Luz para a inteligência, Calor para a vontade

terça-feira, 16 de junho de 2015

De Anima (Aristóteles) - 21

(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

tábula rasa

O entendimento e o entender

Acerca da parte da alma pela qual ela conhece e pensa, se tal parte é separável, ou se, não sendo separável no que se refere à grandeza, o é no que se refere à definição, cumpre investigar que diferença possui e como se gera o entender.

Se o entender é como o percepcionar, então é sofrer alguma afecção por acção do objecto entendível, ou outra coisa deste tipo. É preciso, portanto, que esta parte da alma seja impassível, embora capaz de receber a forma, e que seja, em potência, como a forma, mas não ela mesma.

O entendimento deve relacionar-se com os objectos entendíveis do mesmo modo que a faculdade perceptiva se relaciona com os sensíveis. Ora o entendimento, uma vez que entende todas as coisas, tem de existir, necessariamente, sem mistura, como disse Anaxágoras, para comandar, isto é, para conhecer, pois ao exibir a sua própria forma o entendimento constitui obstáculo à forma alheia e nela interfere.

O entendimento não pode ser, consequentemente, de nenhuma natureza a não ser desta, que é ser capaz [ser em potência]. O chamado «entendimento» da alma (chamo «entendimento» àquilo com que a alma discorre e faz suposições) não é, em actividade, nenhum dos seres antes de entender.

Não é razoável, por isso, que o entendimento esteja misturado com o corpo, pois tornar-se-ia de uma certa qualidade, frio ou quente, ou possuiria algum órgão, como a faculdade perceptiva possui.

Nas presentes circunstâncias, no entanto, ele não tem qualquer órgão. Ora, correctamente se pronunciam os que dizem que a alma é o lugar das formas, exceptuando o facto de não ser toda a alma, mas apenas a que entende, e de não serem as formas em acto, mas sim em potência.

Que não são iguais a impassibilidade da faculdade perceptiva e a da faculdade que entende, é manifesto no caso dos órgãos sensoriais e do sentido. Este não é capaz de percepcionar, efectivamente, depois de ter sido afectado por um sensível excessivamente forte. Por exemplo, não percepcionamos o som depois de sons fortíssimos e, depois de cores e cheiros intensos, não vemos, nem cheiramos. Já o entendimento, depois de ter entendido algo de grau superlativo, não entende pior os inferiores; pelo contrário, entende-os melhor.

É que, enquanto a faculdade perceptiva não existe sem o corpo, o entendimento é separável. Quando este se torna cada um dos seus objectos, como se diz do sábio em actividade (isto acontece quando ele é capaz de passar à actividade por si mesmo), existe ainda, de algum modo, em potência, embora não da mesma maneira que antes de ter aprendido ou descoberto; então, ele é capaz de se entender a si mesmo. Uma vez que a grandeza é diferente do que é o ser para uma grandeza e a água diferente do que é o ser para a água (assim acontece, também, em muitos outros casos, embora não em todos; em alguns casos, uma e outra são a mesma coisa), discriminamos o ser para a carne e a carne ou com outra, ou com a mesma faculdade, mas de maneiras diferentes.

A carne não existe, de facto, sem a matéria, mas é, como o adunco, certa forma em certa matéria. Pela faculdade perceptiva discriminamos o quente, o frio e as coisas que, em certa proporção, constituem a carne. É já com uma outra faculdade, separada ou que se relaciona com aquela como uma linha curva se relaciona consigo mesma quando é esticada, que discriminamos o que é, para a carne, ser.

No caso dos entes abstractos, novamente, o que é direito corresponde ao adunco, pois este existe com o que é contínuo. O que era para ser — se são diferentes o ser para a recta e a recta — é outra coisa. Admitamos, pois, que é uma dualidade; discrimina-se, assim, com uma outra faculdade, ou com a mesma, mas disposta de maneira diferente.

De uma forma geral, portanto, tal como os objectos [enquanto essências, enquanto ser em si mesmo considerado] são separáveis da matéria, assim também acontece no caso dos objectos que respeitam ao entendimento.

Poder-se-ia perguntar o seguinte: se o entendimento é simples e impassível e nada possui em comum com nada, como disse Anaxágoras, como entenderá, se entender é sofrer alguma afecção, pois em virtude de existir em duas coisas algo comum, uma parece agir, a outra ser afectada? Mais, o entendimento será, ele mesmo, entendível? Pertencerá o entendimento aos outros seres, se ele é entendível por si, e não mediante outra coisa, sendo o entendível algo uno em espécie? Estará misturado com alguma coisa que o torna entendível como as outras coisas entendíveis?

Quanto ao facto de ser afectado se dar em virtude de alguma coisa comum, determinámos anteriormente que o entendimento é, de algum modo, em potência os objectos entendíveis, mas não é nenhum deles em acto antes de entender: é, em potência, como uma tabuinha em que ainda não existe nada escrito em acto [tábula rasa].

É o que acontece no caso do entendimento. E o próprio, por seu turno, é entendível como os objectos entendíveis. No caso das coisas imateriais, o que entende e o que é entendido são o mesmo, pois a ciência teorética e o objecto cientificamente cognoscível são o mesmo. Já o motivo pelo qual não entendemos sempre, ainda é preciso examiná-lo.

Pelo contrário, nas coisas que possuem matéria, existe em potência cada um dos objectos entendíveis; a tais coisas não pertencerá, portanto, o entendimento (pois é sem a matéria que o entendimento é uma potência daquele tipo de objectos), mas ao entendimento pertencerá ser entendível.


Nenhum comentário: