Luz para a inteligência, Calor para a vontade

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Nome da Rosa - 15

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

SEGUNDO DIA: NOITE 
Onde se penetra finalmente no labirinto,
se tem estranhas visões e,
como acontece nos labirintos,
aí a gente se perde.


Voltamos ao scriptorium, desta vez pela escada oriental, que também subia ao andar proibido, com a candeia ao alto diante de nós. Eu pensava nas palavras de Alinardo sobre o labirinto e esperava coisas pavorosas. 

Fiquei surpreendido, quando emergimos no lugar onde não deveríamos ter entrado, ao
encontrar-me numa sala de sete lados, não muito ampla, privada de janelas, em que reinava, como de resto em todo o andar, um forte odor a fechado ou a mofo. Nada de terrificante. 

A sala, como disse, tinha sete paredes, mas só em quatro delas se abria entre duas colunazinhas encaixadas na parede, uma abertura, uma passagem bastante ampla encimada por um arco de volta inteira. Ao longo das paredes fechadas encostavam-se enormes armários, carregados de livros dispostos com regularidade. Os armários tinham uma etiqueta numerada, assim como cada uma das prateleiras: claramente, os mesmos números que tínhamos visto no catálogo. No meio da sala uma mesa, também ela repleta de livros. Sobre todos os volumes um véu bastante fino de poeira sinal de que os livros eram limpos com uma certa freqüência. Pelo chão também havia qualquer sujidade. Por cima do arco de uma das portas, uma grande inscrição, pintada na parede, apresentava as palavras: Apocalypsis Iesu Christi. Não parecia esbatida, embora os caracteres fossem antigos. Apercebemo-nos depois que, também nas outras salas, estas inscrições eram na verdade gravadas na pedra, e bastante profundamente e depois as cavidades tinham sido preenchidas com tinta, como se usa para pintar a fresco as igrejas. 

Passamos por uma das aberturas. Encontramo-nos numa outra sala onde se abria uma janela, que no lugar dos vidros apresentava placas de alabastro, com duas paredes plenas e uma abertura, do mesmo tipo daquela por onde tínhamos acabado de passar, que dava para outra sala, a qual tinha, também ela, duas paredes plenas com uma janela, e uma outra porta que se abria diante de nós. Nas suas salas duas inscrições semelhantes na forma à primeira que tínhamos visto, mas com outras palavras. A inscrição da primeira dizia: Super thronos viginti quatuor, e a da segunda: Nomen illi mors. Quanto ao resto, embora as suas salas fossem mais pequenas do que aquela por onde tínhamos entrado na biblioteca (de fato, aquela era heptagonal e estas duas retangulares), o mobiliário era o mesmo: armários com livros e mesa central. 

Acedemos à terceira sala. Esta não tinha livros nem inscrição. Sob a janela, um altar de pedra. Havia três portas, uma por onde tínhamos entrado, outra que dava para a sala heptagonal já visitada, uma terceira que nos introduziu numa nova sala, não diferente das outras, salvo pela inscrição, que dizia: Obscuratus est sol et aer. Daqui passava-se a uma nova sala, cuja inscrição dizia: Facía est grando et ignis: era privada de outras portas, ou melhor, chegados àquela sala não se podia avançar e era preciso voltar para trás. 

- Raciocinemos - disse Guilherme. - Cinco salas quadrangulares ou vagamente trapezoidais, com uma janela cada uma, que giram em torno de uma sala heptagonal sem janelas, a que é servida pela escada. Parece-me elementar. Estamos no torreão oriental: cada torreão do exterior apresenta cinco janelas e cinco lados. A conta está certa. A sala vazia é precisamente a que está voltada a oriente, na mesma direção do coro da igreja; a luz do Sol ao amanhecer ilumina o altar, o que me parece justo e piedoso. A única idéia astuta parece-me a das placas de alabastro. De dia filtram uma bela luz, de noite não deixam transparecer sequer os raios lunares. Não é pois um grande labirinto. Agora vejamos onde levam as outras duas portas da sala heptagonal. Creio que nos orientaremos facilmente.

