Luz para a inteligência, Calor para a vontade

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Nome da Rosa - 20

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

TERCEIRO DIA: VÉSPERAS 
Onde se fala ainda com o Abade,
Guilherme tem algumas idéias mirabolantes
para decifrar o enigma do labirinto,
e o consegue de modo mais razoável.
Depois ele e Adso comem queijo em pasteizinhos.


"O máximo de confusão
conseguido com o máximo de ordem:
parece-me um cálculo sublime."

O Abade esperava-nos com ar sombrio e preocupado. Tinha na mão um papel.
 
- Recebi agora uma carta do Abade de Conques - disse. - Comunica-me o nome daquele a quem João confiou o comando dos soldados franceses, e o cuidado da incolumidade da delegação. Não é um homem de armas, não é um homem de corte, e será ao mesmo tempo um membro da delegação. 

- Raro conúbio de diferentes virtudes - disse Guilherme inquieto. - Quem será?  

- Bernardo Gui, ou Bernardo Guidoni, como queirais chamar-lhe. 

Guilherme explodiu com uma exclamação na sua própria língua, que eu não compreendi, nem o Abade, e talvez fosse melhor para todos, porque a palavra que Guilherme disse sibilava de modo obsceno. 

- A coisa não me agrada - acrescentou logo. - Bernardo foi durante anos 'martelo dos hereges' na região de Toulouse e escreveu uma Practica officii inquisitionis heretice pravitatis para uso de todos aqueles que tenham de perseguir e destruir valdenses, beguinos, santanários, fraticelli e dolcinianos. 

- Eu sei. Conheço o livro, admirável de doutrina. 

- Admirável de doutrina - admitiu Guilherme. - É dedicado a João, que em anos passados lhe confiou muitas missões na Flandres e aqui na Alta Itália. E, mesmo quando foi nomeado bispo da Galiza, nunca o viram na sua diocese e continuou a atividade inquisitorial. Agora julgava que se tivesse retirado no bispado de Lodève, mas, ao que parece, João repõe-no em ação e precisamente aqui na Itália Setentrional. Porquê precisamente Bernardo e porquê com a responsabilidade dos homens armados? 

- A resposta existe - disse o Abade - e confirma todos os temores que vos exprimia ontem. Sabeis bem, mesmo que não queirais admiti-lo comigo, que as posições sobre a pobreza de Cristo e da Igreja defendidas pelo capítulo de Perugia, embora com abundância de argumentos teológicos, são as mesmas que, de modo muito menos prudente e com um comportamento menos ortodoxo, defendem muitos movimentos heréticos. Não é preciso muito para demonstrar que as posições de Miguel de Cesena, feitas suas pelo imperador, são as mesmas de Ubertino e de Angelo Clareno. E até aqui as duas delegações estarão de acordo. Mas Gui poderia fazer mais, e tem habilidade para isso: procurará defender que as teses de Perugia são as mesmas dos fraticelli, ou dos pseudo-apóstolos. Estais de acordo? 

- Dizeis que as coisas estão assim ou que Bernardo Gui dirá que estão assim? 

- Digamos que digo que ele o dirá - concedeu prudentemente o Abade. 

- Concordo também eu. Mas isso estava previsto. Quero dizer, sabia-se que se chegaria a isso mesmo sem a presença de Bernardo. No máximo, Bernardo fá-lo-á com mais eficiência do que muitos curiais de pouco valor, e tratar-se-á de discutir contra ele com maior sutileza. 

- Sim - disse o Abade -, mas nesse caso estamos diante da questão suscitada ontem. Se não encontramos até amanhã o culpado de dois ou talvez três delitos, terei de conceder a Bernardo que exerça uma vigilância sobre as coisas da abadia. Não posso ocultar a um homem investido com o poder de Bernardo (e por nosso mútuo acordo, recordemo-lo) que aqui na abadia aconteceram, estão ainda a acontecer, fatos inexplicáveis. Senão, no momento em que ele o descobrisse, no momento em que (Deus não queira) acontecesse um novo fato misterioso, ele teria todo o direito de gritar que tinha havido traição... 

- É verdade - murmurou Guilherme preocupado. - Não há nada a fazer. É preciso estarmos atentos e vigiar Bernardo, que vigiará o misterioso assassino. Talvez seja um bem, porque Bernardo, ocupado a cuidar do assassino, estará menos disponível para intervir na discussão. 

