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terça-feira, 23 de junho de 2015

De Anima (Aristóteles) - 23

(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

A apreensão dos indivisíveis


O pensamento sobre os indivisíveis diz respeito às coisas acerca das quais não existe o falso. Naquelas a respeito das quais existem quer o falso, quer o verdadeiro, existe já uma espécie de composição de pensamentos como se fossem uma única coisa. Como disse Empédocles: «muitas cabeças lhe cresceram sem pescoço», depois foram unidas pela amizade. De tal modo se compõem também estes pensamentos, que existiam separados. São disso exemplo o incomensurável e a diagonal. Já no caso de serem coisas passadas ou futuras, o entendimento e a composição incluem o tempo.

O falso existe sempre, então, numa composição, pois até ao dizermos que uma coisa branca não é branca juntamos o «branco» e o «não branco». Podemos chamar, também, «divisão» a todos estes casos. Mas, com efeito, é falso ou verdadeiro não apenas que Cléon é branco, mas também que o era ou o será. Aquilo que o torna uno é, em cada um dos casos, o entendimento.

Uma vez que «indivisível» é dito em duas acepções, em potência e em actividade, nada impede de entender o indivisível quando se entende a extensão (pois ela é indivisível em actividade), e num tempo indivisível — já que o tempo é, do mesmo modo que a extensão, divisível e indivisível.

Não é possível dizer, de facto, que parte da extensão se estava a entender em cada metade do tempo. É que as metades não existem senão em potência, se não se tiver feito a divisão. Entendendo, no entanto, cada uma das metades separadamente, divide-se também, em simultâneo, o tempo; então, é como se as metades do tempo fossem extensões.

Já se entendermos a extensão como constituída de ambas as partes, também a entenderemos no tempo correspondente a ambas as partes. Já o que é indivisível, não em quantidade, mas em forma, entende-se num tempo indivisível e por algum acto indivisível da alma.

São, no entanto, divisíveis por acidente o acto que entende e o tempo em que se entende; mas isto não em virtude de os contínuos espacial e temporal serem divisíveis, mas em virtude de eles serem indivisíveis. Neles existe, pois, algo indivisível, embora sem dúvida não separado, que torna unos o tempo e a extensão. E isso existe, igualmente, em tudo o que é contínuo em tempo e em extensão.

Já o que é indivisível, não em quantidade mas em espécie, entendemo-lo num tempo indivisível e mediante uma parte indivisível da alma. O ponto, tal como toda a divisão e o que é indivisível desta maneira, mostram-se-nos da mesma maneira que a privação.

O raciocínio aplica-se, do mesmo modo, aos outros casos. Por exemplo, aplica-se ao modo como conhecemos o mau ou o negro, pois conhecemo-los, de algum modo, pelo seu contrário. O que conhece tem de ser em potência ambos os contrários e um deles tem de existir em si. Assim, se a alguma das causas falta o contrário, ela conhece-se a si mesma, é uma actividade e separável.

Ora a afirmação diz algo sobre alguma coisa, como a negação, e toda ela é verdadeira ou falsa. Nem todo o entendimento, porém, o é: o entendimento do que uma coisa é, de acordo com o que é ser, esse é verdadeiro, mas não diz algo sobre alguma coisa; e, do mesmo modo que o ver o sensível próprio é verdadeiro (já se a coisa branca é ou não um homem, isso não é sempre verdadeiro), assim acontece a todas as coisas sem matéria.


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