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terça-feira, 29 de março de 2016

Azul ou verde ou roxo (Fernando Pessoa)



Azul ou verde ou roxo

Azul, ou verde, ou roxo quando o sol  
O doura falsamente de vermelho,  
O mar é áspero, casual ou mole,  
É uma vez abismo e outra espelho.  
Evoco porque sinto velho  
O que em mim quereria mais que o mar  
Já que nada ali há por desvendar. 

Os grandes capitães e os marinheiros  
Com que fizeram a navegação,  
Jazem longínquos, lúgubres parceiros  
Do nosso esquecimento e ingratidão. 
Só o mar às vezes, quando são  
Grandes as ondas e é deveras mar  
Parece incertamente recordar. 

Mas sonho... O mar é água, é água nua, 
Serva do obscuro ímpeto distante  
Que, como a poesia, vem da lua  
Que uma vez o abate outra o levanta.  
Mas, por mais que descante  
Sobre a ignorância natural do mar,  
Pressinto-o, vasante, a murmurar. 

Quem sabe o que é a alma? Quem conhece  
Que alma há nas coisas que parecem mortas.  
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.  
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?  
O sonho que me exortas  
A meditar assim a voz do mar,  
Ensina-me a saber-te meditar. 

Capitães, contramestres — todos nautas  
Da descoberta infiel de cada dia  
Acaso vos chamou de ignotas flautas  
A vaga e impossível melodia.  
Acaso o vosso ouvido ouvia  
Qualquer coisa do mar sem ser o mar  
Sereias só de ouvir e não de achar?

Quem atrás de intérminos oceanos  
Vos chamou à distância ou quem  
Sabe que há nos corações humanos  
Não só uma ânsia natural de bem  
Mas, mais vaga, mais sutil também  
Uma coisa que quer o som do mar  
E o estar longe de tudo e não parar. 

Se assim é e se vós e o mar imenso  
Sois qualquer coisa, vós por o sentir 
 E o mar por o ser, disto que penso;  
Se no fundo ignorado do existir  
Há mais alma que a que pode vir  
À tona vã de nós, como à do mar  
Fazei-me livre, enfim , de o ignorar. 

Dai-me uma alma transposta de argonauta,  
Fazei que eu tenha, como o capitão 
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta  
Que chama ao longe o nosso coração,  
Fazei-me ouvir, como a um perdão,  
Numa reminiscência de ensinar,  
O antigo português que fala o mar!   

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