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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Nome da Rosa - 46

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)


SEXTO DIA: DEPOIS DE COMPLETAS 
Onde, quase por acaso, Guilherme descobre o segredo
para entrar no finis Africae


Postamo-nos, como dois sicários, perto da entrada, atrás de uma coluna, de onde se podia observar a capela das caveiras. 

- Abbone foi fechar o Edifício - disse Guilherme. - Quando tiver trancado as portas por dentro não poderá sair senão pelo ossário. 

- E depois? 

- E depois veremos o que faz. 

Não pudemos saber o que fazia. Uma hora depois ainda não tinha saído. Foi ao finis Africae, disse eu. É possível, respondeu Guilherme. Preparado para formular muitas hipóteses, acrescentei: talvez tenha saído de novo pelo refeitório e tenha ido procurar Jorge. E Guilherme: também isso é possível. Talvez Jorge já esteja morto, imaginei ainda. Talvez esteja no Edifício e está a matar o Abade. Talvez estejam ambos noutro sítio e alguém mais os espere numa emboscada. Que queriam os «italianos»?, e por que é que Bêncio estava tão assustado? Não seria acaso uma máscara que tinha posto no rosto para nos enganar? Por que é que se tinha demorado no scriptorium durante vésperas, se não sabia nem como fechar nem como sair? Queria tentar a via do labirinto? 

- Tudo é possível - disse Guilherme. - Mas uma única coisa se dá, se deu, ou se está dando. E enfim a misericórdia divina nos está locupletando com uma luminosa certeza. 

- Qual? - perguntei cheio de esperança. 

- Que frade Guilherme de Baskerville, o qual tem agora a impressão de ter compreendido tudo, não sabe como entrar no finis Africae. Às cavalariças, Adso, às cavalariças. 

- E se nos encontra o Abade? 

- Fingiremos ser dois espectros. 

Não me pareceu uma solução praticável, mas calei-me. Guilherme estava a ficar nervoso. Saímos pelo portal setentrional e passámos através do cemitério, enquanto o vento sibilava com força, e pedi ao Senhor que não nos fizesse encontrar dois espectros a nós, que de almas penadas, naquela noite, na abadia não havia penúria. Chegamos às cavalariças e sentimos os cavalos cada vez mais inquietos por causa da fúria dos elementos. O portão principal da construção tinha, à altura do peito de um homem, um amplo gradeamento de metal, de onde se podia ver o interior. Entrevimos na obscuridade as silhuetas dos cavalos, reconheci Brunello porque era o primeiro à esquerda. À sua direita, o terceiro animal da fila levantou a cabeça sentindo a nossa presença e relinchou. Sorri: 

- Tertius equi - disse eu. 

- O quê? - perguntou Guilherme. 

- Nada, recordava-me do pobre Salvador. Queria fazer sabe-se lá que magia com aquele cavalo, e no seu latim designava-o como tertius equi. Que seria o u

- O u? - perguntou Guilherme, que tinha seguido o meu devaneio sem lhe prestar muita atenção. 

- Sim, porque tertius equi quereria dizer não o terceiro cavalo mas o terceiro do cavalo, e a terceira letra da palavra cavalo é o u. Mas é uma tolice... 

Guilherme olhou para mim, e no escuro pareceu-me distinguir-lhe o rosto alterado: 

- Deus te abençoe, Adso! - disse. - Mas decerto, suppositio materialis, o discurso assume-se de dicto e não de re... Que estúpido que eu sou! - Deu uma grande palmada na testa, com a mão aberta, de tal modo que se ouviu um estalo, e creio que se tenha magoado. - Meu rapaz, é a segunda vez hoje que pela tua boca fala a sabedoria, primeiro em sonhos e agora durante a vigília! Corre, corre à tua cela e traz a candeia, aliás, aquelas duas que temos escondidas. Não te deixes ver, e vem ter comigo depressa à igreja! Não faças perguntas, vai!

Fui sem fazer perguntas. As lâmpadas estavam debaixo do meu enxergão, cheias de azeite, porque já tinha provido a alimentá-las. Tinha o fuzil no saio. Com os dois preciosos instrumentos no peito corri para a igreja. 

Guilherme estava sob o trípode e estava relendo o pergaminho com os apontamentos de Venancio. 

- Adso! - disse-me -, primum et septimum de quatuor não significa o primeiro e o sétimo dos quatro, mas do quatro, da palavra quatro! 

Ainda não compreendia, depois tive uma iluminação: 

- Super thronos viginti quatuor! A inscrição! O versículo! As palavras que estão gravadas sobre o espelho! 

- Vamos! - disse Guilherme -, talvez possamos ainda salvar uma vida. 

- De quem? - perguntei, enquanto ele estava já manobrando à volta das caveiras e abrindo a passagem para o ossário. 

- De um que não merece - disse. 

E estávamos já no túnel subterrâneo, com as candeias acesas, em direção à porta que conduzia à cozinha. 

