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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

As evidências da evolução (Richard Dawkins) - 2



(Continuação da obra "As evidências da evolução",
de Richard Dawkins)

Capítulo 2
O cão, a vaca e a couve


"Não existe uma 'coelhidade' permanente,
não há uma essência de coelho pairando no céu;
existem apenas populações de indivíduos peludos,
orelhudos, bigodudos e coprófagos
para os quais encontramos uma distribuição estatística
de variações em tamanho, forma, cor e propensões."
(R. Dawkins)


Por que demorou tanto para aparecer um Darwin? O que explica a lerdeza da humanidade para atinar com essa idéia luminosamente simples que parece, superficialmente, tão mais fácil de entender do que as idéias matemáticas legadas por Newton dois séculos antes, ou mesmo que as de Arquimedes, dois milênios antes?

Muitas respostas foram sugeridas. Talvez as mentes se intimidassem com a imensidão de tempo necessário para a ocorrência da mudança — com a disparidade entre o que hoje chamamos de tempo geológico profundo e o tempo de vida e a compreensão da pessoa que tentava entender. Talvez a doutrinação religiosa nos tolhesse. Ou quem sabe fosse a estarrecedora complexidade de um órgão vivo como o olho, onerada como é pela enganosa ilusão de um projeto deliberadamente elaborado por um engenheiro magistral.

Provavelmente todos esses fatores tiveram seu papel. Mas Ernst Mayr, o brilhante veterano da síntese neodarwiniana que morreu em 2005 aos cem anos, expressou repetidamente um palpite diferente. Para Mayr, a culpa foi da antiga doutrina filosófica do essencialismo (como hoje a chamamos). A descoberta da evolução foi refreada pela mão morta de Platão.

A MÃO MORTA DE PLATÃO

Para Platão, a "realidade" que pensamos ver são apenas sombras projetadas na parede da nossa caverna pela luz bruxuleante de uma fogueira. Como outros pensadores gregos clássicos, Platão era, no fundo, um geômetra. Cada triângulo traçado na areia é apenas uma sombra imperfeita da verdadeira essência do triângulo. As linhas do triângulo essencial são linhas euclidianas puras, que têm comprimento, mas não largura: linhas definidas como infinitamente estreitas e que nunca se encontram quando são paralelas. Os ângulos do triângulo essencial realmente resultam em dois ângulos retos quando somados, e nem um picossegundo de arco a mais ou a menos. Isso não se aplica ao triângulo desenhado na areia; mas este, para Platão, é apenas uma sombra instável do triângulo ideal, essencial.

A biologia, na opinião de Mayr, é estorvada por sua própria versão do essencialismo. O essencialismo biológico trata tapires e coelhos, pangolins e dromedários como se fossem triângulos, losangos, parábolas ou dodecaedros. Os coelhos que vemos são apenas pálidas sombras da "ideia" perfeita de um coelho, do coelho platônico ideal, essencial, que paira em alguma parte do espaço conceitual junto com todas as formas perfeitas da geometria. Os coelhos de carne e osso podem variar, mas suas variações sempre devem ser vistas como desvios imperfeitos da essência ideal do coelho.

Que quadro terrivelmente antievolucionário! O platonismo considera qualquer mudança em coelhos um desarmônico afastamento do coelho essencial, e sempre haverá resistência à mudança, como se os coelhos reais estivessem amarrados por um cordão elástico invisível ao Coelho Essencial lá no Céu.

A visão evolucionária da vida é radicalmente oposta. Os descendentes podem afastar-se infinitamente da forma ancestral, e cada afastamento torna-se um potencial ancestral de futuras variantes. Com efeito, Alfred Russel Wallace, o co-descobridor da evolução pela seleção natural (independentemente de Darwin), intitulou seu ensaio "Sobre a tendência das variedades a afastarem-se indefinidamente do tipo original".

Se existe um "coelho padrão", essa honra denota nada mais do que o centro da distribuição numa curva normal dos coelhos reais que correm, saltam e variam entre si. E essa distribuição muda ao longo do tempo. Com o passar das gerações, pode se gradualmente chegar a um ponto, não claramente definido, no qual o tipo usual daquilo que chamamos de coelho terá mudado tanto que merece outro nome.

Não existe uma "coelhidade" permanente, não há uma essência de coelho pairando no céu; existem apenas populações de indivíduos peludos, orelhudos, bigodudos e coprófagos para os quais encontramos uma distribuição estatística de variações em tamanho, forma, cor e propensões.

O que antes era o ponto extremo na distribuição do comprimento das orelhas pode passar a ser o centro de uma nova distribuição mais adiante no tempo geológico. Dado um número suficientemente grande de gerações, pode não haver sobreposição entre as distribuições de ancestrais e descendentes: as mais longas orelhas entre os ancestrais podem ser mais curtas do que as mais curtas entre os descendentes. Tudo flui, como disse Heráclito, outro filósofo grego; nada permanece estático.

Depois de 100 milhões de anos pode ser difícil acreditar que os animais descendentes um dia tiveram ancestrais coelhos. No entanto, em nenhuma geração durante o processo evolucionário o tipo predominante na população diferiu acentuadamente do tipo modal da geração anterior ou da geração seguinte.

Esse modo de pensar é o que Mayr chamou de population thinking, ou seja, raciocinar com base na população. Para ele, pensar da perspectiva da população era a antítese do essencialismo. Segundo Mayr, a razão por que um Darwin demorou tão despropositadamente a surgir em cena foi que nós todos — quer por influência dos gregos, quer por alguma outra razão — temos o essencialismo gravado em nosso DNA mental.

Para a mente encerrada em antolhos platônicos, um coelho é um coelho. Aventar que a coletividade dos coelhos constitui uma espécie de nuvem móvel de médias estatísticas, ou que o coelho típico de hoje poderia ser diferente do coelho típico de 1 milhão de anos atrás ou do coelho típico de 1 milhão de anos antes ainda, parece violar um tabu interno.

De fato, psicólogos que estudam o desenvolvimento da linguagem nos dizem que as crianças são essencialistas naturais. Talvez tenham mesmo de ser, para permanecerem mentalmente sãs enquanto sua mente em desenvolvimento divide as coisas em categorias separadas, cada qual com direito a um nome só seu. Não é de admirar que a primeira tarefa de Adão, no mito do Gênesis, foi dar nome a todos os animais. E não é de admirar, na opinião de Mayr, que nós, humanos, tivéssemos de esperar pelo nosso Darwin até bem adentrado o século XIX.

Para dramatizar quanto a evolução é anti-essencialista, consideremos o seguinte. Do ponto de vista evolucionário que raciocina com base na população, cada animal está ligado a qualquer outro animal — como o coelho ao leopardo, por exemplo — por uma cadeia de intermediários, cada qual tão semelhante ao seu contíguo que cada elo poderia, em princípio, cruzar com seu vizinho nessa cadeia e produzir descendentes férteis. Impossível violar o tabu essencialista de um modo mais abrangente do que esse.

E não se trata de algum experimento mental vago, confinado à imaginação. Do ponto de vista evolucionário, existe realmente uma série de animais intermediários que ligam um coelho a um leopardo, cada um dos quais teria vivido e respirado, cada um dos quais teria sido classificado exatamente na mesma espécie que seus vizinhos imediatos no longo e fluido continuum.

De fato, nesse continuum cada indivíduo da série foi filho de seu vizinho de um lado e pai de seu vizinho do outro. No entanto, a série toda constitui uma ponte ininterrupta do coelho ao leopardo — embora, como veremos adiante, nunca tenha havido um "leopardelho". Há pontes semelhantes do coelho ao tomate, do leopardo à lagosta, de qualquer animal ou planta a qualquer outro ser vivo.

Talvez o leitor já tenha deduzido por que esse espantoso resultado decorre necessariamente da visão de mundo evolucionária, mas deixe-me explicitá-lo mesmo assim. Eu o chamarei de experimento mental da curva de 180 graus.

Consideremos uma fêmea de coelho qualquer (por conveniência usaremos apenas fêmeas na argumentação; essa escolha é arbitrária e não faz diferença para nosso raciocínio). Ponha a mãe dela ao lado. Agora ponha a avó ao lado da mãe e assim por diante, voltando no tempo, voltando, voltando, voltando ao longo dos mega-anos, em uma linhagem aparentemente interminável de coelhas, cada qual ensanduichada entre a filha e a mãe.

Andemos diante dessa linha de coelhas, regredindo no tempo, examinando-as cuidadosamente como um general que passa a tropa em revista. Seguindo a linha, acabaremos por notar que as coelhas de tempos muito antigos pelas quais passamos são um tantinho diferentes das coelhas modernas a que estamos acostumados. Mas a taxa de mudança será tão lenta que não notaremos a tendência de geração a geração, do mesmo modo que não conseguimos ver o movimento do ponteiro das horas no relógio — e que não conseguimos ver uma criança crescer, só notando mais tarde que ela se tornou um adolescente e, mais tarde ainda, um adulto.

Uma razão adicional por que não notamos a mudança nos coelhos de uma geração para outra é que, em qualquer dado século, a variação na população corrente será, normalmente, maior do que a variação entre mães e filhas. Assim, se tentarmos discernir o movimento do "ponteiro das horas" comparando mães e filhas, ou mesmo avós e netas, as ínfimas diferenças que talvez vejamos serão eclipsadas pelas diferenças entre as amigas e parentes das coelhas que saltitam pelos prados próximos.

Não obstante, de modo contínuo e imperceptível, nessa nossa jornada retrocessiva chegaremos a ancestrais que se parecem cada vez menos com um coelho e cada vez mais com um musaranho (e não são muito parecidos nem com um, nem com outro). A uma dessas criaturas chamarei de curva de 180 graus, e logo se verá por quê.

Esse animal é o mais recente ancestral comum (na linha feminina, mas isso não é importante) que os coelhos têm com os leopardos. Não sabemos exatamente como é sua aparência, mas decorre do raciocínio evolucionário que esse animal inegavelmente teve de existir. Assim como todos os animais, ele foi membro da mesma espécie que suas filhas e da mesma espécie que sua mãe.

Agora prosseguimos nossa caminhada, com a diferença de que fizemos a curva de 180 graus e seguimos à frente no tempo, na direção dos leopardos (entre os muitos e diversos descendentes nesse prolongamento da curva, pois continuamente encontraremos bifurcações na linha, nas quais escolheremos sempre aquela que nos conduza por fim aos leopardos).

Cada animal parecido com um musaranho ao longo da nossa caminhada à frente é agora seguido por sua filha. Lentamente, em graus imperceptíveis, os animais parecidos com o musaranho mudarão, passando por intermediários que podem não lembrar nenhum animal moderno, mas que se assemelham muito uns aos outros, talvez passando por intermediários parecidos com o arminho, até que, por fim, sem jamais notar qualquer tipo de mudança abrupta, chegamos a um leopardo.

Várias coisas devem ser ditas a respeito desse experimento mental. Primeiro, escolhemos por acaso ir do coelho ao leopardo, mas repito que poderíamos ter decidido ir do porco-espinho ao golfinho, do wallaby à girafa ou do homem ao hadoque. O importante é que, para cada dois animais, tem de haver um caminho evolutivo que faz uma curva de 180 graus ligando-os, pela simples razão de que cada espécie tem um ancestral em comum com cada uma das outras espécies; só precisamos andar retrocessivamente de uma espécie até o ancestral comum, fazer a curva de 180 graus e seguir progressivamente até chegar à outra espécie.

Segundo, note que estamos falando apenas em localizar uma cadeia de animais que ligue um animal moderno a outro animal moderno. Que fique muito bem frisado: não está ocorrendo uma evolução de coelho [diretamente] para leopardo.

