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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O Nome da Rosa - 34

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

QUINTO DIA: SEXTA 
Onde se encontra Severino assassinado
e já não se encontra o livro que ele tinha encontrado.


Atravessamos a esplanada a passo rápido e cheios de angústia. O capitão dos archeiros conduzia-nos em direção ao hospital, e logo que ali chegamos entrevimos na densa penumbra umas sombras que se agitavam: eram monges e servos que acorriam, eram archeiros que estavam diante da porta e impediam o acesso. 

- Aqueles homens armados foram enviados por mim para procurarem um homem que podia fazer luz sobre tantos mistérios – disse Bernardo. 

- O irmão ervanário? - perguntou o Abade estupefato. 

- Não, agora vereis - disse Bernardo, abrindo caminho no interior. 

Penetramos no laboratório de Severino, e aqui um penoso espetáculo se ofereceu aos nossos olhos. O desventurado ervanário jazia morto num lago de sangue, com a cabeça partida. Em torno, as estantes pareciam ter sido devastadas pela tempestade: ampolas, garrafas, livros, documentos estavam espalhados por todo o lado em grande desordem e ruína. Ao lado do corpo estava uma esfera armilar, pelo menos duas vezes maior que a cabeça de um homem, de metal finamente trabalhado, encimada por uma cruz de ouro e fixada sobre um pequeno tripé decorado. Já outras vezes a tinha notado sobre a mesa à esquerda da entrada.

No outro extremo da sala, dois archeiros seguravam firmemente o despenseiro, que se debatia protestando a sua inocência e que aumentou os seus clamores quando viu entrar o Abade.

- Senhor - gritava -, as aparências são contra mim! Entrei quando Severino já estava morto e encontraram-me quando estava observando sem palavras este massacre!

O chefe dos archeiros aproximou-se de Bernardo, e com sua licença fez-lhe um relatório, diante de todos. Os archeiros tinham recebido ordem para encontrarem o despenseiro e para o prenderem, e há mais de duas horas que o procuravam pela abadia. Devia tratar-se, pensei, da disposição dada por Bernardo antes de entrar no capítulo, e os soldados, estranhos ao lugar, tinham provavelmente conduzido as buscas nos lugares errados, sem se aperceberem que o despenseiro, ignorando ainda o seu destino, estava com outros no nártex; e por outro lado o nevoeiro tinha tornado mais árdua a sua caça.

Em todo o caso, pelas palavras do capitão, deduzia-se que, quando Remígio, depois de eu o ter deixado, tinha ido em direção às cozinhas, alguém o tinha visto e tinha avisado os archeiros, os quais tinham chegado ao Edíficio quando Remígio se tinha afastado de novo, e há muito pouco, porque estava na cozinha Jorge, que afirmava ter acabado de lhe falar. Os archeiros tinham então explorado o planalto na direção do horto, e aqui, emergindo do nevoeiro como um fantasma, tinham encontrado o velho Alinardo, que quase se tinha perdido. Precisamente Alinardo tinha dito que tinha visto o despenseiro, pouco antes, entrar no hospital. Os archeiros tinham ido até lá, encontrando a porta aberta. Lá dentro, tinham encontrado Severino inanimado e o despenseiro, que, freneticamente, estava revistando no meio das estantes, deitando tudo ao chão, como se estivesse procurando qualquer coisa. Era fácil compreender o que tinha sucedido, concluía o capitão. Remígio tinha entrado, tinha-se atirado ao ervanário, tinha-o morto, e estava depois procurando aquilo por que tinha matado.

Um archeiro levantou do chão a esfera armilar e estendeu-a a Bernardo. A elegante arquitetura de círculos de cobre e prata, sustentada por uma armação mais robusta de anéis de bronze, empunhada pela haste do tripé, tinha sido vibrada com força sobre o crânio da vítima, de forma que, no impacto, muitos dos círculos mais finos tinham-se quebrado ou esmagado de um lado. E que aquele era o lado que se tinha abatido sobre a cabeça de Severino revelavam-no as marcas de sangue e até os grumos de cabelo e as imundas salpicaduras de matéria cerebral.

