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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Estudo dos verbos - I (Pasquale & Ulisses)

(Continuação da obra "Gramática da Língua Portuguesa",
de Pasquale & Ulisses)



CAPÍTULO 6
ESTUDO DOS VERBOS (I)


Embora seja sempre lembrado como a palavra que denota ação, o verbo indica ainda uma série de outros fenômenos ou processos. O que distingue fundamentalmente os verbos são as suas flexões, e não os seus possíveis significados. Afinal de contas, o verbo é a classe de palavras que possui o maior número de flexões, na língua portuguesa.

1. INTRODUÇÃO

Conjugar verbos é algo que faz parte da vida de qualquer indivíduo, alfabetizado ou não, escolarizado ou não; no entanto, poucas pessoas se dão conta de que há nesse processo uma organização interna, um verdadeiro sistema, de que trataremos a seguir.

Os verbos desempenham uma função vital em qualquer língua, e no português não seria diferente. É em torno deles que se organizam as orações e os períodos, conseqüentemente é em torno deles que se estrutura o pensamento.

Verbo significa, originariamente, "palavra". Esse significado pode ser notado em expressões como "abrir o verbo" ou "deitar o verbo", utilizadas para indicar o uso abundante e desimpedido das palavras. Outra expressão muito conhecida é "verborragia", utilizada para indicar uso desmedido de palavras. Uma pessoa verborrágica fala muito. E o que significa comunicação verbal? Comunicação com palavras.

Os verbos receberam esse nome justamente porque, devido a sua importância na língua, foram considerados as palavras por excelência pelos gramáticos.

Conjugar um verbo é, portanto, exercer o direito pleno de empregar a palavra.

O estudo de uma classe gramatical tão importante representa, obviamente, um passo decisivo para a obtenção de um desempenho lingüístico mais satisfatório.

Neste primeiro capítulo dedicado aos verbos, vamos concentrar nossa atenção nos paradigmas de conjugação, cujo conhecimento é indispensável à produção de textos representativos da modalidade culta do português.

2. CONCEITO

Verbo é a palavra que se flexiona em número (singular/plural), pessoa (primeira, segunda, terceira), modo (indicativo, subjuntivo, imperativo), tempo (presente, pretérito, futuro) e voz (ativa, passiva, reflexiva). Pode indicar ação (fazer, copiar), estado (ser, ficar), fenômeno natural (chover, anoitecer), ocorrência (acontecer, suceder), desejo (aspirar, almejar) e outros processos.

O que caracteriza o verbo são suas flexões, e não seus possíveis significados. Observe que palavras como feitura, cópia, chuva, acontecimento e aspiração têm conteúdo muito próximo ao de alguns verbos mencionados acima; não apresentam, porém, todas as possibilidades de flexão que esses verbos possuem.

3. ESTRUTURA DAS FORMAS VERBAIS

Há três tipos de morfemas que participam da estrutura das formas verbais: o radical, a vogal temática e as desinências.

a) radical - é o elemento mórfico (morfema) que concentra o significado essencial do verbo:
opin-ar
aprend-er
nutr-ir
am-ar 
beb-er
part-ir
cant-ar
escond-er
proib-ir
Você notou que, para obter o radical de um verbo, basta eliminar as duas últimas letras do infinitivo.
Podem-se antepor prefixos ao radical:
des-nutr-ir
re-aprend-er

b) vogal temática - é o morfema que permite a ligação entre o radical e as desinências.
Em português, há três vogais temáticas:
-a-
- caracteriza os verbos da primeira conjugação:
solt-a-r; deix-a-r; perdo-a-r;
-e-
- caracteriza os verbos da segunda conjugação:
esquec-e-r; sofr-e-r; viv-e-r.
* O verbo pôr e seus derivados (supor, depor, repor, compor, etc.) são considerados da segunda conjugação, pois sua vogal temática é -e-, obtida da forma portuguesa arcaica poer, do latim ponere.
-i-
- caracteriza os verbos da terceira conjugação:
assist-i-r; permit-i-r, decid-i-r.
O conjunto formado pelo radical e pela vogal temática recebe o nome de tema.