Suponho que o leitor poderia dizer que estamos involuindo quando fazemos o caminho de volta até a curva de 180 graus e então evoluindo quando passamos a seguir à frente depois de dobrar a curva em direção ao leopardo. Como veremos em um dos capítulos seguintes, infelizmente é necessário explicar, vezes sem conta, que espécies modernas não evoluem para outras espécies modernas. Elas apenas têm ancestrais em comum: são primas. Isso, como veremos, também é a resposta a um aparte inquietantemente comum: "Mas se os humanos evoluíram dos chimpanzés, como é que ainda existem chimpanzés no mundo?".

Terceiro, em nossa marcha à frente depois de dobrar a curva de 180 graus, escolhemos arbitrariamente o caminho que conduz ao leopardo. Esse é um caminho real da história evolucionária, mas, repetindo um lembrete importante, escolhemos desconsiderar numerosos pontos de ramificação nos quais poderíamos ter seguido a evolução rumo a incontáveis outros pontos extremos: pois o animal na curva de 180 graus é o ancestral mais antigo não só de coelhos e leopardos, mas de uma grande fração de mamíferos modernos.

O quarto ponto, já salientado, é que, por mais radicais e grandes que sejam as diferenças entre os animais nos dois extremos do caminho que contém essa curva de 180 graus — coelho e leopardo, por exemplo —, cada passo nessa cadeia que os liga é muito, muito pequeno. Cada indivíduo ao longo da cadeia é tão semelhante a seus vizinhos quanto uma mãe e uma filha costumam ser. E é mais semelhante a seus vizinhos na cadeia [ou seja, na ordem da sucessão temporal], como também já mencionei, do que aos membros típicos da população circundante [ou seja, na ordem da distribuição geográfica].

Podemos ver como esse experimento mental abre buracos no elegante templo grego das formas platônicas ideais. E podemos ver também que, se Mayr estiver certo e os humanos forem profundamente imbuídos de ideias essencialistas preconcebidas, ele também pode estar certo quanto à razão de historicamente considerarmos tão difícil de digerir a idéia da evolução.

A palavra "essencialismo" só veio a ser inventada em 1945, portanto não estava disponível para Darwin. Mas ele tinha grande familiaridade com a versão biológica dela, na forma da "imutabilidade das espécies", e muito se esforçou para combatê-la sob esse nome. De fato, em vários livros de Darwin — inclusive mais em outros do que em A origem das espécies — só podemos entender plenamente o que ele quer dizer se deixarmos de lado as pressuposições modernas sobre a evolução e lembrarmos que grande parte do público de Darwin na época compunha-se de essencialistas que nunca duvidaram da imutabilidade das espécies. Uma das mais reveladoras armas de Darwin em sua argumentação contra essa suposta imutabilidade eram as evidências dadas pela domesticação, e esse é o assunto que ocupará o resto do nosso capítulo.

COMO ESCULPIR UM RESERVATÓRIO GÊNICO

Darwin sabia muito sobre a criação de animais e o cultivo de plantas. Era amigo de criadores de pombos e horticultores e adorava cães. O primeiro capítulo de A origem das espécies foi dedicado exclusivamente às variedades domésticas de animais e plantas, e, além disso, Darwin escreveu todo um livro sobre esse assunto, The variation of animais and plants under domestication, que contém capítulos sobre cães e gatos, cavalos e jumentos, porcos, bois, ovelhas e cabras, coelhos, pombos (dois capítulos para estes, que tinham lugar especial no coração de Darwin), galinhas e várias outras aves, e plantas, incluindo as fenomenais couves.

As couves são uma afronta vegetal ao essencialismo e à imutabilidade das espécies. A couve selvagem, Brassica oleracea, é uma planta sem nada de extraordinário, vagamente parecida com uma versão silvestre da couve doméstica. Em poucos séculos, empunhando refinados ou rústicos cinzéis fornecidos pela caixa de ferramentas das técnicas de reprodução seletiva, horticultores esculpiram essa planta trivial até obter vegetais notavelmente diferentes uns dos outros e de sua ancestral selvagem como o brócolis, a couve-flor, a couve-rábano, a couve-manteiga, a couve-de-bruxelas, o brócolis "ninja" e, é claro, os vários tipos de verdura que ainda são comumente chamados de couve.

Outro exemplo muito conhecido é a maneira como o lobo, Canis lupus, foi esculpido nas duzentas e tantas raças de cão, Canis familiaris, que são reconhecidas como distintas pelo Kennel Club do Reino Unido, e no número ainda maior de raças que vivem geneticamente isoladas umas das outras pelas regras de apartheid da criação de cães com pedigree.

A propósito, parece que o ancestral selvagem de todos os cães domésticos realmente é o lobo e só ele (embora sua domesticação possa ter ocorrido independentemente em diversas partes do mundo). Nem sempre os evolucionistas pensaram desse modo. Darwin, assim como muitos de seus contemporâneos, suspeitava que várias espécies de canídeos selvagens, entre elas os lobos e os chacais, houvessem contribuído para a linhagem dos nossos cães domésticos.

Konrad Lorenz, etologista austríaco laureado com o prêmio Nobel, também pensava assim. Seu livro Man meets dog [E o homem encontrou o cão, em tradução publicada em Portugal], publicado em 1949, argumenta que as raças de cães domésticos dividem-se em dois grupos principais: as derivadas do chacal (a maioria) e as derivadas do lobo (as raças favoritas de Lorenz, incluindo o chow). Lorenz aparentemente não tinha nenhum dado que comprovasse essa dicotomia, com exceção das diferenças que ele julgava ver na personalidade e nas características das raças. Essa questão permaneceu inconclusa até que evidências da genética molecular surgiram para decidi-la. Hoje não há mais dúvida. Os cães domésticos não têm nenhum chacal em sua linhagem. Todas as raças caninas são lobos modificados — nada de chacais, coiotes e raposas.

