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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A composição de palavras (Pasquale & Ulisses)

(Continuação da obra "Gramática da Língua Portuguesa",
de Pasquale & Ulisses)


COMPOSIÇÃO

A composição produz palavras compostas a partir da aproximação de palavras simples. As palavras simples são aquelas em que há um único radical, como 'amor' e 'perfeito'.

Para que ocorra o processo de composição, é necessário estabelecer entre essas palavras um vínculo permanente, que faz com que surja um novo significado: é o que ocorre quando formamos o composto 'amor-perfeito', que dá nome a uma flor.

O significado não é o mesmo da expressão 'amor perfeito', na qual cada palavra mantém seu significado original: trata-se do sentimento amoroso manifestado de forma perfeita. Em 'amor-perfeito' há uma única palavra que dá nome a um organismo vegetal.

A composição também pode ser feita por meio do uso de radicais que não têm vida independente na língua. Isso ocorre basicamente na formação de palavras que recebem o nome de compostos eruditos por serem formadas com radicais gregos e latinos. É o caso, por exemplo, de 'democracia, patogênese, alviverde, agricultura' e outras, usadas principalmente na nomenclatura técnica e científica.

TIPOS DE COMPOSIÇÃO

Quanto à forma que adquire a palavra composta, costumam-se apontar dois tipos de composição:

a) composição por justaposição - ocorre quando os elementos que formam o composto são simplesmente colocados lado a lado (justapostos), sem que se verifique qualquer alteração fonética em algum deles: segunda-feira, pára-raios, corre-corre, guarda-roupa, amor-perfeito, pé-de-moleque, girassol, passatempo. O que caracteriza a justaposição é a manutenção da integridade sonora das palavras que formam o composto, e não a forma de grafá-lo: passatempo e girassol, apesar de serem escritos sem hífen, são compostos por justaposição;

b) composição por aglutinação - ocorre quando os elementos que formam o composto se aglutinam, o que significa que pelo menos um deles perde sua integridade sonora, sofrendo modificações. Observe os exemplos e note as transformações sofridas pelas palavras formadoras: vinagre (vinho + acre), aguardente (água + ardente), pernalta (perna + alta), planalto (plano + alto). Também se incluem neste caso muitos compostos eruditos (como retilíneo, crucifixo, ambidestro, demagogo e outros), cuja identificação requer conhecimentos mais especializados.

As possibilidades de composição são imprevisíveis: podem-se formar compostos pelo relacionamento de palavras pertencentes a praticamente todas as classes gramaticais. Há, por exemplo, compostos formados por substantivo + substantivo (porco-espinho), substantivo + adjetivo (amor-perfeito), advérbio + adjetivo (sempre-viva), verbo + substantivo (pára-choques).

A principal função do processo de composição é a criação de novas palavras para denominar novos objetos, conceitos ou ocupações. Essa função denominadora pode ser dada de forma descritiva ou metafórica. Palavras como papel-alumínio, relógio-pulseira ou lava-louças são descritivas porque buscam dar nome a objetos por meio de suas características ou finalidades mais relevantes. Louva-a-deus e arranha-céu são compostos de origem metafórica, pois resultam de um evidente uso figurado da linguagem.

O surgimento de novas palavras compostas na língua é constante, uma vez que a necessidade de encontrar nomes específicos para novos objetos e conceitos é ininterrupta. Dessa forma, podemos perceber na língua atual a transformação de expressões em novas palavras.

Pense, por exemplo, na expressão três em um (que na linguagem publicitária já aparece "três-em-um"), que dá nome a certas combinações de aparelhos de som. Aliás, pense na própria expressão 'aparelho de som', que já é praticamente uma palavra composta (como 'máquina de lavar' ou 'máquina de costura').

Em alguns casos, podemos observar que já existe a consciência de que se está lidando
com uma palavra composta, como é o caso de ponto de vista e meio ambiente, expressões que vêm sendo grafadas "ponto-de-vista" e "meio-ambiente" com freqüência cada vez maior.

RADICAIS E COMPOSTOS ERUDITOS

O mecanismo da composição é utilizado para a formação de um tipo específico de palavras conhecidas como compostos eruditos, assim chamados porque em sua formação se utilizam elementos de origem grega e latina que foram diretamente importados dessas línguas com essa finalidade. Por isso, esses compostos são também chamados de helenismos e latinismos eruditos.

