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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Para distinguir entre educação e doutrinação


Pequeno roteiro para distinguir 
entre educação e doutrinação



- Texto de ALEXANDRE MAGNO FERNANDES MOREIRA -

O termo “educação” é o de problemática definição. Vários sentidos, muitas vezes com pouquíssima relação entre si, foram se agregando à palavra “educação” com o passar do tempo. A razão para essa infindável diversidade semântica foi a excepcional circunstância de que, a partir do Iluminismo, a educação passou a ter uma forte conotação emocional, significando “o instrumento fundamental de transformação individual e social”. Nesse sentido, a educação passou a ser um conceito agregador de todas as transformações sociais e individuais visualizadas pelas mais diversas correntes ideológicas.
Entre as várias definições reconhecidas de educação, destaco:

“Educação desenvolve no corpo e na alma do aluno toda a beleza e toda a perfeição de que ele é capaz.” (Platão)

“A educação é a criação da mente sadia em um corpo sadio. Desenvolve a faculdade do homem, especialmente sua mente, para que ele possa ser capaz de desfrutar a contemplação da verdade suprema, a bondade e beleza.” (Aristóteles)
“A educação é o desenvolvimento da criança de dentro.” (Rousseau)

“A educação é desdobramento do que já existe em germe. É o processo através do qual a criança faz com que o interno torne-se externo.” (Froebel)

“A educação é o desenvolvimento harmonioso e progressivo de todos os poderes e faculdades inatas do ser humano – físicas, intelectuais e morais.” (Pestalozzi)

“A educação é o completo desenvolvimento da individualidade da criança para que ela possa fazer uma contribuição original para a vida humana de acordo com o melhor de sua capacidade.” (T. P. Nunn)
Apesar dessa diversidade de definições, é possível identificar uma essência comum a todas elas: a educação diz respeito a um desenvolvimento, uma maturação, um florescimento do potencial individual. [1] Nesse sentido, a educação não é um pensamento ou uma teoria, mas uma forma de ação concreta sobre o indivíduo:

Educação é ação, e a definição de Durkheim parece-nos excelente: “A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não amadureceram pela vida social.” Ação de uma personalidade sobre outras, criação de comunicações psicológicas entre seres humanos, a educação pertence ao domínio da arte: a arte de criar condições favoráveis a essa ação profunda, suscetível de orientar a evolução de um sujeito, a arte de manejar certas técnicas de ação, a arte de conduzir para os objetivos determinados aqueles cujo encargo nos pertence.
Analiticamente, é possível constatar que a educação:

Compreende diversos processos de aprendizagem no decorrer da vida, sem limitação a uma situação específica, como a escolar;


a)Consiste essencialmente no desenvolvimento de um poder inato da pessoa;

b)É um processo dinâmico, que se desenvolve de acordo com as mudanças na situação concreta da pessoa;

c)Em regra, é um processo tripolar, que requer a participação do educador, do educando e da sociedade em que eles vivem.

Propaganda [2] ou doutrinação é uma forma de comunicação que busca influenciar o comportamento dos destinatários em direção a determinada causa ou  ideologia. A modificação comportamental, por sua vez, consiste em um estágio mais avançado da doutrinação, pois utiliza técnicas empiricamente demonstradas para aumentar ou diminuir a frequência de um comportamento. Há controvérsia a respeito da possibilidade de uma diferenciação essencial entre educação e propaganda ou doutrinação. Porém, considerando a educação no sentido clássico de “formação integral do ser humano”, é possível realizar uma série de distinções entre educação e doutrinação ou propaganda, como será detalhado no quadro a seguir.

Doutrinação e propaganda
Educação
Unilateral: Diferentes ou opostos pontos de vista são ignorados, deturpados, subrepresentados ou denegridos.
Multifacetada: As questões são examinadas a partir de muitos pontos de vista; os lados opostos são equitativamente representados.
Usa generalizações, declarações “totalizantes” e despreza referências e dados específicos.
Usa qualificadores: as declarações são apoiadas em referências e dados específicos.
Omissão seletiva: Dados cuidadosamente selecionados – e mesmo distorcidos – para apresentar apenas o melhor ou o pior caso possível. A linguagem é usada para esconder.
Equilibrado: Apresenta as amostras de uma ampla gama de dados disponíveis sobre o assunto. Linguagem usada para revelar.
Uso enganador das estatísticas.
Referências estatísticas qualificadas com respeito ao tamanho, duração, critérios, controles, fonte e subsídios.
Aglomeração: ignora distinções e diferenças sutis. Tenta reunir elementos superficialmente semelhantes. Raciocina por analogia.
Discriminação: Assinala as diferenças e distinções sutis. Use analogias com cuidado, apontando diferenças e casos de inaplicabilidade.
Falso dilema (ou/ou): apenas duas soluções para o problema ou duas maneiras de ver a questão - o “caminho certo” (o caminho do orador ou do escritor) e o “caminho errado” (qualquer outra forma).
Alternativas: Há muitas maneiras de resolver um problema ou visualizar uma questão.
Apelos a autoridade: declarações selecionadas de autoridades utilizadas para encerrar uma discussão. Abordagem “Só o especialista sabe”.
Apelos à razão: Declarações de autoridades e partes envolvidas utilizadas para estimular o pensamento e a discussão. “Especialistas raramente concordam”.
Apelos ao consenso ou “efeito arrastão”: “Se todo mundo está fazendo isso, então devem estar certos”.
Apelos aos fatos: fatos selecionados a partir de ampla base de dados. Aspectos lógicos, éticos, estéticos e psicoespirituais considerados.
Apelos às emoções: Usa palavras e imagens com fortes conotações emocionais.
Apelos à capacidade das pessoas para respostas fundamentadas e atenciosas: usa explicações e palavras emocionalmente neutras.
Rotulagem: usa rótulos e linguagem depreciativa para descrever os defensores de pontos de vista opostos.
Evita rótulos e linguagem depreciativa: aborda o argumento, e não as pessoas que apoiam um ponto de vista específico.
Promove atitudes de ataque e/ou de defesa com o objetivo de vender uma atitude ou produto.
Promove atitudes de abertura e de pesquisa. O objetivo é descobrir.
Ignora os pressupostos e os vieses embutidos.
Explora os pressupostos e os vieses embutidos.
O uso da linguagem promove a falta de consciência.
O uso da linguagem promove maior consciência.
Pode levar à pobreza de espírito e à intolerância.
Pode levar à compreensão e à visão mais abrangente.
Estudos citados escondem os conflitos de interesse das fontes de financiamento.
Estudos citados revelam os conflitos de interesse das fontes de financiamento.
As estatísticas sempre são apresentadas para mostrar o máximo de dano do problema e mínimo de danos da solução.
As estatísticas são apresentadas para mostrar vários aspectos do problema, nem sempre a partir de uma abordagem maximalista ou minimalista.
Notas:
[1] A palavra “educação” vem do latim educativo, que significa não apenas “educação, instrução”, mas também “ação de criar, alimentar; alimentação; criação; cultura”. É significativo ainda que a palavra educator, que deu origem a “educador” significa “aquele que cria, alimenta; pai; o que faz as vezes de pai. Aio; preceptor”. Por fim, educo significa “conduzir para fora; fazer sair; tirar de” (TORRINHA, Francisco. Dicionário Latino-Português, p. 278. Porto: Edições Maranus, 1945)

2] É preciso diferenciar propaganda de publicidade. A despeito de ambas terem por objeto a indução de determinados comportamentos, a propaganda tem um escopo mais amplo, pois busca definir uma ampla gama de comportamentos do destinatário, enquanto a publicidade busca apenas induzir os destinatários a se tornarem consumidores de terminados produtos ou serviços.

Alexandre Magno Fernandes Moreira
 é advogado.
(Fonte: MSM)

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