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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 12

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

A censura pelo fogo

cena do filme Fahrenheit 451

"(...) Virgílio pediu em seu leito de morte
que queimassem a Eneida!"

JPT: Dentre os censores mais temíveis da história dos livros, temos que destacar o fogo.

UE: Naturalmente, e convém citar imediatamente as fogueiras em que os nazistas faziam desaparecer os livros "degenerados".

JCC: Em Fahrenheit 451, Bradbury imagina uma sociedade que quis se emancipar da herança estorvante dos livros e decidiu queimá-los. 451 graus Fahrenheit é precisamente a temperatura sob a qual o papel queima: pois, no filme, são os bombeiros os encarregados de queimar os livros.

UE: Fahrenheit 451 é também o nome de um programa da rádio italiana. Mas se trata exatamente do contrário: um ouvinte telefona para explicar que não consegue encontrar ou que perdeu determinado livro. Outro liga daqui a pouco para dizer que possui um exemplar e que está disposto a cedê-lo. É um pouco o princípio de abandonar um livro em algum lugar, num cinema, num metrô, após tê-lo lido, a fim de fazer a felicidade de outro. Dito isto, o fogo acidental ou voluntário acompanha a história do livro desde suas origens. Seria impossível citar todas as bibliotecas que arderam.

JCC: Isso me lembra uma experiência para a qual fui convidado pelo Museu do Louvre. Tratava-se de escolher uma obra e comentá-la, à noite, diante de um pequeno grupo de pessoas. Eu tinha feito a escolha de um Lesueur, pintor francês do início do século XVII, A pregação de São Paulo em Éfeso. No quadro, via-se São Paulo, de pé sobre uma estela com uma barba e uma túnica. Ele usa uma túnica: é exatamente o visual de um aiatolá de hoje em dia, pelo menos o turbante. O olho está injetado. Alguns fiéis escutam. Na parte inferior do quadro, dando as costas para o espectador, de joelhos, um escravo negro queima livros. Me aproximei do quadro para ver que livros estavam sendo queimados. Ora, eles estampam, dá para ver entre as páginas, figuras e fórmulas matemáticas. O escravo, decerto recém-convertido, queimava então a ciência grega. Que mensagem, direta ou subterrânea, o pintor quis nos transmitir? Não sou capaz de dizê-lo. Mas ainda assim a imagem é extraordinária. A fé chega, queima-se a ciência. É mais do que uma filtragem, é uma supressão pelas chamas. O quadrado da hipotenusa deve desaparecer para sempre.

UE: Há inclusive aí uma conotação racista, uma vez que a destruição dos livros é atribuída a um negro. Nós achamos que os nazistas foram com certeza aqueles que queimaram mais livros. Mas o que sabemos exatamente acerca do que aconteceu na época das Cruzadas?

JCC: Piores que os nazistas, creio que os maiores coveiros de livros foram os espanhóis no Novo Mundo. E os mongóis, por sua vez, também não ficam atrás.

UE: Na aurora da modernidade, o mundo ocidental foi confrontado com duas culturas ainda desconhecidas, a ameríndia e a chinesa. Ora, a China era um grande império impossível de conquistar e "colonizar", mas com o qual podíamos comerciar. Os jesuítas foram até lá não para converter os chineses, mas para estimular o diálogo das culturas e das religiões. Como os rincões ameríndios pareciam, ao contrário, povoados por selvagens sanguinários, isso foi ensejo para uma verdadeira pilhagem e inclusive para um pavoroso genocídio. Ora, a justificação ideológica desse duplo comportamento baseia-se na natureza das linguagens utilizadas em ambos os casos. Os pictogramas ameríndios foram definidos como uma simples imitação das coisas, desprovida de qualquer dignidade conceitual ao passo que os ideogramas chineses representavam ideias e, portanto, eram mais "filosóficos". Sabemos hoje que a escrita pictográfica era muito mais sofisticada do que isso. Quantos textos pictográficos desapareceram dessa forma?

JCC: Os espanhóis, ao eliminarem os vestígios de extraordinárias civilizações, não se deram conta de que queimavam tesouros. E foram alguns deles, em particular um monge espantoso, Bernardino de Sanagun, que pressentiram que havia ali alguma coisa que não devia ser destruída, uma parte essencial do que hoje chamamos nossa herança.

UE: Os jesuítas que iam para a China eram pessoas cultas. Cortês ou, principalmente, Pizarro eram carniceiros imbuídos de um projeto culturicida. Os franciscanos que os acompanhavam consideravam os nativos feras selvagens.

JCC: Nem todos, felizmente. Nem Sahagun, nem Las Casas, nem Duran. Tudo que sabemos sobre a vida dos nativos antes da conquista devemos a eles. E eles correram riscos consideráveis.

UE: Sahagun era franciscano, mas Las Casas e Duran eram dominicanos. É curioso como os clichês podem ser falsos. Os dominicanos eram gente da Inquisição, enquanto os franciscanos eram paladinos da candura. E eis que, na América Latina, como num western, os franciscanos desempenharam o papel dos badguys e os dominicanos às vezes o dos good guys.

JPT: Por que os espanhóis destruíram alguns edifícios pré-colombianos e pouparam outros?

JCC: Às vezes simplesmente nem os viram. Foi o caso da maioria das grandes cidades maias, então abandonadas fazia vários séculos e cobertas pela selva. E também Teotihuacán, mais ao norte. A cidade já estava deserta no momento em que os astecas chegaram à região, por volta do século XIII. Essa obsessão em apagar todos os vestígios escritos mostra claramente como, para o invasor, um povo sem escrita é para sempre um povo maldito. Recentemente foram descobertos na Bulgária objetos de ourivesaria em túmulos datados do segundo e terceiro milênio antes da nossa era. Ora, os trácios, assim como os gauleses, não deixaram escrita. E os povos sem escrita, os que não se nomearam, os que não se contaram (sequer falsamente), não têm existência, ainda que suas peças de ourivesaria sejam magníficas, sofisticadas. Se quiser que se lembrem de você, você tem que escrever. Escrever e providenciar para que seus escritos não desapareçam em alguma fornalha. Às vezes me pergunto o que os nazistas tinham na cabeça quando queimavam livros judeus. Imaginavam eliminá-los todos, até o último? Não era uma iniciativa tão criminosa quanto utópica? Não era antes uma operação simbólica? Em nossa época, diante de nossos olhos, outras manipulações não deixam de me surpreender e indignar. Como tive oportunidade de ir muito ao Irã, uma vez sugeri a uma conhecida agência levar uma pequena equipe para filmar o país hoje, tal como o conheço. O diretor da agência me recebeu e começou por me dizer seu ponto de vista sobre um país que ele não conhecia. Disse-me literalmente o que eu devia filmar. Então era ele que decidia as imagens que eu devia reproduzir de um país aonde ele nunca tinha ido: fanáticos que batem no peito, por exemplo, drogados, prostitutas, e assim por diante. Desnecessário dizer que o projeto não se realizou. Vemos diariamente a que ponto a imagem pode ser enganosa. Trata-se de falsificações sutis, tanto mais difíceis de discernir na medida em que se apresentam como "imagens", isto é, como documentos. E, finalmente, acreditemos ou não, nada mais fácil de travestir do que a verdade. Lembro-me, num canal de televisão, de um documentário sobre Cabul, cidade que conheço. Todos os planos eram filmados em contre-plongée. Só se via o topo das casas dilaceradas pela guerra e nunca as ruas, os passantes, o comércio. Vinham acrescentar-se a isso as entrevistas que tristemente apontavam o estado lamentável do país. E a única ilustração sonora, durante todo o documentário, era um barulho de vento sinistro, daqueles que ouvimos nos desertos do cinema, mas uniforme. Ele então havia sido escolhido numa sonoteca e acrescentado propositalmente, um pouco por toda parte. O mesmo barulho de vento, como podia reconhecê-lo dessa vez um "ouvido treinado". Ao passo que nem as roupas finíssimas usadas pelos personagens filmados se mexiam. Aquela reportagem era uma mentira deslavada. Uma a mais.

UE: Lev Kulechov já mostrara de que maneira as imagens contaminam-se reciprocamente e como é possível fazê-las dizer coisas bem diferentes. O mesmo rosto de um homem mostrado uma primeira vez logo depois da visão de um prato cheio de comida e, uma segunda vez, logo depois de exposto a um objeto completamente asqueroso não produzirá a mesma impressão no espectador. No primeiro caso, o rosto de um homem exprime a cobiça; no segundo, o asco.

JCC: O olhar acabava vendo o que as imagens querem sugerir. Em O bebê de Rosemary, de Polanski, muita gente viu o bebê monstruoso no fim, pois ele é descrito pelos personagens que se debruçam sobre seu berço. Mas Polanski nunca o filmou.

UE: E muita gente, provavelmente, viu o conteúdo do famoso estojo oriental em A bela da tarde.

JCC: Naturalmente. Quando perguntavam a Bunuel o que havia lá dentro, ele respondia: "Uma fotografia do senhor Carrière. É por isso que as garotas ficam horrorizadas." Um dia, um desconhecido liga para minha casa ainda a propósito do filme, e me pergunta se eu já tinha morado no Laos. Nunca pus os pés lá, digo para ele. Mesma pergunta para Bunuel e mesma negação. O homem, ao telefone, está espantado. Para ele, o famoso estojo lembra claramente um antigo costume do Laos. Perguntei-lhe então se ele sabia o que havia na caixa. Ele me diz: "Claro! — Por favor, eu lhe digo, então me conte!" Ele me explica que o costume em questão consistia, para as mulheres, em prender com correntes de prata grandes escaravelhos no clitóris durante o ato amoroso, o movimento das patas permitindo-lhes gozar mais demorada e delicadamente. Caio um pouco das nuvens e digo-lhe que jamais pensamos em aprisionar um escaravelho na caixa de A bela da tarde. O homem desliga. E sinto imediatamente uma decepção diante da ideia mesma de saber! Eu perdera o sabor agridoce do mistério. Tudo isso para dizer que a imagem, onde vemos frequentemente coisa diversa do que ela mostra, pode mentir de uma maneira ainda mais sutil que a linguagem escrita ou o discurso falado. Se devemos manter certa integridade de nossa memória visual, é preciso absolutamente ensinar as gerações futuras a olhar as imagens. É inclusive uma prioridade.

UE: Existe outra forma de censura diante da qual nos mostramos passivos hoje em dia. Podemos conservar todos os livros do mundo, todos os suportes digitais, todos os arquivos, mas se houver uma crise de civilização que faça com que todas as linguagens que escolhemos para conservar essa imensa cultura se tornem intraduzíveis de uma hora para outra, então essa herança estará irremediavelmente perdida.

JCC: Isso aconteceu com a escrita hieroglífica. A partir do edito de Teodósio I, em 380, a religião cristã tornou-se religião de Estado, única e obrigatória em todo o Império. Os templos egípcios, entre outras coisas, foram fechados. Os sacerdotes, que eram os especialistas, os depositários dessa escrita, viam-se doravante na impossibilidade de transmitir seu saber. Deviam enterrar seus deuses, com os quais conviviam há milênios. E com seus deuses, os objetos do culto e a própria linguagem. Basta uma geração para que tudo desapareça. E talvez para sempre.

UE: Foram necessários 14 séculos para redescobrir a chave dessa linguagem.

JPT: Voltemos um instante à censura pelo fogo. Os que queimavam as bibliotecas da Antiguidade talvez julgassem ter destruído todo vestígio dos manuscritos que elas abrigavam. Porém, depois da invenção da tipografia, a coisa é agora impossível. Queimar um, dois, até mesmo cem exemplares de um livro impresso não significa que o livro vá desaparecer. Outros exemplares talvez ainda se achem espalhados num imenso número de bibliotecas privadas e públicas. Para que servem então as fogueiras modernas, bem como todas que os nazistas acenderam?

UE: O censor sabe muito bem que ele não faz desaparecer todos os exemplares do livro proscrito. Mas é uma forma de erigir-se em demiurgo capaz de consumir o mundo, e toda uma concepção do mundo, no fogo. O álibi é efetivamente regenerar, depurar uma cultura que alguns escritos gangrenaram. Não é um acaso que nazistas falassem de "arte degenerada". O auto de fé é como uma espécie de medicação.

JCC: Essa imagem de publicação, difusão, conservação e destruição é muito bem ilustrada na Índia pela figura do deus Shiva. Inscrito num círculo de fogo, uma de suas quatro mãos mantém o tambor no ritmo em que o mundo foi criado, outra, o fogo que vai destruir a obra da criação. As duas mãos estão no mesmo nível.

UE: Não estamos distantes da visão de Heráclito e dos estóicos. Tudo nasce pelo fogo e o fogo destrói tudo a fim de que tudo seja novamente destinado ao ser. É nesse sentido que sempre se preferiu queimar os heréticos a lhes cortar a cabeça, o que teria sido mais simples e menos caro. É uma mensagem dirigida àqueles que partilham as mesmas ideias ou possuem os mesmos livros.

JCC: Tomemos o caso de Goebbels, provavelmente o único intelectual entre os nazistas que era bibliófilo. Você tinha razão ao lembrar que aqueles que queimam livros sabem muito bem o que fazem. É preciso avaliar a periculosidade de um escrito para querer fazê-lo desaparecer. Ele sabe disso perfeitamente. Mas o gesto permanece altamente simbólico. E, sobretudo, ele diz aos outros: vocês têm o direito de queimar esse livro, não hesitem, é uma boa ação.

JPT: É como queimar a bandeira dos Estados Unidos em Teerã ou outro lugar qualquer...

JCC: Claro. Uma única bandeira queimada basta para revelar a determinação de um movimento, quando não de um povo. E, não obstante, como já vimos diversas vezes, o fogo nunca consegue reduzir tudo ao silêncio. Mesmo entre os espanhóis que tentaram erradicar todo vestígio de várias culturas, alguns monges tentavam salvar alguns exemplares. Bernardino de Sahagun, já citado — mas nunca o citaremos bastante —, mandava copiar por astecas, às vezes às escondidas, livros destinados ao fogo. E pedia aos pintores nativos para ilustrá-los. Em contra- partida, esse infeliz nunca viu em vida sua obra publicada, pura e simplesmente porque o poder, um dia, ordenou a apreensão de seus escritos. Homem ingênuo, chegou a propor entregar também seus rascunhos. Felizmente, isso não foi feito. Foi a partir desses rascunhos, no essencial, que, dois séculos mais tarde, foi publicado quase tudo que sabemos dos astecas.

UE: Os espanhóis tiveram tempo para destruir os vestígios de uma civilização. Mas o nazismo durou apenas 12 anos!

JCC: E Napoleão 11 anos. E Bush oito, por enquanto. Embora não possamos comparar, sei muito bem. Uma vez me "diverti", como contei, considerando 20 anos de história do século XX, de 1933, chegada de Hitler ao poder, até 1953, que marca a morte de Stálin. Imaginem tudo que aconteceu nesses 20 anos. Segunda Guerra Mundial, tendo como satélites, como se o conflito generalizado não bastasse, um monte de guerras secundárias, antes, durante e depois: guerra civil espanhola, guerra da Etiópia, guerra da Coreia e com certeza vou esquecer algumas. É o retorno de Shiva. Mencionei duas mãos, das quatro. Tudo que nasceu será destruído. Mas a terceira mão faz o gesto de abaya, que significa: "Sem medo", pois — quarta mão — "graças à forma do meu espírito, já desgrudei um dos meus pés do solo". É uma das imagens mais complexas que a humanidade nos deu para interpretar. Se vocês a compararem à de Cristo na cruz, que é a imagem de um agonizante diante da qual nossa cultura se prosternou, esta última parece muito simples. Paradoxalmente, talvez tenha sido isso que constituiu sua força.

UE: Volto ao nazismo. Há algo de curioso em sua cruzada contra os livros. O inspirador da política cultural do nazismo era Goebbels, que dominava perfeitamente as novas ferramentas da informação e teve a ideia de que o rádio devia tornar-se o vetor por excelência de toda comunicação. Combater a comunicação dos livros pela comunicação da mídia... Profético.

JCC: Como passamos dos livros queimados pelos nazistas ao Pequeno Livro Vermelho de Mao e àquele fervor que exaltou, durante alguns anos, um povo de um bilhão de seres humanos?

UE: A ideia de gênio de Mao foi, em primeiro lugar, ter feito do Pequeno Livro Vermelho uma bandeira que bastava agitar. Sem necessidade de ler. Ou melhor, uma vez que ele sabia que os textos sagrados não são mais lidos da primeira à última página, propôs excertos desordenados, aforismos que se podia aprender de cor e recitar como mantras ou ladainhas.

JCC: Mas como chegamos a esse ponto, a essa obsessão aparentemente estúpida de todo um povo brandindo um livro vermelho? Por que esse regime marxista, coletivista, põe o livro acima de tudo?

UE: Nunca soubemos nada de muito preciso sobre a Revolução Cultural e a maneira como as massas foram manipuladas. Participei, em 1971, de um volume coletivo sobre os quadrinhos chineses. Um jornalista que estava na China começara a coligir todo um material sobre o qual não sabíamos nada. Tratava-se de quadrinhos que imitavam o estilo inglês, mas também fotonovelas. Essas obras, que datam da Revolução Cultural, não permitem naturalmente supor o que acontecia então na China. Ao contrário, eram pacifistas, opondo-se a toda forma de violência, favoráveis à tolerância e à compreensão mútua. Aconteceu a mesma coisa com o Pequeno Livro Vermelho, que na época era uma espécie de símbolo não violento. Naturalmente, não diziam que a glorificação desse pequeno livro implicava o desaparecimento de todos os outros.

JCC: Eu estava na China durante as filmagens de O último imperador, de Bertolucci, fazendo uma tripla reportagem. Uma sobre o próprio filme, outra sobre o renascimento do cinema chinês para os Cahiers du Cinema, a última sobre a reaprendizagem dos instrumentos da música tradicional chinesa, a pedido de uma revista musical francesa. Meu encontro mais memorável foi o que tive com o diretor do Instituto dos Instrumentos da Música Tradicional. Interroguei-o para saber exatamente como a prática daqueles instrumentos havia sido abandonada durante a Revolução Cultural. Ele estava apenas começando a poder falar com um pouco mais de liberdade. Contou-me que primeiro haviam fechado o Instituto e destruído a biblioteca. Ele conseguiu, talvez correndo risco de vida, salvar alguns livros enviando-os para primos na província. Quanto a ele, foi transferido para uma aldeia para trabalhar como camponês. Todos os que tinham uma especialidade ou conhecimentos específicos deviam ser neutralizados. Era o princípio mesmo da Revolução: todo saber dissimula um poder, logo convém desvencilhar-se do saber. Esse homem chegou a uma comunidade de camponeses que imediatamente se deram conta de que ele não sabia manejar nem a pá nem a picareta. Sugeriram então que ficasse em casa. E esse homem, o maior especialista em música tradicional chinesa, me disse: "Durante nove anos, joguei dominó." Não estamos falando dos espanhóis na América há quatro ou cinco séculos, nem dos massacres perpetrados pelos cristãos durante as Cruzadas. Não. Estamos falando do que conhecemos durante nossas vidas. E o pior não fica para trás obrigatoriamente. Em sua História universal da destruição dos livros, Fernando Baez debruça-se sobre a destruição da biblioteca de Bagdá, que, por sua vez, data de 2003. Não é, aliás, a primeira vez que quiseram destruir uma biblioteca em Bagdá. Os mongóis já haviam se empenhado nisso. No caso, são terras diversas vezes invadidas, diversas vezes saqueadas, e nas quais pequenas pulgas terminam, apesar de tudo, ressurgindo. Nos séculos X, XI e XII, a civilização muçulmana é inegavelmente a mais brilhante. Ora, ela se vê subitamente atacada, e dos dois lados. Pelas cruzadas cristãs e pela reconquista que começa na Espanha de um lado, pelos mongóis do outro, que tomam Bagdá no século XIII e devastam a cidade. Os mongóis, como dissemos, destruíram cegamente, mas os cristãos não foram mais respeitosos. Baez conta que, durante sua passagem pela Terra Santa, eles destruíram cerca de três milhões de livros.

UE: É verdade, Jerusalém foi praticamente destruída depois que os cruzados entraram na cidade.

JCC: Mesma coisa quando se realiza a reconquista espanhola no fim do século XV. Cisneros, conselheiro da rainha Isabel de Castela, manda queimar todos os livros muçulmanos encontrados em Granada, poupando apenas algumas obras de medicina. Baez diz que metade dos poemas sufis dessa época teria sido queimada na oportunidade. Não podemos continuar a dizer que são os outros que destroem nossos livros. Temos ampla culpa nesse aniquilamento do saber e da beleza. Dito isto, para nos alegrar um pouquinho em meio a essa enumeração de catástrofes, devemos dizer que o livro conheceu inimigos, e isso não é o menos surpreendente, entre os próprios autores de livros. E não tão longe de nós. Philippe Sollers lembrou a existência, na França, em torno dos movimentos de 1968, de um Comitê de Ação Estudantes-Escritores, que eu não conheci mas que parecia bastante ridículo. Esse comitê rebelava-se com ardor contra o ensino tradicional (era então de rigor) e clamava, não sem lirismo, por um "novo saber". Maurice Blanchot militava nesse comitê, que pedia em especial o desaparecimento do livro, acusado de manter o saber prisioneiro. As palavras deviam finalmente alforriar-se do livro, do objeto livro, evadir-se dele. Para se refugiar onde? Isso não é dito. Mas, assim mesmo, escreviam: "Livros nunca mais!" Slogans que eram escritos e proferidos por escritores!

UE: Para terminar com as fogueiras de livros, devemos citar aqui esses autores que pretenderam e às vezes conseguiram queimar suas próprias obras...

JCC: Provavelmente essa paixão de destruir aquilo que se criou exprime pulsões que estão no mais recôndito de nós. Pensemos, com efeito, no desejo louco de Kafka de queimar sua obra no momento de sua morte. Rimbaud quis destruir Uma temporada no inferno. Borges realmente destruiu seus primeiros livros.

UE: Virgílio pediu em seu leito de morte que queimassem a Eneida! Quem sabe se nesses devaneios de destruições não havia a idéia arquetípica de uma destruição pelo fogo que anunciaria um recomeço do mundo! Ou então a ideia segundo a qual morro e comigo morre o mundo... É Hitler suicidando-se após ter ateado fogo no mundo...

JCC: Em Shakespeare, quando Tímon de Atenas morre, ele exclama: "Morro, Sol para de brilhar!" Podemos pensar no camicase que arrasta consigo, em sua própria morte, uma parte desse mundo que ele repele. Mas é verdade que, no caso, trata-se dos camicases japoneses lançando seus aviões contra a esquadra americana ou dos autores de atentados suicidas, trata-se antes de morrer por uma causa. Lembrei em algum lugar que o primeiro camicase da história foi Sansão. Ele consegue desmoronar o templo onde estava confinado e morre esmagando com ele um grande número de filisteus. O atentado suicida é ao mesmo tempo crime e castigo. Trabalhei numa época com o diretor japonês Nagisa Oshima. Ele me dizia que todo japonês, em seu percurso de vida, passa sempre, num dado momento, muito perto da ideia e do ato do suicídio.

UE: É o suicídio de Jim Jones com cerca de mil discípulos na Guiana. É a morte coletiva dos davidianos em Waco, em 1993.

JCC: É preciso de vez em quando reler Policeuto, de Corneille, que põe em cena um convertido cristão sob o Império Romano. Ele corre para o martírio e quer arrastar com ele sua mulher Paulina. Para ele, não há destino mais elevado. Que presente de núpcias!

JPT: Começamos a compreender que criar uma obra, publicá-la, divulgá-la, não é obrigatoriamente o melhor jeito de passar à posteridade...

UE: De fato. Para ser conhecido, há naturalmente a criação (a dos artistas, dos fundadores de império, dos pensadores). Porém, quando não se tem a capacidade de criar, então resta a destruição, de uma obra de arte ou às vezes de si mesmo. Tomemos o caso de Heróstrato. Ele passou à posteridade por ter destruído o templo de Ártemis em Éfeso. Como era sabido que ele deflagrara o incêndio com a única finalidade de passar à posteridade, o governo ateniense proibiu que seu nome fosse doravante pronunciado. Isso evidentemente não bastou. A prova: guardamos o nome de Heróstrato, ao passo que esquecemos o nome do arquiteto do templo de Éfeso. Heróstrato, naturalmente, tem numerosos herdeiros. Convém mencionar entre eles todas aquelas pessoas que vão à televisão para revelar que são chifrudas. É uma forma típica de auto-destruição. Contanto que estejam na primeira página, estão dispostas a tudo. É também o serial killer que no fim quer ser descoberto a fim de que falem dele.

JCC: Andy Warhol traduzia esse desejo com seu célebre Famous for fifteen minutes.

UE: É essa mesma pulsão que impele o sujeito que está atrás da pessoa que filmamos na televisão a agitar os braços para ter certeza de que foi vista. Isso nos parece cretino, mas é seu momento de glória.

JCC: As propostas que os produtores de televisão recebem são muitas vezes extravagantes. Alguns chegam a afirmar que estão dispostos a se matar ao vivo. Ou a simplesmente sofrer, ser chicoteados, torturados. Ou então a mostrar sua mulher fazendo amor com outro. As formas do exibicionismo contemporâneo parecem não conhecer limite.

UE: Temos um programa na televisão italiana, "La Corrida", que propõe a amadores virem manifestar-se sob as vaias de um público enfurecido. Todos sabem que vão ser massacrados e, não obstante, o programa é obrigado a recusar sempre milhares de candidatos. Muito poucos alimentam ilusões sobre seu talento, mas oferecem-lhe uma chance única de serem vistos por milhões de pessoas, então estão dispostos a tudo para isso.


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