c) desinências - são morfemas que se acrescentam ao tema para indicar as flexões do verbo. Há desinências número-pessoais e desinências modo-temporais:
falá-sse-mos
falá-: tema (radical + vogal temática)
-sse-: desinência modo-temporal (indica o modo - subjuntivo - e o tempo -pretérito imperfeito - em que o verbo está conjugado)
-mos: desinência número-pessoal (indica que o verbo se refere à primeira pessoa do plural)

Você conhecerá as outras desinências verbais quando apresentarmos os modelos das conjugações. Combinando seus conhecimentos sobre a estrutura dos verbos com o conceito de sílaba tônica, você poderá facilmente descobrir o que são formas verbais rizotônicas e arrizotônicas. Nas formas rizotônicas, o acento tônico está no radical do verbo: estudo, compreendam, consigo, por exemplo. Nas formas arrizotônicas, o acento tônico não está no radical, mas na terminação verbal: estudei, venderão, conseguiríamos.

4. FLEXÕES VERBAIS

Você já sabe que os verbos apresentam flexão de número, pessoa, modo, tempo e voz. Vamos agora estudar mais minuciosamente essas flexões.

FLEXÃO DE NÚMERO E PESSOAS

Os verbos podem se referir a um único ser ou a mais de um ser; no primeiro caso, estão no singular; no segundo, no plural. Essa indicação de número é acompanhada pela indicação da pessoa gramatical a que o verbo se refere. Observe:
estudo é forma da primeira pessoa do singular;
estudas é forma da segunda pessoa do singular;
estuda é forma da terceira pessoa do singular;
estudamos é forma da primeira pessoa do plural;
estudais é forma da segunda pessoa do plural;
estudam é forma da terceira pessoa do plural.

Essas indicações de número e pessoa são claramente identificadas quando se relaciona cada forma verbal acima com o pronome pessoal correspondente:
eu estudo
tu estudas
ele/ela estuda
nós estudamos
vós estudais
eles/elas estudam

No português atual do Brasil, o pronome tu, de segunda pessoa, tem uso (na linguagem coloquial falada) limitado a algumas regiões, muitas vezes de forma diferente da que prega a gramática oficial. É comum (na língua não culta) o emprego de formas como "tu foi", "tu pega", "tu falou".
O pronome vós aparece em textos literários ou litúrgicos. Para o tratamento direto, difundiu-se no Brasil o emprego dos pronomes você/vocês, que levam o verbo para a terceira pessoa:
ele/ela (você) estuda
eles/elas/ (vocês) estudam
A forma verbal correspondente ao pronome vós caiu em desuso no Brasil (na linguagem coloquial falada) mas ainda é corrente em Portugal.

FLEXÃO DE TEMPO E MODO

No momento em que se fala ou escreve, o processo verbal (aquilo a que o verbo se refere) pode estar em plena ocorrência, pode já estar concluído ou pode ainda não ter ocorrido. Essas três possibilidades básicas, mas não únicas, são expressas pelos três tempos verbais: o presente, o pretérito (que pode ser perfeito, imperfeito ou mais-que-perfeito) e o futuro (que pode ser do presente ou do pretérito). Compare as formas estudo, estudei e estudarei para perceber essa distribuição em três tempos básicos.

A indicação de tempo está normalmente ligada à indicação de modo, ou seja, a expressão da atitude de quem fala ou escreve em relação ao conteúdo do que fala ou escreve. Quando se considera o que é falado ou escrito uma certeza, utilizam-se as formas do modo indicativo (são exemplos estudo, estudei, estudava, estudarei).

As formas do modo subjuntivo indicam que o conteúdo do que se fala ou escreve é tomado como incerto, duvidoso, hipotético (estudasse, por exemplo).

