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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As evidências da evolução (Richard Dawkins) - 3


(Continuação da obra "As evidências da evolução",
de Richard Dawkins)

Capítulo 3
Sedução para apresentar a macroevolução


"Um corpo é uma colcha de retalhos
de soluções conciliatórias"
(R. Dawkins)


O capítulo 2 mostrou como o olho humano, empregando a reprodução seletiva por muitas gerações, esculpiu e moldou a carne de cães de modo a dar-lhe uma estonteante variedade de formas, cores, tamanhos e padrões de comportamento.

Mas nós somos humanos, acostumados a fazer escolhas que são deliberadas e planejadas. Será que existem outros animais que fazem a mesma coisa que os criadores humanos, talvez sem deliberação ou intenção mas com resultados semelhantes? Sim, e eles levarão avante meu programa de preparação do espírito.

Este capítulo dá início a uma sedução da mente passo a passo, conforme avançarmos do familiar território da reprodução e seleção artificial de cães em direção à colossal descoberta da seleção natural por Darwin, com escala em alguns pitorescos estágios intermediários.

O primeiro desses passos intermediários no caminho da sedução leva ao melífero mundo das flores.

As rosas silvestres são florzinhas simpáticas, bonitinhas, mas não deslumbrantes como as variedades de rosa "peace", "lovely lady" ou "ophelia". Rosas silvestres têm um aroma delicado, inconfundível, mas não inebriante como o das variedades "memorial day", "Elizabeth Harkness" ou "fragrant cloud".

O olho e o nariz humano trabalharam nas rosas silvestres: aumentaram, moldaram, duplicaram as pétalas, tingiram, refinaram o fólio, intensificaram as flagrâncias naturais a extremos embriagantes, ajustaram hábitos de crescimento, iniciaram sofisticados programas de hibridação até que hoje, após décadas (ou séculos) de hábil reprodução seletiva, temos centenas de variedades muito valorizadas, cada qual com seu nome evocativo ou comemorativo. Que mulher não gostaria de ter uma rosa batizada com seu nome?

INSETOS FORAM OS PRIMEIROS DOMESTICADORES

As rosas contam a mesma história que os cães, mas com uma diferença que é relevante para nossa estratégia de preparação do espírito. A flor da roseira, mesmo antes que olhos e narizes humanos iniciassem seu trabalho de escultura genética, já devia sua própria existência a milhões de anos de uma faina escultora muito semelhante posta em prática por olhos e narizes de insetos (bem, na verdade, por antenas, que são os órgãos do olfato dos insetos). E o mesmo vale para todas as flores que embelezam nossos jardins.

O girassol, Helianthus annuus, é uma planta da América do Norte cuja forma silvestre lembra o áster ou uma margarida graúda. Os atuais girassóis cultivados foram domesticados até que suas flores ficassem do tamanho de um prato raso.

O girassol gigante, originalmente cultivado na Rússia, tem de três a cinco metros de altura, o diâmetro da cabeça é de aproximadamente trinta centímetros, mais de dez vezes o tamanho do disco de um girassol silvestre, e normalmente cada planta tem apenas uma cabeça, em vez das mais numerosas e bem menores flores da planta silvestre.

A propósito, os russos começaram a cultivar essa flor americana por motivos religiosos. Durante a Quaresma e o Advento, o uso de óleo para cozinhar era proibido pela Igreja Ortodoxa. Convenientemente, e por razões que eu, desconhecedor como sou das sutilezas da teologia, não tenho a presunção de penetrar, o óleo de semente de girassol era considerado isento da proibição. Esse fato gerou uma das pressões econômicas que impeliram a recente reprodução seletiva do girassol.

Muito antes da era moderna, porém, nativos americanos cultivavam essas flores nutritivas e espetaculares para fins alimentícios, para fabricar tintas e para decoração, e obtinham resultados intermediários entre o girassol silvestre e os extravagantes extremos dos modernos cultivares.

E antes ainda, como todas as flores de cores vivas, o girassol também deveu sua existência à reprodução seletiva promovida por insetos. O mesmo ocorreu com a maioria das flores que conhecemos — provavelmente todas as que têm outra cor além do verde e algo mais do que um vago cheiro de planta.

Nem todo o trabalho foi feito por insetos. Para algumas flores, os polinizadores responsáveis pela reprodução seletiva inicial foram beija-flores, morcegos e até rãs. Mas o princípio é o mesmo.

As flores de jardim foram adicionalmente aprimoradas por nós, mas de início as flores silvestres com as quais começamos o processo só chamaram nossa atenção porque insetos e outros agentes seletores haviam agido antes. Gerações de flores ancestrais foram escolhidas por gerações de insetos, beija-flores ou outros polinizadores naturais ancestrais.

Esse é um ótimo exemplo de reprodução seletiva, com a diferença secundária de que os arquitetos dessa reprodução foram insetos e beija-flores em vez de humanos. Para mim, pelo menos, essa diferença é secundária. Talvez não o seja para o leitor, e nesse caso ainda será preciso mais preparação de espírito. O que pode nos tentar a considerar isso uma diferença importante?

Para começar, os humanos decidem conscientemente engendrar, por exemplo, uma rosa no tom mais negro-arroxeado que puderem, e fazem isso para satisfazer um capricho estético ou porque pensam que alguém lhes pagará por rosas assim. Os insetos não agem por motivos estéticos, e sim por... bem, aqui precisamos fazer uma digressão e examinar toda a questão das flores e sua relação com os polinizadores.

Eis o contexto. Por razões que não analisarei agora, é da essência da reprodução sexuada que um indivíduo não fertiliza a si mesmo. Afinal, se ele o fizesse, não haveria necessidade de ter trabalho com a reprodução sexuada. É preciso que, de algum modo, o pólen seja transportado de uma planta a outra. Muitas plantas hermafroditas que possuem partes masculinas e femininas em uma flor desdobram-se para impedir que a metade masculina fertilize a metade feminina. O próprio Darwin estudou o engenhoso modo como isso ocorre nas prímulas.

Pressupondo a necessidade da fertilização cruzada, como, então, as flores realizam a façanha de mover o pólen através da distância física que as separa de outras flores da mesma espécie?

O modo óbvio é pelo vento, e muitas plantas usam esse recurso. O pólen é um pó fino e leve. Se for liberado em quantidade suficiente em um dia de brisa, um ou dois grãos poderão ter a sorte de aterrissar no lugar certo em uma flor da espécie certa.

Mas a polinização pelo vento é desperdiçadora. É preciso fabricar um enorme excedente de pólen, como bem sabem os alérgicos atacados de febre do feno. A grande maioria dos grãos de pólen vai parar onde não é necessária, e toda aquela energia e material dispendiosos são perdidos.

Existe um modo mais direto de enviar o pólen aonde ele deve chegar. Por que as plantas não escolhem a opção animal, deslocando-se em busca de outra planta da mesma espécie para copular? Essa questão é mais difícil de responder do que o leitor poderia pensar. Simplesmente dizer que as plantas não andam é um raciocínio circular, mas infelizmente por ora teremos que aceitar isso. O fato é que plantas não andam. Mas animais, sim. E animais voam e possuem um sistema nervoso capaz de direcioná-los para alvos específicos dotados das formas e cores procuradas.

Assim, se houvesse algum modo de persuadir um animal a se cobrir de pólen e depois andar, ou de preferência voar até outra planta da espécie certa... Pois bem, a resposta não é nenhum segredo: é exatamente isso que acontece.

A história, em alguns casos, é altamente complexa, e em todos os casos, fascinante.

Muitas flores subornam os polinizadores com alimento, em geral néctar. Talvez "suborno" seja um termo forte demais. Que tal "pagamento por serviços prestados"? Para mim qualquer um dos dois está bom, contanto que não os interpretemos nos termos humanos.

O néctar é um líquido açucarado, fabricado por plantas com a finalidade específica e exclusiva de pagar e abastecer abelhas, borboletas, beija-flores, morcegos e outros transportadores contratados. Sua produção é dispendiosa, absorve uma parcela da energia solar captada pelas folhas, que são os painéis solares das plantas. Do ponto de vista das abelhas e beija-flores, o pólen é um combustível de alta energia para aeronavegação.

A energia contida nos açúcares do néctar poderia ter sido usada em algum outro aspecto da economia da planta, talvez para produzir raízes ou abastecer os armazéns subterrâneos que chamamos de tubérculos, bulbos e colmos, ou mesmo para fabricar enormes quantidades de pólen a ser transmitidas aos quatro ventos.

Evidentemente, para grande número de espécies vegetais o trade-off indica ser mais vantajoso pagar a insetos e aves pelo uso de suas asas e abastecer seus músculos voadores com açúcar. No entanto, essa vantagem não é avassaladora, pois algumas plantas usam a polinização pelo vento, presumivelmente porque detalhes de suas circunstâncias econômicas fazem a balança pender para essa tática.

As plantas têm uma economia energética e, como em toda economia, os trade-offs podem favorecer diferentes opções em diferentes circunstâncias. Essa, aliás, é uma importante lição na evolução. Diferentes espécies fazem as coisas de maneiras distintas, e muitas vezes não compreendemos as diferenças antes de termos examinado toda a economia da espécie.

Se a polinização pelo vento está em um extremo do continuum das técnicas de fertilização cruzada — que tal chamá-lo de extremo desperdiçador? —, o que está no outro extremo, o da "bala mágica"?

Pouquíssimos são os insetos que confiavelmente voarão como uma bala mágica direto da flor onde pegaram o pólen para outra flor exatamente da espécie certa. Alguns simplesmente vão para qualquer flor, ou possivelmente para qualquer flor da cor certa, e continua a ser questão de sorte se ela por acaso será da mesma espécie que acabou de fazer seu pagamento em néctar.

No entanto, existem alguns adoráveis exemplos de flores que estão bem próximas do extremo da bala mágica no continuum. Destacam-se nessa lista as orquídeas, e não é de admirar que Darwin tenha dedicado todo um livro a elas.

Tanto Darwin como o codescobridor da seleção natural, Wallace, chamaram a atenção para uma impressionante orquídea de Madagascar, Angraecum sesquipedale [foto no original], e ambos fizeram uma mesma previsão notável, que mais tarde triunfantemente se confirmou.

Essa orquídea possui nectários tubulares que descem por quase onze polegadas (quase trinta centímetros), segundo a medição do próprio Darwin. Uma espécie aparentada, Angraecum longicalcar, possui um esporão nectarífero ainda mais longo, que pode ter mais de quinze polegadas (quarenta centímetros).

Darwin, puramente com base na existência da A. sesquipedale em Madagascar, predisse em seu livro de 1862 sobre orquídeas que deveriam existir "mariposas capazes de um alcance entre dez e onze polegadas". Wallace, cinco anos depois (não se sabe se ele teria lido o livro de Darwin), mencionou várias mariposas cujas probóscides eram longas quase o suficiente para comprovar essa predição:

"Medi cuidadosamente a probóscide de um espécime de Macrosila cluentius da América do Sul no acervo do Museu Britânico e constatei que ela tem nove polegadas e um quarto de comprimento! Uma da África tropical (Macrosila morganii) tem sete polegadas e meia. Uma espécie com uma probóscide duas ou três vezes mais longa poderia alcançar o néctar nas maiores flores da Angraecum sesquipedale, cujos nectários variam de dez a catorze polegadas de comprimento. Pode-se predizer com segurança que existe uma mariposa com essa característica em Madagascar; os naturalistas que visitarem essa ilha devem procurar por ela com tanta confiança quanto os astrônomos procuraram pelo planeta Netuno, e serão igualmente bem-sucedidos!"

Em 1903, depois da morte de Darwin mas ainda durante a longa vida de Wallace, uma mariposa até então desconhecida foi descoberta e confirmou a predição de Darwin/Wallace, sendo devidamente honrada com o nome de subespécie praedicta.

Mas nem mesmo a Xanthopan morgani praedicta, conhecida como "mariposa-falcão de Darwin", é suficientemente bem-dotada para polinizar a A. longicalcar, e a existência dessa flor encoraja-nos a supor que existe uma mariposa de língua ainda mais comprida, com a mesma confiança com que Wallace invocou a descoberta predita do planeta Netuno.

A propósito, esse pequeno exemplo desmente, mais uma vez, a alegação de que a ciência evolucionária não pode ser preditiva porque se ocupa da história passada. A predição de Darwin/Wallace ainda era perfeitamente válida, muito embora a mariposa praedicta sem dúvida já existisse antes que os dois cientistas a previssem. Eles prognosticaram que, em algum momento futuro, alguém descobriria uma mariposa com uma língua longa o bastante para alcançar o néctar da A. sesquipedale.

* * *

Os insetos têm boa visão de cores, mas todo o seu espectro tende para o ultravioleta e se afasta do vermelho. Como nós, eles veem amarelo, verde, azul e violeta. Mas ao contrário de nós, também enxergam na faixa ultravioleta, e não veem o vermelho na "nossa" ponta do espectro.

Se você tiver uma flor tubular vermelha no jardim, será uma boa aposta, embora não uma predição infalível, que na natureza ela é polinizada não por insetos, mas por aves, que enxergam bem no extremo vermelho do espectro — talvez beija-flores, se for uma planta do Novo Mundo, ou pássaros-sol, se for planta do Velho Mundo.

Flores que para nós parecem sem graça podem, na verdade, ter suntuosa decoração de pintas e listras para atrair insetos; nós não vemos essa ornamentação porque somos cegos para o ultravioleta.

Muitas flores guiam abelhas na aterrissagem com pequeninas marcas de "pista de pouso", pintadas na flor em pigmentos ultravioleta que o olho humano não pode ver. A prímula-da-tarde (Oenothera) parece amarela para nós. Mas uma fotografia tirada através de um filtro ultravioleta mostra um padrão que interessa às abelhas porém é invisível para a nossa visão normal (ver página em cores 5 [cf. versão impressa).

Na foto ele aparece em vermelho, mas é uma "falsa cor", uma escolha arbitrária do processo fotográfico. Não significa que as abelhas o veriam em vermelho. Ninguém sabe como o ultravioleta (ou o amarelo ou qualquer outra cor) é visto pelas abelhas (eu nem mesmo sei como o vermelho é visto por você, uma batida questão filosófica).

Um exuberante prado florido é um Times Square, um Piccadilly Circus da natureza, um cartaz de néon em câmara lenta que muda toda semana conforme diferentes flores chegam à sua estação, meticulosamente regidas por sinais — por exemplo, a mudança na duração dos dias — que as sincronizam com outras da mesma espécie.

Essa extravaganza floral, espalhada na tela verde de um prado, foi moldada e colorida, magnificada e ataviada por escolhas passadas feitas por olhos de animais: olhos de abelhas, de borboletas, de moscas-das-flores.

Nas florestas do Novo Mundo, teríamos de acrescentar a essa lista os olhos de beija-flores, e nas florestas africanas, os de pássaros-sol.

Beija-flores e pássaros-sol, a propósito, não são parentes particularmente próximos. Eles têm aparência e comportamento parecidos porque convergiram para o mesmo modo de vida, dependente, em grande medida, das flores e do néctar (embora além de néctar também comam insetos). Para penetrar em nectários possuem um bico longo cujo alcance é ampliado por uma língua ainda mais comprida. Os pássaros-sol são menos hábeis em pairar no ar do que os beija-flores, que podem até voar para trás, como um helicóptero.

Também convergentes, embora de um ponto muito distante na trajetória do reino animal, temos as mariposas Macroglossum stellatarum, que pairam no ar e possuem língua espetacularmente longa (esses três tipos de papa-néctar são mostrados na página em cores 5).

Voltaremos a tratar da evolução convergente mais adiante, depois de termos compreendido adequadamente a seleção natural. Agora, neste capítulo, as flores estão nos seduzindo, atraindo passo a passo, embelezando nosso caminho para a compreensão.

* * * 

Olhos de beija-flores, olhos de mariposas, olhos de borboletas, olhos de moscas-das-flores, olhos de abelhas recaem criticamente sobre flores silvestres, geração após geração, e as moldam, colorem, aumentam de tamanho, estampam nelas padrões e pontilhados, quase exatamente do mesmo modo como, mais tarde, os olhos humanos fariam com nossas variedades de jardim e com os cães, vacas, couves e grãos.

Para uma flor, a polinização por insetos representa uma tremenda vantagem econômica em comparação com a desperdiçadora polinização baseada na dispersão pelo vento. Mesmo se uma abelha visitar flores indiscriminadamente, lançando-se promiscuamente de um botão-de-ouro para uma centáurea, de uma papoula para uma celidonia, um grão de pólen grudado em seu abdome peludo tem uma chance muito maior de chegar ao alvo certo — outra flor da mesma espécie — do que se fosse dispersado pelo vento.

Ligeiramente melhor seria uma abelha com preferência por determinada cor — azul, por exemplo. Ou uma abelha que, embora não tendo nenhuma preferência de cor de longo prazo, tendesse a adquirir hábitos relacionados às cores e as escolhesse por temporadas. Melhor ainda seria um inseto que visitasse apenas flores de uma dada espécie. E existem flores, como a orquídea malgaxe que inspirou a predição de Darwin/Wallace, cujo néctar só está disponível para determinados insetos que se especializam nesse tipo de flor e se beneficiam de seu monopólio sobre ela. As mariposas de Madagascar são um perfeito exemplo de bala mágica.

Do ponto de vista de uma mariposa, flores que seguramente fornecem néctar são como vacas leiteiras dóceis e produtivas. Do ponto de vista das flores, mariposas que seguramente transportam seu pólen para outras flores da mesma espécie são como um bem pago serviço de Sedex, ou como pombos-correios bem treinados. Cada lado, pode-se dizer, domesticou o outro, mediante uma reprodução seletiva, de modo a fazê-los cumprir uma tarefa melhor do que antes.

Os cultivadores humanos de rosas raras tiveram quase exatamente o mesmo tipo de efeitos sobre essas flores que os insetos — apenas os exageraram um pouco. Insetos contribuem para a reprodução de flores de modo a torná-las vistosas. Os jardineiros fazem-nas ainda mais vistosas. Insetos engendram rosas de fragrância agradável. Nós entramos na história e as deixamos ainda mais perfumadas.

A propósito, é por uma feliz coincidência que as fragrâncias preferidas por abelhas e borboletas também sejam do nosso agrado. Flores como o benjamin-vermelho (Trillium erectum) ou a "flor-cadáver" (Amorphophallus titanium), que usam moscas-varejeiras ou besouros necrófagos como polinizadores, costumam nausear os humanos porque imitam o fedor de carne putrefata. Tais flores, devo presumir, não tiveram seu cheiro intensificado por domesticadores humanos.

Obviamente, o relacionamento entre insetos e flores é de mão dupla, e para não sermos negligentes temos de olhar nas duas direções. Insetos podem "cultivar" flores de modo a torná-las mais belas, mas não porque apreciem a beleza. As flores é que se beneficiam de ser percebidas como atraentes pelos insetos. Estes, escolhendo para visitar as que mais lhes atraem, inadvertidamente "cultivam" a beleza floral. Ao mesmo tempo, as flores estão "cultivando" os insetos na direção da habilidade polinizadora.