Guilherme inclinou-se sobre Severino para verificar a sua morte. Os olhos do infeliz, velados pelo sangue que tinha corrido a jorros da cabeça, estavam arregalados, e perguntei-me se era acaso possível ler na pupila imobilizada, como se consta que aconteceu em outros casos, a imagem do assassino, último vestígio das percepções da vítima. Vi que Guilherme procurava as mãos do morto, para verificar se tinha manchas negras nos dedos, embora naquele caso a causa da morte fosse mais que evidente: mas Severino usava as mesmas luvas de pele com que algumas vezes o tinha visto manipular ervas perigosas, lagartos, insetos desconhecidos.

Entretanto, Bernardo Gui dirigia-se ao despenseiro:

- Remígio de Varagine, é este o teu nome, não é verdade? Tinha-te mandado procurar pelos meus homens com base noutras acusações e para confirmar outras suspeitas. Agora vejo que tinha agido retamente, se bem que, e por isso me censuro, demasiado tarde. Senhor - disse ao Abade -, considero-me quase responsável por este último crime, porque desde esta manhã sabia que era necessário entregar este homem à justiça, depois de ter escutado as revelações do outro miserável preso esta noite. Mas, como também vós vistes, durante a manhã estive ocupado com outros deveres, e os meus homens fizeram o melhor que puderam...

Enquanto falava, em voz alta para que todos os circunstantes ouvissem (e a sala tinha-se entretanto apinhado, com gente que se enfiava em todos os cantos, olhando para as coisas espalhadas e destruídas, apontando para o cadáver e comentando a meia-voz o grande crime), descobri no meio da pequena multidão Malaquias, que observava sombriamente a cena. Também o descobriu o despenseiro, que precisamente naquele momento ia ser arrastado para fora. Arrancou-se das mãos dos archeiros que o prendiam e atirou-se ao irmão, agarrando-o pelo hábito e falando-lhe breve e desesperadamente cara a cara, enquanto os archeiros não voltaram a prendê-lo. Mas, quando já o levavam com brutalidade, voltou-se ainda para Malaquias gritando-lhe:

- Jura, e eu juro!

Malaquias não respondeu logo, como se procurasse as palavras adequadas. Depois, quando o despenseiro já estava ultrapassando à força o umbral, disse-lhe:

- Não farei nada contra ti.

Guilherme e eu olhamo-nos, perguntando-nos o que significava esta cena. Bernardo também a tinha observado, mas não pareceu perturbado, antes sorriu a Malaquias como para aprovar as suas palavras e selar com ele uma sinistra cumplicidade. Depois anunciou que logo depois da refeição se reuniria no capítulo um primeiro tribunal para instruir publicamente aquele inquérito. E saiu ordenando que conduzissem o despenseiro às forjas, sem o deixar falar com Salvador.

Naquele momento sentimos que Bêncio nos chamava atrás de nós:

- Eu entrei logo depois de vós - disse num sussurro -, quando a sala estava ainda meio vazia, e Malaquias não estava.

- Terá entrado depois - disse Guilherme.

- Não - assegurou Bêncio -, eu estava ao pé da porta, vi quem entrava. Digo-vos, Malaquias já estava dentro... antes.

- Antes de quê?

- Antes de entrar o despenseiro. Não posso jurá-lo, mas creio que saiu daquela cortina, quando já aqui estávamos muitos – e apontou para um amplo cortinado que protegia um leito onde habitualmente Severino punha a repousar quem tinha acabado de sofrer um tratamento.

- Queres insinuar que foi ele quem matou Severino e que se retirou ali atrás quando o despenseiro entrou? - perguntou Guilherme.

- Ou então que ali de trás tenha assistido a quanto aconteceu aqui. Senão, porque é que o despenseiro lhe teria implorado que não o prejudicasse prometendo em troca não o prejudicar a ele?

- É possível - disse Guilherme. - Em todo o caso estava aqui um livro, e deveria ainda estar, porque tanto o despenseiro como Malaquias saíram de mãos vazias.

Guilherme sabia pelo meu relatório que Bêncio sabia: e naquele momento tinha necessidade de ajuda. Aproximou-se do Abade, que observava tristemente o cadáver de Severino, e pediu-lhe que os mandasse sair a todos, porque queria examinar melhor o lugar. O Abade consentiu e saiu ele também não sem lançar a Guilherme um olhar de cepticismo, como se o censurasse por chegar sempre tarde. Malaquias procurou ficar aduzindo várias razões, de todo vagas: Guilherme fez-lhe observar que ali não era a biblioteca e que naquele lugar não podia alegar direitos. Foi cortês mas inflexível, e vingou-se de quando Malaquias não lhe tinha consentido examinar a mesa de Venancio.

