Luz para a inteligência, Calor para a vontade

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Nome da Rosa - 44

(Continuação da obra "O Nome da Rosa", de Umberto Eco)

SEXTO DIA: NONA 
Onde o Abade se recusa a escutar Guilherme,
fala da linguagem das gemas e manifesta o desejo
de que não se indague mais sobre aqueles tristes acontecimentos.


 A casa do Abade ficava por cima do capítulo, e pela janela da sala, grande e suntuosa, em que ele nos recebeu, podiam ver-se, no dia sereno e ventoso, para lá do teto da igreja abacial, as formas do Edifício. 

O Abade, em pé diante de uma janela, estava precisamente a admirá-lo, e indicou-no-lo com um gesto solene. 

- Admirável fortaleza - disse -, que resume nas suas proporções a regra áurea que presidiu à construção da arca. Estabelecida sobre três andares, porque três é o número da trindade, três foram os anjos que visitaram Abraão, os dias que Jonas passou no ventre do grande peixe, os que Jesus e Lázaro passaram no sepulcro, as vezes que Cristo pediu ao Pai que o cálice amargo se afastasse dele, aquelas que se afastou a rezar com os apóstolos. Três vezes o renegou Pedro, e três vezes se manifestou aos seus depois da ressurreição. Três são as virtudes teologais, três as línguas sagradas, três as partes da alma, três as classes de criaturas intelectuais, anjos, homens e demônios, três as espécies do som, vox, flatus e pulsus, três as épocas da história humana, antes, durante e depois da lei. 

- Maravilhoso concerto de correspondências místicas - conveio Guilherme. 

- Mas também a forma quadrada - continuou o Abade - é rica de ensinamentos espirituais. Quatro são os pontos cardeais, as estações, os elementos, e o calor, o frio, o úmido e o seco, o nascimento, o crescimento, a maturidade e a velhice, e as espécies celestes, terrestres, aéreas e aquáticas dos animais, as cores constitutivas do arco-íris e o número dos anos que é necessário para fazer um bissexto. 

- Oh, decerto - disse Guilherme -, e três mais quatro são sete, número místico como nenhum outro, enquanto três multiplicado por quatro são doze, como os apóstolos, e doze vezes são cento e quarenta e quatro, que é o número dos eleitos. 

E, a esta última manifestação de místico conhecimento do mundo hiperurânio dos números, o Abade não teve mais nada a acrescentar. O que permitiu a Guilherme entrar no assunto. 

- Deveríamos falar dos últimos fatos, sobre os quais refleti longamente - disse. 

O Abade voltou as costas para a janela e encarou Guilherme com rosto severo: 

- Demasiado longamente, talvez. Confesso-vos, frade Guilherme, que esperava mais de vós. Desde que aqui chegastes que se passaram quase seis dias, quatro monges morreram, além de Adelmo, dois foram presos pela inquisição... foi justiça, decerto, mas poderíamos ter evitado esta vergonha se o inquisidor não tivesse sido obrigado a ocupar-se dos delitos precedentes... e por fim o encontro de que eu era medianeiro, e precisamente por causa de todos estes crimes, deu penosos resultados... Convireis que podia esperar um desfecho diverso de todos estes acontecimentos quando vos pedi para investigardes sobre a morte de Adelmo...

Guilherme calou-se embaraçado. Decerto que o Abade tinha razão. Disse no início deste relato que o meu mestre gostava de espantar os outros com a prontidão das suas deduções, e era lógico que o seu orgulho ficasse ferido quando o acusavam, e nem sequer injustamente, de lentidão.

- É verdade – admitiu -, não satisfiz as vossas expectativas, mas dir-vos-ei porquê, Vossa Sublimidade. Estes delitos não derivam de uma rixa ou de qualquer vingança entre os monges, mas dependem de fatos que têm por sua vez origem na história remota da abadia... 

O Abade olhou-o com inquietação: 

- Que pretendeis dizer? Também eu compreendo que a chave não está na desventurada história do despenseiro, que se cruzou com outra. Mas essa outra, essa outra que talvez eu conheça mas da qual não posso falar... esperava que ela se vos tivesse tornado clara, e que dela me falaríeis vós... 

- Vossa Sublimidade pensa em algum acontecimento de que veio a saber em confissão... - O Abade dirigiu o olhar para o outro lado, e Guilherme continuou: - Se Vossa Magnificência quer saber se eu sei, sem o saber de Vossa Magnificência, se houve relações desonestas entre Berengário e Adelmo, e entre Berengário e Malaquias, pois bem, isto todos o sabem na abadia... 

O Abade corou violentamente: 

- Não creio que seja útil falar de coisas semelhantes na presença deste noviço. E não creio, uma vez terminado o encontro, que vós ainda tenhais necessidade dele como escrivão. Sai, rapaz - disse-me em tom imperioso. 

Humilhado, saí. Mas, curioso como era, agachei-me atrás da porta da sala, que deixei entreaberta, de modo a poder seguir o diálogo. 

Guilherme recomeçou a falar: 

- Então, essas relações desonestas, se acaso tiveram lugar, tiveram um escasso papel nestes dolorosos acontecimentos. A chave é outra, e pensava que vós o imaginásseis. Tudo se desenrola em torno do furto e da posse de um livro, que estava escondido no finis Africae, e que agora voltou para lá por obra de Malaquias, sem que, porém, bem o vistes, a seqüência dos crimes se tenha interrompido. 

Houve um longo silêncio, depois o Abade recomeçou a falar com voz entrecortada e insegura, como de pessoa surpreendida por inesperadas revelações. 

- Não é possível... Vós... Vós como conseguis saber do finis Africae? Violastes o meu interdito e entrastes na biblioteca? 

Guilherme deveria ter dito a verdade, e o Abade ter-se-ia irado desmesuradamente. Não queria evidentemente mentir. Escolheu responder à pergunta com outra pergunta: 

- Não me disse Vossa Magnificência, durante o nosso primeiro encontro, que um homem como eu, que tinha descrito tão bem Brunello sem nunca o ter visto, não teria dificuldade em raciocinar sobre lugares a que não podia aceder? 

- É assim então - disse o Abade. - Mas porque pensais aquilo que pensais! 

- Como lá cheguei, é longo de contar. Mas foi cometida uma série de delitos para impedir a muitos de descobrirem algo que não se queria que fosse descoberto. Ora todos aqueles que sabiam alguma coisa dos segredos da biblioteca, ou por direito ou por fraude, estão mortos. Resta apenas uma pessoa, vós. 

- Quereis insinuar... quereis insinuar... 

O Abade falava como alguém a quem estivessem inchando as veias do pescoço. 

- Não me interpretais mal - disse Guilherme, que provavelmente tinha também tentado insinuar -, digo que há alguém que sabe e que quer que mais ninguém saiba. Vós sois o último a saber, vós poderíeis ser a próxima vítima. A menos que não me digais o que sabeis sobre aquele livro interdito e, sobretudo, quem é que na abadia poderia saber tanto como vós sabeis, e talvez mais, sobre a biblioteca. 

- Está frio aqui - disse o Abade. - Saiamos. 

Eu afastei-me rapidamente da porta e esperei-os ao cimo da escada que vinha de baixo. O Abade viu-me e sorriu-me. 

- Quantas coisas inquietantes deve ter ouvido este jovem monge nestes dias! Vamos, rapaz, não te deixes perturbar demasiado. Parece-me que se imaginaram mais tramas que aquelas que existem... 

Levantou uma mão e deixou que a luz do dia iluminasse um esplêndido anel que usava no anular, insígnia do seu poder. O anel cintilou em todo o fulgor das suas pedras. 

- Reconhece-lo, não é verdade? - disse-me. - Símbolo da minha autoridade mas também do meu fardo. Não é um ornamento, é uma esplêndida síntese da palavra divina de que sou guarda. – Tocou com os dedos a pedra, ou melhor, o triunfo das pedras variegadas que compunham aquela admirável obra-prima da arte humana e da natureza. - Eis a ametista – disse -, que é espelho de humildade e nos recorda a ingenuidade e a doçura de São Mateus; eis a calcedônia, insígnia de caridade, símbolo da piedade de José e de São Tiago Maior; eis o jaspe, que augura a fé, associado a São Pedro; e a sardônica, sinal de martírio, que nos recorda São Bartolomeu; eis a safira, esperança e contemplação, pedra de Santo André e de São Paulo; e o berilo, sã doutrina, ciência e longanimidade, virtudes próprias de São Tomás... Como é esplêndida a linguagem das gemas - continuou, absorto na sua visão mística -, que os lapidários da tradição traduziram do racional de Aarão e da descrição da Jerusalém celeste no livro do apóstolo. Por outro lado, as muralhas de Sião estavam cheias das mesmas jóias, que ornavam o peitoral do irmão de Moisés, salvo o carbúnculo, a ágata e o ônix, que, citados no Êxodo, são substituídos no Apocalipse pela calcedônia, pela sardônica, pelo crisoprázio e pelo jacinto. - Guilherme fez menção de abrir a boca, mas o Abade fê-lo calar levantando uma mão e continuou o seu discurso: - Recordo um livro de litanias em que cada pedra era descrita e rimada em honra da Virgem. Aí se falava do seu anel de noivado como de um poema simbólico resplandecente de verdades superiores manifestadas na linguagem lapidar das pedras que o embelezavam. Jaspe para a fé, calcedônia para a caridade, esmeralda para a pureza, sardônica para a placidez da vida virginal, rubi para o coração a sangrar no calvário, crisólito cuja cintilação multiforme recorda a maravilhosa variedade dos milagres de Maria, jacinto para a caridade, ametista, com a sua mistura de rosa e azul, para o amor de Deus... Mas no engaste estavam incrustadas outras substâncias não menos eloqüentes, como o cristal que remete para a castidade da alma e do corpo, o ligúrio, que se assemelha ao âmbar, símbolo de temperança, e a pedra magnética, que atrai o ferro, tal como a Virgem toca as cordas dos corações penitentes com o arco da sua bondade. Tudo substâncias que, como vedes, também ornam, embora em mínima e humilíssima medida, a minha jóia. - Movia o anel e deslumbrava os meus olhos com o seu fulgor, como se quisesse aturdir-me. - Maravilhosa linguagem, não é verdade? Para outros padres, as pedras significam outras coisas ainda, para o papa Inocêncio terceiro o rubi anuncia a calma e a paciência e a granada a caridade. Para São Bruno a água-marinha concentra a ciência teológica na virtude dos seus puríssimos reflexos. A turquesa significa alegria, a sardônica evoca os serafins, o topázio os querubins, o jaspe os tronos, o crisólito as dominações, a safira as virtudes, o ônix as potestades, o berilo os principados, o rubi os arcanjos e a esmeralda os anjos. A linguagem das gemas é multiforme, cada uma exprime mais verdade, segundo o contexto em que aparecem. E quem decide qual é o nível de interpretação e qual o justo contexto? Tu bem o sabes, rapaz, ensinaram-to: é a autoridade, o comentador entre todos mais seguro e mais investido de prestígio, e portanto de santidade. Senão, como interpretar os sinais multiformes que o mundo põe sob os nossos olhos de pecadores, como não tropeçar nos equívocos com que nos atrai o demônio? Repara, é singular como a linguagem das gemas repugna ao diabo, como testemunha Santa Hildegarda. A besta imunda vê nisso uma mensagem que se ilumina por sentidos ou níveis de sapiência diversos, e ele quereria desvirtuá-la, porque ele, o inimigo, descobre no esplendor das pedras o eco das maravilhas que tinha em seu poder antes da queda e compreende que estes fulgores são produzidos pelo fogo, que é o seu tormento. - Deu-me o anel a beijar, e eu ajoelhei-me. Acariciou-me a cabeça. - E portanto tu, rapaz, esquece as coisas sem dúvida errôneas que ouviste nestes dias. Tu entraste na ordem maior e mais nobre entre todas, desta ordem eu sou um Abade, tu estás sob minha jurisdição. E, portanto, ouve a minha ordem: esquece, e que os teus lábios se selem para sempre. Jura.

Comovido, subjugado, teria decerto jurado. E tu, meu bom leitor, não poderias agora ler esta minha crônica fiel. Mas naquela altura interveio Guilherme, e não talvez para impedir de jurar mas por reação instintiva, por enfado, para interromper o Abade, para quebrar aquele encanto que ele tinha certamente criado. 

- Que tem a ver o rapaz? Eu fiz-vos uma pergunta, eu adverti-vos de um perigo, eu pedi-vos que me dissésseis um nome... Querereis agora que também eu beije o anel e que jure esquecer quanto soube ou quanto suspeito? 

- Oh, vós... - disse melancolicamente o Abade. - Não espero de um frade mendicante que compreenda a beleza das nossas tradições, ou que respeite a discrição, os segredos, os mistérios de caridade... sim, de caridade, e o sentido da honra, e o voto do silêncio que rege a nossa grandeza... Vós falaste-me de uma estranha história, de uma história incrível. Um livro interdito, pelo qual se mata em cadeia, alguém que sabe aquilo que só eu deveria saber... Patranhas, inferências que carecem de todo sentido. Falai, se quiserdes, ninguém acreditará em vós. E se acaso algum elemento da vossa fantasiosa reconstrução fosse verdadeiro, pois bem, agora tudo recai sob o meu controle e a minha responsabilidade. Controlarei, tenho os meios, tenho autoridade para isso. Fiz mal desde o início em pedir a um estranho, por mais sábio, por mais digno de confiança que fosse, que indagasse sobre coisas que são somente da minha competência. Mas vós compreendeste-lo, haveis-mo dito, eu considerava no início que se tratava de uma violação do voto de castidade, e queria (imprudente que eu fui) que mais alguém me dissesse aquilo que tinha ouvido dizer em confissão. Bem, agora haveis-mo dito. Estou-vos muito grato por aquilo que fizestes ou tentastes fazer. O encontro das delegações teve lugar, a vossa missão aqui está terminada. Imagino que vos esperam com ansiedade na corte imperial, as pessoas não se privam por muito tempo de um homem como vós. Dou-vos licença para deixardes a abadia. Hoje talvez seja tarde, não quero que viajeis depois do sol-posto, as estradas são inseguras. Partireis amanhã de manhã, cedo. Oh, não me agradeçais, foi uma alegria ter-vos como irmão entre os irmãos e honrar-vos com a nossa hospitalidade. Podereis retirar-vos com o vosso noviço de modo a preparardes a bagagem. Saudar-vos-ei ainda amanhã ao romper da alba. Obrigado, de todo o coração. Naturalmente, não é necessário que continueis a conduzir as vossas investigações. Não perturbeis mais os monges. Ide, pois.

Era mais que uma despedida, estava a pôr-nos fora. Guilherme saudou e descemos as escadas. 

- Que significa? - perguntei. Não compreendia mais nada. 

- Tenta formular uma hipótese. Deverias ter aprendido como se faz. 

- Se é assim, aprendi que devo formular ao menos duas, uma em oposição à outra, e ambas inacreditáveis. Bem, então... - Degluti: pôr hipóteses deixava-me pouco à vontade. - Primeira hipótese, o Abade já sabia tudo e imaginava que vós não teríeis descoberto nada. Tinha-vos encarregado do inquérito antes, quando morreu Adelmo, mas pouco a pouco compreendeu que a história, era muito mais complexa, envolve-o de certo modo a ele, e não quer que vós ponhais a nu esta trama. Segunda hipótese, o Abade nunca suspeitou de nada (de quê, afinal, não sei, porque não sei em que vós estais agora pensando). Mas em todo o caso continuava a pensar que tudo fosse devido a um litígio entre... entre monges sodomitas... Agora porém vós abriste-lhe os olhos, ele compreendeu de repente algo de terrível, pensou num nome, tem uma idéia precisa sobre o responsável dos delitos. Mas, sendo assim, quer resolver a questão sozinho e quer afastar-vos, para salvar a honra da abadia. 

- Bom trabalho. Começas a raciocinar bem. Mas já vês que em ambos os casos o nosso Abade está preocupado com a boa reputação do seu mosteiro. Assassino ou vítima designada que seja, não quer que transpirem para além destas montanhas notícias difamatórias sobre esta santa comunidade. Mata-lhe os monges, mas não lhe toques na honra desta abadia. Ah, por... - Guilherme estava agora a ficar furioso. - Aquele bastardo de feudatário, aquele pavão que ficou célebre por ter feito de coveiro ao Aquinate, aquele odre inchado que existe só porque usa um anel grande como o cu de um copo! Raça de soberbo, raça de soberbos sois vós todos, os clunicenses, piores que príncipes, mais barões que os barões! 

- Mestre... - ousei, picado, em tom de censura. 

- Cala-te, tu, que és da mesma massa. Vós não sois simples, nem filhos de simples. Se vos calha um camponês acolhei-lo, talvez, mas, como vi ontem, não hesitais em entregá-lo ao braço secular. Mas um dos vossos não, é preciso cobrir, Abbone é capaz de encontrar o desgraçado e de o apunhalar na cripta do tesouro, e de lhe distribuir os rojões pelos seus relicários, contanto que a honra da abadia seja salva... Um franciscano, um plebeu menorita que descobre o ninho de vermes desta santa casa? Isso não, isto Abbone não pode permiti-lo a nenhum preço. Obrigado, frade Guilherme, o imperador precisa de vós, vistes que belo anel que eu tenho, até mais ver. Mas agora o desafio não é apenas entre mim e Abbone, é entre mim e toda esta história, eu não saio desta cerca antes de ter sabido. Quer que eu parta amanhã de manhã? Bem, ele é o dono da casa, mas até amanhã de manhã eu devo saber. Devo. 

- Deveis? Quem vo-lo impõe, agora? 

- Ninguém nos impõe que saibamos, Adso. Deve-se, eis tudo, mesmo a custo de compreender mal. 

Ainda estava confuso e humilhado pelas palavras de Guilherme contra a minha ordem e os seus abades. E tentei justificar em parte Abbone formulando uma terceira hipótese, arte em que me tinha tornado, parecia-me, habilíssimo: 

- Não considerastes uma terceira possibilidade, mestre - disse. - Notamos nestes dias, e esta manhã pareceu-nos claro, depois das confidências de Nicolau e das murmurações que captamos na igreja, que há um grupo de monges italianos que suportavam mal a seqüência dos bibliotecários estrangeiros, que acusam o Abade de não respeitar a tradição e que, pelo que compreendi, se escondem atrás do velho Alinardo, empurrando-o à sua frente como um estandarte, para pedir um diverso governo da abadia. Estas coisas compreendi-as bem, porque mesmo um noviço ouviu no seu mosteiro muitas discussões, e alusões, e conluios desta natureza. E então talvez o Abade tema que as vossas revelações possam oferecer uma arma aos seus inimigos, e quer resolver toda a questão com grande prudência... 

- É possível. Mas permanece um odre inchado, e far-se-á assassinar. 

- Mas vós que pensais das minhas conjecturas? 

- Dir-te-ei mais tarde. 

Estávamos no claustro. O vento era cada vez mais furioso, a luz menos clara, mesmo se pouco passava de nona. O dia aproximava-se do ocaso e restava-nos bem pouco tempo. A vésperas certamente o Abade avisaria os monges que Guilherme já não tinha nenhum direito de fazer perguntas e de entrar em toda a parte. 

- É tarde - disse Guilherme -, e quando se tem pouco tempo o pior é perder a calma. Devemos agir como se tivéssemos a eternidade diante de nós. Tenho um problema a resolver, como penetrar no finis Africae, porque lá deveria estar a resposta final. Depois devemos salvar uma pessoa, ainda não decidi qual. Por fim devemos esperar qualquer coisa do lado das cavalariças, que tu terás debaixo de olho... Olha quanto movimento... 

De fato, o espaço entre o Edifício e o claustro tinha-se singularmente animado. Um noviço, pouco antes, proveniente da casa do Abade, tinha corrido para o Edifício. Agora saia de lá Nicolau, que se dirigia aos dormitórios. Num canto, o grupo da manhã, Pacífico, Aymaro e Pedro, estavam falando insistentemente com Alinardo, como para o convencerem de qualquer coisa. Depois pareceram tomar uma decisão. Aymaro segurou Alinardo, ainda relutante, e encaminhou-se com ele para a residência abacial. Iam a entrar ali, quando do dormitório saiu Nicolau, que conduzia Jorge na mesma direção. Viu os dois que entravam, sussurrou qualquer coisa ao ouvido de Jorge, o velho sacudiu a cabeça, e prosseguiram mesmo assim para o capítulo. 

- O Abade toma conta da situação... - murmurou Guilherme com cepticismo. 

Do Edifício estavam saindo outros monges que deveriam estar no scriptorium, seguidos logo depois por Bêncio, que veio ao nosso encontro cada vez mais preocupado. 

- Há efervescência no scriptorium - disse-nos -, ninguém trabalha, todos falam animadamente entre si... Que acontece?

- Acontece que as pessoas que até esta manhã pareciam as mais suspeitas estão todas mortas. Até ontem todos se guardavam de Berengário, tolo e infiel e lascivo, depois do despenseiro, herege suspeito, por fim de Malaquias, tão antipático a todos... Agora já não sabem de quem se guardar, e têm necessidade urgente de encontrar um inimigo, ou um bode expiatório. E cada um suspeita do outro, alguns têm medo, como tu, outros decidiram meter medo a qualquer outro. Estais todos demasiado agitados. Adso, dá de vez em quando uma olhadela às cavalariças. Eu vou descansar.


Deveria ter-me espantado: ir descansar, quando tinha poucas horas ainda à disposição, não parecia a resolução mais sábia. Mas agora conhecia o meu mestre. Quanto mais o seu corpo estava descontraído mais a sua mente estava em efervescência. 

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