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quinta-feira, 11 de junho de 2015

De Anima (Aristóteles) - 20

(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

Imaginação e Sensação


A alma é definida especialmente por duas diferenças, isto é, pelo movimento espacial e por entender e pensar. O percepcionar assemelha-se, com efeito, ao entender e ao pensar. É que, de facto, quer um, quer o outro são como percepcionar alguma coisa. Em ambos os casos, com efeito, a alma discrimina e conhece um ente.

Os antigos diziam, igualmente, que pensar e percepcionar são o mesmo. Por exemplo, Empédocles disse que «a sageza é aumentada pelos homens usando o que está presente» e, noutros locais, «daí lhes vem estarem sempre a mudar aquilo que pensam». O mesmo quer dizer a expressão de Homero: «pois de tal natureza é o entendimento».

Todos eles supuseram, assim, que o entendimento é corpóreo, tal como o percepcionar, e que o semelhante se percepciona e pensa pelo semelhante, como explicámos nas exposições do início deste estudo.

Deveriam, no entanto, ter-se pronunciado também a respeito de nos enganarmos, o que é particularmente característico dos animais e onde a alma se demora mais tempo. Por isso, é necessário, como alguns dizem, ou que tudo aquilo que aparece seja verdadeiro, ou que o engano seja a acção de tocar o contrário, uma vez que isso é o inverso de conhecer o semelhante pelo semelhante.

É opinião comum, no entanto, que o engano e a ciência dos contrários são o mesmo. Ora, é evidente que percepcionar e pensar não são o mesmo: de um participam todos os animais, enquanto do outro participam poucos. Percepcionar também não é o mesmo que entender, em que ocorre o entender correctamente e o entender incorrectamente; o entender correctamente, então, é a sensatez, a ciência e a opinião verdadeira, quando o entender incorrectamente é o contrário daquelas. É que a percepção dos sensíveis próprios é sempre verdadeira; mais, ela pertence a todos os animais. Discorrer, pelo contrário, é possível fazê-lo falsamente, e não pertence a nenhum animal no qual não exista também raciocínio.

A imaginação, por seu turno, é algo diferente da percepção e do pensamento discursivo. Ela não sucede, de facto, sem a percepção sensorial, e sem ela não existe suposição. Que a imaginação não é contudo a mesma coisa que o pensamento, nem que a suposição, isso é evidente. É que essa afecção depende de nós, de quando temos vontade (é possível, pois, supor algo diante dos olhos, como os que arrumam as ideias em mnemónicas, criando imagens).

Formar opiniões, por sua vez, não depende apenas de nós, pois as opiniões são necessariamente ou falsas ou verdadeiras. Além disso, quando formamos a opinião de que algo é ou temível ou horrendo, somos directamente afectados. O mesmo acontece no caso de algo encorajador. Já quando se trata da imaginação, comportamo-nos como se observássemos, num quadro, as coisas temíveis ou encorajadoras.

Da própria suposição também existem vários tipos: a ciência, a opinião, a sensatez e os contrários destas. Acerca da diferença entre estas terá de haver outra exposição.

A respeito do entender, uma vez que é diferente do percepcionar, e que dele parecem fazer parte quer a imaginação, quer a suposição, depois de termos explicado detalhadamente o que respeita à imaginação, temos de nos pronunciar sobre a última.

Se a imaginação é, com efeito, aquilo segundo o qual dizemos que se forma em nós uma imagem — isto, se não usarmos a palavra metaforicamente —, é ela uma certa potência ou disposição de acordo com a qual discriminamos, dizemos a verdade ou mentimos? Desse tipo são a percepção sensorial, a opinião, a ciência e o entendimento.

Que a imaginação não é a percepção sensorial, fica claro a partir do que se segue. A percepção sensorial é, com efeito, ou uma potência ou uma actividade, como a visão e o acto de ver, quando uma imagem pode aparecer-nos sem que suceda qualquer um daqueles. É o caso das coisas que nos aparecem nos sonhos. Além disso, a percepção sensorial está sempre presente, e a imaginação não. Já se fossem o mesmo em actividade, a todos os animais selvagens poderia pertencer a imaginação. Não parece, no entanto, que ela exista, por exemplo, na formiga ou na abelha, ou mesmo na larva.

Mais, as sensações são sempre verdadeiras, enquanto as imagens são maioritariamente falsas. Portanto, não é quando passamos à actividade, com precisão, relativamente ao sensível, que dizemos que isto nos parece um homem; antes o dizemos, preferencialmente, quando não percepcionamos com exactidão se é verdadeiro ou falso.

