Luz para a inteligência, Calor para a vontade

terça-feira, 7 de julho de 2015

De Anima (Aristóteles) - 24


(Continuação do "Tratado da Alma", de Aristóteles)


A faculdade que entende

 

A ciência em actividade é a mesma coisa que o seu objecto; já a ciência em potência é temporalmente anterior no indivíduo, embora em absoluto nem temporalmente seja anterior: é, pois, a partir de algo que existe em acto que tudo se gera.

O sensível é, manifestamente, o que faz passar a faculdade perceptiva da existência em potência para a actividade; esta, no entanto, não é afectada, nem é alterada. Tal consiste, por isso, numa outra espécie de movimento, pois o movimento é a actividade do que não alcançou o seu fim, enquanto a actividade em absoluto, a do que alcançou o seu fim, é diferente.

Percepcionar é, com efeito, semelhante ao simples dizer e entender. Já quando uma coisa é aprazível ou dolorosa, por assim dizer, a faculdade perceptiva, como se deste modo a afirmasse ou negasse, persegue-a ou evita-a. Além disso, sentir prazer e sentir dor é o activar do meio perceptivo em relação ao que é bom ou ao que é mau, enquanto tais. Assim, a fuga e o desejo em actividade são a mesma coisa, e a faculdade que deseja e a faculdade que evita não são diferentes, nem entre si, nem da faculdade perceptiva; o seu ser, no entanto, é distinto.

Para a alma discursiva, as imagens servem como as sensações. E, quando ela afirma ou nega que uma coisa imaginada é boa ou má, evita-a ou persegue-a. Por isso é que a alma nunca entende sem uma imagem. Como o ar torna a pupila de uma determinada qualidade, e esta, por sua vez, age sobre uma outra coisa, e o mesmo acontece, também, no caso do ouvido, sendo porém o órgão último um único, e um único o meio, embora o ser, para ele,seja múltiplo.

Mediante o que é que a alma discrimina em que é que diferem o doce e o quente, isso já foi dito anteriormente e devemos dizê-lo também agora. Isso é, pois, uma única coisa no sentido em que o limite o é e estas duas qualidades, constituindo uma única coisa por analogia e em número, relacionam-se entre si como aquelas qualidades se relacionam entre elas.

Pois em que é que difere perguntar como é que se discrimina as coisas não homogéneas de perguntar como é que se discrimina coisas contrárias, como o branco e o preto? Ora, como A, o branco, é para B, o preto, seja C para D. Por conse- quência, também assim é se comutarmos os termos. Então, se C e A pertencerem a uma mesma coisa, assim serão, como também D e B, uma e a mesma coisa. O seu ser, no entanto, não será o mesmo. E assim acontece, também, no caso daqueles. O raciocínio seria o mesmo se A fosse o doce e B fosse o branco.

Quanto à faculdade que entende, ela entende as formas nas imagens. E como são definidos pela faculdade, nos sensíveis, aquilo que devemos evitar e aquilo que devemos perseguir, também na ausência de sensação, quando se volta para as imagens, ela se move. Por exemplo, ao percepcionarmos a tocha como fogo, e ao vermos que se move, reconhecemos, pelo sentido comum, que se trata de um inimigo.

Já outras vezes é pelas imagens e pensados que estão na alma, como se estivéssemos a vê-los, que raciocinamos e deliberamos a respeito do que há-de vir, com base nos factos presentes. E quando a faculdade que entende diz que ali está algo aprazível ou doloroso, partindo disso evita-o ou persegue-o — e far-se-á, de uma maneira geral, uma única coisa.

Então, o que existe sem a acção, o verdadeiro e o falso, pertence ao mesmo género que o bom e o mau. Eles diferem, no entanto, pelo facto de o verdadeiro e o falso serem absolutos, enquanto o bom e o mau o são para alguém.

Ora, as chamadas «abstracções», entende-as como entende o adunco. Enquanto adunco, não o entende separadamente; já se o entende enquanto concavidade em actividade, entende-o sem a carne em que a concavidade se dá.

Entende-se deste modo os objectos matemáticos: não sendo separáveis da matéria, quando os entende, entende-os, no entanto, como se o fossem.

Assim, de uma forma geral, o entendimento em actividade identifica-se com os seus objectos. Se é possível ou não entender alguma coisa de entre as que existem separadas da matéria, quando o próprio entendimento não existe separado de uma grandeza, teremos de investigar posteriormente.


Nenhum comentário: