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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Nome da Rosa - 43

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

SEXTO DIA: SEXTA 
Onde se reconstrói a história dos bibliotecários
e se tem algumas notícias mais sobre o livro misterioso. 


Guilherme quis voltar a subir ao scriptorium, de onde tinha acabado de descer. Pediu a Bêncio para consultar o catálogo, e folheou-o rapidamente.

- Deve estar por estes lados - dizia -, tinha-o visto precisamente há uma hora... - Deteve-se sobre uma página. - Cá está – disse -, lê este título. 

Sob uma única referência (finis Africae!) estava uma série de quatro títulos, sinal que se tratava de um único volume que continha vários textos. Li: 
I. ar. de dictis cujusdam stulti 
II. syr. libellus alchemicus aegypt 
III. Expositio Magistri Alcofribae de cena beati Cypriani Cartaginensis Episcopi 
IV. Liber acephalus de stupris virginum et meretricum amoribus 

- De que coisa se trata? - perguntei.

- É o nosso livro - sussurrou-me Guilherme. - Eis porque o teu sonho me sugeriu alguma coisa. Agora tenho a certeza que é este. E de fato... - folheava rapidamente as páginas imediatamente precedentes e as seguintes - eis de fato os livros em que pensava, todos juntos. Mas não é isto o que queria verificar. Escuta. Tens a tua tabuinha? Bem, devemos fazer um cálculo, e procura recordar-te bem quer do que nos disse Alinardo no outro dia quer do que ouvimos esta manhã a Nicolau. Ora, Nicolau disse-nos que ele chegou aqui há cerca de trinta anos e Abbone já tinha sido nomeado abade. Antes era abade Paulo de Rimini. Certo? Digamos que esta sucessão tem lugar à volta de mil duzentos e noventa, mais ano, menos ano, não importa. Depois Nicolau disse-nos que, quando ele chegou, Roberto de Bobbio já era bibliotecário. Está bem? Morre depois, e o lugar é dado a Malaquias, digamos no início deste século. Escreve. Há porém um período que precede a vinda de Nicolau em que Paulo de Rimini é bibliotecário. Desde quando o era? Não no-lo disseram, poderíamos examinar os registros da abadia, mas imagino que estão na posse do Abade, e de momento não queria pedir-lho. Ponhamos a hipótese que Paulo foi eleito bibliotecário há sessenta anos, escreve. Por que é que Alinardo se queixa do fato que, há cerca de cinqüenta anos, lhe devia tocar a ele o lugar de bibliotecário e, ao contrário, foi dado a outro? Aludia a Paulo de Rimini? 

- Ou a Roberto de Bobbio! - disse eu. 

- Pareceria. Mas observa agora este catálogo. Sabes que os títulos são registrados, disse-no-lo Malaquias no primeiro dia pela ordem das aquisições. E quem os escreve neste catálogo? O bibliotecário. Portanto seguindo a mudança de caligrafia nestas páginas, podemos estabelecer a sucessão dos bibliotecários. Agora observemos o catálogo pelo fim, a última caligrafia é a de Malaquias, muito gótica, como vês. E enche poucas páginas. A abadia não adquiriu muitos livros nestes últimos trinta anos. Depois começa uma série de páginas escritas com uma caligrafia trêmula, leio aí claramente a assinatura de Roberto de Bobbio, doente. Também aqui são poucas páginas, Roberto permanece no cargo provavelmente não muito. E eis o que encontramos agora: páginas e páginas de outra caligrafia, direita e segura, uma série de aquisições (entre as quais o grupo de livros que examinava há pouco) verdadeiramente impressionante. Quanto deve ter trabalhado Paulo de Rimini! Demasiado, se pensares que Nicolau nos disse que se tornou abade em idade muito jovem. Mas suponhamos que em poucos anos este leitor voraz enriqueceu a abadia com tantos livros... Não nos foi dito que lhe chamavam Abbas agraphicus por causa daquele estranho defeito, ou doença, devido ao qual não conseguia escrever? E então quem escrevia aqui? Eu diria o seu ajudante-bibliotecário. Mas se, por acaso, este ajudante-bibliotecário tivesse sido depois nomeado bibliotecário, eis que teria continuado a escrever ele, e compreenderíamos porque há aqui tantas páginas redigidas com a mesma caligrafia. Então teríamos, entre Paulo e Roberto, outro bibliotecário, eleito há cerca de cinqüenta anos, que é o misterioso concorrente de Alinardo, o qual esperava suceder ele, mais velho, a Paulo. Depois este desaparece e de qualquer modo, contra as expectativas de Alinardo e de outros, para o seu lugar é eleito Malaquias. 

