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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 15

(Conclusão da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

O que fazer de sua biblioteca depois da sua morte?

Umberto Eco em sua casa

JPT: Você nos contou, Jean-Claude, ter sido obrigado a vender parte de sua biblioteca e não ter sofrido muito com isso. Eu queria lhes perguntar agora sobre o destino dessas coleções que vocês formaram. Sendo criadores de uma coleção dessas, de uma obra bibliofílica, devemos necessariamente considerar seu destino, uma vez que não estaremos mais em condições de cuidar dela. Eu gostaria então, se me permitirem, de abordar o destino de suas bibliotecas depois que vocês morrerem.

JCC: Minha coleção foi de fato amputada e, estranhamente, não me consternou em nada vender todo um lote de livros artísticos. Mas conheci nessa oportunidade uma alegre surpresa. Eu havia entregue a Gérard Oberlé parte do meu acervo surrealista, que na época continha belíssimas coisas, manuscritos, livros com dedicatória. Oberlé encarregou-se de escoá-los pouco a pouco. O dia em que finalmente paguei minhas dívidas, telefonei para ele para saber em que pé estava aquela venda. Ele me informou que ainda restava uma boa quantidade de livros que não haviam encontrado comprador. Pedi-lhe para me devolvê-los. Quatro anos haviam se passado. O esquecimento começara seu trabalho. Reencontrei livros que possuía com todo o deslumbre da descoberta. Como grandes garrafas intactas que eu julgava ter bebido. O que será dos meus livros depois que eu morrer? Minha mulher e minhas duas filhas decidirão. Simplesmente, por testamento, deixarei provavelmente este ou aquele livro para este ou aquele amigo. Como presente post mortem, como um sinal, como um bastão de revezamento. Para ter certeza de que ele não me esquecerá comple-tamente. Estou pensando no que eu gostaria de legar para você. Ah, se eu tivesse o Kircher que lhe falta..., mas não o tenho.

UE: No que se refere à minha coleção, eu evidentemente não gostaria que fosse dispersada. A família poderá doá-la a uma biblioteca pública ou então vendê-la por intermédio de um leilão. Ela será então vendida completa, a uma universidade. É tudo que me interessa.

JCC: Mas você tem uma verdadeira coleção. É uma obra de fôlego que você construiu e que não quer que seja desmembrada. Isso é normal. Ela fala de você talvez tanto quanto seus próprios livros. Eu diria a mesma coisa no que me concerne: o ecletismo que presidiu a formação da minha biblioteca fala de mim da mesma forma. Não pararam de me repetir ao longo de toda a minha vida que eu era disperso. Minha biblioteca, portanto, é à minha imagem.

UE: Não sei se a minha é à minha imagem. Repito, coleciono obras nas quais não acredito, logo trata-se de uma imagem de mim às avessas. Ou talvez seja uma imagem minha enquanto espírito contraditório. Minha incerteza deve-se ao fato de que mostro minha coleção a pouquíssimas pessoas. Uma coleção de livros é um fenômeno masturbatorio, solitário, e você raramente encontra pessoas com quem dividir sua paixão. Se você possui belíssimos quadros, as pessoas irão à sua casa admirá-los. Mas você nunca encontrará ninguém que se interesse realmente por sua coleção de velhos livros. Eles não compreendem por que você dá tamanha importância a um livrinho sem nenhum atrativo, e por que ele lhe custou anos de buscas.

JCC: Para justificar nossa culpada inclinação, eu diria que você pode ter com o livro original quase uma relação de pessoa para pessoa. Uma biblioteca é um pouco uma companhia, um grupo de amigos vivos, de indivíduos. O dia em que você se sentir um pouco isolado, um pouco deprimido, você pode se dirigir a eles. Eles estão ali. Aliás, às vezes faço buscas e descubro coisas escondidas cuja presença eu esquecera.

UE: Repito, é um vício solitário. Por razões misteriosas, a afeição que podemos ter por um livro não está de forma alguma relacionada ao seu valor. Tenho livros aos quais sou muito afeiçoado e que não têm grande valor comercial.

JPT: O que representam suas coleções de um ponto de vista bibliofílico?

UE: Acho que geralmente se faz uma confusão entre biblioteca pessoal e coleção de livros antigos. Tenho, entre minha casa principal e minhas casas secundárias, 50 mil livros. Mas trata-se de livros modernos. Meus livros raros representam 1.200 títulos. Mas há outra diferença. Os livros antigos são os que escolhi (e paguei), os livros modernos são livros que comprei ao longo dos anos, mas também, e cada vez mais, livros que recebo de brinde. Ora, embora eu dê um monte deles aos meus alunos, fico sempre com uma boa quantidade, e, pronto, aí estou eu com 50 mil.

JCC: Deixando de lado minha coleção de contos e lendas, talvez eu tenha 2 mil obras antigas para um total de 30 ou 40 mil. Mas às vezes alguns desses livros são um fardo. Você não pode mais se separar do livro que um amigo lhe dedicou, por exemplo. Esse amigo pode ir à sua casa. Então ele precisa avistar seu livro, e num bom lugar. Há também pessoas que recortam o nome do homenageado com a dedicatória para poder vender seu exemplar nos sebos. É praticamente tão medonho quanto recortar incunábulos para vendê-los página por página. Imagino que você também receba os livros de todos os amigos que Umberto Eco deve ter no mundo!

UE: Eu tinha feito um cálculo a esse respeito, mas ficou um pouco datado. Eu teria que atualizá-lo. Considerei o preço do metro quadrado em Milão para um apartamento que não ficava nem no centro histórico (caro demais) nem na periferia proletária. Eu tinha que me curvar então à ideia de que, por uma residência com certa dignidade burguesa, eu devia pagar 6 mil euros, ou seja, por uma superfície de 50 metros quadrados, 300 mil euros. Se agora eu deduzisse a instalação das portas, janelas e outros elementos que viriam necessariamente comer o espaço digamos "vertical" do apartamento, em outras palavras, as paredes suscetíveis de acolher prateleiras de livros, eu só podia contar realmente com 25 metros quadrados. Logo, um metro quadrado vertical me custava 12 mil euros. Calculando o preço mais baixo para uma biblioteca de seis estantes, a mais econômica, eu chegava a 500 euros por metro quadrado. Num metro quadrado com seis prateleiras, eu podia provavelmente guardar trezentos livros. Logo, o lugar de cada livro significava 40 euros. Logo, mais caro que seu preço. Por conseguinte, em cada livro que me era dirigido, o remetente devia enfiar um cheque de um montante equivalente. Para um livro de arte, de formato maior, era preciso calcular um pouco mais.

JCC: Mesma coisa com as traduções. O que você faz com os seus cinco exemplares em birmanês? Você rumina que, se um dia encontrar um birmanês, dará de presente. Mas terá que encontrar cinco!

UE: Tenho um porão abarrotado com minhas traduções. Tentei despachá-las para os presídios, apostando no fato de que, nos presídios italianos, havia menos alemães, franceses e americanos do que albaneses e croatas. Portanto, enviei as traduções dos meus livros nessas línguas.

JCC: Em quantas línguas O nome da rosa foi traduzido?

UE: Quarenta e cinco. Número que leva em conta a queda do Muro de Berlim e o fato de que antes o russo valia como língua obrigatória para todas as repúblicas soviéticas, tendo sido preciso, depois da queda, traduzir o livro em ucraniano, azerbaijanês, etc. Daí esse número extravagante. Se você calcular entre cinco e dez exemplares para cada tradução, já tem entre duzentos e quatrocentos volumes vindo estacionar em seu porão.

JCC: Posso fazer uma confidência aqui: às vezes jogo fora, escondendo-me de mim mesmo.

UE: Uma vez, para agradar ao presidente, aceitei entrar no júri do prêmio Viareggio. Eu estava ali apenas para a rubrica Ensaios. Descobri que todos os membros do júri recebiam todos os livros em competição, todas as categorias misturadas. Para falar apenas de poesia, e, como eu, você sabe que o mundo está cheio de poetas que editam por conta própria versos sublimes, chegavam-me caixas das quais eu não sabia o que fazer. Ao que se somavam todas as outras categorias em competição. Imaginei que precisava guardar aqueles livros como documentos. Mas logo me vi, em casa, diante de um problema de lugar e, felizmente, terminei desistindo de minhas atribuições no seio do júri do prêmio Viareggio. A hemorragia então estancou. Os poetas são de longe os mais perigosos.

JCC: Você deve conhecer essa piada que vem da Argentina, país onde vivem, como você sabe, incontáveis poetas. Um deles esbarra com um velho amigo e lhe diz, enfiando a mão no bolso: "Ah! Você vem bem a calhar, acabo justamente de escrever um poema que preciso ler para você." O outro então põe igualmente a mão no bolso e diz: "Cuidado, tenho um também!"

UE: Pois eu achava que havia mais psicanalistas do que poetas na Argentina...

JCC: Parece que sim. Mas pode-se ser os dois ao mesmo tempo.

UE: Certamente minha coleção de livros antigos não pode ser comparada à formada pelo bibliófilo holandês Ritman, a BPH, Bibliotheca Philosophica Hermética. Nesses últimos anos, como já tinha sobre esses temas praticamente tudo que convinha ter, começou a colecionar também os incunábulos preciosos, mesmo quando não se referiam ao hermetismo. Os livros modernos que eles possuem ocupam toda a parte superior de um grande casarão, enquanto os livros antigos estão num subsolo admiravelmente adaptado.

JCC: O colecionador brasileiro José Mindlin, que formou um conjunto único em torno do que é conhecido como Americana, mandou construir uma casa inteira para os seus livros. Criou uma fundação, de maneira a que o governo brasileiro mantenha sua biblioteca após sua morte. Bem mais modestamente, tenho duas pequenas coleções às quais gostaria de dar um destino especial. Uma delas é única no mundo, acho. É ela que reúne contos e lendas, relatos fundadores de todos os países. Não é uma coleção de livros preciosos no sentido bibliofílico do termo. Esses relatos são anônimos, as edições são em geral banais e os exemplares às vezes cansativos. Eu gostaria de legar esse conjunto de 3 ou 4 mil volumes a um museu de artes populares ou a uma biblioteca especializada. Ainda não encontrei. A segunda coleção para a qual gostaria de reservar um destino especial (mas não sei qual) é a que formei com a minha mulher. Ela diz respeito, já mencionei aqui, à "viagem à Pérsia", desde o século XVI. Talvez nossa filha se interesse por ela um dia.

UE: Meus filhos não parecem interessados. Meu filho gosta da ideia de que possuo a primeira edição do Ulisses de Joyce e minha filha consulta frequentemente meu herbanário de Matiolli do século XVI, mas só isso. Aliás, só me tornei um verdadeiro bibliófilo a partir dos 50 anos.

JPT: Vocês têm medo dos ladrões?

JCC: Um dia me roubaram um livro, e não qualquer um, o original da Filosofia na alcova, de Sade. Julgo saber quem era o ladrão. Foi durante uma mudança. Nunca mais o recuperei.

UE: Foi alguém do metiê que passou por lá. Os mais perigosos são os ladrões bibliófilos, os que roubam um único livro. Os livreiros terminam por identificar esses fregueses cleptomaníacos e os apontam para seus pares. Os ladrões normais não são perigosos para o colecionador. Imaginemos que ladrões vulgares aventurem-se a roubar minha coleção. Vão precisar de duas noites para encaixotar todos os livros, além de um caminhão para transportá-los. Depois (se o lote completo não foi comprado por Arsène Lupin, que o terá dissimulado na Agulha Oca), os buquinistas darão uma miséria por eles, e apenas os comerciantes sem escrúpulos, porque estaria evidente tratar-se de mercadorias roubadas. Aliás, um bom colecionador faz, para cada livro raro, uma ficha ou inclusive descreve os defeitos e qualquer outro sinal de identificação, havendo uma seção da polícia especializada no roubo de obras de arte e livros. Na Itália, por exemplo, ela é particularmente eficaz, tendo sido instituída na época em que se tratava de encontrar obras de arte desaparecidas durante a guerra. E, por fim, se o ladrão decide pegar apenas três livros, ele certamente vai se enganar pegando os formatos mais imponentes, ou aqueles cuja encadernação é a mais bonita, pensando que são os mais caros, ao passo que o livro mais raro às vezes é tão pequeno que passa despercebido. O maior risco é o da pessoa enviada especialmente por um colecionador louco que sabe que você possui aquele livro e que o quer de qualquer maneira, mesmo ao preço de um roubo. Mas você precisaria possuir o Folio de Shakespeare de 1623, de outra forma não vale a pena assumir tantos riscos.

JCC: Você sabe que existem "antiquários" que apresentam catálogos de móveis antigos, os quais ainda se encontram nas casas dos donos. Se você se interessar, eles planejam o roubo, e exclusivamente daquele móvel. Mas no geral concordo com o que você disse. Fui assaltado uma vez. Os ladrões levaram a televisão, um aparelho de rádio, mas nenhum livro. Roubaram uns 10 mil euros, ao passo que, pegando um único livro, sairiam com cinco ou dez vezes essa soma. Portanto, somos protegidos pela ignorância.

JPT: Imagino que todo colecionador de livros sinta pavor do fogo...

UE: Com certeza! E é por essa razão que pago um seguro considerável pela minha coleção. Não é coincidência eu ter escrito um romance sobre uma biblioteca que arde em chamas. Sempre tive medo de que minha casa pegasse fogo. E hoje sei por quê. O apartamento onde morei entre 3 e 10 anos ficava embaixo do apartamento do capitão dos bombeiros da minha cidade. Com muita frequência, eventualmente várias vezes na semana, um incêndio declarava-se no meio da noite e os bombeiros, precedidos por sua sirene, vinham arrancar o capitão do seu sono. Eu acordava ouvindo o barulho de suas botas na escada. No dia seguinte, a mulher dele contava à minha mãe todos os detalhes da tragédia... Você compreende por que minha infância foi assombrada pela ameaça do fogo.

JPT: Eu gostaria de voltar ao destino de suas coleções pacientemente reunidas...

JCC: Posso imaginar que minha mulher e minhas filhas venderão minha coleção, completa ou parcial, para pagar direitos de sucessão, por exemplo. Não é um pensamento triste, ao contrário: quando livros antigos voltam ao mercado, eles se dispersam, vão para outros lugares, fazem gente feliz, preservam a paixão bibliofílica. Você certamente se lembra do coronel Sickels, aquele abastado colecionador americano que detinha a mais extraordinária coleção de literatura francesa dos séculos XIX e XX que podemos imaginar. Vendeu sua coleção à Drouot ainda em vida. A negociação durou 15 dias. Encontrei-o depois dessa venda memorável. Não havia arrependimento. Estava inclusive orgulhoso de ter deixado em polvorosa durante duas semanas algumas centenas de verdadeiros aficionados.

UE: Meu assunto é de tal forma peculiar que não sei exatamente a quem minha coleção poderia de fato interessar. Não gostaria que meus livros terminassem nas mãos de um ocultista, que inevitavelmente se afeiçoaria a eles, mas por outras razões. Quem sabe minha coleção não será comprada pelos chineses? Recebi um número da revista Semiótica, editada nos Estados Unidos e dedicada à semiótica na China. As citações dos meus livros nela são mais numerosas do que em nossas obras especializadas. Pode ser que minha coleção venha a interessar um dia, mais que a qualquer um, a pesquisadores chineses que quisessem compreender todas as loucuras do Ocidente.


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