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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Não contem com o fim do livro (Umberto Eco) - 11

(Continuação da obra "Não contem com o fim do livro",
de Umberto Eco & Jean-Claude Carrière)

A Internet ou a impossibilidade da damnatio memoriae


JPT: Como vocês viveram a proibição de Versos satânicos? Uma autoridade religiosa proibir uma obra publicada na Inglaterra não é um sinal de grande preocupação?

UE: O caso de Salman Rushdie deve nos infundir, ao contrário, um grande otimismo. Por quê? Porque um livro condenado por uma autoridade religiosa, no passado, não tinha nenhuma chance de escapar à censura. Quanto a seu autor, corria um risco quase certo de ser queimado ou apunhalado. No universo da comunicação que urdimos, Rushdie sobreviveu, protegido por todos os intelectuais das sociedades ocidentais, e seu livro não desapareceu.

JCC: Por outro lado, a mobilização suscitada pela questão Rushdie não se verificou no caso de outros escritores condenados por fatwas e que foram assassinados, sobretudo no Oriente Médio. O que podemos dizer simplesmente é que a escrita sempre foi, e permanece, um exercício perigoso.

UE: Porém, continuo convencido de que, na sociedade da globalização, somos informados de tudo e podemos agir consequentemente. O Holocausto teria sido possível se a Internet existisse? Não tenho certeza. Todo mundo teria sabido imediatamente o que estava acontecendo... A situação é a mesma na China. Ainda que os dirigentes chineses esmerem-se em filtrar aquilo a que os internautas podem ter acesso, a informação circula apesar de tudo, e nos dois sentidos. Os chineses podem saber o que acontece no resto do mundo. E podemos saber o que acontece na China.

JCC: Para impor essa censura sobre a Internet, os chineses conceberam procedimentos extremamente sofisticados, mas que não funcionam perfeitamente. Pura e simplesmente porque os internautas acabam sempre dando o troco. Na China, como em outros lugares, as pessoas utilizam o celular para filmar aquilo de que são testemunhas e em seguida transmitir essas imagens pelo mundo inteiro. Vai ser cada vez mais difícil esconder alguma coisa. O futuro dos ditadores é sombrio. Eles terão que agir numa escuridão profunda.

UE: Penso por exemplo no destino de Aung San Suu Kyi. É muito mais difícil para os militares eliminá-la a partir do momento em que ela é objeto de uma solicitação quase universal. Mesma coisa no caso de Ingrid Betancourt, como pudemos ver.

JCC: Isso também não quer dizer que terminamos com a censura e a arbitrariedade no mundo. Estamos longe disso.

UE: Aliás, se podemos eliminar a censura por subtração, é mais difícil eliminá-la por adição. Isso é típico das mídias. Imagine: um político escreve uma carta a um jornal para explicar que não é culpado de corrupção como o acusam; o jornal publica a carta, mas dá um jeito de colocar bem ao lado a imagem de seu autor comendo um salgadinho num bufê. Pronto: temos diante de nós a imagem de um homem que devora o dinheiro público. Mas podemos fazer melhor. Se sou um homem de Estado que sabe que amanhã será publicada uma notícia extremamente constrangedora para mim, capaz de figurar na primeira página dos jornais, mando plantarem uma bomba na estação ferroviária central durante a noite. Amanhã, os jornais terão mudado suas manchetes. Pergunto-me se a razão de alguns atentados não é desse gênero. Mas nem por isso devemos nos lançar nas teses conspiratórias e afirmar que os atentados de 11 de setembro não são o que acreditamos que são. Já tem muita gente maluca no mundo para se encarregar disso.

JCC: Impossível imaginar que um governo tenha aceitado a morte de mais de 3 mil concidadãos para cobrir determinadas armações, isso é evidentemente inconcebível. Mas há também outro exemplo mais famoso na França, é o do caso Ben Barka. Mehdi Ben Barka, político marroquino, tinha sido sequestrado na França em frente à Brasserie Lippe e provavelmente assassinado. Entrevista coletiva do general De Gaulle no Eliseu. Todos os jornalistas se espremem. Pergunta: "Meu general, como é possível que, informado do sequestro de Mehdi Ben Barka, o senhor tenha esperado alguns dias antes de comunicar a informação à imprensa? — Foi por causa da minha inexperiência", respondeu De Gaulle com um gesto de enfado. Todo mundo riu e a questão foi encerrada. O efeito de diversão, nesse caso, funcionou. O riso prevaleceu sobre a morte de um homem.

JPT: Há outras formas de censura que a Internet tornaria agora difíceis ou impossíveis?

UE: Por exemplo, a damnatio memoriae imaginada pelos romanos. Votada pelo Senado, a damnatio memoriae consistia em condenar alguém, post mortem, ao silêncio, ao esquecimento. Tratava-se de eliminar seu nome dos registros públicos, ou então banir as estátuas que o representavam, ou ainda declarar nefasto o dia de seu nascimento. Aliás, fazia-se a mesma coisa sob o stalinismo quando se eliminava das fotos o ex-dirigente exilado ou assassinado. Foi o caso de Trótski. Hoje seria mais difícil limar alguém de uma foto sem encontrarmos imediatamente a velha foto circulando livremente pela Internet. O proscrito não seria proscrito por muito tempo.

JCC: Mas há casos de esquecimento coletivo "espontâneo" ainda mais forte, me parece, que a glória coletiva. Não se trata de uma decisão deliberada, como no caso do Senado romano. Pode haver também escolhas inconscientes. Fontes de revisionismos implícitos, expurgos dissimulados. Há também uma memória coletiva, como existem um inconsciente coletivo e um esquecimento coletivo. Determinado personagem, que "conheceu sua hora de glória", nos abandona imperceptivelmente, sem nenhum ostracismo, sem nenhuma violência. Vai embora por si mesmo, discretamente, junta-se ao reino das sombras, como aqueles diretores de cinema da primeira metade do século XX, de quem eu falava. E esse alguém que sai de nossas memórias, que é furtivamente expurgado de nossos livros de história, de nossas conversas, de nossas comemorações, é exatamente, no fim, como se nunca tivesse existido.

UE: Conheci um grande crítico italiano sobre o qual diziam que dava azar. Existia uma lenda a seu respeito e que talvez ele mesmo tivesse acabado alimentando. Ainda hoje, ele nunca é citado em determinados trabalhos, nos quais, não obstante, seu lugar é incontestável. É uma forma de damnatio memoriae. Quanto a mim, nunca me privei de citá-lo. Não apenas sou a criatura menos supersticiosa do mundo, como, além disso, admirava-o muito para esconder isso dele. Um dia inclusive resolvi ir até onde ele mora de avião. E, como não me aconteceu nada grave, disseram-me que estou sob sua proteção. Em todo caso, salvo uma comunidade de happy few, entre os quais me incluo, e que continuam a falar dele, sua glória viu-se efetivamente eclipsada.

JCC: Existem, naturalmente, diversas formas de condenar um homem, uma obra, uma cultura ao silêncio e ao esquecimento. Nós examinamos algumas delas. A destruição sistemática de uma língua, tal como organizada pelos espanhóis na América, é evidentemente a melhor maneira de tornar a cultura de que ela é a expressão definitivamente inacessível e poder em seguida fazê-la dizer o que bem entendemos. Mas vimos que essas culturas, que essas línguas resistem. Não é simples fazer uma voz se calar, apagar para sempre uma linguagem, e os séculos falam na surdina. O caso Rushdie tem com que nos dar esperanças, você tem razão. É provavelmente uma das conquistas mais significativas dessa sociedade globalizada. A censura total e definitiva é agora praticamente inconcebível. O único perigo é que a informação que circula torne-se inverificável e que sejamos todos, num dia próximo, informantes. Já falamos nisso. Informantes do bem, mais ou menos qualificados, mais ou menos rebeldes, que, ao mesmo tempo, seriam também inventores, criadores de informações, imaginando o mundo a cada dia. Podemos voltar a isso, descreveremos o mundo segundo nossos desejos, que então tomaremos pela realidade. Remediar isso — se julgarmos necessário, pois afinal de contas uma informação imaginada não deixaria de ter seu encanto — supõe recortes sem fim. E isso é um inferno. Uma única testemunha não é suficiente para estabelecer uma verdade. A mesma coisa com um crime. É preciso uma convergência de pontos de vista, de testemunhos. Mas, a maior parte do tempo, a informação exigida por esse trabalho colossal não vale a pena. Deixamos correr.

UE: Mas a abundância dos testemunhos não basta obrigatoriamente. Fomos testemunhas da violência exercida pela polícia chinesa contra os monges tibetanos. Isso provocou um escândalo em escala internacional. Mas se nossas telas continuarem a mostrar, três meses a fio, monges espancados pela polícia, até o público mais envolvido, mais suscetível de se engajar, irá se desinteressar. Há então um limiar aquém do qual a informação é percebida e além do qual ela não passa de um chiado.

JCC: São bolhas que inflam e estouram. Ano passado, estávamos na bolha "monges perseguidos no Tibete". Em seguida, fomos instalados na bolha "Ingrid Betancourt". Mas ambas estouraram. Depois veio a da "crise dos subprimes", depois a catástrofe bancária, ou da Bolsa, ou ambas. Qual será a próxima bolha? Quando um ciclone monstruoso se aproxima do litoral da Flórida e subitamente perde força, constato quase que uma decepção nos jornalistas. Trata-se, entretanto, para os moradores, de uma excelente notícia. Como se constitui, nessa grande rede da informação, a informação propriamente dita? O que explica que uma informação dê a volta no planeta e mobilize, durante um tempo determinado, todas as nossas atenções para dias depois não interessar a mais ninguém? Por exemplo: em 1976, trabalho com Bunuel na Espanha no roteiro de Esse obscuro objeto do desejo e recebemos diariamente os jornais. De repente ficamos sabendo pela imprensa que uma bomba explodiu no Sacré-Coeur em Montmartre! Estupor e deleite. Ninguém reivindicou o atentado e a polícia investiga. Para Bunuel, esta é uma informação capital. Alguém ter colocado uma bomba na igreja da vergonha, igreja destinada a "expiar os crimes" dos communardi, é uma bênção e uma alegria inesperada. Aliás, sempre houve candidatos a destruir esse monumento da desonra ou, como queriam os anarquistas certa época, pintá-lo de vermelho. Então, no dia seguinte, nós nos precipitamos sobre os jornais para saber do que se tratava. Nem uma palavra, nada. Nunca. Simplesmente acrescentamos em nosso cenário um grupo de ação violenta batizado com o nome Grupo de Ação Revolucionária do Menino Jesus.

UE: Para voltar à censura por subtração, uma ditadura que gostasse de eliminar toda possibilidade de acessar, pela Internet, as fontes de conhecimento poderia muito bem espalhar um vírus capaz de destruir todos os dados pessoais nos computadores individuais, provocando dessa forma um gigantesco blecaute da informação. Talvez a possibilidade de destruir não exista, na medida em que todos nós armazenamos determinadas informações em pendrives. Mas mesmo assim. Quem sabe essa ciberditadura não consiga eliminar até 80% de nossos arquivos pessoais?

JCC: Mas talvez não seja necessário destruir tudo. Assim como posso encontrar no meu documento todas as ocorrências de uma palavra por meio da função "localizar" e suprimi-las com um único "clique", por que não imaginar uma censura informática que conseguisse fazer desaparecer apenas uma palavra ou um grupo de palavras, mas em todos os computadores do planeta? Mas então que palavras nossos ditadores informáticos irão escolher? Convém apostar numa reação por parte dos usuários, naturalmente, como sempre. A velha história do ataque e da defesa em outro terreno. E podemos imaginar também uma nova Babel, uma súbita extinção das línguas, dos códigos, de todas as chaves. Que caos!

JPT: O paradoxo é, como você lembrou, que a obra ou o homem condenado ao silêncio faça desse próprio silêncio uma espécie de câmara de eco e dessa forma termine por arranjar um lugar em nossas memórias. Poderiam voltar a essa reviravolta do destino?

UE: Precisamos tomar aqui a damnatio memoriae num outro sentido. Por motivos múltiplos e complexos — filtragens, acidentes, incêndios —, uma obra não chega até nós. Ninguém é, falando propriamente, responsável pelo seu desaparecimento. Mas ela falta ao chamado. E porque foi comentada e elogiada por diversas testemunhas, a obra faz-se notar precisamente por sua ausência. Foi o caso das obras de Zêuxis na Antiguidade. Ninguém as viu afora os contemporâneos do artista, e mesmo assim falamos dele ainda hoje.

JCC: Quando Tutankhamon sucede a Akhenaton, manda apagar com buril, nos templos, o nome do faraó defunto, declarado herético. E Akhenaton não foi o único a ter sofrido essa censura. Inscrições deterioram-se, estátuas caem. Penso naquela admirável fotografia de Kudel-ka: uma estátua de Lenin, deitada como um imenso cadáver sobre uma chalana, desce o Danúbio em direção ao mar Negro, onde vai desaparecer. A respeito das estátuas de Buda destruídas no Afeganistão, talvez seja bom dar um esclarecimento. Durante os primeiros séculos que se seguiram à pregação de Buda, ele não era representado. Era mostrado por sua ausência. Pegadas. Uma poltrona vazia. Uma árvore à sombra da qual ele meditava. Um cavalo selado mas sem cavaleiro. É só a partir da invasão de Alexandre, o Grande, que começam, na Ásia Central, sob a influência de artistas gregos, a dar uma aparência física a Buda. Por exemplo, os talibãs, à sua revelia, participavam de um retorno à própria origem do budismo. Para os verdadeiros budistas, esses nichos hoje vazios no vale de Bamiyan talvez estejam mais eloquentes, mais plenos, do que antes. Esses atos terroristas, aos quais às vezes parece reduzir-se, nos dias de hoje, a civilização árabe-muçulmana, quase chega a mascarar sua grandeza passada. Da mesma maneira que os sangrentos sacrifícios astecas mascararam todas as belezas de sua civilização. Os espanhóis repercutiram amplamente seu eco, a ponto de, quando quiseram eliminar os vestígios da civilização dos vencidos, os sacrifícios sangrentos serem praticamente tudo que a memória coletiva havia conservado dela. O islã vê-se hoje espreitado pelo mesmo perigo: ver-se reduzido amanhã, em nossas próximas memórias, exclusivamente a essa violência terrorista. Pois nossa memória, como nosso cérebro, é redutora. Procedemos o tempo todo por seleção e redução.


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