Além disso, o verbo pode exprimir um desejo, uma ordem, um apelo: nesse caso, utilizam-se as formas do modo imperativo (estude/não estude, por exemplo). O modo imperativo é dividido em duas formas: o afirmativo e o negativo. Não se conjuga a primeira pessoa do singular do imperativo, por motivo óbvio.

Os verbos possuem, além dos modos e tempos já apresentados, três formas nominais: o infinitivo (pessoal e impessoal), o gerúndio e o particípio. Essas formas são chamadas nominais porque podem assumir comportamento de nomes (substantivos, adjetivos e advérbios) em determinados contextos. No caso do verbo estudar, temos:
infinitivo pessoal: estudar, estudares;
infinitivo impessoal: estudar;
gerúndio: estudando;
particípio: estudado.

FLEXÃO DE VOZ

A voz verbal indica fundamentalmente se o ser a que o verbo se refere é agente ou paciente do processo verbal. Há três situações possíveis:

a) voz ativa - o ser a que o verbo se refere é o agente do processo verbal. Em "O Juventus derrotou o Palmeiras", a forma verbal "derrotou" está na voz ativa porque "o Juventus" é o agente do processo verbal.

b) voz passiva - o ser a que o verbo se refere é o paciente do processo verbal. Em "O Palmeiras foi derrotado pelo juventus", a locução verbal "foi derrotado" está na voz passiva porque "o Palmeiras" é o paciente da ação verbal.

Há duas formas de voz passiva em português: a voz passiva analítica, em que ocorre uma locução verbal formada pelo verbo "ser" mais o particípio do verbo principal (como em "O técnico foi demitido do clube"), e a voz passiva sintética, em que se utiliza o pronome "se" (nesse caso chamado pronome apassivador, ou partícula apassivadora) ao lado do verbo em terceira pessoa (como em "Alugam-se casas na praia"). Essas duas formas de voz passiva serão estudadas detalhadamente nos capítulos dedicados à Sintaxe.

c) voz reflexiva - o ser a que o verbo se refere é, ao mesmo tempo, agente e paciente do processo verbal, pois age sobre si mesmo. Em "O rapaz cortou-se com uma tesoura", a forma verbal 'cortou-se' está na voz reflexiva, pois o rapaz é, a um só tempo, agente e paciente: ele cortou a si mesmo.

5. CONJUGAÇÕES

Quando se fala em conjugar um verbo, fala-se em dispor sistematizadamente todas as formas que ele pode assumir ao ser flexionado. Isso se faz com a exposição dos diversos tempos e modos de acordo com uma ordem convencionada. Observe que se trata de um recurso didático ligado à memorização e à observação de particularidades morfológicas.

Os verbos da língua portuguesa podem ser divididos em três grupos de flexões, as chamadas conjugações, identificadas respectivamente pelas vogais temáticas -a-, -e- e - i-. Para cada uma dessas conjugações, há um modelo - chamado de paradigma - que indica as formas verbais consideradas regulares.

De acordo com a relação que estabelecem com esses paradigmas, os verbos podem ser classificados em:
a) regulares - obedecem precisamente a um paradigma da respectiva conjugação;
b) irregulares - não seguem nenhum paradigma da respectiva conjugação: podem apresentar irregularidades no radical ou nas terminações. Os verbos ser e ir, por apresentarem profundas alterações nos radicais em sua conjugação, são chamados anômalos;
c) defectivos - não são conjugados em determinadas pessoas, tempos ou modos;
d) abundantes - apresentam mais de uma forma para determinada flexão.

Os verbos empregados para, com o infinitivo, o gerúndio ou o particípio, formar as locuções verbais ou os tempos compostos (devo ir; estava falando; tinha procurado) são chamados de auxiliares. Os quatro mais usados nessa função são ser, estar, ter e haver. A conjugação desses quatro verbos, rica em particularidades, será apresentada mais adiante, quando estudarmos os principais verbos irregulares. O outro verbo do tempo composto ou locução verbal é chamado de principal. Na prática, torna-se fácil identificar o auxiliar e o principal: o auxiliar é sempre o primeiro; o principal é sempre o segundo.