A principal idéia que desejo extrair da domesticação é seu assombroso poder de mudar a forma e o comportamento de animais selvagens e a velocidade com que ela o faz. Os criadores são quase como modeladores que dão forma a argila maleável, ou como escultores com cinzéis, esculpindo cães ou cavalos, vacas ou couves a seu bel-prazer.

Retomarei essa imagem em breve. Para a evolução natural, a relevância é que, embora o agente seletor seja o homem e não a natureza, em outros aspectos o processo é exatamente o mesmo. Foi por isso que Darwin deu tanto destaque à domesticação logo no início de A origem das espécies.

Qualquer um pode entender o princípio da evolução pela seleção artificial. A seleção natural é semelhante, com exceção apenas de um pequeno detalhe. Rigorosamente falando, não é o corpo do cão ou da couve que é esculpido pelo criador/escultor, e sim o reservatório gênico da raça ou espécie.

A idéia do reservatório gênico (gene pool) é central ao conjunto de conhecimentos e teoria que se designa pelo nome de "síntese neodarwiniana". O próprio Darwin nada sabia sobre o reservatório gênico. Isso não fazia parte de seu mundo intelectual, e aliás nem mesmo os genes. Obviamente Darwin sabia que as características eram transmitidas nas famílias, que os filhos tendiam a ser parecidos com seus pais e irmãos, que determinadas características de cães e pombos eram transmitidas inalteradas aos descendentes. A hereditariedade era um sustentáculo de sua teoria da seleção natural. Mas um reservatório gênico é outra coisa.

O conceito de reservatório gênico só tem significado à luz da lei de Mendel sobre o agrupamento independente das partículas hereditárias. Darwin não conheceu as leis de Mendel, pois embora Gregor Mendel, o monge austríaco que foi o pai da genética, fosse contemporâneo de Darwin, ele publicou suas conclusões em um periódico alemão que nunca chegou às mãos de Darwin.

Um gene mendeliano é uma entidade tudo-ou-nada. Quando você foi concebido, o que recebeu de seu pai não foi uma substância para ser misturada com a que recebeu da sua mãe, como quando misturamos tinta azul com tinta vermelha para obter tinta roxa. Se a hereditariedade funcionasse assim (como as pessoas vagamente pensavam na época de Darwin), seríamos todos, uma média, um meio caminho entre nosso pai e nossa mãe. Nesse caso, todas as variações desapareceriam rapidamente da população (por mais assiduamente que misturemos tinta roxa com tinta roxa, nunca chegaremos a reconstituir o vermelho e o azul originais).

Na verdade, obviamente, qualquer pessoa pode ver muito bem que não existe tal tendência intrínseca a um decréscimo na variação na população. Mendel mostrou que isso ocorre porque quando os genes paternos e os genes maternos combinam-se em um filho (ele não usou a palavra "gene", que só seria cunhada em 1909), o resultado não é como o de misturar tintas, e sim como o de embaralhar e reembaralhar cartas.

Hoje sabemos que os genes são trechos de código de DNA — não fisicamente separados como cartas de baralho, mas o princípio ainda assim é válido. Os genes não se fundem, embaralham-se. Poderíamos dizer que se embaralham mal, com grupos de cartas que permanecem juntas por várias gerações de embaralhamento antes que o acaso as separe.

Qualquer um dos nossos espermatozóides (ou óvulos, no caso das mulheres) contém uma versão de determinado gene que é a mesma versão do gene paterno ou a mesma do gene materno, e não uma mistura das duas versões. E esse gene específico provém de um, e apenas um, dos quatro avós, e de apenas um dos oito bisavós.

Analisando agora, isso sempre deveria ter sido óbvio. Quando ocorre o cruzamento de dois indivíduos, um do sexo masculino e outro do feminino, prevemos que o descendente será um filho ou uma filha, e não um hermafrodita. Hoje ficamos pensando que qualquer um, sentado numa poltrona, poderia ter generalizado o mesmo princípio do tudo-ou-nada na herança de cada característica.

É fascinante que o próprio Darwin tenha chegado muito perto de vislumbrar isso, mas parou à beira de fazer a ligação completa. Em 1866 ele escreveu em uma carta a Alfred Wallace:

"Meu caro Wallace,
Creio que você não compreendeu a que me refiro quando digo que certas variedades não se fundem. Não me refiro à fertilidade. Um exemplo servirá para explicar. Cruzei ervilhas-de-cheiro Painted Lady e Purple, que são variedades de cores bem diferentes, e obtive, no mesmo pé, ambas as variedades perfeitas, mas nenhuma intermediária. Algo parecido, penso eu, deve ocorrer em princípio com as suas borboletas. [...] Embora esses casos aparentemente sejam tão admiráveis, não creio que o sejam mais do que o fato de que cada fêmea no mundo produz filhos do sexo masculino e feminino."

Darwin por um triz não descobriu a lei de Mendel de que os genes (como os chamamos hoje) não se fundem. O caso é análogo à afirmação, feita por vários apologistas melindrados, de que outros cientistas vitorianos, como Patrick Matthew e Edward Blyth, haviam descoberto antes de Darwin a seleção natural. Em certo sentido isso é verdade, como Darwin reconheceu, mas a meu ver as evidências mostram que eles não entenderam quanto essa descoberta era importante. Ao contrário de Darwin e Wallace, eles não a viram como um fenômeno geral com significado universal — um fenômeno com o poder de impelir a evolução de todos os seres vivos em direção a um desenvolvimento positivo.

Do mesmo modo, essa carta a Wallace indica que Darwin por um triz não atinou com a noção de que não existe fusão na hereditariedade. Mas ele não percebeu a generalidade e, em particular, não a viu como a resposta ao enigma de por que a variação não desaparece automaticamente das populações. Isso ficou para cientistas do século XX, que alicerçariam seu trabalho na vanguardista descoberta de Mendel.

