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segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Nome da Rosa - 16

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

TERCEIRO DIA: DE LAUDAS A PRIMA 
Onde se encontra um pano sujo de sangue
na cela de Berengário, desaparecido, e é tudo. 

Enquanto escrevo sinto-me cansado, como me sentia naquela noite, ou melhor, naquela manhã. Que dizer? Depois do ofício, o Abade incitou a maior parte dos monges, já em alarme, a procurar por toda a parte, sem resultado. 

Quando estavam para chamar as laudas, procurando na cela de Berengário, um monge encontrou debaixo do enxergão um pano branco sujo de sangue. Mostraram-no ao Abade, que viu nele tenebrosos auspícios. Estava presente Jorge, que, ao ser informado, disse: «Sangue!», como se a coisa lhe parecesse inverossímil. Disseram-no a Alinardo, que abanou a cabeça e disse: 

- Não, não, à terceira trombeta a morte vem pela água... 

Guilherme observou o pano e depois disse: 

- Agora tudo é claro. 

- Então, onde está Berengário? - perguntaram-lhe.

- Não sei - respondeu. 

Ouviu-o Aymaro, que elevou os olhos ao céu e sussurrou a Pedro de Sant Albano: 

- Os ingleses são assim. 

Cerca de prima, quando já havia sol, foram enviados servos a explorar os pés da escarpa, a toda a volta das muralhas. Voltaram a terça, não tendo encontrado nada. 

Guilherme disse-me que não podíamos ter feito melhor. Era preciso esperar os eventos.

E dirigiu-se à forja entretendo-se em cerrada conversa com Nicolau, o mestre vidreiro. 

Eu sentei-me na igreja, junto ao portal central, enquanto se celebravam as missas. Assim devotamente adormeci, e longo tempo, porque parece que nós, jovens, temos mais necessidade de sono que os velhos, que já dormiram tanto e se preparam para dormir pela eternidade.


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