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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O Nome da Rosa - 39

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

SEXTO DIA: LAUDAS 
Onde é eleito um novo despenseiro, mas não um novo bibliotecário.
 
Era já a hora de laudas? Era mais cedo ou mais tarde? A partir daquele momento perdi a noção do tempo. Passaram talvez horas, talvez menos, em que o corpo de Malaquias esteve estendido na igreja sobre um catafalco, enquanto os irmãos se dispunham em leque. O Abade dava disposições para as próximas exéquias. Ouvi-o chamar a si Bêncio e Nicolau de Morimondo. No espaço de menos de um dia, disse, a abadia tinha sido privada do bibliotecário e do despenseiro.

- Tu - disse a Nicolau - assumirás as funções de Remígio. Conheces o trabalho de muitos, aqui na abadia. Põe alguém em teu lugar de guarda às forjas, provê às necessidades imediatas de hoje, na cozinha, no refeitório. Estás dispensado dos ofícios. Vai. - Depois, a Bêncio: - Precisamente ontem à noite foste nomeado ajudante de Malaquias. Provê à abertura do scriptorium e vigia que ninguém suba sozinho à biblioteca. 

Bêncio fez timidamente observar que ainda não tinha sido iniciado nos segredos daquele lugar. O Abade fixou-o com severidade: 

- Ninguém disse que o serás. Tu vigia que o trabalho não pare e seja vivido como oração pelos irmãos mortos... e por aqueles que morrerão ainda. Cada um trabalhará apenas sobre os livros que já lhe foram entregues, quem quiser poderá consultar o catálogo. Nada mais. Estás dispensado das vésperas, porque àquela hora fecharás tudo. 

- E como sairei? - perguntou Bêncio. 

- É verdade, fecharei eu as portas de baixo depois da ceia. Vai. 

Saiu com eles, evitando Guilherme, que procurava falar-lhe. No coro ficavam, em pequeno grupo, Alinardo, Pacifico de Tivoli, Aymaro de Alexandria e Pedro de Sant'Albano. Aymaro escarnecia. 

- Agradeçamos ao Senhor - disse. - Morto o alemão, corríamos o risco de termos um novo bibliotecário mais bárbaro ainda. 

- Quem pensais que será nomeado para o seu lugar? - perguntou Guilherme. 

Pedro de Sant'Albano sorriu de modo enigmático: 

- Depois de tudo o que aconteceu nestes dias, o problema já não é o bibliotecário, mas sim o Abade... 

- Cala-te - disse-lhe Pacífico. 

E Alinardo, sempre com o seu olhar absorto: 

- Vão cometer outra injustiça... como nos meus tempos. É preciso impedi-los. 

- Quem? - perguntou Guilherme.

Pacífico pegou-lhe confidencialmente por um braço e acompanhou-o para longe do velho, em direção à porta. 

- Alinardo... tu bem sabes, amamo-lo muito, representa para nós a antiga tradição e os dias melhores da abadia... Mas por vezes fala sem saber o que diz. Todos nós estamos preocupados por causa do novo bibliotecário. Deverá ser digno, e maduro, e sábio... Eis tudo. 

- Deverá conhecer o grego? - perguntou Guilherme. 

- E o árabe, assim quer a tradição, assim exige o seu ofício. Mas há muitos entre nós com estes dotes. Eu, humildemente, e Pedro, e Aymaro... 

- Bêncio sabe grego? 

- Bêncio é demasiado jovem. Não sei porque é que Malaquias o escolheu ontem como seu ajudante, mas... 

- Adelmo conhecia o grego? 

- Creio que não. Aliás, não, sem dúvida. 

- Mas conhecia-o Venancio. E Berengário. Está bem, agradeço-te. 

Saímos para ir tomar qualquer coisa à cozinha. 

- Porque queríeis saber quem conhecia o grego? - perguntei. 

- Porque todos aqueles que morrem com os dedos negros conhecem o grego. Portanto não será mal esperarmos o próximo cadáver entre aqueles que sabem grego. Eu incluído. Tu estás salvo. 

- E que pensais das últimas palavras de Malaquias? 

- Tu ouviste-as. Os escorpiões. A quinta trombeta anuncia entre outras coisas a saída dos gafanhotos que atormentarão os homens com um aguilhão semelhante ao do escorpião, bem o sabes. E Malaquias fez-nos saber que alguém lho tinha anunciado. 

- A sexta trombeta - disse eu - anuncia cavalos com cabeças de leões de cuja boca sai fumo e fogo e enxofre, montados por homens cobertos de couraças cor de fogo, jacinto e enxofre. 

- Coisas de mais. Mas o próximo delito poderia ter lugar perto das cavalariças. Será preciso tê-las debaixo de olho. E preparemo-nos para o sétimo ressoar. Mais duas pessoas, portanto. Quem são os candidatos mais prováveis? Se o objetivo é o segredo do finis Africae, aqueles que o conhecem. E, que eu saiba, existe só o Abade. A menos que a trama não seja ainda outra. Como ouviste, há pouco, estavam conjurando para depor o Abade, mas Alinardo falou no plural... 

- Será preciso prevenir o Abade? - disse eu. 

- De quê? Que o matarão? Não tenho provas convincentes. Eu procedo como se o assassino raciocinasse como eu. Mas se perseguisse um outro desígnio? E se, sobretudo, não houvesse um assassino? 

- Que pretendeis dizer? 

- Não sei exatamente. Mas, como te disse, é preciso imaginar todas as ordens possíveis, e todas as desordens.


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