Luz para a inteligência, Calor para a vontade

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 3

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

As Galinhas levaram um século para aprender
a não atravessar a rua


JPT: Voltemos às transformações técnicas que deveriam nos levar ou não a nos desviar dos livros. Provavelmente os instrumentos da cultura são hoje mais frágeis e menos duráveis que os nossos incunábulos, que resistem maravilhosamente ao tempo. Entretanto, essas novas ferramentas, queiramos ou não, convulsionam nossos modos de pensar e nos afastam daqueles que o livro induziu.

UE: A velocidade com que a tecnologia se renova impõe-nos um ritmo insustentável de reorganização contínua de nossos hábitos mentais, é verdade. A cada dois anos, seria preciso mudar de computador, uma vez que é precisamente dessa forma que são concebidos esses aparelhos: para se tornarem obsoletos após um certo prazo, consertá-los custando mais caro que substituí-los. A cada ano seria preciso mudar de carro porque o novo modelo apresenta vantagens em termos de segurança, de acessórios eletrônicos etc. E cada nova tecnologia implica a aquisição de um novo sistema de reflexos, o qual nos exige novos esforços, e isso num prazo cada vez mais curto. Foi preciso quase um século para as galinhas aprenderem a não atravessar a rua. A espécie terminou por se adaptar às novas condições de circulação. Mas não dispomos desse tempo.

JCC: Podemos realmente nos adaptar a um ritmo que vai se acelerando de uma maneira que nada justifica? Tomemos o exemplo da montagem das imagens no cinema. Chegamos a um ritmo tão rápido, com os videoclipes, que não podemos ir mais rápido. Além do mais, não veríamos mais nada. Tomo esse exemplo para mostrar de que maneira uma técnica engendrou sua própria linguagem e como a linguagem, em contrapartida, compeliu a técnica a evoluir, e dessa maneira mais apressada, mais precipitada. Nos filmes de ação americanos que vemos hoje, nenhum plano deve durar mais de três segundos. Isso se tornou uma espécie de regra. Um homem volta para casa, abre a porta, pendura seu casaco, sobe ao primeiro andar. Não acontece nada, nenhum perigo o ameaça, e a sequência é decupada em 18 planos. Como se a técnica carregasse a ação, como se a ação estivesse na própria câmera e não no que ela nos mostra. No início, o cinema é uma simples técnica. Instala-se uma câmera fixa e filma-se uma cena de teatro. Atores entram, fazem o que têm de fazer e saem. Não muito tempo depois, damo- nos conta de que, instalando uma câmera num trem em movimento, as imagens desfilam na câmera, depois na tela. A câmera pode possuir, elaborar e restaurar um movimento. Ela então começou a se mexer, prudentemente no início, nos estúdios, depois foi se tornando um personagem. Ela se voltou para a direita, depois para a esquerda. Em seguida, foi preciso colar as duas imagens assim obtidas. Era o início de uma nova linguagem, por intermédio da montagem. Bunuel, nascido em 1900, logo junto com o cinema, me contava que, quando ia ver um filme em 1907 ou 1908 em Saragoça, havia um "explicador", equipado com uma varinha comprida, encarregado de explicar o que se passava na tela. A nova linguagem ainda não era compreensível. Não estava assimilada. Mais tarde nos habituamos a ela, mas ainda hoje os grandes cineastas não cessam de refiná-la, aprimorá-la e até mesmo — felizmente — pervertê-la. Assim como na literatura, conhecemos no cinema uma "linguagem nobre", até mesmo grandiloqüente e enfática, uma linguagem corriqueira, banal e inclusive uma gíria. Sabemos também, como Proust dizia dos grandes escritores, que todo grande cineasta inventa, pelo menos em parte, sua própria linguagem.

UE: Numa entrevista, o político italiano Amintore Fanfani, nascido no início do século passado e, portanto numa época em que o cinema ainda não era realmente popular, explicava que não ia muito ao cinema porque pura e simplesmente não compreendia que o personagem que ele via em contra-campo era o mesmo que ele vira de frente no instante precedente.

JCC: De fato, era preciso tomar precauções consideráveis para não confundir o espectador, que penetrava num novo território de expressão. Em todo o teatro clássico, a ação tem sempre a mesma duração do que estamos vendo. Não existe corte no meio de uma cena de Shakespeare ou de Racine. No palco e na plateia, o tempo é o mesmo. Godard foi ura dos primeiros, acho, em Acossado, a filmar uma cena num quarto com dois personagens e manter apenas, na montagem, momentos, fragmentos dessa longa cena.

UE: Parece-me que o quadrinho já pensara há muito tempo essa construção artificial do tempo da narração. Mas, no que me diz respeito, eu, que sou um aficionado e um colecionador de quadrinhos dos anos 1930, sou incapaz de ler os álbuns mais recentes, digamos os mais vanguardistas. Ao mesmo tempo, não é preciso dar as costas para eles. Brinquei com meu neto, que aos 7 anos iniciava-se num desses jogos eletrônicos que ele tanto ama, e sofri uma derrota acachapante pelo placar de 10 a 280. Não obstante, sou um velho jogador de fliperama e frequentemente, quando tenho um tempinho, brinco no meu computador de matar monstros vindos do espaço, em tudo que é tipo de guerra galáctica, obtendo inclusive certo sucesso. Mas, nesse caso, tive que me curvar. Por outro lado, até meu neto, por mais talentoso que seja, talvez não consiga mais, aos 20 anos, compreender a nova tecnologia de seu tempo. Há, dessa forma, domínios do conhecimento em que é impossível pretender manter-se durante muito tempo a par das novas evoluções. Você não pode ser um pesquisador excepcional em física nuclear além dos esforços que você deve ter empenhado, anos a fio, para observar todos os dados e manter-se informado. Depois, você se torna professor ou entra nos negócios. Você é um gênio aos 22 anos porque você compreendeu tudo. Mas, aos 25 anos, você tem que passar o bastão. Mesma coisa para o jogador de futebol. Depois de certa idade, você vira treinador.

JCC: Fui visitar Lévi-Strauss, por sugestão de Odile Jacob, que queria que fizéssemos um livro de conversas juntos. Mas ele recusou muito educadamente, me dizendo: "Não quero repetir o que disse melhor anteriormente." Grande lucidez. Mesmo em antropologia, chega uma hora em que os jogos, os seus jogos, nossos jogos, estão feitos. Lévi-Strauss, que apesar de tudo comemorou seus 100 anos!

UE: Sou incapaz de ensinar atualmente, pelas mesmas razões. Nossa insolente longevidade não deve nos mascarar o fato de que o mundo dos conhecimentos está em revolução permanente e de que não fomos capazes de captar plenamente alguma coisa senão no lapso de um tempo necessariamente limitado.

JCC: Como explicar agora essa faculdade de adaptação do seu neto, capaz, aos 7 anos, de dominar essas novas linguagens que permanecem, a despeito de todos os nossos esforços, estrangeiras para nós?

UE: É uma criança parecida com as demais crianças de sua idade, que desde os 2 anos viu- se diariamente exposta a todo tipo de estímulos que não conhecíamos em minha geração. Quando levei meu primeiro computador para casa, em 1983, meu filho tinha exatamente 20 anos. Mostrei-lhe minha nova aquisição, propondo-lhe explicar seu funcionamento. Ele me respondeu que não estava interessado. Instalei-me então num canto para me lançar na exploração do meu novo brinquedo e encontrei, naturalmente, todo tipo de dificuldade (lembremse que na época escrevíamos em DOS, com linguagens de programação como Basic ou Pascal, não dispúnhamos do Windows, que mudou nossa vida). Meu filho, vendo-me atrapalhado um dia, aproximou-se do meu computador e me disse: "Você deveria fazer assim." O computador funcionou. Resolvi em parte esse mistério imaginando que, quando eu estava ausente, ele o utilizava à vontade. Mas subsistia a questão de saber como, se ambos tivéramos acesso à máquina, ele fizera para aprender mais rápido do que eu. Já pegara a sarna informática. Ao passo que eu e você tínhamos assimilado determinados gestos como girar a chave para ligar o carro, desligar o interruptor. No caso, tratava-se de clicar, simplesmente apertar. Meu filho estava muito à frente.

