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quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Fonologia (Pasquale & Ulisses)

(Continuação da obra "Gramática da Língua Portuguesa", de Pasquale & Ulisses)

PARTE 1 - FONOLOGIA


CAPÍTULO 2 - FONOLOGIA

Neste capítulo, estudaremos basicamente os fonemas, que são as menores unidades lingüísticas capazes de estabelecer diferenças de significado. Com apenas uma troca de fonema, cria-se uma palavra totalmente distinta, como no anúncio acima: bichas torna-se bichos. [No original, um terço desta página está ocupado por um anúncio ecológico, português, sobre a visitação de verão aos parques, com os seguintes termos: Troque as bichas pelos bichos. No cartaz, o desenho de um esquilo.] (Em tempo: em Portugal, bichas significa "filas"; o parque convida os habitantes da cidade a trocar as irritações da vida urbana pelo sossego da vida em meio à natureza.)

1. CONCEITOS BÁSICOS

Fonologia é uma palavra formada por elementos gregos: fono ("som", "voz") e logia ("estudo", "conhecimento"). Significa literalmente "estudo dos sons". Os sons que essa parte da Gramática estuda são os fonemas (fono + ema, que significa, o ema, "unidade distintiva"). Para compreender claramente o que é um fonema, compare as palavras abaixo:
solitário - solidário

Lendo em voz alta as duas palavras, você percebeu que cada uma das letras destacadas (t e d)  representa um som diferente. Como as palavras têm significados diferentes e a única diferença sonora que apresentam é a provocada por esses dois sons, somos levados a concluir que o contraste entre esses dois sons é que produz a diferença de significado entre as duas palavras.

Cada letra representa, no caso, um fonema, ou seja, uma unidade sonora capaz de estabelecer diferenças de significado. Em outras palavras, os fonemas são os sons característicos de uma determinada língua. Com um número relativamente pequeno desses sons, cada língua é capaz de produzir milhares de palavras e infinitas frases.

Observe que falamos em sons representados pelas letras. Isso porque não se devem confundir fonemas e letras: os fonemas são sons; as letras são sinais gráficos que procuram representar esses sons. Essa representação, no entanto, nem sempre é perfeita:
a) há casos em que a mesma letra representa fonemas diferentes (como a letra g, em galeria e ginástica);
b) há fonemas representados por letras diferentes (como o fonema que as letras g e j representam em ginástica e jiló);
c) há fonemas representados por mais de uma letra (como em barra ou assar);
d) há casos em que uma letra representa dois fonemas (como o x de anexo, que soa "ks");
e) há casos em que a letra não corresponde a nenhum fonema (o h de hélice, por exemplo).

Para evitar dúvidas, acostume-se a ler as palavras em voz alta quando estiver estudando Fonologia. Afinal, o que interessa nesse caso é o aspecto sonoro dessas palavras. Não devem ser confundidas com os fonemas, que são sons.

ATIVIDADE
Leia em voz alta as palavras abaixo e depois diga quantas letras e quantos fonemas possui cada uma delas:
a) hora           
b) acesso         
c) arrastar         
d) tóxico
e) distinguir
f) querer 
g) água              
h) quarto
i) banho          
j) obsessão      
l) obcecado      
m) queijinho

2. OS FONEMAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

Como não há necessariamente correspondência entre as letras e os fonemas, foi criado um sistema de símbolos em que a cada fonema corresponde apenas um símbolo. Esse sistema é o alfabeto fonético, muito usado no ensino de línguas para indicar a forma de pronunciar as palavras.

A língua portuguesa do Brasil apresenta um conjunto de 33 fonemas, que podem ser identificados no quadro abaixo. A cada um deles corresponde um único símbolo escrito do alfabeto fonético.


Os fonemas da língua portuguesa são classificados em vogais, semivogais e consoantes. Esses três tipos de fonemas são produzidos por uma corrente de ar que pode fazer vibrar ou não as cordas vocais. Quando ocorre vibração, o fonema é chamado sonoro; quando não, o fonema é surdo. Além disso, a corrente de ar pode ser liberada apenas pela boca ou parcialmente também pelo nariz. No primeiro caso, o fonema é oral; no segundo, é nasal.

VOGAIS

As vogais são fonemas sonoros produzidos por uma corrente de ar que passa livremente pela boca. Em nossa língua, desempenham o papel de núcleo das sílabas. Em termos práticos, isso significa que em toda sílaba há necessariamente uma única vogal. As diferentes vogais resultam do diferente posicionamento dos músculos bucais (língua, lábios e véu palatino). Sua classificação é feita em função de diversos critérios:

a) quanto à zona de articulação, ou seja, de acordo com a região da boca em que se dá a maior elevação da língua; assim, podem ser anteriores, centrais e posteriores;

b) pela elevação da região mais alta da língua; podem ser altas, médias e baixas; c) quanto ao timbre; podem ser abertas ou fechadas.

Além desses critérios, as vogais podem ser orais ou nasais. Todos os fonemas vocálicos são sonoros.

SEMIVOGAIS

A diferença fundamental entre as vogais e as semivogais está no fato de que estas últimas não desempenham o papel de núcleo silábico. Em outras palavras: as semivogais necessariamente acompanham alguma vogal, com a qual formam sílaba. As letras utilizadas para representar as semivogais em português são utilizadas também para representar vogais, o que cria muitas dúvidas. A única forma de diferenciá-las efetivamente é falar e ouvir as palavras em que surgem:
país-pais
baú - mau

Em país e baú, as letras i e u representam respectivamente as vogais /i/ e /u/. Já em pais e mau, essas letras representam semivogais. Isso pode ser facilmente percebido se você observar como a articulação desses sons é diferente em cada caso; além disso, observe que país e baú têm ambas duas sílabas, enquanto pais e mau têm ambas uma única sílaba.

CONSOANTES

Para a produção das consoantes, a corrente de ar expirada pelos pulmões encontra obstáculos ao passar pela cavidade bucal. Isso faz com que as consoantes sejam verdadeiros "ruídos", incapazes de atuar como núcleos silábicos. Seu nome provém justamente desse fato, pois, em português, sempre soam com as vogais, que são os núcleos das sílabas. A classificação das consoantes baseia-se em diversos critérios:

a) modo de articulação - indica o tipo de obstáculo encontrado pela corrente de ar ao passar pela boca. São oclusivas aquelas produzidas com obstáculo total; são constritivas as produzidas com obstáculo parcial. As constritivas se subdividem em fricativas (o ar sofre fricção), laterais (o ar passa pelos lados da cavidade bucal) e vibrantes (a língua ou o véu palatino vibram);

b) ponto de articulação - indica o ponto da cavidade bucal em que se localiza o obstáculo à corrente de ar. As consoantes podem ser bilabiais (os lábios entram em contato), labiodentais (o lábio inferior toca os dentes incisivos superiores), linguodentais (a língua toca os dentes incisivos superiores), alveolares (a língua toca os alvéolos dos incisivos superiores), palatais (a língua toca o palato duro ou céu da boca) e velares (a língua toca o palato mole, ou véu palatino);

c) as consoantes podem ser surdas ou sonoras, de acordo com a vibração das cordas vocais, e ainda orais ou nasais, de acordo com a participação das cavidades bucal e nasal no seu processo de emissão.


Em alguns casos, as consoantes distinguem-se uma da outra apenas pela vibração das cordas vocais. É o que ocorre, por exemplo, com /p/ e /b/ (compare pomba e bomba) ou /t/, e /d/ (compare testa e desta). Nesses casos, as consoantes são chamadas homorgânicas.

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