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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 9

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

Nada detém a vaidade


JPT: O passado nos chega deformado de todas as maneiras possíveis, principalmente quando a estupidez encarrega-se de ser seu veículo. Vocês também insistiram em dizer que a cultura gosta de selecionar apenas os picos da criação, os Himalaias, desprezando a quase totalidade do que não constitui realmente nossa glória. Podem nos dar alguns exemplos dessa outra categoria de "obra-prima"?

JCC: Vem-me logo à mente uma obra extraordinária em três tomos, A loucura de Jesus, na qual o autor explica que esse personagem era na realidade "um degenerado físico e mental". O autor, Binet-Sanglet, era, entretanto um professor renomado, que publicou seu ensaio no início do século XX, em 1908. Cito alguns trechos antológicos: "Tendo apresentado uma anorexia de longa duração e uma crise de hematidrose, morto prematuramente na cruz de uma síncope de deglutição facilitada pela existência de um escoamento pleurético possivelmente de natureza tuberculosa e sediando-se à esquerda..." O autor esclarece que Jesus era baixinho e atarracado, que era originário de uma família de vinhateiros onde bebia um bom vinho etc. Em suma, "depois de 1.900 anos, a humanidade ocidental vive sobre um erro de diagnóstico". É um livro de maluco, mas composto com uma gravidade que impõe respeito. Tenho outra jóia. Trata-se de um prelado francês do século XIX que um dia foi agraciado com a iluminação. Ele rumina que os ateus não são perversos, não, nem malvados. São simplesmente loucos. O remédio é então muito simples. É necessário confiná-los em asilos para ateus e dar-lhes tratamento. Este consiste em duchas de água fria e na obrigação de lerem diariamente vinte páginas de Bossuet. A maioria recuperaria a saúde. O autor, que se chamava Lefebre e visivelmente não batia bem da bola, foi apresentar seu livro aos grandes alienistas da época, Pinel, Esquirol, que evidentemente não o receberam. Escrevi um filme para a televisão, Credo, dirigido há 25 anos por Jacques Deray, tomando exatamente o contrapé desse prelado desmiolado, determinado a confinar e esguichar todos os ateus. Eu tinha lido no Le Monde um artigo dizendo que um professor de história de Kiev, na Ucrânia, fora detido pela KGB, interrogado, acusado de loucura e internado porque acreditava em Deus. Imaginei todo o interrogatório.

UE: Teríamos que voltar muito atrás. Trabalhando no meu livro sobre a busca de uma língua perfeita, dei com linguistas loucos, com autores de teorias loucas sobre as origens da linguagem, entre os quais os mais divertidos são os nacionalistas — para quem a língua de seus países tinha sido a de Adão. Para Guillaume Postei, os celtas descendiam de Noé. Outros, na Espanha, fizeram a origem do catalão remontar a Tubal, filho de Jafé. Para Goropius Becanus, todas as línguas derivavam de uma língua primária que era o dialeto de Anvers. Abraham Milius também mostrou como a língua hebraica engendrara a língua teutónica, forma mais pura do dialeto de Anvers. O barão de Ricolt sustentava que o flamengo era a única língua falada no berço da humanidade. Também no século XVII, Georg Stiernhielm, em seu De linguarum origine praefatio, demonstrava que o gótico, que para ele era o antigo norueguês, estava na origem de todas as linguagens conhecidas. Um cientista sueco, Olaus Rudbeck, em seu Atlântica sive Mannheim vera Japhetiposterorum sedes acpatria (três mil páginas!), afirmava que a Suécia tinha sido a pátria de Jafé e que o sueco tinha sido a língua original de Adão. Um dos contemporâneos de Rudbeck, Andreas Kempe, escreveu uma paródia de todas essas teorias, em que Deus falava sueco, Adão dinamarquês, enquanto Eva era seduzida por uma serpente francófona. Para chegar mais tarde a Antoine de Rivarol, que decerto não sustentava que a língua francesa era a língua original, mas que era a mais racional porque o inglês era complicado demais, o alemão brutal demais, o italiano muito confuso etc. Depois disso, chegamos a Heidegger, que afirma que a filosofia só é possível em grego ou alemão — e azar o de Descartes e Locke. Mais recentemente, há os piramidólogos. O mais célebre, Charles Piazzi Smyth, astrônomo escocês, descobrira na pirâmide de Quéops todas as medidas do universo. O gênero é muito rico, substituído hoje pela Internet. Digite a palavra "pirâmide" na Internet. A altura da pirâmide multiplicada por um milhão representa a distância entre a Terra e o Sol; seu peso multiplicado por um bilhão corresponde ao peso da Terra; duplicando o comprimento dos quatro lados obtemos um sessenta avos de grau na latitude do equador: a pirâmide de Quéops está, portanto na escala de 1/43.200 da Terra.

