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terça-feira, 2 de junho de 2015

Maquiavel Pedagogo (Pascal Bernardin) - início



MAQUIAVEL PEDAGOGO

- PASCAL BERNARDIN -

SUMÁRIO
CAPÍTULO I - As técnicas de manipulação psicológica
CAPÍTULO II - A aplicação da psicologia social na educação
CAPÍTULO III - A Unesco, a educação e o controle psicológico
CAPÍTULO IV - A redefinição do papel da escola e o ensino multidimensional
CAPÍTULO V - A revolução ética
CAPÍTULO VI - A revolução cultural e interculturalismo: homenagem a Gramsci
CAPÍTULO VII - Reescrever a história
CAPÍTULO VIII - Os IUFMS
CAPÍTULO IX - A descentralização
CAPÍTULO X - A avaliação e a informatização do sistema educacional mundial
CAPÍTULO XI - A Europa
CAPÍTULO XII - A revolução pedagógica na França
CAPÍTULO XIII - A sociedade dual
CAPÍTULO XIV - O totalitarismo psicopedagógico
CONCLUSÃO
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INTRODUÇÃO

Uma revolução pedagógica baseada nos resultados da pesquisa psicopedagógica está em curso no mundo inteiro. Ela é conduzida por especialistas em Ciências da Educação que, formados todos nos mesmos meios revolucio­nários, logo dominaram os departamentos de educação de diversas instituições internacionais: Unesco, Conselho da Europa, Comissão de Bruxelas e o CDE. Na França, o Ministério da Educação e os IUFMS (1) estão igualmente sub­ metidos a sua influência.

Essa revolução pedagógica visa a impor uma “ética voltada para a criação de uma nova sociedade” (2) e a estabelecer uma sociedade intercultural. A nova ética não é outra coisa senão uma sofisticada reapresentação da utopia comunista. O estudo dos docu­mentos em que tal ética está definida não deixa margem a qualquer dúvida: sob o manto da ética, e sustentada por uma retórica e por uma dialética frequentemente notá­veis, encontra-se a ideologia comunista, da qual apenas a aparência e os modos de ação foram modificados.

A partir de uma mudança de valores, de uma modificação das atitudes e dos comportamentos, bem como de uma manipulação da cultura (3), pretende-se levar a cabo a re­volução psicológica e, ulteriormente, a revolução social. Essa nova ética faz hoje parte dos programas escolares da França (4), e é obrigatoriamente ensinada em todos os níveis do sistema educacional.

Estando claramente definido o objetivo, para atingi-lo são utilizados os resultados da pesquisa pedagógica obti­dos pelos soviéticos e pelos criptocomunistas norte-americanos e europeus. Trata-se de técnicas psicopedagógicas que se valem de métodos ativos destinados a inculcar nos estudantes os “valores, as atitudes e os comportamentos” definidos de antemão. Por essa razão foram criadas os IUFMS, que se empenham em ensinar essas técnicas de ma­ nipulação psicológica aos futuros professores.

Dentre os traços mais relevantes dessa revolução pe­dagógica, é preciso destacar os seguintes:
- testes psicológicos, projetados ou já realizados, em grande escala;
- informatização mundial das questões do ensino e, particularmente, o censo (ora em curso) de toda a popu­lação escolar e universitária, a pretexto de “aperfeiçoa­mento do ensino”. Participam aí os testes psicológicos. Noventa por cento das crianças norte-americanas já fo­ram fichadas;
- asfixia ou subordinação do ensino livre;
- pretensão a anular a influência da família.

A revolução pedagógica francesa, aliás recentemente acelerada, inscreve-se nesse quadro mundial. Nos últimos anos, numerosas modificações têm sido discretamente in­troduzidas no sistema educacional francês ou constituem, atualmente, objeto de debate. Os elementos de análise apresentados nos capítulos seguintes visam a evidenciar a coerência do projeto mundial no qual eles se integram.

A primeira dessas reformas ocupa-se da formação de professores. As escolas normais foram substituídas pelos Institutos Universitários de Formação de Mestres (IUFMS). Eles se caracterizam pela importância que neles se dá às “ciências” da educação e à psicopedagogia. Esses institu­tos preparam os professores para a sua nova missão: rede­finido o papel da escola, a prioridade é, já não a formação intelectual, mas o ensino “não-cognitivo” e a “aprendiza­gem da vida social”. Também aqui o objetivo é modificar os valores, as atitudes e os comportamentos dos alunos (e dos professores). Para isso, são utilizadas técnicas de manipulação psicológica e de lavagem cerebral.

A reforma na formação dos professores faz-se acom­panhar de um considerável esforço no campo da forma­ção continuada de todas as categorias de profissionais da educação: administradores, professores, diretores, etc, devem igualmente estar adaptados à nova missão da escola.

A revolução pedagógica está também presente nos estabelecimentos escolares. Assim, a estrutura das esco­las primária e maternal (5) foi modificada para substituir as diversas séries por três ciclos (6) que reúnem alunos de níveis diferentes. Os ensinos formal e intelectual são ne­gligenciados em proveito de um ensino não-cognitivo e multidimensional, privilegiando o social. A reforma pe­dagógica introduzida no Ensino Médio tende igualmente a uma profunda modificação das práticas pedagógicas e do conteúdo do ensino.

Simultaneamente, um vasto dispositivo de avaliação dos alunos é implementado. Por fim, ele deve ser infor­ matizado, para ser utilizado em caráter permanente, e abrangerá o ensino não cognitivo, tal como a educação ética, cívica e social.

Essa revolução pedagógica, introduzida discretamente, mediante discretas manobras, sem deixar ver sua arqui­tetura geral, precisa levar em conta a resistência de certos professores que jamais permitiriam o aviltamento de seu ofício e de seus alunos. Desse modo, aplicam-se técnicas de descentralização, oriundas diretamente das técnicas de administração e de gestão de “recursos humanos”. Consegue-se com isso envolver, engajar psicologicamente os professores e, portanto, reduzir a sua oposição.

Os “projetos escolares” são a aplicação direta dessa filosofia manipulatória. Ademais, o nível escolar continuará decaindo, o que aliás não surpreende, já que o papel da escola foi redefi­nido e que sua missão principal não consiste mais na formação intelectual, e sim na formação social das crianças; já que não se pretende fornecer a elas ferramentas para a autonomia intelectual, mas antes se lhes deseja impor, sub-repticiamente, valores, atitudes e comportamentos por meio de técnicas de manipulação psicológica.

Com toda nitidez, vai-se desenhando uma ditadura psicopedagógica. No momento mesmo em que os democratas maravi­lham-se de sua vitória sobre o comunismo, alguns obser­vadores se questionam, lembrando-se do que disse Lênin:
“É preciso [...] estar disposto a todos os sacrifícios e, in­clusive, empregar - em caso de necessidade - todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a verdade”. (7)

Sérias interrogações subsistem quanto à na­tureza e a profundidade das reformas empreendidas na antiga URSS. Essas interrogações, que não poderiam ser abordadas no âmbito desse opúsculo, formam-lhe, con­tudo, a trama. Outros há que evocam a tese da convergência entre capitalismo e comunismo, defendida ainda há pouco por algumas organizações internacionais, por A. Sakharov e por tantos outros. Sua perspectiva é mais ou menos amplaque a precedente? É ela, enfim, mais justa? Não é nossa pretensão responder a essas perguntas, ligadas intima­mente às suspeitas que pesam sobre a perestroika.

Entretanto, essas interrogações formam o pano de fun­do desse estudo. Escrito de circunstância, cuja redação se ressente da brevidade do tempo que nos foi atribuído, ele não pretende outra coisa senão esclarecer seus leitores acerca do que realmente está em jogo nos debates atuais acerca da reforma do sistema educacional. Ele evitará, portanto, abordar frontalmente as questões de política internacional. Constata-se, porém, que tais questões não poderiam permanecer por muito tempo sem resposta.

Há quem nos censure o fato de havermos insistido de­masiado no aspecto criptocomunista da revolução peda­gógica por nós exposta, privilegiando de facto a primeira das duas hipóteses. Convimos com isso de boa vontade, mas temos duas razões para haver assim procedido. Em primeiro lugar, o aspecto criptocomunista dessa revolu­ção não poderia ser seriamente contestado. Culminância dos trabalhos realizados desde há quase um século nos meios revolucionários norte-americanos, retomados e de­senvolvidos ulteriormente pela URSS e pela Unesco, ela traz em si as marcas de sua origem.

Além disso, reconhecer tais origens, admitir que nos encontramos face a uma temível manobra criptocomunista, não exclui, em absoluto, a hi­pótese globalista da convergência entre capitalismo e co­munismo. Mais ainda, essa segunda hipótese na verdade supõe a presença de um forte elemento criptocomunista na sociedade posterior à desaparição da cortina de ferro.

Assim, rogamos ao leitor que considere como os fa­tos expostos nas páginas a seguir se podem integrar em dois quadros diversos de análise e de interpretação, os quais não pretendemos discriminar. Seria isso possível, aliás, considerando-se que os acontecimentos estiveram subordinados a relações de força extremamente comple­xas e sutis, capazes de orientar a história em uma direção imprevista? E considerando que os próprios protagonis­tas estão, em sua imensa maioria, tanto do Oeste quanto do Leste, inconscientes do sentido da História, que trans­cende infinitamente a dialética criptocomunismo versus globalismo?

As organizações internacionais preservam-se por meio de expedientes como este: “As opiniões expressas no pre­sente estudo são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente o ponto de vista da Orga­nização X.” Se essa ressalva é verdadeira, stricto sensu, é necessário, não obstante, considerar que a organização internacional, que editou tais opiniões, julgou-as suficien­temente próximas das suas, já que não apenas deixou de censurá-las mas, além disso, garantiu e financiou sua publicação.

Exatamente como a mídia, as organizações in­ternacionais exercem sua influência não tanto pelas opi­niões que defendem como por meio dos autores aos quais elas concedem a palavra e pelas teses que elas difundem, desse modo, sob sua autoridade. Ademais, as teses que havemos de expor são todas elas representativas das cor­rentes de ideias que perpassam os meios globalistas. Nas referências, mencionaremos explicitamente as publica­ções em que não são feitas quaisquer reservas.
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Notas:

1 - IUFM: Instituto universitário de formação de mestres.

2 - Parlamcnto europeu, Documento de sessão, Relatório da comissão da cultura, da juventude, da educação e das mídias sobre La politique de Véducation et de la formation dans la perspective de 1993, 27 mar. 1992, p. 33.

3 - Cf. Seminário europeu de professores, Kolmarden, Norrkòping, Suécia, 10-14 jun. 1985, La formation interculturelle des enseignants, Strasbourg, Conselho da Europa, 1987, p. 19 e 20.

4 - Cf. 4a. Conferência dos ministros da educação dos estados-membros da região Europa, Perspective et taches du développement de 1'éducationen Europe à l'aube d’un nouveau millenaire, Paris, Unesco, 1988, p. 11. Documento naturalmente publicado sem reserva sobre as opiniões dispostas pelos seus autores.

5 - Equivalente à fase da creche e da pré-escola no sistema educacional bra­sileiro - N. do Trad.

6 - No sistema educacional francês, são três os ciclos das séries iniciais, que com­ portam de duas a três etapas, assim organizados: ciclo dos primeiros apren­dizados: pequena seção, média seção, seção maior; ciclo das aprendizagens fundamentais: curso preparatório e curso elementar 1; ciclo de aprofundamento: curso elementar 2, curso médio 1 e curso médio 2 - N. do Trad.

7 - V. Lenine, La maladie infantile du communisme, Paris, Editions sociales, Moscou, Editions du progrès, 1979, p. 69.


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