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quinta-feira, 11 de junho de 2015

O homem que calculava (Malba Tahan) - 25

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO XXV       
Vamos pela segunda vez ao palácio do rei.
A estranha surpresa. Perigoso torneio de um contra sete.
A restituição de misterioso anel.
Beremiz recebe um tapete azul-claro.
Versos que abalam um coração apaixonado.


Na primeira noite depois do Ramadã (1), logo que chegamos ao palácio do califa, fomos informados por um velho, nosso companheiro de trabalho, que o soberano preparava estranha surpresa para o nosso amigo Beremiz. Aguardava-se grave acontecimento. O calculista ia ser argüido, em audiência pública, por sete matemáticos de fama, três dos quais haviam chegado, dias antes, do Cairo. Que fazer? Allahur Akbar! (2)

Diante daquela ameaça, procurei encorajar Beremiz, fazendo-lhe sentir que devia ter confiança absoluta em sua capacidade, tantas vezes comprovada. O calculista recordou-me um provérbio que ouvira de seu mestre Nô-Elin: “Quem não desconfia de si mesmo não merece a confiança dos outros!”

Sob pesada sombra de apreensões e tristeza, entramos no palácio. O grande e rutilante divã, profusamente iluminado, estava repleto de cortesãos e cheiques de renome. À direita do califa achava-se o jovem príncipe Cluzir Schá, convidado de honra, que se fazia acompanhar de oito doutores hindus, ostentando roupagens vistosas, de ouro e veludo, e exibindo garbosos turbantes de Caxemira. À esquerda do trono perfilavam-se os vizires, os poetas, os cádis e os elementos de maior prestígio da alta sociedade de Bagdá. Sobre um estrado, onde se viam vários coxins de seda, achavam-se os sete sábios que iam interrogar o calculista.

A um gesto do califa, o cheique Nurendim Barur tomou Beremiz pelo braço e conduziu-o, com toda a solenidade, até uma espécie de tribuna erguida ao centro do rico salão. Um escravo negro, agigantado, fez soar três vezes pesado gongo de prata. Todos os turbantes se curvaram. Ia ter início a singular cerimônia. A minha imaginação, confesso, voejava por mundos alucinados.

Um imã tomou do Livro Santo e leu, numa cadência invariável, pronunciando lentamente as palavras, a prece do Alcorão (3)
“Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Louvado seja o Onipotente, Criador de todos Os mundos! A misericórdia é em Deus o atributo supremo! Nós Te adoramos, Senhor, e imploramos a Tua divina assistência! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!” 

Logo que a última palavra do imã se perdeu com o seu cortejo de ecos pelas galerias do palácio, o rei avançou dois ou três passos, parou e disse:

- Uallah! O nosso amigo e aliado, príncipe Cluzireh-din-Moubarec Schá, senhor de Laore e Delhi, pediu-me que proporcionasse aos doutores de sua comitiva o ensejo de admirarem a cultura e a habilidade do geômetra persa, secretário do vizir Ibrahim Maluf. Seria desairoso deixar de atender a essa solicitação de nosso ilustre hóspede. E, assim, sete dos mais famosos ulemás do Islã vão propor ao calculista Beremiz questões que se relacionam com a ciência dos números. Se ele souber responder  a  todas  as  perguntas,  receberá  (assim  o prometo) recompensa tal que o fará um dos homens mais invejados de Bagdá.

Vimos, nesse momento, o poeta Iezid aproximar-se do califa.

- Comendador dos Crentes! - disse o cheique. - Tenho em meu poder um objeto que pertence ao calculista. Trata-se de um anel encontrado em nossa casa por uma das escravas do harém. Quero restituí-lo ao calculista antes de ser iniciada a importantíssima prova a que vai submeter-se. É possível que se trate de um talismã, e eu não desejo privar o calculista nem mesmo do auxílio dos recursos sobrenaturais.

E, depois de breve pausa, o nobre Iezid disse ainda.

- Minha encantadora filha Telassim, verdadeiro tesouro entre os tesouros da minha vida, pediu-me fosse permitido oferecer ao geômetra persa, seu mestre na ciência dos números, pequeno tapete por ela mesma bordado. Esse tapete, se o Emir dos Crentes consentir, seria colocado sob a almofada destinada ao calculista que vai ser argüido, hoje, pelos sete maiores sábios do Islã.

Permitiu o monarca que o anel e o tapete fossem, no mesmo instante, entregues ao calculista. O próprio cheique Iezid, sempre transbordante de simpatia, fez a entrega da caixa. Logo a seguir, a um sinal do cheique, um mabid (4) adolescente apareceu, trazendo nas mãos o pequeno tapete azul-claro, que foi colocado sob a almofada verde de Beremiz.

- Tudo isso é feitiço, é baraka - insinuou, em voz baixa, um velhote risonho, magro, de túnica azul e cara chupada, que se achava bem atrás de mim. - Esse jovem calculista persa é bom conhecedor da baraka. Faz sortilégios! Esse tapetezinho azul-claro parece-me um tanto misterioso.

Mostrou-se Beremiz profundamente emocionado ao receber a jóia e o tapete. Apesar da distância em que me achava, pude notar que alguma coisa de muito grave ocorria naquele momento. Ao abrir a pequenina caixa, os seus olhos brilhantes se umedeceram. Soube depois que, juntamente com o anel, a piedosa Telassim havia colocado um papel no qual Beremiz leu, emocionado: “Ânimo. Confia em Deus. Rezo por ti”.

E o tapete azul-claro? Haveria, no caso, alguma baraka, como insinuava o velhinho alegre da túnica azul? Nada de sortilégios. Aquele pequeno tapete azul-claro, que aos olhos dos cheiques e ulemás não passava de um simples presente, trazia, em caracteres cúficos (que só Beremiz saberia decifrar e ler), alguns versos que abalaram o coração do nosso amigo calculista. Esses versos, que eu, mais tarde, pude traduzir e decorar, haviam sido finalmente bordados por Telassim, como se fossem arabescos, nas barras do pequenino tapete: 

“Eu te amo, querido.
Perdoa-me o meu amor!
Eu fui apanhada como um pássaro que se extraviou do caminho.
Quando o meu coração foi tocado, ele perdeu o véu ficou ao desabrigo.
Cobre-o com piedade, querido, e perdoa o meu amor!
Se não me podes amar, querido, perdoa a minha dor. 
E voltarei para o meu canto e ficarei sentada no escuro.
E cobrirei com as mãos a nudez do meu recato.” (5)

Estaria o cheique Iezid a par daquela dupla mensagem de carinho e amor? Não havia motivo para deter-me em tal idéia. Só mais tarde, como já disse, revelou-me Beremiz o tal segredo. Só Allah sabe a verdade!

Fez-se, no suntuoso recinto, profundo silêncio. Ia ter início, no grande e rico divã do califa, o torneio de espírito e de cultura mais notável ocorrido até agora sob os céus do Islã. Iallah!
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Notas:
1- Mês da quaresma muçulmana. 
2- “Deus é grande!”
3- Entre os muçulmanos, qualquer cerimônia pública deve ser precedida de uma prece.
4- Servidor.” Semi-escravo.

5- Versos de Tagore. 

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