Repetindo, insinuei que os insetos cultivam as flores na direção de uma maior produção de néctar, como criadores que procuram obter vacas frísias de úberes enormes. Mas é do interesse das flores racionar o néctar. Se um inseto ficar saciado, ele não terá incentivo para ir em busca de uma segunda flor — má notícia para a primeira, pois para ela a segunda visita, a polinizadora, é toda a finalidade do esforço.

Do ponto de vista das flores, é preciso encontrar um delicado equilíbrio entre fornecer néctar demais (nada de visita à segunda flor) e de menos (nenhum incentivo para visitar a primeira flor). Insetos "ordenham" flores para obter seu néctar e influenciam em sua reprodução de modo a obter maior produção — e provavelmente encontram resistência por parte das flores, como acabamos de ver. E os apicultores (ou horticultores, em atenção aos interesses dos apicultores), será que cultivam flores para que produzam ainda mais néctar do mesmo modo que fazendeiros guiam a reprodução de vacas frísias e jerseys? Eu ficaria encantado em saber a resposta.

Enquanto isso, não há dúvida quanto ao estreito paralelo entre horticultores que engendram flores belas e perfumadas e as abelhas, borboletas, beija-flores e pássaros-sol que fazem o mesmo.

VOCÊ É A MINHA SELEÇÃO NATURAL

Existem outros exemplos de reprodução seletiva por olhos não humanos? Se existem! Pense na plumagem pardacenta e camuflada de uma faisoa, em contraste com o esplêndido visual do macho da mesma espécie.

Não parece haver dúvida de que, se a sobrevivência individual fosse a única coisa importante, o faisão dourado macho "preferiria" ter uma aparência igual à da fêmea, ou ter uma versão crescida de sua própria aparência quando filhote. A fêmea e os filhotes são obviamente bem camuflados, e é assim que o macho seria se a sobrevivência individual fosse sua prioridade. O mesmo vale para outros faisões como o Chrysolophus amherstiae e o bem conhecido faisão-comum.

Os machos são muito vistosos e perigosamente chamativos para os predadores, mas cada espécie a seu modo. As fêmeas são camufladas e pardacentas, e cada espécie se parece com as demais. Por quê?

Um modo de explicar isso é o escolhido por Darwin: a "seleção sexual". Mas outro modo — o que melhor se presta ao meu caminho da sedução — é a "reprodução seletiva dos machos pelas fêmeas".

Cores vivas atraem predadores, é verdade, mas também atraem as faisoas. Gerações de fêmeas escolheram acasalar-se com machos vistosos, resplandecentes, de preferência às criaturas pardacentas e sem graça que os machos sem dúvida teriam continuado a ser não fosse pela reprodução seletiva promovida pelas fêmeas.

O mesmo ocorreu com as pavoas, que reproduziram seletivamente os machos, com as fêmeas de ave do paraíso que reproduziram seletivamente os seus paceiros e com numerosos outros exemplos de aves, mamíferos, peixes, anfíbios, répteis e insetos cujas fêmeas (normalmente são elas e não eles, por razões que não precisamos examinar agora) escolhem entre machos concorrentes.

Como no caso das flores de jardim, os humanos que criam faisões aprimoraram o trabalho seletivo prévio das faisoas, produzindo espetaculares variantes do faisão dourado, por exemplo, embora mais acentuadamente pela escolha de uma ou duas grandes mutações do que pela gradual moldagem da ave através de gerações.

Os humanos também realizaram a reprodução seletiva de uma espantosa variedade de pombos (como Darwin testemunhou pessoalmente) e galinhas, descendentes de uma ave do Extremo Oriente, o galo selvagem vermelho Gallus gallus.

* * *

Este capítulo trata principalmente da seleção pela visão, mas outros sentidos podem fazer o mesmo trabalho. Criadores de canários procuram obter aves que, além de serem mais belas, cantem melhor. O canário selvagem é um tentilhão marrom-amarelado sem nada de especial na aparência.

Os criadores humanos usaram a paleta de cores fornecida pela variação genética aleatória e engendraram uma cor distinta o bastante para ser batizada com o nome da ave: amarelo-canário. A propósito, esse passarinho recebeu o mesmo nome das ilhas, e não o contrário, como no caso das ilhas Galápagos, cujo nome provém do nome espanhol da tartaruga.

Mas os canários são mais conhecidos por seu canto, que também foi afinado e enriquecido pelos criadores humanos. Vários cantores foram manufaturados, entre eles os rollers, aprimorados para cantar com o bico fechado, os waterslagers, cujo canto soa como água borbulhante, e os timbrados, que produzem notas metálicas como as de um sino combinadas a estalos que lembram castanholas, em homenagem às suas origens espanholas.

Os cantos das raças domésticas são mais longos, mais altos e mais frequentes que o do tipo selvagem ancestral. Mas todos esses cantos altamente valorizados são compostos de elementos encontrados em canários selvagens, exatamente como os hábitos e habilidades de várias raças de cães provêm de elementos existentes no repertório comportamental dos lobos.

Mais uma vez, os criadores humanos apenas refinaram os esforços prévios da reprodução seletiva pelas fêmeas. Ao longo de gerações, fêmeas de canário inadvertidamente promoveram a reprodução de machos bons cantores, preferindo acasalar-se com aqueles cujo canto mais lhes agradava.

No caso específico dos canários, por acaso sabemos um pouco mais. Os canários (e a rola Streptopelia risoria) são os animais preferidos em pesquisas sobre hormônios e comportamento reprodutivo. Sabe-se que nessas duas espécies o som da vocalização do macho (que pode até provir de uma fita gravada) leva os ovários da fêmea a aumentar de tamanho e secretar hormônios que as põem em condições reprodutivas, tornando-as mais propensas ao acasalamento.

Poderíamos dizer que os machos manipulam as fêmeas cantando para elas. É quase como se eles lhes aplicassem uma injeção de hormônio. Também se poderia dizer que as fêmeas promovem uma reprodução seletiva dos machos que resulta em cantores cada vez melhores. Os dois modos de ver essa questão são lados de uma mesma moeda.

Aliás, como ocorre com outras espécies de aves, existe uma complicação: o canto não só é atraente para as fêmeas, mas também intimida machos rivais — mas fiquemos aqui apenas com um lado da moeda.

Agora, para prosseguirmos na argumentação, observe o par de figuras da página seguinte [vide obra impressa]. A primeira é uma xilogravura de uma máscara japonesa de kabuki representando um guerreiro samurai. A segunda é um caranguejo da espécie Heikea japonica, encontrado em águas do Japão. [As duas imagens são muito semelhantes.]

O nome genérico, Heikea, provém do clã japonês Heike, que foi derrotado na batalha marítima de Danno-Ura (1185) por um clã rival chamado Genji. Diz a lenda que os fantasmas de guerreiros Heike afogados hoje habitam o fundo do mar no corpo dos caranguejos — os Heikea japonica. Esse mito é favorecido pelo padrão nas costas desses caranguejos, que lembra um rosto carrancudo de guerreiro samurai.

O renomado zoólogo sir Julian Huxley impressionou-se com essa similaridade e escreveu: "A semelhança do Dorippe com um guerreiro japonês zangado é específica e minuciosa demais para ser acidental. [...] Ela surgiu porque os caranguejos que mais se pareciam com o rosto de um guerreiro foram comidos com menor frequência que os demais". (Dorippe era o nome dado a esse caranguejo em 1952, quando Huxley escreveu. Voltou a ser Heikea em 1990, quando alguém redescobriu que o animal já era conhecido por esse nome em 1824; assim funcionam as rigorosas regras de prioridade na nomenclatura zoológica.)

Essa teoria de que gerações de pescadores supersticiosos jogaram de volta ao mar os caranguejos que lembravam um rosto humano recebeu reforço em 1980, quando Carl Sagan a mencionou em seu sensacional documentário Cosmos. Nas palavras de Sagan:

"Suponhamos que, por acaso, entre os ancestrais distantes desse caranguejo, tenha surgido um que lembrasse, mesmo que ligeiramente, um rosto humano. Antes ainda da batalha de Danno-ura, talvez os pescadores relutassem em comer um caranguejo assim. Jogando-o de volta, puseram em marcha um processo evolucionário. [...] Com o passar das gerações de caranguejos e pescadores, os caranguejos com padrões que mais lembrassem uma face de samurai sobreviveram preferencialmente até que, por fim, se produzisse não apenas um rosto humano, não apenas um rosto japonês, mas a fisionomia de um feroz e carrancudo samurai."

É uma teoria encantadora, boa demais para morrer facilmente, e o meme replicou-se graças à obra magistral de Sagan. Encontrei até um site na internet em que se pode votar nas seguintes alternativas: a teoria é verdadeira (31% de 1331 votos); as fotos são falsas (15%); artesãos japoneses esculpiram as carapaças para dar-lhes esse aspecto (6%); a semelhança é mera coincidência (38%); os caranguejos são realmente manifestações de guerreiros samurais afogados (espantosos 10%).

É claro que as verdades científicas não são decididas por plebiscito, e eu votei apenas porque, do contrário, não poderia ver as porcentagens dos votos. Lamento dizer que votei com os desmancha-prazeres. Acho que, tudo sopesado, a semelhança provavelmente é uma coincidência. Não pelo fato de que as saliências e depressões na carapaça do caranguejo significam realmente ligações musculares, como salientou um cético muito conceituado. Mesmo na teoria de Huxley/Sagan, os pescadores supersticiosos teriam de ter começado por notar algum tipo de semelhança original, por menor que fosse, e um padrão simétrico de ligações musculares é exatamente o tipo de coisa que teria fornecido essa primeira semelhança.

Impressiona-me mais a observação desse mesmo cético de que tais caranguejos são pequenos demais para ser comidos. Segundo ele, todos os caranguejos desse tamanho teriam sido jogados de volta ao mar, mesmo se não lembrassem rostos humanos.