- Bernardo ocupado em descobrir o assassino será um espinho no flanco da minha autoridade, recordai-vos disso. Esta obscura história impõe-me pela primeira vez a cedência de parte do meu poder dentro destas muralhas, e é um fato novo não só na história desta abadia mas da própria ordem clunicense. Faria fosse o que fosse para o evitar. E a primeira coisa a fazer seria negar hospitalidade às delegações. 

- Rogo ardentemente a Vossa Sublimidade que reflita sobre essa grave decisão - disse Guilherme. - Vós tendes nas mãos uma carta do imperador que vos convida calorosamente a... 

- Sei aquilo que me liga ao imperador - disse bruscamente o Abade -, e sabei-lo também vós. E portanto sabeis que infelizmente não posso retroceder. Mas tudo isto está muito feio. Onde está Berengário?, que lhe aconteceu?, que estais fazendo? 

- Sou apenas um frade que conduziu há muito tempo eficazes investigações inquisitoriais. Vós sabeis que não se encontra a verdade em dois dias. E, afinal, que poder me haveis concedido? Posso entrar na biblioteca? Posso fazer todas as perguntas que quiser, defendido sempre pela vossa autoridade? 

- Não vejo a relação entre os delitos e a biblioteca – disse carrancudo o Abade. 

- Adelmo era miniaturista, Venancio tradutor, Berengário ajudante-bibliotecário... - explicou pacientemente Guilherme. 

- Nesse sentido, os sessenta monges têm que ver com a biblioteca, tal como têm a ver com a igreja. Porque é que então não procurais na igreja? Frade Guilherme, vós estais conduzindo um inquérito por meu mandado e nos limites em que vos pedi para o conduzirdes. Quanto ao resto, dentro deste recinto, eu sou o único senhor depois de Deus, e por sua graça. E isto valerá também para Bernardo. Por outro lado - acrescentou em tom mais manso -, nem sequer é dito que Bernardo esteja aqui para o encontro. O abade de Conques escreve-me também que desce à Itália para prosseguir para o sul. Diz-me também que o papa pediu ao cardeal Bertrando do Poggetto para vir de Bolonha e se dirigir para aqui para tomar o comando da delegação pontifícia. Bernardo vem aqui talvez para se encontrar com o cardeal. 

- O que, numa perspectiva mais ampla, seria pior. Bertrando é o martelo dos hereges na Itália Central. Este encontro entre dois campeões da luta anti-herética pode anunciar uma ofensiva mais vasta no país, para envolver no fim todo o movimento franciscano... 

- E disto informaremos imediatamente o imperador - disse o Abade -, mas neste caso o perigo não seria imediato. Vigiaremos. Adeus. 

Guilherme ficou um momento silencioso enquanto o Abade se afastava. Depois disse-me: 

- Sobretudo, Adso, procuremos não nos deixar dominar pela pressa. As coisas não se resolvem rapidamente quando têm de se acumular tantas pequenas experiências individuais. Eu volto ao laboratório, porque sem as lentes não só não poderei ler o manuscrito mas também não convirá sequer que se volte esta noite à biblioteca. Tu vai informar-te se se sabe alguma coisa de Berengário. 

Naquele momento correu ao nosso encontro Nicolau de Morimondo, portador de péssimas notícias. Quando procurava lapidar melhor a melhor lente, aquela em que Guilherme depositava tantas esperanças, esta quebrara-se. E uma outra, que talvez pudesse substitui-la, tinha-se rachado quando tentava encaixá-la na forquilha. Nicolau mostrou-nos desconsoladamente, o céu.

Era já a hora de vésperas, e a obscuridade estava descendo. Naquele dia já não se poderia trabalhar. Mais um dia perdido, reconheceu amargamente Guilherme, reprimindo (como me confessou depois) a tentação de agarrar pelo pescoço o vidreiro desajeitado, que, aliás, já estava bastante humilhado. 

Deixamo-lo com a sua humilhação e fomos informar-nos acerca de Berengário. Naturalmente, ninguém o tinha encontrado. 

Sentíamo-nos num ponto morto. Passeamos um pouco pelo claustro, sem saber que fazer. Mas, pouco depois, vi que Guilherme estava absorto, com o olhar perdido no ar, como se não visse nada. Havia pouco tinha tirado do saio um raminho daquelas ervas que o tinha visto colher semanas antes, e estava-o mastigando como se dele retirasse uma espécie de calma excitação. De fato parecia ausente, mas de vez em quando os seus olhos iluminavam-se, como se no vazio da sua mente se tivesse acendido um idéia nova; depois recaía naquele seu singular e ativo hebetismo. De repente disse: 

- Decerto, poder-se-ia... 
- O quê? - perguntei. 

