Luz para a inteligência, Calor para a vontade

domingo, 27 de março de 2016

Às vezes entre a tormenta (Fernando Pessoa)



Às vezes entre a tormenta

Às vezes entre a tormenta,  
quando já umedeceu,  
raia uma nesga no céu,  
com que a alma se alimenta. 

E às vezes entre o torpor  
que não é tormenta da alma,  
raia uma espécie de calma  
que não conhece o langor. 

E, quer num quer noutro caso,  
como o mal feito está feito,  
restam os versos que deito,  
vinho no copo do acaso. 

Porque verdadeiramente  
sentir é tão complicado  
que só andando enganado  
é que se crê que se sente. 

Sofremos? Os versos pecam.  
Mentimos? Os versos falham. 
E tudo é chuvas que orvalham  
folhas caídas que secam.

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