JCC: Da mesma forma que alguns se interrogam, por exemplo, para saber se Mitterrand é a encarnação de Tutmés II.

JPT: Mesma coisa com a pirâmide de vidro do Louvre, revestida, afirmam, com 666 ladrilhos de vidro, ainda que esse número tenha sido regularmente desmentido por seus idealizadores e pelos que nela trabalharam. É verdade que Dan Brown confirmou esse número...

UE: Nosso catálogo de loucuras poderia continuar ao infinito. Por exemplo, vocês conhecem o célebre doutor Tissot e suas pesquisas sobre a masturbação como causa de cegueira, surdez, dementia praecox e outras moléstias. Eu acrescentaria a obra de um autor cujo nome não me lembro, sobre a sífilis como doença perigosa porque pode levar à tuberculose. Um certo Andrieu, em 1869, publicou um livro sobre os inconvenientes dos palitos de dentes. Um senhor Ecochoard escreveu sobre as diferentes técnicas de empalamento, outro, vulgo Foumel, em 1858, sobre a função das bengaladas, fornecendo uma lista de escritores e artistas célebres que haviam sido surrados dessa forma, de Boileau a Voltaire e a Mozart.

JCC: Não se esqueça de Edgar Bérillon, membro do Instituto, que em 1915 escreveu que os alemães defecavam mais copiosamente que os franceses. Seria inclusive pelo volume de suas fezes que perceberíamos que passaram por aqui ou por ali. Dessa forma, um viajante pode saber que atravessou a fronteira entre a Lorena e o Palatinato observando, na beira das estradas, o tamanho dos toletes. Bérillon fala da "poliquesia da raça alemã". É inclusive o título de um de seus livros.

UE: Em 1843, um certo Chesnier-Duchen criou um sistema para traduzir do francês para hieróglifos, os quais poderiam assim ser compreendidos por todos os povos. Já um tal de Chassaignon escreveu em 1779 quatro volumes intitulados Cataratas da imaginação, dilúvio da escribomania, vômito literário, hemorragia enciclopédica, monstro dos monstros, e deixo que vocês imaginem o conteúdo (por exemplo, encontramos lá um elogio do elogio e uma reflexão sobre as raízes do alcaçuz). O fenômeno mais curioso é o de loucos que escreveram sobre loucos. Gustave Brunnet, em Os loucos literários (1880), não faz nenhuma distinção entre obras loucas e obras sérias mas emanando de pessoas que provavelmente sofreram de problemas psiquiátricos. De sua lista, aliás, saborosíssima, constam desde Henrion, que em 1718 apresentara uma dissertação sobre a estatura de Adão, até Cyrano de Bergerac, Sade, Fourier, Newton, Poe e Walt Whitman. No caso de Sócrates, ele admitia que, com efeito, este não era um escritor, jamais tendo escrito, mas que não obstante convinha classificar entre os loucos alguém que julgava ter um demônio familiar (tratava-se claramente de monomania). Em seu livro sobre os loucos literários, Blavier cita (entre 1.500 títulos!) apóstolos de novas cosmogonias, higienistas que enaltecem as vantagens de se andar para trás, um certo Madrolle que aborda a teologia das ferrovias, um Passon que publica em 1829 uma Demonstração da imobilidade da Terra, e o trabalho de um tal de Tardy, que, em 1878, demonstra que a Terra gira sobre si mesma em 48 horas.

JPT: Em O pêndulo de Foucault, você fala de uma editora que é o que em inglês chamamos de uma vanitypress, isto é, uma casa que publica obras por conta do autor. Este também é um terreno fértil em obras-primas...

UE: Sim. Mas, não se trata de uma invenção romanesca. Antes de escrever esse romance, eu tinha publicado um inventário das edições desse tipo. Você encaminha seu texto a uma dessas editoras, que não poupa elogios sobre suas qualidades literárias evidentes e lhe propõe publicá-lo. Você exulta. Eles lhe dão para assinar um contrato que estipula que você deverá financiar a edição do seu manuscrito, em troca do que o editor tentará emplacar uma profusão de resenhas e até, por que não, prêmios literários lisonjeadores. O contrato não estipula o número de exemplares que o leitor deverá imprimir, mas insiste em dizer que os não vendidos serão destruídos, "salvo se você os arrematar". O editor imprime trezentos exemplares, cem destinados ao autor, que os distribui para parentes e amigos, e duzentos para os jornais, que os encaminham diretamente para a cesta de lixo.

JCC: Só de ver o nome do editor.

UE: Mas a editora possui suas próprias revistas, nas quais resenhas logo virão a ser publicadas em homenagem a esse livro "importante". Para angariar a admiração dos amigos, o autor compra mais, digamos, cem exemplares (que o editor corre para imprimir). Ao cabo de um ano, ele é informado que as vendas não foram muito boas e que a sobra da tiragem (que era, dizem-lhe, de 10 mil) será destruída. Quantos ele quer comprar? O autor fica terrivelmente frustrado diante da idéia de ver seu dileto livro desaparecer. Então compra 3 mil. O editor manda imediatamente imprimir os 3 mil, que não existiam até então, e os vende ao autor. O negócio é lucrativo, uma vez que o editor não tem rigorosamente nenhum custo de distribuição. Outro exemplo de vanitypress (mas poderíamos citar um monte de publicações similares) é um livro que eu possuo, o Dicionário biográfico dos italianos contemporâneos. O princípio é pagar para figurar ali. Você encontra "Pavese, Cesare, nascido em 9 de setembro de 1908 em Santo Stefano Belbo e morto em Turim, em 26 de agosto de 1950", com a menção: "Tradutor e escritor." Fim. Em seguida, você encontra duas páginas inteiras sobre um certo Paolizzi Deodato, do qual ninguém nunca ouviu falar. E, dentre esses anônimos célebres, talvez figure um mais ilustre, um certo Giulio Ser Giacomi, que cometeu um calhamaço de 1.500 páginas, sua correspondência com Einstein e Pio XII, livro que contém apenas as missivas que ele endereçou a ambos, visto que, obviamente, nenhum dos dois jamais lhe respondeu.

JCC: Produzi um livro "por conta do autor", mas sem expectativa de vendê-lo. Era sobre o ator Jean Carmet. Redigido após sua morte e destinado a alguns amigos, digitei-o no meu computador com a ajuda de uma colaboradora. Em seguida, mandamos alcear e encadernar e tirar cinquenta exemplares. Hoje, qualquer um pode "fazer" um livro. Distribuí-lo é outra coisa.

UE: Um jornal italiano, muito sério aliás, oferece a seus leitores editar seus textos por demanda e por uma soma bastante módica. O editor não aporá seu nome nessas publicações, pois não quer responder pelas ideias do autor. É possível que esse gênero de operação reduza a atividade das vanity presses, mas é inegável que irá aumentar a atividade dos vaidosos. Nada detém a vaidade. Mas tem também o lado positivo da história. Essas edições são anônimas, da mesma forma que a livre circulação via Internet de textos não publicados é a forma moderna do samizdat, única maneira de difundir suas ideias sob uma ditadura e assim escapar à censura. Todas as pessoas que antigamente faziam samizdats por sua conta e risco podem agora colocar seus textos on-line sem grande perigo. Aliás, a técnica do samizdat é muito antiga. Você encontra livros do século XVII publicados em cidades chamadas Francopolis, ou coisa que o valha, cidades evidentemente inventadas. Tratava-se, nesse caso, de livros que podiam fazer seus autores serem acusados de heresia. Sabendo disso, autores e tipógrafos transformaram-nos em objetos clandestinos. Se você tiver em sua biblioteca um livro dessa época que não traga na folha de rosto o nome do editor, você decerto está lidando com um livro clandestino.

JCC: Na Polônia, nos anos 1981-1984, mãos anônimas os enfiavam por baixo das portas, à noite.

UE: A contrapartida informática desse exercício, nas democracias onde, em princípio, a censura não existe, é o texto recusado por todas as editoras e que o autor coloca on-line. Conheci jovens autores na Itália que procederam dessa forma. Para alguns, o procedimento trouxe sorte. Um editor leu um de seus textos e os chamou.

JPT: Parecemos apostar aqui no faro infalível das editoras. Sabemos muito bem que não é nada disso. Esta é outra página divertida ou estarrecedora da história do livro. Talvez devamos dizer alguma coisa sobre isso. Os editores são mais clarividentes que seus autores?

UE: Eles mostraram que às vezes podiam ser suficientemente estúpidos para recusar determinadas obras-primas. Trata-se com efeito de outro capítulo na história das burrices. "Talvez eu seja um pouco limitado, mas não posso entender por que dedicar trinta páginas a contar como alguém se vira e revira na cama sem conseguir pregar o olho." Trata-se do primeiro relatório de leitura sobre Em busca do tempo perdido, de Proust. A propósito de Moby Dick: "Há poucas chances de um livro como esse interessar ao público jovem." A Flaubert, a propósito de Madame Bovary: "Cavalheiro, o senhor sepultou seu romance sob um entulho de detalhes que são bem delineados, mas completamente supérfluos." A Emily Dickinson: "Suas rimas soam todas falsas." A Colette, a respeito de Claudine na escola: "Receio não vender mais do que dez exemplares." A George Orwell, sobre A revolução dos bichos: "Impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos." Para o Diário de Anne Frank: "Essa garota parece nem desconfiar de que seu livro não passa de um objeto de curiosidade." Mas não há apenas os editores, há também os produtores de Hollywood. Eis o ponto de vista de um talent scout a respeito da primeira performance de Fred Astaire, em 1928: "Ele não sabe representar, não sabe cantar, é careca e possui alguns rudimentos no domínio da dança." E a respeito de Clark Gable: "O que podemos fazer com alguém com orelhas como essas?"

JCC: Essa lista realmente dá vertigens. Tentemos imaginar, da massa de tudo que foi escrito e publicado no mundo, a parte que filtramos como realmente bela, emocionante, inesquecível, ou simplesmente a lista das obras dignas de serem lidas. Um por cento? Um em cada mil? Fazemos uma elevadíssima ideia do livro, sacralizando-o levianamente. Porém, na realidade, se examinarmos detidamente, uma espantosa parte de nossas bibliotecas é composta de livros escritos por pessoas sem nenhum talento, ou por cretinos, ou por obcecados. Nos 200 ou 300 mil rolos que continha a Biblioteca de Alexandria e que viraram fumaça, havia com certeza uma grande maioria de disparates.

UE: Não acredito que a Biblioteca de Alexandria possuísse tantos livros assim. Nós sempre exageramos quando falamos das bibliotecas da Antiguidade, já dissemos isso. Ficou demonstrado que algumas Bibliotecas mais famosas da Idade Média continham no máximo quatrocentos livros! Devia haver mais em Alexandria, claro, uma vez que se conta que, durante o primeiro incêndio, no tempo de César, incêndio que afetara apenas uma ala, 40 mil rolos foram queimados. Em todo caso, temos que tomar cuidado ao comparar nossas bibliotecas com as da Antiguidade. A produção de papiros não pode ser comparada à dos livros impressos. É necessário muito mais tempo para confeccionar um rolo ou códice único, escrito à mão, do que para imprimir uma grande quantidade de exemplares de um mesmo livro.

JCC: Mas a Biblioteca de Alexandria é um projeto ambicioso, uma biblioteca de Estado que não pode nem de longe ser comparada à biblioteca privada de um rei, ainda que de um grande rei, ou à de um mosteiro. Alexandria pode ser comparada antes a Pérgamo, cuja biblioteca também foi vítima de um incêndio. O destino de toda biblioteca talvez seja pegar fogo um dia.

JPT: Mas agora sabemos que o fogo não queima apenas obras-primas.

JCC: Consolo que julgamos doravante incontestável. Uma maioria de livros insípidos desaparece, alguns dos quais, entretanto, seriam ainda assim divertidos e de certa forma instrutivos. A leitura desses livros sempre nos divertiu em nossas vidas. Outros nos inquietaram, se pensarmos na saúde mental de seus autores. E também conhecemos livros maus, agressivos, carregados de ódio, de insultos, conclamando ao crime, à guerra. Sim, livros realmente aterradores. Objetos de morte. Se tivéssemos sido editores, teríamos publicado Mein Kempf.

UE: Em certos países, existem leis contra os negacionistas. Mas há uma diferença entre o direito de não publicar um livro e o de destruir esse livro uma vez ele publicado.

JCC: A viúva de Celine, por exemplo, sempre impediu que se reeditassem Bagatelas por um massacre. Numa época, lembro bem, era impossível encontrá-lo.

UE: Na minha antologia História da feiúra, eu tinha escolhido um trecho de 'Bagatelas' a respeito da feiúra do judeu para os antissemitas, mas quando o editor pediu os direitos de reprodução, a viúva recusou. Isso não impede que possamos encontrar esse livro em versão integral na Internet, num site nazista, naturalmente. Falei dos loucos que defendiam a primazia cronológica de sua língua pátria. Mas eis outro candidato que, na sua época, propôs verdades em parte corretas, em parte discutíveis. Em todo caso, foi qualificado como herético e escapou da fogueira por milagre. Penso no Prae-Adamitae de Isaac de La Peyrère, autor protestante francês do século XVII. Ele explicava que o mundo não tinha 6 mil anos, como dizia a Bíblia, uma vez que haviam encontrado genealogias chinesas que atestavam uma duração muito mais longa. A missão de Cristo, que veio redimir a humanidade do pecado original, não interessa portanto senão ao mundo judaico mediterrâneo, e não a outros mundos que não haviam sido afetados pelo pecado original. É um pouco o problema levantado pelos libertinos a respeito da pluralidade dos mundos. Se a hipótese da pluralidade dos mundos fosse exata, como justificaríamos o fato de que Jesus Cristo tivesse vindo à Terra e a mais nenhum lugar? A menos que imaginemos que tenha sido crucificado em uma miríade de planetas...

JCC: Quando eu estava trabalhando em A Via Láctea, com Bunuel, filme que ilustra as heresias da religião cristã, imaginei uma cena de que gostávamos muito mas que custava muito caro e não figura no filme. Um disco voador pousa em algum lugar fazendo um grande estrépito e a tampa, ou o cockpit, se abre. Dele, sai uma criatura verde com antenas brandindo uma cruz na qual está pregada outra criatura verde com antenas. Sem ir tão longe, volto um instante aos conquistadores espanhóis. O problema deles, ao desembarcarem na América, era saber por que lá nunca se havia falado no Deus dos cristãos, em Jesus, no Salvador. Cristo não dissera: "Ide e ensinai a todas as nações"? Deus não podia ter-se enganado ao pedir a seus discípulos para ensinarem a verdade nova a todos os homens. A conclusão lógica então era: essas criaturas não são homens. Como disse Sepúlveda, "Deus não os quis em seu reino". Alguns, para ainda assim justificar a humanidade dos nativos da América, chegaram a inventar falsas cruzes que teriam encontrado por lá e que explicariam a presença de apóstolos cristãos no continente antes da chegada dos espanhóis. Mas a trapaça foi desmascarada.


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