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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - início



NÃO CONTEM COM O FIM DO LIVRO


- UMBERTO ECO & JEAN-CLAUDE CARRIÈRE -


(Tradução de André Telles)


SUMÁRIO DA OBRA

- O livro não morrerá

- Nada mais efêmero do que os suportes duráveis

- As galinhas levaram um século para aprender a não atravessar a rua

- Citar os nomes de todos os participantes da batalha de Waterloo

- A revanche dos filtrados

- Todo livro publicado hoje é um pós-incunábulo

- Livros que fazem de tudo para cair nas nossas mãos

- Nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou adversários

- Nada detém a vaidade

- Elogio da burrice

- A Internet ou a impossibilidade da damnatio memoriae

- A censura pelo fogo

- Todos os livros que não lemos

- Livro no altar e livros no "Inferno"

- O que fazer de sua biblioteca depois da sua morte?

 * * *

PREFÁCIO

"Isso matará aquilo. O livro matará o edifício." Hugo coloca sua célebre fórmula na boca de Claude Frollo, arquidiácono de Notre-Dame de Paris. Provavelmente a arquitetura não morrerá, mas perderá sua função de bandeira de uma cultura que se transforma. "Quando a comparamos ao pensamento que se faz livro, e para o qual basta um pouco de papel, um pouco de tinta e uma pena, como se espantar com o fato de a inteligência ter trocado a arquitetura pela tipografia?"

Nossas "Bíblias de pedra" não desapareceram, mas, estranhamente, no fim da Idade Média, o conjunto da produção dos textos manuscritos, depois impressos, esse "formigueiro das inteligências", essa "colméia onde todas as imaginações, essas abelhas douradas, aportam com seu mel", desqualificou-as. Igualmente, mesmo se o livro eletrônico terminar por se impor em detrimento do livro impresso, há poucas razões para que seja capaz de tirá-lo de nossas casas e de nossos hábitos.

Portanto, o e-book não matará o livro — como Gutenberg e sua genial invenção não suprimiram de um dia para o outro o uso dos códices, nem este, o comércio dos rolos de papiros ou volumina. Os usos e costumes coexistem e nada nos apetece mais do que alargar o leque dos possíveis. O filme matou o quadro? A televisão matou o cinema? Boas-vindas então às pranchetas e periféricos de leitura que nos dão acesso, através de uma única tela, à biblioteca universal doravante digitalizada.

A questão está antes em saber que mudança a leitura na tela introduzirá no que até hoje abordamos virando as páginas dos livros. O que ganharemos com esses novos livrinhos brancos, e, principalmente, o que perderemos? Hábitos ancestrais, talvez. Certa sacralidade com que o livro foi aureolado no contexto de uma civilização que o instalara no altar. Uma intimidade especial entre o autor e seu leitor que a noção de hipertextualidade irá necessariamente constranger. A ideia de "cercado" que o livro simbolizava e, justamente por isso, evidentemente, algumas práticas de leitura.

"Ao romper o antigo laço", afirmou Roger Chartier durante uma aula inaugural no Collège de France, "a revolução digital obriga a uma radical revisão dos gestos e noções que associamos ao escrito". Profundas revoluções provavelmente, mas das quais voltaremos a emergir.

A finalidade das conversas entre Jean-Claude Carrière e Umberto Eco, transpostas neste livro, não era estatuir sobre a natureza das transformações e perturbações talvez anunciadas pela adoção em grande escala (ou não) do livro eletrônico. Suas experiências de bibliófilos — colecionadores de livros antigos e raros, pesquisadores e farejadores de incunábulos — os faz antes aqui considerar o livro, como a roda, uma espécie de perfeição insuperável na ordem do imaginário. Quando a civilização inventa a roda, vê-se condenada a se repetir ad nauseam.

Quer escolhamos fazer remontar a invenção do livro aos primeiros códices (aproximadamente no século II de nossa era) ou aos rolos de papiros mais antigos, achamo-nos diante de uma ferramenta que, independentemente das mutações que sofreu, mostrou-se de uma extraordinária fidelidade a si mesma. O livro aparece aqui como uma espécie de "roda do saber e do imaginário" que as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não deterão.

Uma vez feita esta consoladora observação, o debate real pode ter início. O livro está prestes a fazer sua revolução tecnológica. Mas o que é um livro? Quais são os livros que, nas nossas estantes, nas das bibliotecas do mundo inteiro, encerram os conhecimentos e devaneios que a humanidade acumula desde que se viu em condições de se escrever? Que imagem temos dessa odisséia do espírito através deles? Que espelhos eles nos estendem?

Não considerando senão a nata dessa produção, as obras-primas em torno das quais se estabelecem os consensos culturais, estaremos sendo fiéis à sua função característica que é simplesmente guardar em lugar seguro o que o esquecimento ameaça sempre destruir? Ou devemos aceitar uma imagem menos lisonjeadora de nós mesmos considerando a extraordinária inteligência que caracteriza também essa profusão de escritos? O livro é necessariamente o símbolo dos progressos com que tentamos fazer esquecer as trevas das quais continuamos a acreditar que agora saímos? Do que nos falam exatamente os livros?

A essas preocupações sobre a natureza do testemunho que nossas bibliotecas dão de um conhecimento mais sincero de nós mesmos, vêm acrescentar-se interrogações sobre o que subsistiu até nós. Os livros são o reflexo fiel do que o gênio humano, mais ou menos inspirado, produziu? Mal se coloca, a questão desorienta. Como não nos lembrar imediatamente daquelas fornalhas onde tantos livros continuam a se consumir? Como se os livros e a liberdade de expressão de que eles logo vieram a se tornar símbolo tivessem engendrado inúmeros censores preocupados em controlar seu uso e sua distribuição, e às vezes confiscá-los para sempre.

E, quando não foi o caso de destruição organizada, foram bibliotecas inteiras que o fogo, por simples paixão de queimar e reduzir a cinzas, levou ao silêncio — as fogueiras vindo como que alimentar-se umas às outras até consolidar a ideia de que essa incontrolável profusão legitimava uma forma de regulação.

Logo, a história da produção dos livros é indissociável da de um verdadeiro bibliocausto, sempre recomeçado. Censura, ignorância, imbecilidade, inquisição, auto de fé, negligência, distração, incêndio terão assim constituído outros tantos escolhos, às vezes foices, no caminho dos livros. Todos os esforços de arquivamento e conservação nunca impediram que divinas comédias permanecessem para sempre desconhecidas.

Dessas considerações sobre o livro e sobre os livros que, a despeito de todos esses impulsos destruidores, sobreviveram, procedem duas idéias em torno das quais essas conversas intermitentes, travadas em Paris na casa de Jean-Claude Carrière e em Monte Cerignone, na casa de Umberto Eco, se organizaram. O que chamamos de cultura é na realidade um longo processo de seleção e filtragem. Coleções inteiras de livros, pinturas, filmes, histórias em quadrinhos, objetos de arte foram assim açambarcadas pela mão do inquisidor, ou desapareceram nas chamas, ou se perderam por simples negligência.

Era a melhor parte do imenso legado dos séculos precedentes? Era a pior? Nesse domínio da expressão criadora, recolhemos as pepitas ou a lama?

Ainda lemos Eurípides, Sófocles, Ésquilo, que vemos como os três grandes poetas trágicos gregos. Mas quando Aristóteles, na Poética, sua obra dedicada à tragédia, cita os nomes de seus mais ilustres representantes, não menciona nenhum desses três nomes. O que perdemos era melhor, mais representativo do teatro grego do que o que conservamos? Quem agora irá nos tirar essa dúvida?

Seria um consolo pensar que em meio aos rolos de papiros desaparecidos no incêndio da biblioteca de Alexandria, e de todas as bibliotecas que se evolaram na fumaça, adormeciam eventuais porcarias, obras-primas do mau gosto e da estupidez?

Diante dos tesouros de nulidade que nossas bibliotecas abrigam, saberemos relativizar essas imensas perdas do passado, esses assassinatos voluntários ou não de nossa memória, para nos satisfazer com o que conservamos e que nossas sociedades, equipadas com todas as tecnologias do mundo, ainda procuram colocar em lugar seguro sem o conseguir duradouramente?

Seja qual for nossa insistência em fazer o passado falar, nunca poderemos encontrar em nossas bibliotecas, nossos museus ou nossas cinematecas senão as obras que o tempo não fez, ou não pôde fazer, desaparecer. Mais que nunca, compreendemos que a cultura é muito precisamente o que resta quando tudo foi esquecido.

Mas o mais saboroso dessas conversas talvez seja essa homenagem prestada à burrice, que vela, silenciosa, sobre o imenso e obstinado labor da humanidade e nunca pede desculpas por ser eventualmente peremptória. É precisamente nesse ponto que o encontro entre o semiólogo e o roteirista, colecionadores e aficionados de livros, ganha todo o seu sentido. O primeiro reuniu uma coleção de livros raríssimos sobre a grandeza e o erro humano, na medida em que, para ele, eles condicionam toda tentativa de fundar uma teoria da verdade.

"O ser humano é uma criatura literalmente extraordinária", explica Umberto Eco. "Descobriu o fogo, construiu cidades, escreveu magníficos poemas, deu interpretações do mundo, inventou imagens mitológicas etc. Porém, ao mesmo tempo, não cessou de guerrear seus semelhantes, de se enganar, de destruir seu meio ambiente etc. O equilíbrio entre a alta virtude intelectual e a baixa idiotice dá um resultado mais ou menos neutro. Logo, decidindo falar da burrice, de certa forma prestamos uma homenagem a essa criatura que é um tanto genial e outro tanto imbecil."

Se os livros devem ser o reflexo exato das aspirações e aptidões de uma humanidade em busca de existir mais e melhor, então eles devem necessariamente traduzir esse excesso de honra e essa indignidade. Assim, tampouco esperamos nos livrar desses livros mentirosos, fraudulentos, até mesmo, do nosso 'infalível' ponto de vista, completamente estúpidos. Eles nos seguirão como sombras fiéis até o fim dos nossos tempos e falarão sem mentir do que fomos e, mais que isso, do que somos. Isto é, exploradores apaixonados e obstinados mas, a bem da verdade, sem escrúpulo algum. O erro é humano na medida em que pertence apenas àqueles que procuram e se enganam.

Para cada equação resolvida, cada hipótese verificada, cada teste renovado, cada visão partilhada, quantos caminhos que não levam a lugar nenhum? Assim, os livros iluminam o sonho de uma humanidade finalmente desvencilhada de suas fatigantes torpezas, ao mesmo tempo que o deslustram e escurecem.

Roteirista de renome, homem de teatro, ensaísta, Jean-Claude Carrière não demonstra menos simpatia por esse monumento desconhecido e, segundo ele, não muito visitado, que é a burrice, à qual dedicou um livro constantemente reeditado: "Quando realizamos, nos anos 1960, com Guy Bechtel, nosso Dicionário da Burrice, que teve diversas edições, ruminamos: Por que só dar valor à história da inteligência, das obras-primas, dos grandes monumentos do espírito? A burrice, cara a Flaubert, nos parecia infinitamente mais difundida, o que é óbvio, mas também mais fecunda, mais reveladora e, num certo sentido, mais correta."

Ora, essa atenção dada à burrice pusera-o na situação de compreender perfeitamente os esforços de Eco no sentido de reunir os testemunhos mais bombásticos sobre essa ardente e cega paixão pelo equívoco. Provavelmente era possível detectar entre o erro e a burrice uma espécie de parentesco, ou até de secreta cumplicidade, que nada, através dos séculos, parecera em condições de desbaratar. Mas o mais espantoso para nós: existia entre as interrogações do autor do Dicionário da Burrice e as do autor de La guerre du faux [A guerra da fraude] afinidades eletivas e afetivas que essas conversas revelaram amplamente.

Observadores e cronistas ressabiados desses acidentes de percurso, convencidos de que podemos captar alguma coisa da humana aventura tanto por seus brilhos como por suas frustrações, Jean-Claude Carrière e Umberto Eco entregam-se aqui a uma improvisação flamejante em torno da memória, a partir dos fiascos, das lacunas, dos esquecimentos e das perdas irremediáveis que, assim como nossas obras-primas, a constituem. Divertem-se mostrando como o livro, a despeito dos estragos operados pelas filtragens, terminou por atravessar todas as malhas cerradas, para o melhor e às vezes para o pior.

Diante do desafio representado pela digitalização universal dos escritos e da adoção das novas ferramentas de leitura eletrônica, essa evocação das venturas e desventuras do livro permite relativizar as mutações anunciadas. Homenagem risonha à galáxia de Gutenberg, essas conversas irão arrebatar todos os leitores e apaixonados pelo objeto livro. Não é impossível que também alimentem a nostalgia dos detentores de e-books.


Jean-Philippe de Tonnac

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