PARADIGMA DOS VERBOS REGULARES

Você encontrará a seguir paradigmas dos verbos regulares das três conjugações. Para conjugar qualquer verbo regular basta substituir o radical do verbo usado como exemplo pelo radical do verbo que se pretende conjugar. A vogal temática e as desinências não se alteram.

TEMPOS SIMPLES
1a. conjugação / 2a. conjugação / 3a. conjugação:
modelo: estudar, vender, permitir

MODO INDICATlVO

Presente:
estudo, vendo, permito,
estudas, vendes, permites,
estuda, vende, permite,
estudamos, vendemos, permitimos,
estudais, vendeis, permitis,
estudam, vendem, permitem.

Pretérito imperfeito:
estudava, vendia, permitia,
estudavas, vendias, permitias,
estudava, vendia, permitia,
estudávamos, vendíamos, permitíamos,
estudáveis, vendíeis, permitíeis,
estudavam, vendiam, permitiam.

Pretérito perfeito:
estudei, vendi, permiti
estudaste, vendeste, permitiste,
estudou, vendeu, permitiu,
estudamos, vendemos, permitimos,
estudastes, vendestes, permitistes,
estudaram, venderam,  permitiram.

Pretérito mais-que-perfeito:
estudara, vendera, permitira,
estudaras, venderas, permitiras,
estudara, vendera, permitira,
estudáramos, vendêramos, permitíramos,
estudáreis,  vendêreis, permitireis,
estudaram, venderam, permitiram.

Futuro do presente:
estudarei, venderei, permitirei,
estudarás, venderás, permitirás,
estudará, venderá,  permitirá,
estudaremos, venderemos, permitiremos,
estudareis, vendereis, permitireis,
estudarão, venderão,  permitirão.

Futuro do pretérito:
estudaria, venderia, permitiria,
estudarias, venderias, permitirias,
estudaria, venderia, permitiria,
estudaríamos, venderíamos, permitiríamos,
estudaríeis, venderíeis, permitiríeis,
estudariam, venderiam, permitiriam.

MODO SUBJUNTIVO

Presente:
estude, venda, permita,
estudes, vendas, permitas,
estude, venda, permita,
estudemos, vendamos, permitamos,
estudeis, vendais, permitais,
estudem, vendam, permitam

Pretérito imperfeito:
estudasse, vendesse, permitisse,
estudasses, vendesses, permitisses,
estudasse, vendesse, permitisse,
estudássemos, vendêssemos, permitíssemos,
estudásseis, vendêsseis, permitísseis
estudassem, vendessem, permitissem.

Futuro:
estudar, vender, permitir,
estudares, venderes, permitires,
estudar, vender, permitir,
estudarmos, vendermos, permitirmos,
estudardes, venderdes, permitirdes,
estudarem, venderem, permitirem.

MODO IMPERATIVO

Afirmativo:
estuda tu, vende tu, permite tu,
estude você, venda você, permita você,
estudemos nós, vendamos nós, permitamos nós,
estudai vós, vendei vós, permiti vós,
estudem vocês, vendam vocês, permitam vocês.

Negativo:
não estudes tu, não vendas tu, não permitas tu,
não estude você, não venda você, não permita você,
não estudemos nós, não vendamos nós, não permitamos nós,
não estudeis vós, não vendais vós, não permitais vós,
não estudem vocês, não vendam vocês, não permitam vocês.