* * * 

Agora o conceito de reservatório gênico começa a fazer sentido. Uma população com reprodução sexuada, por exemplo, todos os ratos de Ascensão, uma ilha remotamente isolada no Atlântico Sul, está continuamente embaralhando todos os genes na ilha. Não existe uma tendência intrínseca de cada geração tornar-se menos variável do que a geração anterior, nenhuma tendência a surgirem cada vez mais intermediários tediosamente cinzentos. Os genes permanecem intactos, são embaralhados de corpo para corpo no decorrer das gerações, mas não se misturam uns aos outros, jamais contaminam uns aos outros.

A qualquer dado momento, os genes encontram-se nos corpos dos ratos individualmente considerados ou passando para novos corpos de ratos por intermédio de espermatozóides e óvulos. Mas se examinarmos um conjunto de várias gerações, veremos todos os genes de rato da ilha bem entremeados uns aos outros como se fossem cartas bem embaralhadas de um único baralho: um único reservatório gênico [isto é, um único conjunto de peças somente trocadas de posição, recombinadas.]

Estou supondo que o reservatório gênico dos ratos de uma ilha pequena e isolada como Ascensão é um reservatório delimitado e bem mexido, no sentido de que os ancestrais recentes de qualquer dado rato poderiam ter vivido em qualquer parte da ilha, mas provavelmente não em qualquer outra parte fora da ilha, desconsiderando-se aqui um ou outro clandestino de navio.

Mas o reservatório gênico dos ratos numa grande massa de terra como a Eurásia seria muito mais complexo. Um rato que vive em Madri teria a maioria de seus genes herdada de ancestrais que viveram no lado ocidental do continente eurasiano, e não, por exemplo, na Mongólia ou na Sibéria, não por causa de barreiras específicas ao fluxo gênico (embora elas também existam), mas devido às imensas distâncias envolvidas.

É preciso muito tempo para que o embaralhamento sexual leve um gene de um lado do continente ao outro. Mesmo se não existirem barreiras físicas como rios ou cordilheiras, o fluxo gênico através dessa vastíssima massa de terra seria lento o suficiente para que o reservatório gênico fosse chamado de "viscoso".

Um rato que vivesse em Vladivostock teria a maioria de seus genes herdada de ancestrais do leste. Por causa das distâncias envolvidas, o reservatório gênico eurasiano seria embaralhado, como na ilha de Ascensão, porém não homogeneamente.

Além disso, barreiras parciais, como cadeias montanhosas, grandes rios ou desertos, também ficariam no caminho de um embaralhamento homogêneo, e com isso estruturariam e complicariam o reservatório gênico.

Tais complicações não desvalorizam a ideia do reservatório gênico. O reservatório gênico perfeitamente revolvido é uma abstração útil, como a abstração matemática de uma linha reta perfeita. Reservatórios gênicos reais, mesmo em ilhas pequenas como a de Ascensão, são aproximações imperfeitas, apenas parcialmente embaralhadas. Quanto menor e menos interrompida por barreiras for a ilha, melhor será a semelhança com o ideal abstrato do reservatório gênico perfeitamente mexido.

Só para burilar essa idéia dos reservatórios gênicos, quero dizer que cada animal individual que vemos numa população é uma amostra do reservatório gênico de seu tempo (ou melhor, do tempo de seus pais). Não existe tendência intrínseca, nos reservatórios gênicos, de determinados genes aumentarem ou diminuírem de frequência. Mas quando ocorre um aumento ou diminuição sistemática na frequência com que vemos determinado gene em um reservatório gênico, isso é justamente e precisamente o que significa evolução.

Assim, a questão passa a ser: por que deveria haver um aumento ou diminuição sistemática na freqüência de um gene? É aqui, obviamente, que as coisas começam a ficar interessantes, e no devido tempo trataremos do assunto.

No reservatório gênico dos cães domésticos ocorre algo curioso. Criadores de pequineses ou dálmatas com pedigree esforçam-se quanto podem para impedir que genes passem de um reservatório a outro. Fazem suas anotações nos livros de pedigree ao longo de muitas gerações, e a miscigenação é o pior que pode acontecer no livro de um criador de cães de raça.

É como se cada raça canina vivesse encarcerada em sua própria ilha de Ascensão, separada de todas as demais. Só que a barreira para a miscigenação não é de água, mas de regras humanas. Geograficamente todas as raças se encontram, mas é como se estivessem em ilhas separadas devido ao modo como seus donos policiam suas oportunidades de acasalamento.

Obviamente, de vez em quando as regras são violadas. Como um rato que parte clandestinamente num navio da ilha de Ascensão, uma cadela da raça whippet, por exemplo, escapa da coleira e se acasala com um spaniel. Mas os filhotes mestiços que resultarão, por mais que possam ser amados como indivíduos, são expulsos da ilha Whippet com Pedigree. A ilha permanece puramente whippet. Outros whippets de raça pura asseguram que o reservatório gênico da ilha virtual Whippet continue sem contaminação.

Existem centenas de "ilhas" criadas por humanos para cada raça de cão com pedigree. Cada uma é uma ilha virtual, não tem uma localização geográfica. Whippets ou lulus-da-pomerânia com pedigree podem ser encontrados em vários locais no mundo, e carros, navios e aviões são usados para transportar os genes de um lugar geográfico a outro.

A ilha genética virtual que é o reservatório gênico dos pequineses coincide geográfica, mas não geneticamente (exceto quando alguma cadela dá uma escapada), com a ilha genética virtual que é o reservatório gênico dos boxers e com a ilha virtual que é o reservatório gênico dos são-bernardos.

Voltemos agora à observação com a qual iniciei minha exposição sobre os reservatórios gênicos. Eu disse que se os humanos criadores de animais forem vistos como escultores, o que eles esculpem com seus cinzéis não é a carne dos cães, mas o reservatório gênico.

Parece ser a carne dos cães, pois o criador pode anunciar sua intenção de, por exemplo, encurtar o focinho das futuras gerações de boxers. E o produto final desse intento realmente seria um focinho mais curto, como se o criador houvesse usado um cinzel na face do ancestral.

Porém, como vimos, um boxer típico em qualquer dada geração é uma amostra do reservatório gênico contemporâneo. É o reservatório gênico que foi esculpido e entalhado ao longo dos anos. Genes para focinho comprido foram desbastados do reservatório gênico e substituídos por genes para focinho curto. [E para fazê-lo basta, por exemplo, só permitir a reprodução de cães com o focinho pelo menos levemente mais curto que o da geração precedente.] 

Cada raça de cão, do dachshund ao dálmata, do boxer ao borzoi, do poodle ao pequinés, do dinamarquês ao chihuahua, foi esculpida, desbastada, amassada, moldada, não literalmente em carne e osso, mas em seu reservatório gênico.

Nem tudo é obtido com escultura. Muitas das raças que nos são familiares derivam originalmente de híbridos de outras raças, e com muitas delas isso ocorreu bem recentemente, inclusive no século XIX. A hibridação obviamente representa uma violação deliberada do isolamento dos reservatórios gênicos em ilhas virtuais. Alguns projetos de hibridação são elaborados com tanto cuidado que os criadores ficariam ressentidos se chamássemos seus produtos de mestiços ou sem raça definida (como o presidente Obama simpaticamente descreveu a si mesmo).

O "labradoodle" é um híbrido de labrador retriever e de um poodle tamanho standard, e resulta de uma busca meticulosamente arquitetada pelas melhores virtudes dessas duas raças. Donos de labradoodles têm associações e clubes registrados, exatamente como os de cães de raça pura.

Há duas escolas de pensamento entre os aficionados do labradoodle e de outros híbridos deliberadamente criados: os que se contentam com continuar a produzir labradoodles cruzando poodles com labradores, e os que estão tentando iniciar um novo reservatório gênico de labradoodles no qual as características dos ascendentes se reproduzam sem variabilidade quando labradoodles cruzem entre si. Atualmente, genes de labradoodles de segunda geração, quando recombinados, produzem mais variedade do que cães de raça pura devem apresentar.

É assim que muitas raças "puras" começam: passam por um estágio intermediário de grandes variações, que são subsequentemente desbastadas no decorrer de gerações de reprodução meticulosa.

Em alguns casos, novas raças de cães têm início com a adoção de uma grande mutação. Mutações são as mudanças aleatórias em genes que constituem a matéria-prima da evolução por seleção não aleatória. Na natureza as grandes mutações raramente sobrevivem, mas os geneticistas gostam delas no laboratório, pois são fáceis de estudar.

Raças de cães com pernas muito curtas, como o basset hound e o dachshund, adquiriram essa característica em um único passo com a mutação genética chamada acondroplasia. Esse é um clássico exemplo de uma grande mutação que teria pouca probabilidade de sobreviver na natureza.

Uma mutação semelhante é responsável pelo tipo mais comum de nanismo em humanos: o tronco é quase do tamanho normal, mas pernas e braços são curtos. Outras rotas genéticas produzem raças em miniatura que conservam as proporções da original.

Os criadores de cães obtêm mudanças no tamanho e na forma selecionando combinações de algumas grandes mutações como a acondroplasia e numerosos genes de menor impacto. E esses criadores não precisam entender de genética para ter êxito nas mudanças pretendidas. Sem nenhum conhecimento especializado, apenas escolhendo quem cruza com quem, pode-se promover a reprodução voltada para qualquer tipo de característica desejada. Foi isso que fizeram criadores de cães, e de animais e plantas em geral, durante séculos, antes que se soubesse qualquer coisa a respeito de genética. E há nisso uma lição sobre a seleção natural, pois a natureza obviamente também não tem entendimento nem noção de coisa alguma.

O zoólogo americano Raymond Coppinger chama a atenção para o fato de que, quando filhotes, os cães das diversas raças são muito mais parecidos entre si do que quando adultos. Os filhotes não podem dar-se o luxo de ser diferentes, pois seu principal afazer é mamar, uma tarefa que apresenta praticamente os mesmos desafios a todas as raças. Em especial, para mamar com eficiência o filhote não pode ter focinho comprido como o borzoi ou o retriever.

É por isso que todos os filhotes se parecem com um pug. Poderíamos dizer que um pug adulto é um filhote cuja face não cresceu apropriadamente. A maioria dos cães, depois do desmame, adquire um focinho relativamente alongado. Os pugs, buldogues e pequineses, não. Eles crescem em outras partes, mas o focinho conserva as proporções infantis. O termo técnico para essa característica é neotenia, e tornaremos a encontrá-lo no capítulo 7, quando abordarmos a evolução humana.

Quando um animal cresce nas mesmas proporções em todas as partes de seu corpo e o adulto se torna uma réplica em maior escala do infante, dizemos que ele cresce isometricamente. O crescimento isométrico é bem raro. No crescimento alométrico, em contraste, diferentes partes crescem em proporções distintas.

Em muitos casos, as taxas de crescimento de diferentes partes de um animal apresentam alguma relação matemática simples entre si, um fenômeno que foi investigado especialmente por sir Julian Huxley nos anos 1930.

Diferentes raças caninas adquirem suas formas distintas por meio de genes que mudam as relações de crescimento alométrico entre as partes do corpo. Por exemplo, os buldogues adquirem sua carranca churchilliana graças a uma tendência genética a um crescimento mais lento dos ossos nasais. Isso tem um efeito secundário sobre o crescimento relativo dos ossos próximos e até sobre todos os tecidos circundantes.

Um desses efeitos secundários é o soerguimenlo do palato para uma posição inconveniente que faz os dentes do buldogue projetarem-se para fora da boca e deixa o animal propenso a babar. Os buldogues também sofrem de dificuldade para respirar, urna característica que eles têm em comum com os pequineses.

Até o parto dos buldogues é difícil, pois a cabeça deles é desproporcionalmente grande. Hoje em dia a maioria dos buldogues, se não todos, nasce de parto cesáreo.

Os borzóis são o oposto. Têm focinho extra-longo. Aliás, eles se destacam porque o alongamento do focinho começa antes do nascimento, o que provavelmente torna os filhotes dessa raça menos proficientes em mamar do que os das outras raças. Coppinger aventa que o desejo humano de obter borzóis de focinho comprido mediante a reprodução seletiva atingiu um limite imposto pela capacidade de sobrevivência dos filhotes que precisam mamar.

Que lições aprendemos com a domesticação de cães? Primeiro, a grande variedade de raças caninas — dinamarquês, yorkshire, terrier escocês, airedale, ridgeback, dachshund, whippet, são-bernardo etc. — demonstra como é fácil e rápido obter mudanças impressionantes na anatomia e no comportamento com uma seleção não aleatória de genes, "esculpindo e desbastando" os reservatórios gênicos. Os genes envolvidos podem ser surpreendentemente pouco numerosos. No entanto, as mudanças são tamanhas e as diferenças entre as raças são tão gritantes que até se poderia supor que a evolução desses novos tipos levaria milhões de anos em vez de apenas séculos. Se é possível obter mudança evolucionária em apenas alguns séculos ou mesmo décadas, imagine o que se poderia conseguir em 10 ou 100 milhões de anos.

Se analisarmos o processo ao longo de séculos, não estamos fantasiando fútilmente quando dizemos que os criadores de cães usaram a carne canina como argila moldável e a puxaram, empurraram, amassaram para dar-lhe formas mais ou menos a seu gosto. Obviamente, como já salientei, o que se modelou de fato não foi carne de cachorro, mas reservatórios gênicos. E "esculpir" é uma metáfora melhor do que "amassar".

Alguns escultores empregam a técnica de amassar pedaços de argila até dar-lhes forma. Outros pegam um pedaço de pedra ou madeira e o esculpem subtraindo pedaços com um cinzel. É claro que os cinófilos [isto é, os amadores de cães] não esculpem as formas desejadas em seus animais subtraindo pedaços de carne. Mas fazem algo parecido com esculpir o reservatório gênico de seus cães por subtração.

Isso, porém, é mais complicado do que a pura subtração. Michelangelo subtraiu material de um único pedaço de mármore para revelar o Davi que ali se encerrava. Nada foi acrescentado. Já os reservatórios gênicos sofrem contínuos acréscimos, por mutações, por exemplo, enquanto ao mesmo tempo mortes não aleatórias subtraem.

A analogia com a escultura encontra aqui o seu limite e, como veremos no capítulo 8, não devemos abusar dela. A idéia da escultura faz lembrar o físico mais que avantajado dos fisicultores humanos [os halterofilistas, por exemplo] e de equivalentes não humanos como a raça de gado Belgian Blue. Essa fábrica de bifes ambulante foi arquitetada por meio de uma alteração genética específica chamada double muscling, duplicação da musculatura.

A miostatina é uma substância que limita o crescimento muscular. Se o gene relacionado à produção da miostatina for desativado, os músculos crescem além do normal. É muito comum acontecer de um dado gene sofrer mutação em mais de um modo e produzir o mesmo resultado, e na verdade há vários modos de desativar o gene produtor da miostatina para se obter o mesmo efeito.

Outros exemplos são a raça suína Black Exotic e vários cães individuais de diversas raças que apresentam a mesma musculatura exagerada pela mesma razão.

Os fisicultores humanos conseguem um físico com essas características recorrendo a um programa extremo de exercícios e, em muitos casos, a esteróides anabolizantes, e essas manipulações ambientais são, ambas, imitações do que fazem os genes do Belgian Blue e do Black Exotic. O resultado final é o mesmo, e por si só já constitui uma lição. Mudanças genéticas e ambientais podem produzir resultados idênticos.

Se você quisesse criar uma criança para vencer uma competição de fisiculturismo e tivesse alguns séculos para gastar [ou talvez muitíssimo menos tempo...], poderia começar com a manipulação genética, engendrando exatamente o mesmo gene aberrante que caracteriza o gado Belgian Blue e os porcos da raça Black Exotic.

A propósito, sabe-se que em alguns humanos ocorre a deleção do gene da miostatina, e essas pessoas tendem a ser anormalmente musculosas. Se você começasse com uma criança mutante e a submetesse a um intensivo programa de musculação (presumivelmente não é possível persuadir os bois e porcos a cooperar nesse aspecto), provavelmente obteria algo mais grotesco que o Mister Universo.

A oposição política à reprodução eugênica de humanos às vezes se empolga demais e afirma que tal reprodução é impossível, mas essa é uma asserção quase certamente falsa. Além de ser [supostamente] "imoral", não funciona, asseveram alguns. Infelizmente, afirmar que algo é moralmente errado ou politicamente indesejável não quer dizer que seja inviável.

Não tenho dúvida de que, se alguém se empenhasse resolutamente e tivesse tempo e poder político suficientes, conseguiria criar uma raça de humanos superiores em fisiculturismo, salto em altura, arremesso de peso, pesca de pérola, sumo ou corrida de velocidade; ou (desconfio, embora com menos confiança, já que não existem precedentes animais nesta área) humanos superiores em música, poesia, matemática ou enologia.

A razão de minha confiança quanto à reprodução seletiva para obter excelência atlética é que as qualidades são muito semelhantes às que demonstravelmente funcionam na reprodução de cavalos de corrida e cavalos de tração, ou na de cães de corrida e cães puxadores de trenó.

E a razão de minha razoável confiança quanto à viabilidade (embora não quanto à conveniência moral ou política) da reprodução seletiva orientada para características mentais ou outras exclusivamente humanas é que existem pouquíssimos exemplos nos quais tenha sido efeciente uma tentativa de reprodução seletiva de qualidades desse gênero em animais. Aliás, quem imaginaria, por exemplo, que seria possível obter pela reprodução seletiva cães com habilidade para tanger rebanhos, apontar a caça ou acuar touros?

Você quer vacas com alta produção de leite? Muitas vezes mais galões do que uma fêmea precisaria para criar um bezerro? A reprodução seletiva consegue isso para você. É possível modificar vacas para obter úberes imensos e desajeitados que continuem a produzir copiosas quantidades de leite indefinidamente, muito depois do período normal de desmame de um bezerro. Por acaso ninguém tentou obter éguas leiteiras com essas características, mas quer apostar que conseguiríamos fazê-lo se tentássemos?

E, naturalmente, o mesmo se aplica ao ser humano, se alguém quisesse tentar. Um sem-número de mulheres, ludibriadas pelo mito de que seios parecidos com melões são atraentes, pagam a cirurgiões vultosas quantias para que eles lhes façam implantes de silicone, com resultados nada empolgantes (eu, pelo menos, não acho que valham o dinheiro pago). Alguém duvida que, dado um número suficiente de gerações, essa mesma deformidade poderia ser obtida pela reprodução seletiva, como se fez com as vacas frísias?

Há cerca de 25 anos criei uma simulação em computador para ilustrar o poder da seleção artificial: um tipo de jogo equivalente ao cultivo de rosas, cães ou gatos premiados.

O jogador vê um conjunto de nove formas na tela do computador — "biomorfos computadorizados" —, e o biomorfo do meio é “pai" dos oito circundantes. Todas as formas são construídas sob a influência de aproximadamente doze "genes", os quais são simplesmente números transmitidos de "pai" para "filho", com a possibilidade de que pequenas "mutações" intervenham durante o processo. Uma mutação é apenas um ínfimo incremento ou decréscimo no valor numérico do gene paterno. Cada forma é construída sob a influência de determinado conjunto de números, os quais são valores específicos dos doze genes.

O jogador olha para o conjunto de nove formas e não vê genes, mas escolhe a forma preferida de "corpo" a partir da qual deseja fazer a reprodução. Os outros oito biomorfos desaparecem da tela, o escolhido desliza para o centro e "gera" oito novos "filhos" mutantes. Esse processo repete-se por quantas "gerações" o jogador quiser, e a forma média dos "organismos" na tela gradualmente "evolui" com o passar das gerações. Apenas genes são transmitidos de geração a geração, e assim, escolhendo diretamente os biomorfos com seus olhos, o jogador inadvertidamente está escolhendo genes. Isso é exatamente o que acontece quando criadores escolhem cães ou rosas para reproduzir.

Basta de genética. O jogo começa a ficar interessante quando consideramos a "embriologia". A embriologia de um biomorfo na tela é o processo pelo qual seus "genes" — aqueles valores numéricos — influenciam sua forma. Podemos imaginar muitas embriologias bem diferentes, e eu fiz experimentos com várias delas.

Meu primeiro programa, que intitulei "Relojoeiro Cego", usa uma embriologia semelhante à do crescimento de uma árvore. De um "tronco" principal brotam dois "galhos", depois de cada galho brotam dois ramos e assim por diante. O número de ramos e seus ângulos e comprimentos estão lodos sob controle genético, determinados pelos valores numéricos dos genes.

Uma importante característica da embriologia da árvore que se ramifica é que ela é recursiva. Não exporei essa ideia aqui; direi apenas que isso significa que uma única mutação tipicamente tem efeito sobre toda a árvore, e não apenas em uma parte dela.

Embora o programa Relojoeiro Cego comece com uma simples árvore que se ramifica, ela rapidamente se espraia numa profusão de formas surgidas por evolução, muitas de uma estranha beleza, e algumas — dependendo das intenções do jogador humano — que acabam por assemelhar-se a criaturas nossas conhecidas, como insetos, aranhas ou estrelas-do-mar.

Na ilustração ao lado [e aqui, e sempre que o autor fizer menção das ilustrações que acompanham sua obra, nosso blog fica devendo à versão impressão...] vemos um "parque safari" de criaturas que um único jogador (eu) encontrou nos meandros e rincões dessa estranha terra da fantasia computadorizada.

Em uma versão posterior do programa, expandi a embriologia de modo a permitir que genes controlassem a cor e a forma dos "ramos" da árvore. Criei um programa mais elaborado, chamado "Artromorfos", junto com Ted Kaehler, na época funcionário da empresa de computadores Apple. Esse programa incorpora uma "embriologia" com algumas características biológicas interessantes orientadas especificamente para gerar "insetos", "aranhas", "centopéias" e outras criaturas que lembram os artrópodes.

Expliquei detalhadamente os artromorfos, e também os biomorfos, "conchomorfos" (moluscos de computador) e outros programas afins em A escalada do monte Improvável.

A matemática da embriologia das conchas é bem compreendida; assim, a seleção artificial usando meu programa dos "conchomorfos" é capaz de gerar formas extraordinariamente semelhantes a seres vivos (ver ilustração acima).

Voltarei a me referir a esses programas no capítulo final para expor uma idéia totalmente distinta. Apresentei-os aqui com o intuito de ilustrar o poder da seleção artificial, mesmo em um ambiente de computador extremamente simplificado. No mundo real da agricultura e horticultura, o mundo dos criadores de pombos ou cães, a seleção artificial pode realizar muito mais.

Biomorfos, artromorfos e conchomorfos apenas ilustram o princípio, mais ou menos como a própria seleção artificial ilustrará o princípio por trás da seleção natural no próximo capítulo.

Darwin testemunhou pessoalmente o poder da seleção artificial, concedendo-lhe lugar de honra no capítulo 1 de A origem das espécies; estava preparando o espírito dos seus leitores para lhes apresentar sua monumental descoberta: o poder da seleção natural.

Se os criadores humanos podem transformar um lobo num pequinés ou uma couve selvagem numa couve-flor em apenas alguns séculos ou milênios, por que a sobrevivência não aleatória de animais e plantas selvagens não poderia fazer a mesma coisa ao longo de milhões de anos?

Essa será a conclusão do meu próximo capítulo; mas minha estratégia será primeiro continuar preparando o espírito do leitor para facilitar o caminho que leva à compreensão da seleção natural.

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