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quinta-feira, 3 de março de 2016

As evidências da evolução (R. Dawkins) - 6

(Continuação da obra "As evidências da evolução",
de Richard Dawkins)

Capítulo 6
Elo perdido? Como assim, "perdido"?

Celacanto - um peixe "fóssil-vivo"

"Seria ótimo se os que se opõem à teoria da evolução
se dessem o pequeno trabalho de aprender
ao menos os rudimentos daquilo a que se opõem."
(R. Dawkins)

"Nós, vertebrados de terra firme,
somos peixes pulmonados aberrantes"
(R. Dawkins)


Os criacionistas são tremendamente apaixonados pelo registro fóssil porque foram ensinados (uns pelos outros) a repetir vezes sem conta o mantra de que ele é cheio de "lacunas": "Mostre-me os seus 'intermediários'!" Imaginam ingenuamente (muito ingenuamente) que essas "lacunas" sejam um estorvo para os evolucionistas.

Na verdade, temos sorte por existirem fósseis, e ainda mais nas colossais quantidades de que hoje dispomos para documentar a história evolucionária — fósseis em profusão que, por quaisquer critérios, constituem belos "intermediários".

Salientarei nos capítulos 9 e 10 que não precisamos de fósseis para demonstrar que a evolução é um fato. As evidências da evolução estariam totalmente garantidas mesmo se nenhum corpo jamais houvesse se fossilizado. É um benefício adicional dispormos de ricas jazidas fósseis para explorar, e a cada dia outras mais são descobertas.

As evidências da evolução provenientes dos fósseis em muitos grupos importantes de animais são maravilhosamente eloquentes. Não obstante, é óbvio que existem lacunas, amadas até a obsessão pelos criacionistas.

Façamos uso mais uma vez da analogia do detetive que chega à cena de um crime para o qual não há testemunha ocular. O baronete foi baleado. Impressões digitais, pegadas, DNA de uma mancha de suor no revólver e um forte motivo: tudo aponta para o mordomo.

É um caso fácil de desvendar, e o júri e todos no tribunal estão convencidos de que a culpa é do mordomo. Mas um indício é descoberto no último minuto, quando o júri já está prestes a se retirar para deliberar sobre o que parece ser o inevitável veredicto de culpa: alguém se lembra de que o baronete havia instalado câmeras contra ladrões.

De respiração suspensa, o tribunal assiste aos filmes. Um deles mostra o mordomo abrindo a gaveta na despensa, tirando um revólver, carregando-o e saindo sorrateiramente do aposento com um brilho malévolo nos olhos.

Você poderia pensar que isso reforça ainda mais o caso contra o mordomo. Mas veja o que vem em seguida. O advogado do mordomo astutamente ressalta que não havia câmera na biblioteca onde o assassinato ocorreu, nem no corredor que vai da despensa à biblioteca. De dedo em riste, naquele jeito imperioso dos advogados, ele frisa: "Há uma lacuna nos registros em vídeo! Não sabemos o que aconteceu depois que o mordomo saiu da despensa. Claramente não há evidências suficientes para condenar meu cliente".

Em vão o promotor retruca que havia uma segunda câmera na sala de bilhar, e que ela mostra, pela porta aberta, o mordomo, de arma em punho, aproximando-se na ponta dos pés pelo corredor em direção à biblioteca. Sem dúvida isso remove a lacuna no registro do vídeo, não? Sem dúvida a culpa do mordomo agora é inequívoca, não é?

Nada disso. Triunfante, o advogado de defesa lança mão de seu trunfo. "Não sabemos o que aconteceu antes ou depois que o mordomo passou pela porta aberta da sala de bilhar. Agora há duas lacunas no registro em vídeo. Senhoras e senhores do júri, minha defesa está concluída. Agora há ainda menos evidências do que antes contra meu cliente."

O registro fóssil, como a câmera na história de detetive, é uma vantagem a mais, um bônus, algo que não devemos esperar como um direito adquirido. Sem a câmera já existem evidências mais do que suficientes para condenar o mordomo, e o júri estava mesmo prestes a dar o veredicto de culpado antes de a câmera ser descoberta.

Analogamente, há evidências mais do que suficientes de que a evolução é um fato no estudo comparativo de espécies modernas (capítulo 10) e sua distribuição geográfica (capítulo 9). Não precisamos de fósseis — o argumento em defesa da evolução é inexpugnável mesmo sem eles; por isso, é paradoxal usar as lacunas no registro fóssil como se elas fossem uma evidência de que não existe evolução.

Como eu disse, temos sorte de existirem fósseis. O que seria uma evidência contra a evolução, e uma evidência poderosíssima, seria a descoberta de um fóssil, um único que fosse, no estrato geológico errado. Já expliquei isso no capítulo 4.

O geneticista e biólogo evolucionário J. B. S. Haldane, quando lhe foi pedido para mencionar algo que, caso fosse observado, refutaria a teoria da evolução, deu uma resposta célebre: "Fósseis de coelho no Pré-cambriano!". Nunca, jamais foi encontrado nenhum coelho fossilizado, nenhum fóssil autenticamente anacrônico de coelho no Pré-cambriano. Todos os fósseis que temos, e eles são muitíssimos, ocorrem, sem exceção autenticada, na sequência temporal certa.

Sim, existem lacunas nas quais não há fóssil nenhum, e isso seria mesmo de se esperar. Mas jamais foi encontrado um fóssil sequer antes que seu espécime pudesse ter evoluído. Esse é um fato extraordinariamente eloquente (e não há razão para esperar vê-lo mencionado na teoria criacionista).

Como brevemente comentei no capítulo 4, uma boa teoria, uma teoria científica, é aquela que é vulnerável à refutação mas não se consegue refutá-la. A evolução poderia ser facilmente refutada se um único fóssil aparecesse na ordem temporal errada. A evolução passou no teste com louvor. Os céticos que desejam provar o contrário deveriam estar diligentemente escavando nas rochas, numa desesperada tentativa de encontrar fósseis anacrônicos. Quem sabe achem algum. Quer apostar?

A maior lacuna, a mais adorada pelos criacionistas, é a que precede a chamada Explosão Cambriana.

Há pouco mais de meio bilhão de anos, na era Cambriana, a maioria dos grandes filos animais — as principais divisões no mundo animal — "subitamente" aparece no registro fóssil. Subitamente quer dizer que não se conhecem fósseis desses grupos animais em rochas anteriores às cambrianas, e não que tudo aconteceu em um instante: o período em questão abrange cerca de 20 milhões de anos.

Vinte milhões de anos parece pouco tempo quando pensamos em algo ocorrido há meio bilhão de anos. Mas, é claro, representam exatamente o mesmo espaço de tempo para evolução que 20 milhões de anos hoje!

De qualquer modo, ainda assim é algo bem súbito e, como escrevi em outro livro, o Cambriano nos mostra um número substancial de importantes filos animais já em um estado avançado de evolução, logo na primeira vez em que aparecem. É como se houvessem simplesmente sido colocados ali, sem nenhuma história evolutiva.

Nem é preciso dizer que os criacionistas vibram com essa aparência de colocação súbita. A última sentença mostra que fui perspicaz o bastante para perceber que os criacionistas gostariam da Explosão Cambriana. Naquele tempo (1986 [Dawkins está aqui referindo-se a um texto seu desse ano]) não tive, contudo, a perspicácia de prever que eles, na maior tranquilidade, citariam minhas palavras em defesa própria, vezes sem conta, cuidadosamente omitindo minha pormenorizada explicação.

Deu-me na telha fazer uma busca na internet pelas palavras "é como se houvessem simplesmente sido colocados ali, sem nenhuma história evolutiva". Obtive nada menos do que 1250 resultados.

Como um tosco teste de controle para a hipótese de que a maioria desses resultados representava deturpações da minha citação por criacionistas, tentei, para comparação, fazer uma busca da frase imediatamente seguinte à citação acima, extraída de O relojoeiro cego: "Mas os evolucionistas de todas as vertentes acreditam que isso realmente representa uma lacuna enorme no registro fóssil". Obtive um total de 63 resultados, em comparação com os 1250 para a frase anterior. A razão entre 1250 e 63 é 19,8. Poderíamos chamá-la de Índice de Deturpação de Citações.

Já expus em detalhes a questão da Explosão Cambriana, especialmente em Desvendando o arco-íris. Acrescentarei aqui apenas um fato, ilustrado pelos platelmintos, ou vermes chatos. Esse grande filo de vermes inclui a fascíola e a tênia, parasitas importantes na área da saúde. Mas os meus favoritos são os turbelários, vermes de vida livre que somam mais de 4 mil espécies — mais ou menos tão numerosas quanto o conjunto das espécies de mamíferos.

Alguns desses turbelários são criaturas belíssimas, como se vê nas duas figuras a seguir [vide original]. Eles são comuns na água e em terra, presumivelmente há muito tempo. Por isso, você poderia supor que têm uma rica história fóssil. Infelizmente, não têm quase nenhuma. Além de um punhado de ambíguos vestígios fósseis, nunca foi encontrado um verme chato fossilizado. Os platelmintos, no universo dos vermes, estão "já em um estado avançado de evolução, logo na primeira vez em que aparecem. É como se houvessem simplesmente sido colocados ali, sem nenhuma história evolutiva". Só que, neste caso, a "primeira vez em que aparecem" não é no Cambriano, e sim em nossos dias [isto é, eles não formam fósseis].

Percebe o leitor o que isso significa, ou pelo menos deveria significar, para os criacionistas? Eles acreditam que os vermes chatos foram criados na mesma semana em que foram feitos todos os outros seres. Portanto, tiveram exatamente o mesmo tempo que todos os outros animais para fossilizar-se. Durante todos os séculos em que todos aqueles animais com ossos ou conchas estavam depositando seus fósseis aos milhares, os vermes chatos devem ter vivido alegremente ao lado deles, mas sem deixar um único vestígio significativo de sua presença nas rochas.

Sendo assim, o que há de tão especial nas lacunas que encontramos no registro dos animais que efetivamente se fossilizam, dado que a história passada dos vermes chatos é uma única grande lacuna — muito embora os vermes chatos, segundo a explicação dos próprios criacionistas, vivem há exatamente o mesmo tempo?

Se a lacuna antes da Explosão Cambriana é usada como evidência de que a maioria dos animais surgiu subitamente no Cambriano, exatamente a mesma "lógica" deveria servir para provar que os vermes chatos surgiram ontem. Só que isso contradiz a crença criacionista de que os vermes chatos foram criados durante a mesma semana criativa em que todos os demais seres foram feitos. Não se pode ter dois pesos e duas medidas.

Esse argumento destrói totalmente, de um só golpe, a alegação criacionista de que a lacuna do Pré-cambriano no registro fóssil enfraquece as evidências em favor da evolução.

Por que, do ponto de vista evolucionário, existem tão poucos fósseis antes da era Cambriana? Bem, presumivelmente, quaisquer fatores que se apliquem aos vermes chatos ao longo de todo o tempo geológico até nossos dias aplicam-se também ao resto do reino animal antes do Cambriano. Provavelmente antes do Cambriano a maioria dos animais tinha corpo mole como os vermes chatos modernos, e provavelmente também esses animais eram bem pequenos, como os modernos turbelários — péssimo material para a fossilização. E então, há meio bilhão de anos, apareceu alguma coisa que permitiu aos animais fossilizar-se livremente — o surgimento de esqueletos duros, mineralizados, por exemplo.

Um nome mais antigo para a "lacuna no registro fóssil" é "elo perdido". Esse termo foi moda na Inglaterra em fins da era vitoriana e persistiu século XX adentro. Inspirado em uma compreensão equivocada da teoria darwiniana, ele foi usado como insulto, mais ou menos como hoje se usa "neandertal" coloquialmente (e injustamente).

Na lista de citações representativas do Oxford English dictionary vê-se uma de D. H. Lawrence, datada de 1930, contando que uma mulher lhe dissera que seu nome "fedia" e acrescentara: "Você, seu misto de elo perdido e chimpanzé".

O significado original, que é confuso, como mostrarei, implicava que a teoria darwiniana não apresentava um elo vital entre os humanos e outros primatas. Outra citação ilustrativa do dicionário, essa vitoriana, usa assim o termo: "Ouvi falar de um certo elo perdido, entre homens e macacos".

Os negadores da história até hoje adoram dizer, em um tom de voz que eles julgam sarcástico: "Mas vocês ainda não encontraram o elo perdido", e costumam rematar com algum motejo sobre o Homem de Piltdown.

Ninguém sabe quem perpetrou o embuste de Piltdown, mas, seja quem for, é responsável por muita confusão. O fato de um dos primeiros candidatos a fóssil de homem-macaco descoberto ter se revelado um logro forneceu aos negadores da história um pretexto para desconsiderar os numerosíssimos fósseis que não são fraudes, e eles ainda não se cansaram de cantar vitória por isso. Se examinassem os fatos, logo descobririam que hoje dispomos de um rico estoque de fósseis intermediários ligando os humanos modernos ao ancestral que temos em comum com os chimpanzés — isso do lado humano da divisão, frisemos.

É interessante que ainda não temos fósseis ligando esse ancestral (que não foi nem chimpanzé nem humano) aos chimpanzés modernos. Talvez seja porque os chimpanzés vivem em florestas, e nelas as condições para fossilização não são boas. Na verdade, são os chimpanzés, e não os humanos, que atualmente têm o direito de reclamar de elos perdidos!

Um dos significados de "elo perdido" é, portanto, a alegada lacuna entre os humanos e o resto do reino animal. Só que o 'elo perdido', nesse sentido, não está mais perdido, para dizer o mínimo. Retornarei a essa questão no próximo capítulo, que trata especificamente dos fósseis humanos. Outro significado diz respeito à alegada escassez das chamadas "formas transicionais" entre grupos importantes: entre répteis e aves, por exemplo, ou entre peixes e anfíbios. "Mostrem seus intermediários!"

Muitos evolucionistas respondem a esse desafio dos negadores da história jogando-lhes na cara os ossos do Archaeopteryx, o famoso "intermediário" entre "répteis" e aves. Isso é um erro, como mostrarei. O Archaeopteryx não é a resposta a um desafio, pois não há aqui um desafio digno de resposta. Apresentar um único fóssil famoso como o Archaeopteryx dá margem a uma falácia.

Na verdade, para um grande número de fósseis é possível apresentar bons argumentos que os apontem, cada um deles, como intermediários entre isto e aquilo. O suposto desafio que parece ser respondido pelo Archaeopteryx baseia-se em uma concepção ultrapassada, que era conhecida como a Grande Cadeia dos Seres, e essa será a expressão que usarei para examinar a questão mais adiante neste capítulo.

Os mais tolos de todos esses desafios sobre o "elo perdido" são os dois a seguir (ou as variantes deles, que são muitas).

Primeiro: "se as pessoas descendem dos macacos via rãs e peixes, por que o registro fóssil não contém um 'rãcaco'?" Já vi um criacionista muçulmano indagar truculentamente por que não existem crocopatos.

Segundo: "acreditarei na evolução quando vir uma macaca dar à luz um bebê humano". Este segundo comete o mesmo erro de todos os outros, e um adicional, que é supor que uma grande mudança evolucionária ocorre da noite para o dia.

Duas dessas falácias por acaso aparecem lado a lado na longa lista de comentários que acompanham um artigo publicado no Sunday Times londrino a respeito de um documentário sobre Darwin que apresentei na televisão:

"A opinião de Dawkins sobre religião é absurda, pois a própria Evolução nada mais é do que uma religião — você tem de acreditar que todos nós proviemos de uma única célula [...] e que uma lesma pode se tornar um macaco etc. Hahaha! — essa é a religião mais cômica que já apareceu! Joyce, Warwickshire, Reino Unido."

"Dawkins deveria explicar por que a ciência não encontrou os elos perdidos. Fé em ciência infundada é mais conto de fadas do que fé em Deus. Bob, Las Vegas, EUA."

Este capítulo lidará com todas essas falácias, a começar pela mais tola de todas, já que a resposta a ela servirá de introdução para as demais.

"ENTÃO ME MOSTRE O CROCOPATO!"

Por que o registro fóssil não contém um rãcaco? Ora, obviamente macacos não descendem de rãs. Nenhum evolucionista mentalmente são afirmou tal coisa, nem disse que patos descendem de crocodilos ou vice-versa.

Macacos e rãs têm um ancestral em comum, que certamente não era nada parecido com uma rã nem com um macaco. Talvez lembrasse um pouco uma salamandra, e, de fato, temos fósseis semelhantes à salamandra datados da época certa. Mas isso não vem ao caso. Cada uma dos milhões de espécies de animais tem um ancestral em comum com cada uma das demais.

Se a sua compreensão da evolução é tão deturpada que você acha que poderíamos esperar ver um rãcaco e um crocopato, você também apontará com sarcasmo a ausência de um cãopótamo e de um elefanzé. Ora, e por que se limitar aos mamíferos? Por que não um cangurata (intermediário de canguru e barata), ou um polvardo (intermediário de polvo e leopardo)? É infinito o número de nomes de animais que se podem juntar dessa maneira.

Evidentemente, hipopótamos não descendem de cães, ou vice-versa. Chimpanzés não descendem de elefantes, ou vice-versa, assim como macacos não descendem de rãs. Nenhuma espécie moderna descende de qualquer outra espécie moderna (se abstrairmos as separações de espécies muito recentes).

Assim como podemos encontrar fósseis que se aproximam do ancestral comum de rãs e macacos, também podemos descobrir fósseis que se aproximam do ancestral comum de elefantes e chimpanzés.

Um deles, chamado Eomaia, viveu no Cretácio Inferior, há pouco mais de 100 milhões de anos. Como se vê [vide imagem no original], o Eomaia não se parecia nem um pouco com um chimpanzé nem com um elefante. Vagamente semelhante a um musaranho, é provável que ele tenha sido bem parecido com o ancestral comum de ambos, do qual foi aproximadamente contemporâneo, e podemos ver que muita mudança evolucionária ocorreu ao longo das duas trajetórias — de um ancestral parecido com o Eomaia até o descendente elefante, e desse mesmo ancestral parecido com o Eomaia com o descendente chimpanzé.

Mas ele não é, em nenhum sentido, um elefanzé. Se fosse, também teria de ser um cãoti, pois tudo o que for ancestral comum de chimpanzés e elefantes também é ancestral comum de cães e manatis. E também teria de ser um aardvapótamo, pois o mesmo ancestral também é ancestral comum do aardvark e do hipopótamo. A própria ideia de um cãoti (ou elefanzé, aardvapótamo, canguceronte, bufaleão) é absolutamente não evolucionária e ridícula. E o mesmo se aplica ao rãcaco, sendo uma desgraça que o perpetrador desse gracejo barato, o pregador itinerante australiano John Mackay, tenha percorrido escolas britânicas em 2008, mascarado como "geólogo", ensinando a crianças inocentes que, se a evolução fosse verdade, o registro fóssil deveria incluir "rãcacos".

Exemplo igualmente absurdo encontramos no Atlas of creation do apologista muçulmano Harun Yahya. Esse livro enorme, luxuoso, lindamente ilustrado e estultamente ignorante custou sem dúvida uma fortuna para ser produzido, o que magnifica nosso assombro ao saber que foi distribuído gratuitamente a dezenas de milhares de professores de ciência, entre os quais me incluo. Não obstante as prodigiosas quantias gastas nesse livro, os erros que ele contêm tornaram- se legendários.

Com a missão de ilustrar a afirmação falsa de que a maioria dos fósseis antigos seria indistinguível de seus equivalentes modernos, Yahya mostra uma serpente marinha como se fosse uma enguia (dois animais tão diferentes que são classificados em diferentes classes de vertebrados), uma estrela-do-mar como um ofiuróide (na verdade, são diferentes classes de equinodermos), um verme anelídeo da família Sabellidae como um crinóide lírio-do-mar (que é um equinodermo: esses dois não só pertencem a filos diferentes, mas a diferentes sub-reinos, portanto dificilmente poderiam ser mais distantes um do outro enquanto ainda fossem ambos animais), e — o melhor de todos — uma isca de pesca que ele confundiu com uma mosca-d'água (ver página em cores 8).

Mas além dessas pérolas ridiculamente proselitistas, o livro contém uma seção sobre elos perdidos. Uma figura é apresentada, a sério, com o objetivo de ilustrar o fato de não existir nenhuma forma intermediária entre um peixe e uma estrela-do-mar. Acho impossível acreditar que o autor realmente pensa que os evolucionistas esperariam encontrar uma transição entre dois animais tão diferentes quanto uma estrela-do-mar e um peixe. Por isso, só me resta suspeitar que ele conhece muito bem o seu público [religioso] e está, de modo deliberado e cínico, explorando sua ignorância.

"ACREDITAREI NA EVOLUÇÃO QUANDO UMA MACACA DER À LUZ UM BEBÊ HUMANO"

Repito: os humanos não descendem de macacos. Temos um ancestral em comum com eles. Por acaso, o ancestral comum seria muito mais parecido com um macaco do que com um homem, e provavelmente o chamaríamos de macaco se o encontrássemos, há cerca de 25 milhões de anos. Mas embora os humanos tenham evoluído de um ancestral que poderíamos sensatamente chamar de macaco, nenhum animal dá à luz uma nova espécie instantaneamente, ou pelo menos não a um ser tão diferente de si mesmo quanto um homem de um macaco, ou mesmo de um chimpanzé.

A evolução não é assim. A evolução é um processo gradual de fato, e além disso só tem poder explanatório sendo gradual. Enormes saltos numa única geração — como na ideia de uma macaca dar à luz um ser humano — são quase tão improváveis quanto a criação divina, e excluídos de consideração pela mesma razão: estatisticamente improvável em demasia. Seria ótimo se os que se opõem à evolução se dessem o pequeno trabalho de aprender ao menos os rudimentos daquilo a que se opõem.

O PERNICIOSO LEGADO DA GRANDE CADEIA DOS SERES

Na base do capcioso clamor pelos "elos perdidos" frequentemente está um mito medieval que ocupou a mente dos homens até o tempo de Darwin e teimosamente os confundiu mesmo depois. Refiro-me ao mito da Grande Cadeia dos Seres, segundo o qual tudo no universo situa-se numa escada, com Deus no topo e em sequência descendente os arcanjos, as várias ordens de anjos, os seres humanos, os animais, as plantas e por fim as pedras e outras criações inanimadas. Uma vez que isso remonta ao tempo em que o racismo era como que uma segunda natureza, não é preciso acrescentar que nem todos os seres humanos ocupavam o mesmo degrau. Ah, não. E, obviamente, os homens ficavam em um saudável degrau acima das mulheres de seu tipo (sendo essa a razão pela qual me permiti dizer "ocupou a mente dos homens" e não "das pessoas" na primeira sentença deste parágrafo).

Mas foi a alegada hierarquia no reino animal que mais contribuiu para turvar as águas quando a ideia de evolução irrompeu em cena. Pareceu natural supor que animais "inferiores" evoluíssem para animais "superiores". E, sendo assim, deveríamos esperar ver "elos" entre eles, desde a base até altos degraus da "escada". Uma escada com uma porção de degraus faltantes não era convincente. É essa imagem da escada sem degraus que espreita por trás de boa parte do ceticismo quanto aos "elos perdidos". Mas todo o mito da escada é profundamente equivocado e antievolucionário, como agora mostrarei.

As expressões "animais superiores" e "animais inferiores" nos escapam da boca com tanta desenvoltura que ficamos chocados ao refletir que, longe de encaixar-se sem esforço no pensamento evolucionário, como alguém poderia supor, elas eram — e são — profundamente antitéticas a ele.

Julgamos saber que os chimpanzés são animais superiores e as minhocas são inferiores, achamos que sempre soubemos o que isso significa e supomos que a evolução tenha deixado isso ainda mais claro. Mas não é assim. Não está de modo algum claro que isso tenha algum significado. Ou, se significa algo, refere-se a tantas coisas diferentes que se torna um conceito enganoso e até pernicioso. Eis uma lista das idéias mais ou menos distintamente confusas que se pode ter quando se diz, por exemplo, que um macaco é "superior" a uma minhoca:

1. "Os macacos evoluíram das minhocas." Isso é falso, assim como é falso que os humanos evoluíram dos chimpanzés. Macacos e minhocas têm um ancestral comum.

2. "O ancestral comum do macaco e da minhoca era mais parecido com uma minhoca do que com um macaco." Bem, isso potencialmente faz mais sentido. Podemos até usar a palavra "primitivo" de um modo semipreciso, significando "que lembra os ancestrais", e obviamente é verdade que, nesse sentido, alguns animais modernos são mais primitivos do que outros. O que isso significa exatamente, se refletirmos, é que a mais primitiva entre duas espécies mudou menos desde o ancestral comum (todas as espécies, sem exceção, têm um ancestral comum se voltarmos o suficiente no tempo). Se nenhuma das espécies mudou drasticamente mais do que a outra, o termo "primitivo" não deve ser usado ao compará-las.

Vale a pena fazer agora uma pausa para discutir um assunto relacionado. É difícil medir graus de semelhança. E, no fim das contas, não existe uma razão necessária para que o ancestral comum de dois animais modernos seja mais parecido com um do que com outro. Se olharmos dois animais, por exemplo, um arenque e uma lula, é possível que um deles seja mais parecido com o ancestral comum do que o outro, mas nem por isso se pode dizer que tem de ser assim.

O tempo decorrido para que ambos divergissem do ancestral comum foi exatamente o mesmo, portanto a primeira suposição de um evolucionista poderia ser, na verdade, que nenhum animal moderno deve ser mais primitivo do que qualquer outro. Poderíamos esperar que ambos tenham mudado num mesmo grau, porém em direções distintas, desde a época do ancestral comum.

Acontece que essa suposição frequentemente não se confirma (como no caso do macaco e da minhoca), mas nem por isso há uma razão necessária para que devamos esperar que seja assim. Além disso, as diferentes partes dos animais não têm de evoluir todas à mesma velocidade. Um animal poderia ser primitivo da cintura para baixo mas altamente evoluído da cintura para cima. Agora falando mais sério: um deles poderia ser mais primitivo em seu sistema nervoso; o outro, no esqueleto.

Cabe frisar que "primitivo" no sentido de "parecido com ancestrais" não precisa andar junto com "simples" (no sentido de menos complexo). Uma pata de cavalo é mais simples do que um pé humano (possui apenas um dedo em vez de cinco, por exemplo), mas o pé humano é mais primitivo (o ancestral que temos em comum com o cavalo tinha cinco dedos, como nós, portanto o cavalo mudou mais). Isso nos leva ao próximo item da nossa lista.

3. "Os macacos são mais inteligentes (ou mais bonitos, ou têm genoma maior, plano corporal mais complexo etc.) do que as minhocas." Esse tipo de esnobismo zoológico causa confusão quando se tenta aplicá-lo cientificamente. Só o menciono aqui porque muitos o confundem com os outros significados, e o melhor modo de esclarecer uma confusão é expô-la.

Você pode imaginar um grande número de escadas nas quais se classificariam os animais — não apenas as quatro que mencionei. Os animais situados no alto de uma dessas escadas podem ou não estar no alto de outra. Os mamíferos certamente possuem cérebro maior do que as salamandras, mas têm genomas menores que os de algumas delas.

4. "Os macacos são mais parecidos com os humanos do que as minhocas." Isso é inegável para o exemplo específico dos macacos e minhocas, mas e daí? Por que deveríamos escolher os humanos como o padrão para julgar outros organismos? Uma sanguessuga indignada poderia salientar que as minhocas têm a grande virtude de ser mais parecidas com as sanguessugas do que os humanos.

Apesar da tradicional classificação dos humanos entre os animais e os anjos na Grande Cadeia dos Seres, não existe justificação evolucionária para a suposição comum de que a evolução, sabe-se lá por quê, tem os humanos como "alvo" ou que os humanos são "a última palavra" da evolução.

É impressionante como essa pressuposição pretensiosa aflora com frequência. Em seu nível mais rudimentar, nós a encontramos naquela ubíqua pergunta impertinente "se os chimpanzés evoluíram até se tornarem humanos, como é que ainda existem chimpanzés?". Já mencionei esse disparate, e não estou brincando. Encontro essa questão vezes sem conta, vinda, às vezes, de pessoas aparentemente instruídas.

5. "Os macacos (e outros animais 'superiores') são mais hábeis para sobreviver do que as minhocas (e outros animais 'inferiores')." Isso não contém um pingo sequer de sensatez, muito menos de verdade. Todas as espécies vivas sobreviveram pelo menos até o presente. Alguns macacos, como o mico-leão-dourado, estão em risco de extinção. Têm mais dificuldade para sobreviver hoje em dia, portanto, do que as minhocas. Os ratos e as baratas prosperam, apesar de serem considerados por muita gente como "inferiores" aos gorilas e orangotangos, ambos perigosamente à beira da extinção.

Espero ter dito o suficiente para mostrar que não tem sentido escalonar as espécies modernas, como se fosse óbvio o que se quer dizer com "superior" e "inferior", e ter deixado claro que isso é totalmente antievolucionário.

Podemos imaginar um sem-número de escalas; em certos casos pode ser sensato classificar os animais em pelo menos algumas das escalas separadamente, mas as escalas não são bem correlacionadas umas às outras, e nenhuma delas tem o direito de ser chamada de "A escala evolucionária".

Tratamos da histórica tentação de cometer erros toscos como "por que não existem rãcacos?". Mas o pernicioso legado da Grande Cadeia dos Seres também insufla o questionamento: "onde estão os intermediários entre os principais grupos animais?" e, quase tão vergonhosamente, está por trás da tendência de alguns evolucionistas a responder a esse questionamento alardeando fósseis específicos, como o Archaeopteryx, o festejado "intermediário entre répteis e aves".

Não obstante, há outro aspecto na falácia do Archaeopteryx, e esse, por ter uma importância muito abrangente, merece que eu lhe dedique dois parágrafos, usando o Archaeopteryx como exemplo específico de um caso geral.

Os zoólogos tradicionalmente dividem os vertebrados em classes: divisões principais com nomes como mamíferos, aves, répteis e anfíbios. Alguns zoólogos, os chamados "cladistas", afirmam que uma classe propriamente dita deve consistir em animais que têm, todos, um ancestral comum que pertenceu a essa classe e não possui descendentes fora desse grupo.

As aves seriam um bom exemplo de classe. Todas as aves descendem de um único ancestral que também teria sido chamado de ave e que teria em comum com as aves modernas as características identificadoras fundamentais: penas, asas, bico etc.

Nesse sentido, os animais comumente designados como répteis não formam uma boa classe. Isso porque, pelo menos nas taxonomias convencionais, essa categoria explicitamente exclui as aves (elas formam uma classe própria), e no entanto alguns "répteis", assim reconhecidos convencionalmente (por exemplo, crocodilos e dinossauros), são parentes mais próximos das aves do que de outros "répteis" (por exemplo, lagartos e tartarugas). Na verdade, alguns dinossauros são mais próximos das aves do que de outros dinossauros.

Portanto, "répteis" é uma classe artificial, pois as aves são artificialmente excluídas dela. Em um sentido estrito, se fôssemos considerar os répteis uma classe verdadeiramente natural, teríamos de incluir nela as aves.

Zoólogos de inclinações cladistas evitam totalmente o termo "répteis", dividindo-os em arcossáurios (crocodilos, dinossauros e aves), lepidossáurios (cobras, lagartos e o raro Sphenodon da Nova Zelândia) e testudinídeos (tartarugas e jabutis). Os zoólogos sem inclinações cladistas contentam-se em usar a designação "réptil" por sua utilidade descritiva, apesar de ela excluir artificialmente as aves.

Mas o que há de especial nas aves que nos tenta a separá-las dos répteis? O que parece justificar que se dê às aves a honraria de "classe" quando, evolucionariamente falando, elas são apenas um ramo dos répteis? É o fato de que os répteis imediatamente ao redor delas, seus vizinhos próximos na árvore da vida, por acaso estão extintos, e só as aves, as únicas de seu grupo, continuaram vivas.

Os parentes mais próximos das aves encontram-se todos entre os dinossauros, extintos há tanto tempo. Se uma grande variedade de linhagens de dinossauros houvesse sobrevivido, as aves não se destacariam: não teriam sido elevadas à condição de uma classe específica de vertebrados, e ninguém estaria fazendo perguntas como "onde estão os elos perdidos entre répteis e aves?".

O Archaeopteryx ainda assim seria um belo fóssil para um museu, mas não teria seu presente papel de astro da resposta clássica ao desafio sem sentido (pois agora podemos entendê-lo dessa maneira) do "apresente os intermediários".

Se a extinção houvesse atingido de outro modo os grupos de animais, hoje teríamos uma porção de dinossauros andando pelo planeta, e entre eles estariam alguns emplumados, voadores e dotados de bico chamados de aves. Com efeito, dinossauros emplumados fossilizados vêm sendo descobertos em números crescentes, deixando vividamente claro que a exigência de "apresentar o elo perdido" não é uma questão fundamental para a qual o Archaeopterix seja a resposta.

Tratemos agora de algumas das principais transições na evolução, nas quais se supõe que elos estão "perdidos".

SAÍDOS DO MAR

Com exceção das viagens espaciais, é difícil imaginar um passo mais ousado ou mais radical do que trocar a água pela terra firme. Essas duas zonas vitais diferem em tantos aspectos que mudar de uma para a outra requer alterações radicais em quase todas as partes do corpo.

As guelras, tão boas para extrair oxigênio da água, são praticamente inúteis no ar, enquanto os pulmões não têm utilidade na água. Métodos de propulsão que na água são velozes, graciosos e eficientes são perigosamente desajeitados em terra firme e vice-versa. Não admira que "peixe fora d'água" tenha se tornado uma frase proverbial. E nem que "elos perdidos" nessa região do registro fóssil sejam alvo de um interesse além do usual.

Se voltarmos o bastante no tempo, todos os seres viviam no mar, alma mater molhada e salgada de toda a vida. Em vários pontos da história evolucionária, indivíduos empreendedores de muitos grupos animais mudaram-se para terra firme, e alguns finalmente foram morar nos mais ressequidos desertos, levando sua própria água marinha em seus fluidos sanguíneos e celulares.

Em adição aos répteis, aves, mamíferos e insetos que vemos à nossa volta, outros grupos que conseguiram empreender a grande jornada para fora do útero aquático da vida incluem os escorpiões, lesmas, crustáceos como o tatuzinho e os caranguejos terrestres, miriápodes e centopeias, aranhas e afins e no mínimo três filos de vermes. E não podemos esquecer as plantas, únicas fornecedoras de carbono usável, cuja invasão prévia da terra firme possibilitou todas as outras migrações.

Felizmente os estágios transicionais do nosso êxodo, quando os peixes vieram para terra firme, são primorosamente documentados no registro fóssil. E o mesmo se pode dizer sobre os estágios transicionais em sentido oposto muito tempo depois, quando os ancestrais das baleias e dugongos trocaram seu duramente conquistado lar em terra firme e voltaram para os mares ancestrais. Em ambos os casos, elos outrora faltantes hoje enriquecem em abundância nossos museus.

Quando dizemos que "peixes" subiram para terra firme, temos de lembrar que os "peixes", assim como os "répteis", não constituem um grupo natural. Os peixes são definidos por exclusão. 'Peixes' são todos os vertebrados com exceção dos que se mudaram para terra firme. Como toda a evolução inicial dos vertebrados ocorreu na água, não surpreende que a maioria dos ramos sobreviventes da árvore dos vertebrados ainda se encontre no mar. E ainda os chamamos de "peixes", mesmo quando são apenas parentes muito distantes de outros "peixes".

A truta e o atum são primos mais próximos dos humanos que dos tubarões, mas chamamos todos de "peixes". E os peixes pulmonados e os celacantos são primos mais próximos dos humanos que da truta e do atum (e, obviamente, do tubarão), mas também os chamamos de "peixes". Até os tubarões são primos mais próximos dos humanos do que das lampreias e do peixe bruxa (os únicos sobreviventes modernos do outrora florescente e diversificado grupo de peixes sem mandíbula), mas também os chamamos de peixes.

Vertebrados cujos ancestrais nunca se aventuraram em terra firme parecem-se todos com "peixes", nadam como peixes (diferentemente do golfinho, [que voltou para a água depois de ter andado na terra], que nada curvando a espinha verticalmente em vez de lateralmente como fazem os peixes) e, desconfio, têm gosto de peixe.

