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terça-feira, 16 de junho de 2015

O homem que calculava (Malba Tahan) - 26

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO  XXVI       
No qual vamos encontrar um teólogo famoso.
O problema da vida futura. 
O muçulmano deve conhecer o Livro Sagrado.
Quantas palavras há no Alcorão? Quantas letras?
O nome de Jesus é citado 19 vezes.
Um engano de Beremiz. 


O sábio indicado para iniciar a argüição ergueu-se com austera solenidade. Era uma figura respeitável de octogenário, que me inspirava um respeito medroso. As longas barbas brancas, proféticas, caíam-lhe, fartas, sobre o peito largo.

- Quem é esse nobre ancião? - perguntei, em surdina, a um haquim oio-um (1), de rosto magro e bronzeado, que se achava ao meu lado.

- É o célebre ulemá Mohadebegue-Abner-Rama - respondeu-me. - Dizem que conhece mais de 15000 sentenças sobre o Alcorão. Ensina teologia e retórica.

As palavras do sábio Mohadebe, o teólogo, eram pronunciadas em tom estranho e surpreendente, sílaba por sílaba, como se o orador pusesse empenho em medir o som de sua própria voz:

- Vou interrogar-vos, ó calculista, sobre assunto de indiscutível importância para a cultura de um muçulmano. Antes de estudar a ciência de um Euclides ou de um Pitágoras, deve o bom islamita conhecer profundamente o problema religioso, pois a vida não é concebível quando se projeta divorciada da verdade e da fé. Aquele que não se preocupa com o problema de sua existência futura, com a salvação de sua alma, e desconhece os preceitos de Deus, os mandamentos, não merece o qualitativo de sábio. Quero, portanto, que nos apresenteis, neste momento, sem a menor hesitação, quinze indicações numéricas certas e notáveis sobre o Alcorão, o livro de Allah! Entre essas quinze indicações deverão figurar:
1º) O número de suratas do Alcorão;
2º) O número exato de versículos;
3º) O número de palavras;
4º) O número de letras do Livro Incriado;
5º) O número exato dos profetas citados nas páginas do Livro Eterno.

E o sábio teólogo insistiu, fazendo ecoar bem forte a sua voz:

- Quero ouvir, enfim, neste momento, além das cinco indicações, por mim apontadas, mais outras dez relações numéricas certas e notáveis sobre o Livro Incriado! Uassalã!

Seguiu-se profundo silêncio. Aguardava-se, com ansiedade, a palavra de Beremiz. Com uma tranqüilidade que causava assombro, o jovem calculista respondeu:

- O Alcorão, ó sábio e venerável mufti (2), compõe-se de 114 suratas, das quais 70 foram ditadas em Meca e 44 em Medina. Divide-se em 611 ashrs e contém 6236 versículos, dos quais 7 do primeiro capítulo, Fatihat (3), e 8 do último, Os homens. A surata maior é a segunda, que encerra 280 versículos. O Alcorão contém 46439 palavras e 323670 letras, cada uma das quais encerra 10 virtudes especiais. O nosso Livro Sagrado cita o nome de 25 profetas. Issa (4), filho de Maria, é citado 19 vezes. Há cinco animais, cujos nomes foram tomados para epígrafes de cinco capítulos: a vaca, a abelha, a formiga, a aranha e o elefante. A surata 102 tem por título: “A contestação dos números”. É notável esse capítulo do Livro Incriado pela advertência que dirige, em seus cinco versículos, àqueles que se preocupam com disputas estéreis sobre números que não têm importância alguma para o progresso espiritual dos homens.

Neste ponto, fez Beremiz ligeira pausa e logo acrescentou:

- Eis aí, para atender ao vosso pedido, as indicações numéricas tiradas do Livro de Allah! Houve, apenas, na resposta que acabo de formular, um engano que me apresso a confessar. Em vez de quinze relações, citei dezesseis!

- Por Allah! - murmurou, atrás de mim, o velhote da túnica azul. - Como pode um homem saber, de memória, tantos números e tantas contas! É fantástico! Sabe até quantas letras tem o Alcorão!

- Estuda muito - replicou, quase em segredo, o vizinho, que era gordo e tinha uma cicatriz no queixo. - Estuda muito e decora tudo. Já ouvi uns zunzuns a tal respeito.

- Decorar não adianta - cochichou, ainda, o velhinho da cara chupada. - Não adianta. Eu, por exemplo, não consigo decorar nem a idade da filha de meu tio! (5)

Irritavam-me aquelas falinhas segredadas. Mas o fato é que Mohadebe confirmou todas as indicações dadas pelo calculista; até o número de letras do Livro de Allah fora enunciado sem erro de uma unidade.

Disseram-me que esse douto teólogo Mohadebe era um homem pobre. E devia ser mesmo verdade. A muitos sábios priva Allah das riquezas, pois a sabedoria e a riqueza raramente aparecem juntas.

Beremiz havia vencido brilhantemente a primeira prova do terrível debate. Faltavam seis.
- Queira Allah! - pensei. - Queira Allah que tudo possa correr bem!
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Notas:
1- Médico oculista.
2- Jurisconsulto muçulmano.
3- Primeiro capítulo do Alcorão.
4- Jesus - Das cinco preces que os árabes proferem, todos os dias, uma delas é dedicada a Jesus.

5- Filha de meu tio – Esposa. 

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