Luz para a inteligência, Calor para a vontade

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

As evidências da evolução (Richard Dawkins) - 1



(Continuação da obra "As evidências da evolução", de Richard Dawkins)



Capítulo 1
APENAS UMA TEORIA?



"Pode ser que tenhamos passado a existir há cinco minutos,
já providos de memórias prontas,
buracos nas meias
e cabelos pedindo um corte"
(Bertrand Russell)

"A inferência cuidadosa pode ser mais confiável
do que a 'observação efetiva',
por mais que a nossa intuição relute em admiti-lo.
(...) A observação direta de um evento suposto
como ele realmente aconteceu,
não é necessariamente mais confiável
do que a observação indireta de suas consequências "
(Richard Dawkins)

"O fato de que algumas convicções
amplamente disseminadas no passado
foram conclusivamente refutadas
não significa que devemos recear que as futuras evidências
sempre venham a contestar nossas convicções do presente.
(...) Nossas atuais convicções a respeito de muitas coisas
podem ser refutadas,
mas podemos, com total confiança,
fazer uma lista de fatos inquestionáveis
que nunca serão desacreditados"
(Richard Dawkins)



Imagine que você é um professor de história romana e de latim, ávido por transmitir seu entusiasmo pelo mundo antigo — as elegias de Ovídio e as odes de Horácio, a enxuta gramática latina exibida na oratória de Cícero, a refinada estratégia das Guerras Púnicas, a talentosa liderança bélica de Júlio César e os excessos voluptuosos dos últimos imperadores.

É uma grande empreitada que requer tempo, concentração e dedicação. Mas continuamente você vê seu precioso tempo predado e a atenção de sua classe desviada por uma ululante matilha de ignoramuses (pois como especialista em latim você jamais cometeria o erro de dizer "ignorami") que, com forte apoio político e especialmente financeiro, ronda sem tréguas, tentando persuadir seus desafortunados alunos de que os romanos nunca existiram.

Nunca houve um Império Romano. O mundo todo surgiu pouco antes das gerações hoje vivas. Espanhol, italiano, francês, português, catalão, ocitano, romanche, todas essas línguas e seus dialetos componentes brotaram de maneira espontânea e separadamente e nada devem a alguma língua predecessora, como esse tal de latim.

E você, em vez de dedicar toda a sua atenção à nobre vocação de estudioso e professor dos clássicos, é forçado a gastar seu tempo e energia na retaguarda, defendendo a proposição de que os romanos existiram, sim, senhor: uma defesa contra uma exibição de preconceito ignorante que faria você chorar se não estivesse tão ocupado combatendo-a.

Se minha fantasia do professor de civilização latina parece estapafúrdia demais, vejamos um exemplo um pouco mais realista.

Imagine que você é um professor especializado em história mais recente e que suas aulas sobre a Europa no século XX são boicotadas, tolhidas ou perturbadas de outras maneiras por grupos bem organizados, generosamente financiados e politicamente fortes de negadores do Holocausto.

Ao contrário dos meus hipotéticos negadores de Roma, os negadores do Holocausto existem mesmo. São vociferantes, superficialmente plausíveis e sabem afetar erudição como poucos. Eles contam com o apoio do presidente de no mínimo um país atualmente poderoso, e em suas fileiras milita no mínimo um bispo da Igreja Católica Romana.

Imagine que, como professor de história europeia, você continuamente se vê intimado a "ensinar a controvérsia" e conceder "igual tempo" à "teoria alternativa" de que o Holocausto nunca aconteceu e que foi inventado por um bando de sionistas embusteiros.

Intelectuais adeptos da moda relativista entram ainda no coro, bradando que não existe verdade absoluta: se o Holocausto aconteceu ou não é uma questão de crença pessoal, todos os pontos de vista são igualmente válidos e devem ser imparcialmente "respeitados".

Os apuros de muitos professores de ciências naturais atualmente não são menos terríveis. Quando tentam explicar o princípio central e norteador da biologia, quando honestamente situam o mundo vivo em seu contexto histórico — o que significa evolução —, quando exploram e explicam a própria natureza da vida, eles são acossados e barrados, aparteados, intimidados e até ameaçados com a perda do emprego. Na melhor das hipóteses, o tempo deles é desperdiçado com esse esforço.

Muitos recebem cartas ameaçadoras de seus próprios pais e têm de suportar as risadinhas sarcásticas e os braços cruzados de crianças que sofreram lavagem cerebral. Os livros didáticos que lhes são fornecidos, sancionados pelo governo, têm a palavra "evolução" sistematicamente obliterada ou abastardada para "mudança ao longo do tempo".

Já houve uma época em que tentávamos ridicularizar isso tudo como um fenômeno singularmente americano. Mas hoje os professores britânicos e europeus continentais enfrentam os mesmos problemas, em parte por causa da influência americana, porém, mais significativamente, em razão da crescente presença islâmica nas salas de aula — favorecida pelo comprometimento oficial com o "multiculturalismo" e pelo terror de serem considerados racistas.

Muitos afirmam, corretamente, que clérigos e teólogos mais graduados não têm nada contra a evolução e que vários deles inclusive apóiam ativamente os cientistas nessa questão. Isso é verdade em muitos casos, como sei graças à agradável experiência de eu mesmo trabalhar em colaboração com o então bispo de Oxford, hoje lorde Harries, em duas ocasiões. Em 2004 escrevemos em coautoria um artigo para o Sunday Times que se encerrava com as palavras: "Hoje nada há para debater. A evolução é um fato e, da perspectiva cristã, uma das maiores obras de Deus". Esta última frase foi escrita por Richard Harries, mas nós dois concordamos quanto a todo o resto do artigo.

Dois anos antes, o bispo Harries e eu organizamos uma carta conjunta ao então primeiro-ministro Tony Blair com os dizeres:

"Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro,
Escrevemos como um grupo de cientistas e bispos para expressar nossa preocupação com o ensino da ciência no Emmanuel City Technology College em Gateshead. A evolução é uma teoria científica de grande poder explicativo, capaz de esclarecer uma ampla gama de fenômenos em diversas disciplinas. Pode ser desenvolvida, confirmada e até radicalmente alterada levando-se em conta as evidências. Ela não é, como afirmam porta-vozes da mencionada faculdade, uma "posição de fé" da mesma categoria que a explicação bíblica da criação, que tem diferente função e propósito. Essa questão não se limita ao que atualmente é ensinado em uma faculdade. É crescente a apreensão quanto ao que vai ser ensinado e como será ensinado na nova geração desses estabelecimentos que se intitulam 'escolas de fé'. Acreditamos que os currículos de tais escolas, assim como o do Emmanuel City Technology College, precisam ser rigorosamente monitorados a fim de que as respectivas disciplinas da ciência e dos estudos religiosos sejam adequadamente respeitadas.
Atenciosamente,
Rt Revd Richard Harries, bispo de Oxford
Sir David Attenborough FRS [Fellow of the Royal Society]
Rt Rev. Christopher Herbert, bispo de St Albans Lord May of Oxford, presidente da Royal Society
Professor John Enderby FRS, secretário de física, Royal Society
Rt Revd John Oliver, bispo de Hereford
Rt Revd Mark Santher, bispo de Birmingham
Sir Neil Chalmers, diretor, Natural History Museum
Rt Revd Thomas Butler, bispo de Southwark
Sir Martin Rees, FRS, astrônomo real
Rt Revd Kenneth Stevenson, bispo de Portsmouth
Professor Patrick Bateson, FRS, secretário de biologia, Royal Society
Rt Revd Crispian Hollis, bispo da igreja católica romana de Portsmouth
Sir Richard Suthwood, FRS
Sir Francis Graham-Smith FRS, secretário de física antiga, Royal Society
Professor Richard Dawkins, FRS.

O bispo Harris e eu organizamos essa carta às pressas. Pelo que me lembro, os signatários da carta constituíam 100% das pessoas que procuramos. Não houve discordância nem de cientistas nem de bispos. O arcebispo de Canterbury não tinha nada contra a evolução, e tampouco o papa (com exceção, talvez, da hesitação quanto à exata conjuntura paleontológica em que a alma humana foi insuflada), assim como padres instruídos e professores de teologia.

Este é um livro sobre as evidências incontestáveis de que a evolução é um fato. Não tem por fim ser um livro antirreligioso. Já fiz um desses, este tem outra finalidade e não é o lugar de bater na mesma tecla.

Os bispos e teólogos que analisaram as evidências da evolução desistiram de lutar contra ela. Alguns podem desistir relutantemente; outros, como Richard Harries, com entusiasmo, mas todos, com exceção dos lamentavelmente desinformados, são forçados a aceitar o fato da evolução. Podem pensar que Deus deu uma mãozinha começando todo o processo e que talvez não se tenha abstido de guiar o progresso futuro. Provavelmente pensam que Deus deu a partida no universo e solenizou seu nascimento com um harmonioso conjunto de leis e constantes físicas calculadas para atender algum propósito insondável no qual nós por fim teríamos um papel. Porém, relutantes alguns, satisfeitos outros, religiosos e religiosas ponderados e racionais aceitaram as evidências da evolução.