FORMAS NOMINAIS

Infinitivo impessoal:
estudar, vender, permitir

Infinitivo pessoal:
estudar, vender, permitir,
estudares, venderes, permitires,
estudar, vender, permitir,
estudarmos, vendermos, permitirmos,
estudardes, venderdes, permitirdes,
estudarem, venderem, permitirem

Gerúndio:
estudando, vendendo, permitindo

Particípio:
estudado, vendido, permitido

* Tome cuidado especial com as formas verbais que recebem acento gráfico, pois a omissão desse acento pode causar problemas na língua escrita: analise atentamente as formas de primeira e segunda pessoas do plural dos vários tempos e compreenda que algumas devem ser acentuadas porque são proparoxítonas; atente para as formas do futuro do presente do indicativo que são acentuadas graficamente (oxítonas terminadas em -a, -as - estudarás, estudará; venderás, venderá; permitirás, permitirá) e perceba que a omissão desse acento causa confusão com as formas correspondentes do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (paroxítonas - estudaras, estudara; venderas, vendera; permitiras, permitira).

* Compare a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo com a terceira pessoa do plural do futuro do presente: a primeira é paroxítona e termina em -am (estudaram, venderam, permitiram); a segunda é oxítona e termina em -ão (estudarão, venderão, permitirão).

* Compare a segunda pessoa do singular com a segunda pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo: a primeira termina em -ste (estudaste, vendeste, permitiste); a segunda termina em -stes (estudastes, vendestes, permitistes).

* Atente para as particularidades do modo imperativo: não se conjuga a primeira pessoa do singular; além disso, na terceira pessoa se utilizam os pronomes você/vocês, senhor/senhores, ou qualquer outro pronome de tratamento.

TEMPOS COMPOSTOS

MODO INDICATIVO

Pretérito perfeito:
tenho/hei, 
tens/hás, 
tem/há, 
temos/havemos, 
tendes/haveis,
têm/hão
(estudado, vendido, permitido)

Pretérito mais-que-perfeito:
tinha/havia, 
tinhas/havias, 
tinha/havia,
tínhamos/havíamos, 
tínheis/havíeis, 
tinham/haviam.
(estudado, vendido, permitido)

Futuro do presente:
terei/haverei, 
terás/haverás, 
terá/haverá, 
teremos/haveremos,
tereis/havereis, 
terão/haverão.
(estudado, vendido, permitido)

Futuro do pretérito
teria/haveria, 
terias/haverias, 
teria/haveria,
teríamos/haveríamos, 
teríeis/haveríeis, 
teriam/haveriam,
(estudado, vendido, permitido)

MODO SUBJUNTIVO

Pretérito perfeito:
tenha/haja, 
tenhas/hajas, 
tenha/haja, 
tenhamos/hajamos,
tenhais/hajais, 
tenham/hajam
(estudado, vendido, permitido)

Pretérito mais-que-perfeito:
tivesse/houvesse, 
tivesses/houvesses, 
tivesse/houvesse,
tivéssemos/houvéssemos, 
tivésseis/houvésseis, 
tivessem/houvessem
(estudado, vendido, permitido)

Futuro:
tiver/houver, 
tiveres/houveres, 
tiver/houver, 
tivermos/houvermos,
tiverdes/houverdes, 
tiverem/houverem.
(estudado, vendido, permitido)

FORMAS NOMINAIS

Infinitivo pessoal (pretérito):
ter/haver, 
teres/haveres, 
ter/haver, 
termos/havermos,
terdes/haverdes, 
terem/haverem
(estudado, vendido, permitido)

Infinitivo impessoal (pretérito):
ter/haver (estudado, vendido, permitido)

Gerúndio (pretérito):
tendo/havendo (estudado, vendido, permitido)

* Você notou que os tempos compostos são formados pelos verbos auxiliares ter e haver mais o particípio do verbo principal. Apenas os auxiliares se flexionam.

* No Brasil, há uma acentuada tendência ao emprego do auxiliar ter; o uso do auxiliar haver restringe-se à língua formal falada escrita.

* O pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo é largamente usado no português falado e escrito do Brasil, confinando a forma simples ao uso escrito formal.

* As formas compostas do infinitivo e do gerúndio têm valor de pretérito.

6. FORMAÇÕES DOS TEMPOS SIMPLES

Depois de observar os tempos e modos dos verbos regulares, é importante você saber que existe uma maneira eficiente, racional e organizada de conjugá-los. Basta empregar os conceitos de tempos primitivos e tempos derivados e explorar as relações entre eles:

a)  tempos primitivos - são tempos cujos radicais ou temas são usados na formação de outros tempos. É o caso do presente do indicativo e do pretérito perfeito do indicativo. Além deles, o infinitivo impessoal é usado na formação de outros tempos;

b) tempos derivados - são aqueles cujos radicais ou temas são obtidos de um dos tempos primitivos ou do infinitivo impessoal. Com exceção do presente e do pretérito perfeito do indicativo e do infinitivo impessoal, todos os tempos e formas nominais são derivados.

O conhecimento da conjugação dos tempos primitivos e da forma como se obtém a partir deles a conjugação dos tempos derivados constitui um instrumento muito útil para evitar erros de conjugação. Com a prática e a repetição, o processo se tornará automático. Você perceberá que, em alguns casos, como na formação do imperativo e na obtenção de certos tempos de alguns verbos irregulares, esse processo de conjugação é eficiente e seguro.

TEMPOS DERIVADOS DO PRESENTE DO INDICATIVO

O presente do indicativo forma o presente do subjuntivo; dos dois, é formado o modo imperativo:
a) presente do subjuntivo - forma-se a partir do radical da primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Esse radical é obtido pela eliminação da desinência -o da primeira pessoa do singular: opin-o, cant-o, conheç-o, venh-o, dig-o; a ele, acrescentam-se as desinências -e, -es, -e, -emos, -eis, -em, para verbos da primeira conjugação, e -a, - as, -a, -amos, -ais, -am, para verbos da segunda e terceira conjugações;

b) imperativo afirmativo - a segunda pessoa do singular e a segunda pessoa do plural são retiradas diretamente do presente do indicativo, suprimindo-se o -s final: tu estudas - estuda tu; vós estudais - estudai vós. As formas das demais pessoas são exatamente as mesmas do presente do subjuntivo. Lembre-se de que não se conjuga a primeira pessoa do singular no modo imperativo;

c)  imperativo negativo - todas as pessoas são idênticas as pessoas correspondentes do presente do subjuntivo.

* Observe atentamente as diferenças entre as segundas pessoas do imperativo afirmativo e as segundas pessoas do imperativo negativo. Para passar uma frase do imperativo afirmativo para o negativo e vice-versa não basta acrescentar ou retirar um não: opta/não optes; optai/não opteis.

* É muito comum na língua coloquial o emprego das formas verbais de segunda pessoa do singular do imperativo afirmativo com o pronome você: - "Vem pra Caixa você também!", por exemplo, fez parte de um famoso texto publicitário poucos anos atrás. Essa mistura de tratamentos não é admissível na língua culta; para evitá-la, deve-se uniformizar o tratamento na segunda pessoa ("Vem... tu") ou na terceira pessoa ("venha... você").

TEMPOS DERIVADOS DO PRETÉRITO DO INDICATIVO

O pretérito perfeito do indicativo fornece o tema para a formação de três outros tempos: o pretérito mais-que-perfeito do indicativo, o pretérito imperfeito do subjuntivo e o futuro do subjuntivo.

Para obter o tema do pretérito perfeito, basta retirar a desinência -ste da forma correspondente à segunda pessoa do singular (estuda-ste, vende-ste, parti-ste, trouxe-ste, soube-ste); a seguir, acrescentam-se a esse tema as desinências características de cada um dos três tempos derivados:
a) pretérito mais-que-perfeito do indicativo: -ra, -ras, -ra, -ramos, -reis, -ram;
b) pretérito imperfeito do subjuntivo: -sse, -sses, -sse, -ssemos, -sseis, -ssem;
c) futuro do subjuntivo: -r, -res, -r, -rmos, -rdes, -rem.

Em muitos verbos, a 3ª pessoa do singular do futuro do subjuntivo (bater, por exemplo) é formalmente idêntica ao infinitivo impessoal o que gera freqüentemente erros de conjugação. Por isso, fique sempre atento ao esquema de derivação desse tempo verbal.

ESQUEMA DE FORMAÇÃO DOS TEMPOS DERIVADOS DO PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO
(exemplo: Verbo fazer)
* Pretérito perfeito do indicativo: fiz, fize-ste, fez, fizemos, fizestes, fizeram
* Pretérito mais-que-perfeito do indicativo: fize-ra, fize-ras, fize-ra, fizé-ramos, fizé-reis, fize-ram,
* Pretérito imperfeito do subjuntivo: fize-sse, fize-sses, fize-sse, fizé-ssemos, fizé-sseis, fize-ssem
* Futuro do subjuntivo: fize-r, fize-res, fize-r, fize-rmos, fize-rdes, fize-rem

TEMPOS E FORMAS NOMINAIS DE DERIVADOS DO INFINITIVO PESSOAL

O infinitivo impessoal (estudar, vender, permitir) é a base para a formação de três tempos do modo indicativo: o pretérito imperfeito, o futuro do presente e o futuro do pretérito. Além disso, é base também das formas nominais: o infinitivo pessoal, o particípio e o gerúndio.

a)  pretérito imperfeito do indicativo - forma-se pelo acréscimo das terminações -ava, -avas, -ava, -ávamos, -áveis, -avam (para os verbos da primeira conjugação) ou -ia, - ias, -ia, -íamos, -íeis, -iam (para os verbos da segunda e terceira conjugações) ao radical do infinitivo impessoal (estud-ar, vend-er, permit-ir);

b) futuro do presente do indicativo - forma-se pelo acréscimo das desinências -rei, -rás, -ra, -remos, -reis, -rão ao tema do infinitivo impessoal (estuda-r, vende-r, permiti-r);

c) futuro do pretérito do indicativo - forma-se pelo acréscimo das desinências -ria, -rias, -ria, -ríamos, -ríeis, -riam ao tema do infinitivo impessoal;

d) infinitivo pessoal - acrescentam-se as desinências -es (para a segunda pessoa do singular) e -mos, -des, -em (para as três pessoas do plural) ao infinitivo impessoal (estudar-, vender-, permitir-);

e) particípio regular - acrescenta-se a desinência -ado (para verbos da primeira conjugação) ou -ido (para verbos da segunda e terceira conjugações) ao radical do infinitivo impessoal;

f) gerúndio - acrescenta-se a desinência -ndo ao tema do infinitivo impessoal.

ESQUEMA DE FORMAÇÃO DOS TEMPOS E FORMAS NOMINAIS DERIVADOS DO INFINITIVO IMPESSOAL
(exemplo: verbo cantar)

* Infinitivo impessoal: cant-ar
* Partícipio: cant-ado
* Pretérito imperfeito do indicativo: cant-ava, cant-avas, cant-ava, cant-ávamos,  cantá-veis, cant-avam
* Infinitivo pessoal: cantar, cantar-es, cantar, cantar-mos, cantar-des, cantar-em
* Futuro do presente do indicativo: canta-rei, canta-rás, canta-rá, canta-remos,  canta-reis, canta-rão.
* Futuro do pretérito do indicativo: canta-ria,  canta-rias,  canta-ria,  canta-ríamos,  canta- ríeis,  canta-riam.
Gerúndio: canta-ndo
.............................................................

* Alguns poucos verbos não obedecem a um ou outro dos esquemas expostos; isso, no entanto, não chega a afetar a grande eficiência desses mecanismos de conjugação. Quando estudarmos os verbos irregulares, faremos mensão às mais importantes.

* Para os verbos da segunda e terceira conjugações, as desinências são diferentes das que surgem no esquema de formação do particípio e pretérito imperfeito do indicativo: - ido para o particípio e -ia, -ias, -ia, -íamos, -íeis, -iam para o imperfeito.

* Atente para o fato de que o infinitivo pessoal e o futuro do subjuntivo têm origens diferentes, o que implicará diferenças formais significativas em alguns verbos, como fazer (fazer, fazeres; fizer, fizeres), expor (expor, expores; expuser, expuseres), dizer (dizer, dizeres; disser, disseres) e outros.- fim do quadro.

7. ALGUNS VERBOS REGULARES QUE MERECEM DESTAQUES

O verbo optar é um típico verbo regular cuja conjugação apresenta detalhes importantes. Atente principalmente no presente do indicativo e tempos derivados: a pronúncia culta das formas verbais aí presentes é opto, optas, opta, optam; opte, optes, opte, optem. O mesmo vale para os verbos captar, adaptar, raptar, compactar etc. O problema é prosódico e não morfológico e ocorre de forma semelhante no verbo obstar: obsto, obstas, obsta, obstam; obste, obstes, obste, obstem.

Alguns outros verbos regulares cuja pronúncia culta merece destaque são:

apaziguar
Presente do indicativo: apaziguo, apaziguas, apazigua, apaziguamos, apaziguais, apaziguam
Presente do subjuntivo: apazigúe, apazigúes, apazigúe, apazigüemos, apazigüeis, apazigüem

enxaguar
Presente do indicativo: enxáguo, enxáguas, enxágua, enxaguamos, enxaguais, enxaguam
Presente do subjuntivo: enxágüe, enxágües, enxágüe, enxagüemos, enxagüeis, enxagüem

dignar
Esse verbo é mais empregado em sua forma pronominal (dignar-se) e apresentam a mesma acentuação tônica aos verbos impugnar e indignar-se.
Presente do indicativo: digno, dignas, digna, dignamos, dignais, dignam.
Presente do subjuntivo: digne, dignes, digne, dignemos, digneis, dignem

mobiliar
Presente do indicativo: mobílio, mobilias, mobília, mobiliamos, mobiliais, mobíliam
Presente do subjuntivo: mobílie, mibílies, mobílie, mobiliemos, mobilieis, mobíliem

Há também verbos foneticamente regulares, mas irregulares no que diz respeito à manutenção da estrutura formal. É o caso, por exemplo, do verbo dirigir: dirijo, diriges, dirige, dirigimos, dirigis, dirigem; dirija, dirijas, dirija, dirijamos, dirijais, dirijam. É fácil conjugar esse verbo oralmente; as dificuldades surgem no momento de escrever as formas verbais. É necessário, então, substituir a letra g, que faz parte do radical (dirig-) pela letra j, justamente para manter o padrão fonético.

Se fosse mantida a letra g do radical em toda a conjugação de verbos como dirigir, agir, fugir, fingir, haveria formas como 'eu dirigo", 'eu ago", "eu fugo", "eu fingo", "que eu diriga", "que eu fuga". Você notou que só será necessário trocar o g por j diante de a e o.

Para eliminar essas dificuldades, você deve dominar com segurança as relações (já estudadas em nosso livro) entre fonemas e letras. Os problemas surgem, obviamente, nos verbos que apresentam letras que servem para representar mais de um fonema ou naqueles que apresentam fonemas que podem ser representados por mais de uma letra.

Exigir é exemplo de verbo foneticamente regular, porém com irregularidade gráfica. Para manter o som do infinitivo, o g transforma-se em j no imperativo (exija) É o caso dos verbos cujo infinitivo se escreve com c, ç, g, gu: ficar: fico, fique; fiquei, ficaste; descer: desço, desça; desci, desceste; atiçar: atiço, atice; aticei, atiçaste; carregar: carrego, carregue; carreguei, carregaste; fingir: finjo, finges; fingi, fingiste; erguer: ergo, ergues; ergui, ergueste.

Merecem destaque extinguir e distinguir: nesses verbos, como em erguer, as letras gu representam um dígrafo. Ao conjugá-los, obtêm-se as formas extingo, extingues, extingue, etc.; distingo, distingues, distingue, etc. Portanto você não deve pronunciar a letra u durante a conjugação desses verbos.


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