Luz para a inteligência, Calor para a vontade

terça-feira, 7 de julho de 2015

O homem que calculava (Malba Tahan) - 29

(Continuação da obra "O homem que calculava", de Malba Tahan)

CAPÍTULO XXIX       
Vamos ouvir antiga lenda persa.
O material e o espiritual.
Os problemas humanos e transcendentes.
A multiplicação famosa.
O sultão reprime, com energia, a intolerância dos cheiques islamitas. 


Um poderoso rei, que dominava a Pérsia e as vastas planícies do Irã, ouviu certo dervixe dizer que o verdadeiro sábio devia conhecer, com absoluta perfeição, a parte espiritual e a parte material da vida. Chamava-se Astor esse monarca, que era apelidado “O Sereno”.

Que fez Astor, o rei? Vale a pena recordar a forma pela qual procedeu o poderoso monarca. Mandou chamar os três maiores sábios da Pérsia, entregou a cada um deles 2 dinares de prata e disse-lhes:

- Há neste palácio três salas iguais, completamente vazias. Ficará, cada um de vós, encarregado de encher uma das salas, não podendo, entretanto, despender nessa tarefa quantia superior à que acabo de confiar a cada um.

O problema era realmente difícil. Cada sábio devia encher uma sala vazia, gastando apenas a insignificante quantia de 2 dinares. Partiram os sábios a fim de cumprir a missão de que haviam sido encarregados pelo caprichoso rei Astor. Horas depois, regressaram à sala do trono. O monarca, interessado pela solução do enigma, interrogou-os.

O primeiro, ao ser interrogado, assim falou:

- Senhor! Gastei 2 dinares, mas a sala que me coube ficou completamente cheia. A minha solução foi muito prática. Comprei vários sacos de feno e com eles enchi o aposento do chão até o teto.

- Muito bem! - exclamou o rei Astor, o Sereno. - A vossa solução, simples e rápida, foi realmente muito bem imaginada. Conheceis, a meu ver, a “parte material da vida”, e sob esse aspecto haveis de encarar todos os problemas que o homem deve enfrentar na face da terra.

A seguir, o segundo sábio, depois de saudar o rei, disse com certa ênfase:

- No desempenho da tarefa que me foi cometida, gastei apenas meio dinar. Quero explicar como procedi. Comprei uma vela e acendi-a no meio da sala vazia, Agora ó Rei, podeis observá-la. Está cheia, inteiramente cheia de luz.

- Bravos! - concordou o monarca. - Descobriste uma solução brilhante para o caso! A luz simboliza a parte espiritual da vida. O vosso espírito acha-se, pelo que me é dado concluir, propenso a encarar todos os problemas da existência do ponto de vista espiritual.

Chegou, afinal, ao terceiro sábio, a vez de falar. Eis como foi resolvida por ele a singular questão:

- Pensei, a princípio, ó Rei dos Quatro Cantos do Mundo, em deixar a sala entregue aos meus cuidados exatamente como se achava. Era fácil ver que a aludida sala, embora fechada, não se encontrava vazia. Apresentava-se (é evidente) cheia de ar e de trevas. Não quis, porém, ficar na cômoda indolência enquanto os meus dois colegas agiam com tanta inteligência e habilidade. Resolvi agir também. Tomei, pois, de um punhado de feno da primeira sala, queimei esse feno na vela que se achava na outra, e com a fumaça que se desprendia enchi inteiramente a terceira sala. Será inútil acrescentar que não gastei a menor parcela da quantia que me foi entregue. Como podeis verificar, a sala que me coube está cheia de fumaça.

- Admirável! - exclamou o rei Astor. - Sois o maior sábio da Pérsia e talvez do mundo. Sabeis unir, com judiciosa habilidade, o material ao espiritual para atingir a perfeição.

Neste ponto, o sábio toledano dava por finda a sua narrativa. Voltando-se, então, para Beremiz, assim falou, sorrindo com certo ar de brandura:

- É meu desejo, ó calculista, verificar se, à semelhança do terceiro sábio da lenda, sois capaz de unir o material ao espiritual, e chegar a resolver não só os problemas humanos, como também as questões transcendentes. A minha pergunta é, portanto, a seguinte: Qual é a multiplicação famosa, apontada na história, multiplicação que todos os homens cultos conhecem, e na qual só figura um fator?

Essa inopinada pergunta surpreendeu, com sobeja razão, os ilustres muçulmanos. Alguns não disfarçaram pequeno gestos de desagrado e impaciência. Um cádi obeso, ricamente trajado, que se achava a meu lado, resmungou, irritado, desabridamente:
- Isso não tem sentido! É disparate!

Beremiz ficou largo tempo cogitando. Depois, logo que sentiu coordenadas as idéias, respondeu:
- A única multiplicação famosa, com um único fator, citada pelos historiadores, e que todos os homens cultos conhecem, é a multiplicação dos pães, feita por Jesus, filho de Maria. Nessa multiplicação só figura um fator: o poder milagroso da vontade de Deus.

- Muito bem respondido - declarou o toledano. - Certíssimo! É a resposta mais perfeita e completa que já ouvi até hoje! Esse calculista resolveu esmagadoramente a questão por mim formulada. Iallah!

Alguns muçulmanos, inspirados pela intolerância, entreolharam-se, espantados. Houve sussurros. O califa clamou com energia:

- Silêncio! Veneremos Jesus, filho de Maria, cujo nome é citado dezenove vezes no Livro de Allah!

E, a seguir, dirigindo-se, com muita simpatia, ao quinto ulemá, ajuntou placidamente:

- Aguardamos a vossa pergunta, ó cheique Nascif Rahal! Sereis o quinto a argüir o calculista persa neste maravilhoso torneio de ciência e fantasia!

Ouvida essa ordem do rei, o quinto sábio ergueu-se como se fosse impulsionado por uma mola. Era um homem baixo, gordo, de cabeleira branca. Em vez de turbante, usava, no alto da cabeça, pequeno gorro verde. Era muito conhecido em Bagdá, pois ensinava na mesquita e esclarecia, para os estudiosos, os pontos obscuros dos badiths (1) do Profeta. Duas vezes eu já o avistara ao sair do hamã (2). A sua maneira de falar era nervosa, arrebatada e um tanto agressiva.

- O valor de um sábio - começou, com tétrica entonação - só pode ser medido pelo poder de sua imaginação. Números tomados ao acaso, fatos históricos recordados com precisão e oportunidade, podem ter interesse momentâneo, mas ao cabo de algum tempo caem no esquecimento. Qual de vós ainda se lembra do número de letras do Alcorão? Há números, nomes,  palavras e  obras que são, por sua própria natureza e finalidade, condenados a irremediável olvido. É inteiramente vão o saber que não serve ao sábio. Vou, portanto, certificar-me do valor e da capacidade do calculista persa, apresentando-lhe uma questão que não se relaciona com problema que possa exigir memória e habilidade de cálculo. Quero que o matemático Beremiz Samir nos conte uma lenda, ou uma simples fábula, na qual apareça uma divisão de 3 por 3, indicada, mas não efetuada, e outra de 3 por 2, indicada e efetuada sem deixar resto.

- Boa idéia - sussurrou o velhinho da túnica azul. - Boa idéia a desse ulemá da cabeleira branca! Vamos deixar esses cálculos, que ninguém entende, e ouvir uma lenda! Que maravilha! Vamos, afinal, ouvir uma lenda!

- Mas essa lenda terá contas, na certa - resmungou, baixinho, o haquim, levando a mão à boca. - No fim, o amigo vai ver: tudo acaba em cálculos, números e problemas! Pouca sorte, a nossa!

- Queira Allah que isso não aconteça! - proferiu o velhinho.
- Queira Allah, o Al-uahhad! (3)

Fiquei bastante apreensivo com a lembrança absurda do quinto ulemá da cabeleira branca. Como iria Beremiz inventar, naquele angustioso momento, uma lenda na qual aparecesse uma divisão indicada, mas não efetuada, e, mais ainda, uma divisão de 3 por 2 que não deixasse resto? Ora, quem divide 3 por 2 acha o resto 1!

Pus de lado as minhas inquietações e confiei na imaginação do amigo. Na imaginação do amigo e na bondade de Allah! Feito, por alguns instantes, fervoroso apelo à memória, o calculista iniciou a seguinte narrativa:   (próximo capítulo)
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Notas:
1- Veja glossário [ao fim da obra].
2- Casa de banhos.
3- O Liberal. Um dos 99 epítetos que os árabes atribuem a Deus.


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