Devo dizer, contudo, que essa fonte mais convincente de ceticismo perdeu algum poder de persuasão quando fui convidado para um jantar em Tóquio e meu anfitrião pediu um prato de caranguejos para todos. Os bichos eram muito maiores do que o Heikea, encrustados numa carapaça forte e calcificada, mas isso não impediu aquele super-homem de pegar caranguejos inteiros, um por um, e estraçalhá-los a dentadas como se fossem maçãs, com um som de esmigalhamento que parecia pressagiar um hediondo sangramento de gengiva. Um caranguejo pequenino como o Heikea seria brincadeira de criança para um atleta gastronômico como aquele. Sem dúvida o voraz comensal o engoliria inteiro sem ao menos piscar.

A principal razão do meu ceticismo quanto à teoria de Huxley/Sagan é o fato de o cérebro humano ser demonstravelmente ávido por ver rostos em padrões aleatórios, como sabemos por evidências científicas (sem falar nas numerosas lendas sobre o avistamento do rosto de Jesus, da Virgem Maria ou de Madre Teresa em fatias de pizza, torradas ou manchas de umidade na parede).

Essa propensão intensifica-se quando o padrão se afasta da aleatoriedade na direção específica de uma simetria. Todos os caranguejos (exceto o caranguejo-ermitão) são simétricos. Mesmo relutante, desconfio que a semelhança do Heikea com um samurai seja apenas acidental, por mais que me agradasse acreditar que ela foi intensificada pela seleção natural.

Não tem importância. Há muitos outros exemplos, não envolvendo humanos, de animais "pescadores", digamos assim, que "jogam fora" (ou simplesmente não veem) um potencial alimento devido a uma semelhança com algo sinistro, e nesses casos a semelhança com toda certeza não se deve ao acaso.

Se você fosse uma ave caçando lagartas na floresta, o que faria se de repente topasse com uma cobra? Daria um pulo para trás, sobressaltado, e trataria de manter uma boa distância, imagino. Pois existe uma lagarta — para ser mais preciso, a extremidade posterior de uma lagarta — que tem uma semelhança inconfundível com uma cobra. Quem tem medo de cobra — como eu, confesso envergonhado — se assusta de verdade com ela. Acho até que eu não teria coragem de pegar esse animal na mão, mesmo sabendo muito bem que, na verdade, se trata de uma inofensiva lagarta. (Na página em cores 7 há uma imagem dessa extraordinária criatura.)

Tenho esse mesmo problema para pegar moscas-das-flores que imitam vespas ou abelhas, embora possa ver que, por possuírem apenas um par de asas, elas são moscas sem ferrão.

Essas são uma pequena fração de uma vasta lista de animais que ganham proteção porque se parecem com alguma outra coisa: algo não comestível como um pedregulho, um graveto ou uma folha de alga-marinha, ou inequivocamente perigoso como uma serpente, uma vespa ou olhos ferozes de um possível predador.

Será, então, que olhos de aves direcionam a reprodução de insetos para que se assemelhem a modelos intragáveis ou venenosos? Em um sentido, com certeza, temos de responder afirmativamente a essa pergunta.

Qual é, afinal, a diferença entre esse processo e o das pavoas que favorecem a reprodução dos machos mais bonitos, ou o dos homens que manipulam a reprodução de cães ou rosas? A principal diferença é que as pavoas promovem a reprodução positivamente, porque se aproximam de uma qualidade que as atrai, enquanto as aves que caçam lagartas promovem a reprodução negativamente, evitando algo que as repele.

Pois bem. Vejamos outro exemplo, e neste caso a "reprodução" é positiva, muito embora o seletor não se beneficie com sua escolha. Longe disso. O peixe-pescador de mares abissais assenta-se no fundo do mar e aguarda pacientemente por uma presa. Como muitos peixes de águas profundas, os pescadores são de uma feiura espetacular pelos nossos critérios. Talvez também o sejam pelos padrões dos peixes, embora provavelmente isso não tenha a menor importância, visto que lá embaixo, onde eles vivem, é escuro demais para se enxergar qualquer coisa.

Como outros habitantes das profundezas, muitas fêmeas dessas espécies de peixe produzem sua própria luz — ou melhor, elas possuem um receptáculo especial onde se abrigam bactérias produtoras de luz. Essa "bioluminescência" não gera claridade suficiente para refletir detalhes, mas brilha o bastante para atrair outros peixes.

Uma espinha que, em um peixe normal, seria apenas um dos raios de uma barbatana tornou-se no pescador alongada e rígida como uma vara de pesca. Em algumas espécies, a "vara" é tão comprida e flexível que poderíamos chamá-la de linha.

E na ponta dessa vara ou linha de pesca há — adivinhe o quê? — uma isca. Essa isca varia conforme a espécie, mas todas lembram pequenos alimentos: talvez um verme, ou um peixinho, ou apenas um petisco indefinível mas tentadoramente bamboleante. Muitas dessas iscas são realmente luminosas: outro cartaz de néon natural, e neste caso a mensagem veiculada é "venha me comer".

Os peixes pequenos realmente são tentados a isso. Aproximam-se bastante da isca. E essa é a última coisa que fazem, pois, nesse momento, o peixe-pescador abre a bocarra e a presa é engolida junto com uma torrente de água.

Podemos dizer, então, que essas pequenas presas estão "favorecendo a reprodução" de iscas cada vez mais atrativas, como fazem as pavoas que promovem a reprodução de pavões mais atraentes e os horticultores que procuram obter rosas mais belas? - Difícil encontrar qualquer razão para afirmar o contrário.

No caso das rosas, as flores mais atraentes são deliberadamente escolhidas pelo jardineiro para a reprodução. Coisa bem parecida ocorre com os pavões escolhidos pelas pavoas. É possível que elas não tenham noção de que estão escolhendo, ao contrário dos rosicultores. Mas essa não parece ser uma distinção muito importante em tais circunstâncias.

Um pouco mais relevante é uma distinção entre o exemplo do peixe-pescador e os outros dois. Os peixinhos predados realmente escolhem os peixes-pescadores mais "atraentes" para a reprodução, pela rota indireta de escolhê-los para sobreviver servindo-lhes de alimento!

Os peixes-pescadores com iscas pouco atrativas têm maior probabilidade de morrer de fome e, portanto, menor probabilidade de se reproduzir. E os peixinhos predados efetivamente fazem a "escolha". Mas eles escolhem com sua vida!

O nosso alvo aqui é a verdadeira seleção natural, e estamos chegando ao fim da sedução progressiva a que se propõe este capítulo. Eis um resumo da progressão:

1. Humanos escolhem deliberadamente rosas bonitas, girassóis etc. para a reprodução, e com isso preservam os genes que produzem as características atrativas. Isso é chamado de seleção artificial, os humanos já a conheciam muito antes de Darwin, e todos compreendem que ela é suficientemente poderosa para transformar lobos em chihuahuas e espichar espigas de milho em muitos centímetros.

2. As pavoas (não sabemos se o fazem de modo consciente e deliberado, mas suponhamos que não) escolhem pavões atraentes para se acasalar, e assim preservam genes atraentes. Isso é chamado de seleção sexual, e Darwin a descobriu, ou pelo menos a reconheceu claramente e a nomeou.

3. Pequenos peixes predados escolhem (não deliberadamente, sem dúvida) peixes-pescadores atrativos para sobreviver, alimentando com seu próprio corpo os mais atraentes e assim, inadvertidamente, escolhendo-os para se reproduzir e transmitir, portanto preservar, os genes que produzem as características atraentes. Isso é chamado — sim, finalmente chegamos lá — seleção natural, e foi a maior descoberta de Darwin.

A genialidade de Darwin foi perceber que a natureza podia desempenhar o papel de agente seletor. Todos sabiam sobre a seleção artificial, ou pelo menos todos com algum conhecimento de agricultura ou jardinagem, exposições de cães ou pombos. Mas foi Darwin quem primeiro se deu conta de que não é preciso haver um agente que faça a escolha de modo consciente. Esta pode ser feita automaticamente pela sobrevivência — ou pelo perecimento. A sobrevivência é importante, Darwin percebeu, porque somente quem sobrevive se reproduz e transmite os genes (Darwin não usou esse termo) que o ajudaram a sobreviver.

Escolhi o peixe-pescador para meu exemplo porque no caso dele ainda se pode representar a situação como a de um agente que usa os olhos para escolher os que irão sobreviver. Mas chegamos ao ponto de nossa argumentação — o ponto de Darwin — em que não precisamos mais falar em um agente seletor.

Passemos agora do peixe-pescador para, por exemplo, o atum ou o tarpão, que perseguem ativamente suas presas. Por mais que se esprema o idioma ou a imaginação, não dá para afirmar que as presas, sendo comidas, "escolhem" quais tarpões sobreviverão. No entanto, podemos dizer que os tarpões mais bem equipados para apanhar presas, por qualquer que seja a razão — músculos natatórios velozes, visão apurada etc. —, serão aqueles que sobreviverão e, portanto, os que se reproduzirão e transmitirão os genes que os tornaram bem-sucedidos. Eles são "escolhidos" pelo próprio ato de se manter vivos, enquanto outro tarpão que, por qualquer que seja a razão, seja menos bem equipado não sobreviveria.

Assim, podemos adicionar um quarto passo à nossa lista:

4. Sem nenhum tipo de agente escolhedor, esses indivíduos que são "escolhidos" pelo fato de por acaso possuírem equipamento superior para a sobrevivência são os que têm maior probabilidade de se reproduzir e, portanto, de transmitir os genes conducentes ao equipamento superior. Portanto, cada reservatório gênico, em cada espécie, tende a encher-se de genes para produzir equipamento superior para a sobrevivência e a reprodução.