JCC: Girar ou clicar. A observação é prenhe de ensinamentos. Se penso no nosso uso do livro, nosso olho vai da esquerda para a direita e de cima para baixo. No caso da escrita árabe e persa, do hebraico, é o contrário. O olho vai da direita para a esquerda. Perguntei-me se esses dois movimentos não tinham influenciado os movimentos de câmera no cinema. A maioria dos travellings, no cinema ocidental, vai da esquerda para a direita, ao passo que verifiquei muitas vezes o contrário no cinema iraniano, para citar apenas este. Por que não imaginar que hábitos de leitura possam condicionar nossos modos de visão? Os movimentos instintivos de nossos olhos?

UE: Então seria preciso certificar-se de que um agricultor ocidental começa a cultivar sua plantação indo da esquerda para a direita para voltar da direita para a esquerda, e um agricultor egípcio ou iraniano da direita para a esquerda para voltar da esquerda para a direita. Porque o traçado do arado corresponde exatamente à escrita em bustrofédon. Com a ressalva de que, num caso, começaríamos pela direita e no outro, pela esquerda. Esta é uma questão muito importante que, a meu ver, não foi suficientemente estudada. Os nazistas teriam podido imediatamente identificar um camponês judeu. Mas voltemos ao que interessa. Falamos da mudança e de sua aceleração. Mas dissemos também que existiam novidades técnicas que não mudavam, isto é, o livro. Poderíamos acrescentar a bicicleta ou os óculos. Para não falar da escrita alfabética. Uma vez alcançada a perfeição, impossível ir mais longe.

JCC: Volto, se me permite, ao cinema e a essa espantosa fidelidade a si mesmo. Você diz que, com a Internet, voltamos à era alfabética? Eu diria que o cinema é sempre um retângulo projetado sobre uma superfície plana, e isto há mais de cem anos. Ele é uma lanterna mágica aperfeiçoada. A linguagem evoluiu, mas a forma continua a mesma. As salas de cinema equipam-se cada vez mais para acolher o cinema em relevo, e também a "visão global". Esperemos que não se trate de meros procedimentos sensacionalistas... Será que poderemos um dia, para falar apenas da forma, ir mais longe? Será que o cinema é jovem ou velho? Não tenho resposta. Sei que a literatura é velha. É o que me dizem. Mas, no fundo, talvez não seja assim tão velha... Talvez devêssemos evitar bancar aqui os Nostradamus, sob pena de nos vermos desmentidos daqui a pouco.

UE: A propósito de previsões desmentidas, recebi uma grande lição na minha vida. Eu trabalhava na época, falo dos anos 1960, numa editora. Chegou então às nossas mãos o livro de um sociólogo americano que apresentava uma análise muito interessante das novas gerações e anunciava o surgimento de uma nova geração de colarinho-branco e cabelos crew cut, ao estilo militar, completamente alheia à política, etc. Decidimos mandar traduzi-lo, mas a tradução era ruim e dediquei mais de seis meses a revisá-lo. Porém, durante esses seis meses, passáramos do início do ano de 67 para as revoltas de Berkeley e para as de maio de 68, e as análises do sociólogo nos pareciam singularmente caducas. Então peguei o manuscrito e joguei no lixo.

JCC: Falamos de suportes duráveis zombando de nós mesmos, de nossas sociedades que não sabem como armazenar nossa memória de modo duradouro. Mas creio que precisaríamos igualmente de profetas duráveis. Por que teria razão aquele futurólogo de Davos, que, cego e surdo à crise financeira que se aproximava, anunciava um barril a 500 dólares? De onde vem o seu sexto sentido? Ele tem diploma de profeta? O barril subiu para 150 dólares, depois o vimos descer de novo abaixo de 50, sem nenhuma explicação racional. Talvez suba de novo, ou desça mais ainda. Não fazemos a mínima idéia. O futuro não é uma profissão... A característica dos profetas, verdadeiros e falsos, é sempre enganar-se. Não sei mais quem dizia: "Se o futuro é o futuro, é sempre inesperado." A grande qualidade do futuro é ser perpetuamente surpreendente. Sempre me impressionou o fato de que, na grande literatura de ficção científica que vai do início do século XX ao fim dos anos 1950, nenhum autor tenha imaginado a matéria plástica, que assumiu lugar tão importante em nossas vidas. Projetamo-nos sempre na ficção, ou no futuro, a partir daquilo que conhecemos. Mas o futuro não procede do conhecido. Haveria mil exemplos a citar. Quando, nos anos 1960, ia trabalhar num roteiro no México, com Bunuel, num lugar sempre muito remoto, eu levava uma pequena máquina de escrever portátil com uma fita preta e vermelha. Se por azar a fita se rasgasse, eu não tinha nenhuma possibilidade de encontrar uma sobressalente em Zitacuaro, a cidade vizinha. Imagino o conforto que teria representado um computador para nós! Mas na época estávamos longe de vislumbrá-lo.

JPT: A homenagem aqui prestada ao livro procura simplesmente mostrar que as tecnologias contemporâneas estão longe de havê-lo desqualificado. Aliás, talvez devamos relativizar, em certos casos, os progressos que essas tecnologias supostamente representam. Penso, sobretudo no exemplo que você dá, Jean-Claude, de um Restif de La Bretonne imprimindo de manhãzinha o que presenciara durante a noite.

JCC: É uma proeza inegável. O grande colecionador brasileiro José Mindlin me mostrou uma edição dos Miseráveis publicada e impressa no Rio, em português, em 1862, isto é, no mesmo ano da publicação do livro na França. Apenas dois meses depois de Paris! Enquanto Victor Hugo escrevia, Hetzel, seu editor, despachava o livro, capítulo após capítulo, aos editores estrangeiros. Em outras palavras, a distribuição da obra era mais ou menos a desses best sellers atualmente disponíveis em diversos países e diversas línguas simultaneamente. Às vezes é útil relativizar nossas pretensas proezas técnicas. No caso de Victor Hugo, as coisas andavam mais rápido do que nos dias de hoje.

UE: No mesmo espírito, Alessandro Manzoni publicou Os noivos em 1827 e fez um grande sucesso graças a umas trinta edições piratas no mundo inteiro, que não lhe renderam um tostão. Ele quis fazer uma edição ilustrada com o editor Redaelli de Milão e o gravador Gonin de Turim e controlar sua publicação, fascículo após fascículo. Um editor napolitano pirateou-a semana após semana e ele perdeu todo o seu dinheiro no negócio. Isso é outra ilustração da relatividade de nossas proezas técnicas. Mas haveria muitos outros exemplos. No século XVI, Robert Fludd publicava três ou quatro livros por ano. Ele morava na Inglaterra. Os livros eram publicados em Amsterdã. Ele recebia as provas, corrigia-as, diagramava as gravuras, mandava tudo de volta..., mas como ele fazia? São livros ilustrados de seiscentas páginas! Os correios deviam ser melhores que os nossos! Galileu mantinha uma correspondência com Kepler e todos os cientistas de sua época. Era imediatamente informado de uma descoberta. Entretanto, talvez pudéssemos amenizar um pouco essa comparação que parece dar vantagem aos tempos antigos. Mandei traduzir nos anos 1960 (na função de editor) o livro de Derek de Solla Price, Little Science, Big Science. Nele, o autor demonstrava, com a ajuda de estatísticas, que o número de publicações científicas no século XVII era tão copioso que um bom cientista podia manter-se inteirado de tudo que acontecia, ao passo que hoje é impossível, para esse mesmo cientista, sequer tomar conhecimento dos "abstracts" referentes aos artigos publicados em seu domínio de pesquisa. Talvez ele não disponha mais, mesmo com os meios de comunicação mais ágeis, do tempo que tinha um cientista como Robert Fludd para levar a cabo tantos projetos editoriais...

JCC: Pegue nossos pen-drives e outros métodos para armazenar informação e carregá-la conosco. Nesse caso também, não inventamos nada. No fim do século XVIII, os aristocratas carregavam consigo, em maletas, bibliotecas de viagem durante seus deslocamentos. Em trinta ou quarenta volumes, formato de bolso, eles não se separavam de tudo que uma pessoa honesta devia conhecer. Essas bibliotecas, naturalmente, não eram avaliadas em gigas, mas o princípio estava implícito. Isso me lembra outra forma de "condensados", esta mais problemática. Nos anos 1970, eu morava em Nova York num apartamento colocado à minha disposição por um produtor de cinema. Não havia livros nesse apartamento, exceto uma estante contendo "as obras-primas da literatura mundial in digest form". Eis uma coisa, propriamente falando, irreal: Guerra e paz em cinquenta páginas, Balzac em um volume. Eu ficava boquiaberto. Estava tudo ali, mas incompleto, mutilado. Que trabalho gigantesco para tamanho absurdo!

UE: Há resumos e resumos. Nos anos 1930-1940, a Itália foi palco de uma experiência extraordinária chamada "La Scala d'Oro". Tratava-se de uma série de livros divididos por faixa etária. Havia a série de 7 a 8 anos, a de 8 a 9 anos, e assim por diante até os 14 anos, tudo magnificamente ilustrado pelos melhores artistas da época. Todas as grandes obras-primas da literatura tinham ali o seu lugar. Para poder torná-lo acessível ao público alvo, cada livro havia sido escrito por um bom escritor infanto-juvenil. Naturalmente, eles eram um pouco ad usum delphini. Por exemplo, Javert não se suicidava, apenas pedia demissão. Devo dizer que, mais velho, quando li Os miseráveis na versão original, foi que finalmente fiquei sabendo toda a verdade sobre Javert. Mas devo reconhecer que o essencial me havia sido transmitido.

JCC: Única diferença: essa biblioteca resumida, no apartamento do produtor, destinava-se a adultos. E inclusive, como desconfiei, talvez estivesse ali mais para ser mostrada, para ser vista, do que para ser lida. Dito isto, mutilações houve em todos os tempos. No século XVIII, as primeiras peças de Shakespeare traduzidas para o francês pelo abade Delille terminam todas bem, de maneira apropriada e moral, como os seus Miseráveis da coleção "La Scala d'Oro". Hamlet, por exemplo, não morre. Afora Voltaire, que havia traduzido, muito bem por sinal, algumas pequenas passagens, era a primeira vez que o público francês podia ler Shakespeare, nessa versão água com açúcar. Aquele autor, que diziam bárbaro e sanguinolento, não passava de delicadeza e sentimento. Sabe como Voltaire traduziu "To be or not to be, that is the question?" "Arrete, il faut choisir et passer à l’instant / De la vie à la mort ou de l’être au néant” [Pare, é preciso escolher e passar agora/ Da vida para a morte, do ser para o nada]. Nada mal, no fundo. É possível que o título de Sartre, O ser e o nada, tenha sido inspirado nessa tradução de Voltaire.

JPT: Você mencionava, Jean-Claude, os primeiros pen-drives que foram as bibliotecas de viagem que os letrados já transportavam consigo no século XVIII. Você acha que a maioria de nossas invenções é a realização de sonhos antigos da humanidade?

UE: O sonho de voar assombra o imaginário coletivo desde tempos imemoriais.