O que não devemos comodamente supor é que, se os bispos e clérigos instruídos aceitam a evolução, suas congregações também aceitam. Infelizmente, como registrei no apêndice deste livro, pesquisas de opinião testemunham fartamente o contrário. Mais de 40% dos americanos negam que o ser humano evoluiu de outros animais e pensam que nós — e por implicação todos os seres vivos — fomos criados por Deus nestes últimos 10 mil anos. Essa porcentagem não é tão alta na Grã-Bretanha, mas ainda é preocupantemente elevada. E deveria ser tão inquietante para as igrejas quanto o é para os cientistas.

* * *

Este livro é necessário. Usarei o termo "negadores da história" para me referir aos que negam a evolução: as pessoas que acreditam que a idade do mundo mede-se em milhares e não em milhares de milhões de anos e que acreditam que humanos conviveram com dinossauros — repito: essas pessoas constituem mais de 40% da população americana. A respectiva porcentagem é maior em alguns países, menor em outros, mas 40% é uma boa média, e de quando em quando me referirei aos negadores da história como "os 40%".

Voltando aos bispos e teólogos esclarecidos, seria ótimo se eles se esforçassem um pouco mais para combater a insensatez anticientífica que deploram. Inúmeros pregadores, embora concordem que a evolução é verdade e que Adão e Eva nunca existiram, mesmo assim sobem ao púlpito e com a maior tranquilidade apresentam argumentos teológicos sobre Adão e Eva em seus sermões, evidentemente sem mencionar uma vez sequer que Adão e Eva não existiram na realidade!

Se interpelados, respondem que tinham em mente um significado puramente "simbólico", talvez relacionado ao "pecado original" ou às virtudes da inocência. E talvez acrescentem com sarcasmo que obviamente ninguém seria tão tolo a ponto de interpretar aquelas palavras ao pé da letra. Mas será que suas congregações sabem disso? Como é que as pessoas nos bancos da igreja, ou nos tapetes de oração, podem saber que partes das Escrituras devem ser interpretadas literalmente e outras partes, simbolicamente? É mesmo assim tão fácil para um fiel sem instrução adivinhar? Em muitíssimos casos, a resposta claramente é não, e qualquer um pode ser perdoado por sentir-se confuso. Se o leitor não acredita em mim, dê uma olhada no Apêndice.

Pense nisso, bispo. Tenha cuidado, vigário. Vocês estão brincando com dinamite, descuidando-se com uma disputa que está prestes a acontecer — até podemos dizer que vai acontecer fatalmente se não for prevenida. Não deveriam ter mais cautela, quando falam em público, para que antes seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não? Para não cairdes em juízo, não deveríeis desdobrar-vos para combater esse já extremamente difundido equívoco popular e apoiar ativa e entusiasticamente os cientistas e os professores de ciência?

Os próprios negadores da história estão entre os que desejo alcançar com este livro. Talvez mais importante, porém, seja que almejo armar as pessoas que não são negadoras da história, mas conhecem quem o seja — talvez membros de sua família ou de sua igreja — e estão despreparadas para argumentar em defesa de suas idéias.

A evolução é um fato. Além de qualquer dúvida razoável, além de qualquer dúvida séria, além da dúvida sã, bem informada, inteligente, além de qualquer dúvida, a evolução é um fato. As evidências da evolução são no mínimo tão fortes quanto as do Holocausto, mesmo levando em conta as testemunhas oculares deste último fato.

É a pura verdade que somos primos do chimpanzé, primos um pouco mais distantes dos macacos, ainda mais distantes do porco-da-terra e do peixe-boi, mais distantes ainda das bananas e dos nabos... uma lista que podemos continuar até onde desejarmos.

Isso não precisava ser verdade. Não é uma verdade evidente, tautológica, óbvia, e houve um tempo em que a maioria das pessoas, inclusive as instruídas, pensava que não fosse. Não tinha de ser verdade, mas é. Sabemos disso porque é atestado por uma crescente enxurrada de evidências. A evolução é um fato, e este livro o demonstrará. Nenhum cientista que se preze o contesta, e nenhum leitor imparcial fechará o livro duvidando disso.

Por que então dizemos "teoria da evolução de Darwin" se isso parece dar um espúrio alento aos que têm uma convicção criacionista — os negadores da história, os 40% —, levando-os a julgar que a palavra "teoria" é uma concessão, entregando-lhes algum tipo de presente ou vitória?

O QUE É UMA TEORIA? O QUE É UM FATO?

Apenas uma teoria? Vejamos o que significa "teoria". No Oxford English dictionary (doravante abreviado como OED) encontramos duas definições (mais de duas, na verdade, mas essas são as que importam aqui).

Teoria, acepção 1: Conjunto ou sistema de ideias ou afirmações apresentado como explicação ou justificativa de um grupo de fatos ou fenômenos; hipótese que foi confirmada ou estabelecida por observação ou experimentação e é proposta ou aceita como explicação para os fatos conhecidos; declaração do que se considera como as leis, princípios ou causas gerais de algo conhecido ou observado.

Teoria, acepção 2: Hipótese proposta como explicação; por conseguinte, mera hipótese, especulação, conjectura; idéia ou conjunto de idéias a respeito de alguma coisa; opinião ou idéia individual.

Obviamente os dois significados são muito diferentes um do outro. E a resposta breve à minha pergunta sobre a teoria da evolução é que os cientistas usam a acepção 1, enquanto os criacionistas — talvez por malícia, talvez com sinceridade — optam pela acepção 2.

Um bom exemplo da acepção 1 é a teoria heliocêntrica do sistema solar, segundo a qual a Terra e os demais planetas orbitam o Sol.

A evolução condiz perfeitamente com a acepção 1. A teoria da evolução de Darwin é realmente "um conjunto ou sistema de ideias ou afirmações". Ela efetivamente explica um imenso "grupo de fatos ou fenômenos". É uma "hipótese que foi confirmada ou estabelecida por observação ou experimentação" e, por consenso de todos os bem informados, é uma "declaração do que se considera como as leis, princípios ou causas gerais de algo conhecido ou observado". Certamente está muito longe de ser "mera hipótese, especulação, conjectura".

Cientistas e criacionistas interpretam o termo "teoria" em duas acepções bem distintas. A evolução é uma teoria no mesmo sentido que a teoria heliocêntrica. Em nenhum dos casos a palavra "apenas" deve ser usada, como em "apenas uma teoria".

Quanto à afirmação de que a evolução nunca foi "provada", provar é uma idéia que os cientistas foram intimidados a ver com desconfiança. Filósofos influentes nos dizem que não podemos provar coisa alguma em ciência. Os matemáticos podem provar coisas — segundo uma visão estrita, são os únicos que podem. Já os cientistas o máximo que podem fazer é não conseguir refutar algo mostrando que se esforçaram o máximo para contestá-lo. Até a indisputada teoria de que a Lua é menor do que o Sol não pode, pelos critérios de certo tipo de filósofo, ser provada do mesmo modo que, por exemplo, o teorema de Pitágoras. Mas alentadas acreções de evidências corroboram-na tão acentuadamente que negar-lhe a condição de "fato" parece ridículo a todos com exceção dos pedantes. O mesmo se aplica à teoria da evolução.

A evolução é um fato no mesmo sentido que Paris situar-se no Hemisfério Norte é um fato. Embora os trinchadores da lógica governem a cidade, algumas teorias estão além da dúvida sensata, e nós as chamamos de fatos. Quanto mais empenho e meticulosidade são aplicados para refutar uma teoria, mais ela se aproxima do que o senso comum se satisfaz em chamar de fato quando sobrevive ao ataque.

Eu poderia continuar usando "teoria na acepção 1" e "teoria na acepção 2", mas é difícil memorizar números. Preciso de palavras para substituir esses dois termos. Já temos uma boa palavra para designar a "teoria na acepção 2": hipótese. Todos entendem que uma hipótese é uma idéia não definitiva, aguardando confirmação (ou refutação), e é precisamente desse caráter provisório que a evolução agora se livrou, embora na época de Darwin ainda se visse onerada por ele.

Já a "teoria na acepção 1" é mais difícil. Seria uma tranquilidade simplesmente continuar a usar o termo "teoria", como se a "acepção 2" não existisse. Aliás, há bons argumentos para dizermos que a acepção 2 não deveria sequer existir, pois é desnorteante e desnecessária, dado que temos "hipótese". Mas infelizmente a acepção 2 de "teoria" é de uso comum, e não podemos bani-la por decreto.

Assim sendo, tomarei a considerável, porém perdoável, liberdade de emprestar da matemática a palavra "teorema" para a acepção 1. Na verdade, é um mau empréstimo, como veremos, mas a meu ver o risco de confusão é suplantado pelos benefícios.

Para apaziguar matemáticos injuriados, em nome da exatidão grafarei o termo entre aspas. Primeiro, explicarei o uso estrito na matemática para a palavra teorema, e ao mesmo tempo esclarecerei minha afirmação anterior de que, rigorosamente falando, apenas os matemáticos têm licença para provar alguma coisa (os advogados não têm, apesar de bem remuneradas pretensões).

Para um matemático, prova é uma demonstração lógica de que uma conclusão necessariamente decorre de axiomas pressupostos. O teorema de Pitágoras é necessariamente verdadeiro, com a condição de que tenhamos por pressuposto os axiomas euclidianos, como aquele segundo o qual linhas retas paralelas nunca se encontram. Perde seu tempo quem ficar medindo milhares de triângulos retos na tentativa de encontrar um que refute o teorema de Pitágoras. Os pitagóricos o provaram, qualquer pessoa pode fazer a prova, ele é verdadeiro e ponto final.

Os matemáticos usam a ideia de prova para fazer a distinção entre uma "conjectura" e um "teorema", o que tem uma semelhança superficial com a distinção do OED entre os dois sentidos de "teoria". Conjectura é uma proposição que parece ser verdadeira mas nunca foi provada. Ela se tornará um teorema quando a provarem.

Um exemplo famoso é a Conjectura de Goldbach, segundo a qual qualquer número inteiro par pode ser expresso como a soma de dois números primos. Matemáticos não conseguiram refutá-la para todos os números pares até 300, e o senso comum estaria disposto a chamá-lo Fato de Goldbach. Não obstante, ela não foi provada, apesar dos lucrativos prêmios oferecidos a quem conseguisse a façanha, e os matemáticos justificadamente se recusam a colocá-la no pedestal reservado aos teoremas. Se um dia alguém descobrir a prova [isto é, a demonstração lógica de que, para qualquer número par que possa existir, ele necessariamente será exprimível como a soma de dois primos] ela será promovida de Conjectura de Goldbach a Teorema de Goldbach, ou talvez a Teorema de X, sendo X o esperto matemático que atinou com a prova.

Carl Sagan fez [em seus livro "O mundo assombrado pelos demônios"] um uso sarcástico da Conjectura de Goldbach em sua réplica aos que lhe afirmaram ter sido abduzidos por seres extraterrestres:

"De vez em quando recebo cartas de alguém que está em "contato" com extraterrestres. Sou convidado a "lhes fazer qualquer pergunta". E assim, com o passar dos anos, acabei preparando uma pequena lista de questões. Os extraterrestres são muito avançados, lembrem-se. Por isso faço perguntas como: "Por favor, dê uma prova breve do último teorema de Fermat". Ou da conjectura de Goldbach. Nunca recebo resposta. Por outro lado, se pergunto coisas como "Deveríamos ser bons?", quase sempre obtenho uma resposta. Esses alienígenas sentem-se extremamente felizes em responder qualquer questão vaga, especialmente envolvendo juízos morais convencionais. Mas acerca de qualquer problema específico, em que há uma chance de descobrir se eles realmente sabem algo mais do que a maioria dos humanos, há apenas silêncio."

O Último Teorema de Fermat, como a Conjectura de Goldbach, é uma proposição sobre números para a qual ninguém encontrou exceção. Prová-lo foi uma espécie de Santo Graal para os matemáticos desde os idos de 1637, quando Pierre de Fermat escreveu na margem de um antigo livro de matemática: "Tenho uma prova verdadeiramente maravilhosa... que esta margem é estreita demais para conter". A prova finalmente foi apresentada pelo matemático inglês Andrew Wiles em 1995. Antes disso, alguns matemáticos consideram que a proposição devia ser chamada de conjectura. Dadas a grande extensão e complexidade da prova desenvolvida por Wiles e levando em conta que ele recorreu a avançados métodos e conhecimentos do século XX, a maioria dos matemáticos acha que Fermat estava (honestamente) equivocado quando afirmou ter a prova.

Conto essa história apenas para ilustrar a diferença entre conjectura e teorema. Como já disse, emprestarei dos matemáticos o termo teorema, mas em nome da exatidão eu o grafarei entre aspas para diferenciá-lo de um teorema matemático. Um "teorema" científico como a evolução ou o heliocentrismo é uma teoria que condiz com a "acepção 1" do dicionário Oxford:
[...] foi confirmada ou estabelecida por observação ou experimentação e é proposta ou aceita como explicação para os fatos conhecidos; [é uma] declaração do que se considera como as leis, princípios ou causas gerais de algo conhecido ou observado.

Um "teorema" científico não foi — não pode ser — provado do mesmo modo que é possível provar um teorema matemático [porque as afirmações da ciência empírica lidam com a 'contingência' {isto é, as relações não necessárias logicamente} e não com a 'necessidade': na matemática e na lógica, dado X, necessariamente se seguirá Y; no mundo empírico, porém, que é o que a Ciência estuda, nem o X nem o Y são 'necessários', ou seja, sua existência e suas relações são factuais, concretas, reais, mas poderiam não existir ou existir de modo diferente; logo, não se pode efetuar 'demonstrações' rigorosamente lógico-matemáticas de relações empíricas, mas apenas constatações factuais do que é, mas podia não ser]. Mas o senso comum trata-o como um fato no mesmo sentido em que a "teoria" de que a Terra é redonda e não plana é um fato, e que a teoria de que as plantas verdes obtêm energia do Sol é um fato. Todos esses são "teoremas" científicos: corroborados por imensas quantidades de evidências, aceitos por todos os observadores bem informados, fatos indisputados no sentido comum da palavra.

Como ocorre com todos os fatos, se quisermos ser pedantes [isto é, desmesuradamente críticos e exigentes], é inegavelmente possível que nossos instrumentos medidores e os órgãos dos sentidos com os quais os lemos sejam vítimas de um gigantesco engano coletivo. Como disse Bertrand Russell, "Pode ser que tenhamos passado a existir há cinco minutos, já providos de memórias prontas, buracos nas meias e cabelos pedindo um corte".

Diante das evidências hoje disponíveis, para que a evolução fosse qualquer outra coisa exceto um fato seria preciso um logro coletivo semelhante por parte do criador, algo em que poucos teístas desejariam acreditar.

Chegou o momento de examinarmos a definição de "fato" no dicionário. Eis o que o OED tem a dizer (novamente há várias definições, mas esta é a relevante):

Fato: Algo que realmente ocorreu ou é verdadeiro; algo que se sabe com certeza ter esse caráter; portanto, uma verdade específica conhecida por observação efetiva ou testemunho autêntico, em contraste com o que é meramente inferido ou com uma conjectura ou ficção. Um dado da experiência, distinto das conclusões que podem ser nele baseadas.

Note que, como um "teorema", um fato, nessa acepção, não tem o mesmo status rigoroso de um teorema matemático provado, que decorre inescapavelmente de um conjunto de axiomas pressupostos. Além disso, a "observação efetiva ou testemunho autêntico" podem ser horrivelmente falíveis, e são superestimados nos tribunais.

Experimentos psicológicos deram-nos espantosas demonstrações que deveriam preocupar qualquer jurista inclinado a dar um peso superior ao depoimento de uma "testemunha ocular". Um célebre exemplo foi preparado pelo professor Daniel J. Simons, da Universidade de Illinois: Meia dúzia de jovens em pé e em círculo foram filmados durante 25 segundos passando duas bolas de basquete uns para os outros, e nós, os sujeitos do experimento, assistimos ao filme. Os jogadores entram e saem do círculo e trocam de lugar enquanto fazem passes e quicam a bola, por isso a cena é ativamente bem complexa. Antes de o filme nos ser mostrado, somos avisados de que temos uma tarefa para testar nosso poder de observação. Devemos contar o número de vezes em que as bolas são passadas de uma pessoa a outra. No fim do teste, as contagens são anotadas, mas — o público nem desconfia — esse não é o verdadeiro teste! Depois de exibir o filme e coligir as contagens, o experimentador deixa cair a bomba. "E quantos de vocês viram o gorila?" A maioria do público fica perplexa: como assim? O experimentador torna a exibir o filme, mas dessa vez diz às pessoas para assistirem despreocupadamente, sem tentar contar coisa alguma. Surpreendentemente, nove segundos depois de começado o filme, um homem vestido de gorila surge na maior tranquilidade no centro do círculo de jogadores, para e olha para a câmera, bate no peito como se beligerantemente desprezasse as evidências das testemunhas oculares e então sai de cena com a mesma calma de antes. Ele fica bem à vista por nove segundos — mais de um terço do filme — e no entanto a maioria das testemunhas não o vê. Essas pessoas jurariam em tribunal que não estava presente nenhum homem vestido de gorila e que tinham assistido com uma concentração maior do que a normal durante os 25 segundos, justamente porque estavam contando os passes de bola. Muitos experimentos nessa linha foram feitos, com resultados semelhantes e com reações parecidas de descrença e pasmo quando finalmente a verdade é mostrada aos participantes.

O testemunho ocular, a "observação efetiva", um "dado da experiência" — são todos, ou ao menos podem ser, irremediavelmente não confiáveis. Obviamente, é essa não confiabilidade dos observadores que os mágicos exploram no palco com suas técnicas deliberadas de distração.

A definição de "fato" no dicionário menciona "observação efetiva ou testemunho autêntico, em contraste com o que é meramente inferido'' (grifo meu). Há certa petulância na conotação pejorativa implícita nesse "meramente". A inferência cuidadosa pode ser mais confiável do que a "observação efetiva", por mais que a nossa intuição relute em admiti-lo. Eu mesmo fiquei atônito por não ter visto o gorila de Simons, e confesso que não acreditei que ele estivera realmente lá. Mais triste e mais sábio depois de ver o filme pela segunda vez, agora nunca mais serei tentado a dar ao testemunho ocular uma preferência automática sobre a inferência científica indireta. O filme do gorila, ou algo parecido, talvez deva ser exibido a todos os jurados antes de deliberarem sobre um veredicto. E a todos os juízes também.

É bem verdade que, em última análise, a inferência tem de ser baseada na observação por nossos órgãos dos sentidos. Por exemplo, usamos os olhos para observar os dados impressos fornecidos por uma máquina que sequencia o DNA ou pelo Grande Colisor de Hádrons. Porém — apesar de todas as intuições em contrário —, a observação direta de um evento suposto (por exemplo, um assassinato) como ele realmente aconteceu não é necessariamente mais confiável do que a observação indireta de suas consequências (como o DNA numa mancha de sangue) introduzidas em uma bem construída máquina de inferir.

É mais provável ocorrer um erro de identidade decorrente de testemunho ocular direto do que de inferência indireta baseada em dados de DNA. Aliás, é deploravelmente longa a lista de pessoas que foram condenadas injustamente com base em testemunho ocular e depois libertadas — algumas após muitos anos — graças a novas evidências de DNA. Só no Texas, 35 pessoas condenadas foram absolvidas depois que as evidências de DNA tornaram-se admissíveis nos tribunais. E estamos falando só em gente que ainda está viva. Considerando o empenho do Texas em aplicar a pena de morte (nos seis anos em que foi governador, George W. Bush assinou em média uma ordem de execução por quinzena), não podemos deixar de supor que certo número de pessoas executadas teria sido absolvido se pudesse ter contado com as evidências do DNA.

* * * 

Este livro levará a inferência a sério — não a mera inferência, mas a inferência científica apropriada —, e mostrarei o irrefragável poder da inferência de que a evolução é um fato.

Obviamente, a imensa maioria da mudança evolucionária é invisível para a observação ocular direta. A maior parte dessa mudança ocorreu antes de nascermos, e, além disso, é geralmente lenta demais para ser vista durante a vida de um indivíduo. O mesmo se aplica ao incessante distanciamento entre a África e a América do Sul, que, como veremos no capítulo 9, ocorre com demasiada lentidão para podermos notá-lo.

No caso da evolução, como no da deriva continental, a inferência depois do evento é só o que temos à disposição, pela óbvia razão de que só viemos a existir depois do evento. Mas nem por um nanossegundo devemos subestimar o poder dessa inferência.

A lenta separação entre a América do Sul e a África é hoje um fato estabelecido no sentido linguístico comum de "fato", e o mesmo vale para nossa descendência comum com a do porco-espinho e a da romã. Somos como detetives que chegam à cena depois de o crime ter sido cometido. As ações do assassino desapareceram no passado. O detetive não tem nenhuma esperança de testemunhar o crime com seus próprios olhos. Pensando bem, o experimento do sujeito vestido de gorila e outros semelhantes já nos ensinaram a desconfiar dos nossos olhos.

O que o detetive efetivamente tem são os vestígios, e neles há muito de confiável. São as pegadas, impressões digitais (e hoje também as impressões de DNA), manchas de sangue, cartas, diários. O mundo é como o mundo deveria ser se tal e tal história, mas não outras histórias, conduzissem ao presente.

A distinção entre as duas definições dicionarizadas de "teoria" não é um abismo intransponível, como mostram muitos exemplos históricos. Na história da ciência, muitos "teoremas" nascem como "meras" hipóteses. Como ocorreu com a teoria da deriva dos continentes, pode até acontecer de uma ideia começar sua carreira atolada em ridículo e, progressivamente, em árduos passos, atingir o status de um "teorema" ou fato indisputado. Essa não é uma ideia filosófica difícil. O fato de que algumas convicções amplamente disseminadas no passado foram conclusivamente refutadas não significa que devemos recear que as futuras evidências sempre venham a contestar nossas convicções do presente.

O grau de vulnerabilidade daquilo em que atualmente acreditamos depende, entre outras coisas, do quanto são fortes as evidências em seu favor. Antigamente se pensava que o Sol fosse menor do que a Terra porque as evidências disponíveis eram inadequadas. Hoje temos evidências, antes indisponíveis, que mostram conclusivamente que o Sol é muito maior, e podemos ter toda certeza de que essas evidências jamais serão desbancadas. Não se trata de uma hipótese temporária que até o momento sobreviveu à refutação. Nossas atuais convicções a respeito de muitas coisas podem ser refutadas, mas podemos, com total confiança, fazer uma lista de fatos inquestionáveis que nunca serão desacreditados. A evolução e o heliocentrismo não constaram sempre dessa lista, mas hoje fazem parte dela.

Os biólogos costumam fazer a distinção entre o fato da evolução (todos os seres vivos são primos) e a teoria sobre o que a impele (normalmente querem dizer "seleção natural", e talvez a contrastem com teorias rivais como a do "uso e desuso" e "herança de características adquiridas", de Lamarck). Mas o próprio Darwin pensava nas duas teorias no sentido provisório, hipotético, conjectural. Isso porque, em seu tempo, as evidências disponíveis eram menos eloquentes e ainda era possível a cientistas de renome contestar tanto a evolução como a seleção natural. Hoje já não é possível contestar o próprio fato da evolução — ela ascendeu à categoria de "teorema", ou fato obviamente corroborado —, mas ainda existe uma (ínfima) possibilidade de se duvidar de que a seleção natural seja seu motor principal.

Darwin explicou em sua autobiografia que, em 1838, "por entretenimento", estava lendo o Ensaio sobre o princípio da população, de Malthus (influenciado, desconfia Matt Ridley, por Harriet Martineau, uma amiga formidavelmente inteligente de seu irmão Erasmus), e nessa leitura ele teve a inspiração para a seleção natural: "Eis que finalmente eu tinha uma teoria na qual basear meu trabalho". Para Darwin, a seleção natural era uma hipótese, que poderia ser certa ou errada. Ele pensava o mesmo a respeito da própria evolução.

O que hoje chamamos o fato da evolução era, em 1838, uma hipótese para a qual cumpria coligir evidências. Na época em que Darwin veio a publicar A origem das espécies, em 1859, ele já reunira evidências suficientes para situar a própria evolução, embora não ainda a seleção natural, em um ponto bem avançado do caminho para a categoria de fato. E foi essa elevação de hipótese a fato que ocupou Darwin em boa parte de seu grandioso livro. A elevação prosseguiu até que, hoje, não existe mais dúvida sobre ela nas mentes sérias, e os cientistas falam, ao menos informalmente, no fato da evolução.

Todos os biólogos conceituados vão além e concordam que a seleção natural é uma das mais importantes forças propulsoras da evolução, embora — como alguns biólogos insistem mais do que outros — não seja a única. Mesmo se não for a única, até agora não encontrei nenhum biólogo sério capaz de apontar uma alternativa à seleção natural como força propulsora da evolução adaptativa — a evolução em direção a um desenvolvimento positivo.

No resto deste livro demonstrarei que a evolução é um fato inescapável e exaltarei seu poder, simplicidade e beleza impressionantes. A evolução está dentro de nós, à nossa volta e entre nós, e suas obras estão incrustadas em rochas de eras passadas.

Já que, na maioria dos casos, não vivemos o suficiente para ver a evolução acontecer diante dos nossos olhos, retomaremos a metáfora do detetive que chega à cena do crime depois do evento e faz inferências.

Os recursos para as inferências que levam os cientistas ao fato da evolução são muito mais numerosos, mais convincentes, mais incontroversos do que qualquer depoimento de testemunha ocular jamais usado em qualquer tribunal e em qualquer século para estabelecer a culpa em um crime.

Prova além de qualquer dúvida razoável. -- "Dúvida razoável" (não qualquer tipo de dúvida absurda). Essa é a expressão mais acertada de todos os tempos.

Nenhum comentário: