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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Estrutura e formação das palavras (Pasquale & Ulisses)

(Continuação da obra "Gramática da Língua Portuguesa", de Pasquale & Ulisses)

PARTE 2 - MORFOLOGIA

CAPÍTULO 5
ESTRUTURA E FORMAÇÃO DAS PALAVRAS 
(1ª parte do cap.)



CONCEITOS BÁSICOS

Sabemos que a Morfologia estuda a estrutura, a formação, a classificação e as flexões das palavras. Neste capítulo, iniciamos nossos estudos de Morfologia: vamos investigar a estrutura e os processos de formação das palavras de nossa língua.

Se pensarmos em palavras que mantêm alguma semelhança com o substantivo governo, poderemos encontrar o seguinte grupo:
governo governa desgoverno desgovernado governadores ingovernável ingovernabilidade

Todas essas palavras têm pelo menos um elemento comum: a forma goven-.

Além disso, em todas elas há elementos destacáveis, responsáveis pelo acréscimo de algum detalhe de significação. Compare, por exemplo, governo e desgoverno: o elemento inicial des- foi acrescentado à forma governo, trazendo o significado de "falta, ausência, carência".

Continuando esse trabalho de comparação entre as diversas palavras que selecionamos, podemos depreender a existência de diversos elementos formadores:
govern-o goven-a des-govern-o des-govern-a-do govern-a-dor-es in-govern-á-vel in-govern-a-bil-i-dade

Cada um desses elementos formadores é capaz de fornecer alguma noção significativa à palavra que integra. Além disso, nenhum deles pode sofrer nova divisão. Estamos diante de unidades de significação mínimas, ou seja, elementos significativos indecomponíveis, a que damos o nome de morfemas.

2. CLASSIFICAÇÃO DOS MORFEMAS

É o morfema govern-, comum a todas as palavras destacadas no tópico anterior, que faz com que as consideremos palavras de uma mesma família de significação.

Ao morfema comum de uma família de palavras chamamos radical; às palavras que pertencem a uma mesma família, chamamos cognatos.

O radical é a parte da palavra responsável pela sua significação principal.

Já sabemos que o morfema des-, que surge em desgoverno, é capaz de acrescentar ao significado da palavra governo a idéia de "negação, falta, carência". Dessa forma, o acréscimo do morfema des- cria uma nova palavra a partir de governo. A nova palavra formada tem o sentido de "falta, ausência de governo".

De maneira semelhante, o acréscimo do morfema -dor à forma governa- criou a palavra governador, que significa "aquele que governa".

Observe que des- e -dor são morfemas capazes de mudar o sentido do radical a que são anexados. Esses morfemas recebem o nome de afixos.

Quando são colocados antes do radical, como acontece com des-, os afixos recebem o nome de prefixos. Quando, como -dor, surgem depois do radical, os afixos são chamados de sufixos.

Prefixos e sufixos são capazes de introduzir modificações de significado no radical a que são acrescentados. São também, em muitos casos, capazes de operar mudança de classe gramatical da palavra a que são acrescentados.

Nas palavras que estamos analisando, merecem destaque alguns afixos:
* prefixos:
des-, em desgoverno, desgovernado
in-, em ingovernável, ingovernabilidade
* sufixos:
-vel,  em ingovernável
-dor, em governadores
-dade, em ingovernabilidade

(Optamos pelo uso do termo radical para designar o morfema que concentra a significação principal da palavra e que pode ser depreendido por meio de simples comparações entre palavras de uma mesma família. Intencionalmente, não empregamos o termo raiz, que está ligado à origem histórica das palavras. Para identificar propriamente a raiz de uma família de vocábulos é necessário um conhecimento específico de etimologia.)

Se você agora pluralizar a palavra governo, encontrará a forma governos. Isso nos mostra que o morfema -s, acrescentado ao final da forma governo, é capaz de indicar a flexão de número desse substantivo.