JCC: De fato, penso que inúmeras invenções da nossa época são a concretização de sonhos antiquíssimos. Eu dizia isso aos meus amigos cientistas Jean Audouze e Michel Casse, quando trabalhávamos juntos em nossas Conversas sobre o invisível. Um exemplo: recentemente, voltei a mergulhar no famoso livro VI da Eneida, quando Enéas desce aos Infernos para lá encontrar aquelas sombras que, para os romanos, eram ao mesmo tempo as almas dos que já tinham vivido, mas também as almas dos que viveriam um dia. O tempo é aqui abolido. O reino das sombras de Virgílio prefigura um espaço-tempo einsteiniano. Enquanto relia algumas páginas dessa viagem, eu ruminava que Virgílio já descera ao mundo virtual, nas entranhas de um imenso computador, onde se espremem avatares silenciosos. Todos os personagens com que você se depara nesse mundo foram alguém ou têm a possibilidade de ser alguém um dia. Na Eneida, Marcellus é um adolescente maravilhoso do qual se esperava muito na época de Virgílio, e que infelizmente morreu muito jovem. Quando alguém se dirige a esse adolescente para lhe dizer: "Tu serás Marcellus" (Tu Marcellus eris), quando os leitores sabem que ele está morto, vejo nisso toda a dimensão virtual, toda a potencialidade daquele que poderia ter sido alguém inesquecível, talvez o salvador providencial tão aguardado por nós, e que não seria senão Marcellus, um jovem defunto. Como se Virgílio tivesse tido a intuição desse mundo virtual do qual nos vangloriamos. Essa descida aos Infernos é um belíssimo tema, que a literatura universal abordou diversamente. É o único meio oferecido a nós para vencermos ao mesmo tempo o espaço e o tempo, isto é, penetrar no reino dos mortos ou das sombras e viajar simultaneamente no passado e no futuro, no ser e no nada. Alcançar assim uma forma de imortalidade virtual. Um outro exemplo sempre me impressionou. No Mahabharata, uma rainha, chamada Gandhari, acha-se grávida e não consegue parir. Ora, ela deve imperativamente fazê-lo a fim de que seu filho nasça antes do de sua cunhada, pois o primeiro a nascer será rei. Pede então a uma criada forte que pegue uma barra de ferro e lhe golpeie o ventre com todas as suas forças. Irrompe então de sua vagina uma bola de ferro que rola pelo chão. Ela quer jogá-la fora, fazê-la desaparecer, quando alguém lhe aconselha a cortar aquela bola em cem pedaços e colocar cada pedaço dentro de uma jarra, vaticinando-lhe que dessa forma lhe nascerão cem filhos. O que, de fato, acontece. Isso já não é uma imagem da inseminação artificial? Essas jarras não prefiguram nossos tubos de ensaio? E poderíamos sem dificuldade multiplicar os exemplos. Ainda no Mahabharata, esperma é conservado, transportado e reutilizado. A Virgem Maria, certa noite em Calanda, vem substituir a perna cortada de um camponês espanhol: eis uma prótese pioneira. E quantas clonagens, esperma utilizado após a morte do macho? Inclusive, quantas quimeras que julgávamos desaparecidas para sempre em nuvens distantes — cabeça de bode, rabo de cobra, garras de leão — que vemos ressurgir nos devaneios dos laboratórios?

UE: Não eram os redatores do Mahabharata que enxergavam o futuro. É o presente que realiza os sonhos dos homens que nos precederam. Você tem toda razão. Estamos, por exemplo, prestes a tornar real a fonte da juventude. Vivemos cada vez mais e temos a possibilidade de terminar nossos dias numa forma insolente.

JCC: Daqui a cinquenta anos, seremos todos criaturas biônicas. Vejo-o, por exemplo, Umberto, com olhos artificiais. Fiz uma cirurgia dos cristalinos há três anos, no momento em que se anunciava uma catarata, o que me dispensa agora de usar óculos, pela primeira vez na minha vida. E o resultado da operação tem uma garantia de cinquenta anos! Hoje meus olhos funcionam como um filtro, mas um dos meus joelhos anda me traindo. Cabe-me decidir se o troco ou não. Uma prótese me espera em algum lugar. Pelo menos uma.

JPT: O futuro é imprevisível. O presente entrou numa metamorfose contínua. O passado, que deveria oferecer uma base de referência e reconforto, furta-se. Estamos então falando de impermanência?

JCC: O futuro não leva em consideração o passado, nem tampouco o presente. Os aviadores trabalham hoje em aviões que ficarão prontos daqui a vinte anos, mas concebidos para funcionar com querosene, que talvez não exista mais. O que mais me impressiona é a completa extinção do presente. Estamos obcecados como nunca pelas modas retro. O passado nos alcança a toda velocidade, daqui a pouco teremos de nos curvar às modas do trimestre precedente. O futuro é como sempre incerto e o presente estreita-se progressivamente e se dilui.

UE: A propósito desse passado que nos alcança, instalei no meu computador as melhores rádios do mundo e tenho uma coleção de umas quarenta Oldies. Algumas rádios americanas oferecem uma programação voltada exclusivamente para os anos 1920 e 1930. Todas as demais sugerem que exploremos os anos 1990, já considerado um passado remoto. Uma recente pesquisa propunha o nome de Quentin Tarantino como o melhor cineasta de todos os tempos. O público interrogado não deve ter visto nem Eisenstein, nem Ford, nem Welles, nem Capra, etc. Esta continua sendo a falha desse tipo de sondagem. Escrevi um livro, nos anos 1970, sobre como fazer uma tese universitária, livro traduzido em todas as línguas. A primeira recomendação que eu fazia nesse livro, no qual dava realmente conselhos a respeito de tudo, era nunca escolher um assunto contemporâneo. Ou falta bibliografia ou ela está sujeita a exame. Escolham sempre, eu dizia, um assunto clássico. Ora, atualmente a maioria das teses aborda questões contemporâneas. Recebo assim uma profusão de teses dedicadas à minha obra! É uma loucura! Mas como fazer uma tese sobre um sujeito que ainda está vivo?

JCC: Se a nossa memória é curta, logo, efetivamente, é esse passado recente que apressa o presente e o impele, empurrando-o para um futuro que tomou a forma de um imenso ponto de interrogação. Talvez já de exclamação. Onde enfiaram o presente? O maravilhoso momento que estamos vivendo e que diversos conspiradores tentam nos roubar? Às vezes restabeleço contato com esse momento, no campo, escutando o sino da igreja dar calmamente, hora a hora, uma espécie de "lá" que nos traz de volta a nós mesmos. "Puxa, são só cinco horas..." Como você, viajo muito, perco-me nos corredores do tempo, nos fusos horários, e sinto uma necessidade, cada vez maior, de reatar com esse presente tão imponderável para nós. Caso contrário, eu teria a impressão de estar perdido. E até, talvez, morto.

UE: A diluição do presente de que você fala não se deve apenas ao fato de as modas, que antigamente duravam trinta anos, durarem hoje trinta dias. É também o problema da obsolescência dos objetos de que falamos. Você dedicava alguns meses de sua vida para aprender a andar de bicicleta, mas essa bagagem, uma vez adquirida, era válida para sempre. Agora, você dedica duas semanas a compreender alguma coisa de um novo software e, quando arduamente o domina, um novo é proposto e imposto. Logo, não é um problema de memória coletiva que se perderia. Seria antes, para mim, o da labilidade do presente. Não vivemos mais um presente plácido, estamos sempre buscando nos preparar para o futuro.

JCC: Estamos instalados no movediço, no cambiante, no renovável, no efêmero, numa época em que paradoxalmente, como dissemos, vivemos cada vez mais tempo. Provavelmente a expectativa de vida de nossos avós era mais curta que a nossa, mas eles se instalavam num presente imutável. O avô do meu tio, um proprietário de terras, fazia suas contas dia primeiro de janeiro para o ano todo. Os resultados do ano anterior prefiguravam, com poucas exceções, o que seria o ano seguinte. Nada mudava.

UE: Antigamente nos preparávamos para um exame final que concluía uma longa fase de aprendizagem: na Itália, o exame de madureza; na Alemanha, o Abitur; na França, o baccalauréat. Depois disso, ninguém era obrigado a aprender mais, exceto a elite que ia à universidade. O mundo não mudava. O que você sabia, podia utilizá-lo até sua morte e a de seus filhos. Aos 18 ou 20 anos as pessoas aposentavam-se epistemologicamente. O funcionário de uma empresa deve, em nossos dias, atualizar constantemente seus conhecimentos sob pena de perder o emprego. O rito de passagem que simbolizava esses grandes exames de fim de estudos não tem mais nenhuma significação.

JCC: O que você está dizendo valia também, por exemplo, para os médicos. A bagagem deles, quando terminavam seus estudos, permanecia válida para o restante de suas carreiras. E o que você fala sobre essa aprendizagem sem fim à qual todos são agora coagidos é igualmente válido para os que se dizem "aposentados". Quantas pessoas idosas tiveram que se iniciar na informática, que evidentemente não puderam conhecer durante seu período de atividade? Estamos condenados a ser eternos estudantes como o Trofimov de O jardim das cerejeiras. Melhor assim, talvez, no fundo. Nos mundos que chamamos primitivos, que não mudam, os velhos detêm o poder, uma vez que são eles que transmitem os conhecimentos a seus filhos. Quando o mundo está em revolução permanente são os filhos que ensinam eletrônica aos pais. E seus filhos, quem ensinará a eles?


Nenhum comentário: