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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Nome da Rosa - 23

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

QUARTO DIA: LAUDAS 
Onde Guilherme e Severino examinam o cadáver de Berengário
e descobrem que tem a língua negra,
coisa singular para um afogado.
Depois discutem sobre venenos dolorosíssimos
e sobre um furto remoto. 


Não me demorarei a dizer como informamos o Abade, como toda a abadia acordou antes da hora canônica, os gritos de horror, o espanto e a dor que se viam nos rostos de todos, como a notícia se propagou a todo o povo do planalto, com os servos que se benziam e pronunciavam esconjuros. E não sei se naquela manhã o primeiro ofício se desenrolou segundo as regras, e quem nele tomou parte. Eu segui Guilherme e Severino, que mandaram envolver o corpo de Berengário e ordenaram que o estendessem sobre uma mesa no hospital.

Mal o Abade e os outros monges se afastaram, o ervanário e o meu mestre observaram longamente o cadáver com a frieza dos homens da medicina.

- Morreu afogado - disse Severino -, não há dúvida. A cara está inchada, o ventre está raso... 

- Mas não foi afogado por outros - observou Guilherme -, senão ter-se-ia rebelado contra a violência do homicida, e teríamos encontrado marcas de água espalhada em torno da banheira. Pelo contrário, estava tudo arrumado e limpo, como se Berengário tivesse aquecido a água, enchido a banheira, e nela se tivesse acomodado de livre vontade.

- Isso não me admira - disse Severino. - Berengário sofria de convulsões, e eu próprio lhe tinha dito várias vezes que os banhos tépidos servem para acalmar a excitação do corpo e do espírito. Várias vezes me tinha pedido licença para ter acesso aos balnea. Assim poderia ter feito esta noite...

- A noite passada - observou Guilherme -, porque este corpo, como vês, ficou na água pelo menos um dia...

- É possível que tenha sido a noite passada - concordou Severino.

Guilherme pô-lo parcialmente ao corrente dos acontecimentos da noite anterior. Não lhe disse que tínhamos estado furtivamente no scriptorium mas, ocultando-lhe várias circunstâncias, disse-lhe que tínhamos perseguido uma figura misteriosa que nos tinha tirado um livro.

Severino compreendeu que Guilherme lhe dizia apenas uma parte da verdade mas não fez mais perguntas. Observou que a agitação de Berengário, se era ele o ladrão misterioso, podia tê-lo levado a procurar a tranqüilidade num banho restaurador. Berengário, observou, era de natureza muito sensível, por vezes uma contrariedade ou uma emoção provocavam-lhe tremores, suores frios, arregalava os olhos e caía por terra cuspindo uma baba esbranquiçada.

- Em todo o caso - disse Guilherme -, antes de vir para aqui esteve em qualquer outro sítio, porque não vi nos balnea o livro que roubou.

- Sim - confirmei com um certo orgulho -, levantei a sua veste, que jazia ao lado da banheira, e não encontrei marcas de nenhum objeto volumoso. 

- Muito bem - sorriu-me Guilherme. - Portanto esteve em qualquer outro sítio, depois admitamos ainda que, para acalmar a sua própria agitação, e talvez para se subtrair às nossas buscas, se tenha enfiado nos balnea e tenha mergulhado na água. Severino, julgas que o mal de que sofria era suficiente para lhe fazer perder os sentidos e fazê-lo afogar?

- Podia ser - observou Severino duvidando. - Por outro lado, se tudo aconteceu há duas noites, podia ter havido água em torno da banheira, que depois secou. Assim, não podemos cocluir que não tenha sido afogado à viva força.

- Não - disse Guilherme. - Alguma vez viste um assassinado que, antes de se deixar afogar, despe a roupa?

Severino abanou a cabeça, como se aquele argumento já não tivesse grande valor. Há alguns instantes que estava examinando as mãos do cadáver:

- Eis uma coisa curiosa... - disse. 
- O quê? 
- No outro dia observei as mãos de Venancio, quando o corpo foi limpo do sangue, e notei um pormenor a que não tinha dado muita importância. As pontas de dois dedos da mão direita de Venancio estavam escuras, como enegrecidas por uma substância escura. Exatamente, vês? Como agora as pontas de dois dedos de Berengário. Mais, aqui temos mesmo algumas marcas no terceiro dedo. Então pensei que Venancio tinha tocado nas tintas do scriptorium...

