Luz para a inteligência, Calor para a vontade

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 7

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

Livros que fazem de tudo para cair nas nossas mãos


JPT: Vocês parecem ter rastreado alguns livros, às vezes com grande obstinação. Para completar a série de um autor, ou então para enriquecer suas coleções temáticas. E, também, simplesmente por amor ao belo objeto ou ao que tal livro em particular podia simbolizar para vocês. Vocês têm histórias a nos contar sobre esse minucioso trabalho de detetive?

JCC: Conto-lhe a esse respeito uma visita à diretora dos Arquivos Nacionais, há uns dez anos. Convém saber que diariamente, nos Arquivos, na França como em todos os países que possuem algo similar, um caminhão vem buscar um monte de papéis velhos que houveram por bem destruir. Pois, naturalmente, é preciso abrir espaço para receber o que entra diariamente nos Arquivos. Nesse caso também, é preciso destruir, é preciso filtrar, é a lei do mundo. Antes de o caminhão vir pegar sua carga, às vezes eles chamam alguns "papeleiros", amantes de papéis velhos, atos de cartório, certidões de casamento, que vêm e se servem gratuitamente no que vai ser destruído. A diretora me contou que um dia chegou a seu escritório e se preparou para entrar no perímetro do prédio, quando um desses caminhões saiu e passou bem em frente a ela. É a ideia, de que gosto muito, do "olho treinado". Do olho que aprendeu a ver, do olho que só esperava aquilo. Ela então se afastou para deixar o caminhão sair e viu, saindo de uma grande trouxa, um pedaço de papel amarelecido. Mandou o caminhão parar imediatamente, desamarrar o barbante, abrir o embrulho em questão e deu com um dos raros cartazes conhecidos de L'Illustre-Théâtre de Molière da época em que ele ainda se apresentava na província! Como o cartaz chegara lá? E por que o mandavam para a incineração? Quantos documentos preciosos, livros raros, foram entregues à destruição por simples distração, inadvertência, negligência? Os negligentes fizeram mais estragos, talvez, do que os destruidores.

UE: Um colecionador deve efetivamente possuir esse olho treinado que você menciona. Meses atrás, eu estava em Granada, e, após ter visto Alhambra e todas as coisas que devia ver, um amigo me levou, a pedido meu, para consultar as prateleiras de uma livraria de livros antigos. Reinava lá uma desordem pouco comum e eu farejava sem grande sucesso numa pilha de livros em espanhol que não apresentavam o menor interesse para mim, quando, de repente, meu olhar foi atraído por dois livros que peço para catarem. Eu tinha me deparado com dois livros de mnemotécnica em espanhol. Paguei por um e o vendedor me deu o outro de brinde. Você pode me dizer que isso é um golpe de sorte, que talvez devessem existir outros tesouros no livreiro. Tenho certeza que não. Há uma espécie de faro canino que nos faz ir direto em cima da presa.

JCC: Tive a oportunidade de dar uma volta com meu amigo Gérard Oberlé, livreiro bem conhecido e excelente escritor, pelos buquinistas. Ele entra numa loja e examina demoradamente as prateleiras, em silêncio. Num dado momento, dirige-se para O livro que o esperava. É o único que ele toca e único que ele pega. Da última vez, tratava-se do livro que Samuel Beckett escreveu sobre Proust, difícil de encontrar na edição original. Conheci também, na rua de l'Université, um excelente livreiro especializado em livros e objetos científicos. Estudante, ele me deixava entrar em sua loja, bem como meus companheiros, sabendo muito bem que nós não podíamos comprar nada dele. Mas ele nos falava, nos mostrava belas coisas. Foi um dos que formaram meu gosto. Morava à rua du Bac, do outro lado do bulevar Saint-Germain. Volta uma noite para casa, sobe a rua du Bac, atravessa o bulevar e, fazendo seu trajeto, percebe, saindo de uma lata de lixo, um pedaço de latão que atrai seu olhar. Ele para, levanta a tampa, "fuça" a lixeira e retira dela uma das doze máquinas de calcular fabricadas pelo próprio Pascal. Um objeto sem preço. Hoje ela se encontra no CNAM, o Acervo Nacional de Artes e Ofícios. Quem a jogara ali? E que coincidência esse olho treinado ter passado por ali precisamente aquela noite!

UE: Agora mesmo eu estava rindo da minha descoberta naquele livreiro de Granada. Pura e simplesmente porque, para ser honesto, não tenho nenhuma certeza de que não existisse, em sua loja, um terceiro livro que me tivesse apaixonado tanto quanto os outros dois. Talvez seu amigo livreiro tenha passado três vezes perto de um objeto que lhe acenava, mas sem vê-lo, e só notou a máquina de Pascal na quarta vez.

JCC: Existe em língua catalã um texto fundador que data do século XIII. Esse manuscrito, com uma extensão de apenas duas páginas, desapareceu há muito tempo, mas existe uma versão impressa datada do século XV. É evidentemente o incunábulo mais valioso do mundo para um especialista catalão. Ocorre que conheço um livreiro de Barcelona que, depois de anos de busca, como um detetive tenaz numa pista apagada, terminou por desencavar o precioso incunábulo. Comprou-o e o revendeu para a biblioteca de Barcelona por um preço que não me revelou, mas que devia ser bem significativo. Passaram-se alguns anos. Um dia, o mesmo livreiro comprou um grande infólio do século XVIII, cuja encadernação, como era frequente, estava forrada com papéis velhos. Fez então o que fazemos num caso semelhante, rasgou a encadernação delicadamente com um estilete para esvaziá-la. E, dentre os papéis velhos que estavam ali, achava-se o manuscrito do século XIII, supostamente perdido há tempos. O manuscrito mesmo, o original. Ele achou que ia desmaiar. O verdadeiro tesouro estava diante dele. Alguém o enfiara ali por pura ignorância.

UE: Quaritch, o mais importante livreiro-antiquário inglês e talvez do mundo, organizou uma exposição e um catálogo exclusivamente a partir de manuscritos encontrados dentro de encadernações. Neste último havia inclusive a descrição bastante minuciosa de um manuscrito que sobrevivera ao incêndio da biblioteca de O nome da rosa, manuscrito completamente inventado por eles, naturalmente. Aquilo me chamou atenção (bastava ver as dimensões para perceber que era do tamanho de um selo postal) e foi assim que ficamos amigos. Mas muita gente acreditou que se tratava de um documento autêntico.

JCC: Você acha possível descobrirmos mais uma tragédia de Sófocles?

UE: Recentemente a Itália viu-se agitada por uma grande polêmica a propósito do papiro de Artemidoro, adquirido por um preço astronômico pela fundação do Banco San Paolo, de Turim. Colidem os dois maiores especialistas italianos: aquele texto atribuído ao geógrafo grego Artemidoro é autêntico ou é uma fraude? Diariamente encontramos na imprensa a intervenção bombástica de um novo especialista que vem confirmar ou refutar o que foi publicado na véspera. Tudo isso para dizer que continuávamos a ver ressurgir aqui ou ali vestígios mais ou menos ricos do passado. Faz apenas cinquenta anos que encontramos os manuscritos do mar Morto. Creio que a probabilidade de encontrar esses documentos é maior em nossos dias em que construímos mais, em que revolvemos mais a terra. Temos atualmente mais probabilidades de encontrar um manuscrito de Sófocles do que no tempo de Schliemann.

JPT: Como bibliófilos e amantes dos livros, qual seria seu desejo mais profundo? O que gostariam de ver ressurgir da terra amanhã, na curva de um canteiro de obras?

UE: Eu gostaria de encontrar para mim mesmo, egoisticamente, outro exemplar da Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro impresso. Também teria interesse que se descobrissem as tragédias perdidas citadas por Aristóteles em sua Poética. Afora isso, não vejo muitos livros desaparecidos de que eu sinta falta. Talvez porque, se desapareceram, como dissemos, foi porque talvez não merecessem sobreviver ao fogo ou ao inquisidor que os destruiu.

JCC: Já eu subiria às nuvens se descobrisse um códice maia desconhecido. Quando cheguei pela primeira vez ao México em 1964, me disseram que existiam por volta de 100 mil pirâmides inventariadas, mas que apenas trezentas haviam sido exploradas. Perguntei, anos mais tarde, a um arqueólogo que trabalhava em Palenque quanto tempo ainda durariam as escavações. Ele me respondeu: "Mais ou menos 550 anos." O mundo pré-colombiano nos oferece provavelmente o exemplo mais truculento de uma tentativa de destruição total de um "escrito", de todo vestígio de uma linguagem, de uma expressão, de uma literatura, isto é, de um pensamento, como se esses povos vencidos não merecessem nenhuma memória. Pilhas de códices foram queimados no Yucatán, sob as diretrizes de alguns talibãs cristãos. Apenas alguns exemplares sobreviveram, tanto no caso dos astecas como dos maias, e algumas vezes em circunstâncias extravagantes. Um códice maia foi descoberto em Paris, por um "olho treinado", no século XIX, perto de uma lareira onde se preparavam para queimá-lo. Dito isto, as línguas antigas da América não estão mortas. Estão inclusive renascendo. O náuatle, língua dos astecas, aspira ao título de língua nacional, no México. Esperando Godot acabou de ser traduzido em náuatle. Já reservei um exemplar da edição "original".

JPT: Podemos imaginar encontrar amanhã um livro cuja existência ignoramos?

JCC: Eis agora uma história literalmente extraordinária. Seu personagem central é Paul Pelliot, linguista francês, jovem explorador do início do século XX. É um linguista superdotado, um pouco como era Champollion, um século antes, e arqueólogo. Trabalha com uma equipe alemã na China ocidental, na região de Dunhuang, numa das rotas da seda. Com efeito, sabemos pelos caravaneros, há muito tempo, que nessa região existem cavernas contendo estátuas de Buda e uma profusão de outros vestígios. Pelliot e seus colegas descobrem em 1911 uma caverna que permaneceu emparedada desde o século X da nossa era. Negociam com o governo chinês e a mandam abrir. Ela revela conter 70 mil manuscritos, todos datando de antes do século X! Alguns afirmam tratar-se da maior descoberta do século XX. Uma caverna de livros desconhecidos! Vamos imaginar que penetrássemos de repente numa sala fechada da Biblioteca de Alexandria, onde tudo estivesse conservado! Pelliot — por mais olho treinado que tivesse — deve ter sentido uma coisa similar, uma alegria intensa. Em que cadência pulsava seu coração? Uma fotografia mostra-o sentado entre pilhas de textos antigos, à luz de velas. Prodigiosamente feliz, sem dúvida. Fica três semanas na caverna em meio a esses tesouros e começa a classificá-los. Vai descobrir duas línguas extintas, uma delas o antigo pálavi, um persa arcaico. Descobre também o único texto maniqueu que possuímos escrito — em chinês — pelos próprios maniqueus e não por seus adversários, texto sobre o qual Nahal, minha esposa, fez sua tese. Nele, Mani é denominado "o Buda de luz". E muitos outros documentos incríveis. Textos de todas as tradições. Pelliot conseguiu convencer o governo francês, com a anuência dos chineses, a comprar cerca de 20 mil manuscritos. Hoje eles formam o acervo Pelliot na Biblioteca Nacional. Sempre em vias de tradução e estudo.

JPT: Então, outra pergunta: podemos imaginar descobrir uma obra-prima desconhecida?

UE: Um aforista italiano escreveu que era impossível ser um grande poeta búlgaro. A ideia em si parece um pouco racista. Provavelmente ele queria dizer uma dessas duas coisas, ou ambas ao mesmo tempo (em vez da Bulgária, ele poderia ter escolhido qualquer outro país pequeno): em primeiro lugar, ainda que esse grande poeta tenha existido, sua língua não é suficientemente conhecida e logo nunca teríamos oportunidade de atravessar seu caminho. Portanto, se "grande" quer dizer famoso, é possível ser um bom poeta e não ser famoso. Estive uma vez na Geórgia, e me disseram que seu poema nacional, O homem da pele de tigre, de Rustaveli, era uma imensa obra-prima. Acredito, mas ela não teve a repercussão de Shakespeare! Em segundo lugar, um país deve ter atravessado os grandes acontecimentos da história para produzir uma consciência capaz de pensar de forma universal.

JCC: Quantos Hemingway nasceram no Paraguai? Talvez tivessem, ao nascer, capacidade para produzir uma obra de grande originalidade, de uma força genuína, mas não o fizeram. Não puderam fazê-lo. Porque não sabiam escrever. Ou então porque não existia editor para se interessar por sua obra. Talvez até mesmo ignorassem que podiam escrever, que podiam ser "um escritor".

UE: Na Poética, Aristóteles cita umas vinte tragédias que não conhecemos mais. O âmago do problema é: por que apenas as obras de Sófocles e Eurípides subsistiram? Eram as melhores, as mais dignas de passar à posteridade? Ou será que seus autores conspiraram de modo a obter a aprovação de seus contemporâneos e a descartar seus concorrentes, precisamente os citados por Aristóteles, porque eram aqueles cujos nomes deveriam ser repercutidos pela história?

JCC: Sem esquecer que, dentre as próprias obras de Sófocles, algumas se perderam. As obras perdidas eram de melhor qualidade que as obras conservadas? Talvez as que preservamos tenham sido as que o público ateniense preferia, sem por isso serem as mais interessantes, pelo menos para nós. Talvez hoje preferíssemos outras. Quem decidiu conservar, não conservar, traduzir em árabe essa obra em vez daquela? Quantos grandes "autores" acerca dos quais nada soubemos? E, não obstante, sem livro, sua glória é às vezes imensa. Encontramos aqui a ideia do fantasma. Quem sabe? O maior escritor talvez seja aquele do qual nada lemos. Nos píncaros da glória, claro que só pode haver o anonimato. Penso nesse blá-blá-blá sobre as obras de Shakespeare ou Molière para saber — interrogação idiota — quem as escreveu. Qual a importância disso? O verdadeiro Shakespeare se dilui na glória de Shakespeare, Shakespeare sem sua obra não seria ninguém. A obra de Shakespeare sem Shakespeare permaneceria a obra de Shakespeare.

UE: Talvez haja uma resposta para a nossa interrogação. Em cada livro incrustam-se, ao longo do tempo, todas as interpretações que lhes demos. Não lemos Shakespeare como ele escreveu. Nosso Shakespeare então é muito mais rico que o lido em sua época. Para que uma obra-prima seja uma obra-prima, basta ser conhecida, isto é, absorver todas as interpretações que suscitou, as quais vão contribuir para fazer dela o que ela é. A obra-prima desconhecida não teve suficientes leitores ou interpretações. Enfim, poderíamos dizer que foi o Talmude que produziu a Bíblia.

JCC: Cada leitura modifica o livro, certamente, assim como os acontecimentos que atravessamos. Um grande livro permanece sempre vivo, cresce e envelhece conosco, sem jamais morrer. O tempo o fertiliza e modifica, ao passo que as obras sem interesse deslizam à margem da História e desaparecem. Vi-me, anos atrás, relendo a Andrômaca de Racine. De repente dou com uma réplica em que Andrômaca conta à sua criada o massacre de Tróia: "Pensa, pensa, Cefisa, nessa noite cruel/ Que foi para
todo um povo uma noite eterna." Você lê essas linhas de maneira diferente depois de Auschwitz. O jovem Racine já nos descrevia um genocídio.

UE: É a história do Pierre Ménard, de Borges. Ele imagina que um autor tentou reescrever o Quixote assimilando a história e a cultura da Espanha do século XVII. Escreve então um Quixote que é, palavra por palavra, idêntico ao de Cervantes, mas cujo sentido muda porque a mesma frase, dita hoje, não tem a mesma significação daquele tempo. E nós a lemos de uma maneira diferente, também, por causa das leituras infinitas que ela provocou e que se tornaram como que parte integrante do texto original. A obra-prima desconhecida, por sua vez, não teve essa sorte.

JCC: Uma obra-prima não nasce obra-prima, torna-se uma. Convém acrescentar que as grandes obras influenciam-se reciprocamente através de nós. Podemos provavelmente explicar o quanto Cervantes teve de influência sobre Kafka. Mas também podemos dizer — Gérard Genette demonstrou isso claramente — que Kafka influenciou Cervantes. Se leio Kafka antes de ler Cervantes, através de mim e à minha revelia, Kafka modificará minha leitura do Quixote. Da mesma forma que nossos percursos de vida, nossas experiências pessoais, a época em que vivemos, as informações que recebemos, até nossas mazelas domésticas ou os problemas de nossos filhos, tudo influencia nossa leitura das obras antigas. De tempos em tempos abro um ou outro livro aleatoriamente. Por exemplo, mês passado abri o Quixote em sua última parte, a que lemos menos. Sancho, de volta de sua "ilha", encontra um de seus amigos, chamado Ricote, um converso, isto é, um mouro convertido, que um decreto real (o fato é histórico) acaba de decidir mandar de volta para a Berbéria, na África, país que ele não conhece, cuja língua não fala e cuja religião não pratica, tendo nascido na Espanha como seus pais e se dizendo bom cristão. Essa página é espantosa. Ela nos fala diretamente de nós, simplesmente, sem intermediários: "Em lugar nenhum encontramos a acolhida almejada por nosso infortúnio", diz o personagem. Autoridade, familiaridade e atualidade de um grande livro: nós o abrimos, ele nos fala de nós. Porque vivemos desde essa época, porque nossa memória somou-se a ele, misturou-se ao livro.

UE: É o caso da Gioconda. Leonardo fez coisas que considero mais belas, por exemplo, a Virgem dos rochedos ou a Dama de arminho. Mas a Gioconda recebeu mais interpretações, as quais, como camadas sedimentares, depositaram-se com o tempo sobre a tela, transformando-a. Eliot já dissera tudo isso em seu ensaio sobre Hamlet. Hamlet não é uma obra-prima, é uma tragédia desorganizada que não consegue harmonizar fontes diversas. Por essa razão, tornou-se enigmática e todo mundo continua a se interrogar a seu respeito. Hamlet não é uma obra-prima por suas qualidades literárias; é porque ela resiste a nossas interpretações que se tornou uma obra-prima. Às vezes basta pronunciar palavras insensatas para passar à posteridade.

JCC: E as redescobertas. Uma obra atravessa o tempo e parece esperar sua hora de luz. A televisão me perguntou se eu gostaria de adaptar O pai Goriot. Eu não lia esse romance há pelo menos trinta anos. Sentei-me, uma tarde, para dar uma olhada. Não consegui largá-lo antes do fim, por volta das três ou quatro horas da manhã. Eu sentia tal pulsão naquelas páginas, tal energia de escrita, que me era impossível desgrudar os olhos um instante. Como é possível que Balzac, que tem 32 anos quando escreve esse livro, que não se casou, que não tem filhos, tenha esquadrinhado as relações de um velho pai com suas filhas de uma maneira tão cruel, precisa e justa? Ele conta, por exemplo, a Rastignac, que mora na mesma pensão, que vai ver suas filhas passarem a noite nos Champs-Elysées. Ele pagou caleças, lacaios e tudo que pode contribuir para a felicidade delas. Como tem medo de constrangê-las com sua presença, não se mostra, não lhes faz nenhum sinal. Contenta-se em escutar os comentários admirativos daqueles que as veem passar e diz a Rastignac: "Eu queria ser o totó que está no colo delas." Que achado! Há então redescobertas coletivas, de tempos em tempos, mas também redescobertas pessoais, preciosas, que cada um de nós pode fazer, uma noite, pegando um livro esquecido.

UE: Lembro de na minha juventude ter descoberto Georges de La Tour e de ter me apaixonado por ele, perguntando-me por que não era considerado um gênio à altura de Caravaggio. Décadas mais tarde, La Tour foi redescoberto e incensado. Tornou-se então muito popular. Às vezes basta fazer uma exposição (ou a nova edição de um livro) para provocar esse entusiasmo súbito.

JCC: Poderíamos abordar, a propósito, o tema da resistência de determinados livros à destruição. Já falamos da maneira como os espanhóis se comportaram face às civilizações ameríndias. Dessas línguas, dessas literaturas, conservamos um total de apenas três códices maias e quatro códices astecas. Dois deles foram encontrados por milagre. Um, um códice maia, em Paris; o outro, asteca, em Florença, chamado por essa razão codex florentino. Será que haveria livros arredios, tinhosos, que gostariam absolutamente de sobreviver e naufragar um dia diante de nós?

JPT: Talvez o desvio de manuscritos e livros preciosos constitua uma tentação para aqueles que têm uma ideia precisa de seu valor. Recentemente, um curador da Biblioteca Nacional, em Paris, foi acusado de ter desviado um manuscrito pertencente ao acervo hebraico sob sua responsabilidade.

UE: Também há livros que sobreviveram graças a ladrões. Sua pergunta me faz pensar na história de Girolamo Libri, um conde florentino do século XIX, grande matemático que se tornou cidadão francês. Foi como grande erudito, muito respeitado, que foi nomeado comissário extraordinário para o resgate de manuscritos pertencentes ao patrimônio nacional. Percorreu a França de ponta a ponta, indo de um mosteiro a uma biblioteca municipal, empenhando-se efetivamente em arrancar à sua triste sorte documentos de imenso valor e uma quantidade de livros valiosos. Sua iniciativa era enaltecida pela região que o recebia, até o dia em que se descobriu que desviara, para uso próprio, milhares desses documentos e livros inestimáveis. Foi ameaçado com um processo. Toda a cultura francesa da época, de Guizot a Merimée, assina então um manifesto em defesa do pobre Girolamo Libri, clamando com paixão por sua integridade. E os intelectuais italianos revoltam-se também. É uma defesa sem falhas que se promove em favor desse infeliz injustamente acusado. Continuam a defendê-lo inclusive quando descobrem em sua casa os milhares de documentos que o acusavam de ter roubado. Ele era provavelmente um pouco como aqueles europeus no Egito ao se depararem com objetos que julgavam muito natural trazerem consigo. A menos que tivesse guardado aqueles documentos em casa com a finalidade de classificá-los. Para livrar-se do processo, Girolamo Libri exila-se na Inglaterra, onde termina sua vida, maculada por um formidável escândalo. Mas nenhuma revelação, desde então, permitiu-nos saber se era ou não culpado.

JPT: Livros cuja existência conhecemos, mas que ninguém nunca viu ou leu. Obras-primas desconhecidas e destinadas a assim permanecer. Manuscritos inestimáveis desviados ou esperando no fundo de uma caverna há quase mil anos. Mas o que dizer agora das obras que perdem subitamente a paternidade de um autor para serem atribuídas a outro? Shakespeare escreveu Shakespeare? Homero é Homero?

JCC: Uma recordação que envolve Shakespeare. Eu estava em Pequim, logo após a Revolução Cultural. Tomava meu café da manhã no hotel consultando o China Today em inglês. Naquela manhã, das sete colunas da primeira página, cinco eram dedicadas a um acontecimento espetacular: peritos acabavam de descobrir na Inglaterra que determinadas obras de Shakespeare não eram dele. Apresso-me a ler a reportagem para descobrir que, na realidade, a controvérsia referia-se a apenas alguns versos, por sinal desinteressantes, e espalhados por algumas de suas peças. À noite, janto com dois sinólogos e exprimo-lhes minha surpresa. Como uma não notícia a respeito de Shakespeare podia ocupar quase a totalidade da primeira página do China Today? Um dos sinólogos então me disse: "Não se esqueça que aqui você está no país dos mandarins, isto é, um país onde a escrita está há muito tempo ligada ao poder, sendo primordial. Quando acontece alguma coisa ao maior escritor do Ocidente, e talvez do mundo, isso merece cinco colunas na primeira página."

UE: Os trabalhos dedicados a confirmar ou refutar a autenticidade das obras de Shakespeare são infinitos. Tenho uma boa coleção deles, pelo menos os mais célebres. O debate leva o nome de "The Shakespare-Bacon controversy". Uma vez escrevi de brincadeira que, se todas as obras de Shakespeare tivessem sido escritas por Bacon, este último nunca teria tido tempo de escrever as suas, que por conseguinte teriam sido escritas por Shakespeare.

JCC: Temos os mesmos problemas na França com Corneille e Molière, já tocamos no assunto. Quem é o autor das obras de Molière? Quem, senão Molière? Na época dos meus estudos clássicos, um professor nos impôs durante quatro meses a "questão homérica". Sua conclusão foi a seguinte: "Agora sabemos que provavelmente os poemas homéricos não foram escritos por Homero, mas por seu neto, que também se
chamava Homero." As coisas evoluíram, uma vez que hoje os especialistas concordam em dizer que a Ilíada e a Odisseia certamente não são do mesmo autor. A pista do neto de Homero parece então completamente abandonada. Em todo caso, a questão de uma copaternidade Corneille-Molière permite imaginar todo tipo de roteiros. Molière dirigia um teatro com empregados, um contra-regra, atores, pessoas que estavam com ele o tempo todo. Havia registros, onde suas atividades eram consignadas, assim como as receitas. Logo, isso autoriza supor que o essencial dissimulava-se, que Corneille levara-lhe os textos à noite, envolto num grande manto negro. Incrível que ninguém na época tenha percebido isso. Mas a credulidade prevalece sobre o verossímil. É outro caso de absurda teoria conspiratória. Para alguns, é impossível aceitar o mundo como ele é. Como não podem refazê-lo, são obrigados a reescrevê-lo.

UE: É absolutamente necessário que, associado ao ato de criação, haja um mistério. O público exige isso. Senão, como Dan Brown ganharia a vida? Desde Charcot, conhecemos muito bem os sintomas de um histérico, mas ainda idolatramos Padre Pio. Corneille ser Corneille, isso é banal. Mas Corneille ser não apenas Corneille, mas também Molière, aí o interesse redobra.

