Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sábado, 5 de dezembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 10

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

Elogio da burrice


"(...) O estúpido é diferente, seu defeito não é social, mas lógico.
À primeira vista, temos a impressão de que raciocina de forma correta.
É difícil detectar à primeira vista o que não está batendo direito.
Eis por que ele é perigoso."

JPT: Então vocês dois são, se não me engano, dois apaixonados pela burrice...

JCC: Apaixonados fiéis. Ela pode contar conosco. Quando realizamos, nos anos 1960, com Guy Bechtel, nosso Dicionário da burrice, que teve diversas edições, ruminamos: Por que só dar valor à história da inteligência, das obras-primas, dos grandes monumentos do espírito? A burrice, cara a Flaubert, parecia-nos infinitamente mais difundida, o que é óbvio, mas também mais fecunda, mais reveladora e, num certo sentido, mais correta. Escrevemos uma introdução que intitulamos "Elogio da burrice". Sugeríamos até dar "aulas de burrice". Tudo que foi escrito de idiota sobre os negros, os judeus, os chineses, as mulheres, os grandes artistas, parece-nos infinitamente mais revelador do que as análises inteligentes. Quando o mais que reacionário monsenhor de Quélen, sob a Restauração, declara no púlpito de Notre-Dame, perante uma platéia de aristocratas em sua maioria emigrados que haviam retornado à França: "Não apenas Jesus Cristo era filho de Deus, como era de excelente família pelo lado da mãe", ele nos diz muitas coisas não apenas sobre si mesmo, o que não teria senão um interesse relativo, mas sobre a sociedade e a mentalidade de sua época. Lembro-me também desta pérola que encontramos em Houston Stewart Chamberlain, notório antissemita: "Qualquer um que pretenda que Jesus Cristo era judeu ou é ignorante ou desonesto."

UE: Entretanto, eu gostaria que chegássemos a uma definição. O que é sem dúvida de fundamental importância para o nosso assunto! Fiz uma distinção, num dos meus livros, entre o imbecil, o cretino e o estúpido. O cretino não nos interessa. É aquele que leva sua colher à testa em vez de mirar na boca, é quem não compreende o que você lhe diz. Caso encerrado. A imbecilidade, por sua vez, é uma qualidade social, e você pode inclusive chamá-la de outra forma, uma vez que, para alguns, "estúpido" e "imbecil" são a mesma coisa. O imbecil é aquele que vai dizer o que não deveria dizer num dado momento. É autor de gafes involuntárias. O estúpido é diferente, seu defeito não é social, mas lógico. À primeira vista, temos a impressão de que raciocina de forma correta. É difícil detectar à primeira vista o que não está batendo direito. Eis por que ele é perigoso. Dou um exemplo. O estúpido dirá: "Todos os habitantes do Pireu são atenienses. Todos os atenienses são gregos. Logo, todos os gregos são habitantes do Pireu." Você suspeita que alguma coisa não bate porque sabe que há gregos que são espartanos, por exemplo. Mas você não é capaz de demonstrar onde e como ele se enganou. Você precisaria conhecer todas as regras da lógica formal.

JCC: Para mim, o estúpido não se contenta em enganar. Ele afirma seu erro alto e bom som, proclama-o, quer que todos o ouçam. É inclusive surpreendente ver o quanto a estupidez é tonitruante: "Agora sabemos de fonte segura que..." e segue-se uma besteirada.

UE: Você tem toda a razão. Se você brada insistentemente uma verdade comum, banal, ela logo se torna uma estupidez.

JCC: Flaubert disse que a burrice é querer concluir. O imbecil pode chegar por si mesmo a soluções peremptórias, definitivas. Ele quer encerrar para sempre determinada questão. Mas essa burrice, frequentemente recebida como verdade por determinada sociedade, é para nós, com o recuo da história, extremamente instrutiva. A história da beleza e da inteligência à qual limitamos nosso ensino, ou melhor, à qual outros limitaram nosso ensino, não passa de uma parte ínfima da atividade humana, como dissemos. Talvez seja inclusive preciso considerar — aliás, você tenta — uma história geral do erro e da ignorância, além da feiura.