- Mas por que estais tão seguro que esta é a seqüência exata? Mesmo admitindo que esta seja a caligrafia do bibliotecário sem nome, porque é que, ao contrário, não poderiam ser de Paulo os títulos das páginas ainda precedentes? 

- Porque entre essas aquisições estão registradas todas as bulas e as decretais, que têm uma data precisa. Quero dizer, se tu encontras aqui, como encontras, a Firma cautela de Bonifácio sétimo, datada de mil duzentos e noventa e seis, sabes que este texto não entrou antes desse ano, e podes pensar que não terá chegado muito depois. Com isto, eu tenho como que marcos dispostos ao longo dos anos, pelo que, se concedo que Paulo de Rimini se torna bibliotecário em mil duzentos e sessenta e cinco e abade em mil duzentos e setenta e cinco, e encontro depois que a sua caligrafia, ou a de qualquer outro que não é Roberto de Bobbio, dura de mil duzentos e sessenta e cinco a mil duzentos e oitenta e cinco, descubro uma diferença de dez anos. 

O meu mestre era verdadeiramente muito perspicaz. 

- Mas que conclusões tirais dessa descoberta? - perguntei então. 

- Nenhuma - respondeu-me -, apenas premissas. 

Depois levantou-se e foi falar com Bêncio. Este estava corajosamente no seu posto, mas com um ar muito pouco seguro. Estava ainda à sua velha mesa e não tinha ousado ocupar a de Malaquias junto do catálogo. Guilherme abordou-o com uma certa distância. Não esquecíamos a desagradável cena da noite anterior. 

- Embora te tenhas tornado tão potente, senhor bibliotecário, quererás dizer-me uma coisa, espero. Naquela manhã em que Adelmo e os outros discutiram aqui sobre os enigmas argutos, e Berengário fez a primeira referência ao finis Africae, alguém nomeou a Coena Cypriani

- Sim - disse Bêncio -, não to tinha dito? Antes de se falar dos enigmas de Sinfósio, foi precisamente Venancio que se referiu à Coena, e Malaquias irritou-se, dizendo que era uma obra ignóbil e recordando que o Abade tinha proibido a todos a sua leitura... 

- O Abade, hem? - disse Guilherme. - Muito interessante. Obrigado, Bêncio. 

- Esperai - disse Bêncio -, quero falar-vos. 

Fez-nos sinal para o seguirmos para fora do scriptorium, para a escada que descia às cozinhas, de modo que os outros não o ouvissem. Tremiam-lhe os lábios. 

- Tenho medo, Guilherme - disse. - Também mataram Malaquias. Agora eu sei demasiadas coisas. E depois sou malvisto pelo grupo dos italianos... Não querem mais um bibliotecário estrangeiro... Eu penso que os outros foram eliminados precisamente por isso... Eu nunca vos falei do ódio de Alinardo por Malaquias, dos seus rancores... 

- Quem é que lhe tirou o lugar, há anos? 

- Isso não sei, ele fala sempre disso de modo vago, e depois é uma história remota. Devem estar todos mortos. Mas o grupo dos italianos à roda de Alinardo fala muitas vezes... falava muitas vezes de Malaquias como de um homem de palha, posto aqui por qualquer outro com a cumplicidade do Abade... Eu, sem dar conta disso... entrei no jogo oposto de duas facções... Só o compreendi esta manhã... A Itália é uma terra de conjuras, envenenam os papas, imaginemos um pobre rapaz como eu... Ontem não o tinha compreendido, julgava que tudo dizia respeito àquele livro, mas agora já não tenho a certeza, aquele foi o pretexto: vistes que o livro foi encontrado e Malaquias morreu na mesma... Eu devo... quero... queria fugir. Que me aconselhais?