Tomando o verbo governar e conjugando algumas de suas formas, você irá perceber modificações na parte final dessa palavra:
governava, governavas, governava, governávamos, governáveis, governavam.
Essas modificações ocorrem à medida que o verbo vai sendo flexionado em número (singular/plural) e pessoa (primeira, segunda ou terceira). Também ocorrem se modificarmos o tempo e o modo do verbo (governava/governara /governasse, por exemplo).

Podemos concluir, assim, que existem morfemas que indicam as flexões das palavras [sem alterar-lhes a essência significativa, como no caso dos afixos, mas apenas caracterizações acidentais]. Esses morfemas sempre surgem na parte final das palavras variáveis e recebem o nome de desinências.

Há desinências nominais (indicam flexões nominais, ou seja, o gênero e o número) e desinências verbais (indicam flexões do verbo, como número, pessoa, tempo e modo).

Observe que entre o radical govern- e as desinências verbais surge sempre o morfema - a-. Esse morfema que liga o radical às desinências é chamado vogal temática. Sua função é justamente a de ligar-se ao radical, constituindo o chamado tema.

É ao tema (radical + vogal temática) que se acrescentam as desinências. Tanto os verbos como os nomes apresentam vogais temáticas.

Há ainda um último tipo de morfema que podemos encontrar: as vogais ou consoantes de ligação. São morfemas que surgem por motivos eufônicos, ou seja, para facilitar ou mesmo possibilitar a leitura de uma determinada palavra.

Temos um exemplo de vogal de ligação na palavra ingovernabilidade: o -i- entre os sufixos -bil- e -dade facilita a emissão vocal da palavra. Outros exemplos de vogais e consoantes de ligação podem ser vistos em palavras como gasômetro, alvinegro, tecnocracia; paulada, cafeteira, chaleira, tricotar.

Classificação dos morfemas (Resumo):

a) radical -  morfema comum às palavras que pertencem a uma mesma família de significado. Nele se concentra a significação básica dessas palavras;

b) afixos - morfemas capazes de alterar a significação básica de um radical. Podem também operar mudanças de classe gramatical. Subdividem-se em prefixos e sufixos;

c) desinências - morfemas que indicam as flexões das palavras variáveis. Subdividem-se em desinências nominais (indicam as flexões de gênero e número dos nomes) e desinências verbais (indicam as flexões de tempo/modo e número/pessoa dos verbos);

d) vogal temática - morfema que serve de elemento de ligação entre o radical e as desinências. O conjunto radical + vogal temática recebe o nome de tema;

e) vogal ou consoante de ligação - morfema de origem geralmente eufônica, capaz de facilitar a emissão vocal de determinadas palavras.

ESTUDOS DOS MORFEMAS LIGADOS ÀS FLEXÕES DAS PALAVRAS

VOGAIS TEMÁTICAS

A vogal temática é um morfema que se junta ao radical a fim de formar uma base à qual se ligam as desinências. Essa base é chamada tema.

Além de atuar como elemento de ligação entre o radical e as desinências, a vogal temática também marca grupos de nomes e de verbos. Isso significa que existem vogais temáticas nominais e vogais temáticas verbais.

a) vogais temáticas nominais: são -a, -e e -o, quando átonas finais, como em mesa, artista, busca, perda, escola; triste, base, combate, destaque, sorte; livro, tribo, amparo, auxílio, resumo.

Nesses casos, não poderíamos pensar que essas terminações são desinências indicadoras de gênero, pois livro, escola e sorte, por exemplo, não sofrem flexão de gênero.

É a essas vogais temáticas que se liga a desinência indicadora de plural: carro-s, mesa-s, dente-s.

Os nomes terminados em vogais tônicas (sofá, café, caqui, mandacaru e cipó, por exemplo) não apresentam vogal temática; podemos considerar que os terminados em consoante (feliz, roedor, por exemplo) têm o mesmo comportamento.

b) vogais temáticas verbais: são -a, -e e -i, criando três grupos de verbos a que se dá o nome de conjugações.

Assim, os verbos cuja vogal temática é -a pertencem à primeira conjugação; aqueles cuja vogal temática é -e pertencem à segunda conjugação e os que têm vogal temática -i pertencem à terceira conjugação.

Podemos perceber claramente a vogal temática atuando entre o radical e as desinências nos seguintes exemplos:
primeira conjugação: goven-a-va, atac-a-va, realiz-a-sse;
segunda conjugação: estabelec-e-sse, cr-e-ra, mex-e-rá;
terceira conjugação: defin-i-ra, imped-i-sse, ag-i-mos.

DESINÊNCIA

As desinências são morfemas que indicam as flexões de nomes e verbos, dividindo-se, por isso, em desinências nominais e verbais.

Note que as desinências indicam flexões de uma mesma palavra, enquanto os afixos são usados para formar novas palavras.

As flexões ocorrem obrigatoriamente quando precisamos inserir uma palavra numa sequência ou frase:
O ministro não foi convidado para a reunião.
Os ministros não foram convidados para a reunião.
A ministra não foi convidada para a reunião.
As ministras não foram convidadas para a reunião.

As flexões sofridas pelas palavras nas frases acima são obrigatórias para o estabelecimento da concordância. Já o uso de afixos não se deve a uma obrigatoriedade, mas sim a uma opção:
O ex-ministro não foi convidado para a reunião.
A ministra não foi convidada para as reuniõezinhas.

Não há nenhum mecanismo linguístico que torne obrigatório o uso do sufixo - (z)inh ou do prefixo ex- nessas duas frases acima.

Além disso, reunião-zinhas (plural "reuniõezinhas") e ex-ministro são duas palavras novas formadas a partir de ministro e reunião, respectivamente; já ministros, ministra e ministras são consideradas formas de uma mesma palavra, ministro.

a) desinências nominais - indicam o gênero e o número dos nomes. Para a indicação de gênero, o português costuma opor as desinências -o / -a: garoto/garota; menino/menina.

Você já sabe como distinguir essas desinências das vogais temáticas nominais: lembre-se de que, enquanto as desinências são comutáveis (podem ser trocadas uma pela outra), as vogais temáticas não são (quem pensaria seriamente em formar "livra" ou "carra" para indicar formas "femininas"?).

Para a indicação de número, costuma-se utilizar o morfema -s, que indica o plural em oposição à ausência de morfema que indica o singular: garoto/garotos; garota/garotas; menino/meninos; menina/meninas.

No caso dos nomes terminados em -r e -z, a desinência de plural assume a forma -es: mar/mares; revólver/revólveres; cruz/cruzes; juiz/juízes.

b) desinências verbais - em nossa língua, as desinências verbais pertencem a dois tipos distintos. Há aquelas que indicam o modo e o tempo verbais (desinências modo- temporais) e aquelas que indicam o número e a pessoa verbais (desinências número- pessoais).
Observe, nas formas verbais abaixo, algumas dessas desinências:
estud-á-va-mos
estud-: radical
-á-: vogal temática
-va-: desinência modo-temporal (caracteriza o pretérito imperfeito do indicativo)
-mos: desinência número-pessoal (caracteriza a primeira pessoa do plural)

estud-á-sse-is
estud-: radical
-á-: vogal temática
-sse-: desinência modo-temporal (caracteriza o pretérito imperfeito do subjuntivo)
-is: desinência número-pessoal (caracteriza a segunda pessoa do plural)

estud-a-ria-m
-ria-: desinência modo-temporal (caracteriza o futuro do pretérito do indicativo)
-m: desinência número-pessoal (caracteriza a terceira pessoa do plural)

Morfemas ligados aos mecanismos de flexão (Resumo)

Vogais temáticas - atuam como elemento de ligação entre o radical e as desinências.
a) nominais - dividem os nomes em três classes (a, e, o);
b) verbais - dividem os verbos em três conjugações (a, e, i).

Desinências - indicam as flexões das palavras variáveis da língua.
a) nominais - indicam o gênero (masculino / feminino) e o número (singular / plural) dos nomes, pronomes e numerais variáveis;
b) verbais - indicam as flexões verbais, podendo ser modo-temporais ou número-pessoais.


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