UE: Falamos de Aécio e da maneira como ele explicou os trabalhos dos pré-socráticos. É cristalino: esse sujeito era estúpido. Quanto à burrice, pelo que você falou, não me parece ser idêntica à estupidez. Seria antes uma maneira de administrar a estupidez.

JCC: De maneira enfática, geralmente declamatória.

UE: É possível ser estúpido sem ser completamente burro. Estúpido por acidente.

JCC: Sim, mas assim o sujeito não se estabelece.

UE: É possível viver da burrice, é verdade. No exemplo que você citava, dizer que Jesus, pelo lado da mãe, era de "excelente família", não é na minha opinião uma completa estupidez. Pura e simplesmente porque, do ponto de vista da exegese, é verdade. Creio que estamos aqui resolutamente do lado da imbecilidade. Posso dizer que alguém é de boa família. Não posso dizê-lo de Jesus Cristo, porque isso é menos importante, no fim das contas, do que ser filho de Deus. Logo, Quélen diz uma verdade histórica, mas inoportunamente. O imbecil fala sempre sem discernimento.

JCC: Penso nesta outra citação: "Não sou de boa família. Mas meus filhos são." A menos que se trate de um humorista, lidamos na verdade com um imbecil complacente. E voltemos ao monsenhor de Quélen. Afinal, trata-se de um arcebispo de Paris, de um espírito decerto bastante conservador, mas exercendo grande autoridade moral, nesse momento, na França.

UE: Então corrijamos nossa definição. A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho e assiduidade.

JCC: É, não está mal. Poderíamos também enriquecer nossas conversas com citações recolhidas em todos aqueles, e são muitos, que procuraram demolir os que hoje consideramos grandes autores, ou artistas. Os insultos são sempre mais bombásticos que os elogios. Temos que admiti-lo e compreendê-lo. Um verdadeiro poeta desbrava seu caminho sob um temporal de insultos. A Quinta de Beethoven era um "estrépito de obscenidades", o "fim da música". Ao mesmo tempo, ninguém mais tem dúvida acerca dos nomes ilustres responsáveis por esse rosário de insultos pendurados no pescoço de Shakespeare, Balzac, Hugo etc. O próprio Flaubert dizia sobre Balzac: "Que homem teria sido Balzac se soubesse escrever." E depois tem a burrice patriótica, militarista, nacionalista, racista. Você pode se debruçar no Dicionário da Burrice no verbete dedicado aos judeus. As citações falam menos do ódio que da mera burrice. Da burrice cruel. Exemplo: os judeus, por natureza, têm inclinação pelo dinheiro. A prova: quando uma mãe judia tem um parto difícil, basta agitar moedas de prata perto de sua barriga para que o bebê judeu apareça de mãos estendidas. Isso foi escrito em 1888 por um certo Fernand Grégoire. Escrito e publicado. E Fourier dizendo que os judeus são "a peste e o cólera do corpo social". E o próprio Proudhon, anotando em seus bloquinhos: "Temos que despachar essa raça para a Ásia, ou exterminá-la." São "verdades" formuladas por pessoas que no mais das vezes arvoram-se a cientistas. "Verdades" que dão calafrio na espinha.

UE: Diagnóstico: estupidez ou cretinice? Um caso de epifania da imbecilidade (no sentido em que entendo) é oferecido por Joyce ao relatar uma conversa com Mister Skeffington: "Soube que seu irmão morreu", disse Skeffington. "E tinha apenas 10 anos", alguém comenta. Skeffington replica: "Mesmo assim, é triste."

