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segunda-feira, 14 de março de 2016

Algumas razões para ser um cientista - 3

(Continuação da obra "Algumas razões para ser um cientista")


Cientistas nascem a todo minuto

James W. Cronin
(Instituto Enrico Fermi - Universidade de Chicago)

Há muitas histórias contadas por cientistas bem sucedidos que são comoventes, pois grandes dificuldades tiveram que ser superadas, ou por conta de um regime abusivo, ou um sistema educacional tentando sobreviver em um país empobrecido, ou por conta dos sistemas de escolas “separadas, mas iguais”, como nos Estados Unidos.

Eu creio que em qualquer lugar do mundo há potenciais cientistas nascidos a todo minuto. Nós os perdemos por conta da falta de oportunidade, ou pelo desencorajamento deliberado, especialmente no caso de mulheres em muitos países.

O Centro Internacional para a Física Teórica (ICTP) é uma instituição que tenta superar as enormes disparidades no acesso à ciência pura. Eu nunca me esquecerei da afirmação de um ex-diretor do ICTP, Miguel Virasoro: “a oportunidade de participar da ciência pura é um direito humano básico!”.

É com estes alertas que lembro de minha experiência em tornar-me um cientista. Eu nasci numa família de professores universitários, não ricos, mas com um padrão de vida confortável. Meu pai era professor de línguas clássicas na Universidade Metodista do Sul (SMU) em Dallas, Texas. Vivíamos numa vizinhança afluente com um sistema educacional excelente, desde que se fosse branco...

Suponho que eu já tivesse um interesse em ciências como parte de minha natureza, assim como muitos outros colegas. Tínhamos “kits” de química e construíamos rádios à válvula (cristal). Com este tipo de interesse teria sido natural estudar engenharia, quando se chegasse à universidade.

Meu interesse pela física, porém, foi estimulado por um extraordinário professor que tive na escola de Highland Park. Suas aulas tinham fama de serem muito difíceis. Consciente ou inconscientemente, ele assustava todos os garotos. O Sr. Marshall demonstrou para nós que a física era uma ciência experimental e havia muito trabalho de laboratório no seu curso.

A propósito, sugiro que o ICTP poderia pensar em ampliar seu foco para a física experimental, pois pode-se ter certeza de que a todo minuto em qualquer parte do mundo potenciais cientistas experimentais nascem, assim como cientistas teóricos.

Vou dar dois exemplos das aulas do Sr. Marshall. Ele exigiu que construíssemos um motor elétrico, encontrando as partes em ferros-velho ou lojas de segunda-mão. O motor tinha que ter uma parte que rodasse quando um potencial de seis volts fosse aplicado. A variedade de soluções criativas que foram realizadas foi memorável. O segundo projeto foi construir um transformador que servisse para reduzir a tensão AC de 120 volts para saídas de 12 volts, 6 volts e 3 volts. Adicionalmente, o transformador tinha que agüentar uma carga que consumisse 10 watts.

A maioria de nós foi a lojas de quinquilharias para conseguir um núcleo de transformador e algum fio. A gente tinha que contar as voltas do fio no núcleo. A maioria conseguiu núcleos parrudos, mas um estudante pegou o núcleo do transformador de um alto-falante velho. Isto produziu a voltagem correta, mas quando o teste de potência foi executado, o transformador virou literalmente fumaça. Uma lição inesquecível foi transmitida. Aquele aluno em particular estava aos prantos, mas ele era um excelente pianista e mais tarde foi para a Escola Julliard, em Nova Iorque.

Eu descobri por estas aulas de física do secundário que eu adorava analisar dados, qualquer dado, o desvio de um pêndulo da constante quando a amplitude era muito grande, ou os detalhes da chegada ao equilíbrio de um calorímetro.

Quando eu estava no secundário, li também vários livros de ciência sérios para jovens: gostei especialmente do livro de George Gamow, intitulado “Um Dois Três... Infinito: Fatos e Especulações em Ciência”.

Quando fui para a universidade, a SMU, eu tinha planejado estudar engenharia. Meu pai sabiamente sugeriu que eu fizesse uma graduação em física e matemática e depois fosse estudar engenharia, se este ainda fosse meu interesse. Quando completei a graduação, foi natural continuar na física. Fui aceito na pós-graduação da Universidade de Chicago.

Naquela época, 1951, Chicago certamente tinha o melhor departamento de física do mundo. Tive aulas com Enrico Fermi, Edward Teller, Murray Gell-Mann, Richard Garwin, Valentine Telegdi, Marvin Goldberger, e Gregor Wentzel. A atmosfera gerava em todos os estudantes uma paixão pela física e, sendo o período logo após a Segunda Guerra Mundial, uma era de ouro para a física estava se iniciando. Eu podia combinar minha paixão pelos dados, com um senso de que a gente devia fazer experimentos que produzissem resultados de importância. Aprendi também que a física é basicamente uma ciência experimental. A não ser que se fosse tão brilhante como Gell-Mann ou Feynman, era melhor fazer experimentos.

Como a física era um campo em expansão naquela época, havia muitas oportunidades de emprego. Fui parar na Universidade de Princeton, onde em 1964, com os colegas Jim Christenson, Val Fitch, e René Turlay, fizemos uma descoberta de importância fundamental, ou seja, que os universos de matéria e anti-matéria tem um comportamento ligeiramente diferente. Isto não foi uma descoberta teórica, mas sim  experimental, realizada com equipamento feito em casa, sempre no limiar de quebrar.

É uma fascinação constante para mim que um monte de equipamento, fios, detectores e magnetos, alimentados por um lindo acelerador, possam produzir um resultado que é relevante para o nosso entendimento mais profundo sobre o espaço e o tempo...


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