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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Isaac Newton e a Transmutação da Alquimia - prefácio


- Prefácio da obra 'Isaac Newton e a Transmutação da Alquimia', por Raphael De Paola [Doutor em Teoria Quântica de Campos e professor do Departamento de Física da PUC - Rio] - 

Na cultura mais geral, imposta aos milhões de vítimas da educação de massas como verdade consagrada, aquilo que se costuma chamar de ‘ciência moderna’ parece ter tido um início claro e um desenvolvimento linear até os dias de hoje, e não são poucos os próprios homens de ciência que difundem ingenuamente essa visão. Contam-nos, assim, a saga de um heróico empreendimento intelectual iniciado, quase espontaneamente, a partir do momento em que alguns “desbravadores da razão” resolveram desafiar e romper com todo o pensamento mágico anterior e com a infindável análise de textos de autoridades que o acompanhava, decidindo agora guiar o estudo do mundo natural por rígidos métodos indutivos aplicados à observação cuidadosa de experimentos controlados. O resultado de todo esse empreendimento se vê coroado em teorias matemáticas precisas, balizadas, por sua vez, por rigorosas técnicas lógicas que garantem a possibilidade de teste, falseamento e refutação.
O motor desse desenvolvimento seria tão-somente uma intensa e genuína sede de saber, e a única fonte de empecilhos a uma tão nobre e desinteressada busca pela ciência só poderia provir de mentes inferiores arraigadas a um passado de magia, mistério e superstições, sem contar, obviamente, as hoje em dia onipresentes acusações de manutenção de poder e status quo. Libertada assim do obscurantismo de autoridades retrógradas, o melhor da alma humana pôde dedicar suas energias intelectuais à busca do legítimo conhecimento do cosmos e à construção progressiva de uma sociedade mais perfeita, justa e igualitária.
Mas esse cenário não passa de propaganda autoglorificante, embaladinha para o consumo de gerações de egressos de nosso sistema de deseducação, que não resiste a um confronto sério com as pesquisas de mais de um século nos campos da história e da filosofia da ciência. Já não se pode mais pôr em questão a dívida da ciência moderna para com o passado, tanto na sua vertente filosófica da escolástica medieval, quanto na sua vertente esotérico-ocultista renascentista.
Da primeira, a ciência moderna herdou, acima de tudo, a premissa primeira e pilar básico em que se fundará toda a investigação futura: a existência de uma ordem universal que rege o comportamento do mundo natural. A expressão ‘leis da natureza’, inventada então e usada abundantemente hoje, nada mais é do que o recibo de que todos os envolvidos - filósofos escolásticos, sábios renascentistas e cientistas da modernidade- tinham essa mesma convicção, além, é claro, daquela ainda mais básica que a acompanha e fundamenta: a da existência do legislador da ordem natural. Tanto os precursores medievais e renascentistas quanto os representantes “oficiais” dos três primeiros séculos da ciência moderna só se voltavam à natureza porque o que eles viam e amavam nela não era outra coisa que a obra de Deus.
A tal ponto essa convicção se arraigou na mentalidade do cientista moderno, que ela nem é discutida mais. Todos dão por pressuposto que este é um problema que a filosofia escolástica já resolveu. O melhor da filosofia escolástica, profundamente ancorada na religião e nos textos sacros, mas também em catorze séculos de filosofia, concluía por considerar as coisas ou entes como seres concretos realmente existentes, passíveis de formulação em leis ontológicas e concepções metafísicas precisas, em vez de enxergar neles somente símbolos, expressáveis apenas no plano da imaginação criativa ou do sentimento.
A Idade Média foi, sim, a era do simbolismo, onde as realidades se dissolviam em significados místicos com os quais artistas, construtores e pensadores impregnavam suas obras. Bestiários, hinos, poesia, sistemas filosóficos, códigos de educação e de conduta, vitrais e pórticos de catedrais, cada um a seu modo expressava o universo simbólico no qual as coisas criadas, tomadas em sua verdadeira essência, podiam ser vistas como meras expressões de Deus. Contudo, menos como reação e muito mais como conseqüência da certeza de que o cosmos era precisamente uma criação, ao longo de toda a história da cristandade foi-se formando filosoficamente a justificação metafísica da noção de que as coisas criadas foram realmente criadas, isto é, de que elas possuíam uma existência real e, até certo ponto, autônoma.
Criar é causar o ser. Como efeito da existência real dos seres ancorada na suma existência do Ser, a filosofia escolástica se esforça, em seguida, para justificar a eficácia real das causas segundas, eficácia essa que é novamente ancorada em Deus, considerado agora como causa primeira. Criar é, sim, causar o ser, mas o ser, uma vez criado, passa a operar. Num universo plasmado pela Criação tal como o cosmos cristão, é inconcebível que os seres não fossem seres genuínos, e as causas, também genuínas causas. Deus infundiu nas próprias coisas criadas as sementes das coisas futuras através das “leis numéricas” que vão reger seu comportamento no tempo. Deus não se contenta apenas em dar existência às coisas, mas também as impregna com a causalidade que flui delas, e essa eficácia das causas segundas repousa nelas mesmas, ainda que como uma participação, mesmo que analógica, na causalidade divina.
