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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 8

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

Nosso conhecimento do passado 
deve-se a cretinos, imbecis ou adversários


JPT: Através dos livros antigos que colecionam, vocês de certa forma dialogam com o passado? Os livros antigos são para vocês um testemunho do passado?

UE: Eu disse que colecionava apenas livros relacionados a coisas equivocadas e falsas. Isso prova que esses livros não são testemunhas indiscutíveis. Entretanto, embora mintam, eles nos ensinam alguma coisa sobre o passado.

JCC: Tentemos imaginar um erudito no século XV. Esse homem possui cem ou duzentos livros que hoje, no caso de alguns, podem estar em nossas mãos. Há também em sua casa, nas paredes, cinco ou seis gravuras representando Jerusalém, Roma, gravuras bem imperfeitas. Ele tem uma noção distante e vaga do mundo. Se quer realmente conhecer a Terra, tem de viajar. Os livros são belos, mas insuficientes e, como você diz, frequentemente falsos.

UE: Mesmo na Crônica de Nuremberg, história ilustrada do mundo desde a Criação até os anos 1490, a mesma gravura é às vezes utilizada várias vezes para representar cidades diferentes. O que significa que a preocupação do tipógrafo é mais ilustrar do que informar.

JCC: Eu e minha mulher formamos uma coleção que poderíamos chamar de "A viagem à Pérsia". Os primeiros livros remontam ao século XVII. Um dos primeiros, e mais conhecidos, é o de Jean Chardin, datado de 1686. Outro exemplar do mesmo livro, publicado quarenta anos mais tarde, é um in-octavo, isto é, um pequeno formato em vários tomos. No tomo IX está alceada uma prancha desdobrável sobre as ruínas de Persépolis que deve medir, quando desdobrada, uns bons três metros de comprimento: pranchas gravadas são coladas umas em seguida às outras, e é preciso repetir a proeza para cada exemplar! É um trabalho inimaginável! Esse mesmo texto foi reimpresso novamente no século XVII exatamente com as mesmas gravuras. E mais uma vez, cem anos mais tarde, como se aquela Pérsia não houvesse sofrido, em dois séculos, nenhum tipo de transformação. Agora estamos na época romântica. Nada, na França, lembra o século de Luís XIV. Mas a Pérsia, nos livros, permaneceu intacta, imutável. Como se estivesse congelada numa determinada série de imagens, como se fosse incapaz de mudar, decisão de editor que é de fato um juízo de civilização, de história. Continua-se, dessa forma, a publicar na França, até o século XIX, como livros científicos, obras escritas e impressas cem anos antes.

UE: Os livros às vezes se equivocam. Mas às vezes são nossos erros ou delírios interpretativos que estão em jogo. Escrevi nos anos 1960 uma paródia (publicada em Pastiches et Postiches). Eu imaginava uma civilização do futuro encontrando sepultada num lago uma caixa de titânio contendo documentos colocados em local seguro por Bertrand Russell na época em que ele organizava as marchas antiatômicas e quando éramos literalmente obcecados, mais do que hoje, pela ameaça de uma destruição nuclear (não é que a ameaça tenha diminuído, muito pelo contrário, mas nos habituamos a ela). A paródia residia no fato de que os documentos salvos eram na realidade letras de canções vulgares. Os filólogos do futuro tentavam então reconstituir o que havia sido aquela civilização extinta, a nossa, a partir dessas canções, interpretadas como o auge da poesia de nossa época. Mais tarde, eu soube que meu texto havia sido discutido num seminário de filologia grega no qual os pesquisadores se perguntavam se os fragmentos dos poetas gregos sobre os quais eles trabalhavam não eram da mesma natureza. Com efeito, é aconselhável jamais reconstruir o passado apoiando-se sobre uma única fonte. Aliás, a distância temporal torna alguns textos impermeáveis a qualquer interpretação. Tenho uma boa história a esse respeito. Há uns vinte anos, a Nasa, ou outra organização governamental americana, perguntava-se onde enterrar exatamente os dejetos nucleares, que conservam, como sabemos, um poder radioativo durante 10 mil anos — em todo caso, trata-se de um número astronômico. O problema era que, se o território pudesse ser encontrado em algum lugar, eles não sabiam com que tipo de sinal seria preciso cercá-lo para vedar seu acesso. Em dois ou três mil anos, não perdemos as chaves de leitura de diversas línguas? Se daqui a cinco mil anos os seres humanos desaparecessem e então desembarcassem visitantes vindos do espaço sideral, de que maneira entenderiam que não devem aventurar-se no território em questão? Esses especialistas encarregaram um linguista e um antropólogo, Tom Sebeok, de estudar uma forma de comunicação para amenizar as dificuldades. Após ter examinado todas as soluções possíveis, a conclusão de Sebeok foi que não existia nenhuma linguagem, sequer pictográfica, suscetível de ser compreendida fora do contexto que a vira nascer. Não sabemos interpretar corretamente as figuras pré-históricas encontradas nas cavernas. Nem a linguagem ideográfica pode ser efetivamente compreendida. A única possibilidade, segundo ele, teria sido formar confrarias religiosas que fizessem circular em seu seio um tabu, "Não tocar nisto", ou "Não comer isto". Um tabu pode atravessar gerações. Eu tinha tido outra idéia, mas não havia sido pago pela Nasa e a guardei para mim. Tratava-se de enterrar os dejetos radioativos de maneira que a primeira camada fosse bastante diluída e, portanto muito pouco radioativa, a segunda um pouco mais, e assim por diante. Se por descuido nosso visitante enfiasse a mão naqueles dejetos, ou o que lhe servisse de mão, perderia apenas uma falange. Se teimasse, perderia provavelmente um dedo. Mas podemos ter certeza de que não teria perseverado.

JCC: Descobrimos as primeiras bibliotecas assírias quando não conhecíamos nada da escrita cuneiforme. Sempre essa questão da perda. O que salvar? O que transmitir e como transmitir? Como ter certeza de que a linguagem que utilizo hoje será compreendida amanhã e depois de amanhã? Não há civilização concebível se ela não coloca essa questão. Você evoca essa situação em que todos os códigos linguísticos desapareceram e em que as línguas permanecem mudas e obscuras. Também podemos imaginar o contrário. Se hoje faço, num muro, um grafite que não faz nenhum sentido, amanhã alguém pode muito bem afirmar tê-lo decifrado. Passei um ano me divertindo inventando escritas. Tenho certeza de que outros poderiam, amanhã, descobrir um sentido para elas.

UE: Naturalmente, porque não há nada como o maluco para produzir interpretação.

JCC: Ou a interpretação para produzir o maluco. Esta é a contribuição dos surrealistas, que trabalhavam para aproximar palavras sem nenhum parentesco, ou relação, para fazer irromper um sentido oculto.

UE: Encontramos a mesma coisa em filosofia. A filosofia de Bertrand Russell não engendrou tantas interpretações quanto a de Heidegger. Por quê? Porque Russell é particularmente claro e inteligível, ao passo que Heidegger é obscuro. Não estou dizendo que um tinha razão e o outro estava errado. Da minha parte, desconfio de ambos. Mas quando Russell diz uma besteira, ele a diz de maneira clara, enquanto Heidegger, mesmo quando diz um clichê, temos dificuldade para percebê-lo. Portanto, passando à história, para durar é preciso ser obscuro. Heráclito já sabia disso... Um pequeno parêntese: sabe por que os pré-socráticos só escreviam fragmentos?

JCC: Não.

UE: Porque viviam em meio a ruínas. Piadas à parte, em geral só conservamos o vestígio desses fragmentos através dos comentários que eles suscitaram, às vezes vários séculos mais tarde. A maior parte do que sabemos sobre a filosofia dos estoicos, que foi provavelmente uma realização intelectual cuja importância ainda mal avaliamos, o devemos a Sexto Empírico, que escreveu para refutar suas ideias. Da mesma forma, conhecemos vários fragmentos pré-socráticos através dos escritos de Aécio, que era um rematado imbecil. Basta ler seus depoimentos para percebermos isso. Logo, podemos desconfiar que o que ele nos contou era absolutamente fiel ao espírito dos filósofos pré-socráticos. Ainda precisaríamos citar o caso dos gauleses sob a pena de César, o dos germanos sob a de Tácito. Sabemos alguma coisa desses povos através dos depoimentos de seus inimigos.

JCC: Poderíamos dizer a mesma coisa sobre os padres da Igreja falando dos heréticos.

UE: É um pouco como se só conhecêssemos a filosofia do século XX através das encíclicas de Ratzinger.

JCC: O personagem de Simão Mago me fascinou. Dediquei-lhe um livro, tempos atrás. Contemporâneo de Cristo, é conhecido apenas pelos Atos dos Apóstolos, isto é, por aqueles que o declararam herético e o acusaram de "simonía", ou seja, a intenção que teria tido de comprar de são Pedro os poderes mágicos de Jesus. Mas isso é tudo que sabemos dele, ou quase tudo. Mas quem era ele na realidade? Discípulos o seguiam, diziam-no milagreiro. Ele não podia ser o ridículo charlatão que seus inimigos nos apresentam.

UE: Sabemos acerca dos bogomilos, dos paulicianos, por seus adversários, que eles comiam criancinhas. Mas já diziam a mesma coisa dos judeus. Todos os inimigos, sejam de quem for, sempre comeram criancinhas.

JCC: Uma grande parte do nosso conhecimento do passado, que, no mais das vezes, nos chegou por intermédio dos livros, deveu-se então a cretinos, imbecis ou adversários fanatizados. É um pouco como se, tendo desaparecido todos os vestígios do passado, só tivéssemos para reconstituí-lo as obras desses loucos literários, esses gênios improváveis sobre cuja sorte André Blavier debruçou-se longamente.

UE: Um personagem do meu Pêndulo de Foucault pergunta-se se não podemos nos colocar o mesmo tipo de questão a respeito dos evangelistas. Talvez Jesus tenha dito coisas bem diferentes do que eles nos relataram.

JCC: Que tenha dito algo diferente é inclusive provável. Frequentemente esquecemos que os mais antigos textos cristãos que possuímos são as Epístolas de são Paulo. Os Evangelhos são mais tardios. Ora, a personalidade de Paulo, o verdadeiro inventor do cristianismo, é complexa. Teve, conjectura-se, algumas calorosas discussões com Tiago, irmão de Jesus, a respeito da circuncisão, que é então uma questão fundamental. Porque Jesus, em vida, e Tiago, após a morte de seu irmão, continuavam a ir ao Templo. Permaneciam judeus. Foi Paulo que separou o cristianismo do judaísmo e se dirigiu aos "gentios", isto é, aos não judeus. É ele o pai fundador.

UE: Naturalmente, como era de uma inteligência superior, compreendeu que era preciso vender o cristianismo aos romanos, caso pretendessem dar ampla repercussão à palavra de Jesus. É por esse motivo que, na tradição que vem de Paulo, e portanto nos Evangelhos, Pilatos é covarde, decerto, mas não é efetivamente culpado. Logo, os verdadeiros responsáveis pela morte de Jesus eram os judeus.

JCC: E Paulo provavelmente compreendeu que não conseguiría vender Jesus aos judeus como um novo deus, como o único deus, porque o judaísmo ainda é uma religião nova na época, forte, conquistadora mesmo, catequista, ao passo que a religião greco-romana está em plena decadência. Não é o caso da civilização romana em si, a qual transforma metodicamente o mundo antigo, uniformiza-o e impõe aos povos aquela pax romana que irá durar séculos. A América conquistadora de Bush nunca foi capaz de propor ao mundo, a partir de uma civilização bem definida, e válida para todos, esse tipo de paz.

UE: Se pensamos em loucos indiscutíveis, devemos mencionar os tele-evangélicos americanos. Uma rápida olhada domingo de manhã nas redes americanas basta para dar uma idéia da extensão e da gravidade do problema. O que Sacha Baron Cohen descreve em Borat não é evidentemente fruto de sua imaginação. Lembro-me que nos anos 1960, para poder ensinar na Oral Roberts University, em Oklahoma (Oral Roberts era um desses tele-evangélicos dominicais), era preciso responder a perguntas como: "Do you speak in tongues”?  ("Você tem o dom de línguas?"), o que subentende sua habilidade em falar numa língua que ninguém conhece mas que todos compreendem, fenômeno descrito nos Atos dos Apóstolos. Um colega foi admitido porque respondeu "Not yet” ("Ainda não").

JCC: Com efeito, assisti a diversos ofícios nos Estados Unidos com imposição das mãos, cura artificial. É medonho. Havia momentos em que eu me julgava num hospício. Ao mesmo tempo, não acho que devamos nos preocupar muito com esses fenômenos. Sempre achei que o fundamentalismo, o radicalismo e fanatismo religioso seriam graves, e até gravíssimos, se Deus existisse, se Deus, de uma hora para outra, tomasse o partido de seus devotos exaltados. Mas, até o presente, não se pode dizer que ele tenha se engajado nas fileiras de uns ou de outros. Parece-me tratar-se de movimentos ascendentes e depois descendentes, na medida em que são privados, necessariamente, de todo apoio sobrenatural e marcados pela nulidade desde o início. O perigo talvez seja que os neo-criacionistas americanos terminem por obter que se ensinem as "verdades" contidas na Bíblia como verdades científicas, e isto nas escolas, o que seria um retrocesso. Eles não são os únicos a querer impor seus pontos de vista dessa forma. Visitei, há pelo menos 15 anos, na rua des Rosiers, em Paris, uma escola rabínica onde "professores" ensinavam que o mundo havia sido criado por Deus há pouco mais de seis mil anos, e que todos os vestígios pré-históricos haviam sido dispostos por Satã, para nos enganar, nas camadas sedimentares. Imagino que as coisas não mudaram nada. Poderíamos aproximar esses "ensinamentos" daquele de são Paulo ao queimar a ciência grega. A crença é sempre mais forte que o conhecimento, podemos nos espantar com isso e lastimá-lo, mas é assim. Seria excessivo, entretanto, dizer que esses ensinamentos perversos abalam o curso das coisas. Não, as coisas permanecem o que são. Convém também lembrar que Voltaire era um aluno dos jesuítas.

UE: Todos os grandes ateus saíram de um seminário.

JCC: E a ciência grega, apesar das tentativas de calá-la, acabou triunfando. A despeito de o caminho dessa verdade estar minado por obstáculos, fogueiras, prisões e, às vezes, campos de extermínio.

UE: O surto religioso não está ligado a períodos obscurantistas, ao contrário. Ele irrompe nas eras hipertecnológicas, como a nossa, corresponde ao fim das grandes ideologias, a períodos de extrema dissolução moral. Temos então necessidade de acreditar em alguma coisa. É na época em que o Império Romano alcança seu maior poderio, quando os senadores se exibem com prostitutas e usam batom nos lábios, que os cristãos descem às catacumbas. São movimentos de reequilíbrio antes normais. Existem então várias expressões possíveis dessa necessidade de crer. Ela pode se traduzir num interesse pela ciência dos tarôs ou na adesão ao espírito da Nova Era. Pensemos no retorno da polêmica sobre o darwinismo, não apenas por parte dos fundamentalistas protestantes, mas também pela dos católicos de direita (está em vias de acontecer na Itália). Fazia tempo que a Igreja Católica não se preocupava mais com a teoria da evolução: sabia-se, desde os padres da Igreja, que a Bíblia falava através de metáforas e que, por conseguinte, os seis dias da Criação podiam perfeitamente corresponder a eras geológicas. Aliás, o Gênesis é um tanto darwinista. O homem só aparece depois dos outros animais e é feito de barro. É portanto ao mesmo tempo um produto da terra e o ápice de uma evolução. A única coisa que um crente gostaria de salvar é que essa evolução não foi casual, mas resultado de um "desígnio inteligente". Entretanto, a polêmica atual não diz respeito ao problema do desígnio, mas do darwinismo em sua totalidade. Assistimos, portanto, a um retrocesso. Mais uma vez, buscamos nas mitologias o refúgio diante das ameaças da tecnologia. E não é que essa síndrome ainda pode assumir a forma de uma devoção coletiva por uma personalidade como Padre Pio!

JCC: Uma retificação, de toda forma. Nós parecemos denunciar a crença como a mãe de todos os crimes. Porém, de 1933, data da chegada de Hitler ao poder, à morte de Stálin, vinte anos depois, contamos no nosso planeta perto de 100 milhões de mortes violentas. Mais, talvez, do que em todas as outras guerras da história do mundo. Ora, o nazismo e o marxismo são dois monstros ateus. Quando o mundo estupefato desperta após o massacre, parece absolutamente normal voltar às práticas religiosas.

UE: Mas os nazistas gritavam "Gott mit uns", "Deus está conosco", e praticavam uma religiosidade pagã! Quando o ateísmo se torna religião de Estado, como na União Soviética, não há mais nenhuma diferença entre um crente e um ateu. Ambos podem tornar-se fundamentalistas, talibãs. Escrevi tempos atrás que não era exato que a religião era o ópio do povo, como escreveu Marx. O ópio o teria neutralizado, anestesiado, adormecido. Não, a religião é a cocaína do povo. Ela excita as massas.

JCC: Digamos, uma mistura de ópio e cocaína. É verdade que o fundamentalismo muçulmano parece retomar hoje o lábaro do ateísmo militante, e que podemos olhar o marxismo e o nazismo, retrospectivamente, como duas estranhas religiões pagãs. Mas que massacres!


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