Já disse que naquele ponto se empurrava uma porta de madeira e nos achávamos na cozinha por trás da chaminé, aos pés da escada de caracol que introduzia no scriptorium. E, precisamente quando empurrávamos a porta, ouvimos à nossa esquerda rumores surdos no muro. Vinham da parede ao lado da porta, sobre a qual terminava a fila dos nichos com as caveiras e os ossos. Naquele ponto, no lugar do último nicho, havia um pedaço de parede plena, de grandes blocos de pedra quadrados, com uma velha lápide ao centro, que tinha gravados monogramas quase apagados. As pancadas vinham, parecia, de trás da lápide, ou então de cima da lápide, em parte atrás da parede, em parte quase sobre a nossa cabeça.

Se um acontecimento semelhante se tivesse produzido na primeira noite teria pensado imediatamente nos monges mortos. Mas agora estava pronto a esperar pior da parte dos monges vivos.

- Quem será? - perguntei. 

Guilherme abriu a porta e saiu por trás da chaminé. As pancadas ouviam-se também ao longo da parede que costeava a escada de caracol, como se alguém estivesse prisioneiro no muro, ou melhor, na espessura daquela parede (verdadeiramente vasta) que se podia presumir que compreendia o muro interno da cozinha e o exterior do torreão meridional. 

- Está alguém fechado aqui dentro - disse Guilherme. - Sempre me tinha perguntado se não existia outro acesso ao finis Africae, neste Edifício tão cheio de passagens. Evidentemente que há; do ossário, antes de subir à cozinha, abre-se um troço de parede e sobe-se por uma escada paralela a esta, escondida no muro, desembocando diretamente na sala murada. 

- Mas quem está agora lá dentro? 

- A segunda pessoa. Uma está no finis Africae, outra procurou alcançá-la, mas a de cima deve ter bloqueado o mecanismo que regula ambas as entradas. Assim, o visitante foi apanhado na ratoeira. E deve agitar-se muito porque, imagino, para aquele tubo não passará muito ar. 

- E quem é? Salvemo-lo! 

- Quem é vê-lo-emos dentro em pouco. E, quanto a salvá-lo, poder-se-á fazê-lo apenas desbloqueando o mecanismo do alto, porque deste lado não conhecemos o segredo. Portanto subamos depressa. 

Assim fizemos, subimos ao scriptorium, e dali ao labirinto, e alcançamos em breve o torreão meridional. Tive de, por duas vezes, refrear o meu ímpeto, porque o vento que naquela noite penetrava pelas seteiras criava correntes que, insinuando-se por aquelas aberturas, percorriam as salas gemendo, soprando sobre as folhas espalhadas sobre as mesas, e tinha de proteger a chama com a mão. 

Em breve chegamos à sala do espelho, já preparados para o jogo deformante que nos esperava. Levantamos as lâmpadas e iluminamos os versículos que encimavam a moldura, Super thronos viginti quatuor... Agora o segredo estava esclarecido: a palavra quatuor tem sete letras, era preciso acionar sobre o q e o r. Pensei, excitado, fazê-lo eu: pousei rapidamente a lâmpada sobre a mesa no centro da sala, executei o gesto nervosamente, a chama foi lamber a encadernação de um livro que ali estava pousado. 

- Atenção, tolo! - gritou Guilherme, e com um sopro apagou a chama. - Queres pegar fogo à biblioteca? 

Desculpei-me e fiz por reacender a candeia. 

- Não importa - disse Guilherme -, basta a minha. Toma-a e dá-me luz, porque a inscrição é demasiado alta e tu não chegarias lá. Façamos depressa. 

- E se estivesse lá dentro alguém armado? - perguntei, enquanto Guilherme, quase às apalpadelas, procurava as letras fatais, erguendo-se na ponta dos pés, alto como era, para tocar o versículo apocalíptico. 

- Dá-me luz, pelo demônio, e não temas, Deus está conosco! - respondeu-me bastante incoerentemente. 

Os seus dedos estavam tocando no q de quatuor, e eu, que estava uns passos atrás, via melhor que ele aquilo que estava fazendo. Já disse que as letras dos versículos pareciam entalhadas ou gravadas no muro: evidentemente as da palavra quatuor eram constituídas por silhuetas de metal, por trás das quais estava encaixado e murado um prodigioso mecanismo. Porque, quando foi empurrado para a frente, o q fez ouvir como que um golpe seco, e o mesmo aconteceu quando Guilherme acionou o r. A moldura inteira do espelho teve como que um sobressalto, e a superfície vítrea saltou para trás. O espelho era uma porta, articulada do lado esquerdo. Guilherme inseriu a mão na abertura que se tinha criado entre o bordo direito e o muro e puxou para si. Chiando, a porta abriu-se para nós. Guilherme insinuou-se na abertura e eu deslizei atrás dele, elevando a candeia sobre a cabeça. 

Duas horas depois de completas, no fim do sexto dia, no coração da noite que dava início ao sétimo dia, tínhamos penetrado no finis Africae.

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