- Que estejas calmo. Agora queres conselhos, não é verdade? Mas ontem à noite parecias o dono do mundo. Tolo, se me tivesses ajudado ontem teríamos impedido este último delito. Foste tu que deste a Malaquias o livro que o levou à morte. Mas diz-me ao menos uma coisa. Tu aquele livro tiveste-o nas mãos, tocaste-lhe, leste-o? E porque é que então não estás morto?

- Não sei. Juro, não lhe toquei, ou melhor, toquei-lhe para pegar nele no laboratório, sem o abrir, escondi-o sob a túnica e fui metê-lo na cela debaixo do enxergão. Sabia que Malaquias me vigiava e voltei imediatamente para o scriptorium. E depois, quando Malaquias me ofereceu que me tornasse seu ajudante, conduzi-o à minha cela e entreguei-lhe o livro. É tudo. 

- Não me digas que nem sequer o abriste. 

- Sim, abri-o, antes de o esconder, para ter a certeza de que era verdadeiramente aquele que também vós procuráveis. Começava com um manuscrito árabe, depois um que creio em sírio, depois havia um texto latino e por fim um em grego... 

Recordei-me das siglas que tínhamos visto no catálogo. Os primeiros dois títulos eram indicados como ar. e syr. Era o livro! Mas Guilherme insistia: 

- Portanto tocaste-lhe e não morreste. Então não se morre ao tocá-lo. E do texto grego que me sabes dizer? Olhaste para ele? 

- Muito pouco, o bastante para compreender que era sem título, começava como se lhe faltasse uma parte... 

- Liber acephalus... - murmurou Guilherme. 

- ...procurei ler a primeira página, mas na verdade eu conheço o grego muito mal, teria tido necessidade de empregar mais tempo. E por fim intrigou-me um outro pormenor, precisamente a propósito das folhas em grego. Não as folheei de todo porque não consegui. As folhas estavam, como dizer, impregnadas de umidade, não se separavam bem umas das outras. E isto porque o pergaminho era estranho... mais macio que os outros pergaminhos, o modo como a primeira página estava corroída, e quase se desfazia, era... em suma, estranho. 

- Estranho: a expressão também usada por Severino – disse Guilherme. 

- O pergaminho não parecia pergaminho... Parecia tecido, mas fino... - continuava Bêncio. 

- Charta lintea, ou pergaminho de pano - disse Guilherme. - Nunca o tinhas visto? 

- Ouvi falar, mas não creio tê-lo visto. Diz-se que é muito cara, e frágil. Por isso se usa pouco. Fazem-na os árabes, não é verdade? 

- Foram os primeiros. Mas também a fazem aqui em Itália, em Fabriano. E também... Mas com certeza, claro, com certeza! – Os olhos de Guilherme cintilavam. - Que bela e interessante revelação, muito bem, Bêncio, agradeço-te! Sim, imagino que aqui na biblioteca a charta lintea seja rara, porque não vos chegaram manuscritos muito recentes. E depois muitos temem que não sobreviva à passagem dos séculos como o pergaminho, e talvez seja verdade. Podemos imaginar se aqui queriam algo que não fosse mais perene que o bronze... Pergaminho de pano, hem? Bem, adeus. E está tranqüilo. Tu não corres perigo. 

- Verdade, Guilherme, assegurais-mo? 

- Asseguro-to. Se estiveres no teu lugar. Já arranjaste bastantes sarilhos. 

Afastamo-nos do scriptorium deixando Bêncio, se não completamente sereno, mais calmo. 

- Estúpido! - disse Guilherme entre dentes enquanto vínhamos para fora. - Podíamos já ter resolvido tudo se não se tivesse metido pelo meio... 


Encontramos o Abade no refeitório. Guilherme encarou-o e pediu-lhe um colóquio. Abbone não pôde tergiversar e marcou-nos encontro, dentro em pouco, na sua casa. 

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