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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 1

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro", de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

O livro não morrerá


Jean-Claude Carrière:
Na última cúpula de Davos, em 2008, a propósito dos fenômenos que irão abalar a humanidade nos próximos 15 anos, um futurólogo consultado propunha deter-se apenas nos quatro principais, que lhe pareciam inexoráveis. O primeiro é um barril de petróleo a 500 dólares. O segundo diz respeito à água, fadada a tornar-se um produto comercial de troca exatamente como o petróleo. Teremos uma cotação da água na Bolsa. A terceira previsão refere-se à África, que se tornará seguramente uma potência econômica nas próximas décadas, o que todos desejamos. O quarto fenômeno, segundo esse profeta profissional, é o desaparecimento do livro. Portanto, a questão é saber se a evaporação definitiva do livro, se ele de fato vier a desaparecer, pode ter consequências, para a humanidade, análogas às da escassez prevista da água, por exemplo, ou de um petróleo inacessível.

Umberto Eco:
O livro irá desaparecer em virtude do surgimento da Internet? Escrevi sobre o assunto na época, isto é, no momento em que a questão parecia pertinente. Agora, sempre que me pedem para eu me pronunciar, não faço senão reescrever o mesmo texto. Ninguém percebe isso, principalmente porque nada mais inédito do que o que foi publicado; e, depois, porque a opinião pública (ou pelo menos os jornalistas) tem sempre essa ideia fixa de que o livro vai desaparecer (ou então são esses jornalistas que acham que seus leitores têm essa idéia fixa) e cada um formula incansavelmente a mesma indagação. Na realidade, há muito pouca coisa a dizer sobre o assunto. Com a Internet, voltamos à era alfabética. Se um dia acreditamos ter entrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg, e doravante todo mundo vê-se obrigado a ler. Para ler, é preciso um suporte. Esse suporte não pode ser apenas o computador. Passe duas horas lendo um romance em seu computador, e seus olhos viram bolas de tênis. Tenho em casa óculos polaroides que protegem meus olhos contra os danos de uma leitura contínua na tela. A propósito, o computador depende da eletricidade e não pode ser lido numa banheira, tampouco deitado na cama. Logo, o livro se apresenta como uma ferramenta mais flexível. Das duas, uma: ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. As variações em torno do objeto-livro não modificaram sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher. Designers tentam melhorar, por exemplo, o saca-rolhas, com sucessos bem modestos, e, por sinal, a maioria nem funciona direito. Philippe Starck tentou inovar do lado dos espremedores de limão, mas o dele (para salvaguardar certa pureza estética) deixa passar os caroços. O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é.

JCC:
Parece que as últimas versões do e-book colocam-no agora em concorrência direta com o livro impresso. O modelo "Reader" já traz 160 títulos.

UE:
É óbvio que um magistrado levará mais confortavelmente para sua casa as 25 mil páginas de um processo em curso se elas estiverem na memória de um e-book. Em diversos domínios, o livro eletrônico proporcionará um conforto extraordinário. Continuo simplesmente a me perguntar se, mesmo com a tecnologia mais bem adaptada às exigências da leitura, será viável ler Guerra e Paz num e-book. Veremos. Em todo caso, não poderemos mais ler os Tolstói e todos os livros impressos na pasta de papel, pura e simplesmente porque eles já começaram a se desfazer em nossas estantes. Os livros da Gallimard e da Vrin dos anos 1950 já desapareceram em grande parte. A "Filosofia da Idade Média", de Gilson, que me foi tão útil na época em que eu preparava minha tese, não posso sequer folheá-lo hoje em dia. As páginas literalmente quebram. Eu poderia comprar uma nova edição, claro, mas é à velha que sou afeiçoado, com todas as minhas anotações em cores diferentes compondo a história das minhas diversas consultas.

Jean-Philippe de Tonnac:
Com o aprimoramento de novos suportes cada vez mais bem adaptados às exigências e ao conforto de uma leitura em qualquer lugar, seja a das enciclopédias ou dos romances on-line, por que não imaginar, apesar de tudo, um lento desinteresse pelo objeto livro sob sua forma tradicional?

UE:
Tudo pode acontecer. Amanhã, os livros podem vir a interessar apenas a um punhado de irredutíveis que irão saciar sua curiosidade nostálgica em museus e bibliotecas.

JCC:
Se ainda existirem.

UE:
Mas também é possível imaginar que a formidável invenção que é a Internet venha a desaparecer por sua vez, no futuro. Exatamente como os dirigíveis abandonaram nossos céus. Quando o Hindenburg pegou fogo em Nova York, pouco antes da guerra, o futuro dos dirigíveis morreu. Mesma coisa com o Concorde: o acidente de Gonesse, em 2000, foi fatal para ele. Inventamos um avião que, em vez de levar oito horas para atravessar o Atlântico, exige apenas três. Quem poderia contestar esse progresso? Mas desistimos dele, após a catástrofe de Gonesse, ponderando que o Concorde custa muito caro. Este é um motivo sério? A bomba atômica também custa muito caro!

JPT:
Cito-lhes esta observação de Hermann Hesse a respeito da possível "relegitimação" do livro que os progressos técnicos, segundo ele, iriam permitir. Ele deve ter dito isso nos anos 1950: "Quanto mais, com o passar do tempo, as necessidades de distração e educação popular puderem ser satisfeitas com invenções novas, mais o livro resgatará sua dignidade e autoridade. Ainda não alcançamos plenamente o ponto em que as jovens invenções concorrentes, como o rádio, o cinema, etc., confiscam do livro impresso a parte de suas funções que ele pode justamente perder sem danos."

JCC:
Nesse sentido, ele não se enganou. O cinema e o rádio, a própria televisão, não tiraram nada do livro, nada que lhe tenha causado "danos".

UE:
Num certo momento, os homens inventaram a escrita. Podemos considerar a escrita como o prolongamento da mão e, nesse sentido, ela é quase biológica. Ela é a tecnologia da comunicação imediatamente ligada ao corpo. Quando você inventa uma coisa dessas, não pode mais dar para trás. Repito, é como ter inventado a roda. Nossas rodas de hoje são iguais às da pré-história. Ao passo que nossas invenções modernas, cinema, rádio, Internet, não são biológicas.

JCC:
Você tem razão em apontar isso: nunca tivemos tanta necessidade de ler e escrever quanto em nossos dias. Não podemos utilizar um computador se não soubermos escrever e ler. E, inclusive, de uma maneira mais complexa do que antigamente, pois integramos novos signos, novas chaves. Nosso alfabeto expandiu-se. É cada vez mais difícil aprender a ler. Empreenderíamos um retorno à oralidade se nossos computadores fossem capazes de transcrever diretamente o que dizemos. Mas isso é outra questão: podemos nos exprimir com clareza sem saber ler nem escrever?

UE:
Homero sem dúvida responderia que sim.

JCC:
Mas Homero pertence a uma tradição oral. Adquiriu seus conhecimentos por intermédio dessa tradição numa época em que ainda não se havia escrito nada na Grécia. Seria possível imaginar hoje em dia um escritor que ditasse seu romance sem a mediação do escrito e que não conhecesse nada de toda a literatura que o precedeu? Talvez sua obra tivesse o encanto da ingenuidade, da descoberta, do insólito. De toda forma, parece-me que careceria do que denominamos, na falta de termo melhor, cultura. Rimbaud era um rapaz prodigiosamente talentoso, autor de versos inimitáveis. Mas não era o que consideramos um sem-cultura. Aos 16 anos, sua cultura já era clássica, sólida. Sabia compor versos em latim.

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