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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Nome da Rosa - 45

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

SEXTO DIA: ENTRE VÉSPERAS E COMPLETAS 
Onde em breves palavras se contam longas horas de desvario.


Torna-se-me difícil contar aquilo que aconteceu nas horas que se seguiram, entre vésperas e completas.

Guilherme estava ausente. Eu vagueava à volta das cavalariças, mas sem notar nada de anormal. Os estribeiros estavam fazendo entrar os animais, inquietos por causa do vento, mas quanto ao resto tudo estava tranqüilo.

Entrei na igreja. Já todos estavam nos seus lugares nas estalas, mas o Abade notou a ausência de Jorge. Com um gesto atrasou o início do ofício. Chamou Bêncio para que fosse procurá-lo. Bêncio não estava. Alguém fez observar que estava provavelmente dispondo o scriptorium para fechar. O Abade disse, irritado, que se tinha estabelecido que Bêncio não fechasse nada, porque não conhecia as regras. Aymaro de Alexandria levantou-se do seu lugar: 

- Se Vossa Paternidade consente, vou eu chamá-lo... 

- Ninguém te pediu nada - disse o Abade bruscamente. 

E Aymaro voltou para o seu lugar, não sem ter lançado um olhar indefinível a Pacifico de Tivoli. O Abade chamou Nicolau, que não estava. Recordaram-lhe que estava dando as ordens para a ceia, e ele teve um gesto de contrariedade, como se lhe desagradasse mostrar a todos que se encontrava num estado de excitação. 

- Quero Jorge aqui - gritou -, procurai-o! Vai tu - ordenou ao mestre dos noviços. 

Um outro fez-lhe notar que faltava também Alinardo.

- Eu sei - disse o Abade -, está enfermo. 

Encontrava-me perto de Pedro de Sant’Albano e ouvi-o dizer ao seu vizinho, Gunzo de Nola, numa língua vulgar da Itália Central que em parte eu compreendia: 

- Imagino. Hoje quando saiu depois do colóquio o pobre velho estava transtornado. Abbone comporta-se como a puta de Avinhão! 

Os noviços estavam desorientados, com a sua sensibilidade de crianças ignaras pressentiam todavia a tensão que estava reinando no coro, como a pressentia eu. Passaram-se alguns longos momentos de silêncio e de embaraço. O Abade ordenou que se recitassem alguns salmos, e indicou ao acaso três, que não eram prescritos pela regra para vésperas. Olharam todos uns para os outros, depois recomeçaram a rezar em voz baixa. Voltou o mestre dos noviços seguido de Bêncio, que ocupou o seu lugar de cabeça baixa. Jorge não estava no scriptorium e não estava na sua cela. O Abade ordenou que o ofício tivesse início. 

No fim, antes de descerem todos para a ceia, fui chamar Guilherme. Estava estendido no seu catre, vestido, imóvel. Disse que não pensava que fosse tão tarde. Contei-lhe brevemente quanto tinha sucedido. Sacudiu a cabeça. 

À porta do refeitório vimos Nicolau, que poucas horas antes tinha acompanhado Jorge. Guilherme perguntou-lhe se o velho tinha entrado logo nos aposentos do Abade. Nicolau disse que tivera de esperar longamente à porta, porque na sala estavam Alinardo e Aymaro de Alexandria. Depois, Jorge tinha entrado, tinha ficado algum tempo dentro, e ele tinha-o esperado. Em seguida tinha saído e tinha-se feito acompanhar à igreja, uma hora antes de vésperas, ainda deserta. 

O Abade avistou-nos quando falávamos com o despenseiro. 

- Frade Guilherme – censurou -, estais ainda inquirindo? 

Fez-lhe sinal para se sentar à sua mesa, como habitualmente. A hospitalidade beneditina é sagrada. 

A ceia foi mais silenciosa que de costume, e triste. O Abade comia sem vontade, oprimido por sombrios pensamentos. No fim disse aos monges que se apressassem para completas. 

Alinardo e Jorge estavam ainda ausentes. Os monges apontavam para o lugar vazio do cego, sussurrando. No fim do rito, o Abade convidou todos a recitarem uma especial oração pela saúde de Jorge de Burgos. Não ficou claro se falava da saúde corporal ou da saúde eterna. Todos compreenderam que uma nova desgraça estava prestes a abater-se sobre aquela comunidade. Depois, o Abade ordenou a cada um que se apressasse, com maior diligência que de costume, para o seu catre. Ordenou que ninguém, e carregou sobre a palavra ninguém, ficasse a circular fora do dormitório. Os noviços, assustados, foram os primeiros a sair, com o capucho sobre o rosto, a cabeça inclinada, sem trocarem as piadas, as cotoveladas, os sorrisinhos, as maliciosas e ocultas rasteiras com que costumavam provocar-se (porque o noviço, embora jovem monge, não deixa de ser uma criança, e de pouco valem as repreensões do seu mestre, que não pode impedir que eles muitas vezes se comportem como crianças, como quer a sua tenra idade). 

Quando saíram os adultos segui, sem me fazer notar, atrás do grupo que já se caracterizava aos meus olhos como o dos «italianos». Pacifico estava murmurando a Aymaro: 

- Achas que Abbone não sabe verdadeiramente onde está Jorge? 

E Aymaro respondia: 

- Podia muito bem saber, e saber que de onde está não voltará mais. O velho quis talvez demasiado, e Abbone não o queria mais a ele... 

Enquanto eu e Guilherme fingíamos retirar-nos para o albergue dos peregrinos, avistamos o Abade, que entrava de novo no Edifício pela porta do refeitório ainda aberta. Guilherme aconselhou que esperássemos um pouco, depois, quando a esplanada ficou livre de qualquer presença, convidou-me a segui-lo. Atravessamos rapidamente os espaços vazios e entramos na igreja. 

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