Luz para a inteligência, Calor para a vontade

segunda-feira, 20 de julho de 2015

De Anima - 27

(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

O movimento dos seres animados - II


Aparentam imprimir movimento, de qualquer modo, estas duas coisas, o desejo e o entendimento, desde que se tenha a imaginação por um tipo de pensamento. É que muitos obedecem, à margem da ciência, às imaginações. Mais, nos outros animais não existe pensamento nem raciocínio, mas sim imaginação.

Ambos, com efeito — isto é, o entendimento e o desejo — são capazes de mover espacialmente. Mas o entendimento que o faz é o prático, o que raciocina em vista de uma coisa. Este difere do teorético em finalidade. Quanto ao desejo, todo ele existe, também, em vista de alguma coisa; o objecto do desejo é, pois, o princípio do entendimento prático, enquanto o termo final do raciocínio é, então, o princípio da acção. De forma que estas duas coisas parecem ser, com boa razão, as que movem: o desejo e o pensamento discursivo prático.

Com efeito, o objecto do desejo é que move, e o pensamento discursivo move, porque o seu princípio é o objecto do desejo. E a imaginação, quando move, não move sem o desejo. Existe apenas uma coisa, então, que move: a faculdade desiderativa. E, se duas coisas movessem — o entendimento e o desejo —, moveriam devido a algum aspecto comum. Agora, o entendimento não parece mover sem o desejo, pois a vontade é um desejo, e quando nos movemos de acordo com o raciocínio, movemo-nos também de acordo com uma vontade.

O desejo, por seu turno, move também à margem do raciocínio, pois o apetite é um tipo de desejo. O entendimento, com efeito, está sempre correcto; já o desejo e a imaginação podem estar correctos ou incorrectos. Por isso, é sempre o objecto do desejo que move. Este, por sua vez, é ou o que é bom, ou o que aparenta sê-lo. É que nem tudo é bom, apenas o realizável através da acção; o realizável através da acção, por seu turno, é o que pode também ser de outra maneira.

Que é aquela faculdade da alma, a que chamamos «desejo», que move, isso é evidente. No que respeita aos que dividem a alma em partes, se dividem e separam segundo as capacidades, haverá muitas partes: a nutritiva, a perceptiva, a que entende, a deliberativa e ainda a desiderativa. Estas partes diferem mais umas das outras do que as partes apetitiva e impulsiva diferem entre si. Ora, uma vez que se dão desejos contrários uns aos outros e isto acontece quando o raciocínio e os apetites são contrários, sucedendo nos seres que possuem a percepção do tempo (o entendimento, de facto, ordena-nos que resistamos, por causa do que se seguirá, quando o apetite ordena que o persigamos, por causa do imediato: o prazer imediato afigura-se-nos absolutamente aprazível e absolutamente bom, por não vermos o que se seguirá) o que move será um em espécie, a faculdade desiderativa enquanto desiderativa, embora o primeiro de todos seja o objecto do desejo. É que este move sem se mover, ao ser entendido e ao ser imaginado. Em número, porém, são várias as coisas que movem.

Existem, então, três coisas: uma, o que move; a segunda, aquilo com que move; e ainda uma terceira, o que é movido. Por seu turno, o que move é duplo: existe, assim, o que não se move e o que move e é movido. O que não se move é o bem realizável através da acção; já o que move e é movido é a faculdade desiderativa. É que o que é movido, é movido em virtude de desejar, e o desejo em actividade é um tipo de movimento. O que é movido, por sua vez, é o animal.

No que respeita ao órgão mediante o qual o desejo move, ele é já corpóreo, pelo que devemos ter em vista este tema por ocasião do estudo das funções comuns ao corpo e à alma. Agora, numa palavra: o que move de forma orgânica é aquilo em que o princípio e o fim são o mesmo, como, por exemplo, numa articulação. Neste caso, o convexo e o côncavo são um o fim, o outro o princípio do movimento — por isso, um está em repouso e o outro move-se, sendo coisas diferentes em definição, mas inseparáveis em grandeza.

Tudo se move, pois, por impulsão ou por tracção. Por isso, como num círculo, é preciso que algo esteja em repouso e daí o movimento seja iniciado. De uma forma geral, como foi dito, o animal é capaz de mover-se a si mesmo em virtude de ser capaz de desejar. A faculdade desiderativa, por sua vez, não existe sem a imaginação; e toda a imaginação é racional ou perceptiva. Desta última, com efeito, os outros animais também participam.


Nenhum comentário: