Luz para a inteligência, Calor para a vontade

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Nome da Rosa - 36

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)


QUINTO DIA: VÉSPERAS 
Onde Ubertino se põe em fuga,
Bêncio começa a observar as leis
e Guilherme faz algumas reflexões
sobre os vários tipos de luxúria encontrados naquele dia.

Enquanto a assembléia dispersava lentamente da sala capitular, Miguel aproximou-se de Guilherme, e a ambos reuniu-se Ubertino. Todos juntos saímos para o ar livre, discutindo em seguida no claustro, protegidos pelo nevoeiro, que não dava sinais de diminuir, antes tornava-se ainda mais denso com as trevas. 

- Creio que não é necessário comentar quanto aconteceu - disse Guilherme. - Bernardo
derrotou-nos. Não me pergunteis se aquele imbecil dolciniano é verdadeiramente culpado de todos aqueles delitos. Por aquilo que me é dado compreender, não, sem dúvida alguma. O fato é que estamos como antes. João quer-te sozinho em Avinhão, Miguel, e este encontro não te forneceu as garantias que procurávamos. Pelo contrário, deu-te uma imagem de como cada palavra tua, lá, poderia ser desvirtuada. Daqui se deduz, parece-me, que tu não deves ir.

Miguel abanou a cabeça:

- Todavia irei. Não quero um cisma. Tu, Guilherme, hoje falaste claro e disseste o que quererias. Pois bem, não é o que eu quero, e dou-me conta que as deliberações do capítulo de Perugia foram usadas pelos teólogos imperiais para além das nossas intenções. Eu quero que a ordem franciscana seja aceita, nos seus ideais de pobreza, pelo papa. E o papa terá de compreender que só se a ordem assumir em si o ideal da pobreza se poderão reabsorver as suas ramificações heréticas. Eu não penso na assembléia do povo ou no direito das gentes. Eu tenho de impedir que a ordem se dissolva numa pluralidade de fraticelli. Irei a Avinhão e, se for necessário, farei ato de submissão a João. Transigirei em tudo, menos sobre o princípio de pobreza. 

Interveio Ubertino: 

- Sabes que arriscas a vida? 

- Assim seja - respondeu Miguel -, é melhor que arriscar a alma. 

Arriscou seriamente a vida e, se João estava na verdade (o que eu ainda não creio), também perdeu a alma. Como todos sabem, Miguel foi ter com o papa, na semana que se seguiu aos fatos que agora narro. Fez-lhe frente durante quatro meses, até que, em Abril do ano seguinte, João convocou um consistório em que o tratou de louco, temerário, teimoso, tirano, promotor de heresia, serpente nutrida pela Igreja no seu próprio seio. E há que pensar que, então, segundo o modo como ele via as coisas, João tinha razão, porque, naqueles quatro meses, Miguel tornara-se amigo do amigo do meu mestre, o outro Guilherme, o de Occam, e perfilhava as suas idéias - não muito diferentes, talvez ainda mais extremistas, daquelas que o meu mestre perfilhava com Marsílio e tinha expresso naquela manhã. A vida destes dissidentes tornou-se precária, em Avinhão, e, no fim de Maio, Miguel, Guilherme de Occam, Bonagrazia de Bérgamo, Francisco d'Ascoli e Henri de Talheim puseram-se em fuga, seguidos pelos homens do papa em Nice, Toulon, Marselha e Aigues Morres, onde se lhes juntou o cardeal Pierre de Arrablay, que procurou em vão induzi-los a voltar, sem vencer as suas resistências, o seu ódio para com o pontífice, o seu medo. Em Junho chegaram a Pisa, acolhidos em triunfo pelos imperiais, e nos meses seguintes Miguel havia de denunciar João publicamente. Demasiado tarde, porém. A fortuna do imperador estava a diminuir, de Avinhão João manobrava para dar aos menoritas um novo superior geral, obtendo por fim a vitória. Melhor teria feito Miguel naquele dia em não decidir ir ter com o papa: teria podido cuidar de perto da resistência dos menoritas, sem perder tantos meses à mercê do seu inimigo, enfraquecendo a sua posição... Mas talvez assim o tivesse predisposto a onipotência divina - e agora já nem sei quem de todos eles estava na verdade, e depois de tantos anos também o fogo das paixões se extingue, e com ele aquilo que se julgava ser a luz da verdade. Quem de nós é já capaz de dizer se tinham razão Heitor ou Aquiles, Agamémnon ou Príamo, quando se debatiam pela beleza de uma mulher que agora é cinza de cinzas?

Mas perco-me em melancólicas divagações. Devo, em vez disso, dizer o fim daquele triste colóquio. Miguel tinha decidido, e não houve modo de o convencer a desistir. À parte que se punha agora um outro problema, e Guilherme enunciou-o sem embargue: já nem o próprio Ubertino estava em segurança. As frases que lhe tinha dirigido Bernardo, o ódio que por ele já nutria o papa, o fato de que, enquanto Miguel representava ainda um poder com o qual tratar, Ubertino, pelo contrário, tinha permanecido sozinho, como partidário de si próprio...

- João quer Miguel na corte e Ubertino no inferno. Se bem conheço Bernardo, até amanhã, e com a cumplicidade do nevoeiro, Ubertino será morto. E, se alguém se perguntar por quem, a abadia bem poderá suportar outro delito, e dir-se-á que eram diabos invocados pelo Remígio com os seus gatos pretos, ou algum dolciniano supérstite que ainda vagueia por estas muralhas...

Ubertino estava preocupado:

- E então? - perguntou.

- Então - disse Guilherme -, vai falar com o Abade. Pede-lhe uma cavalgadura, provisões, uma carta para alguma abadia distante, para lá dos Alpes. E aproveita o nevoeiro e o escuro para partires imediatamente.

- Mas os archeiros não guardam ainda as portas?

- A abadia tem outras saídas, e o Abade conhece-as. Basta que um servo te espere numa das curvas inferiores com uma cavalgadura, e, saindo por alguma passagem da cerca, terás apenas de percorrer um pedaço de bosque. Deves fazê-lo imediatamente, antes que Bernardo se refaça do êxtase do seu triunfo. Eu tenho de me ocupar de mais alguma coisa, tinha duas missões, uma falhou, que ao menos não falhe a outra. Quero deitar a mão a um livro e a um homem. Se tudo correr bem, tu estarás fora daqui ainda antes que eu me preocupe contigo. Portanto adeus.

Abriu os braços. Comovido, Ubertino estreitou-o nos seus: 

- Adeus, Guilherme, és um inglês louco e arrogante, mas tens um grande coração. Voltaremos a ver-nos?

- Voltaremos a ver-nos - tranqüilizou-o Guilherme. - Deus há-de querer.

Deus, afinal, não quis. Como já disse, Ubertino morreu misteriosamente assassinado dois anos depois. Vida dura e aventurosa a deste velho combativo e ardente. Talvez não tenha sido um santo, mas espero que Deus tenha premiado aquela sua adamantina certeza de o ser. Quanto mais envelheço e mais me abandono à vontade de Deus, menos aprecio a inteligência que quer saber e a vontade que quer fazer: e reconheço como único elemento de salvação a fé, que sabe esperar pacientemente sem interrogar demasiado. E Ubertino teve certamente muita fé no sangue e na agonia de Nosso Senhor crucificado.

Talvez eu pensasse também então nestas coisas, e o místico velho apercebeu-se disso, ou adivinhou que as havia de pensar um dia. Sorriu-me com doçura e abraçou-me, sem o ardor com que me tinha apertado algumas vezes nos dias anteriores. Abraçou-me como um avô abraça o neto, e com o mesmo espírito lho retribuí. Depois afastou-se com Miguel para procurar o Abade. 

- E agora? - perguntei a Guilherme. 

- E agora voltamos aos nossos delitos. 

- Mestre - disse -, hoje sucederam coisas muito graves para a cristandade e falhou a vossa missão. E no entanto pareceis mais interessado na solução deste mistério que no reencontro entre o papa e o imperador. 

- Os loucos e as crianças dizem sempre a verdade, Adso. Será porque, como conselheiro imperial, o meu amigo Marsílio é mais dotado que eu, mas como inquisidor o mais dotado sou eu. Até mais dotado que Bernardo Gui, Deus me perdoe. Porque a Bernardo não interessa descobrir os culpados, mas sim queimar os imputados. E eu, pelo contrário, encontro o maior deleite, a maior alegria em deslindar uma meada bem intrincada. E será ainda porque, no momento em que, como filósofo, duvido que o mundo tenha uma ordem, me consola descobrir, se não uma ordem, pelo menos uma série de conexões em pequenas porções dos assuntos do mundo. Por fim há provavelmente outra razão: é que nesta história talvez estejam em jogo coisas maiores e mais importantes que a batalha entre João e Luís...

- Mas é uma história de roubos e de vinganças entre monges de pouca virtude! - exclamei duvidando.

- A volta de um livro proibido, Adso, à volta de um livro proibido - respondeu Guilherme.

Os monges estavam-se encaminhando agora para a ceia. A refeição já ia em meio quando se sentou a nosso lado Miguel de Cesena, avisando-nos que Ubertino tinha partido. Guilherme soltou um suspiro de alívio. 

No fim da ceia evitamos o Abade, que estava conversando com Bernardo, e localizamos Bêncio, que nos saudou com um meio-sorriso, tentando chegar à porta. Guilherme alcançou-o e obrigou-o a seguir-nos para um canto da cozinha. 

- Bêncio - perguntou-lhe Guilherme -, onde está o livro? 

- Qual livro? 

- Bêncio, nenhum de nós dois é tolo. Falo do livro que procurávamos hoje no laboratório de Severino e que eu não reconheci e que tu reconheceste muito bem e foste buscar depois... 

- Que vos faz pensar que eu o tenha levado? 

- Penso que é assim e tu também pensas. Onde está? 

- Não posso dizê-lo. 

- Bêncio, se não mo dizes, falarei com o Abade. 

- Não posso dizê-lo por ordem do Abade - disse Bêncio com ar virtuoso. - Hoje, depois de nos termos visto, aconteceu alguma coisa que tendes de saber. Depois da morte de Berengário, faltava um ajudante-bibliotecário. Hoje à tarde, Malaquias propôs-me tomar o seu lugar. Precisamente há meia hora, o Abade concordou, e a partir de amanhã de manhã, espero, serei iniciado nos segredos da biblioteca. É verdade, peguei no livro esta manhã, e tinha-o escondido no enxergão da minha cela sem sequer olhar pare ele, porque sabia que Malaquias me vigiava. E a certa altura Malaquias fez-me a proposta que eu vos disse. E agora fiz aquilo que deve fazer um ajudante-bibliotecário: entreguei-lhe o livro. 

Não pude impedir-me de intervir, e com violência. 

- Mas, Bêncio, ontem, e antes de ontem, tu... vós dizíeis que ardíeis de curiosidade de conhecer, que não queríeis que a biblioteca encerrasse mais mistérios, que um estudante deve saber... 

Bêncio calava-se, corando, mas Guilherme deteve-me: 

- Adso, já há algumas horas que Bêncio passou para o outro lado. Agora ele é o guarda daqueles segredos que queria conhecer, e enquanto os guarda terá todo o tempo que quiser para os conhecer. 

- Mas os outros? - perguntei. - Bêncio falava em nome de todos os sábios! 

- Antes - disse Guilherme. 

E arrastou-me consigo, deixando Bêncio na maior confusão. 

- Bêncio - disse-me depois Guilherme - é vítima de uma grande luxúria, que não é a de Berengário nem a do despenseiro. Como muitos estudiosos, tem a luxúria do saber. Do saber em si mesmo. Excluído de uma parte deste saber, queria apoderar-se dele. Agora apoderou-se dele. Malaquias conhecia o seu homem e usou o melhor meio pare reaver o livro e selar os lábios de Bêncio. Tu perguntar-me-ás de que serve controlar tanta reserva de saber se se aceita não o pôr à disposição de todos os outros. Mas é precisamente por isso que falei de luxúria. Não era luxúria a sede de conhecimento de Roger Bacon, que queria empregar as ciências para tornar mais feliz o povo de Deus, e portanto não procurava o saber pelo saber. A de Bêncio é apenas curiosidade insaciável, orgulho do intelecto, um modo como qualquer outro, paro um monge, de transformar e apaziguar os desejos da sua carne, ou o ardor que fez de outro um guerreiro da fé ou da heresia. Não existe apenas a luxúria da carne. É luxúria a de Bernardo Gui, desvairada luxúria de justiça que se identifica com uma luxúria de poder. É luxúria de riqueza a do nosso santo e já não romano pontífice. Era luxúria de testemunho e de transformação e de penitência e de morte a do despenseiro quando jovem. E é luxúria de livros a de Bêncio. Como todas as luxúrias, como a de Onan, que espalhava o seu próprio sêmen por terra, é luxúria estéril, e nada tem a ver com o amor, nem sequer com o carnal... 

- Eu sei - murmurei sem querer.
 
Guilherme fingiu que não ouviu. Mas, como continuando o seu discurso, disse:
 
- O amor verdadeiro quer o bem do amado. 

- Não será que Bêncio quer o bem dos seus livros (que agora são também seus) e pensa que o seu bem é ficarem longe de mãos rapaces? - perguntei.
 
- O bem de um livro reside em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro é portador de signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo. Esta biblioteca nasceu talvez para salvar os livros que contém, mas agora vive para os sepultar. Por isso tornou-se fonte de impiedade. O despenseiro disse que traíra. Assim fez Berengário. Traiu. Oh, que dia horrível, meu bom Adso! Cheio de sangue e de ruína. Por hoje já chega. Vamos nós também a completas, e depois vamos dormir.

Saindo da cozinha, encontramos Aymaro. Perguntou-nos se era verdade aquilo que se murmurava, que Malaquias tinha proposto Bêncio como seu ajudante. Não pudemos senão confirmar.

- Este Malaquias fez muitas coisas boas, hoje - disse Aymaro com o seu habitual esgar de desprezo e de indulgência. - Se houvesse justiça, o diabo viria buscá-lo esta noite.


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