- Muito interessante - observou Guilherme pensativo, aproximando os olhos dos dedos de Berengário. A Alba estava surgindo, a luz no interior era ainda fraca, o meu mestre sofria evidentemente pela falta da suas lentes. - Muito interessante - repetiu. - O indicador e o polegar estão escuros nas pontas, o médio só na parte interna, e levemente. Mas também há marcas mais leves na mão esquerda, pelo menos no indicador e no polegar.

- Se fosse só a mão direita, seriam os dedos de quem agarra alguma coisa pequena, ou comprida e delgada...

- Como um estilete. Ou um alimento. Ou um inseto. Ou uma serpente. Ou um ostensório. Ou um pau. Demasiadas coisas. Mas se tinham um sinal na outra mão também podia ser uma faca, a direita segura bem e a esquerda colabora com menor força...

Severino esfregava agora ligeiramente os dedos do morto, nelas a cor escura não desaparecia. Notei que tinha posto um par de luvas, que provavelmente usava quando manuseava substâncias venenosas. Cheirava, mas sem tirar dai sensação alguma.

- Poderia citar-te muitas substâncias vegetais (e até minerais) que provocam marcas deste tipo. Algumas letais, outras não. Os miniaturistas têm por vezes os dedos sujos de pó de ouro...

- Adelmo era miniaturista - disse Guilherme. – Suponho que diante do seu corpo esfacelado tu não  pensaste em examinar-lhe os dedos. Mas estes podiam ter tocado nalguma coisa que tenha pertencido a Adelmo.

- Verdadeiramente não sei - disse Severino. - Dois mortos, ambos com os dedos negros. Que deduzes?

- Não deduzo nada, nihil sequitur geminis ex particularibus unquam. Seria preciso reconduzir ambos os casos a uma regra. Por exemplo: existe uma substância que enegrece os dedos dos que tocam...

Terminei triunfante o silogismo:

- ... Venancio e Berengário têm os dedos enegrecidos, logo terão tocado essa substancia! 

- Muito bem, Adso - disse Guilherme -, pena que o teu silogismo não seja válido, porque aut semel aut iterum médium generaliter esto, e neste silogismo o termo médio nunca aparece como geral. Sinal de que escolhemos mal a premissa maior. Não devia dizer: todos os que tocam certa substância tem os dedos negros, pois também podia haver pessoas com os dedos negros e que não tivessem tocado a substância. Devia dizer: todos aqueles e só todos aqueles que têm os dedos negros tocaram certamente uma dada substância. Venancio e Berengário etcétera. Com o que teríamos um Darii, um ótimo terceiro silogismo de primeira figura.

- Então teremos a resposta! - disse todo contente.

- Ai, Adso, como te fias em silogismos! Temos apenas e de novo a pergunta. Isto é, pusemos a hipótese que Venancio e Berengário tocaram a mesma coisa, hipótese sem dúvida razoável. Mas, uma vez que imaginamos uma substância que, única entre todas, provoca este resultado (o que é ainda para apurar), não sabemos qual é nem onde eles a terão encontrado, e porque a terão tocado. E, repara bem, não sabemos sequer se é afinal a substância que tocaram aquela que os conduziu à morte. Imagina que um louco queria matar todos aqueles que tocam no pó de ouro. Diríamos que é o pó de ouro que mata?

Fiquei perturbado. Sempre tinha acreditado que a lógica era uma arma universal, e apercebia-me agora como a sua validade dependia do modo como se usava. Por outro lado, freqüentando o meu mestre, tinha-me dado conta, e dei-me conta cada vez mais dos dias que se seguiram, que a lógica podia servir de muito com a condição de entrar dentro dela e depois sair.

Severino, que não era decerto um bom lógico, refletia entretanto segundo a sua própria experiência:

- O universo dos venenos é vário, como vários são os mistérios da natureza - disse. Indicou uma série de frascos e ampolas que já uma vez tínhamos admirado, dispostos em boa ordem nas estantes ao longo das paredes, junto de muitos volumes. - Como já te disse, muitas destas ervas, devidamente compostas e dosadas, poderiam dar lugar a bebidas e ungüentos mortais. Eis ali datura stramonium, beladona, cicuta: podem dar sonolência, excitação, ou ambas; administradas com cautela são ótimos medicamentos, em doses excessivas levam à morte. Ali está a fava de Santo Inácio, a angustura pseudo-ferrugínea, a nux vômica, que poderiam tirar a respiração...