Note como a seleção natural é abrangente. Os outros exemplos que dei, passos 1, 2 e 3, assim como muitos outros, podem ser todos abarcados pela seleção natural como casos especiais do fenômeno mais geral.

Darwin descobriu o caso mais geral de um fenômeno que as pessoas já conheciam sob forma mais restrita. Até então, sabia-se sobre ele apenas no caso especial da seleção artificial. O caso geral é a sobrevivência não aleatória de equipamento hereditário aleatoriamente variável.

Não importa como se dá a sobrevivência não aleatória. Ela pode ser uma escolha deliberada, explicitamente intencional por um agente (como quando humanos escolhem cães greyhound para a reprodução), pode ser uma escolha impremeditada por um agente sem intenção explícita (como quando pavoas escolhem pavões para se acasalar), pode ser uma escolha inadvertida que o escolhedor, com um conhecimento a posteriori que nós temos mas ele não, preferiria não ter feito (como quando peixes escolhem se aproximar da isca do peixe-pescador e acabam sendo comidos), ou pode ser algo que não reconheceríamos como uma escolha, como quando um tarpão sobrevive graças a, digamos, uma ignorada vantagem química profundamente embutida em seus músculos que lhe dá velocidade adicional ao perseguir presas.

Darwin expressou tudo isso primorosamente em uma passagem muito citada de A origem das espécies:

"Pode-se dizer que a seleção natural perscruta dia a dia, hora a hora, no mundo todo, cada variação, por menor que seja, rejeitando o que é ruim e preservando e adicionando tudo o que é bom, trabalhando de maneira silenciosa e insensível, sempre e onde houver oportunidade, no aprimoramento de cada ser orgânico em relação às suas condições orgânicas e inorgânicas de vida. Nada vemos dessas lentas mudanças em progresso até que a mão do tempo tenha marcado o longo decorrer de eras, e ainda assim tão imperfeita é nossa visão de eras geológicas muito distantes que vemos apenas que as formas de vida hoje são diferentes do que eram."

Citei aqui, como costumo fazer, da primeira edição da obra-prima de Darwin. Uma interessante interpolação entrou em edições posteriores:
"Pode-se dizer metaforicamente que a seleção natural perscruta, dia a dia [...]" (grifo meu).

Seria de supor que o "pode-se dizer"  já é cauteloso o bastante. Mas em 1866 Darwin recebeu uma carta de Wallace, o codescobridor da seleção natural, sugerindo que lamentavelmente era necessário ainda mais resguardo contra mal-entendidos:

"Meu caro Darwin, — tantas vezes me espantei com a total incapacidade de muitas pessoas inteligentes para compreender claramente, ou ao menos perceber, os efeitos automáticos e necessários da Seleção Natural, que sou levado a concluir que o próprio termo, bem como o modo como você o ilustra, por mais claros e belos que sejam para muitos de nós, ainda não são os mais bem adaptados para incuti-la no público naturalista em geral."

Wallace mencionou então um autor francês chamado Janet, que evidentemente, ao contrário de Wallace e Darwin, não primava pela lucidez de espírito:

"No meu entender, ele considera que o seu ponto fraco é não ver 'que pensamento e direção são essenciais à ação da Seleção Natural'. Essa mesma objeção foi feita inúmeras vezes por seus principais oponentes, e eu mesmo já a ouvi frequentemente em conversas. Pois acho que ela se deve quase inteiramente à sua escolha do termo Seleção Natural e, assim, à constante comparação, em seus efeitos, com a seleção do homem e também ao fato de você tantas vezes personificar a natureza dizendo que ela 'seleciona', 'prefere' [...] etc. etc. Para uns poucos isso é claro como o dia, e encantadoramente sugestivo, mas para muitos é evidentemente uma pedra no caminho. Assim, eu gostaria de lhe sugerir a possibilidade de evitar totalmente essa fonte de equívoco em sua grande obra, e também em futuras edições da 'Origem', e penso que é possível fazê-lo sem dificuldade e de modo muito eficaz adotando o termo de Spencer... 'Sobrevivência dos Mais Aptos'. Esse termo é a simples expressão do fato; 'Seleção Natural' é uma expressão metafórica dele. [...]"

Wallace tinha razão. Infelizmente, o termo de Spencer, "Sobrevivência dos Mais Aptos", também cria problemas, que Wallace não poderia ter previsto. Mas não os examinarei aqui.

Apesar do aviso de Wallace, prefiro seguir a estratégia de Darwin: introduzir a seleção natural por intermédio da domesticação e da seleção artificial. Prefiro pensar que desta vez, quem sabe, monsieur Janet venha a entender o argumento.

Mas eu também tinha outra razão para imitar o exemplo de Darwin, uma razão muito boa. O teste definitivo de uma hipótese científica é o experimento. Especificamente, experimento significa que não esperamos que a natureza faça alguma coisa para, passivamente, podermos observar e ver com o que isso se correlaciona. Nós fazemos alguma coisa. Manipulamos. Mudamos alguma coisa, de modo sistemático, e comparamos o resultado com um "controle" no qual não há mudança, ou comparamos com uma mudança diferente.

A interferência experimental é imensamente importante, pois sem ela nunca podemos ter certeza de que uma correlação que observamos tem alguma significância causal.

Esse fato pode ser ilustrado com a chamada "falácia dos relógios de igreja". Em duas igrejas vizinhas, os respectivos relógios anunciam as horas com um repique de sinos, mas na igreja de São A o toque acontece um pouquinho antes que na de São B. Um visitante marciano, notando isso, poderia deduzir que o repique de São A causa o repique de São B. Nós, obviamente, sabemos que isso não é verdade, mas o único teste verdadeiro para essa hipótese do marciano seria experimentalmente fazer soarem os sinos de São A em momentos aleatórios, em vez de a cada hora. A predição do marciano (que evidentemente seria refutada) é que o relógio de São B continuaria a soar imediatamente após o de São A.

Apenas a manipulação experimental é capaz de determinar se uma correlação observada verdadeiramente indica causação. Se nossa hipótese é que a sobrevivência não aleatória da variação genética aleatória tem importantes consequências evolucionárias, o teste experimental da hipótese teria de ser uma intervenção humana deliberada: manipular qual variante sobrevive e qual não sobrevive. Escolher, como um criador humano, que tipo de indivíduos se reproduzirá. E isso, obviamente, é seleção artificial. Seleção artificial não é apenas uma analogia para seleção natural. Ela é um teste realmente experimental — em contraste com um teste baseado na observação — da hipótese de que a seleção causa mudança evolucionária.

Em sua maioria, os exemplos conhecidos de seleção artificial — por exemplo, o engendramento de várias raças caninas — são observados da perspectiva a posteriori da história em vez de serem testes deliberados de predições em condições experimentalmente controladas. No entanto, foram feitos experimentos como manda o figurino, e os resultados revelaram-se invariavelmente iguais ao que se espera dos resultados mais corriqueiros obtidos por criadores de cães e cultivadores de couves e girassóis. Vejamos um típico exemplo, especialmente bom porque agrônomos da Estação Experimental de Illinois iniciaram o experimento há muito tempo, em 1896 (Geração 1 no gráfico [vide obra impressa!]).

O diagrama da página anterior mostra o teor de óleo em sementes de milho de duas linhagens diferentes selecionadas artificialmente, uma selecionada por seu alto teor de óleo, a outra pelo baixo teor. Esse é um verdadeiro experimento, pois estão sendo comparados os resultados de duas manipulações ou intervenções deliberadas.

Evidentemente [para quem analisa o gráfico dos resultados do experimento], a diferença é gritante, e aumenta. Parece provável que tanto a tendência ascendente como a descendente acabarão por atenuar-se até deixarem de se manifestar: a linha dos baixos teores porque não é possível descer abaixo do teor zero, e a linha do alto teor por razões que são quase tão óbvias.

Eis mais uma demonstração em laboratório do poder da seleção artificial, e esta é instrutiva de outro modo. Vemos no diagrama a seguir dezessete gerações de ratos, artificialmente selecionados por sua resistência à cárie dentária. A variável marcada no gráfico é o tempo, em dias, durante o qual os ratos ficaram livres de cáries. No início do experimento, o típico período sem cáries foi de aproximadamente cem dias. Depois de apenas umas doze gerações de seleção sistemática contra cáries, o período sem cáries foi aproximadamente quatro vezes maior, ou até mais. Novamente, uma linhagem distinta foi selecionada para evoluir na direção oposta: neste caso os experimentos promoveram sistematicamente a reprodução tendo em vista a suscetibilidade à cárie dentária.

Esse exemplo nos dá a deixa para pensar da perspectiva da seleção natural. De fato, essa discussão sobre dentes de rato será a primeira de três excursões pela seleção natural propriamente dita, pois agora estamos equipados para fazê-las. Nas outras duas, assim como no caso dos ratos, reencontraremos criaturas já vistas durante o "processo de sedução" quando tratamos da domesticação: cães e flores.

DENTES DE RATO

Por que, se é tão fácil melhorar os dentes dos ratos por seleção artificial, a seleção natural parece ter feito um trabalho tão malfeito? Com toda certeza não há benefício algum na cárie dentária. Por que, se a seleção artificial é capaz de reduzi-la, a seleção natural não fez o mesmo trabalho há muito tempo?

Ocorrem-me duas respostas, ambas instrutivas. A primeira é que a população original usada pelos selecionadores humanos como matéria-prima de experimento consistiu não de ratos selvagens, mas de ratos brancos domesticados e criados em laboratório. Pode-se dizer que esses animais são mimados, como os humanos modernos, pois levam uma vida protegida das agruras implacáveis da seleção natural. Uma tendência genética à cárie dentária reduziria significativamente suas perspectivas reprodutivas na natureza, mas talvez não fizesse diferença em uma colônia de laboratório onde a vida é fácil e a decisão de quem se reproduz e quem não se reproduz é tomada por humanos, sem ter em vista a sobrevivência. Essa é a primeira resposta à questão.

