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terça-feira, 28 de julho de 2015

De Anima - 30

(Fim do "Tratado da Alma", de Aristóteles)

A finalidade dos sentidos


Que não é possível que o corpo do animal seja simples, isso é evidente. Quer dizer, não é possível que seja feito, por exemplo, de fogo ou de ar. É que, sem o tacto, o animal não pode ter qualquer outro sentido, pois todo o corpo animado possui a capacidade de tocar, como foi dito.

Os outros elementos, por seu turno, com a excepção da terra, poderão constituir órgãos sensoriais. Todos estes, no entanto, produzem a sensação ao percepcionarem por meio de outra coisa, ou seja, por meio de intermediários. O tacto, por sua vez, dá-se ao serem tocados os próprios objectos, motivo pelo qual possui tal designação.

Embora os outros órgãos sensoriais também percepcionem por contacto, percepcionam, no entanto, por meio de outra coisa. O tacto, então, é o único que parece percepcionar por meio de si mesmo.

Daqui decorre que, daqueles elementos, nenhum poderia constituir o corpo do animal; nem o corpo, na verdade, pode ser feito apenas de terra, pois o tacto é como um meio de todos os tangíveis e o seu órgão sensorial é capaz de receber não apenas quantas diferenças da terra existem, mas também o quente e o frio e todos os outros tangíveis. E por isso não percepcionamos, de facto, com os ossos, os cabelos e outras partes do mesmo tipo, isto é, por serem feitas de terra.

Quanto às plantas, estas não possuem qualquer sentido por isso, por serem feitas de terra. Para mais, sem o tacto não pode haver qualquer outro sentido, e o seu órgão sensorial não é feito apenas de terra, nem de qualquer outro dos elementos. É evidente, portanto, que este é necessariamente o único sentido de cuja privação resulta que os animais pereçam. É que, na verdade, nada que não seja um animal pode possuí-lo, e, para ser um animal, não é necessário que possua qualquer sentido além deste.

Também é por isso que os outros sensíveis — como a cor, o som e o cheiro — não destroem, com os seus excessos, o animal, mas apenas os órgãos sensoriais correspondentes. O contrário não se daria a não ser por acidente, como, por exemplo, se um impulso ou um golpe sucedem em simultâneo com um som ou se pelos objectos visíveis e pelo cheiro são movidas outras coisas que destroem por contacto. Quanto ao sabor, é em virtude de ser simultaneamente táctil que ele pode destruir o animal.

Já o excesso dos tangíveis — por exemplo, o quente, o frio e o duro — destrói o animal. Ora, o excesso de todo o sensível, com efeito, destrói o órgão sensorial correspondente; por consequência, o excesso do tangível destrói o tacto, pelo qual se define o animal, uma vez que sem o tacto se provou ser impossível que o animal exista. Por isso, o excesso dos tangíveis não destrói apenas o órgão sensorial, mas também o animal, pois é só o tacto que o animal tem forçosamente de possuir.

Ora, o animal possui os outros sentidos, como disse, não para existir, mas para o seu bem-estar. Por exemplo, uma vez que vive no ar e na água e, de um modo geral, no transparente, o animal dispõe de visão para ver. Ele dispõe, por sua vez, de paladar, por causa do que é aprazível e do que é doloroso, para o percepcionar no alimento, o desejar e mover-se. O animal dispõe, ainda, de audição, para que lhe seja comunicado algo, e de língua, para comunicar algo a outro.

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