O meu mestre enganava-se, e os construtores da biblioteca tinham sido mais hábeis do que julgávamos. Não sei bem explicar o que aconteceu, mas ao abandonarmos o torreão a ordem das salas tornou-se mais confusa. Umas tinham duas portas, outras três. Todas tinham uma janela, mesmo aquelas por onde entrávamos partindo de uma sala com janela e pensando que íamos para o interior do Edifício. Cada uma delas tinha sempre o mesmo tipo de armários e de mesas, os volumes empilhados em boa ordem pareciam todos iguais e não nos ajudavam decerto a reconhecer o lugar num golpe de vista. Tentamos orientar-nos com as inscrições. Uma vez tínhamos atravessado uma sala em que estava escrito In diebus illis e depois de algumas voltas pareceu-nos que tínhamos ali voltado. Mas recordávamos que a porta em frente à janela introduzia uma sala em que estava escrito Primogenitus mortuorum, enquanto encontrávamos agora uma outra que dizia de novo Apocalypsis Iesu Christi, e não era a sala heptagonal de onde tínhamos partido. Este fato convenceu-nos que, por vezes, as inscrições se repetiam, eram iguais em salas diferentes. Encontramos duas salas com inscrição Apocalypsis uma a seguir à outra, e logo depois uma com Cecidit de coelo stella magna

De onde provinham as frases das inscrições era evidente, tratava-se de versículos do Apocalipse de João, mas não era nada claro nem por que razão estavam pintadas nas paredes nem qual a lógica por que estavam dispostas. Para aumentar a nossa confusão, reparamos que algumas inscrições, não muitas, eram de cor vermelha em vez de negra. 

A certa altura encontramo-nos de novo na sala heptagonal do ponto de partida (aquela era reconhecível, porque aí se abria a entrada da escada) e recomeçamos a mover-nos para a nossa direita, procurando seguir em frente de sala em sala. Passamos por três salas e depois achamo-nos diante de uma parede fechada. A única passagem introduzia numa única sala que só tinha uma outra porta, pela qual saímos, percorrendo mais quatro salas, e achamo-nos de novo diante de uma parede. Voltamos à sala precedente que tinha duas saídas, metemos por aquela que ainda não tínhamos tentado, passamos a uma nova sala e encontramo-nos na sala heptagonal do ponto de partida. 

Como se chamava a última sala onde voltamos para trás? - perguntou Guilherme. 
Fiz um esforço de memória: 
- Equus albus
- Bem, é preciso encontrá-la de novo. 

E foi fácil. Dali, se não se queria andar para trás, não havia senão que passar à sala dita Gratia vobis et pax, e dali, à direita, pareceu-nos encontrar uma nova passagem que não nos fizesse voltar para trás. Com efeito, encontramos outra vez In diebus illis y Primogenitus mortuorum (porém não eram as mesmas salas de pouco antes?), mas finalmente chegamos a uma sala que nos parecia que ainda não tínhamos visitado: Tertia pars terrae combusta est. Mas, naquele momento, já não sabíamos onde estávamos em relação ao torreão oriental. 

Estendendo a candeia para a frente, aventurei-me até às salas seguintes, um gigante de proporções ameaçadoras, de corpo ondulado e flutuante como o de um fantasma, veio ao meu encontro. 

- Um diabo! - gritei, e pouco faltou para me cair a candeia enquanto me voltava de repente e me refugiava nos braços de Guilherme. 

Este tirou-me a candeia das mãos e, afastando-me, avançou com uma decisão que me pareceu sublime. Também ele viu qualquer coisa, porque recuou bruscamente. Depois avançou de novo e levantou a candeia. Desatou a rir. 

- Verdadeiramente engenhoso. Um espelho! 

- Um espelho? 

- Sim, meu valente guerreiro. Lançaste-te com tanta coragem sobre um inimigo verdadeiro, a pouco no scriptorium, e agora assustas-te diante da tua imagem. Um espelho que te devolve a tua imagem aumentada e deformada. 

Tomou-me pela mão e conduziu-me diante da parede fronteira à entrada da sala. Numa placa de vidro ondulada, agora que a candeia a iluminava mais de perto, vi as nossas duas imagens, grotescamente deformadas, que mudava nossa forma e altura conforme nos aproximávamos ou nos afastávamos dele. 

- Deves ler algum tratado de óptica - disse Guilherme divertido -, como decerto leram os fundadores da biblioteca. Os melhores são os dos árabes. Alhazen compôs um tratado De aspectibus que com demonstrações geométricas precisas, falou da força dos espelhos. Alguns deles, segundo o modo como é modulada a sua superfície, podemos aumentar as coisas mais minúsculas (e que outra coisa faz as minhas lentes?), outros fazem aparecer as imagens invertidas ou oblíquas. Ou mostram dois objetos em vez de um, e quatro em vez de dois. Outros ainda, como este, fazem de um anão um gigante ou de um gigante num anão. 

- Jesus Senhor! - disse. - Então são estas as visões que alguém diz ter tido na biblioteca? 

- Talvez. Uma idéia deveras engenhosa. - Leu as inscrições na parede, por cima do espelho: Super thronos viginti quator. – ali a encontramos, mas era uma sala sem espelho. E esta além do mais, não tem janelas nem é heptagonal. Onde estamos? - Olhou em seu redor e aproximou-se de um armário: - Adso, sem aqueles benditos oculi ad legendum não consigo compreender o que está escrito nestes livros. Lê-me alguns títulos. 

Peguei num livro ao acaso:

- Mestre, não está escrito! 

- Como? Veja o que está escrito, que lês? 

- Não leio. Não são letras do alfabeto e não é grego, reconhecê-lo-ia. Parecem vermes, serpentezinhas, caganitas de moscas... 

- Ah, é árabe. Há mais desses? 

- Sim, alguns. Mas cá está um em latim, se Deus quiser. Al... Al Kuwarizmi, Tabúlete. 

- As tábuas astronômicas de Al Kuwarizmi, traduzidas por Abelardo de Bath! Obra raríssima! Continua. 

- Isa ibn Ali, De oculis, Alkindi, De radiies stellatis... 

- Olha agora sobre a mesa. 

Abri um grande volume que estava sobre a mesa, um De bestiis. Calhou-me uma página finamente iluminada, onde estava representado um belíssimo unicórnio. 

- Bela obra - comentou Guilherme, que conseguia ver bem as imagens. - E aquilo? 

- Líber monstruorum de diversis generibus. Também este com belas imagens, mas parecem-me mais antigas. 

Guilherme inclinou o rosto sobre o texto: 

- Iluminado por monges irlandeses, há pelo menos cinco séculos. O livro do unicórnio é, pelo contrário, mais recente, parece-me feito à maneira dos franceses. 

Mais uma vez admirei a sabedoria do meu mestre. Entramos na sala a seguir e percorremos as quatro salas seguintes, todas com janelas e todas cheias de volumes em línguas desconhecidas e mais alguns textos de ciências ocultas, e chegamos a uma parede que nos obrigou a voltar para trás, porque as últimas cinco salas penetravam umas nas outras sem consentir outras saídas. 

- Pela inclinação das paredes, devemos estar no pentágono de outro torreão - disse Guilherme - talvez nos enganemos. 

- Mas as janelas? - disse. - Como podem existir tantas janelas? Impossível que todas as salas dêem para o exterior. 

- Esqueces o poço central, muitas daquelas que vimos são janelas que dão para o octógono do poço. Se fosse de dia, a diferença da luz dir-nos-ia quais são as janelas exteriores e quais as interiores, e talvez até nos revelasse a posição da sala em relação ao Sol. Mas de noite não se percebe nenhuma diferença. Voltemos para trás. 

Voltamos de novo à sala do espelho e viramos para a terceira porta, pela qual nos parecia que ainda não tínhamos passado. Vimos diante de nós uma fileira de três ou quatro salas, e perto da última avistamos um clarão. 

- Está aqui alguém! - exclamei com voz sufocada. 

- Se está, já se apercebeu da nossa candeia - disse Guilherme cobrindo todavia a chama com a mão. 

Detivemo-nos por um ou dois minutos. O clarão continuava a oscilar levemente, mas sem se tornar mais forte ou mais fraco. 

- Talvez seja apenas uma lâmpada - disse Guilherme -, daquelas que se põem para convencer os monges de que a biblioteca é habitada pelas almas dos defuntos. Mas é preciso saber. Tu fica aqui cobrindo a candeia, eu vou à frente com cautela. 

Ainda envergonhado pela triste figura que fizera diante do espelho, quis redimir-me aos olhos de Guilherme: 

- Não vou eu – disse - e vós ficais aqui. Avançarei com cautela, sou mais pequeno e mais leve. Mal dê conta que não há perigo, chamo-vos. 

Avancei através de três salas caminhando rente às paredes ágil como um gato (ou como um noviço que desce à cozinha a roubar queijo na despensa, empresa em que era perito em Melk). Cheguei à soleira da sala de onde provinha o clarão, bastante fraco, rastejando ao longo da parede atrás da coluna que servia de pé direito e espreitei para a sala. Não havia ninguém. Uma espécie de lâmpada estava pousada sobre a mesa acesa, e fumegava quase apagada. Não era uma candeia como a nossa, parecia antes um turíbulo destapado, não tinha chama, mas uma cinza ligeira ardia queimando alguma coisa. Enchi-me de coragem e entrei. Sobre a mesa ao lado do turíbulo estava aberto um livro de cores vivas. Aproximei-me e distingui sobre a página quatro riscas de diversas cores, amarelo, vermelho, azul-turquesa e terra-queimada. Apresentava um animal, horrível de ver, um grande dragão de dez cabeças que arrastava com a causa as estrelas do céu e as fazia precipitar sobre a terra. E repentinamente vi que o dragão se multiplicava, e as escamas da sua pele se tornavam como uma selva de estilhaços rutilantes que se soltaram da folha e vieram rodopiar à solta da minha cabeça. Inclinei-me para trás e vi o teto da sala que se inclinava e descia sobre mim, depois ouvi como um sibilo de mil serpentes, mas não medonho, quase sedutor, e apareceu uma mulher circundada de luz que aproximou o seu rosto do meu respirando-me para a cara. Afastei-a com as mãos estendidas, e pareceu-me que as minhas mãos tocavam os livros do armário em frente, ou que eles cresciam desmesuradamente. Já não me dava conta do lugar onde estava, e onde estava a terra e onde o céu. Vi no centro da sala Berengário, que me fixava com um sorriso odioso, transpirando luxúria. Cobri o rosto com as mãos, e as minhas mãos pareceram-me os membros de um sapo, viscosas e espalmadas. Gritei, creio, senti um sabor acidulado na boca, depois afundei-me numa escuridão infinita, que parecia abrir-se cada vez mais debaixo de mim, e não soube mais nada. 

Acordei após um período que me pareceu de séculos, sentindo pancadas que me ressoavam na cabeça. Estava estendido no chão, e Guilherme dava-me bofetadas nas faces. Já não estava naquela sala, e os meus olhos distinguiram uma inscrição que dizia: Requiescant a laboribus suis

- Vá, vá, Adso - sussurrava-me Guilherme. - Não é nada... 

- As coisas... - disse ainda delirando. – Além, a besta... 

- Não há besta nenhuma. Encontrei-te a delirar aos pés de uma mesa onde se encontrava uma belo apocalipse moçárabe, aberto na página da mulier amicta sole que enfrenta o dragão. Mas apercebi-me, pelo cheiro, que tu tinhas respirado alguma coisa de nocivo e tirei-te logo dali. Também a mim me dói a cabeça. 

- Mas o que é que eu vi? 