- Mas nenhuma destas substâncias deixaria sinais nos dedos?

- Nenhuma, creio. Depois, existem substâncias que só se tornam perigosas se ingeridas, e outras que, pelo contrário, atuam sobre a pele. O heléboro branco pode provocar vômitos em quem o agarra para o arrancar da terra. Existem begônias que quando estão em flor provocam embriaguez nos jardineiros que as tocam, como se tivessem bebido vinho. O heléboro negro, só de o tocar provoca diarréia. Outras plantas provocam palpitações de coração, outras na cabeça, outras ainda fazem perder a voz. Pelo contrário, o veneno da víbora, aplicado na pele sem penetrar no sangue, produz apenas uma ligeira irritação... Mas uma vez mostraram-me um composto que, aplicado na parte interna das coxas de um cão, perto dos órgãos genitais, leva o animal a morrer em pouco tempo, no meio de convulsões atrozes, com os membros que pouco a pouco se tornam rígidos...

- Sabes muitas coisas sobre os venenos - observou Guilherme com um tom de voz que parecia de admiração.

Severino fixou-o e suportou o seu olhar por alguns instantes:
- Sei aquilo que um médico, um ervanário, uma pessoa que cultiva a ciência e a saúde humana deve saber.

Guilherme ficou longo tempo distraído. Depois pediu a Severino que abrisse a boca do cadáver e que lhe observasse a língua. Severino, intrigado, usou uma espátula delgada, um dos instrumentos da sua arte médica, e executou. Deu um grito de estupefação:

- A língua está negra!

- Então é isso - murmurou Guilherme. - Agarrou alguma coisa com os dedos e ingeriu-a... Isto elimina os venenos que citaste antes, que matam penetrando através da pele. Mas não torna mais fáceis as nossas induções. Porque agora temos de pensar, para ele e para Venancio, num gesto voluntário, não casual, não devido a distração ou a imprudência, nem induzido pela violência. Agarraram alguma coisa e introduziram-na na boca conscientes do que faziam.

- Um alimento? Uma bebida? 

- Talvez! Talvez! O que seria? Um instrumento musical, por exemplo uma flauta. 

- Absurdo! – disse Severino. 

- Decerto que é absurdo. Mas não devemos transcutar nenhuma hipótese, por extraordinária que seja. Mas agora procuremos remontar à matéria venenosa. Se alguém que conhece os venenos como tu se tivesse introduzido aqui e tivesse usado algumas destas tuas ervas teria podido compor um ungüento mortal capaz de produzir aqueles sinais nos dedos e na língua? Capaz de ser posto num alimento, numa bebida, numa colher, nalguma coisa que se mete à boca?

- Sim - admitiu Severino -, mas quem? E depois, mesmo adquirindo essa hipótese, como teria sido administrado o veneno aos nossos pobres irmãos? 

Francamente também eu não conseguia imaginar Venancio ou Berengário deixando-se abordar por alguém que lhes estendia uma substância misteriosa que alguém o oferecera. Mas Guilherme não pareceu perturbado por esta extravagância.  

- Nisso pensaremos depois – disse -, porque agora queria que tu procurasses recordar algum fato que talvez não te tenha ainda voltado à mente, não sei, alguém que tenha feito perguntas sobre as suas ervas, alguém que tenha acesso fácil ao hospital....

- Um momento - disse Severino -, há muito tempo, falo de anos, conservava numa daquelas estantes uma substância muito forte, que me tinha dado um irmão que tinha viajado por países distantes. Não sabia dizer-me de que era feita, certamente de ervas, e nem todas conhecidas. Era, na aparência, viscosa e amarelada, mas aconselharam-me que não lhe tocasse, porque se ficasse mesmo só em contato com os lábios ter-me-ia morto em pouco tempo. O irmão disse-me que, mesmo ingerida em doses mínimas, provocava no espaço de meia hora uma sensação de prostração, depois uma lenta paralisia de todos os membros, e por fim a morte. Não queria levá-la consigo, e fez-me presente dela. Conservei-a por longo tempo, porque me propunha examiná-la de alguma maneira. Depois, um dia, houve no planalto uma grande tempestade. Um dos meus ajudantes, um noviço, tinha deixado a porta do hospital aberta, e o furacão tinha devastado toda a sala em que agora estamos. Ampolas quebradas, líquidos espalhados pelo pavimento, ervas e pós dispersos. Trabalhei um dia a pôr de novo em ordem as minhas coisas, e pedi ajuda apenas para varrer os cacos e as ervas já irrecuperáveis. No fim apercebi-me que faltava precisamente a ampola de que te falava. Primeiro preocupei-me, depois convenci-me que se tinha quebrado e confundido com outros detritos. Mandei lavar bem o pavimento do hospital e as estantes.

- E tinhas visto a ampola poucas horas antes do furacão?

- Sim... Ou melhor, não, agora que penso nisso. Estava atrás de uma fila de frascos, bem escondida, e não a fiscalizava todos os dias...

- Então, pelo que sabes, podiam ter-te tirado mesmo muito tempo antes do furacão, sem tu saberes?

- Agora que me fazes refletir, sim, sem dúvida nenhuma.

- E esse teu noviço podia ter-te tirado e depois podia ter aproveitado o ensejo do furacão para deixar de propósito a porta aberta e criar a confusão entre as tuas coisas...

Severino pareceu muito excitado:

- Decerto, sim. Não só, mas recordando quanto aconteceu, admirei-me muito que o furacão, por muito violento que fosse, tivesse derrubado tantas coisas. Poderia perfeitamente dizer que alguém aproveitou o furacão para devastar a sala e produzir mais danos que o vento poderia ter feito!

- Quem era o noviço?

- Chamava-se Agostinho. Mas morreu o ano passado, ao cair de um andaime quando, com outros monges e servos, limpava as esculturas da fachada da igreja. E depois, pensando bem, ele tinha jurado e tresjurado que não tinha deixado a porta aberta antes do furacão. Fui eu, enfurecido, que o considerei responsável pelo incidente. Talvez estivesse verdadeiramente inocente.

- E assim temos uma terceira pessoa, talvez bem mais esperta que um noviço, que tinha conhecimento do teu veneno. A quem tinhas falado nisso?

- Disso, precisamente, não me recordo. Ao Abade, claro, pedindo-lhe licença para conservar uma substância tão perigosa. E a mais alguém, talvez precisamente na biblioteca, porque procurava herbários que pudessem revelar-me alguma coisa.

- Mas não me disseste que conservas junto de ti os livros mais úteis à tua arte?

- Sim, e muitos - disse, indicando num ângulo da sala algumas estantes carregadas de dezenas de volumes. - Mas na altura procurava certos livros que não poderia conservar e que até Malaquias era reticente em me deixar ver, de tal modo que tive de pedir autorização ao Abade. - A sua voz tornou-se mais baixa, como se tivesse escrúpulo em que eu a ouvisse. - Sabes, num lugar desconhecido da biblioteca conservam-se mesmo obras de necromancia, de magia negra, receitas de filtros diabólicos. Pude consultar algumas destas obras, por dever científico, e esperava encontrar uma descrição daquele veneno e das suas funções. Em vão.

- Então, falaste nisso a Malaquias.

- Decerto, sem dúvida a ele, e talvez também ao próprio Berengário, que lhe assistia. Mas não tires conclusões apressadas: não me recordo, talvez enquanto falava estivessem presentes outros monges, sabes, por vezes no scriptorium há bastante gente...

- Não suspeito de ninguém. Procuro apenas compreender o que pode ter acontecido. Em todo o caso dizes-me que o fato aconteceu há alguns anos, e é curioso que alguém tenha tirado com tanta antecipação um veneno que havia de vir a usar tanto tempo depois. Seria indício de uma vontade maligna que incubou longamente na sombra um propósito homicida.

Severino benzeu-se com uma expressão de horror no rosto.

- Deus nos perdoe a todos! - disse. 


Não havia mais comentários a fazer. Voltamos a cobrir o corpo de Berengário, que devia ser preparado para as exéquias. 

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