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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Como evitar preocupações - 15

(Continuação da obra: "Como evitar preocupações e começar a viver", de Dale Carnegie) 

Capítulo 15 
Você aceitaria um milhão de dólares em troca do que possui? 


Estive em contato com Harold Abbott durante muitos anos. Ele morou em Webb City, Missuri. Era meu empresário de conferências. Encontramo-nos certo dia em Kansas City e ele me levou de automóvel até a minha fazenda, em Belton, Missuri. Durante a viagem, perguntei-lhe como é que evitava as preocupações — e ele me contou uma história inspiradora, que jamais esquecerei. 

"Eu vivia cheio de preocupações", disse-me ele, "mas certo dia de primavera em 1934, descia West Dougherty Street, em Webb City, quando presenciei algo que dissipou todas as minhas preocupações. Tudo aconteceu em dez segundos mas, durante aqueles dez segundos, aprendi mais sobre como viver do que o havia feito nos dez anos anteriores. Havia inaugurado, dois anos antes, uma mercearia em Webb City, e havia perdido não só todas as minhas economias, como contraíra dívidas que eu levaria sete anos para pagar. A minha mercearia fora fechada no sábado anterior — e eu me dirigia naquele momento ao Merchants and Miners Bank, a fim de fazer um empréstimo que me permitisse ir para Kansas City à procura de trabalho. Ia caminhando como um homem derrotado. Perdera toda a minha fé e espírito de luta. 

"De repente, porém, vi um homem sem ambas as pernas subindo a rua. Vinha sentado numa pequena plataforma de madeira equipada com rodas de patins. Com um bloco de madeira em cada mão, ele próprio se impulsionava pela calçada. Encontrei-o justamente no momento em que acabava de atravessar a rua e procurava subir a calçada. Ao inclinar a pequena plataforma de madeira, os seus olhos encontraram os meus. E saudou-me com um sorriso cordial: 'Bom dia! Que linda manhã, não é verdade?' 

"Enquanto olhava, compreendi quão feliz eu era. Tinha duas pernas. Podia andar! Senti-me envergonhado de haver sentido lástima por mim mesmo pouco antes. Disse a mim mesmo que se aquele homem podia ser feliz, alegre e confiante sem pernas, eu certamente também o poderia, tendo ambas as pernas. Senti, mesmo, que o meu peito se dilatava. Pensava em pedir ao banco somente cem dólares. Mas tinha agora coragem para pedir duzentos. Era minha intenção dizer que pretendia ir para Kansas City tentar arranjar um emprego. Anunciei, porém, confiantemente, que desejava arranjar um emprego em Kansas City. Consegui tanto o empréstimo como uma colocação. 

"Hoje tenho as seguintes palavras coladas ao espelho do meu banheiro, para que possa lê-las todas as manhãs, enquanto faço a barba: 'I had the blues becauselhad no shoes, Until upon the street, I met a man who had no feet' - 'Eu estava triste porque não tinha sapatos, até que, ao subir a rua, encontrei um homem que não tinha pés'."

Perguntei, certa ocasião, a Eddie Rickenbacker, qual a maior lição que aprendera durante os vinte e um dias que, com os companheiros, passara sobre uma jangada, irremediavelmente perdido no Pacífico. "A maior lição que aprendi com essa experiência", respondeu-me, "foi que se a gente tiver toda a água fresca que desejar para beber e toda comida que desejar comer, não deve nunca queixar-se de coisa alguma". 

A revista Time publicou um artigo sobre um sargento ferido em Guadalcanal. Atingido na garganta por um estilhaço de granada, esse sargento foi submetido a sete transfusões de sangue. Escrevendo uma nota ao médico, perguntou: "Viverei?" O médico respondeu: "Viverá". Escreveu outra nota, perguntando: "Poderei ainda falar?" Novamente, a resposta foi afirmativa. Escreveu, então outra nota, dizendo: "Então, com mil demônios, por que é que estou preocupado?" 

Por que é que você não pergunta, neste momento, a si mesmo: "Por que diabo estou preocupado?" Você talvez verifique que o motivo é relativamente sem importância, insignificante. Cerca de noventa por cento das coisas que acontecem em nossa vida estão certas — e apenas dez por cento erradas. Se você quiser ser feliz, tudo o que precisa fazer é concentrar-se nas coisas que estão noventa por cento certas e esquecer as que estão dez por cento erradas. Se quisermos viver preocupados, amargurados, e ter úlceras no estômago, tudo o que temos de fazer é concentrar-nos nas coisas que estão dez por cento erradas e ignorar as noventa por cento que são excelentes. 

As palavras Think and Thank encontram-se inscritas em muitas das igrejas da Inglaterra do tempo de Cromwell. Tais palavras devem ser inscritas também em nossos corações: "Pense e Agradeça." Pense em todas as coisas pelas quais devemos sentir-nos gratos e agradeçamos a Deus todas as graças e toda a bondade que Ele nos concede. 

Jonathan Swift, autor de Viagens de Gulliver, foi o pessimista mais devastador da literatura inglesa. Sentia tanta tristeza por ter nascido, que usava roupas negras e jejuava nos dias de seu aniversário; contudo, mesmo em seu desespero, esse supremo pessimista da literatura inglesa ainda louvava as grandes forças doadoras de alegria e felicidade. "Os melhores médicos do mundo", declarou ele, "são o Dr. Dieta, o Dr. Silêncio e o Dr. Alegria". Você e eu podemos ter os serviços do Dr. Alegria, gratuitamente, a qualquer hora do dia, bastando para tal fixarmos a atenção em todas as incríveis riquezas que possuímos — riquezas que excedem em muito os fabulosos tesouros de Ali Babá. 

Você venderia os seus dois olhos por um milhão de dólares? Quanto aceitaria pelas suas duas pernas? E pelas mãos? E pelos seus ouvidos? E pelos seus filhos? E pela sua família? Some tudo o que possui e verá que não venderia o que tem nem por todo o ouro armazenado pelos Rockefellers, pelos Fords e pelos Morgans reunidos. 

Mas será que damos o devido valor ao que possuímos? Ah, não. Schopenhauer disse: "Raramente pensamos no que temos, mas sempre no que nos falta". Sim, a tendência para "raramente pensar no que temos e sempre no que nos falta" constitui a maior tragédia do mundo. Tem causado, provavelmente, mais infelicidade do que todas as guerras e doenças que a história registra. Fez com que John Palmer se transformasse de "um rapaz normal num velho rabugento", quase destruindo, com isso, o seu lar. Sei disso porque ele próprio me contou. 

O Sr. Palmer reside em Paterson, Nova Jersey. "Logo depois que dei baixa do exército", disse-me ele, "comecei a trabalhar por conta própria. Trabalhava dia e noite arduamente. As coisas estavam correndo muito bem. De repente, começaram as complicações. Não conseguia receber peças nem materiais. Estava com medo de ter de fechar o meu negócio. Preocupava-me, tanto que me transformei de um rapaz normal num velho rabugento. Tornei-me tão azedo e irascível, que... bem, eu não percebi, na ocasião, mas agora vejo que estive quase a ponto de destruir o meu lar, até então feliz. 

"Certo dia, porém, um jovem veterano, que fora gravemente ferido na guerra, e que trabalhara comigo, me disse: 'Johnny, você devia estar envergonhado de si mesmo. Você está agindo como se fosse a única pessoa no mundo que tivesse preocupações. Suponhamos que você tenha de fechar a casa durante algum tempo. Que é que tem isso? Poderá recomeçar outra vez, quando as coisas voltarem ao normal. Você possui uma porção de coisas pelas quais deveria estar agradecido. No entanto, vive sempre resmungando. Ah, se eu estivesse em seu lugar! Olhe para mim. Tenho apenas um braço e a metade do meu rosto foi arrancada por um estilhaço; apesar disso, não estou me queixando. Se você não parar com as suas lamúrias e os seus grunhidos, perderá não só o seu negócio, como, também, a saúde, o seu lar e os seus amigos!' 

"Tais observações me detiveram imediatamente, fazendo-me compreender a excelente situação em que me encontrava. Resolvi logo tornar a ser o que era. E consegui fazer isso." 

Uma de minhas amigas, Lucile Blake, teve de suportar, trêmula, a proximidade de uma tragédia, antes de aprender a ser feliz com o que possuía, e não se preocupar com o que lhe faltava. Conheci Lucile Blake há muitos anos, quando ambos estudávamos a composição de novelas curtas na Escola de Jornalismo da Universidade de Colúmbia. Há nove anos, ela sofreu um grande choque em sua vida. Morava, então, em Tucson, no Estado de Arizona. Vinha vivendo... Bem, eis aqui a história, tal qual ela me contou: 

"Vinha vivendo, nos últimos tempos, num verdadeiro turbilhão: estudava órgão na Universidade de Arizona, dirigia uma clínica de logopedia na cidade e dava, ainda, um curso sobre apreciação musical em Desert Willow Ranch, onde estava morando. Ia a festas, bailes, fazia passeios a cavalo à luz das estrelas. Certa manhã, perdi os sentidos. Tive um ataque cardíaco! 'A senhora terá de permanecer de cama, durante um ano, em repouso absoluto', disse-me o médico. E não me deu sequer esperança de que poderia me recuperar. 


"Um ano de cama! Tornar-me inválida — talvez, mesmo, morrer! Fui tomada de pânico! Por que tinha de acontecer tudo aquilo comigo? Que eu fiz para merecer semelhante castigo? Pus-me a chorar e a me lamentar. Sentia-me amargurada, revoltada com a minha sorte. Mas fui para a cama, como o médico me aconselhara. Um vizinho, Sr. Rudolf , disse-me: 'Você está pensando que passar um ano de cama representa uma tragédia. Mas não é. Você terá tempo para meditar e conhecer-se melhor. Em poucos meses, você terá se desenvolvido mais espiritualmente do que durante toda a sua vida anterior'. 

"Acalmei-me, procurando criar um novo senso de valores. Lia livros que me inspirassem. Um dia, ouvi um comentarista de rádio dizer: 'Pode-se exprimir apenas o que existe em nosso consciente'. Antes, ouvira muitas vezes tais palavras mas, naquela ocasião, penetraram em meu íntimo e criaram raízes. Resolvi pensar somente nas coisas pelas quais desejava viver: pensamentos de alegria, felicidade, saúde. Eu me obrigava a pensar, todas as manhãs, logo que acordava, em todas as razões pelas quais tinha de estar agradecida. Não sentia dor alguma. Tinha uma filhinha encantadora. Podia ver, ouvir. Havia belas músicas no rádio. Dispunha de tempo para ler. Boa alimentação. Bons amigos. Mostrava-me tão alegre e recebia tantas visitas, que o médico mandou colocar um aviso na porta do meu quarto, dizendo que eu podia receber apenas uma pessoa de cada vez — e somente em determinadas horas. 

"Desde então, já se passaram nove anos, e tenho, agora, uma vida cheia, ativa. Sinto-me profundamente grata pelo ano que passei de cama. Foi o ano mais feliz e valioso que vivi no Arizona. O hábito que então adquiri, de contar as bênçãos que me foram dispensadas, ainda persiste. É uma das coisas mais preciosas que possuo. Sinto-me envergonhada ao pensar que só aprendi a viver, realmente, quando estava prestes a morrer." 

Minha cara Lucile Blake, talvez você não saiba, mas essa foi a mesma lição que o Dr. Samuel Johnson aprendeu há duzentos anos. "O hábito de se encarar sempre o lado melhor dos acontecimentos vale mais do que mil libras anuais", disse o Dr. Johnson. Estas palavras foram proferidas, lembre-se bem, não por um otimista profissional, mas por um homem que conheceu angústias, misérias e fome durante vinte anos — e que, finalmente, se tornou um dos escritores mais eminentes da sua geração e um dos conversadores mais famosos de todos os tempos. 

Logan Pearsall Smith reuniu grande sabedoria em poucas palavras, ao dizer: "Há duas coisas a que se pode aspirar nesta vida: primeiro, conseguir o que se deseja; depois, desfrutar o que se conseguiu. Somente os homens mais sábios da humanidade realizam a segunda dessas coisas"

Você gostaria de saber como é que se pode tornar até mesmo o trabalho de lavar pratos, na pia da cozinha, uma experiência emocionante? Em caso afirmativo, leia um livro inspirador, de incrível coragem, escrito por Borghild Dahl, chamado I Wanted to See. Esse livro foi escrito por uma mulher que viveu praticamente cega durante meio século. Quando pequena, ela queria brincar de amarelinha com outras crianças, mas não podia ver as marcas de giz. Por isso, depois que as outras crianças iam para casa, ela se deitava no chão e arrastava-se pela calçada com os olhos junto das marcas. Guardou na memória todos os detalhes do lugar onde ela e os amiguinhos brincavam, tornando-se, logo, habilidosa nos jogos de correr. Em casa, costumava ler um livro impresso em grandes caracteres, segurando-o tão perto dos olhos, que os cílios encostavam nas páginas. Conseguiu dois títulos universitários: Bacharel em Artes pela Universidade de Minnesota, e Mestre de Artes pela Universidade de Colúmbia. Começou a ensinar num vilarejo chamado Twin Valley, no Estado de Minnesota, e subiu até tornar-se professora de jornalismo e literatura no Augustana College, em Sioux Falls, Dakota da Sul. Lecionou lá durante treze anos, realizando, ademais, palestras em clubes femininos e programas de rádio sobre livros e autores. "No fundo, no fundo", escreve ela, "existiu sempre o receio da cegueira total. A fim de dominá-lo, adotei uma atitude alegre, quase de alacridade, diante da vida". 

Depois, em 1943, quando ela estava com cinqüenta e dois anos de idade, aconteceu um milagre: uma operação na famosa Clínica Mayo. E conseguiu enxergar quarenta vezes melhor do que até então. Descortinou-se à sua frente um mundo novo e empolgante. Considerava emocionante, agora, até mesmo lavar pratos na pia da cozinha. "Ponho-me a brincar com a alva e fofa espuma", escreve ela. "Afundo a mão e retiro-a cheia de minúsculas bolhas de sabão. Ergo-a contra a luz e vejo, em cada uma delas, as cores brilhantes de um arco-íris em miniatura." Ao olhar através da janela, por cima da pia da cozinha, via "as asas palpitantes, de um cinzento-escuro, dos pardais, que voavam sob a neve espessa que caía". Ficava tão extasiada a olhar as bolhas de sabão e os pardais, que encerrou o seu livro com estas palavras: "Meu bom Deus, murmurei, 'Pai nosso que estás no Céu, eu Te agradeço. Eu Te agradeço".


Imagine! Agradecer a Deus porque podia lavar pratos, ver arco-íris em bolhas de sabão e pardais a voar sob a neve! Você e eu devíamos sentir-nos envergonhados. Durante toda a vida, temos vivido numa terra encantada de belezas, mas estávamos cegos demais para ver, saciados demais para apreciá-la. Se quisermos deixar de lado as preocupações e começar a viver, o Princípio 4 é: 
 Conte as bênçãos que recebeu — e não os seus aborrecimentos.

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