- Não viste nada. É que, ali, ardiam substâncias capazes de provocar visões, reconheci o cheiro, é uma coisa dos árabes, talvez a mesma que o velho da montanha dava a cheirar aos seus assassinos antes de os impelir para as suas empresas. E assim explicamos o mistério das visões. Alguém põe ervas mágicas durante a noite para convencer os visitantes importunos que a biblioteca está protegida por presenças diabólicas. Que sentiste, afinal? 

Confusamente, por aquilo que recordava, contei-lhe a minha visão e Guilherme riu:  

- Metade era a ampliação daquilo que tinhas distinguido no livro e na outra metade deixavas falar os teus desejos e os teus receios. Esses são os efeitos que ativam tais ervas. Amanhã é preciso falar disso com Severino, creio que sabe mais do que quer fazer-nos crer. São ervas, apenas ervas, sem necessidade daquelas preparações necromânticas de que nos falava o vidreiro. Ervas, espelhos... Este lugar da sapiência interdita é defendido por muitas e sapientíssimas invenções. A ciência usada para ocultar em vez de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca. Mas foi uma noitada pesada, temos de sair, por agora. Tu estás atordoado e tens necessidade de água e de ar fresco. Inútil tentar abrir estas janelas, demasiado altas e fechadas talvez há dezenas de anos. Como puderam pensar que Adelmo se tenha atirado daqui? 

Sair, disse Guilherme. Como se fosse fácil. Sabíamos que a biblioteca era acessível de um único torreão, o oriental. Mas onde estávamos naquele momento? Tínhamos perdido completamente a orientação. A volta que demos, errando com o temor de nunca mais sairmos daquele lugar, eu sempre vacilante e acometido por acessos de vômitos, Guilherme bastante preocupado comigo e despeitado com a pequenez da sua ciência, deu-nos, ou melhor, deu-lhe a ele, uma idéia para o dia seguinte. Deveríamos voltar à biblioteca, admitindo que alguma vez dela saíssemos, com um tição de madeira queimada, ou outra substância capaz de deixar sinais nas paredes. 

- Para encontrar a saída de um labirinto - recitou de fato Guilherme - não há senão um meio. Ao chegar a cada novo nó, ou seja, nunca visitado antes, o percurso de chegada será distinguido com três sinais. Se se observar sinais em algum dos caminhos do nó, se-lhe indicará que o mesmo já foi visitado, e então só marcará um único sinal no percurso de chegada. Se todas as passagens já tiverem sido marcadas então será preciso refazer o caminho, voltando para trás. Mas, se uma ou duas passagens do nó ainda não tiverem sinais, escolher-se-á uma qualquer, aplicando-lhe dois sinais. Encaminhando-se por uma passagem que tem um único sinal, aplicar-lhe-emos outros dois, de modo que, agora, aquela passagem tenha três. Todas as partes do labirinto deveriam ter sido percorridas se, chegando a um nó, nunca se seguir a passagem com três sinais, a menos que já nenhuma das outras passagens esteja privada de sinais... 

- Como sabeis? Sois perito em labirintos? 

- Não, recito de um texto antigo que uma vez li. 

- E, segundo essa regra, sai-se? 

- Quase nunca, que eu saiba. Mas tentaremos na mesma. E depois, nos próximos dias, terei lentes e terei tempo para me deter melhor sobre os livros. Pode ser que lá onde o percurso das inscrições nos confunde, o dos livros nos dê uma regra. 

- Tereis as lentes? Como fareis para as encontrar?  

- Eu disse que terei lentes. Farei outras. Creio que o vidreiro não espera senão uma ocasião desse gênero para fazer uma nova experiência. Se tiver os utensílios adequados para lapidar cacos. Quanto aos cacos, naquela oficina há muitos. 

Enquanto vagueávamos procurando caminho, de repente, no centro de uma sala, senti acariciarem-me o rosto com uma mão invisível, enquanto um gemido, que não era humano nem era animal, ecoava naquele espaço e no seguinte, como se um espectro vagueasse de sala em sala. Devia estar preparado para as surpresas da biblioteca, mas, uma vez mais, aterrorizei-me e dei um salto para trás. Também Guilherme devia ter tido uma experiência semelhante à minha, porque tocava a face, levantando a candeia e olhando em seu redor. 

