias havia mandado encarcerar, tendo obtido deste o perdão, aconselha-o, da parte de Deus, a entregar-se ao rei da Babilônia: “Se te renderes voluntariamente aos príncipes do rei da Babilônia, então viverá tua alma”. Deus, portanto, toma, enfim, o partido de um rei idólatra; entrega-lhe a arca, cuja mera visão havia custado a vida de 50 mil e 70 judeus; entrega-lhe o tabernáculo e o resto do templo, cuja construção havia custado uma incrível fortuna, deixada por Davi e seus ministros para a construção da casa do Senhor. Idolatria nenhuma foi melhor recompensada. Mas, enfim, os tesouros não são nada aos olhos de Deus, e o nome de Seu servidor, dado a Nabucodonosor, esse sim é o verdadeiro tesouro inestimável.

E Deus não favorece menos a Ciro; chama-o ‘Seu cristo, Seu ungido’ – embora ele não fosse ungido segundo a significação comum dessa palavra, e seguisse a religião de Zoroastro; chama-o ‘Seu pastor’, embora fosse um usurpador aos olhos dos homens. Foi, por certo, em toda a Sagrada Escritura, um dos maiores sinais de predileção.

Lemos em Malaquias que “desde o nascer ao pôr do Sol é grande entre as nações o meu nome (o de Deus); e em toda a parte lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras”. Deus preocupa-se tanto com os ninivitas idólatras como com os judeus; Ele os ameaça, e os perdoa. Melquisedec, que não judeu, foi sacerdote de Deus. Balaão, idólatra, era profeta. A Escritura nos ensina, portanto, que Deus não somente tolerava todos os outros povos, como tinha por eles um cuidado paternal. E nós ousamos ser intolerantes!...

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VERSÃO ORIGINAL EM FRANCÊS

CHAPITRE XII

Si l’intolérance fut de droit divin dans le judaïsme, et si elle fut toujours mise en pratique.

On appelle, je crois, droit divin les préceptes que Dieu a donnés lui-même. Il voulut que les Juifs mangeassent un agneau cuit avec des laitues, et que les convives le mangeassent debout, un bâton à la main, en commémoration du Phasé; il ordonna que la consécration du grand prêtre se ferait en mettant du sang à son oreille droite, à sa main droite et à son pied droit, coutumes extraordinaires pour nous, mais non pas pour l’antiquité; il voulut qu’on chargeât le bouc Hazazel des iniquités du peuple; il défendît qu’on se nourrît de poissons sans écailles, de porcs, de lièvres, de hérissons, de hiboux, de griffons, d’ixions, etc.

Il institua les fêtes, les cérémonies. Toutes ces choses, qui semblaient arbitraires aux autres nations, et soumises au droit positif, à l’usage, étant commandées par Dieu même, devenaient un droit divin pour les Juifs, comme tout ce que Jésus-Christ, fils de Marie, fils de Dieu, nous a commandé, est de droit divin pour nous.

Gardons-nous de rechercher ici pourquoi Dieu a substitué une loi nouvelle à celle qu’il avait donnée à Moïse, et pourquoi il avait commandé à Moïse plus de choses qu’au patriarche Abraham, et plus à Abraham qu’à Noé. Il semble qu’il daigne se proportionner aux temps et à la population du genre humain: c’est une gradation paternelle; mais ces abîmes sont trop profonds pour notre débile vue. Tenons-nous dans les bornes de notre sujet; voyons d’abord ce qu’était l’intolérance chez les Juifs.

Il est vrai que, dans l’Exode, les Nombres, le Lévitique, le Deutéronome, il y a des lois très sévères sur le culte, et des châtiments plus sévères encore. Plusieurs commentateurs ont de la peine à concilier les récits de Moïse avec les passages de Jérémie et d’Amos, et avec le célèbre discours de saint Étienne, rapporté dans les Actes des apôtres. Amos dit que les Juifs adorèrent toujours dans le désert Moloch, Rempham, et Kium. Jérémie dit expressément que Dieu ne demanda aucun sacrifice à leurs pères quand ils sortirent d’Égypte. Saint Étienne, dans son discours aux Juifs, s’exprime ainsi: « Ils adorèrent l’armée du ciel; ils n’offrirent ni sacrifices ni hosties dans le désert pendant quarante ans; ils portèrent le tabernacle du dieu Moloch, et l’astre de leur dieu Rempham. »

D’autres critiques infèrent du culte de tant de dieux étrangers que ces dieux furent tolérés par Moïse, et ils citent en preuves ces paroles du Deutéronome: Quand vous serez dans la terre de Chanaan, vous ne ferez point comme nous faisons aujourd’hui, où chacun fait ce qui lui semble bon ».

Ils appuient leur sentiment sur ce qu’il n’est parlé d’aucun acte religieux du peuple dans le désert: point de pâque célébrée, point de pentecôte, nulle mention qu’on ait célébré la fête des tabernacles, nulle prière publique établie; enfin la circoncision, ce sceau de l’alliance de Dieu avec Abraham, ne fut point pratiquée.

Ils se prévalent encore de l’histoire de Josué. Ce conquérant dit aux Juifs(79): « L’option vous est donnée: choisissez quel parti il vous plaira, ou d’adorer les dieux que vous avez servis dans le pays des Amorrhéens, ou ceux que vous avez reconnus en Mésopotamie. » Le peuple répond: « Il n’en sera pas ainsi, nous servirons Adonaï. » Josué leur répliqua: « Vous avez choisi vous-mêmes; ôtez donc du milieu de vous les dieux étrangers. » Ils avaient donc eu incontestablement d’autres dieux qu’Adonaï sous Moïse.

Il est très inutile de réfuter ici les critiques qui pensent que le Pentateuque ne fut pas écrit par Moïse; tout a été dit dès longtemps sur cette matière; et quand même quelque petite partie des livres de Moïse aurait été écrite du temps des juges ou des pontifes, ils n’en seraient pas moins inspirés et moins divins.

C’est assez, ce me semble, qu’il soit prouvé par la sainte Écriture que, malgré la punition extraordinaire attirée aux Juifs par le culte d’Apis, ils conservèrent longtemps une liberté entière: peut-être même que le massacre que fit Moïse de vingt-trois mille hommes pour le veau érigé par son frère lui fit comprendre qu’on ne gagnait rien par la rigueur, et qu’il fut obligé de fermer les yeux sur la passion du peuple pour les dieux étrangers.

Lui-même semble bientôt transgresser la loi qu’il a donnée. Il a défendu tout simulacre, cependant il érige un serpent d’airain. La même exception à la loi se trouve depuis dans le temple de Salomon: ce prince fait sculpter douze boeufs qui soutiennent le grand bassin du temple; des chérubins sont posés dans l’arche; ils ont une tête d’aigle et une tête de veau; et c’est apparemment cette tête de veau mal faite, trouvée dans le temple par des soldats romains, qui fit croire longtemps que les Juifs adoraient un âne.

En vain le culte des dieux étrangers est défendu; Salomon est paisiblement idolâtre. Jéroboam, à qui Dieu donna dix parts du royaume, fait ériger deux veaux d’or, et règne vingt-deux ans, en réunissant en lui les dignités de monarque et de pontife. Le petit royaume de Juda dresse sous Roboam des autels étrangers et des statues. Le saint roi Asa ne détruit point les hauts lieux. Le grand prêtre Urias érige dans le temple, à la place de l’autel des holocaustes, un autel du roi de Syrie. On ne voit, en un mot, aucune contrainte sur la religion. Je sais que la plupart des rois juifs s’exterminèrent, s’assassinèrent les uns les autres; mais ce fut toujours pour leur intérêt, et non pour leur croyance.

Il est vrai que parmi les prophètes il y en eut qui intéressèrent le ciel à leur vengeance: Élie fit descendre le feu céleste pour consumer les prêtres de Baal; Élisée fit venir des ours pour dévorer quarante-deux petits enfants qui l’avaient appelé tête chauve; mais ce sont des miracles rares, et des faits qu’il serait un peu dur de vouloir imiter.

On nous objecte encore que le peuple juif fut très ignorant et très barbare. Il est dit que, dans la guerre qu’il fit aux Madianites, Moïse ordonna de tuer tous les enfants mâles et toutes les mères, et de partager le butin. Les vainqueurs trouvèrent dans le camp 675,000 brebis, 72,000 boeufs, 61,000 ânes, et 32,000 jeunes filles; ils en firent le partage, et tuèrent tout le reste. Plusieurs commentateurs même prétendent que trente-deux filles furent immolées au Seigneur: « Cesserunt in partem Domini triginta duae animae».

En effet, les Juifs immolaient des hommes à la Divinité, témoin le sacrifice de Jephté, témoin le roi Agag coupé en morceaux par le prêtre Samuel. Ézéchiel même leur promet, pour les encourager, qu’ils mangeront de la chair humaine: « Vous mangerez, dit-il, le cheval et le cavalier; vous boirez le sang des princes. » Plusieurs commentateurs appliquent deux versets de cette prophétie aux Juifs mêmes, et les autres aux animaux carnassiers. On ne trouve, dans toute l’histoire de ce peuple, aucun trait de générosité, de magnanimité, de bienfaisance; mais il s’échappe toujours, dans le nuage de cette barbarie si longue et si affreuse, des rayons d’une tolérance universelle.

Jephté, inspiré de Dieu, et qui lui immola sa fille, dit aux Ammonites: « Ce que votre dieu Chamos vous a donné ne vous appartient-il pas de droit? Souffrez donc que nous prenions la terre que notre Dieu nous a promise. » Cette déclaration est précise: elle peut mener bien loin; mais au moins elle est une preuve évidente que Dieu tolérait Chamos. Car la sainte Écriture ne dit pas: Vous pensez avoir droit sur les terres que vous dites vous avoir été données par le dieu Chamos; elle dit positivement: « Vous avez droit, tibi jure debentur »; ce qui est le vrai sens de ces paroles hébraïques: Otho thirasch.

L’histoire de Michas et du lévite, rapportée aux xviie et xviiie chapitres du livre des Juges est bien encore une preuve incontestable de la tolérance et de la liberté la plus grande, admise alors chez les Juifs. La mère de Michas, femme fort riche d’Éphraïm, avait perdu onze cents pièces d’argent; son fils les lui rendit: elle voua cet argent au Seigneur, et en fit faire des idoles; elle bâtit une petite chapelle. Un lévite desservit la chapelle, moyennant dix pièces d’argent, une tunique, un manteau par année, et sa nourriture et Michas s’écria: « C’est maintenant que Dieu me fera du bien, puisque j’ai chez moi un prêtre de la race de Lévi. »

Cependant six cents hommes de la tribu de Dan, qui cherchaient à s’emparer de quelque village dans le pays, et à s’y établir, mais n’ayant point de prêtre lévite avec eux, et en ayant besoin pour que Dieu favorisât leur entreprise, allèrent chez Michas, et prirent son éphod, ses idoles; et son lévite, malgré les remontrances de ce prêtre, et malgré les cris de Michas et de sa mère. Alors ils allèrent avec assurance attaquer le village nommé Laïs, et y mirent tout à feu et à sang selon leur coutume. Ils donnèrent le nom de Dan à Laïs, en mémoire de leur victoire; ils placèrent l’idole de Michas sur un autel; et, ce qui est bien plus remarquable, Jonathan, petit-fils de Moïse, fut le grand prêtre de ce temple, où l’on adorait le Dieu d’Israël et l’idole de Michas.

Après la mort de Gédéon, les Hébreux adorèrent Baalbérith pendant près de vingt ans, et renoncèrent au culte d’Adonaï, sans qu’aucun chef, aucun juge, aucun prêtre, criât vengeance. Leur crime était grand, je l’avoue; mais si cette idolâtrie même fut tolérée, combien les différences dans le vrai culte ont-elles dû l’être!

Quelques-uns donnent pour une preuve d’intolérance que le Seigneur lui-même ayant permis que son arche fût prise par les Philistins dans un combat, il ne punit les Philistins qu’en les frappant d’une maladie secrète ressemblant aux hémorroïdes, en renversant la statue de Dagon, et en envoyant une multitude de rats dans leurs campagnes mais, lorsque les Philistins, pour apaiser sa colère, eurent renvoyé l’arche attelée de deux vaches qui nourrissaient leurs veaux, et offert à Dieu cinq rats d’or, et cinq anus d’or, le Seigneur fit mourir soixante et dix anciens d’Israël et cinquante mille hommes du peuple pour avoir regardé l’arche. On répond que le châtiment du Seigneur ne tombe point sur une croyance, sur une différence dans le culte, ni sur aucune idolâtrie.

Si le Seigneur avait voulu punir l’idolâtrie, il aurait fait périr tous les Philistins qui osèrent prendre son arche, et qui adoraient Dagon; mais il fit périr cinquante mille soixante et dix hommes de son peuple, uniquement parce qu’ils avaient regardé son arche, qu’ils ne devaient pas regarder tant les lois, les moeurs de ce temps, l’économie judaïque, diffèrent de tout ce que nous connaissons; tant les voies inscrutables de Dieu sont au-dessus des nôtres. « La rigueur exercée, dit le judicieux dom Calmet, contre ce grand nombre d’hommes ne paraîtra excessive qu’à ceux qui n’ont pas compris jusqu’à quel point Dieu voulait être craint et respecté parmi son peuple, et qui ne jugent des vues et des desseins de Dieu qu’en suivant les faibles lumières de leur raison. »

Dieu ne punit donc pas un culte étranger, mais une profanation du sien, une curiosité indiscrète, une désobéissance, peut-être même un esprit de révolte. On sent bien que de tels châtiments n’appartiennent qu’à Dieu dans la théocratie judaïque. On ne peut trop redire que ces temps et ces moeurs n’ont aucun rapport aux nôtres.

Enfin lorsque, dans les siècles postérieurs, Naaman l’idolâtre demanda à Élisée s’il lui était permis de suivre son roi dans le temple de Remnon, et d’y adorer avec lui, ce même Élisée, qui avait fait dévorer les enfants par les ours, ne lui répondit-il pas Allez en paix?

Il y a bien plus; le Seigneur ordonna à Jérémie de se mettre des cordes au cou, des colliers, et des jougs, de les envoyer aux roitelets ou melchim de Moab, d’Ammon, d’Édom, de Tyr, de Sidon; et Jérémie leur fait dire par le Seigneur: « J’ai donné toutes vos terres à Nabuchodonosor, roi de Babylone, mon serviteur(99). » Voilà un roi idolâtre déclaré serviteur de Dieu et son favori.

Le même Jérémie, que le melk ou roitelet juif Sédécias avait fait mettre au cachot, ayant obtenu son pardon de Sédécias, lui conseille, de la part de Dieu, de se rendre au roi de Babylone: « Si vous allez vous rendre à ses officiers, dit-il, votre âme vivra. » Dieu prend donc enfin le parti d’un roi idolâtre; il lui livre l’arche, dont la seule vue avait coûté la vie à cinquante mille soixante et dix Juifs; il lui livre le Saint des saints, et le reste du temple, qui avait coûté à bâtir cent huit mille talents d’or, un million dix-sept mille talents en argent, et dix mille drachmes d’or, laissés par David et ses officiers pour la construction de la maison du Seigneur: ce qui, sans compter les deniers employés par Salomon, monte à la somme de dix-neuf milliards soixante deux millions, ou environ, au cours de ce jour. Jamais idolâtrie ne fut plus récompensée. Je sais que ce compte est exagéré, qu’il y a probablement erreur de copiste; mais réduisez la somme à la moitié, au quart, au huitième même, elle vous étonnera encore. On n’est guère moins surpris des richesses qu’Hérodote dit avoir vues dans le temple d’Éphèse. Enfin les trésors ne sont rien aux yeux de Dieu, et le nom de son serviteur, donné à Nabuchodonosor, est le vrai trésor inestimable.

Dieu ne favorise pas moins le Kir, ou Koresh, ou Kosroès, que nous appelons Cyrus; il l’appelle son christ, son oint, quoiqu’il ne fût pas oint, selon la signification commune de ce mot, et qu’il suivît la religion de Zoroastre; il l’appelle son pasteur, quoiqu’il fût usurpateur aux yeux des hommes: il n’y a pas dans toute la sainte Écriture une plus grande marque de prédilection.

Vous voyez dans Malachie que « du levant au couchant le nom de Dieu est grand dans les nations, et qu’on lui offre partout des oblations pures ». Dieu a soin des Ninivites idolâtres comme des Juifs; il les menace, et il leur pardonne. Melchisédech, qui n’était point Juif, était sacrificateur de Dieu. Balaam, idolâtre, était prophète. L’Écriture nous apprend donc que non seulement Dieu tolérait tous les autres peuples, mais qu’il en avait un soin paternel et nous osons être intolérants!

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