São palavras como pedagogia e quiromancia (formadas de elementos gregos) ou arborícola e uxoricida (formadas por elementos latinos), normalmente criadas para denominar objetos ou conceitos relacionados com as ciências e as técnicas. Muitas delas acabam se tornando cotidianas (telefone, automóvel, democracia e agricultura, por exemplo).

Apresentamos a seguir duas relações de radicais gregos e duas relações de radicais latinos. A primeira relação de radicais gregos e a primeira relação de radicais latinos agrupa os elementos formadores que normalmente são colocados no início dos compostos; a segunda relação de radicais agrupa, em cada caso, os elementos formadores que costumam surgir na parte final dos compostos.

Adotamos esse procedimento a fim de facilitar seu trabalho de consulta: ao encontrar determinado exemplo na relação dos radicais que costumam ser o primeiro elemento do composto, você poderá mais rapidamente verificar o valor do segundo elemento na relação dos radicais que costumam figurar no final dos compostos.

Atente para o fato de que determinados radicais costumam aparecer em determinadas posições nos compostos, mas nada os impede de surgir em posição diferente. Alguns dos radicais que colocamos nas relações a seguir são considerados prefixos por alguns autores; outros estudiosos preferem chamá-los "elementos de composição". Acreditamos que essas questões terminológicas são pouco importantes para você, que tem finalidades mais práticas.

Observe que muitas palavras que fazem parte das suas aulas de Biologia, Química e Física podem ser encontradas nas relações abaixo; observe, principalmente, que o conhecimento do significado dos elementos que as constituem muitas vezes nos ajuda a compreender os conceitos e seres que denominam.

RADICAIS GREGOS

Elementos que normalmente surgem na parte inicial do composto:
(Radical, significado e exemplo:)

acr-, acro- (alto, elevado) acrópole, acrofobia, acrobata

aer-, aero- (ar) aeródromo, aeronauta, aeróstato, aéreo

agro- (campo) agrologia, agronomia, agrografia, agromania

al-, alo- (outro, diverso) alopatia, alomorfia

andr-, andro- (homem, macho) androceu, andrógino, andróide, androsperma

anemo- (vento) anemógrafo, anemômetro

angel-, angelo- (mensageiro, anjo) angelólatra, angelogia

ant-, anto- (flor) antologia, antografia, antóide, antomania

antropo- (homem) antropógrafo, antropologia, filantropo

aritm-, aritmo- (número) aritmética, aritmologia, aritmomancia

arque- (primeiro, origem) arquétipo, arquegônio

arqueo- (antigo) arqueografia, arqueologia, arqueozóico

aster-, astro- (estrela, astro) asteróide, astrólogo, astronomia

auto- (próprio) autocracia, autógrafo, autômato

bari-, baro- (peso) barômetro, barítono, barisfera

biblio- (livro) bibliografia, biblioteca, bibliófilo

bio- (vida) biografia, biologia, macróbio, anfíbio

caco- (mau) cacofonia, cacografia

cali- (belo) califasia, caligrafia

cardi-, cardio- (coração) cardiologia, cardiografia

cin-, cine-, cines- (movimento) cinestesia, cinemática

core-, coreo- (dança) coreografia, coreógrafo

cosmo- (mundo) cosmógrafo, cosmologia

cript-, cripto- (escondido) criptônimo, criptograma

cris-, criso- (ouro) crisálida, crisântemo

crom-, cromo- (cor) cromossomo, cromogravura, cromoterapia

crono- (tempo) cronologia, cronometro, cronograma

datilo- (dedo) datilografia, datiloscopia

demo- (povo) demografia, democracia, demagogia

dinam-, dinamo- (força, potência) dinamômetro, dinamite

eco- (casa) ecologia, ecossistema, economia

eletro- (âmbar, eletricidade) elétrico, eletrômetro

enter-, entero- (intestino) enterite, enterogastrite

ergo- (trabalho) ergonomia, ergometria

estere-, estereo- (sólido, fixo) estereótipo, estereografia

estomat-, estomato- (boca, orifício) estomatite, estomatoscópio

etno- (raça) etnografia, etnologia

farmaco- (medicamento) farmacologia, farmacopéia

filo- (amigo) filósofo, filólogo

fisio- (natureza) fisiologia, fisionomia

fono- (voz) eufonia, fonologia

fos-, foto- (luz) fósforo, fotofobia

gastr-, gastro- (estômago) gastrite, gastrônomo

gen-, geno- (que gera) genótipo, hidrogênio

geo- (terra) geografia, geologia

ger-, gero- (velhice) geriatria, gerontocracia

helio- (sol) heliografia, helioscópio

hemi- (metade) hemisfério, hemistíquio

hemo-, hemato- (sangue) hemoglobina, hematócrito

hetero- (outro) heterônimo, heterogêneo

hidro- (água) hidrogênio, hidrografia

hier-, hiero- (sagrado) hieróglifo, hierosolimita

hipo- (cavalo) hipódromo, hipopótamo

homo-, homeo- (semelhante) homeopatia, homógrafo, homogêneo

icono- (imagem) iconoclasta, iconolatria

ictio- (peixe) ictiófago, ictiologia

iso- (igual) isócrono, isósceles

lito- (pedra) litografia, litogravura

macro- (grande) macrocéfalo, macrocosmo

mega-, megalo- (grande) megatério, megalomaníaco

melo- (canto) melodia, melopéia

meso- (meio) mesóclise, Mesopotâmia

micro- (pequeno) micróbio, microcéfalo, microscópio

miso- (que odeia) misógino, misantropo

mito- (fábula) mitologia, mitômano

necro- (morto) necrópole, necrotério

neo- (novo) neolatino, neologismo

neuro-, nevr- (nervo) neurologia, nevralgia

odonto- (dente) odontologia, odontalgia

ofi-, ofio- (cobra, serpente) ofiologia, ofiomancia

oftalmo- (olho) oftalmologia, oftalmoscópio

onomato- (nome) onomatologia, onomatopéia

ornit-, ornito- (ave) ornitologia, ornitóide

oro- (montanha) orogenia, orografia

orto- (reto, justo) ortografia, ortodoxo

oste-, osteo- (osso) osteoporose, osteodermo

oxi- (ácido, agudo) oxítona, oxígono, oxigênio

paleo- (antigo) paleografia, paleontologia

pan- (todos, tudo) panteísmo, pan-americano

pato- (doença, sentimento) patologia, patogenético, patético

pedi-, pedo- (criança) pediatria, pedologia

piro- (fogo) pirólise, piromania, pirotecnia

pluto- (riqueza) plutomania, plutocracia

poli- (muito) policromia, poliglota, polígrafo, polígono

potamo- (rio) potamografia, potamologia

proto- (primeiro) protótipo, protozoário

pseudo- (falso) pseudônimo, pseudópode

psico- (alma, espírito) psicologia, psicanálise

quiro- (mão) quiromancia, quiróptero

rino- (nariz) rinoceronte, rinoplastia

rizo- (raiz) rizófilo, rizotônico

sider- (ferro) siderólito, siderurgia

sismo- (abalo, tremor) sismógrafo, sismologia

taqui (rápido) taquicardia, taquigrafia

tax-, taxi-, taxio- (ordem, arranjo) taxiologia, taxidermia

tecno- (arte, oficio, indústria) tecnologia, tecnocracia, tecnografia

tele- (longe) telegrama, telefone, telepatia

teo- (deus) teocracia, teólogo

term-, termo- (calor)  termômetro, isotérmico

tipo- (figura, marca) tipografia, tipologia

topo- (lugar) topografia, toponímia

xeno- (estrangeiro) xenofobia, xenomania

xilo- (madeira) xilógrafo, xilogravura

zoo- (animal) zoógrafo, zoologia


NUMERAIS
(Radical,  significado, e exemplos)

mon-, mono- (um) monarca, monogamia

di- (dois) dipétalo, dissílabo

tri- (três) trilogia, trissílabo

tetra- (quatro) tetrarca, tetraedro

pent-, penta- (cinco)  pentatlo, pentágono

hexa- (seis) hexágono, hexâmetro

hepta- (sete) heptágono, heptassílabo

octo- (oito) octossílabo, octaedro

enea- (nove) eneágono, eneassílabo

deca- (dez) decaedro, decalitro

hendeca- (onze) hendecassílabo, hendecaedro

dodeca- (doze) dodecassílabo

icos- (vinte) icosaedro, icoságono

hecto-, hecato- (cem) hectoedro, hecatombe, hectômetro, hectograma

quilo- (mil) quilograma, quilômetro

miria- (dez mil - inumerável) miriâmetro, miríade, miriápode

Elementos que normalmente surgem na parte final do composto
(Radical, significado e exemplos)

-agogia (condução) pedagogia, demagogia

-agogo (que conduz) demagogo, pedagogo

-algia (dor) cefalalgia, nevralgia

-arca (que comanda) heresiarca, monarca

-arquia (comando, governo) autarquia, monarquia

-astenia (debilidade) neurastenia, psicastenia

-céfalo (cabeça) macrocéfalo, microcéfalo

-ciclo (círculo) bicicleta, hemiciclo

-cracia (poder) democracia, plutocracia, gerontocracia

-derme (pele) endoderme, epiderme

-doxo (que opina) ortodoxo, heterodoxo

-dromo (lugar para correr) hipódromo, velódromo

-edro (base, face) pentaedro, poliedro

-eido, -óide (forma, semelhança) caleidoscópio, asteróide, aracnóide

-fagia (ato de comer) aerofagia, antropofagia

-fago (que come) antropófago, necrófago

-filia (amizade) bibliofilia, lusofília

-fobia (inimizade, aversão) fotofobia, hidrofobia

-fobo (que tem aversão) xenófobo, zoófobo

-foro (que leva ou conduz) fósforo, semáforo

-gamia (casamento) monogamia, poligamia

-gamo (que casa) bígamo, polígamo

-glota, -glossa (língua) poliglota, isoglossa

-gono (ângulo) pentagono, polígono

-grafia (escrita, descrição) ortografia, geografia

-grafo (que escreve) calígrafo, polígrafo

-grama (escrito, peso) telegrama, quilograma

-logia (discurso, tratado, ciência) arqueologia, fonologia

-logo (que fala ou trata) dialogo, teólogo

-mancia (adivinhação) necromancia, quiromancia

-mania (loucura, tendência) megalomania, piromania

-mano (louco, inclinado) bibliômano, mitômano

-maquia (combate) logomaquia, tauromaquia

-metria (medida) antropometria, biometria

-metro (que mede) hidrômetro, pentâmetro

-morfo (que tem forma de) antropomorfo, polimorfo

-nomia (lei, regra) agronomia, astronomia

-nomo (que regula) autônomo, metrônomo

-orama (espetáculo) panorama, cosmorama

-péia (ato de fazer) melopéia, onomatopéia

-pólis, -pole (cidade) Petrópolis, metrópole

-ptero (asa) díptero, helicóptero

-scopia (ato de ver) macroscopia, microscopia

-scópio (instrumento para ver) microscópio, telescópio

-sofia (sabedoria) filosofia, teosofia

-stico (verso) dístico, monóstico

-teca (lugar onde se guarda) biblioteca, discoteca

-terapia (cura) fisioterapia, hidroterapia

-tomia (corte, divisão) dicotomia, neurotomia

-tono (tensão, tom) barítono, monótono

-trof, -trofia (nutrição) atrofia, hipertrofia

RADICAIS LATINOS
Elementos que normalmente surgem na parte inicial do composto
(Radical, significado e exemplo:)

agri-, agro- (campo) agrícola, agricultura

ali- (asa) alígero, alípede, aliforme

alti- (alto) altissonante, altiplano

alvi- (branco) alviverde, alvinegro

ambi- (ambos) ambidestro

api- (abelha) apicultura, apiário, apícola

arbori- (arvore) arborícola

auri- (ouro) auriverde, auriflama

avi- (ave) avicultura

bis-, bi- (duas vezes) bisavô

bel-, beli- (guerra) belígero, beligerante

ferri-, ferro- (ferro) ferrovia

calori- (calor) calorífero

cruci- (cruz) crucifixo

curvi- (curvo) curvilíneo

cent- (cem) centavo, centena, centopéia

equi-, eqüi- (igual) equilátero, equivalência ou eqüivalência

fili- (filho) filicídio, filial

fratri-, frater- (irmão) fratricida, fraternidade

igni- (fogo) ignívomo

lati- (grande, largo) latifoliado, latifúndio

loco- (lugar) locomotiva

matri- (mãe) matrilinear, matriarcal

maxi- (muito grande) maxidesvalorização, maxissaia

mili- (mil, milésima parte) milípede, milímetro

mini- (muito pequeno) minissaia, minifúndio

morti- (morte) mortífero

multi- (muito) multiforme, multidimensional

nocti- (noite, trevas) noctívago, nocticolor

nubi- (nuvem) nubívago, nubífero

oni- (todo) onipotente

patri- (pai) patrilinear, patrilocal

pedi- (pé) pedilúvio

pisci- (peixe) piscicultor

pluri- (muitos) pluriforme, plurisseriado

quadri- (quatro) quadrimotor, quadrúpede

reti- (reto) retilíneo

tri- (três) tricolor

umbri- (sombra) umbrívago, umbrífero

uni- (um) uníssono

uxori- (esposa) uxório, uxoricida

vermi- (verme) vermífugo

Elementos latinos que normalmente surgem na parte final do composto
(Radical, significado e exemplo:)

-cida (que mata) regicida, fratricida

-cola (que cultiva ou habita) vitícola, arborícola

-cultura (ato de cultivar) apicultura, piscicultura

-fero (que contém ou produz) aurífero, flamífero

-fico (que faz ou produz) benéfico, frigorífico

-forme (que tem forma de) cuneiforme, uniforme

-fugo (que foge ou que faz fugir) centrífugo, febrifugo

-gero (que contém ou produz) armígero, belígero

-paro (que produz) multíparo, ovíparo

-pede (pé) palmípede, velocípede

-sono (que soa) borrissono, uníssono

-vago (que anda) nubivago, noctívago

-vomo (que expele) fumívomo, ignívomo

-voro (que come) carnívoro, herbívoro

[quadro em destaque no original:
Há palavras que combinam elementos gregos e latinos: televisão, automóvel, genocídio, homossexual e outras. São chamadas de hibridismos. Existem hibridismos em que se combinam elementos de origens bastante diversas, como goiabeira (tupi e português), abreugrafia (português e grego), sambódromo (quimbundo - uma língua africana - e grego), surfista (inglês e grego), burocracia (francês e grego), e outros. Como você vê, trata-se de palavras muito usadas no cotidiano comunicativo, o que torna absurda a intenção de certos gramáticos de considerar os hibridismos verdadeiras aberrações devido à sua origem "mestiça".]

OUTROS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS  

ABREVIAÇÃO VOCABULAR

A abreviação vocabular consiste na eliminação de um segmento de uma palavra a fim de se obter uma forma mais curta. Ocorre, portanto, uma verdadeira truncação, obtendo-se uma nova palavra cujo significado é o mesmo da palavra original. Esse processo é particularmente produtivo na redução de palavras muito longas:
cinematógrafo - cinema - cine
pneumático - pneu
otorrinolaringologista - otorrino
analfabeto - analfa
extraordinário - extra
pornográfico - pornô
vestibular - vestiba
metropolitano - metrô
violoncelo - celo
telefone - fone
automóvel- auto
psicologia - psico

Observe que a forma abreviada é de amplo uso coloquial, embora em muitos casos passe a fazer parte da língua escrita. Esse traço de coloquialidade pode ser sentido em abreviações como as que colocamos abaixo, impregnadas de emotividade (carinho, desprezo, preconceito, zombaria):
professor - fessor
português -  portuga
chinês - china
japonês - japa
comunista - comuna
militar - milico
confusão - confa
reboliço - rebu
neurose - neura
botequim - boteco
delegado - delega
grã-fino - granfa
São Paulo - Sampa
Florianópolis - Floripa

Há um certo tipo de abreviação que se vem tornando muito freqüente na língua atual. Consiste no uso de um prefixo ou de um elemento de uma palavra composta no lugar do todo:
ex, por ex-namorada, ex-marido, ex-esposa;
micro, por microcomputador;
vídeo, por videocassete;
mini, por minissaia;
máxi, por maxissaia ou maxidesvalorização;
midi, para saia que chega até o joelho ou desvalorização cambial moderada;
e vice, por vice-presidente, vice-governador, vice-prefeito e outros.

O uso dos prefixos em substituição à palavra toda deve ocorrer dentro de contextos determinados, em que é possível estabelecer o significado que se pretende. Prefixos como vice ou máxi só adquirem sentido em função dos outros elementos do texto em que surgem.

SIGLONIMIZAÇÃO

Essa palavra dá nome ao processo de formação de siglas. As siglas são formadas pela combinação das letras iniciais de uma seqüência de palavras que constitui um nome:

FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
CPF - Cadastro de Pessoas Físicas
MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização
IOF - Imposto sobre Operações Financeiras
PIB - Produto Interno Bruto

As siglas incorporam-se de tal forma ao vocabulário do dia-a-dia, que passam a sofrer flexões e a produzir derivados. É freqüente o surgimento de construções como as ZPEs (Zonas de Processamento de Exportações), os peemedebistas (membros do PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro), os petistas (membros do PT - Partido dos Trabalhadores), a mobralização do ensino, campanha pró-FGTS, e outras.

Algumas siglas provieram de outras línguas, principalmente do inglês:
UFO - Unidentified Flying Object (objeto voador não-identificado), que concorre com a criação nacional OVNI
VIP - Very Important Person (pessoa muito importante);
AIDS - Acquired Immunological Deliciency Syndrome (síndrome da imunodeficiência adquirida), cuja forma em Portugal é SIDA.

Há casos de siglas importadas que se transformaram em verdadeiras palavras. Algumas só são vistas como siglas se conhecermos sua origem:
JIPE - adaptação do inglês Jeep, que por sua vez originou-se de GP (General Purpose - uso geral);
LASER- de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation (amplificação da luz por emissão estimulada de radiação);
RADAR - de Radio Detecting and Ranging (detecção e busca por rádio).

PALAVRA-VALISE

A palavra-valise resulta do acoplamento de duas palavras, uma das quais pelo menos sofreu truncação. É também chamada palavra-centauro e permite a realização de verdadeiras acrobacias verbais.
Observe:
brasiguaio ou brasilguaio - formada de brasileiro e paraguaio para designar o povo fronteiriço entre os dois países, particularmente os brasileiros que retornaram do Paraguai atraídos pelo anúncio de reforma agrária;
portunhol - formada de português e espanhol para designar a língua resultante da mistura dos dois idiomas;
portinglês - formada de português e inglês, criada por Carlos Drummond de Andrade ("secretária portinglês");
tomarte - formada de tomate e Marte, criada por Murilo Mendes ("Ou tomarte, vermelho que nem Marte"). Note a possibilidade de ver nessa palavra também a palavra arte.
fraternura, elefantástico e copoanheiro - criações de Guimarães Rosa cuja formação não é difícil de perceber;
proesia - formada de prosa e poesia, utilizada por Décio Pignatari com referência a uma das obras do escritor irlandês James Joyce.

Note que a criação dessas palavras ocorre tanto na língua coloquial como na língua culta e literária. Na língua coloquial, o processo já produziu palavras como bebemorar, Grenal (clássico de futebol entre Grêmio e Internacional de Porto Alegre), Atletiba (Atlético Paranaense e Curitiba), Sansão (Santos e São Paulo), Flaflu (Flamengo e Fluminense), Bavi (Bahia e Vitória), Comefogo (Comercial e Botafogo de Ribeirão Preto).

Na linguagem jornalística, há termos como cantriz (cantora/atriz), estagnação (estagnação /inflação) e showmício (show/comício); na literatura, além das palavras já citadas, há ainda criações como noitícia (Carlos Drummond de Andrade) ou diversonagens suspersas, de Paulo Leminski.

ONOMATOPÉIA

A onomatopéia ocorre quando se forma uma nova palavra por meio da imitação de sons. A palavra formada procura reproduzir um determinado som, adaptando-o ao conjunto de fonemas de que a língua dispõe. Dessa forma, surgem palavras como:

- cacarejar; zumbir, arrulhar, crocitar, troar e outros verbos que designam vozes de animais e fenômenos naturais; tique-taque, teco-teco, reco-reco, bangue-bangue (a partir do inglês bangbang), pingue-pongue, xixi, triquetraque (fogo de artifício), saci (nome de uma ave e, por extensão, de ente mitológico), cega-rega (cigarra; por extensão, pessoa tagarela), chinfrim (coisa sem valor), quiquiriqui (pessoa ou coisa insignificante), blablablá, zunzunzum, pimpampum e outras, sempre sugestivas.

OUTROS PROCESSOS DE ENRIQUECIMENTO DO LÉXICO

Léxico é a palavra com que se costuma denominar o conjunto de palavras que integra uma língua. É, em termos práticos, um sinônimo de vocabulário, embora tecnicamente se possam estabelecer distinções entre as duas palavras.

Os processos de criação de palavras que estudamos até aqui devem ter mostrado a você que há um constante enriquecimento lexical na língua, resultante principalmente do dinamismo das modificações culturais, que constantemente criam novos objetos, novos fatos, novos conceitos. Além disso, há outros fatores de pressão sobre a língua, como vínculos de dependência econômica e cultural, capazes de impor formas de pensar e de dizer que se manifestam também no vocabulário.

Os processos de criação lexical que vimos até agora operam transformações formais nas palavras, seja por meio do acréscimo ou supressão de morfemas, seja por meio da combinação de palavras inteiras para a formação de outras. São, basicamente, processos morfológicos, pois lidam com a forma das palavras. Há outros processos de ampliação lexical na língua portuguesa. Como não são processos morfológicos, não vamos estudá-los pormenorizadamente. São, no entanto, importantes; por isso, vamos falar um pouco sobre eles.

NEOLOGISMO SEMÂNTICO

Freqüentemente, acrescentamos significados a determinadas palavras sem que elas passem por qualquer processo de modificação formal. Pense, por exemplo, na palavra arara, nome de uma ave, que também é usada para designar pessoa nervosa, irritada. Arara, com o sentido de "irritado, nervoso, é um neologismo semântico, ou seja, um novo significado que se soma ao que a palavra já possuía.

Essa forma de enriquecimento do vocabulário é extremamente produtiva. Em alguns casos, chega-se a perder a noção do significado inicial da palavra, passando-se a empregá-la apenas no sentido que foi um dia adicional. É o caso, por exemplo, de 'emérito', cujo sentido original é "aposentado", mas que atualmente se usa como "distinto", "elevado; ou 'dissabor', cujo sentido original era "falta de sabor".

Perceba que a chamada derivação imprópria aproxima-se bastante deste processo de ampliação de significado. A derivação imprópria resulta da passagem de uma palavra a uma classe gramatical diferente sem modificações na sua forma. Na realidade, ocorre uma ampliação do significado original da palavra. Isso pode ser percebido em casos em que esse processo está tão cristalizado, que chegamos a perder a noção do sentido e da classe originais da palavra. Pense, por exemplo, em palavras como alvo (em expressões como tiro ao alvo), clara (de ovo), estreito (acidente geográfico), marginal (bandido ou via pública), santo (pessoa virtuosa), refrigerante - você já notou que se trata de adjetivos convertidos em substantivos?

EMPRÉSTIMOS LINGUÍSTICOS

O contato entre culturas produz efeitos também no vocabulário das línguas. No caso da língua portuguesa, podem-se apontar exemplos de palavras tomadas de línguas estrangeiras em tempos muito antigos. Esses empréstimos provieram de línguas célticas, germânicas e árabes ao longo do processo de formação do português na Península Ibérica.

Posteriormente, o Renascimento e as navegações portuguesas permitiram empréstimos de línguas européias modernas e de línguas africanas, americanas e asiáticas. Depois desses períodos, o português recebeu empréstimos principalmente da língua francesa. Atualmente, a maior fonte de empréstimos é o inglês norte-americano.

Deve-se levar em conta que muitos empréstimos da língua portuguesa atual do Brasil não ocorreram em Portugal e nas colônias africanas, onde a influência cultural e econômica dos Estados Unidos é menor.

As palavras de origem estrangeira normalmente passam por um processo de aportuguesamento fonológico e gráfico. Quando isso ocorre, muitas vezes deixamos de perceber que estamos usando um estrangeirismo. Pense em palavras como bife, futebol, beque, abajur, xampu, tão freqüentes em nosso cotidiano que já as sentimos como portuguesas. Quando mantêm a grafia da língua de origem, as palavras devem ser escritas entre aspas (na imprensa, devem surgir em destaque - normalmente itálico: shopping center; show, stress).

Atente para o fato de que os empréstimos lingüísticos só fazem sentido quando são necessários. É o que ocorre quando surgem novos produtos ou processos tecnológicos. Ainda assim, esses empréstimos devem ser submetidos ao tratamento de conformação aos hábitos fonológicos e morfológicos da língua portuguesa. São condenáveis abusos de estrangeirismos decorrentes de afetação de comportamento ou de subserviência cultural. A imprensa e a publicidade muitas vezes não resistem à tentação de utilizar a denominação estrangeira de forma apelativa, como em expressões do tipo os teens (por adolescentes) ou high technology system (sistema de alta tecnologia).

Exemplo de palavra de origem estrangeira submetida à adaptação gráfica e fonológica do português: 'recorde' proveniente do francês 'record'. Ao ser aportuguesada, recebeu um 'e' final e ganhou a pronúncia "recórde', à moda francesa.


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