Para um evolucionista, como acabamos de ver no exemplo dos répteis e aves, um grupo "natural" de animais é aquele cujos membros são primos mais próximos uns dos outros do que de todos os outros não membros do grupo. "Aves", como vimos, são um grupo natural, pois têm um ancestral comum mais recente não compartilhado por não aves. Pela mesma definição, "peixes" e "répteis" não são grupos naturais.

O mais recente ancestral comum de todos os "peixes" também é ancestral de muitos não peixes. Se deixarmos de lado os tubarões, nossos primos distantes, nós, mamíferos, pertencemos a um grupo natural que inclui todos os peixes ósseos modernos (ósseos em contraste com tubarões cartilaginosos). Se em seguida deixarmos de lado os peixes ósseos "de nadadeiras raiadas" (salmão, truta, atum, acará — quase todos os peixes prováveis de se ver que não sejam tubarões), o grupo natural ao qual pertencemos inclui todos os vertebrados terrestres mais os chamados peixes de nadadeiras lobadas. É das fileiras dos peixes de nadadeiras lobadas que surgimos, e devemos agora dar a eles uma atenção especial.

Atualmente os peixes de nadadeiras lobadas resumem-se aos peixes pulmonados e aos celacantos ("resumem-se" como peixes, na verdade, mas podem expandir-se vertiginosamente entre os animais terrícolas: nós, vertebrados de terra firme, somos peixes pulmonados aberrantes). Eles são chamados de "nadadeiras lobadas" porque suas nadadeiras são como pernas, e não raiadas como as dos peixes com os quais estamos mais familiarizados.

Old Fourlegs [O Velho Quatro Pernas] é o título de um popular livro sobre os celacantos escrito por J. L. B. Smith, o biólogo sul-africano que é o grande responsável por trazê-los à atenção do mundo depois do emocionante episódio de 1938 em que o primeiro celacanto vivo foi descoberto em meio ao produto da pesca de uma traineira sul-africana. "Eu não teria ficado mais surpreso se visse um dinossauro andando pela rua", admirou-se o biólogo. Os celacantos já eram então conhecidos, mas como fósseis, e julgava-se que estavam extintos desde o tempo dos dinossauros. Smith escreveu comoventemente sobre o momento em que pôs os olhos pela primeira vez no estarrecedor achado ao ser chamado pela descobridora, Margaret Latimer (ele depois batizou o celacanto de Latimeria), para dar sua opinião de perito:

"Fomos direto para o Museu. A srta. Latimer não estava, o curador levou-nos à sala interna, e lá estava ele: o celacanto, sim, meu Deus! Eu viera preparado, mas aquela primeira visão me atingiu como uma rajada incandescente, e eu me pus a tremer, atordoado, o corpo em arrepios. Fiquei petrificado. Sim, sem sombra de dúvida, escama por escama, osso por osso, nadadeira por nadadeira, aquele era um verdadeiro celacanto. Igualzinho a uma daquelas criaturas de 200 milhões de anos atrás se ela voltasse à vida. Esqueci de tudo o mais, olhei, olhei e por fim, quase com medo, me aproximei, toquei-o, afaguei-o enquanto minha mulher observava em silêncio. A srta. Latimer chegou e nos cumprimentou calorosamente. Só então voltou-me a fala, cujas palavras exatas eu esqueci, mas foi para dizer-lhes que era verdade, era verdade mesmo, aquele era inquestionavalmente um celacanto. Nem mesmo eu podia duvidar mais."

Os celacantos são primos mais próximos dos humanos que da maioria dos peixes. Mudaram um pouco desde o tempo do nosso ancestral comum, mas não o suficiente para serem tirados da categoria de animais que, coloquialmente e para um pescador, seriam classificados como peixes. Mas eles, e os peixes pulmonados, são inquestionavelmente primos mais próximos do homem do que da truta, do atum e da maioria dos outros peixes. Celacantos e peixes pulmonados são exemplos de "fósseis vivos".

No entanto, não descendemos dos peixes pulmonados nem dos celacantos. Temos um ancestral em comum com os peixes pulmonados, o qual se parecia mais com eles do que com um humano. Mas não era extremamente parecido nem com uns nem com outro.

Os peixes pulmonados podem ser fósseis vivos, mas ainda assim não são muito semelhantes aos nossos ancestrais. Na busca destes, devemos procurar por fósseis reais em rochas. E em especial estamos interessados em fósseis da era Devoniana que reflitam a transição entre peixes, criaturas aquáticas, e os primeiros vertebrados a viver em terra firme.

Mesmo entre fósseis reais, seria otimismo demais esperar que viéssemos a encontrar exatamente os nossos ancestrais. No entanto, podemos esperar encontrar primos dos nossos ancestrais que sejam suficientemente próximos para nos dar uma idéia aproximada de como eles eram.

Uma das mais famosas lacunas no registro fóssil, tão flagrante que recebeu um nome, "Lacuna de Romer" (A. S. Romer foi um renomado paleontólogo americano), estende-se de aproximadamente 360 milhões de anos atrás, no fim do período Devoniano, até cerca de 340 milhões de anos, no início do Carbonífero Superior. Após a Lacuna de Romer encontramos criaturas inequivocamente anfíbias rastejando pelos pântanos, uma rica irradiação de animais parecidos com as salamandras, alguns deles grandes como crocodilos e vagamente parecidos com eles. Essa parece ter sido uma era de gigantes, com libélulas que tinham uma envergadura de asas do comprimento do meu braço — os maiores insetos que já viveram. A partir de aproximadamente 340 milhões de anos atrás, quase poderíamos chamar o Carbonífero de equivalente anfíbio da era dos dinossauros.

Mas antes disso houve a Lacuna de Romer. E antes dessa lacuna, Romer só conseguiu ver peixes, peixes de nadadeiras lobadas, vivendo na água. Onde estão os intermediários, e o que os levou a aventurar-se em terra firme?

Minha imaginação nos tempos de estudante universitário em Oxford incendiava-se com as conferências do prodigiosamente douto Harold Pusey. A despeito de suas palestras áridas e demoradas, ele tinha o dom de olhar além dos ossos ressequidos e ver os animais de carne e osso que precisavam sobreviver em um mundo já desaparecido. Sua evocação do que teria impelido alguns peixes de nadadeiras lobadas a adquirir pulmões e pernas, uma idéia que ele derivou do próprio Romer, memoravelmente fez sentido aos meus ouvidos de estudante, e ainda faz, embora seja menos festejada pelos paleontólogos atuais do que foi no tempo de Romer.

Este, assim como Pusey, imaginou que houve secas anuais durante as quais lagos, lagoas e riachos secavam, só voltando a encher-se no ano seguinte. Peixes poderiam beneficiar-se de uma capacidade temporária para sobreviver em terra, e alguns talvez se arrastassem de um lago ou lagoa rasa ameaçado de dessecação para outro mais profundo no qual pudessem sobreviver até a próxima estação. Segundo essa hipótese, nossos ancestrais não vieram para terra firme no sentido exato do termo, e sim a usaram como uma ponte temporária a fim de escapar de volta para a água. Muitos animais modernos fazem o mesmo.

Lamentavelmente, Romer apresentou sua teoria com um preâmbulo cujo propósito era mostrar que a era Devoniana foi um tempo de estiagens. Consequentemente, quando dados mais recentes refutaram essa suposição, isso pareceu refutar toda a teoria de Romer. Teria sido melhor se ele omitisse o preâmbulo, que, de qualquer modo, era supérfluo. Como mostrei em A grande história da evolução, a teoria ainda está de pé, mesmo que o Devoniano tenha sido menos assolado por secas do que Romer pensava.

De qualquer modo, voltemos aos próprios fósseis. Eles aparecem muito esparsamente em todo o Devoniano Superior, o período imediatamente precedente ao Carbonífero. São intrigantes vestígios de "elos perdidos", animais que percorreram parte do caminho que abrevia a lacuna entre os peixes de nadadeiras lobadas, tão abundantes nos mares devonianos, e os anfíbios que posteriormente colearam pelos pântanos do Carbonífero.

Do lado dos peixes nessa lacuna, o Eusthenopteron foi descoberto em 1881 numa coleção de fósseis do Canadá. Ele parece ter sido um peixe que caçava na superfície e provavelmente nunca veio para terra firme, não obstante algumas imaginativas reconstituições iniciais. Mas ainda assim ele tinha várias semelhanças anatômicas com os anfíbios de 50 milhões de anos depois, entre as quais os ossos cranianos, os dentes e, sobretudo, as nadadeiras. Embora provavelmente fossem usadas para nadar e não para andar, seus ossos apresentavam o típico padrão dos tetrápodes (nome dado a todos os vertebrados terrestres). No membro anterior, um único úmero juntava-se a dois ossos, rádio e ulna, ligados a numerosos ossinhos, que nós, tetrápodes, chamaríamos de carpo, metacarpo e dedos. E o membro posterior possui um padrão também semelhante ao dos tetrápodes.

Do lado dos anfíbios na lacuna, cerca de 20 milhões de anos mais tarde, na fronteira entre o Devoniano e o Carbonífero, causou comoção uma descoberta feita em 1932 na
Groenlândia: o Ichthyostega. A propósito, não se deixe enganar com imagens de frio e gelo. A Groenlândia, no tempo do Ichthyostega, estava no equador.

O Ichthyostega foi reconstituído pela primeira vez em 1955 pelo paleontólogo sueco Erik Jarvik, que também o retratou mais parecido com um animal terrestre do que hoje fazem os especialistas. A mais recente reconstituição, feita por Per Ahlberg na antiga universidade de Jarvik, Uppsala, situa o Ichthyostega sobretudo na água, embora ele provavelmente fizesse ocasionais incursões em terra.

No entanto, ele se parecia mais com uma enorme salamandra do que com um peixe, e tinha a cabeça achatada tão característica dos anfíbios. Em contraste com os tetrápodes modernos, os quais todos têm cinco dedos nas mãos e pés (pelo menos no embrião, embora possam perder alguns dedos quando adultos), o Ichthyostega tem sete dedos nos pés.

Ao que parece, os primeiros tetrápodes tiveram mais liberdade do que hoje temos para "experimentar" com vários números de dedos. Presumivelmente, em algum ponto os processos embriológicos fixaram-se nos cinco dedos e esse foi um passo difícil de reverter. Não tão difícil, na verdade, como se reconhece. Existem alguns gatos, e até humanos, com seis dedos. Os dedos extras provavelmente se devem a um erro de duplicação na embriologia.

Outra descoberta empolgante, também na Groenlândia tropical e datada da fronteira entre Devoniano e Carbonífero, é o Acanthostega. Ele também tinha crânio achatado como o dos anfíbios e membros parecidos com os dos tetrápodes; mas também se afastava, e ainda mais do que o Ichthyostega, do que hoje vemos como o padrão de cinco dedos: tinha oito.

Os cientistas que são os maiores responsáveis pelo conhecimento que hoje temos do Acanthostega, Jenny Clack e Michael Coates, da Universidade de Cambridge, supõem que, como o Ichthyostega, o Acanthostega vivia boa parte do tempo na água, mas tinha pulmões, e seus membros sugerem acentuadamente que ele era capaz de sobreviver em terra firme além de na água se fosse preciso. Ele também se parecia bastante com uma salamandra gigante.

Voltando agora ao lado dos peixes na divisão, o Panderichthys, também do Devoniano Superior, é um pouco mais similar a um anfíbio e menos parecido com um peixe do que o Eusthenopteron. Mas se você o visse, com certeza pensaria que é um peixe, e não uma salamandra.

Ficamos, pois, com uma lacuna entre o Panderichthys, o peixe com jeito de anfíbio, e o Acanthostega, o anfíbio com jeito de peixe. Onde está o "elo perdido" entre os dois?

Um grupo de cientistas da Universidade da Pennsylvania, entre eles Neil Shubin e Edward Daeschler, incumbiu-se de procurá-lo. Shubin fez dessa busca a base para uma fascinante série de reflexões sobre a evolução humana em seu livro Your innerfish.

Os cientistas deliberadamente pensaram em qual poderia ser o melhor lugar para procurar, e por fim escolheram uma área rochosa exatamente de fins da era Devoniana no Ártico canadense. Foram para lá e acharam uma mina de ouro zoológica: o Tiktaa-lik. Um nome que jamais será esquecido. Provém de uma palavra inuíte que designa um grande peixe de água doce. Quanto ao nome específico, roseae, permita-me contar uma história de alerta a mim mesmo.

Quando ouvi esse nome pela primeira vez e vi fotos como a que está reproduzida na página em cores 10, minha mente saltou de imediato para o Devoniano, o "Velho Arenito Vermelho", a cor do condado epônimo, Devon, a cor de Petra ("Uma cidade vermelho-róseo, quase tão velha quanto o tempo"). Infelizmente, eu estava bem enganado. A foto exagera o tom rosado. O nome, na verdade, foi escolhido em honra a um patrono que ajudou a financiar a expedição ao Devoniano Ártico.

Tive o privilégio de ver o Tiktaalik roseae, mostrado pelo dr. Daeschler quando almocei com ele na Filadélfia pouco depois de sua descoberta, e o zoólogo — ou talvez o peixe — que sempre existiu em mim ficou sem fala. Devaneei que estava olhando a face de meu ancestral direto. Irrealista, sim, mas aquele fóssil não tão rosado provavelmente era o mais próximo que eu jamais chegaria de encontrar um verdadeiro ancestral quase tão velho quanto o tempo.

Se você ficasse cara a cara com um Tiktaalik de verdade, vivo, poderia sobressaltar-se pensando estar diante de um crocodilo, pois seu rosto lembra esse animal. Uma cabeça de crocodilo num tronco de salamandra, ligado a uma extremidade posterior e a uma cauda de peixe. Ao contrário de qualquer peixe, o Tiktaalik tinha pescoço. Podia virar a cabeça; em quase todos os detalhes, ele é o perfeito elo perdido — perfeito porque divide quase exatamente a diferença entre peixe e anfíbio, e perfeito porque não está mais perdido. Temos o fóssil. Você pode vê-lo, tocá-lo, tentar adivinhar sua idade — e errar.

"TENHO DE VOLTAR PARA O MAR"

A mudança da água para a terra desencadeou uma reformulação fundamental de todos os aspectos da vida, da respiração à reprodução: foi uma grande jornada no espaço biológico. Contudo, no que parece quase um ato de rebelde perversidade, um bom número de animais totalmente terrestres mais tarde fez meia-volta, abandonou seu duramente conquistado equipamento reformado de viver em terra e marchou de volta para a água. As focas e os leões-marinhos voltaram só parcialmente. Eles nos mostram como talvez tenham sido os intermediários, animais a caminho para casos extremos como as baleias e dugongos.

As baleias (entre elas as pequenas que chamamos de golfinhos) e os dugongos, junto com seus primos chegados, os manatis, deixaram totalmente de ser criaturas terrícolas e reverteram por completo aos hábitos marinhos de seus ancestrais remotos. Não vêm à terra firme sequer para se reproduzir. No entanto, ainda respiram ar, pois nunca adquiriram um equivalente às guelras de seus remotos progenitores marinhos.

Entre outros animais que voltaram da terra para a água, ao menos em tempo parcial, temos os moluscos limneídeos, as aranhas-de-água, os besouros-de-água, crocodilos, lontras, serpentes do mar, musaranhos-d'água, cormorões-das-galápagos, iguanas- marinhos-das-galápagos, cuicas-d'água (marsupiais aquáticos sul-americanos), ornitorrincos, pinguins e tartarugas.

As baleias foram um enigma durante muito tempo, mas agora nosso conhecimento sobre sua evolução enriqueceu-se substancialmente. Evidências da genética molecular (veja no capítulo 10 uma exposição sobre esse tipo de evidência) indicam que os primos vivos mais próximos das baleias são os hipopótamos, em seguida os porcos e depois os ruminantes.

Ainda mais surpreendente é que os dados moleculares mostram que os hipopótamos são mais proximamente aparentados com as baleias do que com os animais de casco fendido (como os porcos e os ruminantes), cuja aparência é bem mais semelhante à deles.

Esse é mais um exemplo da disparidade que às vezes pode surgir entre a proximidade de parentesco e o grau de semelhança física. Nós a notamos acima, quando vimos que certos peixes são primos mais próximos dos humanos do que de outros peixes. Nesse caso, a anomalia surgiu porque nossa linhagem trocou a água pela terra e, consequentemente, passou por uma prodigiosa evolução, enquanto os peixes que são nossos primos próximos, os celacantos e os peixes pulmonados, continuaram a lembrar os peixes que são nossos primos mais distantes porque tanto uns como outros permaneceram na água.

Agora tornamos a encontrar esse fenômeno, porém ao inverso. Os hipopótamos permaneceram em terra, ao menos parcialmente, por isso ainda se parecem com seus primos terrestres mais distantes, os ruminantes, enquanto suas primas mais próximas, as baleias, foram para o mar e mudaram tão drasticamente que suas afinidades com os hipopótamos passaram despercebidas a todos os biólogos exceto os geneticistas moleculares.

Como ocorreu quando seus remotos ancestrais peixes originalmente seguiram na outra direção, essa mudança foi, de certa forma, como decolar para o espaço, ou pelo menos subir num balão, quando os ancestrais das baleias flutuaram livres dos restritivos freios da gravidade e cortaram suas amarras com a terra firme.

Ao mesmo tempo, o antes pobre registro fóssil da evolução das baleias foi convincentemente bem abastecido, sobretudo por um novo achado no Paquistão. Mas a história das baleias fossilizadas está tão bem registrada em outros livros recentes, como Evolution: what thefossils say and why it matters [Evolução: o que dizem os fósseis e por que isso tem importância], de Donald Prothero, e o mais recente Why evolution is true [Por que a evolução é verdade], de Jerry Coyne, que decidi não abordar aqui os mesmos detalhes. Restrinjo-me a um diagrama (ao lado), extraído do livro de Prothero, que mostra uma sequência de fósseis em ordem temporal. Note o cuidado com que se desenhou a figura.

É tentador — e livros mais antigos costumavam fazer isso — desenhar sequências de fósseis com setas dos mais antigos para os mais recentes. Mas ninguém pode afirmar, por exemplo, que o Ambulocetus descende do Pakicetus. Ou que o Basilosaurus descende do Rodhocetus. Em vez disso, o diagrama adota a política mais cautelosa de sugerir, por exemplo, que as baleias descendem de um primo contemporâneo do Ambulocetus, provavelmente parecido com este (e que até poderia ser realmente o Ambulocetus). Os fósseis mostrados são representativos de vários estágios da evolução das baleias.

O desaparecimento gradual dos membros posteriores, a transformação dos membros anteriores, de pernas que andavam em nadadeiras, e o achatamento da cauda em lobos triangulares estão entre as mudanças que surgiram em elegante cascata.

Isso é tudo o que direi a respeito da história fóssil das baleias, pois o tema já foi muito bem exposto nos livros que mencionei. O outro grupo de mamíferos marinhos, menos numeroso e diversificado mas também totalmente aquático, é o dos sirênios — dugongos e manatis. Apesar de não ser tão bem documentado no registro fóssil, nesse grupo foi descoberto recentemente um "elo perdido" de notável beleza: O fóssil Pezosiren, o "manati ambulante" da Jamaica, aproximadamente contemporâneo do Ambulocetus, a "baleia ambulante" do Eoceno. Ele é bem parecido com um manati ou um dugongo, só que tem pernas anteriores e posteriores adequadas para andar, enquanto os outros dois têm nadadeiras na parte anterior do corpo e nenhum membro posterior. A ilustração acima [vide original] mostra o esqueleto de um dugongo em cima e do Pezosiren embaixo.

Assim como as baleias são parentes dos hipopótamos, os sirênios o são dos elefantes, como atestam numerosas evidências, entre elas cruciais dados moleculares. No entanto, o Pezosiren provavelmente vivia como um hipopótamo, passando boa parte do tempo na água e usando as pernas para andar no fundo além de nadar. Seu crânio é inconfundivelmente de sirênio.

O Pezosiren pode ou não ter sido o verdadeiro ancestral dos manatis e dugongos modernos, mas sem dúvida é muito bem talhado para o papel. Quando este livro estava quase indo para o prelo, a revista Nature publicou a empolgante notícia da descoberta de um novo fóssil no Ártico canadense, fechando uma lacuna na linhagem das focas, leões-marinhos e morsas modernos (coletivamente designados como "pinípedes").

O Puijila darwinii, um único esqueleto do qual foram encontrados 65% da ossatura total, remonta ao Mioceno inferior (cerca de 20 milhões de anos atrás). Essa época é tão recente que o mapa múndi era então quase igual ao de hoje. Portanto, essa foca/leão-marinho do passado (eles ainda não haviam divergido) era um animal ártico, habitante de águas geladas. As evidências indicam que ele vivia e pescava em água doce (como a maioria das lontras, com exceção das famosas lontras marinhas da Califórnia), e não no mar (como a maioria das focas modernas, exceto a famosa foca do lago Baikal).

O Puijila não tinha nadadeiras, e sim pés palmados. Provavelmente corria como um cão em terra firme (em contraste com os pinípedes modernos), mas passava muito tempo na água, onde nadava como os cães, em contraste com os dois estilos adotados respectivamente pelas focas e pelos leões-marinhos modernos.

O Puijila está nitidamente com um pé em cada lado da lacuna entre terra firme e água na linhagem dos pinípedes. É mais uma esplêndida adição à nossa crescente lista de "elos" que não estão mais perdidos.

Vejamos agora outro grupo de animais que voltaram da terra para a água: um exemplo particularmente intrigante porque mais tarde alguns desses animais tornaram a reverter o processo, voltando para a terra pela segunda vez! As tartarugas-marinhas, em um aspecto importante, são menos apegadas à água do que as baleias e dugongos, pois ainda desovam na praia.

Como todos os vertebrados que retornaram à vida aquática, as tartarugas não deixaram de respirar ar, mas nessa função algumas delas saem-se melhor do que as baleias. Essas tartarugas extraem oxigênio adicional da água através de duas câmaras que elas possuem na extremidade posterior do corpo, ricamente supridas de vasos sanguíneos. Uma tartaruga fluvial australiana, inclusive, obtém a maior parte do oxigênio respirando pelo traseiro (como um australiano não hesitaria em dizer).

Antes de prosseguir, não posso escapar de um maçante comentário sobre terminologia, lamentavelmente confirmando a observação de George Bernard Shaw de que "Inglaterra e Estados Unidos são dois países divididos por uma língua comum". Na terminologia vigente na Grã-Bretanha, turtles vivem no mar, tortoises vivem em terra e terrapins vivem em água doce ou salobra. Nos Estados Unidos, todos esses animais são turtles, não importa se vivem em terra ou na água. Lana turtle [tartaruga terrícola] soa estranho aos meus ouvidos, mas não aos de um americano, para quem as tortoises são um subconjunto das turtles que vivem em terra.

Alguns americanos usam tortoise em um sentido taxonómico estrito para se referir aos Testudinidae, que é o nome científico das modernas tartarugas terrícolas. Na Grã-Bretanha, seríamos inclinados a chamar qualquer quelônio terrícola de tortoise, seja ele membro dos testudinídeos ou não (como veremos, existem fósseis de tortoises que viveram em terra firme mas não são membros dos Testudinidae).

Na discussão a seguir, tentarei evitar confusão, procurando esclarecer os leitores, mas é difícil. A terminologia é confusa, para dizer o mínimo. Os zoólogos usam "quelônio" para designar todos esses animais — turtles, tortoises e terrapins —, seja qual for a versão do inglês que falem.

A característica que se evidencia mais prontamente nos quelônios é o casco. Como ele evoluiu e como eram os intermediários? Onde estão os elos perdidos? De que serve metade de um casco (poderia indagar um criacionista fanático)?

Eis que, assombrosamente, um novo fóssil acaba de ser descrito e responde com eloquência essa questão. Ele fez sua estréia na revista Nature quando eu já estava para entregar este livro à editora. Era uma tartaruga aquática, encontrada na China em sedimentos do Triássico Superior, com idade estimada em 220 milhões de anos. Seu nome é Odontochelys semitestacea, do qual se pode deduzir que, ao contrário de uma tartaruga ou jabuti atuais, ela tinha dentes e realmente possuía meio casco. Sua cauda era bem mais longa que a das tartarugas e jabutis modernos. Essas três características destacam-no como material de primeira para um "elo perdido".

O ventre era coberto por um casco, chamado plastrão, de modo bem parecido com o visto nas tartarugas marinhas modernas. Mas o animal era quase totalmente destituído da porção dorsal do casco, conhecida como carapaça. Seu dorso presumivelmente era mole, como o de um lagarto, embora possuísse alguns trechos ósseos duros ao longo da linha mediana acima da espinha dorsal, como nos crocodilos, e as costelas eram achatadas, como se estivessem "tentando" formar os princípios evolucionários de uma carapaça.

E aqui temos uma interessante controvérsia. Os autores do artigo que apresentou o Odontochelys ao inundo, Li, Wu, Rieppel, Wang e Zhao (em atenção à brevidade, eu me referirei a eles como 'os autores chineses', embora Rieppel não seja chinês), pensam que seu animal realmente estava a meio caminho de adquirir um casco. Há quem não ache que o Odontochelys demonstre que o casco evoluiu na água.

A Nature tem o admirável costume de incumbir especialistas, não os próprios autores, de escrever um comentário sobre os artigos mais interessantes da semana, e publicá-lo numa seção intitulada "News and Views". O comentário da "News and Views" sobre o artigo a respeito do Odontochelys foi escrito por dois biólogos canadenses, Robert Reisz e Jason Head, que apresentaram uma interpretação alternativa. Talvez o casco completo tenha evoluído em terra, antes de os ancestrais do Odontochelys terem voltado para a água. E talvez o Odontochelys tenha perdido a carapaça depois de voltar para a água. Reisz e Head argumentam que algumas das tartarugas marinhas atuais, como a gigante tartaruga-de-couro, perderam ou reduziram sua carapaça, portanto sua teoria é bem plausível.

Preciso fazer uma breve digressão sobre a questão "de que serve meio casco?". Em particular, por que o Odontochelys seria blindado por baixo mas não por cima? Talvez porque o perigo viesse de baixo, o que sugeriria que essas criaturas passavam muito tempo nadando próximo à superfície — e obviamente precisavam mesmo ir à superfície para respirar. Os tubarões atuais costumam atacar de baixo, e no mundo do Odontochelys os tubarões devem ter sido uma ameaça considerável, não havendo razão para supor que seus hábitos de caça fossem diferentes naquela época.

Como exemplo paralelo, uma das mais importantes realizações da evolução, o par de olhos extra no peixe Bathylychnops (ver na página seguinte) provavelmente destina-se a detectar predadores que atacam por baixo. O olho principal olha para o exterior, como nos peixes comuns. Mas grudado na parte de baixo de cada um dos dois olhos principais há um pequeno olho extra, completo, com cristalino e retina. Se o Bathylychnops pode dar-se o trabalho (você sabe o que quero dizer, não seja pedante) de desenvolver todo um par adicional de olhos, presumivelmente para detectar ataques vindos de baixo, parece bem plausível que o Odontochelys pudesse adquirir uma blindagem destinada a protegê-lo de ataques vindos dessa mesma direção. O plastrão faz sentido.

E se você quiser retrucar que tudo bem, mas então por que não ter uma carapaça na parte de cima também, só para ficar mais seguro, a resposta é fácil. Carapaças são pesadas e estorvam, é dispendioso adquiri-las e transportá-las. Na evolução sempre há trade-offs. Para os jabutis, que são terrestres, o trade-off favorece uma blindagem forte e pesada em cima e embaixo. Para muitas tartarugas marinhas, o trade-off pende para o lado de um forte plastrão embaixo mas uma blindagem mais leve em cima. E é plausível a hipótese de que o Odontochelys só tenha levado um pouco além essa tendência.

Se, por outro lado, os autores chineses estiverem certos e o Odontochelys estava a caminho de adquirir pela evolução um casco completo, e se o casco tiver evoluído na água, é possível que os jabutis, possuidores de cascos bem desenvolvidos, descendam de tartarugas aquáticas. Isso, como veremos, provavelmente é verdade. Mas é notável, pois significa que os jabutis atuais representam uma segunda migração da água para terra. Ninguém jamais afirmou que baleias ou dugongos retornaram à terra firme depois de invadirem a água.

A história alternativa para os jabutis seria que eles viveram sempre em terra e ganharam seu casco independentemente por evolução, em paralelo às suas primas aquáticas. Isso não é impossível; mas acontece que temos boas razões para acreditar que as tartarugas marinhas realmente voltaram à terra firme para fazer uma segunda tentativa de tornar-se terrícolas.

Se traçarmos a árvore de parentesco de todas as tartarugas e jabutis modernos com base em comparações moleculares e outras, veremos que quase todos os ramos são aquáticos (nomes em caracteres normais no cladograma [vide imagem no original]). Os jabutis estão representados por caracteres em negrito, e podemos ver que os jabutis atuais constituem um único ramo, os Testudinidae, profundamente aninhados na rica ramificação que contém outros quelônios, todos aquáticos. Todos os seus primos próximos são aquáticos.

Os jabutis modernos são um único ramo na galhada cujos outros integrantes são tartarugas aquáticas. Seus ancestrais aquáticos transformaram-se em tartarugas e marcharam de volta para terra firme. Esse fato é compatível com a hipótese de que o casco evoluiu na água, em uma criatura semelhante ao Odontochelys.

Mas agora nos deparamos com outra dificuldade. Examinando a árvore de parentesco notamos que, além dos Testudiniae (todos jabutis modernos), existem dois gêneros fósseis de animais com casco completo chamados Proganochelys e Palaeochersis. Eles foram desenhados como animais terrícolas, por razões que abordaremos no próximo parágrafo. Situam-se fora dos ramos que representam as tartarugas aquáticas. Aparentemente esses dois gêneros são terrícolas desde os tempos mais remotos.

Antes de o Odontochelys ser descoberto, esses dois fósseis eram os mais antigos quelônios conhecidos. Como o Odontochelys, eles viveram no Triássico Superior, porém cerca de 15 milhões de anos mais tarde que o Odontochelys. Alguns especialistas reconstituíram-nos como animais de água doce, mas dados recentes situam-nos efetivamente em terra firme, como indicado pelos caracteres em negrito no diagrama.

Você talvez queira saber como é que podemos identificar se animais fósseis, especialmente quando são encontrados apenas fragmentos, viveram em terra ou na água. Às vezes é muito óbvio. Os ictiossauros foram contemporâneos reptilianos dos dinossauros, com nadadeiras e corpo hidrodinâmico. Os fósseis lembram golfinhos, e seguramente esses animais viviam como os golfinhos, na água.

O caso das tartarugas e jabutis é menos óbvio. Como seria de se esperar, a maior dica está nos membros. Nadadeiras são bem diferentes de pernas que andam em terra. Walter Joyce e Jacques Gauthier, da Universidade Yale, serviram-se dessa intuição dada pelo senso comum e forneceram números para corroborá-la. Fizeram três medições fundamentais nos ossos do braço e da mão de 71 espécies de quelônios vivos. Resistirei à tentação de explicar seus elegantes cálculos e direi apenas que a conclusão deles foi clara.

Esses animais tinham pernas que andavam, e não nadadeiras. Eram "jabutis", e não "tartarugas". Viviam em terra firme. Mas foram apenas primos distantes dos jabutis modernos.

Agora parece que temos um problema. Se, como acreditam os autores do artigo que descreve o Odontochelys, seu fóssil com meio casco demonstra que o casco evoluiu na água, como explicar dois gêneros de "jabutis" com casco completo em terra, 15 milhões de anos depois?

Até a descoberta do Odontochelys, eu não hesitaria em dizer que o Proganochelys e o Palaeochersis eram representativos do tipo ancestral terrícola antes da volta para a água. O casco evoluiu em terra firme. Alguns jabutis com casco voltaram para o mar, como mais tarde fariam as focas, baleias e dugongos. Outros permaneceram terrícolas, mas extinguiram-se. E depois algumas tartarugas marinhas retornaram à terra firme, originando todos os jabutis modernos.

É isso que eu diria — na verdade, foi o que disse no primeiro esboço deste capítulo, escrito antes do anúncio do Odontochelys. Mas esse novo achado jogou as conjecturas de volta ao caldeirão especulativo. Agora temos três possibilidades, todas igualmente fascinantes:

1. Proganochelys e Palaeochersis podem ter sido sobreviventes dos animais terrícolas que haviam anteriormente mandado alguns representantes para o mar, entre eles os ancestrais do Odontochelys. Esta hipótese sugeriria que o casco evoluiu antes em terra firme e que o Odontochelys perdeu a carapaça na água, conservando o plastrão ventral.

2. O casco pode ter evoluído na água, como aventam os autores chineses; primeiro teria evoluído o plastrão que reveste o ventre, e depois a carapaça que protege o dorso. Neste caso, como explicar o Proganochelys e o Palaeochersis, que viveram em terra depois do Odontochelys, com seu meio casco, ter vivido na água? Talvez o Proganochelys e o Palaeochersis tenham adquirido o casco independentemente na evolução. Mas há outra possibilidade:

3. Proganochelys e Palaeochersis poderiam representar um retorno anterior da água para terra firme. Não é uma idéia surpreendente e empolgante?

Já estamos razoavelmente confiantes quanto ao notável fato de que as tartarugas empreenderam uma dupla reversão para a terra firme: "jabutis" terrícolas de um tipo primevo retornaram ao ambiente aquático de seus ancestrais peixes, transformando-se em tartarugas marinhas, e depois novamente voltaram para terra firme, como uma nova encarnação de jabutis, os testudiníneos.

Isso nós sabemos, ou temos quase certeza. Mas agora nos defrontamos com a hipótese adicional de que essa dupla reversão aconteceu duas vezes! Não só o processo teria gerado os jabutis modernos mas, muito antes, teria originado o Proganochelys e o Palaeochersis durante o Triássico.

Em outro livro, chamei o DNA de "Livro Genético dos Mortos". Devido ao modo como a seleção natural atua, há um sentido no qual o DNA de um animal é uma descrição textual dos mundos nos quais seus ancestrais foram naturalmente selecionados. Para um peixe, o livro genético dos mortos descreve mares ancestrais. Para nós e a maioria dos mamíferos, os primeiros capítulos do livro são todos ambientados no mar, e os mais recentes, em terra. Para baleias, dugongos, iguanas-marinhos, pinguins, focas, leões-marinhos e tartarugas, existe uma terceira seção do livro que relata seu épico retorno ao campo de prova de seu passado remoto, o mar. Mas para os terrícolas jabutis, talvez duas vezes independentemente em duas ocasiões muito separadas, existe uma quarta seção do livro dedicada a uma derradeira (será mesmo?) reemergência, um outro retorno à terra firme. Será que existe algum outro animal para o qual o livro genético dos mortos consiste nesse tipo de palimpsesto de múltiplas guinadas evolucionárias?

Como última cogitação, não posso deixar de especular sobre as formas de água doce e salobra que chamamos de "cágados", primos próximos do jabuti. Teriam seus ancestrais mudado diretamente da água do mar para a água salobra e então para água doce? Será que eles representam um estágio intermediário no caminho de volta do mar à terra? Ou será possível que eles constituam ainda outra reversão à água de ancestrais que foram jabutis modernos? Será que os quelônios andaram jornadeando em idas e vindas entre a água e a terra ao longo do tempo evolucionário? O palimpsesto poderia ser ainda mais densamente reescrito do que sugeri até aqui?

PÓS-ESCRITO

Em 19 de maio de 2009, quando eu corrigia as provas deste livro, foi anunciado o achado de um "elo perdido" entre os primatas parecidos com lémures e macacos na revista científica online PLOS One. Batizado de Darwinius masillae, ele viveu há 47 milhões de anos numa área de floresta pluvial em território da atual Alemanha.

Segundo os autores, esse é o mais completo fóssil de primata já encontrado, não apenas com ossos, mas também pele, pelos, alguns órgãos internos e sua última refeição.

Por mais belo que indubitavelmente seja o Darwinius masillae, ele vem encoberto em nuvens de sensacionalismo que obscurecem o pensamento claro. Segundo a Sky News, o fóssil é a "oitava maravilha do mundo", que "finalmente confirma a teoria da evolução de Charles Darwin".

Céus! A mística um tanto absurda do "elo perdido" parece não ter perdido nada do seu poder...


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