Ele ergueu uma mão, depois examinou a chama que parecia agora mais viva, depois
umedeceu um dedo e manteve-o direito diante de si. 

- É claro - disse depois, e mostrou-me dois pontos, em duas paredes opostas, à altura de um homem. Abriam-se aí duas seteiras estreitas, e, aproximando delas a mão, podia sentir-se o ar frio que provinha do exterior. Aproximando depois o ouvido sentia-se um zumbido, como se de fora agora soprasse vento. - A biblioteca devia ter também um sistema de ventilação - disse Guilherme -, de contrário a atmosfera seria irrespirável, especialmente no Verão. Além disso, estas seteiras também fornecem uma justa dose de umidade, a fim de que os pergaminhos não sequem. Mas a habilidade dos fundadores não ficou por aqui. Dispondo as seteiras segundo certos ângulos, asseguraram que, nas noites de vento, a aragem que penetra por estas aberturas se cruze com outra aragem e se adense pela fileira das salas, produzindo os sons que ouvimos. Os quais, unidos aos espelhos e às ervas, aumentam o temor dos incautos que aqui penetram, como nós sem conhecer bem o lugar. E nós próprios pensamos por um momento que eram fantasmas que respiravam para a cara. Só nos demos conta agora, porque só agora se levantou o vento. E também este mistério está resolvido. Mas com tudo isto não sabemos ainda como sair! 

Assim falando vagueávamos no vazio, já perdidos, sem o cuidado de ler as inscrições que apareciam todas iguais. Caímos numa nova sala heptagonal, giramos pelas salas vizinhas, não encontramos qualquer saída. Voltamos para trás, caminhamos durante quase uma hora, renunciando a saber onde estávamos. A certa altura, Guilherme decidiu que estávamos derrotados, não nos restava senão pormo-nos a dormir nalguma sala e esperar que no dia seguinte Malaquias nos encontrasse. Enquanto nos lamentávamos pelo miserável fim da nossa bela empresa, encontramos inopinadamente a sala de onde partia a escada. Agradecemos com fervor ao céu e descemos com grande alegria. 

Uma vez na cozinha, lançamo-nos para a chaminé, entramos no corredor do ossário, e juro que o esgar mortífero daquelas cabeças nuas me pareceu o sorriso de pessoas queridas. Reentramos na igreja e saímos pelo portal setentrional, sentando-nos enfim felizes sobre as lajes de pedra dos túmulos. O ar belíssimo da noite pareceu-me um bálsamo divino. As estrelas brilhavam à nossa volta, e as visões da biblioteca pareceram-me bastante longínquas. 

- Como é belo o mundo e como são feios os labirintos! - disse aliviado. 

- Como seria belo o mundo se houvesse uma regra para andar nos labirintos - respondeu o meu mestre. 

- Que horas serão? - perguntei. 

- Perdi a noção do tempo. Mas será bom encontrarmo-nos nas nossas celas antes que toquem a matinas. 

Costeamos o lado esquerdo da igreja, passamos diante do portal (voltei-me para o outro lado para não ver os velhos do Apocalipse, super thronos viginti quatuor!) e atravessamos o claustro para chegar ao albergue dos peregrinos. 

Na soleira da construção estava o Abade, que nos olhou com severidade. 

- Procurei-vos toda a noite - disse a Guilherme. - Não vos encontrei na cela, não vos encontrei na igreja...  

- Seguíamos uma pista... - disse vagamente Guilherme, com visível embaraço. 

O Abade fixou-o longamente, depois disse com voz lenta e severa:  

- Procurei-vos logo depois de completas. Berengário não estava no coro. 

- Que coisa me estais dizendo? - fez Guilherme com ar hilário. De fato tornava-se-lhe agora claro quem se tinha aninhado no scriptorium. 

- Não estava no coro a completas - repetiu o Abade -, e não voltou pare a sua cela. Vão tocar a matinal, e veremos agora se reaparece. De contrário, temo alguma nova desgraça. 

A matinal, Berengário não estava.


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