JCC: A burrice muitas vezes avizinha-se do erro. Foi essa paixão pela burrice que sempre me aproximou de sua pesquisa sobre a fraude. Eis dois caminhos solenemente ignorados pelo ensino. Cada época tem sua verdade de um lado e suas notórias imbecilidades do outro, imensas, mas é apenas essa verdade que o ensino julga por bem ensinar, transmitir. De certa forma, a burrice é filtrada. Sim, existe um "politicamente correto" e um "inteligentemente correto". Em outras palavras, uma maneira certa de pensar. Queiramos ou não.

UE: É o teste do azul de tornassol que permite determinar se estamos em presença de um ácido ou de uma base. O teste do tornassol nos permitiria saber, em cada um desses casos, se estamos em presença de um estúpido ou de um imbecil. Mas para voltar à sua aproximação entre a burrice e a fraude: a fraude não é obrigatoriamente a expressão da estupidez ou da imbecilidade. É pura e simplesmente um erro. Ptolomeu acreditava de boa-fé que a Terra era imóvel. Cometia um erro por falta de informações científicas. Mas amanhã podemos descobrir que a Terra não gira em torno do Sol e então prestaremos homenagem à sagacidade de Ptolomeu. Agir de má-fé é dizer o contrário do que se julga verdade. Mas sempre cometemos o erro de boa-fé. Logo, o erro atravessa toda a história da humanidade, e melhor assim, aliás, senão seríamos deuses. A noção de "falsificação" que estudei é na realidade muito sutil. Há a falsificação que resulta da imitação de alguma coisa apontada como original e que deve manter uma identidade perfeita com seu modelo. Haverá entre o original e a falsificação uma indiscernibilidade, no sentido leibniziano. O erro reside aqui no fato de atribuir um valor de verdade a alguma coisa que sabemos estar errada. Há também o raciocínio falso de Ptolomeu, que, falando de boa-fé, se engana. Mas não se trata aqui de impingir que a Terra é imóvel, porque sabemos que na realidade ela gira em torno do Sol. Não. Ptolomeu acredita efetivamente que a Terra é imóvel. A falsificação nada tem a ver com o que consideramos, com o recuo, em se tratando de Ptolomeu, como um saber simplesmente equivocado.

JCC: Com o seguinte esclarecimento, que não facilitará nossa tentativa de definição: Picasso admitia que também podia fazer Picassos falsos. Inclusive gabou-se de ter feito os melhores Picassos falsos do mundo.

UE: Chirico também confessou ter feito Chiricos falsos. E devo admitir que também produzi um Eco falso. Uma revista satírica italiana, uma espécie de Charlie Hebdo, preparara um número especial do Corriere della Sera a respeito da chegada dos marcianos à Terra. Era naturalmente uma fraude. Eles me pediram um artigo falso de mim mesmo, na forma de paródia de Eco.

JCC: É uma maneira de se evadir de si mesmo, de sua carne, de sua matéria. Quando não, de seu espírito.

UE: Mas em primeiro lugar criticar a si próprio, expor nossos lugares-comuns, pois são esses lugares-comuns que vou repetir para "fazer Eco". O exercício que consiste em produzir uma falsificação de si mesmo é, portanto muito saudável.

JCC: Mesma coisa para a pesquisa sobre a burrice que nos tomou anos. Foi um período em que, Bechtel e eu, só líamos, obsessivamente, péssimos livros. Esquadrinhávamos os catálogos das bibliotecas e bastava a leitura de determinados títulos para fazermos uma ideia do tesouro que nos esperava. Quando você descobre em sua lista um título como Da influência do velocípede sobre os bons costumes, pode ter certeza de que topou com um veio de ouro.

UE: O problema se apresenta quando o louco interfere na sua vida. Como já disse, dediquei uma pesquisa aos loucos publicados pelas vanity presses, e para mim era óbvio que eu resumia suas ideias com ironia. Ora, alguns deles não perceberam essa ironia e me dirigiram uma mensagem me agradecendo por ter levado seu pensamento a sério. Mesma coisa com o Pêndulo de Foucault, que atacara os "portadores" de verdade e que às vezes suscitou neles manifestações de entusiasmo inesperadas. Ainda recebo (ou melhor, minha mulher ou minha secretária, que os filtram) telefonemas da parte de um certo Grão-Mestre dos Templários.