A segunda é mais interessante, pois traz uma importante lição sobre a seleção natural e também sobre a seleção artificial. É a lição dos trade-offs, e já aludimos a ela quando tratamos das estratégias de polinização em plantas. Nada é de graça; tudo vem com uma etiqueta de preço. Poderia parecer óbvio que é preciso evitar a cárie dentária a todo custo, e não duvido que ela abrevie significativamente a vida para os ratos.

Mas pensemos por um momento no que deve ocorrer para aumentar a resistência de um animal à cárie dentária. Não conheço os detalhes, mas tenho certeza de que seria dispendioso, e isso é tudo o que preciso pressupor. Suponhamos que a resistência seja obtida com um espessamento da parede do dente, e que isso requeira cálcio extra. Não é impossível encontrar cálcio extra, mas ele tem de vir de algum lugar, e não será de graça.

O cálcio (ou qualquer que possa ser o recurso limitador) não flutua no ar. Precisa entrar no corpo através de alimento. E ele é potencialmente útil para outras coisas além dos dentes. O corpo tem o que poderíamos chamar de economia do cálcio [bem como dos outros nutrientes]. Essa substância é necessária nos ossos e também no leite. (Estou supondo que é do cálcio que estamos falando. Se não for o cálcio, tem de haver algum recurso limitador, obtido a certo custo, e o argumento funcionará igualmente bem, seja qual for esse recurso limitador. Continuarei a usar o cálcio para seguir com a argumentação.)

Um rato com dentes extrafortes poderia tender a viver mais tempo do que um rato com dentes estragados, sendo tudo o mais igual. Mas acontece que todas as outras coisas não são iguais, pois o cálcio necessário para fortalecer os dentes teve de provir de algum lugar, como os ossos, por exemplo. Um indivíduo rival cujos genes não o predispuseram a desviar cálcio dos ossos poderia, consequentemente, viver mais tempo graças a seus ossos superiores e apesar de ter dentes cariados. Ou o indivíduo rival poderia ser uma fêmea com melhores condições para criar filhos porque produz leite mais rico em cálcio. Como os economistas adoram dizer, citando uma frase de Robert Heinlein, não existe almoço grátis.

Meu exemplo dos ratos é hipotético, mas podemos afirmar com certeza que, por razões econômicas, é possível haver dentes que sejam perfeitos demais. A perfeição em um departamento tem de ser comprada, e será paga com um sacrifício em outro departamento. Essa lição aplica-se a todos os seres vivos. Podemos esperar que existam corpos bem equipados para sobreviver, mas isso não significa que devam ser perfeitos em qualquer dada dimensão.

Um antílope poderia correr mais rápido e ter maior probabilidade de escapar dos leopardos se suas pernas fossem um pouco mais compridas. Mas um antílope rival com pernas mais longas, embora possa ser equipado para correr mais do que um predador, tem de pagar por suas pernas longas em algum outro departamento de sua economia corporal. Os materiais necessários para produzir os incrementos de ossos e músculos das pernas mais longas têm de ser tirados de algum outro lugar, por isso o indivíduo de pernas mais compridas tem maior probabilidade de morrer por motivos outros que não a predação. Ou talvez seja até mais provável que ele morra por predação porque suas pernas mais longas, embora possam correr mais depressa quando intactas, tendem mais a sofrer fratura, e nesse caso não correrão mais. Um corpo é uma colcha de retalhos de soluções conciliatórias, mas voltarei a este assunto no capítulo sobre as corridas armamentistas.

O que ocorre na domesticação é que os animais são protegidos artificialmente de muitos dos riscos que abreviam sua vida na natureza. Uma vaca leiteira de raça pode produzir prodigiosas quantidades de leite, mas seu desajeitado úbere balouçante seria um estorvo horrível se ela tivesse de fugir de um leão. Os cavalos puros-sangues correm e saltam como nenhum outro, mas suas pernas são vulneráveis a lesões durante as corridas, especialmente ao saltar obstáculos, e isso sugere que a seleção artificial empurrou-os para uma zona que a seleção natural não teria tolerado.

Além disso, os puros-sangues só prosperam com uma dieta rica fornecida por humanos. Enquanto os pôneis nativos da Grã-Bretanha, por exemplo, vivem bem alimentando-se em pastagens, os cavalos de corrida só se desenvolvem bem com uma dieta muito mais rica de grãos e suplementos, coisas que eles não encontrariam livres na natureza. Também retornarei a esse assunto no capítulo sobre as corridas armamentistas.

OUTRA VEZ OS CÃES

Agora que finalmente chegamos ao tema da seleção natural, podemos voltar ao exemplo dos cães para outras lições importantes.

Eu disse que eles são lobos domesticados, mas preciso fazer uma ressalva à luz de uma fascinante teoria sobre a evolução do cão. A mais clara explicação provém, novamente, de Raymond Coppinger.

A idéia é que a evolução do cão não foi apenas uma questão de seleção artificial. No mínimo, foi igualmente um caso de lobos que se adaptaram por seleção natural ao modo de vida do homem. Boa parte da domesticação inicial do cão foi uma autodomesticação mediada pela seleção natural, e não artificial.

Muito antes que puséssemos as mãos nos cinzéis da caixa de ferramentas da seleção artificial, a seleção natural já esculpira lobos em "cães de povoado", autodomesticados sem nenhuma intervenção humana. Só posteriormente humanos adotaram esses cães de povoado e os transformaram, separadamente e com abrangência, no multicolorido espectro de raças que hoje exibem suas habilidades e formosuras (se é que podemos aplicar esse termo) nos concursos caninos mundo afora.

Coppinger ressalta que quando animais domésticos fogem e se tornam ferais por muitas gerações, geralmente revertem a algo semelhante a seu ancestral selvagem. Portanto, poderíamos esperar que cães ferais se tornassem bem parecidos com lobos. Só que isso não acontece. Os cães que são deixados à vida feral parecem-se com os ubíquos "cães de povoado" — vira-latas — encontrados em todas as povoações humanas do Terceiro Mundo.

Isso dá força à suposição de Coppinger de que os cães que os criadores humanos finalmente modificaram já não eram mais lobos. Eles já haviam se convertido em cães: cães de povoado, vira-latas, talvez dingos.

Os lobos verdadeiros caçam em matilha. Os cães de povoado comem restos em monturos e depósitos de lixo. Os lobos também comem restos, mas seu temperamento não os inclina a frequentar os monturos humanos, devido à sua longa "distância de fuga". Se você encontrar um animal comendo, pode medir sua distância de fuga vendo a que distância ele permite que você se aproxime antes de fugir. Para qualquer dada espécie em qualquer dada situação, haverá uma distância de fuga ótima, em algum ponto entre o arriscado ou temerário demais no extremo mais curto e o excessivamente arisco ou avesso ao risco no extremo mais longo.

Os indivíduos que fogem tarde demais quando o perigo ameaça têm maior probabilidade de ser mortos por esse perigo. Menos obviamente, existe, sim, um momento em que é cedo demais para fugir. Os indivíduos ariscos demais nunca fazem uma boa refeição porque fogem ao primeiro sinal de perigo no horizonte. É fácil para nós menosprezar os perigos de uma aversão excessiva ao risco. Ficamos pasmos quando vemos zebras ou antílopes pastando calmamente bem à vista de leões, limitando-se a ficar de olho neles. Achamos isso estranho porque nossa aversão ao risco (ou a do nosso guia no safári) nos mantém firmemente dentro do jipe mesmo não tendo razão para pensar que haja algum leão num raio de quilômetros.

Isso acontece porque não temos nada para contrabalançar nosso medo. Vamos fazer uma boa refeição quando voltarmos ao alojamento do safári. Nossos ancestrais selvagens compreenderiam muito melhor aquelas zebras que estão lá correndo risco. Como as zebras, eles tinham de sopesar o risco de ser comidos com o risco de não comer. Sem dúvida o leão pode atacar; mas, dependendo do tamanho do nosso grupo, há mais chance de que ele pegue outro membro do bando do que você. E se você nunca se aventurar no local onde está o alimento, ou na lagoa onde está a água, vai morrer de qualquer modo, de fome ou de sede. Essa é a mesma lição sobre os trade-offs econômicos que já encontramos duas vezes.

A conclusão dessa digressão é que o lobo selvagem, como qualquer outro animal, tem uma distância de fuga ótima, bem situada — e potencialmente flexível — entre a ousadia excessiva e a timidez excessiva. A seleção natural influenciará na distância de fuga, movendo-a para um ou outro lado do continuum, se as condições mudarem no decorrer do tempo evolucionário. E se uma nova fonte de alimento abundante na forma de monturos em povoados humanos subitamente entrar no mundo dos lobos, isso deslocará o ponto ótimo na direção da ponta mais curta do continuum da distância de fuga, aumentando a relutância em fugir quando se está desfrutando dessa nova fartura.

Podemos imaginar lobos selvagens alimentando-se num monte de lixo na orla de uma povoação. A maioria deles, com medo das pedras e lanças dos homens, terá uma distância de fuga bem longa. Esses fogem para a segurança da floresta assim que humanos aparecem à distância. Mas alguns indivíduos, por acaso genético, têm uma distância de fuga um pouco mais curta do que a média. Sua disposição para correr ligeiros riscos — são corajosos, digamos assim, mas não imprudentes — permite-lhes obter mais alimento do que seus rivais mais avessos ao risco.

Com o passar das gerações, a seleção natural favorece uma distância de fuga cada vez mais curta até quase ao ponto em que os lobos realmente ficassem em perigo na presença de humanos com pedras na mão. A distância de fuga ótima mudou em razão dessa recém-disponível fonte de alimento.

Algo nas linhas dessa redução da distância de fuga, na opinião de Coppinger, foi o primeiro passo na domesticação do cão, e ocorreu graças à seleção natural, e não à seleção artificial.

A diminuição da distância de fuga é uma medida comportamental do que poderíamos chamar de docilidade crescente. Nessa fase do processo, os humanos não estavam deliberadamente escolhendo os indivíduos mais dóceis para reproduzir. Nessa etapa inicial, as únicas interações entre os humanos e esses cães incipientes eram hostis. Se lobos estavam sendo domesticados, era por autodomesticação, e não por uma domesticação deliberada pelos humanos. Esta veio mais tarde.

Podemos ter uma idéia de como a docilidade, ou qualquer outra coisa, pode ser esculpida — natural ou artificialmente — examinando um fascinante experimento dos tempos modernos, a domesticação de raposas-cinzentas russas para uso no comércio de peles.

Esse experimento é duplamente interessante porque suas lições nos ensinam, além do que Darwin sabia sobre o processo de domesticação, os "efeitos colaterais" da reprodução seletiva e a semelhança, que Darwin compreendia bem, entre a seleção artificial e a natural.

A raposa-cinzenta, valiosa por sua bela pelagem, é apenas uma variante de cor da conhecida raposa-vermelha, Vulpes vulpes. O geneticista russo Dimitri Belyaev foi incumbido de dirigir uma fazenda de criação de raposas para comercialização de peles nos anos 1950. Despediram-no porque sua genética científica era incompatível com a ideologia anticientífica de Lysenko, o biólogo charlatão que conseguiu capturar os ouvidos de Stálin e assim dominar, e quase arruinar por completo, toda a genética e a agricultura da União Soviética por cerca de vinte anos.

Belyaev conservou seu amor pelas raposas e pela verdadeira genética, aquela desvinculada das idéias de Lysenko. Mais tarde, pôde retomar seus estudos de ambas como diretor de um instituto de genética na Sibéria. Raposas selvagens são difíceis de amansar, e Belyaev procurou manipular a reprodução desses animais visando à docilidade.

Como qualquer outro criador de animais ou cultivador de plantas de sua época, seu método consistiu em explorar a variação natural (ainda não existia a engenharia genética) e escolher, para reprodução, os machos e fêmeas que mais se aproximavam do ideal que ele procurava.

Fazendo a seleção em função da docilidade, Belyaev poderia ter escolhido para reprodução os machos e fêmeas que mais lhe atraíssem, ou que o olhassem com as expressões faciais mais cativantes. Isso poderia ter produzido o efeito desejado na docilidade de gerações futuras. Porém, mais sistematicamente, ele usou uma medida muito parecida com a "distância de fuga" que mencionei no contexto dos lobos selvagens, só que adaptada para filhotes.

Belyaev e seus colegas (e sucessores, pois o programa experimental prosseguiu após sua morte) aplicaram testes padronizados a filhotes de raposa nos quais um experimentador oferecia comida na mão a um filhote enquanto tentava afagá-lo.

Os filhotes foram classificados em três classes. Os da classe III eram os que fugiam ou mordiam a pessoa. Os da classe II permitiam que os afagassem, mas não mostravam uma receptividade positiva aos experimentadores. Os da classe I, os mais dóceis, aproximavam-se decididamente dos tratadores, abanando a cauda e choramingando. Quando os filhotes cresceram, os experimentadores sistematicamente promoveram a reprodução apenas dessa classe mais dócil.

Após meras seis gerações dessa reprodução seletiva direcionada para a docilidade, as raposas haviam mudado tanto que os experimentadores viram-se obrigados a nomear uma nova categoria, a classe da "elite domesticada", que era "ávida para estabelecer contato com humanos, choramingava para atrair a atenção, farejava e lambia os experimentadores, como fazem os cães".

No início do experimento, nenhuma das raposas enquadrava-se na classe da elite. Depois de dez gerações de reprodução voltada para a docilidade, 18% eram da "elite"; após vinte gerações, 35%; e depois de 30 a 35 gerações, os indivíduos da "elite domesticada" constituíam entre 70% a 80% da população experimental. Tais resultados talvez não sejam muito surpreendentes, exceto pela assombrosa magnitude e velocidade do efeito. E, todavia, na escala do tempo geológico, 35 gerações passariam despercebidas.

Ainda mais interessante, porém, foram os inesperados efeitos secundários da reprodução seletiva voltada para a docilidade. Esses foram fascinantes e genuinamente imprevistos. Darwin, que amava cães, ficaria extasiado. As raposas mansas não apenas se comportavam como cães domésticos: também se pareciam com eles. Trocaram sua típica pelagem vulpina por uma pelagem malhada em preto e branco, como a dos cães welsh collies. As orelhas pontudas de raposa foram substituídas por orelhas caídas de cachorro. A cauda passou a ter a ponta virada para cima, como a dos cães, em vez de para baixo como a das raposas. As fêmeas entravam no cio a cada seis meses como as cadelas, em vez de anualmente como as raposas fêmeas. Segundo Belyaev, até a vocalização delas lembrava a dos cães.

Esses traços caninos foram efeitos secundários. Belyaev e sua equipe não os buscaram deliberadamente ao promover a reprodução das raposas mais dóceis. Essas outras características caninas aparentemente seguiam nas águas dos genes para docilidade.

Geneticistas não se surpreendem com tais resultados. Eles reconhecem um disseminado fenômeno chamado "pleiotropia", pelo qual os genes têm mais de um efeito, todos aparentemente desvinculados. A ênfase aqui é em "aparentemente". Quando passamos a conhecer mais detalhes, o "aparentemente desvinculados" transforma-se em "vinculados por uma rota que hoje compreendemos, mas antes ignorávamos". Presumivelmente, genes para orelhas caídas e pelagem malhada são pleiotropicamente vinculados a genes para docilidade, tanto nas raposas como nos cães.

Isso ilustra um importante aspecto geral da evolução. Quando notamos uma característica de um animal e perguntamos qual é seu valor de sobrevivência darwiniano, talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Talvez a característica que escolhemos não seja a que importa. Ela pode ter "pegado carona", sido arrastada junto na evolução por alguma outra característica à qual se liga pleiotropicamente.

Portanto, se Coppinger estiver certo, a evolução do cão não foi apenas decorrência de seleção artificial, e sim uma complexa mistura de seleção natural (que predominou nos primeiros estágios da domesticação) e seleção artificial (que ganhou relevo mais recentemente). A transição deve ter sido sem hiatos, o que, mais uma vez, ressalta a semelhança — como Darwin reconheceu — entre seleção artificial e seleção natural.

OUTRA VEZ AS FLORES

Tratemos agora, na terceira das nossas incursões preparatórias para entrar mais a fundo no tema da seleção natural, das flores e polinizadores e vejamos algo do poder da seleção natural para impelir a evolução.

A biologia da polinização mostra-nos alguns fatos notáveis, nos quais têm destaque as impressionantes orquídeas. Não é de admirar que Darwin demonstrasse tanto entusiasmo por elas e que, como já mencionei, tenha lhes dedicado todo um livro, The various contrivances by which orchids are fertilised by insects [Os vários estratagemas utilizados pelas orquídeas para serem fertilizadas por insetos].

Algumas orquídeas fornecem néctar, como as orquídeas de Madagascar que usam a técnica da "bala mágica" já descrita; outras, porém, encontraram um modo de evitar os custos de alimentar polinizadores: o logro. Existem orquídeas que lembram a fêmea de uma abelha (ou vespa ou mosca) em um grau suficiente para induzir um macho a tentar copular com elas. Quanto mais essa imitação for parecida com a fêmea de determinado inseto, mais os machos dessa espécie de inseto servirão como balas mágicas, indo exclusivamenle de orquídea em orquídea dessa espécie. E mesmo se a orquídea for semelhante a "uma abelha qualquer", e não a uma dada espécie desse inseto, as abelhas que ela lograr ainda assim serão balas "razoavelmente mágicas".

Se você ou eu examinássemos de perto uma orquídea conhecida como abelheira (ver página em cores 5), seríamos capazes de perceber que não se trata de um inseto; mas se olhássemos de relance pelo canto dos olhos, seríamos enganados. E mesmo olhando-a de frente, eu diria que essa orquídea abelheira (na ilustração h) é bem mais parecida com uma mamangaba do que com uma abelha-doméstica.

Insetos têm olhos compostos, não tão apurados como nosso olho tipo câmera, e as formas e cores das orquídeas imitadoras de insetos, reforçadas pelas sedutoras fragrâncias que lembram as das fêmeas desses insetos, são mais do que capazes de ludibriar os machos. Aliás, é bem provável que essa imitação seja ainda mais fiel quando vista na faixa do ultravioleta, à qual não temos acesso.

A brássia, uma orquídea que lembra uma aranha (página em cores 5-k), obtém a polinização com um truque diferente. As fêmeas de várias espécies de vespa solitária ("solitária" porque não vive socialmente em grandes ninhos como as conhecidas pragas de outono que os americanos chamam de yellow-jacket) capturam aranhas, paralisam-nas com uma ferroada e depositam nelas seus ovos, transformando-as, assim, em um suprimento vivo de alimento para suas larvas. A brássia lembra uma aranha o suficiente para enganar as fêmeas dessas vespas, que tenta penetrá-las com seu ferrão. Nesse processo, a polínia — massa de grãos de pólen produzida pelas orquídeas — adere ao corpo da vespa, e quando ela tenta aferroar outra brássia, a polínia é transferida. (Não resisto a mencionar aqui o caso exatamente às avessas da aranha Epicadus heterogaster, que imita uma orquídea: insetos pousam nessa "flor" em busca de néctar e são prontamente engolidos por ela.)

Algumas das mais fascinantes orquídeas que praticam esse truque sedutor são encontradas na Austrália Ocidental. Várias espécies do gênero Drakaea são conhecidas como hammer orchid (orquídea martelo). Cada espécie tem uma relação especial com determinada espécie de vespa da família Tiphiidae. Parte da flor tem uma semelhança aproximada com um inseto, e engana o macho da vespa para que ele tente copular com ela.

Até esse ponto da minha descrição, a Drakaea não difere tanto assim de outras orquídeas imitadoras de inseto. Mas a Drakaea tem um notável truque extra na manga: a falsa "vespa" situa se na extremidade de um "braço" articulado, dotado de um "cotovelo" flexível. Pode-se ver claramente a articulação na figura (página colorida 5-g). O adejo da vespa quando agarra a imitação de fêmea provoca a flexão do "cotovelo", e assim a vespa é lançada repetidamente para a frente e para trás, como um martelo, contra o outro lado da flor — vamos chamá-lo de bigorna —, onde estão suas partes sexuais. A polínia é desalojada e gruda no macho da vespa, que por fim se desvencilha e sai voando, mais triste, porém pelo jeito não mais sábio, pois vai tentar repetir o ato com outra orquídea martelo, onde ele e a polínia que nele aderiu são sacudidos de encontro à bigorna e sua carga encontra seu destinado refúgio nos órgãos femininos da flor.

Exibi um filme desse espantoso processo em uma das minhas conferências para crianças proferidas na Royal Institution na época do Natal (intituladas Royal Institution Christmas Lectures for Children), e ela pode ser vista no DVD dessa conferência, intitulado The ultraviolet garden.

Nessa mesma conferência falei sobre a orquídea sul-americana do gênero Coryanthes, conhecida como "orquídea balde". Ela obtém a polinização de um modo igualmente notável, mas bem diferente. Também possui polinizadores especiais, não vespas, mas pequenas abelhas do grupo Euglossine. Essas orquídeas também não fornecem néctar. Tampouco enganam os zangões para que se acasalem com elas. Em vez disso, dão uma assistência vital aos zangões, sem os quais eles não conseguiriam atrair fêmeas reais.

Essas abelhinhas, que vivem apenas na América do Sul, têm um estranho hábito. Dedicam-se à trabalhosa tarefa de coletar substâncias fragrantes, ou pelo menos odoríferas, que armazenam em reservatórios especiais situados em suas grandes pernas posteriores.

Em diferentes espécies, essas substâncias odoríferas podem provir de flores, madeira morta ou até fezes. Aparentemente, os machos usam os perfumes coletados para atrair ou cortejar de outro modo as fêmeas. Muitos insetos servem-se de odores específicos para seduzir o sexo oposto, e a maioria fabrica o perfume em glândulas especiais. A fêmea do bicho-da-seda, por exemplo, atrai machos de uma distância assombrosamente grande exalando um único odor que ela fabrica e que os machos detectam — em teores minúsculos e a quilômetros de distância — com suas antenas.

No caso das abelhas euglossinas, são os machos que usam o odor. E, ao contrário das fêmeas do bicho-da-seda, eles não sintetizam o próprio perfume; usam os ingredientes odoríferos que coletam, não como substâncias puras, mas como misturas cuidadosamente produzidas que eles preparam como experientes perfumiers.

Cada espécie mistura um coquetel característico de substâncias coletadas de várias fontes. E existem algumas espécies de abelhas euglossinas que, para fabricar o odor característico de sua espécie, necessitam de substâncias fornecidas exclusivamente por flores de uma determinada espécie de orquídea do gênero Coryanthes — as "orquídeas balde". As abelhas euglossinas são conhecidas como "abelhas de orquídea".

Que intricado quadro de dependência mútua! As orquídeas precisam das abelhas euglossinas pelas usuais razões da "bala mágica". E as abelhas precisam das orquídeas pela razão mais inusitada de que os machos não conseguem atrair as fêmeas sem as substâncias que são impossíveis ou pelo menos difíceis demais de encontrar sem os bons ofícios das "orquídeas balde".

Mas o modo como a polinização se dá é ainda mais inusitado e, superficialmente, faz a abelha parecer mais uma vítima do que uma parceira cooperadora. Um macho de abelha euglossina é atraído para as orquídeas pelo odor das substâncias de que ele precisa para fabricar seus perfumes sexuais. Ele pousa na borda do balde e se põe a raspar o perfume ceroso para dentro dos receptáculos especiais em suas pernas. Mas a borda do balde é escorregadia, e há uma razão para que o seja. A abelha cai no balde, que é cheio de líquido, e começa a nadar. Não consegue subir pelas laterais escorregadias do balde.

Só existe uma rota de escape: um orifício especial do tamanho de uma abelha num lado do balde (não visível na figura mostrada na página em cores 4). A abelha é guiada até lá por uma "passadeira" e atravessa de rastros a passagem. O orifício é apertado, e se torna ainda mais justo quando as "mandíbulas" (estas são visíveis na figura: parecem o mandril de um torno ou furadeira elétrica) se contraem e prendem a abelha. Enquanto ela está ali detida, duas polínias grudam-se em seu dorso. A cola demora algum tempo para aderir, depois disso as mandíbulas relaxam-se e libertam a abelha. Esta sai voando, com a polínia nas costas.

Ainda à procura dos preciosos ingredientes para seu perfume, ela pousa em outra "orquídea balde", e o processo repete-se. Dessa vez, porém, quando a abelha se debate para passar pelo orifício no balde, a polínia é raspada, desgruda-se e fertiliza o estigma da segunda orquídea.

A íntima relação entre flores e seus polinizadores é um encantador exemplo do que chamamos coevolução. A coevolução frequentemente ocorre entre organismos que têm algo a ganhar uns dos outros; é uma parceria na qual cada lado contribui com algo para o outro e ambos se beneficiam da cooperação.

Outro belo exemplo é o conjunto das relações que se desenvolveram em recifes de coral, independentemente em muitas partes do mundo, entre peixes-limpadores e peixes maiores.

Os limpadores pertencem a várias espécies e alguns não são peixes, e sim camarões — um bom exemplo de evolução convergente. Fazer limpeza, entre os peixes dos recifes de coral, é um modo de vida bem estabelecido, como caçar, pastar ou comer formigas entre os mamíferos. Os limpadores ganham a vida comendo parasitas no corpo de seus "clientes" mais graúdos.

O fato de que esses clientes se beneficiam com a limpeza foi elegantemente demonstrado removendo-se todos os limpadores de uma área experimental de recifes: em consequência, a saúde de numerosas espécies de peixe deteriorou-se.

Já tratei do hábito dos limpadores em outro livro, por isso não me alongarei mais neste assunto. A coevolução também ocorre entre espécies que não se beneficiam da presença uma da outra, como predadores e presas, parasitas e hospedeiros. Esse tipo de coevolução às vezes é chamado de "corrida armamentista", e deixarei seu exame para o capítulo 12.

A NATUREZA COMO AGENTE SELECIONADOR

Darei agora a conclusão deste capítulo e do anterior. A seleção — na forma de seleção artificial por criadores ou cultivadores humanos — pode transformar um vira-lata num pequinês ou uma couve silvestre numa couve-flor em alguns séculos. A diferença entre duas raças caninas quaisquer nos dá uma ideia aproximada da quantidade de mudança evolucionária que pode ser obtida em menos de um milênio.

A nossa questão seguinte deve ser: quantos milênios temos à disposição para explicar toda a história da vida?

Se imaginarmos a imensa quantidade de diferenças que separam um vira-lata de um pequinês, obra de apenas alguns séculos de evolução, quanto maior seria o tempo que nos separa do princípio da evolução ou, digamos, do princípio dos mamíferos? Ou do tempo em que peixes foram para terra firme?

A resposta é que a vida começou não há séculos, mas há dezenas de milhões de séculos. A idade medida do nosso planeta é cerca de 4,6 bilhões de anos, ou seja, aproximadamente 46 milhões de séculos. O tempo decorrido desde que o ancestral comum de todos os mamíferos atuais andou pela Terra é cerca de 2 milhões de séculos. Um século, para nós, parece um longo tempo. Você consegue imaginar 2 milhões de séculos de uma ponta à outra?

O tempo decorrido desde que nossos ancestrais peixes rastejaram da água para terra firme foi aproximadamente 3,5 milhões de séculos; ou seja, cerca de 20 mil vezes o que levou para serem criadas todas as diferentes — bem diferentes mesmo — raças de cão desde o ancestral que todas elas têm em comum.

Tenha na cabeça uma ideia aproximada da quantidade de diferenças entre um pequinês e um vira-lata. Não estamos falando em medidas precisas; tanto faria pensar nas diferenças entre quaisquer outras duas raças de cão, pois elas representam em média o dobro da quantidade de mudanças que foram obtidas, por seleção artificial, a partir do ancestral comum.

Tenha em mente essa ordem de mudança evolucionária e então extrapole 20 mil vezes em direção ao passado. Torna-se muito fácil aceitar que a evolução poderia realizar a quantidade de mudanças necessárias para transformar um peixe num ser humano.

Mas tudo isso pressupõe, claro, que conhecemos a idade da Terra, bem como dos vários pontos de referência no registro fóssil. Este é um livro sobre evidências, portanto não posso apenas mencionar datas. Tenho de justificá-las. Como, então, conhecemos a idade de uma dada rocha? Como calculamos a idade de um fóssil? Como conhecemos a idade da Terra? E como, aliás, descobrimos a idade do universo? Precisamos de relógios, e eles são o assunto do próximo capítulo.

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