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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 13

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

Todos os livros que não lemos


"Uma biblioteca não é obrigatoriamente formada
por livros que lemos ou livros que um dia leremos,
é fundamental esclarecer isso.
São livros que podemos ler.
Ou que poderíamos ler.
Ainda que jamais venhamos a lê-los"

JPT: Vocês citaram, durante essas conversas, inúmeros títulos, variegados e às vezes espantosos, mas uma pergunta, por favor: vocês leram esses livros? Um homem culto deve necessariamente ter lido os livros que supostamente conhece? Ou basta ele formar uma opinião, a qual, uma vez definida, dispensa-o para sempre de lê-los? Imagino que vocês ouviram falar do livro de Pierre Bayard Como falar dos livros que não lemos. Falem-me então dos livros que vocês não leram.

UE: Posso começar, se preferir. Participei em Nova York de um debate com Pierre Bayard e creio que, nessas questões, ele diz coisas certíssimas. Há mais livros neste mundo do que horas de que dispomos para tomar conhecimento deles. Não se trata nem de ler todos os livros que foram produzidos, mas apenas os livros mais representativos de uma cultura em particular. Somos profundamente influenciados por livros que não lemos, que não tivemos tempo de ler. Quem realmente leu Finnegans Wake, quer dizer, da primeira à última palavra? Quem leu realmente a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse? Somando todos os excertos que li, posso me gabar de ter lido um bom terço. Mas não mais que isso. Entretanto tenho uma idéia bastante precisa do que não li. Confesso que vim a ler Guerra e paz apenas aos 40 anos de idade. Mas sabia o essencial dele antes de lê-lo. Você citou o Mahabharata: nunca li, embora possua três edições dele em três línguas diferentes. Quem leu As mil e uma noites da primeira à última página? Quem leu de fato o Kama-Sutra? Entretanto, todo mundo fala dele, e alguns o colocam em prática. O mundo então está cheio de livros que não lemos, mas sobre os quais sabemos praticamente tudo. A questão, portanto, é saber como conhecemos esses livros. Bayard diz que nunca leu o Ulisses de Joyce, mas que está em condições de falar sobre ele para seus alunos. Ele pode dizer que o livro conta uma história que se passa num único dia, que o contexto é Dublin, o protagonista um judeu, a técnica que usa o monólogo interior, etc. E todos esses elementos, ainda que ele não o tenha lido, são rigorosamente verdadeiros. À pessoa que entra na sua casa pela primeira vez, descobre sua imponente biblioteca e não acha nada melhor para lhe perguntar a não ser: "Você leu todos?", conheço várias maneiras de responder. Um amigo respondia: "Mais, cavalheiro, mais." Quanto a mim, tenho duas respostas. A primeira é: "Não. Esses livros são apenas os que devo ler semana que vem. Os que já li estão na universidade." A segunda resposta é: "Não li nenhum desses livros. Senão, por que os guardaria?" Há naturalmente outras respostas mais polêmicas, para humilhar mais e até para frustrar o interlocutor. A verdade é que temos todos em nossas casas dezenas, ou centenas, ou mesmo milhares (se nossa biblioteca for imponente) de livros que não lemos. Entretanto, um dia ou outro, acabamos por pegar esses livros na mão para perceber que já os conhecíamos. E aí? Como conhecemos livros que não lemos? Primeira explicação ocultista que não considero: ondas circulam do livro até você. Segunda explicação: ao longo dos anos, não é verdade que você não abriu esse livro, você deslocou-o diversas vezes, talvez tenha até mesmo folheado, mas não se lembra. Terceira resposta: durante esses anos você leu um monte de livros que citavam esse livro, o qual terminou por lhe ser familiar. Logo, há diversas maneiras de saber alguma coisa sobre livros que não lemos. Felizmente, senão, onde arranjar tempo para reler quatro vezes o mesmo livro?

JCC: A respeito dos livros das nossas bibliotecas que não lemos, e que provavelmente nunca leremos: há provavelmente em cada um de nós a idéia de separar, colocar em algum lugar à parte livros com os quais temos um encontro marcado, mas mais tarde, muito mais tarde, talvez até numa outra vida. É terrível a lamentação desses moribundos que constatam que sua derradeira hora chegou e que ainda não leram Proust.

UE: Quando me perguntam se li este ou aquele livro, por precaução respondo sempre: "Você sabe, não leio, escrevo." Então todo mundo se cala. Às vezes há perguntas insistentes: "Você leu A feira das vaidades, o romance de Thackeray?" Terminei por ceder a essa injunção e, por três vezes, tentei lê-lo. Mas o romance me cansou.

JCC: Você acaba de me prestar um grande favor, pois eu me prometera lê-lo. Obrigado.

UE: Na época em que eu estava na universidade, em Turim, eu me alojava num quarto no colégio universitário. Por uma lira, que enfiávamos na mão do chefe da claque, podíamos assistir às representações em cartaz no teatro comunal. Em quatro anos de universidade, vi todas as obras- primas do teatro antigo e contemporâneo. Mas como o colégio fechava suas portas à meia-noite e meia e a noite no teatro raramente terminava a tempo de nos permitir voltar aos nossos quartos, assisti a todas as obras-primas do teatro sem os últimos cinco ou dez minutos. Mais tarde, conheci o meu amigo Paolo Fabbri, que, quando estudante, para ganhar um pouco de dinheiro, recebia os ingressos na entrada do teatro universitário de Urbino. Dessa forma, só podia assistir ao espetáculo quinze minutos depois de o pano subir, após a entrada de todos os espectadores. Faltava-lhe então o início, e, para mim, o fim. Precisávamos absolutamente prestarmo-nos assistência mútua. Foi o que sempre sonhamos fazer.

JCC: Da mesma forma me pergunto se de fato vi os filmes que julgo ter visto. Provavelmente vi trechos na televisão, li livros que falam deles. Conheço o resumo, amigos comentaram comigo. Uma confusão se estabelece na minha memória entre os filmes que tenho certeza de ter visto, os que tenho certeza de não ter visto e todos os demais. Por exemplo, Os Nibelungos, o filme mudo de Fritz Lang: tenho nos olhos imagens de Siegfried matando o dragão numa floresta magnífica, construída em estúdio. As árvores parecem feitas de cimento. Mas vi esse filme? Ou apenas esse trecho? Vêm em seguida os filmes que tenho certeza de não ter visto e sobre os quais falo como se tivesse visto. Às vezes até num tom de autoridade. Estávamos um dia em Roma com Louis Malle e amigos franceses e italianos. Vem à baila o filme de Visconti, O Gattopardo. Somos, Louis e eu, de opiniões diferentes, e, como somos do ramo, empenhamo-nos em fazer nosso ponto de vista prevalecer. Um de nós gostava do filme, o outro odiava-o: não sei mais quem era pró, quem era contra. Não faz mal. Toda a mesa nos escuta. Vejo-me subitamente invadido por uma dúvida e pergunto a Louis: "Você viu esse filme?" Ele me responde: "Não. E você? — Também não." As pessoas que nos escutavam ficaram indignadas, como se lhes tivéssemos feito perderem seu tempo.

UE: Quando há uma cátedra vaga numa das universidades italianas, uma comissão nacional reúne-se para selecionar o melhor candidato ao posto. Cada comissário recebe então montanhas de publicações de todos os candidatos. Conta-se a história de um desses comissários, cujo gabinete está tomado por aqueles papéis. Perguntam-lhe quando exatamente ele arranjará tempo para lê-los e ele responde. "Nunca os lerei. Não quero deixar-me influenciar por pessoas a quem devo julgar."

JCC: Ele tinha razão. Uma vez lido o livro, ou visto o filme, você se verá obrigado a defender sua opinião pessoal, ao passo que, se não sabe nada da obra, irá usufruir das opiniões dos outros em sua pluralidade, diversidade, encontrará os melhores argumentos, inclusive contrariando seu gosto, que não é obrigatoriamente bom... Há outra dificuldade. Tomo o exemplo do Castelo de Kafka, que li tempos atrás. Mas vi em seguida dois filmes livremente adaptados do Castelo, um dos quais, o de Michael Haneke, que deformaram razoavelmente minha primeira impressão e necessariamente embaralharam minhas recordações de leitura. Será que agora não penso no Castelo através dos olhos desses cineastas? Você dizia que o teatro de Shakespeare que lemos hoje é obrigatoriamente mais rico do que o que ele escreveu, porque essas peças absorveram todas as grandes leituras e interpretações que se sucederam desde que a pena de Shakespeare rangia celeremente sobre o papel. E creio nisso. Shakespeare se enriquece e fortalece incessantemente.

UE: Já falei como os jovens na Itália descobriam a filosofia, não através da atividade filosófica, como na França, mas através da história da disciplina. Lembro-me do meu professor de filosofia, um homem extraordinário. Foi graças a ele que fiz estudos de filosofia na universidade. Há realmente elementos de filosofia que compreendi com sua mediação. É provável que esse excelente professor não tenha lido todos os livros aos quais, seu curso fazia referência. Isso então quer dizer que muitos livros dos quais ele me falava, com entusiasmo e competência, eram na verdade desconhecidos para ele. Ele só os conhecia através das histórias da filosofia.

JCC: Quando Emmanuel Le Roy Ladurie dirigia a Biblioteca Nacional, ele se dedicou a um estudo estatístico bem estranho. Entre a criação da Biblioteca Nacional, a partir da Revolução, digamos nos anos 1820, e nossos dias, mais de dois milhões de títulos nunca foram consultados. Nem uma única vez. Talvez se trate de livros sem nenhum interesse, obras devotas, antologias de orações, ciências aproximativas como você gosta, pensadores justamente esquecidos. Na época de formação do acervo da Biblioteca, no início, caçambas cheias de livros descarregavam no pátio da Rua de Richelieu. Era preciso então recebê-los, classificá-los, provavelmente às pressas. Depois disso, os livros entravam em sua maioria num longo sono, em que ainda se encontram. Agora, coloco-me do lado do escritor ou do autor que nós três somos. Saber que nossos livros estão jogados numa prateleira sem que ninguém cogite em pegá-los não é uma idéia muito auspiciosa. Não imagino que seja esse, Umberto, o caso de seus livros! Em que país eles são mais bem recebidos?

UE: Em termos de tiragem, talvez seja a Alemanha. Se você vende 200 ou 300 mil exemplares na França, é um recorde. Na Alemanha, precisa passar de um milhão para ser bem-visto. Os ingleses geralmente preferem pegar os livros emprestados nas bibliotecas. A Itália, por sua vez, deve situar-se imediatamente antes de Gana. Em contrapartida, os italianos lêem muitas revistas, mais que os franceses. Foi a imprensa, em todo caso, que descobriu um método de conduzir não leitores para os livros. Como? Isso aconteceu na Espanha e na Itália, e não na França. O jornal oferece aos seus leitores, por uma soma bem modesta, um livro ou um DVD junto com o exemplar. Essa prática foi denunciada pelos livreiros, mas terminou se impondo apesar de tudo. Lembro, quando O nome da rosa foi assim oferecido gratuitamente acoplado ao jornal La Repubblica, que o jornal vendeu dois milhões de exemplares (em vez das 650.000 habituais) e meu livro então tocou dois milhões de leitores (e, se considerarmos que o livro talvez interessasse a toda a família, digamos prudentemente quatro milhões). Talvez houvesse nisso, de fato, algo com que preocupar os livreiros. Ora, seis meses mais tarde, auferindo as vendas do semestre nas livrarias, verificou-se que a venda da edição de bolso não se reduzira senão ligeiramente. Logo, esses dois milhões eram simplesmente pessoas que não frequentavam livrarias. Ganhamos um público novo.

JPT: Vocês dois manifestam um ponto de vista eu diria entusiasta sobre a prática da leitura em nossas sociedades. Os livros não se limitam mais às elites. E competem com outros suportes, cada vez mais sedutores e de melhor performance, resistindo e demonstrando que nada pode substituí-los. A roda, mais uma vez, revela-se insuperável.

JCC: Um dia, há 20 ou 25 anos, pego o metrô na estação Hôtel-de-Villoe. Na plataforma há um banco e nesse banco um homem, que coloca ao seu lado quatro ou cinco livros. Lê. Os metrôs passam. Observo aquele homem que não se interessa por nada além de seus livros e reservo demorar-me um pouco. Ele me interessa. Acabo me aproximando e acontece uma breve conversa. Pergunto-lhe educadamente o que faz. Ele me explica que vem todas as manhãs às oito e meia e fica até o meio-dia. Sai então, durante uma hora, para ir almoçar. Depois volta ao seu lugar e permanece no banco até as seis da tarde. Conclui com estas palavras que nunca esqueci: "Leio, nunca fiz nada a não ser isso”. Despeço-me, pois tenho a impressão de fazê-lo perder seu tempo. Por que o metrô? Porque ele não podia ficar num café o dia inteiro sem consumir e provavelmente não podia oferecer-se esse luxo. O metrô era de graça, quentinho, e o vaivém das pessoas não o perturbava em nada. Perguntei-me, e ainda me pergunto, se se tratava do leitor ideal ou de um leitor totalmente pervertido.

UE: E o que ele estava lendo?

JCC: Era bem eclético. Romances, livros de história, ensaios. Acho que havia nele mais uma espécie de dependência da leitura do que um real interesse pelo que lia. Disseram que a leitura é um vício impenitente. Esse exemplo mostra que pode se tornar uma verdadeira perversão. E até um fetichismo.

UE: Quando eu era criança, uma vizinha me dava um livro todos os anos no Natal. Um dia ela me perguntou: "Diga-me, Umbertino, você lê para saber o que tem no livro ou porque gosta de ler?" E tive que admitir que nem sempre eu estava apaixonado pelo que lia. Eu lia pelo gosto de ler, qualquer coisa. Foi uma das grandes revelações da minha infância!

JCC: Ler por ler, assim como viver por viver. Também conhecemos pessoas que vão ao cinema para ver filmes, isto é, imagens se mexendo, num certo sentido. Pouco importa, às vezes, o que o filme mostra ou conta.

JPT: Podemos identificar nisso um vício na leitura?

JCC: Com certeza. Esse homem no metrô é um exemplo disso. Imaginem alguém que diariamente dedicasse algumas horas à caminhada, mas que não prestasse nenhuma atenção à paisagem, às pessoas com quem cruzasse, ao ar que respirasse. Existe um ato de caminhar, de correr, assim como existe um ato de ler. O que você pode guardar dos livros que leu dessa maneira? Como nos lembrar do que lemos quando percorremos no mesmo dia dois ou três livros? No cinema, às vezes, há espectadores que se trancam para verem quatro ou cinco filmes por dia. É a sorte dos jornalistas e dos jurados nos festivais. Difícil se situar.

UE: Passei por isso uma vez. Eu tinha sido nomeado jurado no Festival de Veneza. Achei que ia enlouquecer.

JCC: Quando você sai da sala de projeção, titubeante, após ter visto sua ração diária, até as palmeiras da Croisette, em Cannes, lhe parecem falsas. A finalidade não é ver a todo custo ou ler a todo custo, mas saber o que fazer com essa atividade e como extrair dela um alimento substancial e duradouro. Será que os adeptos da leitura dinâmica saboreiam realmente o que lêem? Se você pular as longas descrições de Balzac, será que não perde exatamente o que constitui a marca profunda de sua obra? Aquilo que ele é o único a lhe proporcionar?

UE: Como aqueles que, num romance, procuram as aspas ou os travessões anunciando um diálogo. Devo ter feito isso na juventude, lendo relatos de aventuras, pulado alguns trechos para chegar aos diálogos seguintes. Mas continuemos com o nosso tema. O dos livros que não lemos. O escritor Achille Campanile imaginou um artifício para estimular a leitura. Como o marquês de Fuscaldo tornou-se o homem mais sábio de seu tempo? Herdara do pai uma imensa biblioteca, mas ignorava-a solenemente. Um dia, ao abrir um livro por acaso, achou uma cédula de 2 mil liras entre duas páginas. Perguntou-se se o mesmo acontecia nos outros livros e passou o resto de sua vida folheando sistematicamente todos os livros que recebeu de herança. E foi assim que se tornou um poço de saber.

JPT: "Não leiam Anatole France!" O conselho ou "desconselho" para lê-lo, como praticavam os surrealistas, não teve como consequência chamar atenção para obras que nunca pretenderíamos ler se não fosse por isso?

UE: Os surrealistas não foram os únicos a desaconselhar a leitura de determinados autores ou de determinados livros. Trata-se de um gênero de crítica polêmica que provavelmente sempre existiu.

JCC: Breton elaborara uma lista dos autores a serem lidos e dos autores a não serem lidos. Leiam Rimbaud, não leiam Verlaine. Leiam Hugo, não leiam Lamartine. Curiosamente: leiam Rabelais, não leiam Montaigne. Se seguir seus conselhos ao pé da letra, você passará à margem de alguns livros interessantes. Devo dizer, apesar de tudo, que isso me poupou de ler, por exemplo, O grande Meaulnes.

UE: Você não leu O grande Meaulnes? Então você nunca deveria ter escutado Breton. O livro é maravilhoso.

JCC: Talvez ainda não seja tarde demais. Sei que os surrealistas fulminaram abertamente Anatole France. Mas ele, eu li. Deleitei-me frequentemente com A revolta dos anjos, por exemplo. Mas que raiva eles tinham dele! Quando morreu, recomendaram confiná-lo numa dessas compridas caixas de ferro que os buquinistas têm, ao longo dos cais do Sena, em meio àqueles velhos livros que ele tanto amara, e jogá-lo no rio. Percebemos claramente, nesse caso também, um ódio à velha poeira livresca, inútil, espaçosa e o mais das vezes estúpida. Dito isto, a pergunta subsiste: os livros que não foram nem queimados, nem mal transmitidos ou mal traduzidos, nem censurados, e que bem ou mal chegaram até nós, são realmente os melhores, os que devemos ler?

UE: Falamos dos livros que não existem ou que não existem mais. Dos livros não lidos e à espera de serem lidos, ou de não serem lidos. Eu agora queria falar dos autores que não existem e que não obstante conhecemos. Personalidades do mundo da edição encontram-se um dia em torno de uma mesa na Feira do Livro de Frankfurt. Estão ali Gaston Gallimard, Paul Flamand, Ledig-Rowohlt e Valentino Bompiani. Ou seja, o estado-maior da edição na Europa. Comentam aquela nova loucura que tomou conta da edição e que consiste em incensar jovens autores que ainda não deram provas de seu talento. Um deles tem a ideia de inventar um autor. Seu nome será Milo Temesvar, autor do já conceituado Let me say now, pelo qual a American Library já ofereceu esta manhã 50 mil dólares. Decidem então fazer circular esse boato e ver o que acontece. Bompiani volta ao seu estande e conta-nos a história, a mim e ao meu colega (trabalhávamos na época para ele). A idéia nos seduz e começamos a perambular pelos corredores da feira espalhando misteriosamente o nome dali a pouco famoso de Milo Temesvar. À noite, durante o jantar, Giangiacomo Feltrinelli vem até nós, muito excitado, e nos diz: "Não percam seu tempo. Comprei os direitos mundiais de Let me say now!" Desde essa época, Milo Temesvar tornou-se importantíssimo para mim. Escrevi um artigo que era a resenha de um livro de Temesvar, The Patmos Sellers, supostamente uma paródia de todos os mercadores de apocalipse. Apresentei Milo Temesvar como um albanês que tinha sido expulso de seu país por revisionismo de esquerda! Ele tinha escrito um livro inspirado por Borges sobre o uso dos espelhos no jogo de xadrez. Para sua obra sobre os apocalipses, eu chegara inclusive a propor um nome de editor que era manifestamente forjado. Eu soube que Arnoldo Mondadori, na época o maior editor italiano, mandara recortar meu artigo, sobre o qual anotara, em vermelho: "Comprar esse livro a que preço for." Mas Milo Temesvar não ficou nisso. Se você ler a introdução a O nome da rosa, verá um texto de Temesvar citado nela. Portanto, encontrei o nome Temesvar em determinadas bibliografias. Recentemente, para fazer uma paródia do Código Da Vinci, citei algumas de suas obras em georgiano e russo, provando dessa forma que ele dedicou estudos eruditos ao livro de Dan Brown. Portanto, convivi a vida inteira com Milo Temesvar.

JPT: Em todo caso, vocês conseguiram tirar definitivamente a culpa de todas as pessoas que possuem em suas prateleiras um monte de livros que não leram e nunca lerão!

JCC: Uma biblioteca não é obrigatoriamente formada por livros que lemos ou livros que um dia leremos, é fundamental esclarecer isso. São livros que podemos ler. Ou que poderíamos ler. Ainda que jamais venhamos a lê-los.

UE: É a garantia de um saber.

JPT: É uma espécie de adega. Não é recomendável beber tudo.

JCC: Também formei uma excelente adega e sei que vou deixar garrafas espetaculares para os meus herdeiros. Em primeiro lugar, porque bebo cada vez menos vinho e compro cada vez mais. Mas sei que, se me desse vontade, poderia descer à minha adega e enxugar minhas melhores safras. Compro vinhos en primeur. O que significa que você os compra no ano da colheita e os recebe três anos depois. O interessante é que, caso se trate de um Bordeaux de qualidade, por exemplo, os produtores os guardam em tonéis, depois em garrafas, nas melhores condições possíveis. Durante esses três anos, seu vinho se aprimora e você evitou bebê-lo. É um ótimo sistema. Três anos depois, você em geral esqueceu que tinha encomendado aquele vinho. Você recebe um presente de você para você. É delicioso.

JPT: Não poderíamos fazer a mesma coisa com livros? Deixá-los de lado, não obrigatoriamente numa adega, mas deixá-los amadurecer.

JCC: Em todo caso, isso combateria o chatíssimo "efeito de novidade" que nos obriga a ler porque é novo, porque acaba de ser publicado. Por que não guardar um livro "de que estão falando" e ler três anos mais tarde? É um método que uso muito com filmes. Como não tenho tempo de ver todos que deveria ver, guardo em algum lugar aqueles que um dia possa querer ver. Tempos depois, constato que a vontade e a necessidade de vê-los ficaram para trás, em sua grande maioria. Nesse sentido, a compra en primeur já é uma filtragem. Escolho o que gostaria de beber daqui a três anos. É pelo menos o que me dizem. Ou então, outro método, você pode confiar na filtragem realizada por um "especialista", mais competente que você e que conhece seus gostos. Eu, por exemplo, fiquei anos nas mãos de Gerard Oberlé, que me apontava os livros que eu devia comprar, independentemente dos meus recursos financeiros do momento. Ele mandava, eu obedecia. Foi assim que fiz a aquisição, por ocasião de nosso primeiro encontro, de Pauliska ou a perversidade moderna, memórias recentes de uma polonesa, romance do fim do século XVII que nunca mais vi desde essa época já remota. Nele, há uma cena que sempre sonhei adaptar para o cinema. Um homem, que é um tipógrafo, descobre um dia que sua mulher é infiel. Tem a prova disso: uma carta que ela recebeu de seu amante e que ele descobriu. O marido compõe então o conteúdo dessa carta na sua prensa, despe a mulher, amarra-a numa mesa e lhe imprime a carta no corpo, o mais profundamente possível. O corpo nu e branco vira papel, a mulher grita de dor e transforma-se num livro para sempre. É como uma prefiguração de A letra escarlate, de Hawthorne. Esse sonho, imprimir uma carta de amor no corpo de uma mulher culpada, é claramente uma visão de tipógrafo ou, a bem da verdade, de escritor.


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