JCC: Cito para você, para rirmos um pouco, uma carta publicada em nosso Dicionário da burrice, e você entenderá imediatamente a razão disso. Nós a encontramos na Revue des Missions Apostoliques (sim, lemos até isso). Um padre agradece a seu interlocutor por ter feito uma água milagrosa, a qual teve sobre "o doente" uma influência muito positiva, mas "à sua revelia". "Fiz-lhe beber dela sem que ele desconfiasse durante nove dias, e ele, que durante quatro anos quedara-se entre a vida e a morte, ele que, durante quatro anos também, resistira a mim com uma obstinação exasperante e blasfêmias que fazem estremecer, expirou suavemente após sua novena,
no sentimento de uma piedade ainda mais consoladora na medida em que menos esperada."

UE: A dificuldade em que nos vemos para decidir se esse sujeito é um cretino, um estúpido ou um imbecil vem do fato de que essas categorias são tipos ideais, Ideal-typen, como diriam os alemães. Ora, encontraremos a maior parte do tempo uma mistura dessas três atitudes num mesmo indivíduo. A realidade é bem mais complexa do que essa tipologia.

JCC: Eu não voltava a essas questões há anos, mas fico impressionado ao verificar mais uma vez quão estimulante é o estudo da burrice. Não apenas porque ela questiona a sacralização do livro, mas porque nos leva a descobrir que fomos, cada um de nós, a todo momento, capazes de proferir burrices semelhantes. Estamos sempre à beira de dizer uma estupidez. Por exemplo, esta frase que deixo escapar, ainda que emanando de Chateaubriand. Ele está falando de Napoleão, de quem não gostava, e escreve: "É, com efeito, um grande vencedor de batalhas, mas, afora isso, o pior general é mais esperto que ele."

JPT: Vocês poderiam falar mais dessa paixão que ambos partilham pelos limites e imperfeições do ser humano? Seria isso em vocês a expressão oculta de uma compaixão?

JCC: Num dado momento da minha vida, quando eu tinha uns 30 anos, após ter terminado o curso superior e ter feito os tradicionais estudos clássicos, produziu-se um clique. Eu era soldado na Argélia durante a guerra, em 1959-1960... E então, de repente, descobri a total inutilidade, eu ia dizer futilidade, do que me haviam ensinado. Nesse período, li textos sobre a colonização, textos de uma estupidez e violência de que eu não fazia ideia, que ninguém jamais pusera sob meus olhos. Comecei a pensar comigo que gostaria de sair das trilhas rotineiras para descobrir os arredores, os terrenos baldios, a mata, ou até mesmo os pântanos. Guy Bechtel, por sua vez, fizera o mesmo caminho que eu. Havíamos nos conhecido no khâgne [Khâgne: curso preparatório de dois anos, após o baccalauréat, para ingresso na École Normale des Études Supérieures].

UE: Creio que, de uma maneira sensivelmente diferente, estamos de fato no mesmo comprimento de onda. Escrevi, no texto que você me pediu como conclusão para sua enciclopédia sobre A morte e a imortalidade, que, para aceitar a idéia do nosso fim, precisávamos nos convencer de que todos os que ficavam depois de nós eram idiotas e que não valia a pena passar mais tempo com eles. Isso é uma forma paradoxal de afirmar uma verdade que é que, ao longo de toda a nossa vida, cultivamos as grandes virtudes da humanidade. O ser humano é uma criatura literalmente extraordinária. Descobriu o fogo, construiu cidades, escreveu magníficos poemas, deu interpretações do mundo, inventou imagens mitológicas, etc. Porém, ao mesmo tempo, não cessou de guerrear seus semelhantes, de se enganar, de destruir seu meio ambiente, etc. O equilíbrio entre a alta virtude intelectual e a baixa idiotice dá um resultado mais ou menos neutro. Logo, decidindo falar da burrice, de certa forma prestamos uma homenagem a essa criatura que é um tanto genial e outro tanto imbecil. E, quando vamos nos aproximando da morte, como é o nosso caso, então começamos a achar que a tolice prevalece sobre a virtude. É evidentemente a melhor maneira de se consolar. Se um bombeiro hidráulico vem consertar uma infiltração no meu banheiro, me cobra um preço alto por isso e se, depois que ele se vai, descobrimos que a infiltração continua lá, vou me consolar dizendo à minha mulher: "É um cretino, senão não consertaria, e muito mal, os banheiros com infiltração. Seria, sim, professor de semiologia na Universidade de Bolonha."

JCC: A primeira coisa que descobrimos ao estudarmos a burrice é que nós mesmos somos imbecis. Ninguém chama impunemente o outro de imbecil sem se dar conta de que a burrice alheia é nada mais nada menos do que um espelho que nos reflete. Um espelho permanente, preciso e fiel.

UE: Não vamos cair no paradoxo de Epimênides, que diz que todos os cretenses são mentirosos. Uma vez que ele é cretense, ele é mentiroso. Se um asno lhe diz que todos os outros são asnos, o fato de que você seja um asno não impede que diga a verdade. Se agora ele acrescenta que todos os outros são asnos "como ele", então ele dá mostras de inteligência. Logo, ele não é um asno. Porque os outros passam a vida escondendo que o são. Também existe o risco de cairmos num outro paradoxo, este, enunciado por Owen. Todas as pessoas são imbecis, exceto você e eu. E você, aliás, no fundo, pensando bem...

JCC: Nosso espírito é delirante. Todos os livros que eu e você colecionamos atestam a dimensão propriamente vertiginosa do nosso imaginário. É particularmente difícil distinguir a divagação e a loucura de um lado, e a burrice do outro.

UE: Outro exemplo de estupidez que me ocorre é o de Nehaus, autor de um panfleto sobre os rosa-cruzes escrito na época em que, na França, por volta de 1623, as pessoas se interrogavam para saber se eles existiam ou não. "Só o fato de eles nos esconderem que existem já é a demonstração de sua existência", afirma esse autor. A prova de que eles existem é que eles negam existir.

JCC: É um argumento que estou disposto a aceitar.

JPT: Será que é uma suposição, podemos ver a burrice como um mal antigo que nossas novas tecnologias, acessíveis a todos, contribuiriam para combater? Vocês assinariam embaixo desse diagnóstico positivo?

JCC: Evito olhar nossa época com pessimismo. Isso é muito fácil, corre pelas ruas. Apesar de tudo... Cito uma resposta de Michel Serres a um jornalista que o interrogava, não sei mais em que circunstâncias, sobre a decisão de construir a represa de Assuã. Uma comissão havia sido criada, reunindo engenheiros hidráulicos, especialistas em diferentes materiais, em cimento, até mesmo ecologistas, mas nela não havia nem filósofo nem egiptólogo. Michel Serres estava perplexo com isso. E o jornalista, perplexo com a perplexidade dele. "Para que serviria um filósofo numa comissão desse tipo?", perguntou. "Ele teria notado a ausência do egiptólogo", respondeu Serres. Para que efetivamente serve um filósofo? Essa resposta não tem um elo maravilhoso com nosso assunto do momento, a burrice? A que idade da vida, e de que maneira, devemos encontrar a estupidez, a vulgaridade, a teimosia idiota e cruel que são nosso pão cotidiano e com os quais teremos que conviver? Na França há uma espécie de debate — há debates sobre tudo — a respeito da idade em que poderíamos nos iniciar na filosofia. Hoje é no último ano do liceu que nossos estudantes a descobrem. Mas por que não mais cedo? E por que não iniciar também as crianças na antropologia, que é uma abertura para o relativismo cultural?

UE: É incrível que, no país mais filosófico do mundo, a Alemanha, não ensinem filosofia no liceu. Na Itália, em contrapartida, sob a influência do historicismo idealista alemão, temos uma iniciação à história da filosofia que dura três anos, o que é bem diferente do que é oferecido na França, onde se trata de uma iniciação na atividade filosófica. Julgo não ser inútil saber alguma coisa do que os filósofos pensavam, dos pré-socráticos aos nossos dias. O único risco para o estudante ingênuo é acreditar que aquele que pensa por último é quem tem razão. Mas não faço idéia do que produz nos jovens o ensino da filosofia tal como é concebido na França.

JCC: A minha impressão é de que esse ano foi totalmente perdido. O programa estava dividido em várias partes: filosofia geral, psicologia, lógica e moral. Mas como podemos conceber um manual de filosofia? E, aliás, o que dizer das culturas que não conheceram o que chamamos de filosofia? É a observação sobre a antropologia que eu fazia agorinha. A noção de "conceito filosófico", por exemplo, é puramente ocidental. Tente explicar o que é um "conceito" a um indiano, mesmo a um bastante sofisticado, ou a "transcendência" a um chinês! E estendamos nossa conversa à questão da educação, sem pretender evidentemente resolvê-la. Desde a reforma que ficou conhecida como de Jules Ferry, a escola na França é gratuita, mas é também obrigatória para todos. O que significa que a República deve ensinar a mesma coisa a todos os cidadãos, sem restrição, mesmo sabendo muito bem que uma maioria vai pular do barco, o objetivo do jogo sendo, em última instância e seletivamente, formar as elites que irão dirigir o país. Sistema de que sou um beneficiário perfeito: sem Jules Ferry, eu não estaria aqui falando com vocês. Seria hoje um velho camponês sem um tostão no sul da França. Quem sabe, aliás, o que eu seria? Todo sistema educativo é inevitavelmente um reflexo da sociedade que o viu nascer, que o elaborou, que o impôs. Entretanto, na época de Jules Ferry, a sociedade francesa e a sociedade italiana eram totalmente diferentes do que são hoje. Sob a III República, 75% dos franceses ainda são camponeses, os operários talvez representem 10% ou 15% e o que chamamos elites ainda menos. Esses 75% de camponeses são hoje 3% ou 4% e o mesmo princípio educativo continua em vigor. Ora, na época de Jules Ferry, os que não conseguiam fazer alguma coisa com sua escolaridade encontravam empregos na agricultura, no artesanato, no mundo operário, como domésticos. Como todos esses empregos foram gradualmente desaparecendo, os que foram rejeitados antes ou depois do último ano estão hoje em queda livre. Nada existe para acolhê-los, para amortecer essa queda. Nossa sociedade metamorfoseou-se e o sistema educativo permanece grosso modo o mesmo, pelo menos em seus princípios. Acrescente a isso que as mulheres que fazem curso superior são hoje muito mais numerosas e que elas vêm disputar com os homens um número de empregos que não aumentou nos setores tradicionalmente cobiçados. Entretanto, se os ofícios do artesanato não apaixonam mais as multidões, eles continuam a despertar algumas vocações. Fui, há poucos anos, membro de um júri que concedia prêmios aos melhores candidatos exercendo o que chamamos de artes e ofícios, que são o ápice do artesanato. Fiquei estupefato ao descobrir as matérias-primas e as técnicas que aquelas pessoas utilizavam e dominavam, e seus talentos. Nesse domínio, em todo caso, nem tudo está perdido.

UE: Sim, há em nossas sociedades, nas quais o problema do emprego é um problema de todos, jovens que redescobrem as profissões artesanais. Este é um fato verificado na Itália e provavelmente também na França e em outros países ocidentais. Quando me acontece encontrar esses novos artesãos e eles percebem meu nome no meu cartão de crédito, noto com bastante frequência que leram alguns de meus livros. Os mesmos artesãos, há cinquenta anos, uma vez que não haviam seguido o itinerário escolar até o seu termo, provavelmente não teriam lido esses livros. Estes, portanto, realizaram sua formação superior antes de se entregarem a um trabalho manual. Um amigo me contou que um dia, junto com um colega filósofo, tomou um táxi na Universidade de Princeton, em Nova York. O motorista era, na versão do meu amigo, um urso cujo rosto desaparecia sob longos cabelos hirsutos. O urso puxou conversa para saber um pouco com quem estava lidando. Eles então explicaram que ensinavam em Princeton. Mas o motorista queria saber mais. O colega, um pouco irritado, disse que estudava a percepção transcendental através da epoché... e o motorista interrompeu-o, dizendo-lhe: "Husserl, isn't it?" Tratava-se, naturalmente, de um estudante de filosofia dando uma de taxi driver para pagar seus estudos. Mas, na época, um motorista de táxi que conhecia Husserl era um espécime absolutamente raro. Hoje topamos com motoristas que colocam música clássica para você e lhe perguntam sobre sua última obra de semiótica. Não é completamente surrealista?

JCC: No fim das contas, são boas notícias, não acha? Parece-me que os perigos ecológicos, que não são fingidos, longe disso, podem aguçar nossa inteligência e nos poupar de adormecer muito tempo e muito profundamente.

UE: Podemos insistir nos progressos da cultura, que são manifestos e tocam categorias sociais que eram tradicionalmente excluídas deles. Mas ao mesmo tempo temos a desvantagem da burrice. Não é porque os camponeses de outrora se calavam que eram burros. Ser culto não significa necessariamente ser inteligente. Não. Mas hoje todas essas pessoas querem se fazer ouvir e, fatalmente, em certos casos fazem ouvir apenas sua simples burrice. Então digamos que uma burrice de antigamente não se expunha, não se dava a conhecer, ao passo que, em nossos dias, vitupera. Ao mesmo tempo, essa linha divisória entre inteligência e burrice está sujeita a caução. Quando tenho que trocar uma lâmpada, sou um perfeito cretino. Vocês têm na França variações em torno de "Quantos... são necessários para trocar uma lâmpada"? Na Itália, temos uma série considerável. Antes, os protagonistas eram os cidadãos de Cuneo, uma cidade do Piemonte. "Quantas pessoas de Cuneo são necessárias para trocar uma lâmpada?" A resposta é cinco: uma para segurar a lâmpada e quatro para rodarem a mesa. Mas a piada também existe nos Estados Unidos. "Quantos californianos são necessários para trocar uma lâmpada? — Quinze: um para trocar a lâmpada e 14 para partilhar a experiência."

JCC: Você está falando das pessoas de Cuneo. Cuneo fica no norte da Itália. Tenho a impressão de que, em todos os povos, as pessoas muito tolas estão sempre no norte.

UE: Claro, pois é no norte que encontramos mais pessoas vítimas do bócio, é no norte que estão as montanhas que simbolizam o isolamento, era do norte também que vinham os bárbaros que iam se despejar em nossas cidades. É a vingança das pessoas do sul que têm menos dinheiro, que são tecnicamente menos desenvolvidas. Quando Bossi, chefe da Liga do Norte, um movimento racista, desceu a Roma pela primeira vez para pronunciar um discurso, as pessoas agitavam cartazes pela cidade onde se podia ler: "Quando você ainda vivia nas árvores, nós já éramos tagarelas." As pessoas do sul sempre criticaram as pessoas do norte por falta de cultura. A cultura é às vezes a última instância da frustração tecnológica. Repare que agora as pessoas de Cuneo foram substituídas na Itália pelos carabinieri. Mas nossos policiais tiveram jogo de cintura para brincar com a reputação que lhes era atribuída. O que não deixava de ser uma prova de sua inteligência. Depois dos policiais, chegou a vez de Francesco Totti, o jogador de futebol, que causou um tremendo alvoroço. Totti reagiu publicando um livro que reunia todas as histórias contadas a seu respeito e doou o lucro das vendas a organizações de caridade. A fonte esgotou-se por si mesma e todos reconsideraram sua opinião sobre ele.


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