Quando ficamos os três, Guilherme libertou uma das mesas dos cacos e dos papéis que a ocupavam e disse-me que lhe passasse, uns a seguir aos outros, os livros da coleção de Severino. Pequena coleção, comparada à imensa do labirinto, mas tratava-se mesmo assim de dezenas e dezenas de volumes, de vários tamanhos, que primeiro estavam em boa ordem nas estantes e agora jaziam por terra em desordem, entre vários outros objetos, e já baralhados pelas mãos febris do despenseiro, alguns até rasgados, como se ele não procurasse um livro mas algo que devia estar entre as páginas de um livro. Alguns tinham sido despedaçados com violência, separados da sua encadernação. Apanhá-los, examinar rapidamente a sua natureza e repô-los numa pilha sobre a mesa não foi empresa fácil, e feita à pressa, porque o Abade tinha-nos concedido pouco tempo, dado que, depois, deviam entrar os monges para recomporem o corpo martirizado de Severino e para o prepararem para a sepultura. E tratava-se ainda de andar à procura por todo o lado debaixo das mesas, atrás das estantes e dos armários, se alguma coisa tivesse escapado a uma primeira inspeção. Guilherme não quis que Bêncio me ajudasse e consentiu-lhe apenas que ficasse de guarda à porta. Malgrado as ordens do Abade, muitos insistiam em entrar, servos aterrados pela notícia, monges chorando o seu irmão, noviços que chegavam com lençóis brancos e bacias de água para lavar e envolver o cadáver...

Devia, pois, proceder-se depressa. Eu agarrava nos livros, estendia-os a Guilherme, que os examinava e os punha sobre a mesa. Depois demo-nos conta que o trabalho era longo e procedemos em conjunto, isto é, eu apanhava um livro, recompunha-o se estava descomposto, lia-lhe o título, pousava-o. E em muitos casos tratava-se de folhas dispersas. 

- De plantis libri tres, maldição, não é este - dizia Guilherme, e atirava o livro para a mesa.
 
- Thesaurus herbarum - dizia eu.
 
E Guilherme: 

- Deixa lá esse, procuramos um livro grego!

- Este? - perguntava eu, mostrando-lhe uma obra de páginas cobertas de caracteres abstrusos. 

E Guilherme: 

- Não, este é árabe, tolo! Tinha razão Bacon quando dizia que o primeiro dever do sábio é estudar as línguas!

- Mas árabe, nem sequer vós sabeis - rebatia eu, picado.
 
Ao que Guilherme respondia:
 
- Mas ao menos compreendo quando é árabe!
 
E eu corava, porque ouvia Bêncio a rir atrás de mim.
 
Os livros eram muitos, e muitos mais os apontamentos, os rolos com desenhos da esfera celeste, os catálogos de plantas estranhas, manuscritos provavelmente pelo defunto em folhas soltas. Trabalhamos muito tempo, exploramos o laboratório por todo o lado, Guilherme chegou até, com grande frieza, a desviar o cadáver, para ver se não havia qualquer coisa debaixo, e revistou-lhe o hábito. Nada.

- É indispensável - disse Guilherme. - Severino fechou-se aqui dentro com um livro. O despenseiro não o tinha...

- Não o terá acaso escondido no hábito? - perguntei.

- Não, o livro que vi na manhã passada debaixo da mesa de Venancio era grande, teríamos dado conta. 

- Como estava encadernado? - perguntei. 

- Não sei. Estava aberto e vi-o só por poucos segundos, o suficiente para me dar conta que era em grego, mas não me recordo de mais nada. Continuemos: o despenseiro não o levou, e Malaquias também não, creio.

- Evidentemente que não - confirmou Bêncio -, quando o despenseiro o agarrou pelo peito viu-se que não podia tê-lo debaixo do escapulário.

- Bem. Isto é, mal. Se o livro não está nesta sala, é evidente que mais alguém, além de Malaquias e do despenseiro, tinha entrado antes. 

- Isto é, uma terceira pessoa que matou Severino? 

- Gente de mais - disse Guilherme. 

- Por outro lado – disse -, quem podia saber que o livro estava aqui? 

- Jorge, por exemplo, se nos ouviu. 

- Sim - disse -, mas Jorge não poderia ter morto um homem robusto como Severino, e com tanta violência. 

- Certamente que não. Além disso, tu viste-o dirigir-se para o Edifício, e os archeiros encontraram-no na cozinha pouco antes de encontrarem o despenseiro. Portanto, não teria tido tempo de vir para aqui e depois de voltar para a cozinha. Calcula que, embora se mova com desenvoltura, tem todavia de avançar costeando as paredes, e não teria podido atravessar o horto e a correr... 

- Deixai-me raciocinar com a minha cabeça - disse, eu que já tinha a ambição de emular o meu mestre. - Portanto, não pode ter sido Jorge. Alinardo andava nas proximidades, mas também ele se segura com dificuldade nas pernas, e não pode ter dominado Severino. O despenseiro esteve aqui, mas o tempo decorrido entre a sua saída das cozinhas e a chegada dos archeiros foi tão breve que me parece difícil que tenha podido conseguir que Severino lhe abrisse a porta, enfrentá-lo, matá-lo e depois arranjar todo este pandemônio. Malaquias podia ter precedido todos os outros: Jorge ouviu-nos no nártex, foi ao scriptorium informar Malaquias que um livro da biblioteca estava com Severino. Malaquias vem para aqui, convence Severino a abrir-lhe a porta, mata-o, sabe Deus porquê. Mas, se procurava o livro, deveria tê-lo reconhecido sem revistar desta maneira porque é ele o bibliotecário! Então, quem resta?

- Bêncio - disse Guilherme.

Bêncio negou vigorosamente sacudindo a cabeça:

- Não, frade Guilherme, vós sabeis que ardia de curiosidade. Mas se tivesse entrado aqui e tivesse podido sair com o livro, agora não estaria a fazer-vos companhia, mas em qualquer outro lado a examinar o meu tesouro...

- Uma prova quase convincente - sorriu Guilherme. - Porém, também tu não sabes como é o livro. Poderias ter matado e agora estarias aqui a procurar identificá-lo. 

Bêncio corou violentamente: 

- Eu não sou um assassino! - protestou. 

- Ninguém o é, antes de cometer o primeiro delito - disse filosoficamente Guilherme. - Em todo o caso o livro não está aqui, e esta é uma prova suficiente do fato de que tu não o deixaste aqui. E parece-me razoável que, se o tivesses apanhado antes, te terias escapulido para fora durante a confusão. - Depois voltou-se para considerar o cadáver. Pareceu que só então se dava conta da morte do seu amigo. - Pobre Severino - disse -, também tinha suspeitado de ti e dos teus venenos. E tu esperavas a insídia de um veneno, senão não terias calçado estas luvas. Temias um perigo da terra e afinal chegou-te da esfera celeste... - Voltou a pegar na esfera, observando-a com atenção. - Quem sabe porque usaram precisamente esta arma... 

- Estava ao alcance da mão. 

- Pode ser. Também havia outras coisas, vasos, instrumentos de jardineiro... É um belo exemplar de arte dos metais e de ciência astronômica. Estragou-se e... Santo Deus! - exclamou. 

- O que é? 

- E foi atingida a terça parte do Sol e a terça parte da Lua e a terça parte das estrelas... - recitou. 

Eu conhecia bem de mais o texto do apóstolo João:

- A quarta trombeta! - exclamei. 

- De fato. Primeiro o granizo, depois o sangue, depois a água, e agora as estrelas... Se é assim, tudo tem de ser revisto, o assassino não agiu ao acaso, seguiu um plano... Mas será acaso possível imaginar uma mente tão malvada que mata só quando pode fazê-lo seguindo os ditames do livro do Apocalipse? 

- Que acontecerá com a quinta trombeta? - perguntei aterrado. Procurei recordar-me: - E viu um astro caído do céu sobre a terra e a ele foi dada a chave do poço do abismo... Morrerá alguém afogado no poço? 

- A quinta trombeta promete-nos muitas outras coisas - disse Guilherme. - Do poço sairá o fumo de uma fornalha, depois sairão gafanhotos que atormentarão os homens com um aguilhão semelhante ao dos escorpiões. E a forma dos gafanhotos será semelhante à dos cavalos com coroas de ouro na cabeça e dentes de leão... O nosso homem teria à disposição vários meios para realizar as palavras do livro... Mas não corramos atrás de fantasias. Procuremos antes recordar o que nos disse Severino quando nos anunciou que tinha encontrado o livro... 

- Vós disseste-lhes que vo-lo trouxesse, e ele disse que não podia... 

- De fato, depois fomos interrompidos. Porque é que não podia? Um livro pode transportar-se. E porque é que pôs as luvas? Há qualquer coisa na encadernação do livro relacionada com o veneno que matou Berengário e Venancio? Uma insídia misteriosa, uma ponta infectada... 

- Uma serpente! - disse. 

- Porque não uma baleia? Não, estamos ainda a fantasiar. O veneno vimo-lo, deveria passar pela boca. Depois, não é que Severino tenha dito que não podia transportar o livro, disse que preferia mostrar-mo aqui. E pôs as luvas... De momento, sabemos que naquele livro se toca com luvas. E isto é válido também para ti Bêncio, se o encontrares como esperas. E, visto que és tão serviçal, podes ajudar-me. Volta para o scriptorium e mantém Malaquias debaixo de olho. Não o percas de vista. 

- Assim se fará! - disse Bêncio, e saiu, contente pareceu-nos, com a missão. 

Não pudemos reter mais tempo os outros monges, e a sala foi invadida de gente. Já tinha passado a hora do almoço e, provavelmente, Bernardo já estava reunindo no capítulo a sua corte. 

- Aqui não há mais nada a fazer - disse Guilherme. 

Uma idéia atravessou-me a mente: 

- O assassino - disse não podia ter lançado o livro pela janela para depois ir buscá-lo atrás do hospital? 

Guilherme olhou com cepticismo para as grandes janelas do laboratório, que pareciam hermeticamente fechadas. 

- Tentaremos verificar - disse ele. 

Saímos e inspecionamos o lado posterior da construção, que estava quase encostado ao muro da cerca, deixando apenas uma estreita passagem. Guilherme avançou com cautela, porque naquele espaço a neve dos últimos dias tinha-se conservado intacta. Os nossos passos imprimiam sobre a crosta gelada, mas frágil, sinais evidentes, e, portando se alguém tivesse passado antes de nós, a neve ter-no-lo-ia assinalado. Não vimos nada. 

Abandonamos com o hospital a minha pobre hipótese, e, enquanto atravessávamos o horto, perguntei a Guilherme se confiava verdadeiramente em Bêncio. 

- Não completamente - disse Guilherme -, mas em todo o caso não lhe dissemos nada que ele não soubesse já, e inspiramos-lhe medo do livro. Finalmente, fazendo-o vigiar Malaquias fazemos com que o vigie também a ele Malaquias, o qual está evidentemente procurando o livro por sua conta. 

- E o despenseiro que queria? 

- Em breve o saberemos. Decerto queria qualquer coisa, e queria-a imediatamente, para evitar um perigo que o aterrorizava. Essa qualquer coisa deve ser do conhecimento de Malaquias, senão não explicaríamos a invocação desesperada que Remígio lhe dirigiu... 

- De qualquer modo, o livro desapareceu... 

- Esta é a coisa mais inverossímil - disse Guilherme quando já estávamos a chegar ao capítulo. - Se lá estava, e Severino disse que estava, ou o levaram ou ainda lá está. 

- E como lá não está, alguém o levou - conclui. 

- Não quer dizer que o raciocínio não seja feito partindo de outra premissa menor. Como tudo confirma que ninguém pode tê-lo levado... 

- Então devia ainda lá estar. Mas não está. 

- Um momento. Nós dizemos que não estava porque não o encontramos. Mas talvez não o tenhamos encontrado porque não o vimos onde ele estava. 

- Mas olhamos por toda a parte! 

- Olhamos e não vimos. Ou, então, vimos mas não reconhecemos... Adso, como é que Severino nos descreveu aquele livro, que palavras usou? 

- Disse que tinha encontrado um livro que não era dos seus, em grego... 

- Não. Agora me recordo. Disse um estranho livro. Severino era uma pessoa culta, e para pessoa culta um livro em grego não é estranho, ainda que essa pessoa não saiba grego, porque, pelo menos, reconheceria o alfabeto. E uma pessoa culta não definiria como estranho nem sequer um livro árabe, ainda que não conheça o alfabeto... - Interrompeu-se. - E que fazia um livro árabe no laboratório de Severino? 

- Mas porque é que havia de definir como estranho um livro árabe? 

- Esse é o problema. Se o definiu como estranho é porque tinha um aspecto insólito, insólito pelo menos para ele, que era ervanário e não bibliotecário... E nas bibliotecas acontece que muitos manuscritos antigos são por vezes encadernados em conjunto, reunindo num volume textos diversos e curiosos, um em grego, outro em aramaico... 

- ... e outro em árabe! - gritei, fulminado por aquela iluminação. 

Guilherme arrastou-me brutalmente para fora do nártex, fazendo-me correr para o hospital: 

- Besta de teutão, nabo, ignorante, olhaste só para as primeiras páginas e não para o resto! 

- Mas, mestre - ofegava -, fostes vós que olhastes para as páginas que vos mostrei e dissestes que era árabe e não grego! 

- É verdade, Adso, é verdade, sou eu a besta, corre depressa! 

Voltamos ao laboratório e tivemos dificuldade em lá entrar, porque os noviços estavam já transportando para fora o cadáver. Outros curiosos andavam pela sala. Guilherme precipitou-se sobre a mesa, levantou os volumes procurando o fatídico, ia-os atirando para o chão sob os olhos espantados dos circunstantes, depois abriu-os e reabriu-os todos duas vezes. Infelizmente, o manuscrito árabe já lá não estava. Recordava-me vagamente da velha capa, que não era robusta, bastante gasta, com finas bandas metálicas.

- Quem é que entrou aqui depois de eu ter saído? - perguntou Guilherme a um monge. 

Este encolheu os ombros, era claro que tinham entrado todos e ninguém. 

Procuramos considerar as possibilidades. Malaquias? Era verossímil, sabia o que queria, tinha-nos talvez vigiado, tinha-nos visto sair sem nada na mão, havia voltado com toda a segurança. Bêncio? Recordei que, quando se dera a altercação sobre o texto árabe, ele se tinha rido. Então, tinha julgado que se ria da minha ignorância, mas talvez se risse da ingenuidade de Guilherme, ele sabia bem de quantas maneiras se pode apresentar um velho manuscrito, talvez tivesse pensado naquilo que nós não tínhamos pensado logo, e que deveríamos ter pensado, isto é, que Severino não sabia árabe e que, portanto, era singular que conservasse entre os seus um livro que não podia ler. Ou, então, havia um terceiro personagem?

Guilherme estava profundamente humilhado. Procurava consolá-lo, dizia-lhe que ele estava procurando há três dias um texto em grego e que era natural que tivesse apartado no curso do seu exame todos os livros que não apareciam em grego. E ele respondia que é certamente humano cometer erros, porém existem seres humanos que cometem mais que os outros, e são chamados estultos, e ele estava entre esses, e perguntava-se se tinha valido a pena estudar em Paris e em Oxford para ser incapaz de pensar que os manuscritos também se encadernam em grupos, coisa que até os noviços sabem, mesmo os estúpidos como eu, e um par de estúpidos como nós dois teria um rico êxito nas feiras, e era isso que devíamos fazer e não procurar resolver os mistérios, especialmente quando tínhamos diante gente muito mais astuta que nós.

- Mas é inútil chorar - concluiu depois. - Se o levou Malaquias, já o voltou a pôr na biblioteca. E só o encontraríamos se soubéssemos entrar no finis Africae. Se o levou Bêncio, terá imaginado que, mais tarde ou mais cedo, eu teria a suspeita que tive e voltaria ao laboratório, senão não teria agido tão depressa. E portanto ter-se-á escondido, e o único ponto onde decerto não se escondeu é aquele em que nós o procuraríamos imediatamente, isto é, a sua cela. Por isso voltemos ao capítulo e vejamos se durante a instrução o despenseiro dirá alguma coisa de útil. Porque, no fim de contas, não tenho ainda muito claro o plano de Bernardo, ele que procurava o seu homem antes da morte de Severino, e com outros fins.

Voltamos ao capítulo. Teríamos feito bem em ir à cela de Bêncio, porque como depois soubemos, o nosso jovem amigo não tinha realmente em tão grande estima Guilherme e não tinha pensado que voltasse tão depressa ao laboratório; por isso, julgando não ser procurado daquele lado, tinha precisamente ido esconder o livro na sua cela.

Mas sobre isto falarei depois. Entretanto aconteceram fatos tão dramáticos e inquietantes que nos fizeram esquecer o livro misterioso. E, se todavia o não esquecemos, fomos tomados por outras tarefas urgentes, relacionadas com a missão de que Guilherme continuava, apesar de tudo, encarregado.


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