- Pensava num modo de nos orientarmos no labirinto. Não é simples de realizar, mas seria eficaz... No fundo, a saída é no torreão oriental, e isso sabemo-lo. Ora supõe que tínhamos uma máquina que nos diz de que lado está o setentrião. Que aconteceria? 

- Que naturalmente bastaria girar para a direita e dirigir-nos-íamos para oriente. Ou então bastaria ir em sentido contrário, e saberíamos que íamos para o torreão meridional. Mas, mesmo admitindo que existisse semelhante magia, o labirinto é precisamente um labirinto, e mal nos dirigíssemos para oriente encontraríamos uma parede que nos impediria de ir a direito e perderíamos de novo o caminho... - observei. 

- Sim, mas a máquina de que falo indicaria sempre a direção do setentrião, mesmo que nós tivéssemos mudado o caminho, e a cada momento dir-nos-ia para que lado voltar. 

- Seria maravilhoso. Mas seria preciso ter essa máquina, e ela deveria ser capaz de reconhecer setentrião de noite e em local fechado, sem poder ver nem o Sol nem as estrelas... E não creio que mesmo o vosso Bacon possuísse uma máquina semelhante! - ri. 

- E no entanto enganas-te - disse Guilherme -, porque uma máquina do gênero foi construída e alguns navegadores usaram-na. Ela não tem necessidade das estrelas nem do Sol, porque desfruta a força de uma pedra maravilhosa, igual àquela que vimos no hospital de Severino, aquela que atrai o ferro. E foi estudada por Bacon e por um mago picardo, Pedro de Maricourt, que descreveu os seus múltiplos usos. 

- E vós saberíeis construí-la? 

- Em si não seria difícil. A pedra pode ser usada para produzir muitas mirabilia, entre elas uma máquina que se move perpetuamente sem nenhuma força externa, mas o achado mais simples foi também descrito por um árabe, Baylek al Qabayaki. Pegas num vaso cheio de água e pões-lhe a flutuar uma rolha de cortiça em que enfiaste uma agulha de ferro. Depois passas a pedra magnética sobre a superfície da água, com um movimento circular, até que a agulha adquira as mesmas propriedades da pedra. E então a agulha, mas fá-lo-ia também a pedra se tivesse tido a possibilidade de se mover em torno de um eixo, coloca-se com a ponta na direção de setentrião, e se tu te moveres com o vaso, ele volta-se sempre para o lado da tramontana. É inútil que te diga que se tiveres marcado no bordo do vaso, em relação a transmontana, também as posições de austro, aquilão e assim sucessivamente, saberás sempre para que lado te hás-de mover na biblioteca para chegar ao torreão oriental. 

- Que coisa maravilhosa! - exclamei. - Mas porque é que a agulha aponta sempre para setentrião? A pedra atrai o ferro, eu vi, e imagino que uma imensa quantidade de ferro atraia a pedra. Mas então... então na direção da Estrela Polar, nos limites extremos do globo, existem grandes minas de ferro! 

- Alguém sugeriu de fato que é assim. Salvo que a agulha não aponta exatamente na direção da estrela náutica, mas para o ponto de encontro dos meridianos celestes. Sinal que, como foi dito, «hic lapis gerit in se similitudinem coeli», e os pólos do magnete recebem a sua inclinação dos pólos do céu e não dos da terra. O que é um belo exemplo de movimento impresso a distância e não por direta causalidade material: um problema de que se está ocupando o meu amigo João de Gianduno, quando o imperador não lhe pede que faça afundar Avinhão nas vísceras da terra... 

- Então vamos buscar a pedra de Severino, e um vaso, e água, e uma rolha de cortiça - disse excitado. 

- Devagar, devagar - disse Guilherme. - Não sei porquê, mas nunca vi uma máquina que, perfeita na descrição dos filósofos, seja perfeita depois no seu funcionamento mecânico. Enquanto a pôdoa de um camponês, que nenhum filósofo jamais descreveu, funciona como deve ser... Tenho receio de que girando pelo labirinto com uma candeia numa mão e um vaso cheio de água na outra... Espera, ocorre-me outra idéia. A máquina indicaria setentrião mesmo se estivéssemos fora do labirinto, não é? 

- Sim, mas nesse caso não nos serviria porque teríamos o Sol e as estrelas... - disse. 

- Eu sei, eu sei. Mas, se a máquina funciona tanto fora como dentro, porque não havia de ser assim também para a nossa cabeça? 

- A nossa cabeça? Decerto que ela funciona também fora, e, efetivamente, de fora sabemos muito bem qual é a orientação do Edifício! Mas é quando estamos dentro que já não compreendemos nada! 

- Exatamente. Mas esquece agora a máquina. Pensar na máquina induziu-me a pensar nas leis naturais e nas leis do nosso pensamento. Eis a questão: temos de encontrar de fora um modo de descrever o Edifício como é por dentro... 

- E como? 

- Deixa-me pensar. Não deve ser assim tão difícil... 

- E o método que mencionavas fazer? Não queríeis percorrer o labirinto fazendo sinais com um carvão? 

- Não – disse -, quanto mais penso nisso, menos me convence. Talvez consiga recordar bem a regra, ou talvez para andar num labirinto seja preciso ter uma boa Ariana que te espere à porta segurando a ponta de um fio. Mas não existem fios assim tão longos. E ainda que existissem, isso significaria (muitas vezes as tábulas dizem a verdade) que só se sai dum labirinto com uma ajuda externa. Onde as leis do exterior sejam iguais às do interior. Pronto, Adso, usaremos as ciências matemáticas. Só nas ciências matemáticas, como diz Averroes, se identificam as coisas conhecidas por nós com as conhecidas de modo absoluto

- Então vedes que admitis conhecimentos universais. 

- Os conhecimentos matemáticos são proposições construídas pelo nosso intelecto de modo a funcionarem sempre como verdadeiras, ou porque são inatas ou porque a matemática foi inventada antes das outras ciências. E a biblioteca foi construída por uma mente humana que pensava de modo matemático, porque sem matemática não se fazem labirintos. E, portanto, trata-se de confrontar as nossas proposições matemáticas com as proposições do construtor, e deste confronto pode surgir ciência, porque é ciência de termos sobre termos. E, em todo o caso, pára de me arrastar para discussões metafísicas. Que bicho te mordeu hoje? Melhor, tu que tens bons olhos pegar num pergaminho, numa tabuinha, alguma coisa em que fazer sinais, e um estilete... bem, tens tudo, ótimo, Adso. Vamos dar uma volta em torno do Edifício, enquanto temos ainda um pouco de luz. 

Andamos portanto longamente em torno do Edifício. Isto é, examinamos de longe os torreões oriental meridional e ocidental com as paredes que os ligavam. Porque, quanto ao resto, dava para o despenhadeiro, mas, por razões de simetria, não devia ser diferente daquilo que víamos. 

E aquilo que víamos, observou Guilherme enquanto me fazia tomar notas precisas na minha tabuinha, era que cada muro tinha duas janelas, e cada torreão cinco. 

- Ora raciocina - disse-me o meu mestre. - Cada uma das salas que vimos tinha uma janela...

 - Menos as de sete lados - disse.
 
- E é natural, são as do centro de cada torre.
 
- E menos algumas que encontramos sem janelas e não eram heptagonais.
 
- Esquece-as. Primeiro encontremos a regra, depois procuremos justificar as exceções. Portanto, teremos no exterior cinco salas por cada torre e duas salas por cada muro, cada uma com uma janela. Mas se de uma sala com janela se prossegue para o interior do edifício encontra-se uma outra sala com janela. Sinal de que se trata das janelas interiores. Ora que forma tem o poço interior, tal como se vê na cozinha e no scriptorium?

- Octogonal - disse. 

- Ótimo. E de cada lado do octógono, no scriptorium, abrem-se duas janelas. Isto quer dizer que por cada lado do octógono há duas salas interiores? Exato?

- Sim, mas e as salas sem janela? 

- São oito ao todo. De fato, a sala interna de cada torreão, de sete lados, tem cinco paredes que dão para cada uma das cinco salas de cada torreão. Com que confinam as outras duas paredes? Não com uma sala situada ao longo das paredes exteriores, porque haveria janelas, nem com uma disposta ao longo do octógono, pelas mesmas razões, e porque seriam então salas exageradamente compridas. Tenta efetivamente traçar um desenho de como poderá aparecer a biblioteca vista do alto. Vês que correspondendo a cada torre deve haver duas salas que confinam com a sala heptagonal e dão para duas salas que confinam com o poço octogonal interior.
 