Estabelecida racionalmente a conexão entre criação e Criador, através daquilo que Étienne Gilson viria a chamar de “metafísica do Êxodo” em L’Esprit de la philosophie médiévale, Deus penetrava agora mais profundamente na natureza à medida que esta ia se tornando mais conhecida. E, se é verdade que o ‘omnia in mensura, et numero, et pondere disposuisti’ das Escrituras justifica todo o empreendimento da matematização do mundo natural que surgirá com Roberto Grosseteste e os calculadores do Merton College (e que tomará grande impulso nos movimentos neopitagóricos e ocultistas no Renascimento movidos por estudos da Cabala), é muito mais verdade ainda que tal matematização só será possível, na mentalidade medieval, não apesar de, mas justamente porque ‘Coeli enarrant gloriam Dei’. Como diz Gilson: “A imagem divina é vista agora como mergulhada no coração mesmo da natureza, indo além da ordem, do número e da beleza, alcançando e saturando a própria estrutura material e tocando a eficácia mesma da causalidade. [...] A obra de Deus Onipotente não podia de modo algum ser um mundo inerte, que não desse testemunho do seu Artífice. Para o filósofo cristão, é sempre um erro fazer pouco da natureza sob o pretexto de exaltar a Deus.”
Regidos por uma metafísica que não será mais assunto para os cientistas praticantes “oficiais” dos períodos renascentista e moderno, todos os demais elementos principais que constituem o método científico moderno também já se apresentavam no período medieval: o binômio observação/experimentação, a quantificação dos fenômenos e a formulação de hipóteses testáveis. Nomes como Roberto Grosseteste, Roger Bacon, John Peckham, Guilherme de Occham, Walter Burley, Thomas Bradwardine, John Dumbleton, William Heytesbury, Richard Swineshead, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Teodorico de Freiberg, Pedro de Maricourt, Nicolau Oresme, Jean Buridan, Francisco de Marchia e Alberto da Saxônia são lugar comum para o estudioso de história e filosofia da ciência. Mas as obras destes personagens permanecem desconhecidas do público mais geral graças ao sistema de educação moderna, pois as trevas impostas pelo currículo do MEC ao homem culto a respeito do período medieval se transmutaram em uma projeção de algo que está acontecendo na nossa mente para algo que supostamente se passou na história: nossa ignorância sobre aquele período se transforma em arma de acusação de que ignorante era toda aquela gente.
Contudo, em que pese o fato de todo o empreendimento da ciência moderna ter tido seus germes e primeiros expoentes na escolástica cristã e tenha encontrado nela sua justificação metafísica, não se pode negar a impressão geral, para uns sentida com desconforto, para outros com alívio, de que o universo da ciência moderna parece se interpor entre nós e o universo simbólico da Alta Idade Média. Isso porque na Renascença algo se passou no enquadramento mais propriamente humano que embasa e possibilita a busca do saber: a formação do sábio e a estruturação da sociedade.
Em todo sistema de educação desde a Antigüidade, baseando-se na premissa totalmente razoável de que o homem é um ente da natureza, a formação do sábio pressupunha uma busca da conformidade e harmonia da alma com o cosmos. É nesse contexto que se desenvolveram, entre outras, as ciências da astrologia e da alquimia, com o intuito de amoldar a conduta humana ao movimento dos astros e ao comportamento dos elementos materiais mais próximos. Esse impulso foi uma constante em toda a história do Ocidente, desde a física dos estóicos, que era entendida mais como uma ética do que uma cosmologia, passando pelas escolas catedrais da Alta Idade Média que estudavam o Timeu também mais como uma obra de formação da moral e de hábitos sociais do que propriamente um estudo da realidade física (C. Stephen Jaeger, The Envy of Angels), culminando com a tentativa, nas universidades medievais, de um equacionamento racional da questão da interação ou correspondência dos fenômenos materiais mais básicos dos astros e da matéria bruta com os movimentos mais sutis da mente individual e da sociedade.
Durante os primeiros quinze séculos da Cristandade, toda essa ordem de estudos, mesmo bebendo de fontes pagãs como Platão, Aristóteles e Cícero, esteve sempre subordinada à visão religiosa do homem como um ser decaído necessitado da redenção. A Renascença, no entanto, marca a abertura de uma era em que o homem não só professa estar satisfeito como até sente orgulho de seu estado de natureza decaída. Daí a proliferação de magos e bruxos de todo tipo durante a Renascença, a época por excelência da pseudociência.
Devido a este influxo, praticamente todos os primeiros homens de ciência que compõem a historiografia “oficial” foram também entusiastas e praticantes das ciências esotéricas:
“Mesmo supondo-se que a distinção entre as duas [ciência e pseudociência] seja em todos os casos coisa simples e improblemática, que não o é de maneira alguma, o fascínio da pseudociência vem da mesma fonte que o da ciência genuína: tanto uma quanto a outra não apelam prioritariamente a nenhuma das paixões grosseiras da alma humana, como o desejo sexual ou a cobiça de dinheiro, mas à ambição cognoscitiva do eu pensante, ao impulso de conhecer a verdade e através dela controlar, se não o universo físico, ao menos as massas de ingênuos que vivem na ilusão.” (Olavo de Carvalho, Visões de Descartes. Entre o Gênio Mau e o Espírito da Verdade)

“Newton transformou feitiçaria em ciência”, e para isso “transmutou” a Royal Society durante o tempo em que a presidiu. Esta é a tese do presente livro, com a qual concordaria, por motivos quase contrários, o historiador da ciência William R. Newman. Os dois aspectos humanos da aquisição do conhecimento que mencionei acima passam a ser equacionados de uma nova forma na Renascença. Esta forma, segundo Philip Ashley Fanning, se consolida nas instituições de saber e na sociedade maior devido à operação empreendida por Newton na Royal Society, quando ele a tirou do total descrédito em que se encontrava: a formação da alma do indivíduo e de seu conhecimento é medida agora pela sua capacidade de estruturar a sociedade em torno – uma ambição alquímica, evidentemente.

Segundo o autor, Newton, ele mesmo um praticante da alquimia por mais de trinta anos, prefere ocultá-la sob o manto de um mecanicismo explícito mas fingido, ao mesmo tempo em que a perpetua na instituição que ele regenera. Para isso, ele teria se servido da tradição de quase duzentos anos das táticas herméticas doludibrium de Cornelius Agrippa, John Dee, Jan Amos Comenius, Robert Fludd e Francis Bacon, camuflando sob a aparência de cientificidade um projeto político e se aproveitando de um embate contra a ala secular dos alquimistas na Royal Society liderada por Robert Boyle.
Tendo sido ou não a intenção de Newton, é impossível não notar que esse mesmo mecanismo de imposição de um projeto de poder sob o manto da “ciência socialmente obrigante” foi ampliado mundialmente, consagrando-se hoje na tentativa de um governo mundial pela ONU mediada por seus organismos supostamente científicos como a OMS: o mundo não é mais aquilo que você vê, mas aquilo que o Dr. Drauzio Varella diz que é.

(Fonte: MSM)

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