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terça-feira, 28 de julho de 2015

O homem que calculava - 34

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO XXXIV
“Segue-me”, disse Jesus.
“Eu sou o caminho que deves trilhar,
a verdade em que deves crer,
a vida que deves esperar.
Eu sou o caminho sem perigo;
a verdade sem erro e a vida sem morte.”


Na terceira lua do mês de Rhegeb, do ano de 1258, uma horda de tártaros e mongóis atacou a cidade de Bagdá. Os assaltantes eram comandados por um príncipe mongol, neto de Gêngis Khan. O cheique Iezid (Allah o tenha em sua glória!) morreu combatendo junto à Ponte de Solimã; o califa Al-Motacém entregou-se prisioneiro e foi degolado pelos mongóis (1). A cidade foi saqueada e cruelmente arrasada. A gloriosa Bagdá, que durante quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida a um montão de ruínas.

Felizmente não assisti a esse crime que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização. Três anos antes, logo depois da morte do generoso príncipe Cluzir Schá (Allah o tenha em sua paz!), segui para Constantinopla com Beremiz e Telassim.

Devo dizer que Telassim, antes de seu casamento, já era cristã, e ao cabo de poucos meses fez com que Beremiz repudiasse a religião de Maomé e adotasse integralmente o Evangelho de Jesus, o Salvador. Beremiz fez questão de ser batizado por um bispo que soubesse a geometria de Euclides.

Todas as semanas vou visitá-lo. Chego às vezes a invejar-lhe a felicidade em que vive em companhia dos três filhinhos e da carinhosa esposa.

Ao ver Telassim, lembro-me das palavras do poeta:  “Pela tua graça, mulher, conquistaste todos os corações. Tu és a obra sem mácula, saída das mãos do Criador”.  E mais: “Esposa de pura origem, ó perfumada! Sob as notas de tua voz as pedras levantam-se, dançando, e vêm, em ordem, erguer um edifício harmonioso! (2) Cantai, ó aves, as vossas cantigas mais puras! Brilhai, ó Sol, com a vossa mais doce luz! Deixai voar as vossas flechas, ó Deus do Amor! Mulher! É grande a tua felicidade: bendito seja o teu amor” (3).

Não resta dúvida. De todos os problemas, o que Beremiz melhor resolveu foi o da vida e do amor. E aqui termino, sem fórmulas e sem números, a história simples da vida do Homem que Calculava. A verdadeira felicidade - segundo afirma Beremiz - só pode existir à sombra da religião cristã. Louvado seja Deus! Cheios estão o Céu e a Terra da majestade de sua obra (4).
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Notas
1 - A conquista de Bagdá, pelas hordas impiedosas de Houlagou, é descrita por vários historiadores. A cidade foi cruelmente saqueada pelos bárbaros invasores. Tudo foi arrasado e destruído: o fogo consumiu os grandes palácios e as mais ricas mesquitas. O sangue dos mortos inundou as ruas e as praças. Os mongóis atiraram ao Tigre todos os livros das grandes bibliotecas, e os preciosos manuscritos, misturados na lama, formaram uma ponte sobre a qual os conquistadores passavam a cavalo.

2 - Os versos citados são transcritos das Mil e uma noites, tradução de Nair Lacerda e de Domingos Carvalho da Silva. 

3 - Cf. Tagore, A alma das paisagens, pág. 260. 

4 - Dos Salmos de Davi. 

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