Tentei traçar o desenho que o meu mestre me sugeria e lancei um grito de triunfo.
 
- Mas então sabemos tudo! Deixai-me contar... A biblioteca tem cinqüenta e seis salas, das quais quatro heptagonais e cinqüenta e duas mais ou menos quadradas, e, destas, quatro não têm janelas, enquanto vinte e oito dão para o exterior e dezesseis para o interior! 

- E os quatro torreões têm cada um cinco salas de quatro lados e uma de sete... A biblioteca está construída segundo uma harmonia celeste a que se podem atribuir vários e miríficos significados...

- Esplêndida descoberta – disse -, mas então porque é tão difícil orientarmo-nos nela?

- Porque aquilo que não corresponde a nenhuma lei matemática é a disposição das passagens. Algumas salas permitem a passagem a muitas outras, algumas outras a uma só, e há que perguntar se não haverá salas que não permitem a passagem a nenhuma. Se considerares este elemento, mais a falta de luz e a ausência de indício fornecido pela posição do Sol (e acrescenta-lhes as visões e os espelhos), compreenderás como o labirinto é capaz de confundir quem quer que o percorra, já agitado por um sentimento de culpa. Por outro lado, pensa como nós estávamos desesperados ontem a noite quando não conseguíamos encontrar o caminho. O máximo de confusão conseguido com o máximo de ordem: parece-me um cálculo sublime. Os construtores da biblioteca eram grandes mestres.

- Como faremos então para nos orientarmos? 

- No ponto em que estamos não é difícil. Com o mapa que tu traçaste, e que bem ou mal deve corresponder ao traçado da biblioteca, logo que estejamos na primeira sala heptagonal, mover-nos-emos de modo a encontrar imediatamente uma das duas salas cegas. Depois voltando sempre à direita, depois de três ou quatro salas, deveremos estar de novo num torreão, que não poderá ser senão o torreão setentrional, até voltar a uma outra sala cega, que à esquerda confinará com a sala heptagonal e à direita deverá permitir-nos encontrar um trajeto análogo àquele que te acabo de dizer, até chegar ao torreão ocidental.

- Sim, se todas as salas dessem para todas as salas... 

- De fato. E para isso precisamos do teu mapa, para marcar as paredes inteiras, de modo a saber que desvios vamos fazendo. Mas não será difícil. 

- Mas temos a certeza de que funcionará? - perguntei perplexo, porque me parecia tudo demasiado simples. 

- Funcionará - respondeu Guilherme. - «Omnes enim causae effectuum naturalium dantur per lineas, ángulos et figuras. Aliter enim impossibile est scire propter quid in illis.» - citou. - São palavras de um dos grandes mestres de Oxford. Mas infelizmente não sabemos ainda tudo. Aprendemos a maneira de não nos perdermos. Agora trata-se de saber se há uma regra que governa a distribuição dos livros nas salas. E os versículos do Apocalipse dizem-nos muito pouco, até porque muitos se repetem igualmente em salas diferentes... 

- E no entanto o livro do apóstolo permitiria encontrar bem mais de cinqüenta e seis versículos! 

- Sem dúvida. Portanto, só alguns versículos são bons. Estranho. Como se tivessem tido menos de cinqüenta, trinta, vinte... Oh, pela barba de Merlim! 

- De quem? 

- Não tem importância, é... um mago da minha terra... Usaram tantos versículos quantas as letras do alfabeto! Claro que é assim! O texto dos versículos não conta, contam as letras iniciais. Cada sala é assinalada por uma letra do alfabeto, e todas juntas compõem um texto que temos de descobrir! 

- Como um carme figurado, em forma de cruz ou de peixe!

- Mais ou menos, e provavelmente no tempo em que a biblioteca foi constituída este tipo de carmes estava muito em voga. 

- Mas de onde se inicia o texto? 

- Duma inscrição maior que as outras, da sala heptagonal do torreão da entrada... ou então... mas é claro, das frases a vermelho! 

- Mas são tantas! 

- E portanto haverá muitos textos, ou muitas palavras. Agora tu vais copiar melhor e em ponto maior o teu mapa, depois, ao visitar a biblioteca, não só marcarás com o teu estilete, e ao de leve, as salas por onde passarmos, e a posição das portas e das paredes (não falando das janelas), mas também a letra inicial do versículo que aí aparece, e, de qualquer modo, como um bom miniaturista, farás maiores as letras a vermelho.

- Mas como é que - disse admirado - fostes capaz de resolver o mistério da biblioteca olhando-a de fora e não o resolvestes quando estáveis lá dentro?
 
- Assim Deus conhece o mundo, porque o concebeu na sua mente, como do exterior, antes que fosse criado, enquanto nós não lhe conhecemos a regra, porque vivemos dentro dele encontrando-o já feito.

- Assim podem conhecer-se as coisas observando-as do exterior!

- As coisas da arte, porque voltamos a percorrer na nossa mente as operações do artífice. Não as coisas da natureza, porque não são obra da nossa mente.
 
- Mas para a biblioteca isso basta-nos, não é verdade? 

- Sim - disse Guilherme. - Mas só para a biblioteca. Agora vamos descansar. Eu não posso fazer nada até amanhã de manhã quando tiver... espero... as minhas lentes. Mais vale dormir e levantarmo-nos cedo. Procurarei refletir.

- E a ceia? 

- Ah, sim, a ceia. Passou a hora entretanto. Os monges já estão em completas. Mas talvez a cozinha ainda esteja aberta. Vai buscar alguma coisa. 

- Roubar?  

- Pedir. A Salvador, que agora é teu amigo.  

- Mas roubará ele.  

- És por acaso o guarda do teu irmão? - perguntou Guilherme com as palavras de Caim. 
Mas apercebi-me que gracejava e queria dizer que Deus é grande e misericordioso. Por isso pus-me à procura de Salvador, e encontrei-o perto das cavalariças.

- Belo - disse apontando para Brunello, e como para puxar conversa. - Gostava de o montar. 

- No se puede. Abbonis est. Mas não é preciso um bom cavalo para correr muito. - Indicou-me um cavalo robusto mas desajeitado - Mesmo aquele sufficit... Vide illuc, tertius equi... 

Queria indicar-me o terceiro cavalo. Ri-me do seu engraçadíssimo latim. 

- E que farás com aquele? - perguntei-lhe. 

E contou-me uma história estranha. Disse que se podia tornar qualquer cavalo, mesmo o animal mais velho e fraco, tão veloz como Brunello. É preciso misturar na sua aveia uma erva que se chama satirião, bem moída, e depois untar-lhe as coxas com gordura de veado. Depois sobe-se para o cavalo e antes de o esporear volta-se-lhe o focinho para levante e pronunciam-se- lhe ao ouvido, três vezes em voz baixa, as palavras «Gaspar, Melchior, Melquisardo». O cavalo partirá à desfilada e fará numa hora o caminho que Brunello faria em oito horas. E se se lhe tivesse suspenso ao pescoço os dentes de um lobo que o próprio cavalo, correndo, tivesse morto, o animal não sentiria sequer o cansaço.

Perguntei-lhe se alguma vez tinha experimentado. Disse-me, aproximando-se circunspecto e sussurrando-me ao ouvido, com o seu hálito deveras desagradável, que era muito difícil, porque o satirião agora só era cultivado pelos bispos e pelos cavaleiros seus amigos, que se serviam dele para aumentarem o seu poder.

Pus fim ao seu discurso e disse-lhe que naquela noite o meu mestre queria ler uns livros na cela e desejava comer lá em cima. 

- É cá comigo – disse -, faço um pastelzinho de queijo. 

- Como é? 

- Facilis. Pegas no queijo que não seja demasiado velho, nem demasiado salgado, e cortado em fatias, em bocados quadrados ou sicut te agradar. Et postea porás um pouco de manteiga, ou melhor, de banha fresca à rechauffer sobre a brasia. E dentro vamos a pôr duas fatias de queijo, e quando te parecer que está quente, zucharum et canela supra positurum du bis. E manda-o imediatamente in tabula, que se que comido quente. 

- Vai pelo pastelzinho de queijo - disse-lhe. 

E ele desapareceu em direção às cozinhas, dizendo-me que o esperasse. Chegou meia hora depois com um prato coberto com um pano. O cheiro era bom. 

- Toma - disse-me, e estendeu-me também uma grande candeia cheia de azeite. 

- Para fazer o quê? - perguntei. 

- Sais pas, moi - disse com ar manhoso. - Fileisch o teu magiste quer ir ao lugar escuro esta noite. 

Salvador sabia evidentemente mais do que eu suspeitava. Não investiguei o quê, e levei a comida a Guilherme. Comemos, e eu retirei-me para minha cela. Ou, pelo menos, fingi. Queria ainda encontrar Ubertino, e às escondidas entrei na Igreja.


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