Mais, como dizíamos antes: até quando temos os olhos fechados aparecem imagens visuais. Mas a imaginação não será nenhuma das faculdades que são sempre verdadeiras, como a ciência ou o entendimento. É que a imaginação também pode ser falsa.

Resta, portanto, perceber se a imaginação é a opinião, pois a opinião é quer verdadeira, quer falsa. Ora, a convicção vincula-se à opinião: não é possível, pois, sustentarmos uma opinião se não parece que nos convença. Dos animais selvagens, porém, a nenhum pertence a convicção, enquanto a imaginação pertence a muitos. Além disso, a convicção acompanha toda a opinião, implica ter sido persuadido, e a persuasão implica a palavra. Dos animais selvagens, porém, a alguns pertence a imaginação, mas não a palavra.

É evidente, portanto, que a imaginação não poderá ser uma opinião acompanhada de sensação, nem uma opinião gerada por meio da sensação; e também não é uma combinação da opinião e da sensação, por aqueles motivos, e também porque o objecto da opinião não é outro que o objecto da percepção sensorial. Quero dizer, pois, que a imaginação será a combinação da opinião do branco e da sensação do branco; não será, então, a combinação da opinião do bom e da sensação do branco.

Imaginar será, com efeito, formar opiniões a respeito do que se percepciona, e não por acidente. Ora, aparecem-nos coisas falsas, a respeito das quais temos, simultaneamente, uma suposição verdadeira. Por exemplo, o sol aparece-nos como se tivesse um pé de diâmetro; e, no entanto, estamos convencidos de que é maior do que a terra habitada.

Acontece, então, uma de duas coisas: ou foi rejeitada a opinião verdadeira que tínhamos dele — e isto mantendo-se o facto, e sem nos esquecermos e sem mudarmos de opinião —; ou, se de facto a temos, ela tem de ser, necessariamente, verdadeira e falsa. Mas a opinião verdadeira só pode tornar-se falsa se nos passar despercebido que o facto se alterou.

A imaginação, assim, não é nenhuma destas coisas, nem deriva delas. Mas visto ser possível que, ao mover-se uma coisa, outra se mova por acção dela, e a imaginação parece ser certo movimento e não ocorrer sem a percepção sensorial — a imaginação parece antes dar-se nos seres dotados de sensibilidade e ter por objecto os objectos da percepção sensorial; mais, visto ser possível que o movimento se dê por acção da percepção em actividade, e este movimento é necessariamente semelhante à percepção, tal movimento não poderá suceder sem a percepção sensorial e pertence apenas aos seres dotados de sensibilidade: o ser que o possui pode fazer e sofrer muitas acções por causa dele, e esse movimento pode ser quer verdadeiro, quer falso.

Ora, isto acontece pelo seguinte: em primeiro lugar, a percepção dos sensíveis próprios é verdadeira, ou está sujeita a um erro mínimo. Em segundo lugar vem a percepção de que as coisas que acompanham os sensíveis próprios os acompanham; e aqui é já possível errar. Não se erra, de facto, a respeito de ser branco, mas já se erra quanto ao facto de o branco ser esta ou outra coisa.

Em terceiro lugar está o percepcionar dos sensíveis comuns, isto é, os que acompanham os sensíveis por acidente e aos quais os sensíveis próprios pertencem. Refiro-me, por exemplo, ao movimento e à grandeza, os quais acontecem aos sensíveis próprios. É especialmente acerca destes que é já possível enganarmo-nos na percepção.

Então, o movimento que se gera pela acção da percepção sensorial em actividade será diferente consoante provenha de um destes três tipos de percepção: o primeiro movimento é verdadeiro quando a sensação está presente; os outros podem ser falsos, na presença ou na ausência de sensação, e principalmente quando o sensível está distante.

Assim, se nenhuma outra faculdade possui as características referidas a não ser a imaginação, e ela é o que foi dito, a imaginação será um movimento gerado pela acção da percepção sensorial em actividade. Ora, uma vez que a visão é o sentido por excelência, a palavra «imaginação» deriva [em grego] da palavra «luz», porque sem luz não é possível ver.

E por as imagens permanecerem e serem semelhantes às sensações, os animais fazem muitas coisas graças a elas. Acontece isto a uns — por exemplo, aos animais selvagens — por não terem entendimento; a outros, porque se lhes tolda, por vezes, o entendimento, por estarem doentes ou durante o sono. Este é o caso, por exemplo, dos homens.
A respeito da imaginação — o que é e porquê — baste o que foi dito.


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