JCC: Quanto a Shakespeare, devemos lembrar que poucas peças suas foram publicadas com ele ainda em vida. Muito tempo após sua morte, um grupo de eruditos ingleses se reuniu para compor a primeira edição completa de suas obras, em 1623, a que é considerada a edição original e que se chama o Folio. Tesouro dos tesouros, evidentemente. Ainda existem exemplares dessa edição em algum lugar?

UE: Vi três na Folger Library de Washington. Existem, sim, mas não mais no mercado dos antiquários. Conto uma história sobre um livreiro e o Folio de 1623 em A misteriosa chama da rainha Loana. É a do sonho de todo colecionador. Ser dono de uma Bíblia de Gutenberg ou do Folio de 1623. Mas não existem mais Bíblias de Gutenberg no mercado, já dissemos, estão todas agora nas grandes bibliotecas. Vi duas delas na Pierpont Morgan Library de Nova York, uma delas incompleta. Toquei em uma, em velino, e rubricada em cores (isto é, com todas as capitulares coloridas à mão), na Biblioteca Vaticana. Se o Vaticano não é a Itália, então não existe Bíblia de Gutenberg na Itália. A última cópia conhecida no mundo foi vendida, há uns vinte anos, para um banco japonês por, se bem me lembro, 3 ou 4 milhões de dólares da época. Se um dia surgir uma no mercado da bibliofilia, ninguém pode dizer a que preço será oferecida nos dias de hoje. Todo colecionador sonha encontrar em algum lugar uma velha senhora que tivesse em sua casa, num velho armário, uma Bíblia de Gutenberg. A senhora tem 95 anos, está doente. O colecionador lhe oferece 200 mil euros por aquele livro velho. Mas uma questão logo se coloca: depois de levar essa Bíblia para casa, o que você faz com ela? Ou não conta a ninguém, e é como ver um filme cômico sozinho. Você não ri. Ou então você começa a contar e mobiliza imediatamente todos os ladrões do mundo. Em desespero de causa, você a doa à prefeitura de sua cidade. Ela será exposta em lugar seguro e você terá a possibilidade de vê-la com seus amigos quantas vezes quiser. Mas não poderá se levantar no meio da noite para tocá-la, acariciá-la. Então qual a diferença entre ter e não ter uma Bíblia de Gutenberg?

JCC: É verdade. Qual a diferença? Outro sonho me ocorre às vezes, ou melhor, um devaneio. Sou um ladrão, introduzo-me numa casa onde adormece uma coleção magnífica de livros antigos e levo uma bolsa onde só posso colocar dez livros. Mais dois ou três nas algibeiras, digamos. Logo, preciso escolher. Abro as estantes. Tenho apenas dez ou 12 minutos para fazer minha escolha, pois um sistema de alarme pode alertar a polícia... É uma situação que aprecio muito. Violar o espaço fechado, protegido, de um colecionador que imagino rico, paradoxalmente ignorante e obrigatoriamente antipático. Tão antipático que às vezes ele desmembra o exemplar de uma obra muito rara para vender caderno por caderno. Tenho um amigo que tem uma página de uma Bíblia de Gutenberg desse jeito.

UE: Se eu desmembrasse e pulverizasse alguns dos meus livros com pranchas, ganharia cem vezes o que paguei por eles.

JCC: Essas pessoas que dividem os livros dessa maneira para vender suas gravuras são denominadas dilapidadores. São inimigos declarados da bibliofilia.

UE: Conheci um livreiro em Nova York que só vendia livros antigos dessa maneira. "Faço vandalismo democrático", ele me dizia. "Compro cópias incompletas e as dilapido. Você nunca poderia ter uma Crônica de Nuremberg, certo? Pois bem, vendo-lhe uma por 10 dólares." Mas seria verdade que ele dilapidava apenas as cópias incompletas? Nunca saberemos, e, aliás, ele morreu. Uma espécie de acordo havia sido firmado entre colecionadores e livreiros, com os colecionadores comprometendo-se a não comprar páginas avulsas e os livreiros desistindo de vendê-las. Mas há pranchas que estão separadas de seu livro (agora desaparecido) há cem ou duzentos anos. Como resistir à tentação de uma bela imagem emoldurada? Tenho um mapa em cores de Coronelli, esplêndido. De onde vem? Não sei.


Nenhum comentário: